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Erótico-->AS AVENTURAS DO PADRE DEODORO EM CAMPOS ETÉREOS — XXVII -- 13/08/2003 - 10:26 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

De imediato, todos se dirigiram ao interior da catedral. Ali, no plano material, se encontravam várias pessoas, algumas rezando, outras descansando, outras simplesmente emitindo nítidos sinais de vileza, tendo recentemente participado de algum conluio criminoso. Os espíritos, como conjeturara Deodoro, se concentravam em orações, cada qual emitindo fachos de tênue luminosidade, que se perdiam através das paredes de pedra.

Roberto fez questão de observar:

— Estranho que não tenhamos notado essa luz lá fora. Talvez nós mesmos não estejamos capacitados a ver os reflexos da bondade, senão neste ambiente de maior equilíbrio, apesar de sentirmos fortemente as emanações dos indivíduos sem escrúpulos que conseguem varar as muralhas de proteção espiritual, com certeza pela grosseira composição de seus perispíritos, para menosprezarem tão explicitamente o ambiente que deveriam respeitar na qualidade de seres criados e formados dentro da cultura cristã.

Percebendo que as invectivas do amigo poderiam provocar discussões estéreis e repetitivas, sem incidirem na tarefa primordial da aprendizagem de como atuar junto ao exercício do livre-arbítrio dos que se prendem aos setores menos perfeitos da evolução, Joaquim dissuadiu os que pretendiam levar avante o tema levantado:

— Mais tarde, teremos oportunidade de visitar uma casa de atendimento espiritual segundo os preceitos emanados da doutrina de Kardec. Esforcemo-nos, agora, por entender o que acontece em nosso plano e se existem recursos humanos ou espíritas para o auxílio daqueles seres assediados, dos que assediam e dos que vêm em busca da intervenção dos santos e que estão a orar, sem que nós mesmos tivéssemos prestado atenção a eles, interessando-nos muito mais pelos que vibram em acentuada desarmonia.

Deodoro compreendeu aonde queria chegar o colega:

— Vejo que Joaquim está incentivando-nos a crítica ao sacerdócio católico. Realmente, além de dois padres respondendo pelos seus confessionários, não há mais nenhum representante da Santa Madre Igreja com a clara percepção de que poderiam oferecer seus fluidos para complementarem o serviço de auxílio fraterno dos protetores.

Joaquim fez questão de apartear:

— Meu querido, cuidado com as conclusões. Se nós tivéssemos ido, a esta mesma hora, a qualquer centro espírita, também não iríamos achar muitos trabalhadores encarnados em ação. Pense nisso, antes de fazer acusações.

— Estava recordando-me de minhas atividades, pelo exemplo colhido neste recinto grandioso, que agasalha tão pouca gente. Sei que, para os ofícios religiosos de hoje à noite acorrerá uma multidão, sob a direção espiritual dos colegas, como deve ter acontecido nas missas da manhã. Não vou prender-me ao momento, mas devo dizer que o cotejo não pode ser evitado, uma vez que foi nesta hora que aconteceram os fatos que presenciamos lá fora. Para os obsessores, existe uma liberdade excessiva, tanto que são crianças os seres pressionados. Aposto que, se voltarmos aos dois irmãos, já estarão cheirando cola ou fumando maconha.

Joaquim acrescentou:

— Ou inalando a fumaça do “craque”, a droga maldita.

Foi preciso que explicasse aos demais a fórmula do vício do momento. E obtemperou:

— É devastador para o organismo e para a mente o efeito desse produto. Raramente alguém se vê livre das seqüelas. Mas, se ficarmos a comentar as obras da maldade, jamais iremos ter um momento de paz. Se não enfatizarmos o que existe de bom na alma, a gerar prazer além das condições sensórias, porque a alegria maior reside na compreensão da obra do Divino Autor, iremos impregnar-nos das ânsias dos pequeninos, mantendo-nos perpetuamente junto aos que perpassam, em intérmina fileira, pelas regiões do sofrimento. Se conseguirmos evoluir, gerando em nosso sistema de programação cármica um currículo de atendimento mais geral, talvez cheguemos a energizar o ânimo dos protetores individuais, como fazia Deodoro quando formava sacerdotes no seminário. Reproduzo-lhe a pergunta: “Que fazer?”

Sem prévia consulta, todos se ajoelharam perante a imagem de São Paulo, ao pé do altar, e recitaram um terço inteiro puxado pelo Monsenhor. Ao final, vindo de mais alto, desceu sobre os sete e sobre outros companheiros que se reuniram nas mesmas orações, uma chuva de pétalas coloridas e luminosas.

