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Erótico-->AS AVENTURAS DO PADRE DEODORO EM CAMPOS ETÉREOS — XLVI -- 01/09/2003 - 09:00 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Joaquim levantou a mão, aluninho de primeiras letras requerendo permissão para falar. Deodoro deu-lhe a oportunidade.

— Apenas gostaria de fazer um reparo. Esse seu mergulho erudito não esclarece aonde nos quer fazer chegar. Se me permite uma crítica, não vejo em sua oração qualquer tese a ser abonada pelas provas. Será um mistério conceptista, ao modo de Vieira?

— Aceito a crítica, querido professor. O que desejava registrar, na verdade, não era nada disto. Esta digressão se deve à provocação de Margarida. Mas a tese, parece-me, ficou clara: não existe manifestação intelectual que não se produza sem a influência sentimental, emocional, moral, evangélica... Aplique-se o adjetivo de acordo com o desenvolvimento evolutivo do indivíduo. Então, volto à questão inicial: como fazer para não perder nenhum elemento constitutivo do arrazoado?

— Quero crer que as suas razões para manter a falação tal qual sejam de foro íntimo e, por isso mesmo, ponderáveis. Existem diversas formas de guardar o registro de tudo quanto se faça, mais ainda quando se trata de gravar apenas um curto trecho de desempenho espiritual globalizado. Por exemplo, podemos abrir o canal de comunicações para a colônia, onde existem recursos eletromagnéticos para o efeito. Se o seu desejo for o de demonstrar aos amigos que está sendo iluminado por reações subjetivas de criatividade superior, será de todo conveniente transmitir-lhes a sua mensagem neste exato instante, para o que podemos solicitar que o pessoal da colônia nos abra a freqüência em que atendem os que se encontram acompanhando Roberto. Se, como alertou Margarida, a sua exposição merece ser oferecida ao público encarnado, aí, além de fixar os termos da peça oratória, devemos voltar um pouco antes e refazer toda esta conversa como preâmbulo para o que você tem em vista.

Deodoro não se precipitou. Refletiu um pouco e desejou antecipar o que Joaquim estava escondendo:

— Essa tática de estimular o interesse através de um ponto aparentemente sem solução nós, Eufrásio, eu e outros colegas do seminário, aplicávamos em relação aos professores. Era o que nos divertia. Penso que, como se faz para induzir a rememoração da história de nossas vidas, também se possam reaver as lembranças exatas dos pensamentos e emoções, ainda mais quando estamos fortemente desejosos de deixá-los indelevelmente impressos na mente.

— Essa técnica vem sendo desenvolvida com êxito na colônia, mas ainda permanece o problema da superposição das recordações a embaralhar os raciocínios e, mais freqüentemente, as vibrações emotivas. Além desse meio, podemos ler os registros “acáxicos”.

Esperava Joaquim assustar o sacerdote mas foram os outros que se espantaram, uns porque nunca haviam ouvido semelhante expressão, outros porque rejeitaram a teoria desde que dela tomaram conhecimento. Deodoro estava entre estes.

Como ninguém se manifestasse diretamente, Joaquim prosseguiu:

— Agora, quem precisa esmerar-se para produzir explicação simples e racional sou eu. Quem mandou dar com a língua nos dentes?! Tenho a certeza de que será o método a ser aprovado pelo nosso monsenhor, para efetuar, com propriedade e eficácia, o teste da possibilidade da realização e da segurança dos resultados. Pois bem, pergunto: de que é formada a natureza, seja em que campo do universo for? Respondo: de partículas energéticas, que compõem todos os seres, ou melhor, tudo o que existe materialmente. Ponto pacífico. Ora, como se dá a transmissão, por exemplo, dos pais para os filhos, das características genéticas? Através das informações impressas nos cromossomos ou, como se entende mais recentemente, no contexto do ácido desoxirribonucléico, conhecido na área científica da humanidade pela sigla ADN.

Complicava-se a exposição do professor do mesmo jeito que se enleara nas palavras a filosofia de Deodoro. Todavia, ninguém ofereceu resistência aos conhecimentos desconhecidos. Fizeram abstração do exemplo e penetraram fundo nos conceitos, podendo Joaquim continuar:

— Como dizia, antes dos frêmitos emanados dos cérebros perispirituais de todos, tudo que se monta, que se organiza, que se estrutura, que se fabrica no Universo é constituído das partículas elementares. Sendo assim, em havendo uma vibração qualquer, fica retida nas ondas que se produzem na intimidade dos átomos (uso a palavra átomo por falta de outra melhor). Quem souber interpretar, traduzir ou descodificar essas informações se capacitará a escrever a história de todos os fatos ocorridos naquele ambiente. No nosso caso, basta-nos extrair desta parede fluídica um pedacinho qualquer para obter o registro integral de todas as manifestações. Quero ressaltar a palavra “manifestações”, antes que alguém pense que também os movimentos que ocorrem no âmago dos espíritos ali se vejam impressos. Para estes é que existe a consciência.

Joaquim fez menção de enxugar o suor do rosto, levando o pequeno auditório a sorrir.

Deodoro, simplesmente, convocou o mentor:

— São tantas as possibilidades que, se assim julgar bem, vou deixar para você a tarefa de manter em dia as anotações de meu discurso, segundo o roteiro que enfatizei.

Sem aguardar pela resposta, prosseguiu:

— Vou citar Kardec.

