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Erótico-->AS AVENTURAS DO PADRE DEODORO EM CAMPOS ETÉREOS — XXVI -- 11/08/2003 - 07:38 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
7. PEREGRINAÇÃO TERRESTRE

Quinze dias permaneceriam os amigos rondando pela Terra, andando de ceca em meca à procura de respostas para as questões que se colocavam a cada passo às suas mentes ainda enfronhadas no pensamento humano dos encarnados. A cada estímulo que recebiam, surgiam novas provas de que o seu raciocínio avançara na direção das percepções mais abrangentes, englobando ambas as estruturas existenciais, de forma a levá-los cada vez mais perto dos protetores da espiritualidade e cada vez mais longe das reações psíquicas dos mortais. Apesar disso e, talvez, por isso mesmo, tiveram algumas surpresas agradáveis e outras absolutamente frustrantes.

Mas vamos caminhar com eles a partir do momento em que se viram ao lado dos restos do desastre aviatório. A primeira idéia que surgiu para todos foi a de que estavam bem mais à vontade, como se o território denso ainda lhes prescrevesse as atividades intelectuais e morais.

Foi Everaldo quem propôs:

— É de todo conveniente que busquemos reconhecer os amigos que permanecem encarnados, para ver se entramos em contato durante o seu sono, a fim de saber, ou melhor, de adquirir a certeza de como nos estimam ou nos odeiam, segundo a história dos nossos relacionamentos.

Continuaria a falar, se Joaquim, prudentemente, não alertasse para o fato de que, pela sua própria condição de desencarnado mais velho, não haveria mais ninguém que pudesse guardar memória de sua pessoa. Encerrou, dizendo:

— Há quase um século estou do lado de cá. Se alguém de minha família ou de meus círculos estiver encarnado, pouca lembrança haverá de ter de mim. Nesse caso, apenas por meio de hipnose é que surtirá o efeito da recordação, ainda que nos encontremos durante o sono.

Roberto pressentiu alguns tópicos interessantes a esclarecer, devido aos preconceitos acima referidos e opinou:

— Temos em mãos as obras de Kardec. Não seria primordial que as lêssemos, para não incidirmos em falhas conceituais? Acho que as pessoas, quando adormecem, se dispõem favoravelmente ao contato do plano espiritual, dependendo de seu grau evolutivo ou das...

Mas não terminou a frase, interrompido por Deodoro:

— Caro amigo, da minha parte, não me oponho à leitura e muito menos à discussão dos textos. Mas acho que não são prioritários, dado que os experimentos se passam do lado de cá, de forma absolutamente clara. Dúvidas quanto aos sucessos espíritas (e aqui a palavra calha perfeitamente) tínhamos enquanto encarnados. Por este ângulo, levamos nítida vantagem sobre os que permanecem vestidos pela densa matéria do globo terrestre. Dou-lhes tempo para refletirem, se quiserem, mas não abro mão de ir imediatamente ao encontro das pessoas, para influenciá-las, se possível, segundo os princípios evangélicos. Devo informar que já procedi à leitura de todos os volumes referidos pelo companheiro, agora que me encontro com disponibilidade intelectual superior.

Admirou-se Arnaldo:

— Mas nós não vimos você (pelo menos, eu não vi) efetuar leitura ostensiva. Terá algum método próprio?

