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Erótico-->AS AVENTURAS DO PADRE DEODORO EM CAMPOS ETÉREOS — XXVII -- 12/08/2003 - 06:13 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Após se refrescarem numa fonte que brotava de altas pedras, descaindo em fluxo contínuo de espumas esbranquiçadas, deram-se as mãos e solicitaram a proteção dos seres da floresta, intuindo que por ali havia quem cuidasse da flora e da fauna. Era uma forma de agradecerem ao Pai a benéfica caminhada.

Mas ninguém lhes apareceu, nem gnomo ou duende, nem espíritos elementais, nem fadas ou bruxas, nem Joãozinho ou Maria. Apenas um pássaro cantava, palrador, no alto da copa de uma árvore que ninguém soube reconhecer.

Aí surgiu a dúvida na mente de Deodoro:

— Queridos amigos, confundem-se as paisagens ou estamos apenas tendo a impressão de estarmos sobre o solo do planeta? Vejam como estamos molhados e como o Sol se reflete no córrego. Mas tais fenômenos aconteceriam se apenas nos manifestássemos em estágio espiritual puro? Qual a razão pertinente ao Universo tangível dos mortais em função da realidade dos espíritos? Intercalam-se as naturezas segundo as essências de realização corpórea? Qual o objetivo de o Sol aparecer para nós, se não nos fornece os ingredientes energéticos de que necessitamos nesta espécie de contraponto, em fundo musical de segunda classe?

Joaquim, imerso ainda em nebulosa bruma de melancolia nostálgica, não atinou com as exclamações do amigo e referendou as observações anteriores:

— Estamos bem próximos de uma comunidade à moda antiga, formada por espíritos atrasados, mas, em todo o caso, benevolentes e caridosos. A bem considerar a nossa postura mental e moral, posso dizer, através da dupla vista, que estão mais adiantados nos sentimentos da amizade e lutam contra sua grosseira contextura intelectual, porque rejeitam a necessidade do conhecimento das propriedades dos elementos que compõem a substância dos seus perispíritos, tanto quanto hão acatado a fórmula bíblica da criação do Universo por intervenção metódica e sistemática de Deus.

Os outros cinco estavam sem saber o que pensar, diante da falta de coerência de ambas as manifestações. Parecia-lhes que os dois estavam sendo dominados por alguma força estranha, a desvirtuar os dizeres, sem endireitar os pensamentos. Era, segundo o seu ponto de vista, como se passassem por uma região magnetizada, de sorte que os pólos de imantação se adulterassem, forçando os ponteiros de suas bússolas a rodopiarem a esmo presos ao eixo, cada qual com sentido e hesitação próprios.

Everaldo aventou a hipótese da descoberta, afinal, das vidas anteriores, de modo a perturbar a manifestação das vontades. Hermógenes acreditava no desvio produzido pelo estresse dos últimos tempos, porque ambos vinham mantendo-se tensos, na prevenção das falhas conceituais, com medo de acrescentarem erros ao acervo de falhas. Arnaldo justificava as atitudes, ao contrário, por meio de simples relaxamento provocado pelos prazeres epidérmicos que se descobriam ativos no campo da espiritualidade, conforme o ar e a água que, agora despoluídos, diferentemente da atmosfera carregada do Umbral, lhes propiciava incontida satisfação. Alfredo simplesmente se recusou a opinar, preferindo aguardar a volta de ambos ao bom senso de sempre. Roberto, mais positivo, viu, nas falas dos dois, um conteúdo mais profundo que não se definiu através dos vocábulos e das frases, como se expressos em idioma desconhecido. Todos, no entanto, concordaram em que deveriam orar para alcançar a graça da devolução do equilíbrio mental, de forma que pudessem reintegrar os companheiros ao grupo, sem o temor de ofendê-los pela estranheza de suas impressões.

Sentaram-se todos numas pedras esparsas na clareira ao pé do regato e cada qual imergiu em suas sombras de pecados.

“Afinal,” pensaram em conjunto, como que movidos por um mecanismo de união cerebral, “todos temos de resgatar as dívidas contraídas, se quisermos purificar o procedimento, tendo em vista o desejo de ajudar os que sofrem.”

