Usina de Letras
Usina de Letras
   
                    
Usina de Letras
88 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 55322 )
Cartas ( 21071)
Contos (12177)
Cordel (9605)
Crônicas (21333)
Discursos (3113)
Ensaios - (9920)
Erótico (13145)
Frases (40227)
Humor (17570)
Infantil (3576)
Infanto Juvenil (2310)
Letras de Música (5418)
Peça de Teatro (1311)
Poesias (135943)
Redação (2881)
Roteiro de Filme ou Novela (1035)
Teses / Monologos (2375)
Textos Jurídicos (1913)
Textos Religiosos/Sermões (4238)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Contos-->A HERANÇA -- 25/03/2004 - 06:57 (Maria Hilda de J. Alão) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A HERANÇA

Maria Hilda de J. Alão


Noventa e dois anos. Essa era a idade de vovó Alzira, uma portuguesa de sangue bom, afeita ao trabalho e muito econômica.
Chegara ao Brasil, ainda menina, e logo se adaptara a nova vida na terra estranha.
Vovó Alzira casara-se e tivera seis filhos; três homens e três mulheres. Passou pela Primeira Guerra Mundial e pela Segunda. O filho mais velho foi lutar pelo Brasil, lá na Itália, isso a deixou triste, porém, não esmoreceu. Trabalhava como moura para ajudar o marido. Finda a guerra, eis que o filho volta, são e salvo. Ela agradecia a Deus a graça de ter o seu menino em casa novamente.
Com o dinheiro da criação de porcos e da plantação de legumes, ela foi comprando casas. Tinha um patrimônio de uns dez ou quinze chalés espalhados pelo morro.
Casou os filhos. Perdeu o companheiro de tantos anos depois de uma fortíssima gripe.
Os filhos se espalharam pelo Brasil; São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Morava com uma das filhas que optara por Santos. Casada, muito parecida com a mãe, Zildinha cuidava dela com carinho. Os outros filhos só apareciam para casamento, batizado ou morte de alguém.
Vovó Alzira tinha um baú que trouxera da Ilha da Madeira. Ali guardava suas riquezas; dinheiro, lençóis e toalhas de mesa de puro linho português, bordados à mão, uma verdadeira obra de arte.
Neste baú, havia uma caixa preta, entalhada a canivete, presente de seu pai, que vovó Alzira não deixava ninguém mexer. A filha pensava que era mania de velho, - deixa pra lá... – disse ela aos irmãos numa rápida visita que eles fizeram a Santos.
Um dia vovó Alzira passou mal. Já estava bem velhinha, 92 anos. A filha a levou para o hospital. Ficou internada. A filha então aproveitou para dar uma espiada no baú e por conseqüência na caixa preta. Os olhos arregalaram-se.
- Nossa! Quanto ouro tem a minha mãe!!
Havia uma grande quantidade de libras esterlinas, de ouro (dinheiro inglês). Tinha moedas de 1810 até 1920, jóias portuguesas. Era mesmo muito ouro que o seu paisinho, lá na Madeira, mandava para ela sempre que vinha alguém para o Brasil. Era a forma que ele encontrou de ajudá-la. Vovó Alzira nunca se desfez de nenhuma das moedas. Era o patrimônio que deixaria para os filhos.
Vovó Alzira saiu do hospital, mas não se recuperou totalmente. Um belo dia ela deitou e não levantou mais. Foi uma correria. Avisar os irmãos, os demais parentes espalhados por aí. Em pouco tempo todos sabiam da triste notícia.
Em tempos passados, era costume, quando morria alguém, fazia-se o velório na casa do morto.
A filha providenciou tudo. A mesa, o esquife, as velas, flores e o véu para cobrir o cadáver por causa das moscas.
Os filhos foram chegando. Cada um com uma expressão diferente de tristeza. A sala estava cheia de gente. Amigos da morta e da filha.
Ninguém reparou que os filhos desapareceram da sala. Neste momento ouviu-se um burburinho, um falatório que aos poucos foi se tornando tremenda discussão. Os filhos, mesmo sem enterrarem a mãe, estavam disputando a tapas o conteúdo do baú e as escrituras dos quinze chalés que a defunta deixara. Saíram do quarto, onde a morta vivera, arrastando lençóis, escrituras das casas, toalhas, dinheiro e as moedas inglesas e as jóias. Vieram se espancar na sala onde estava o cadáver o que resultou na queda das velas acesas em cima da morta, pegando fogo no véu e, conseqüentemente, na roupa e nos cabelos da defunta. As pessoas presentes chamaram a polícia e, enquanto esta não chegava, jogaram água no cadáver para apagar o fogo. A gritaria era geral.
Quando a polícia chegou, todos falavam ao mesmo tempo, cada um querendo mostra a sua razão e os seus direitos. A morta, alheia a tudo, estava encharcada de água, sem cabelos e cheia de fuligem, e o cheiro de carne queimada pairando no ar.
O enterro foi feito sob a proteção da polícia. O delegado confiscou o baú, para desespero dos filhos e disse:
- Só um advogado dividirá os bens da morta. Caso alguém insista em retirar alguma coisa desse baú, será enquadrado na lei de furtos e roubos e passará um bom tempo atrás das grades...
Depois da fala do Delegado, os ânimos serenaram e o corpo de vovó Alzira pôde ser levado em paz para o cemitério.
Comentários

O que você achou deste texto?       Nome:     Mail:    

Comente: 
Informe o código de segurança:          CAPTCHA Image                              

De sua nota para este Texto Perfil do Autor Seguidores: 27Exibido 2562 vezesFale com o autor