— Certamente. Basta me concentrar nas obras para que elas, através de sua formação fluídica, me forneçam o seu conteúdo, desde que me dedique a folhear pelo pensamento cada volume. É tão simples que pensei que todos já conseguissem fazê-lo. A dificuldade maior está em reter na memória de forma compreensível os desenvolvimentos. Eu explico. Quando a gente lia com os olhos que a terra acabou comendo, se não prestássemos atenção, prosseguíamos percorrendo as linhas mesmo assim. Ao tentar recordar os dizeres, não conseguíamos. Se fôssemos hipnotizados, lembrar-nos-íamos bem mais dos pensamentos em que divagávamos, mas não seria impossível reproduzir aquilo que nos feriu a vista graficamente. Não nos interessa mais perder os conteúdos dentro das recordações desconexas do cérebro perispiritual, agora que dominamos a técnica da transposição imediata dos guardados mentais para a consciência. Neste aspecto, acredito que as revelações das vidas e passagens existenciais anteriores estejam a pique de se realizarem, dependendo, creio eu, de se cristalizarem as diretrizes evangélicas em função dos princípios do perdão, do amor e das demais virtudes em falta em nossa organização espiritual. No momento em que formos capazes de compreender o sentido mais profundo da justiça divina, passando pelos dons de misericórdia do Senhor, despertaremos para a nossa real personalidade, sem o perigo de nos emocionarmos a ponto de perdermos a paz que precariamente nos mantém em equilíbrio para a aquisição dos dotes que Jesus destinou aos discípulos fiéis. Vejam que estou preparado para me tornar um bom doutrinador pelas palavras. Num centro espírita que esteja em formação, conseguiria passar por um dos mais eficazes benfeitores do grupo, pela palavra ágil e pelos conceitos de pureza doutrinal que repetiria sem hesitar, a partir das mencionadas leituras. Mas, se estou sugerindo este caminho, dando primazia ao fenômeno mediúnico ao invés das conversas com os amigos para cá transportados durante o sono, também não me empenho em provar minha razão. Um dia ou outro, passaremos por todas as experiências, sem as quais não progrediremos.

Também ele desejava ir adiante, mas Hermógenes queria contribuir com suas idéias:

— Acho que deveríamos classificar os tópicos que aspiramos desenvolver segundo critério de crescente dificuldade. Se conversar com os mortais mediunicamente é mais difícil do que entrar em contato direto durante o sono, vamos dar prioridade a este último procedimento. Entendo que não ficaremos restritos apenas às pesquisas nesse setor. Por exemplo, é de todo útil irmos observar como é que se dão os relacionamentos entre nós e os encarnados, antes de praticarmos os atos concernentes às atividades de benfeitoria. Poderemos, ainda de modo mais acessível, caminhar pelas ruas para avaliarmos os eventos fortuitos entre os espíritos e os encarnados, como ainda só entre os espíritos. Isto nos levaria a conceituar os seres de acordo com a escala espírita, conforme descrita a Kardec pelos orientadores.

Alfredo obstou o prosseguimento da exposição:

— Para isso, talvez seja suficiente ler os livros. Bem sei que não nos levará tal leitura muito longe, mas, ao menos, adquiriremos um verniz de sabedoria.

Foi Roberto quem aparteou, para acrescentar:

— Esquece-se o companheiro Hermógenes de que existem nítidos compartimentos entre as faixas de classificação, de forma que não estamos aptos a reconhecer os irmãos mais evoluídos que nós? Talvez nem sejamos capazes de abordar os menos evoluídos, permanecendo entre duas ou três divisões da escala, segundo as vibrações que nos são próprias.

Deodoro fez um gesto como a apaziguar os ânimos, que absolutamente não estavam sequer abalados. Fez um teatrinho a chamar a atenção dos parceiros para a importância de suas conclusões:

— Não vamos organizar nenhum roteiro. Com certeza, os nossos protetores nos darão o rumo mais propício para a aprendizagem de que necessitamos. Se não fosse assim, não nos teriam deixado presos na biblioteca nem nos teriam feito encontrar os acidentados. O que temos de fazer é sortear uma cidade dentre as escolhidas (atenção ao cacófaton) por cada um, deixando o “acaso” (grifem) decidir por onde principiaremos a peregrinação. Alguém (você, Everaldo) tem medo de encontros desagradáveis?

Provocado, o outro não deixou a peteca cair:

— Vossa Reverência não está totalmente errado (ou deveria dizer “errada”?).

Antes que Deodoro respondesse, Everaldo continuou:

— Claro que é “errado”, pelo que aprendi como concordância ideológica, ou seja, o adjetivo toma o gênero segundo o sexo do indivíduo designado e não conforme a forma da palavra a que se refere no contexto frasal. Sendo assim, aproveitando-me do momento de desleixação e seguindo na onda da jocosidade do caríssimo amigo, devo dizer que, conquanto possa estar você errado, vou concordar com as suas palavras, invertendo o processo gramatical para dar curso à ideologia dos preceitos da fraternidade.