E mais nada disseram até que o Sol se pôs por detrás do horizonte. Mas a noite estava estrelada e clara, que a Lua se punha cheia, despida de nuvens, sem as grinaldas da névoa.

Pela primeira vez, após tantos dias de vigília, os sete adormeceram, esquecidos das discussões e das preocupações com a descoberta dos eventos que o destino lhes reservava. Quando acordaram, era dia alto. Súbito, como se um vento misterioso os impulsionasse, deslocaram-se conscientes por sobre a floresta, por sobre o rio, por sobre a aldeia, que ficou para trás em sua contextura de simulacro terreno, até que aterrissaram suavemente bem no centro de imensa cidade, verdadeira megalópole, que não reconheceram.

Deodoro, refeito das imperfeições mentais que demonstrara, foi quem intentou decifrar o enigma:

— Parece que estamos em fase de transição para outra maneira de ver o mundo. A minha derradeira manifestação filosófica se eivou de preconceitos íntimos concernentes à antiga postura metafísica, segundo a encarnação em que recebi o nome de Antenor. Se me perguntarem se me foi revelada a minha identidade anterior, devo dizer-lhes, por força da obrigação de amizade, que estou ciente de tudo quanto fiz de bom e de ruim, quais os defeitos que mantive, quais os que sanei, quais as qualidades que desenvolvi, quais os méritos que acrescentei e em quais aspectos evoluí. Mas se trata tão-só de uma visão histórica, porque o importante é a pessoa que me tornei e que estou disposto a melhorar, a partir dos conceitos que reconheci como verdadeiros e que, em suma, se encontram resumidos no dístico supremo do evangelho, qual seja, o do “amai-vos uns aos outros e a Deus sobre todas as coisas”, nesta ordem invertida, porque, se não me encontrar bem perante os semelhantes, não estarei bem diante de mim mesmo e, menos ainda, perante o Criador. E para ver o mundo com este novo olhar cuja penetração somente agora começo a perceber, devo abraçá-lo sem medo de rejeição, apesar de saber à exaustão que o mal existe nas almas como suprema realização do egoísmo. Tudo isto deve soar um pouco falso aos seus ouvidos, porque o que digo não se constitui em nada diferente do que vocês têm ouvido de quantos pregam a verdade, segundo a palavra e os ensinos de Jesus. A diferença reside na intenção de convencê-los ao estudo de sua personalidade como resultante de contínua convivência com o discurso ininterrupto da voz de Deus impressa em nosso ser, à qual damos o nome de consciência, por falta de outro mais condigno, em função da premissa da criação. Se vocês olharem ao derredor com a vista alargada pela compreensão espírita, terão desenvolvida a faculdade de distinguir o que é meramente material daquilo que se constrói através do fluido cósmico inerente ao mundo da espiritualidade. Terão, desse modo, como reconhecer o padrão terreno das construções pela contextura menos densa de sua dimensão, em contraposição à materialidade mais concreta da região em que habitamos. Admiram-se que esteja colocando as coisas pelo avesso da experiência de vida na Terra? Pois é isso mesmo: não nos obsta a passagem nenhum muro erigido pelos encarnados, porque deslizamos por entre as moléculas sem dificuldade. Contudo, estivemos presos pelas paredes da biblioteca e topamos com a dureza das rochas sobre que estivemos sentados ontem. Eis que a paisagem urbana assim desvendada nos dá a certeza de estarmos na cidade de São Paulo. O que lhes pergunto é se não terei sido extremamente ingênuo e superficial em minha análise, porque suspeito de que todos vocês estejam perfeitamente a par de tudo quanto expus.

Joaquim foi quem complementou as intuições do companheiro, enfatizando o aspecto da admiração que notou em sua manifestação:

— Preciso esclarecer, agora que estamos localizados num campo intermediário entre o Umbral e o Orbe, que não teríamos tido qualquer estremecimento psíquico no que respeita às concepções religiosas ligadas aos fenômenos existenciais, se nos tivéssemos dedicado às considerações legitimamente desenvolvidas por todos os espiritualistas que admitiam a reencarnação como tópico fundamental para a execução da justiça divina. Só esse pequeno aparato doutrinário teria sido suficiente para que estruturássemos a mentalidade de maneira mais adequada para a viagem que a morte nos proporcionou. Aquela aldeia sobre a qual passamos e que descrevi como sendo o retrato mais fiel de um povo crente mas sem conhecimento científico é o exemplo cabal da configuração precária que nós mesmos fazíamos do etéreo, enquanto obra acabada do Senhor, quando deveríamos ter suspeitado, pela nossa formação eclesiástica ainda mais profunda do que a religiosidade das almas laicas, que o Paraíso não é um local, uma região, um país, um continente ou um universo, mas algo cuja existência nos escapa da percepção sensória, porque nos baseamos nas dimensões que o hábito de medir, seja o espaço, seja o tempo, nos forçou a admitir como primordial. Ainda que Kardec não tenha sido perfeito em suas elucidações doutrinárias e filosóficas, alertou os discípulos e seguidores de forma muito mais precisa, norteando-lhes os pensamentos para as conclusões mais justas a respeito do que iriam encontrar assim que desencarnassem. Perdoem-me a longa dissertação. É que fui contagiado pelo entusiasmo de Deodoro, especialmente porque me recordei, com um fiozinho de saudade, dos primeiros contatos com a população encarnada, naquele tempo em que para cá fui transportado pelo meu orientador. Mas devo advertir para uma distinção fundamental, qual seja, a de que eu me encontrava muito menos apto a compreender o que aqui se desenrola do que o amigo Deodoro, que não encontrará nenhuma dificuldade em se adaptar a este sistema duplo de avaliar os eventos como resultantes do entrosamento entre os planos. Vou parar por aqui, porque acho que muito melhor do que lhes possa descrever falará a sua perspicácia na observação da realidade.

Enquanto fazia a sua explanação o colega Joaquim, o grupo foi estabelecendo um padrão vibratório de superior quilate, tanto que, ao se encerrar a peroração, todos estavam abraçados, chorando e agradecendo aos anjos da guarda as lições de que se viam servidos.

Foi então que notaram que em suas organizações perispirituais brilhava uma luzinha capaz de iluminar ao derredor, num raio de uns cinco centímetros, uns mais, outros menos.

Se não tivessem sido despertados por um acontecimento terreno na Praça da Sé, às portas da catedral, talvez tivessem ficado absortos em sua felicidade por mais tempo.

Um grupo de jovens irrompeu da Rua Direita, em grande algazarra, atacando as bolsas das senhoras e os bolsos dos homens. Muitos não respeitavam sequer os melhor constituídos quanto à força e à saúde, roubando-lhes as maletas, aos gritos de:

— Avança! Avança!

— Arrastão! Arrastão!

E muitos impropérios.

Mas o vendaval passou rápido, não sem alguns fedelhos levarem tapas nas orelhas. Mas desapareceram em diferentes direções, dissolvendo o grupo e escapando à perseguição dos populares. Dois ou três policiais de plantão chegaram a pôr as mãos nos coldres, mas, à vista de não sofrerem ameaças pessoais, descansaram.

Seguiu-se ligeira altercação entre as pessoas que tiveram correntes, pulseiras e relógios surrupiados e desocupados plantados na praça, como se postados ali estivessem para atrapalhar a captura dos pequenos marginais.

Das vítimas, apenas uma questionou os soldados, exigindo que registrassem o assalto (porque se viu intimidado por uma arma branca), deslocando-se o pequeno grupo para a Delegacia mais próxima. Contudo, não foi possível convencer ninguém a testemunhar a favor do queixoso.

Para o magote chefiado por Deodoro, a experiência foi inédita. Jamais nenhum sequer havia imaginado que o crime se organizava tão cedo. A novidade provocou diversos choques no âmbito dos conceitos a respeito dos seres humanos, da criação e da educação da juventude.

Dizia Deodoro:

— A carne oferece ocasiões para o crime. Enquanto nós ficamos a divagar em teorias de benemerência superior, as pobres criaturas aí estão a proclamar que precisam de auxílio. Enquanto nós pretendemos ingressar no Paraíso, outros nem sabem que deveriam rogar por sair do Inferno. Que fazer?

A pergunta caiu no vácuo da ignorância estupefacta dos demais. Everaldo desejava oferecer uma idéia salvadora, mas nada lhe ocorria. Em todo caso, para não desperdiçar a oportunidade, sugeriu, timidamente:

— Vamos seguir um ou dois dos moleques...