O fenômeno intrigou Deodoro:

— Que bênçãos de muito amor se projetam no espaço, como se os nossos guardiães celestiais nos dessem o seu mais irrestrito apoio, sem, contudo, nos virem buscar para alçar-nos aos pés do Senhor?

Ninguém ousou pronunciar-se, temendo que o amigo não tivesse dito tudo.

Deodoro continuou:

— “Pai, que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome.” Esclarecei as nossas dúvidas, uma vez que sabemos que os vossos mensageiros não têm autoridade para nos revelarem tudo. Por exemplo, como é que se faz essa mágica demonstração de poder de dominação da matéria, sem nos dar a impressão do milagre? Como estamos genuflexos aos pés da imagem do santo, não correríamos o risco de imaginar que a escultura de mármore concentrasse energias, para serem liberadas sobre os irmãos devotados ao exercício do bem? Se não for atrevimento meu, poderei examinar a estrutura material da representação do santo para afirmar sem medo que nela nada existe além da massa relativa à sua composição, segundo os preceitos naturais da terra? Bem sei que Kardec não admitia que elementos da espiritualidade se fixassem em objetos simplesmente materiais, como os amuletos e demais apetrechos do fetiche dos cultos primitivos, embora, em seu “O Livro dos Espíritos”, comentasse a resposta dos orientadores da espiritualidade à questão de número setenta(1), através da retenção elétrica nas pilhas: “Nós temos uma imagem mais exata da vida e da morte em um aparelho elétrico. Esse aparelho guarda consigo a eletricidade, como todos os corpos da natureza em estado latente. Os fenômenos elétricos só se manifestam quando o fluido é posto em atividade por uma causa especial: então seria possível dizer que o aparelho está vivo. Vindo a findar a causa da atividade, o fenômeno cessa: o aparelho retorna ao estado de inércia. Os corpos orgânicos seriam, assim, espécies de pilhas ou aparelhos elétricos nos quais a atividade do fluido produz o fenômeno da vida: a cessação dessa atividade produz a morte.” No entanto, a ciência viria a positivar, pela imantação dos minérios, que a natureza material do universo dos encarnados retém irradiações desconhecidas para a época do nobre codificador, como no caso dos efeitos advindos dos materiais produzidos pela dissociação atômica dos elementos. Não se poderia aventar a hipótese de se fixarem também recursos não-prejudiciais, mas, ao contrário, favoráveis para a cura das moléstias, como no caso dos aparelhos de raios X? O fluido vital que fixa o perispírito ao corpo não poderia fixar outros tipos de energia, benéficas ou maléficas?

Falava depressa mas audivelmente para todo o grupo. Os que se haviam aproximado, persignavam-se e buscavam beijar as fímbrias da batina do sacerdote, tendo-o na conta de santo.

Em gesto instintivo, Deodoro estendeu a mão a dar o anel para que beijassem e abençoava o povo em latim.

De repente, despertou para a realidade e envergonhou-se ao perceber o que vinha fazendo. Mas não perdeu o sangue-frio, recomendando aos fiéis:

— Meus filhos, não vejam em mim ninguém superior. A chuva de bênçãos não fui eu quem produziu, mas foi a nossa união ao Pai, em prece rogativa pelos sofredores, com total contrição. O que posso recomendar-lhes, neste instante, é que voltem a pensar seriamente em seus pupilos encarnados, esforçando-se por compreender-lhes as necessidades, tendo em vista os débitos que todos temos perante a divina justiça. Se vocês estão preocupando-se pelo fato de serem eles infantes e adolescentes, não se esqueçam de que suas almas têm a mesma idade da nossa e, se não progrediram o quanto fizemos nós, com certeza não terá sido por falta de oportunidades. A vida humana, ou melhor, a existência espiritual é cheia de surpreendentes eventos, nunca, porém, nada que nos ocorre deve atribuir-se à benevolência ou à maldade alheia. Claro está que alguns de vocês estão a transferir a mim as boas obras do esplêndido padroeiro da cidade, mas não se esqueçam da estrada de Damasco, da cegueira, do perdão do Cristo e das vítimas das perseguições, que facultaram as reflexões de Saulo, em hebreu, “desejado”. Mas para se transformar num ser a que deu o nome de “pequeno”, que é o que significa Paulo, em latim, teve de sofrer a desdita do remorso e a bênção dolorida do arrependimento, sem os quais não trabalharia em prol da cristianização do mundo gentio.