Deodoro não deixou esfriar o entusiasmo:

— Você pode ter desejado provocar-me, tratando-me cerimoniosamente, quando lhes roguei a forma coloquial. No entanto, se me tivesse chamado de professor simplesmente, talvez não lhe sentisse tão pronunciada a ternura de sua afeição por mim. Do mesmo modo, noto, com muita alegria, que você já não se incentiva pelos temores (construção arcaica que qualquer dia discutiremos), tanto que, sem desrespeito, me obriga a acatar a minha própria sugestão como a mais conveniente para o grupo. Ou estarei errado ainda?

Vendo que era contagiante o bom humor demonstrado pelos dois, Joaquim ponderou:

— Vocês sabem por que estão agindo de forma tão descontraída?

Fez-se silêncio de espectadores curiosos.

— Pois é por influenciação dos fluidos energéticos da natureza terrena. Vocês não estariam melhor se estivessem encarnados, em jovial vilegiatura de desocupados pelos campos, com o farnel abastecido e o regresso assegurado. Vamos caminhar a esmo, que é o mesmo que sortear uma cidade, já que seremos guiados por quem de direito. Enquanto formos andando, que cada qual medite sobre o nível do contágio material de que se deixam absorver.

Arnaldo arriscou um palpite:

— Se estiver errado, irmão Joaquim, corrija-me. Não fluiu a sua consideração diretamente do fato de haver permanecido mais tempo que nós entregue à erraticidade no plano espiritual?

— É verdade que estou mais acostumado a percorrer as zonas do etéreo. Mas não é essa propriamente a razão de minha advertência. É que este passeio não constitui novidade para mim. As mesmas sensações que vocês estão desfrutando, eu conheci há mais de oitenta anos atrás, quando vim em busca de parentes e amigos que julguei em dificuldades. Se quiserem, enquanto vamos avançando, contarei um pouco dos eventos que então ocorreram. Talvez isso lhes possa trazer algum elemento sobre que meditar.

Tendo constatado que a única rejeição partira de Deodoro, Joaquim explicou:

— Bem sei que podemos deslocar-nos para determinado ponto com a velocidade do pensamento. Se tal acontecer, porém, não terá sido por méritos nossos, senão por ajuda implícita dos benfeitores. Prometo-lhes, caríssimos, que suspenderei o relato, assim que nos encontrarmos diante de desafio que nos obrigue a um desempenho virtuoso.

Satisfeito, Deodoro aplaudiu a sensatez do amigo e pôs-se alerta para os ensinos que lhes seriam passados.

Principiou Joaquim, colocando uma premissa narrativa:

— Para que vocês não tenham a impressão da monotonia, vou contar o meu caso como se escrevesse uma novela, ou seja, com diálogos e tudo o mais. Peço-lhes, também, que me interrompam para as considerações que julgarem apropriadas. Pois bem...

Pigarreou e começou, enquanto os pés, sem rastros, iam pisando o solo úmido e a vista perdia a trilha em meio às árvores que se adensavam.

“Um dia, despertei deste lado em extremo sofrimento. Havia vivido sessenta e seis anos em plena felicidade material. No entanto, as vinte e oito mulheres com quem mantive contato íntimo me pesavam sobremodo. Quatro delas se apegaram demasiado a mim, em épocas diferentes, todas a me esperar para se apoderarem do que julgavam direito seu. Como Everaldo, tive muito medo e fugi em alucinada corrida pelas sombras, perseguido por triste gritaria e fortes apelos emocionais.

“Bem depois descobri que elas haviam ficado para trás, lastimando que não as abraçasse e as reunisse numa família feliz, caracterizando, desde logo, o perispírito como o de alguém assexuado, que elas mesmas se consideravam apenas espíritos e não seres desejosos de reingressar no mundo dos vivos.