Deodoro esclareceu:

— Nós chamamos os meninos de rua ou vadios de moleques, mas não haverá incrustado na palavra um sentimento de preconceito, de menosprezo pela criatura em débito para com o evangelho? Na verdade, “moleque” é um termo depreciativo da época da escravatura, com o seu significado de “negrinho”...

Mas Everaldo não queria tergiversar:

— Perdão, Professor, não é hora para demonstração de cultura. Sei de sua intenção de levantar um problema infiltrado em nossa estrutura psicossocial, mas como eliminá-lo sem equacionar os elementos que o compõem, para definir-se-lhe a solução?

— Estou de acordo, acedeu Deodoro. Vamos avaliar a personalidade de um dos garotos. Enquanto caminhamos, vão permitir-me dizer-lhes que mantive, na qualidade de sacerdote, inúmeros contatos com criminosos condenados, tendo freqüentado diversas penitenciárias para levar a palavra de Deus. E não só isso. Ouvi em confissão muitos que se arrependeram, como ainda tive a desdita de não converter a maioria, sendo que muitos encontrei reincidentes, cumprindo novas penas. Também encomendei os corpos de vários assassinados dentro da prisão. Não sei se o destino destas crianças haverá de ser semelhante, mas, se não estão roubando para levar pão para casa, então, haverá de ser para os seus vícios.

Não foi difícil localizar dois irmãos, um de oito, outro de dez anos de idade, aproximadamente, escondidos num desvão de velho sobrado, pardieiro de serventia para famílias de miseráveis párias sociais, mulheres com crianças sujas no colo, homens inchados e maltrapilhos, cheios de álcool.

Joaquim apontou para a região etérea e solicitou que os companheiros aguçassem a vista para observarem os espíritos da obsessão:

— Não há dúvida quanto aos intentos dos ladrõezinhos, pela análise dos que os influenciam deste lado. Vejam que são dependentes dos vícios terrenos e se dispõem a sugar, a vampirizar os infelizes, assim que adquirirem os tóxicos com que se entorpecem.

Arnaldo queria saber se poderiam interferir no ato subseqüente, uma vez que ficaram pasmos durante a varredura da praça. Joaquim respondeu:

— Podemos orar, tão-somente. Se estivéssemos melhor equipados de guardiães, poderíamos descer ao nível da vibração deles para levar alguns obsessores para doutrinação em grupos mediúnicos dos centros espíritas.

Foi a vez de Alfredo observar:

— Não vi nenhuma reação do plano espiritual contra a atividade criminosa. Será que não existem organizações espirituais com a finalidade do amparo a estes indivíduos?

Joaquim limitou-se a sorrir, apontando para a catedral.

Hermógenes não entendeu o gesto nem a enigmática explicação:

— Que ocorre ali, para efeito da assistência que não notamos?

Deodoro, mais arguto, tentou adivinhar o que se passava:

— Certamente, o interior do templo está protegido como o mosteiro do Umbral. Ali devem reunir-se os protetores escorraçados pelo enxame dos espíritos ruins de posse dos pirralhos mequetrefes, à espera da oportunidade de se aproximarem dos validos, recolhidos em oração para receberem auxílio de mais alto, a fim de se aventurarem à benemérita atividade do aconselhamento íntimo dos encarnados. Quanto aos que têm a si o encargo de assistência aos obsessores, devem estar providenciando, longe daqui, o roteiro de aproximação mais eficaz a cada um deles, se alcançarem surpreender alguém isolado, uma vez que o grupo, como podemos notar, se fecha fortemente em torno da vontade coletiva, fazendo que cada qual pense em si mesmo como membro integrante da súcia, à qual não ousará apostatar pelas represálias que teme, por conhecer e, com certeza, por aplicar os corretivos aos eventuais dissidentes. Segundo pude deduzir das palavras de Joaquim, se não nos juntarmos a núcleo de trabalhadores da espiritualidade com vínculo em alguma casa espírita, não estaremos aptos a intervir nas ações dos humanos desejosos de usufruir os prazeres que conhecem, quais sejam, os dos narcóticos e demais estupefacientes. Esta zona, amigos, não vai aceitar a nossa boa vontade. Sugiro, pois, que oremos em conjunto com os que se reúnem na casa de Deus.

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