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por Gregorio K. Baratta
(professor de História da Arte Latino-Americana na Universidad de Madrid, jornalista do Correo Madrileño, onde assina coluna sobre a arte brasileira. No Brasil, assina coluna na revistares.hpg.com.br/)
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Tradução: Paulo Vieira
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"Parece que nunca acaba
de caber mais dor no coração,
mas não choramos à toa. [...]
Rimos alto, bebemos e
falamos palavrão,
mas não sorrimos à toa".
Arnaldo Antunes
É melhor rir que chorar. É melhor perder um amigo que perder uma piada. O brasileiro tem esse senso de humor, que muitas vezes ganha tom de sarcasmo. Ou humor negro. Mas o que podem fazer contra certas coisas, a não ser tirar sarro?
O salário mínimo de 180 reais (cerca de 80 dólares) vira um ótimo motivo de piada, só porque ele está no noticiário; tudo o que é novo, vira piada, tudo o que está na mídia. Enquanto o salário mínimo era de 151 reais, ninguém fazia piada (exceto, claro, quando fora lançado). Agora que o salário teve um considerável aumento de 29 reais, vem todo mundo tirar sarro?! Sim... É claro que o que acabei de fazer foi uma piada. Deu pra ver que não levo muito jeito pra coisa...
Podem não "sorrir à toa" com os 29 reais, mas será preciso muito mais que isso (ou muito menos, melhor dizendo) para fazê-los chorar. Como esse povo poderia não ser bem-humorado ou sarcástico, se o seu próprio Presidente da República o é?! E se Ele pode ser sarcástico, por que o povo não?! Dizem as más línguas que toda noite Ele fala para a primeira dama, Ruth Cardoso, complementando com uma gargalhada que mescla Satanás e Grande Otelo: "Você acha que a gente sobreviveria com 180 reais por mês?! Há, há, há, há, há..."
"Como a maioria dos políticos nunca acredita no que diz, se surpreende quando alguém acredita". Charles de Gaulle - 1890-1970 - Presidente francês