“Estarei sendo muito misterioso? Penso que não, mas leio interrogações em seus semblantes, porque as minhas experiências incluem contatos com pessoas que me conheceram durante a encarnação, enquanto vocês, segundo me consta, bem poucos se encontraram nas minhas circunstâncias. Lembro-me de que Hermógenes e Deodoro mantiveram certo relacionamento não propício ao contato afetivo próprio dos seres de mesma família, como também sei que Deodoro fez menção a um colega de nome Eufrásio ou Eustáquio. Se Alfredo e Arnaldo não foram colegas... Não foram. Então, as minhas experiências consignam algo diferente, para a sua meditação.”

Deodoro, que se enfadava, não se conteve e interrompeu o narrador:

— Pensava que você iria brindar-nos com uma novela movimentada. Contudo, não dá vazão aos episódios dramáticos e se limita a considerações sem interesse por demasiado óbvias. Se formos redigir a história deste nosso jornadear, em mantendo o seu relato tal e qual, iremos aborrecer os leitores humanos, sem dúvida. Não daria para expor os acontecimentos, deixando as reflexões por conta dos ouvintes?

Joaquim, como se não tivesse ouvido as observações, prosseguiu do ponto em que havia parado:

“Certo dia, depois de exaurir as forças, sedento e faminto, porque naquela época eu me comportava como se revestido das sensações carnais, caí de borco na lama, sem ânimo para enfrentar as acusações da consciência. Não elaborei nenhum julgamento, mas roguei pela assistência do Senhor, uma vez que me julgava, o que não é nenhuma novidade, jogado no limbo purgatório, crente de que me falhara a aplicação do batismo, acusando o sacerdote que me aplicara o sacramento de inepto. Vejam quão confuso estava!

“Pois bem, permaneci naquela situação vexatória uma eternidade, que o tempo parecia não existir — e não estou expendendo conceitos filosóficos. Quem não tem recordação deste tipo de aflição deve considerar-se feliz, porque, mesmo tendo superado a crise, ainda me estremeço, pois sei que muitos irmãos estão sofrendo esses mesmos horrores. Simples correrias pela escuridão não conseguem provocar as mesmas ânsias de terror. A dor é tanta que nenhum pensamento mais puro consegue desbloquear as barreiras do derrotismo que se erguem como em fortificação inexpugnável.”

Deodoro fez um gesto de desaprovação para a imagem desprovida de conteúdo dramático, mas nada acrescentou, sabendo que Joaquim não lhe daria a satisfação de uma resposta. Foi quando percebeu que o companheiro não estava, positivamente, presente para os eventos atuais. As expressões partiam-lhe de dentro da mente perispirítica, como em sonambulismo.

Joaquim está reproduzindo pensamentos e imagens imerso nas sensações de outrora, confundindo-se com as emoções menos fortes do momento, impregnado de sentimentos de piedade e de comiseração por quantos indivíduos conheceu que poderiam estar sofrendo as mesmas dores. Se não me engano, estende a sua compaixão para todos os seres, em comunhão fraterna de larga envergadura moral. Vive em experiência de profunda significação ética, a qual nos traduz absolutamente despreocupado com as repercussões estéticas que a nossa preparação intelectual pudesse exigir. No dia em que alcançar o mesmo efeito, poderei recordar-me destas reflexões, para enfatizar as noções agora mal percebidas, exibindo à platéia um nível de aperfeiçoamento espiritual mais sutil, no encaminhamento das concepções definitivas dentro da abrangência das leis cósmicas, que devemos compreender e respeitar. De qualquer forma, se, um dia, ao contrário do que sugeri anteriormente, estivermos descrevendo este trecho das aventuras, vou esforçar-me por reproduzir estas intuições, refletindo os ganhos espirituais que a simples observação dos processos mentais do companheiro me desvendam.