A atmosfera da catedral punha na mente de Deodoro as reminiscências mais ou menos inconscientes das pregações do púlpito. Alegrava-se com a disposição intelectual, segundo o novo roteiro espírita que ia assimilando. Notou que as reflexões a respeito da condensação energética na matéria tendiam para a análise científica dos fenômenos e se sentiu muito restrito em seus conhecimentos. Passou-lhe pela mente, de relance, a idéia de volver ao mundo, em próxima encarnação, na figura de cientista, mas temeu, desde o fundo da alma, retomar o materialismo terrível do vetusto Antenor dos séculos XVIII e XIX. Sabia que voltara ao plano material com a programação estabelecida no campo da religiosidade, conforme propusera aos benfeitores, episódio que se retratava na lembrança e que repassava aos amigos, através dos pensamentos isentos de emoções.

Joaquim, contudo, foi capaz de traduzir também as inflexões afetivas, testemunhando os receios e dúvidas íntimas que assaltaram o coração do amigo. No entanto, reservou a descoberta para revelar em momento oportuno, quando os temas possibilitassem o desenvolvimento do assunto.

Foi Roberto quem interrompeu as meditações de Deodoro e de Joaquim, solicitando permissão para falar:

— Gostaria de discutir um pouco mais o fator da religiosidade que se impregna nas imagens de santos e nas figuras dos anjos. Inicialmente, devo referir-me ao fato de os espíritas cultuarem o retrato de Kardec, em quase todas as suas casas de assistência espiritual e material. Foi Kardec mesmo quem nos ofertou a coleção da “Revista Espírita”, onde se encontra a informação de que pusera à venda ele mesmo a sua fotografia, a tanto por unidade, aceitando encomendas, etc. Estaria arrependido de ter possibilitado o culto de sua pessoa? Não me lembra que Jesus tenha posado para nenhum quadro, no entanto, a sua configuração física foi imaginada por inúmeras pessoas, inclusive pelos padres que defendem a origem miraculosa do Santo Sudário através da lenda da Verônica. Se recordarmos o mundo pagão, teremos a justa dimensão do comércio dos objetos sagrados, comércio que mereceu de Jesus a represália do vergastar dos vendilhões do templo. De resto, é no Judaísmo que se encontra a objeção, em nome do Senhor, dos deuses feitos de ouro, prata ou barro, herança guardada pelos primitivos cristãos, que, aos poucos, foi sendo abandonada, para, enfim, redundar nas Reformas de Lutero e de Calvino, com a proibição, entre outras coisas, das imagens nas igrejas protestantes. Todavia, nos centros espíritas, não é raro ver-se Jesus retratado, curando, abençoando e até mesmo expondo o coração, em locais que guardam fortemente a lembrança católica. Vejam que estou tentando localizar o assunto sem tomar partido a favor ou contra. Sabem por quê? Claro que sabem! Mas vou dizer assim mesmo, pois a nossa platéia hoje está bem maior. Porque acho que as pessoas necessitam apoiar-se em algo material para inserir na mente a convicção do imaterial, da mesma forma que se sentem almas jungidas ou presas em corpos que perecem, se o divino sopro, em se esvaindo, produzir a morte física. O argumento clássico da recordação dos entes queridos através dos retratos continua sendo o mais fiel para a prescrição da saudade e do respectivo sentimento de afeição, de amor, de companheirismo, de fraternidade, de solidariedade, de respeito e de reconhecimento pelo valor dos outros. Kardec, pela severidade de seu olhar, é fonte inesgotável de sugestões de estudo e de aperfeiçoamento doutrinário. O homem, um dia, talvez, não vá precisar mais desse estímulo meramente orgânico para a contextura de sua personalidade terrena. Por enquanto, porém, muitos se estimulam ao trabalho pela perene recordação que uma fotografia pendurada na parede proporciona. Se não estiver pensando corretamente, queiram dissuadir-me de minhas razões, por favor.

Joaquim acrescentou:

— Tal é o efeito dos textos que se inscrevem como lembretes, ainda que nas casas ditas evangélicas. Se as imagens estão ausentes, que são as palavras senão o retrato dos pensamentos? Sendo assim, “Jesus Cristo é o Senhor” deve entender-se exatamente da mesma forma que “Estudar Kardec para viver Jesus”, ou “Sic transit gloria mundi”, para não irmos muito longe nas citações.

Ao olharem ao derredor, verificaram os sete que estavam apenas eles reunidos.

Que teríamos dito, refletia Deodoro, para afugentar os incultos? Ora, positivamente o mesmo que poderá afastar os leitores, ou seja, a erudição despropositada, em momento cujos objetivos se concentram em fatores existenciais mais prementes, o que me leva a suspeitar de que existe a necessidade da recomendação de que os temas de que aqui se trata devam ser repensados com a calma proveniente da determinação de superior aprendizagem. Vou guardar estes pensamentos para incluir na obra que iremos escrever para os mortais.

Foi Everaldo quem deu prosseguimento à conversa:

— Bem sei que muito haveremos de acrescentar a estes dados, pois que os reunimos sem pesquisa e sem bibliografia. Com certeza, algum mestre, no próximo colégio que nos receber, irá ter muitos outros elementos para as nossas considerações. Concordo com Deodoro que o momento não é o mais propício para estas divagações de caráter mais ou menos filosófico, contudo, estive a ruminar a idéia da assistência aos desamparados no plano físico, uma vez que, segundo me parece, não têm a oferta das oportunidades que Deodoro afirmou serem iguais para todos, pelo menos no momento de sua vida presente. A sociedade que não protege as suas crianças não sei se irá desenvolver os aspectos evangélicos das suas próprias premissas culturais e religiosas. Não vi os irmãos da espiritualidade superior ajudando diretamente os infelizes, como também não discerni nenhuma entidade humana de amparo aos menores. Sei que existem corporações oficiais e particulares para tratamento de muitos jovens viciados. Isto é pacífico. Mas a humanidade estará preparada para o aproveitamento pelas organizações criminosas do “boom” tecnológico, a gerar a mais extensa economia do planeta, muitos bilhões de dólares superior a qualquer índice de produto interno bruto de qualquer nação? Ao contrário, não estará imergindo desse pântano de imoralidade e de alienação dos valores mais sagrados do cristianismo, do xintoísmo, do budismo e de todas as tradições milenares do respeito do homem pelo homem, toda uma “contrafilosofia” do amor, a se retratar nas telas que se espalham pela via pública, nos anúncios em movimento da televisão, num acúmulo das visões do prazer carnal, prioritários para que se faça valer a juventude antes que acabe? E, para não acabar, não existe todo um “marketing” a fornecer subsídios para a indústria do embelezamento e do rejuvenescimento? Velhas com o terço na mão já não vendem sequer os santinhos da devoção...

Joaquim fez menção de interromper, num ato de censura pelo arrojo que prometia a dissertação emocionada de Everaldo.

— Vejo, amigo (era Hermógenes), que você esteve metido em camisa de onze varas (ou na alva dos padecentes), durante a derradeira passagem pela Terra. Não gostaria de contar-nos algumas passagens que ilustrassem essa sua veemência contra o progresso da civilização, justamente no sentido em que se desenvolve hodiernamente?

Houve um fluxo de protestos. Ninguém queria perder a atualidade de sua participação no mundo dos encarnados, para dedicar-se a fatos passados.

Foi Roberto quem colocou uma pedra sobre o desafio:

— Não faltará oportunidade para todos os relatos. Não sabemos quando vamos ser repatriados para a esfera umbrática. Aproveitemos, portanto, estes momentos para visitar quantos ambientes ou quantas pessoas puderem ser úteis para o nosso aprendizado pastoral de socorristas em formação.

A mistura terminológica não passou despercebida a Deodoro, mas calou-se para não incitar ainda mais a revolta dos outros. Ao contrário, propôs que saíssem da catedral e que fossem, segundo ele:

— ... em busca dos ensinamentos práticos das coisas do mundo, dado que a nossa capacidade de absorção mental se detinha, enquanto encarnados, diante das barreiras do tempo e do espaço, limites sem os quais acabaríamos loucos, tantas e tão diferençadas são as informações que têm a potencialidade de chegar às pessoas de todos os setores da humana lida, especialmente, como disse o amigo, através do boom tecnológico no setor das comunicações e telecomunicações, uma vez que a teoria da informática vem predominando no mundo científico e cultural.

Só não prosseguiu porque recebeu o impacto do desagrado dos que viam na peregrinação o ponto mais importante de sua estadia na face do Orbe.


(1) Em que se transformam a matéria e o princípio vital dos seres orgânicos quando de sua morte? — “A matéria inerte se decompõe e se reintegra de novo.; o princípio vital retorna à massa.”

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