Quando volveu a prestar atenção aos dizeres do amigo, este ia adiantado na narrativa:

“Dirigi-me a um centro espírita, levado por um protetor, para ouvir a pregação doutrinária espírita do encarnado que conduzia a reunião. Ao meu lado, várias entidades sofredoras, cada qual sob a orientação de um guia. Durante os trabalhos, houve a necessidade de serem contidos alguns menos solidários com os instrutores. Foi aí que verifiquei que o meu estado não era tão lastimável quanto me fizeram crer as divagações acusatórias. Ao menos, conseguia ouvir a voz da consciência. Os outros pretendiam submeter a verdadeira personalidade através do influxo energético extraído do cosmos pelos mecanismos da prepotência e da maldade. Evidentemente, estavam contidos naquele ambiente pelo poderio superior dos vigilantes especialmente treinados para a manutenção da paz e da ordem. Faço referência a tais seres infelizes, porque é muito provável que topemos com alguns em nossa andança, por aqui soltos e em pleno exercício de suas artimanhas, de suas...”

Desta vez, foi Everaldo quem exerceu o direito de interrupção:

— Não seria de todo conveniente que nos preparemos para esses encontros? Bem sei que Alfredo e Arnaldo exercerão suas funções de milicianos. Mas terão como afastar ou prender os que nos atacarem, furiosos, uma vez que inimigos gratuitos existem em todos os planos existenciais de categoria inferior?

Joaquim suspendeu o relato de forma automática, não dando mostras de que se vinculara à realidade circunjacente.

Foi Arnaldo quem respondeu aos temores do parceiro:

— Não se assuste, querido. Aliás, o seu medo é que poderá atrair quem esteja ávido por desforrar as frustrações e os castigos sobre qualquer que se ofereça desprovido de virtudes. Pelo sistema de analogia de ondas, segundo as freqüências de cada grupo de espíritos irmãos, como você está integrado neste conjunto, é sinal que vamos ser respeitados pelos sofredores, ainda que emitamos tremores devido às acusações conscienciais a que cada um de nós está exposto. Dê um voto de confiança ao grupo de benfeitores que vela por nós, segundo o texto de Kardec reproduzido por Deodoro, respondendo exatamente a uma proposição sua.

Enquanto Arnaldo desenvolvia as suas ponderações, os outros quatro enviaram ao estremecido companheiro uma série de vibrações, na intenção de ampará-lo e fortalecê-lo.

Joaquim deu seguimento ao relato:

“Aos mais indóceis, os instrutores da casa espírita propiciaram um banho energético extraído do éter por concentração vibratória, cujo sistema de produção não tinha eu elementos para entender, acalmando-os e dando-lhes condições de serem atendidos em suas necessidades pelas forças materiais dos médiuns em passividade para incorporação ou imantados para sustentação fluídica, o que me ficava claro pelos cordões de diferentes cores que se estendiam de uns para outros. Testemunho-lhes os fatos como me pareceram naquela hora. Posteriormente, tive oportunidades mais felizes de conhecer as mesas evangélicas e os misteres dos diferentes operadores dos elementos fluídicos. O que não aceitava, porque não compreendia, era explicado por meu instrutor, aquele que para lá me conduzira quase à revelia, temeroso que estava de me deixar influenciar pelas tentações e engodos dos irmãos espíritas, o que me poderia fazer perder o Paraíso.

“Não preciso dizer que, assim que me vi livre do círculo de proteção, voltei a percorrer os tristes caminhos do Umbral, um pouco menos insatisfeito quanto às decepções do sacerdócio arraigado em meu coração, fazendo desenvolver os germes que me foram depositados na mente pela dedicação ao trabalho de assistência aos desgraçados dos irmãos, encarnados ou não, que se reuniam para um ato de solidariedade, sem nenhum interesse pessoal aparente. Foi esta última palavrinha que me aporrinhou o cérebro nos anos seguintes, porque não entendia o fato de alguém executar um serviço para os outros, sem buscar nenhum proveito próprio.”

Calou-se o orador, a ver se os companheiros se incentivavam a alguns comentários pertinentes. Mas teve de se manter em silêncio, enquanto avançavam mata adentro, sem que ninguém prestasse atenção nem ao canto das aves, nem ao bulício dos insetos, nem ao aroma das flores, nem à exuberância das árvores, nem às alterações da paisagem.

Mas se recompuseram depois que Joaquim lhes indicou que estavam próximos de uma localidade de aspecto bastante primitivo, uma como aldeia parada no século dezoito.

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