Enfaticamente, abriu o alentado volume da Revue Spirite e leu, não sem antes localizar o texto:

— Está no “Journal D’Études Psychologiques” (“História de um Danado”, questão 67) do mês de fevereiro de mil e oitocentos e sessenta. Conversando mediunicamente com São Luís, Kardec perguntou a respeito de um espírito falecido há mais de duzentos anos que assombrava uma residência: “Esse Espírito é punido muito severamente pelo seu crime. Ora, o senhor nos disse que, antes desta última existência, tinha vivido entre bárbaros. Lá deve ter cometido atos pelo menos tão atrozes quanto o último. Foi punido do mesmo modo? Eis a resposta: Foi menos punido, porque, sendo mais ignorante, compreendia menos o alcance.” Aí Kardec redigiu a seguinte “Observação: Todas as observações confirmam este fato, eminentemente conforme à justiça de Deus, que as penas são proporcionais, não à natureza da falta, mas ao grau de inteligência do culpado e à possibilidade de compreender o mal que faz. Assim, uma falta, em aparência menos grave, poderá ser mais severamente punida num homem civilizado, que um ato de barbárie num selvagem.” Busquei entender a razão por que me ative, como se fosse uma idéia fixa, ao problema de justificar-me perante meus pais. Cheguei à conclusão de que, na qualidade de padre católico, deveria ter melhor compreensão das falhas do procedimento humano. Por isso é que vocês tiveram a falsa impressão de que me debatia demasiado por tão pouco. Não me bastava enviar um telegrama, uma carta ou um formal pedido de perdão. Precisava sentir o coração e a inteligência deles, conhecer o seu sistema de valorização dos seres humanos através das obras e dos pensamentos. Precisava transmitir-lhes a comoção resultante dos processos psíquicos de desenvolvimento da contrição, fruto da dor pelo sofrimento causado. Talvez esteja exagerando agora, nesta apreciação desazada, mas que procurei justificar pelo que antes expus. Acrescento que a coincidência dos duzentos anos de perseguição consciencial do coitado em pauta na “Revista” não foi fortuita, porque pesquisei algo que me desse condições de estabelecer parâmetro com os textos da doutrina espírita, pela confissão que fiz de que obsidiei uma criatura durante duzentos anos. Este ponto poderá parecer estranho aos amigos que me vêem conduzindo-me sempre racionalmente, objetivando a compreensão de todos os aspectos relativos aos temas que me caem no âmbito dos interesses. Não é que tenha corrido atrás dele na escuridão o tempo todo. É que não me saía da cabeça o malfeito com que me prejudicou e, assim, toda vez que a imagem dele se montava em minha imaginação, emitia pensamentos negativos que se transformavam em mensagens de ódio que o atingiam onde estivesse. Onde está a razão de citar esta passagem de minhas memórias? No fato de que fui menos punido pelas agruras que fiz o pobre passar do que pela suspeita de haver frustrado as esperanças de boa educação de meus progenitores.

Ao terminar, lágrimas de profunda alegria brotavam do fundo de sua alma, transbordando em generosos fluidos de amor que emocionaram os presentes, os técnicos na colônia e os companheiros em trabalhos de assistência nas Trevas. Perpassava pela mente de todos que Deodoro estava, na verdade, realizando a demonstração de que fora beneficiado pela promoção evolutiva natural decorrente da assimilação de mais um tópico da verdade.

Assim que voltou do transe emotivo de felicidade por todos compartilhado, estreitamente abraçado a Margarida, tendo orado com devoção e em termos próprios a Jesus, vibração que se transmitira para todo o grupo, Deodoro se propôs a responder ao quesito de Joaquim:

— Não pretendo estabelecer as diretrizes do procedimento da turma em função das minhas necessidades. Compreendo muito bem que estou sendo o alvo dos cuidados de todos, porque me vejo o mais prementemente necessitado de aprender para poder ensinar, conforme o longo treinamento por que venho passando. Deverei ir atrás de outras pessoas do antigo relacionamento, pessoas que não se apresentaram a mim na colônia ou será preferível auxiliar a turma do Roberto? É-me indiferente, posto que venha pensando em caracterizar dois tipos de reações: dos que me têm na qualidade de inimigo e dos que por mim não sintam nada. Têm passado pelas minhas lembranças três colegas dos tempos de seminário, Rupério, Augusto e Domingos, com os quais mantive deleitosa amizade. Mais que eles, volta e meia, me vejo perante as recriminações das mulheres (ao dizer isso premia com força Margarida de encontro ao peito) que enganei, para falar o menos, porque, quanto à crítica, faço-a no fundo da consciência. Em todo o caso, disponho-me a seguir os conselhos dos parceiros de viagem ou dos instrutores maiores.

Teria outras considerações, mas satisfez-se em tão-só apresentar o problema. Proposta formulada, os demais emitiram claros sinais de que não se importavam como se desenrolariam os próximos acontecimentos. Foi Arnaldo quem resumiu a opinião da equipe:

— Vamos, de acordo com a experiência de Joaquim, realizar primeiro as visitas menos opressivas. À vista dos resultados, poderemos ou não procurar os que mais fortemente se revoltaram contra o nosso companheiro.

Margarida, que concordara com a premissa, quis expressar os seus sentimentos:

— Também perpassei por momentos aflitivos quando enfrentei os adversários adquiridos por meio do usufruto indevido de seus sentimentos, ao desprezar a dor alheia.

Deodoro não permitiu que prosseguisse, tendo notado que estava bastante emocionada:

— Traduzo-lhe eu os pensamentos. O que minha irmãzinha querida está desejosa de esclarecer é que as pessoas criam ilusões a partir das promessas de compromissos, sem avaliarem direito, por diversos motivos, que a ninguém é dado gerar o tempo futuro segundo as conjunturas do presente. Dizendo melhor, quando alguém, por exemplo, promete, perante o sacerdote, amar, respeitar, honrar, na alegria e na doença, o cônjuge que aceita, entusiástico e espontâneo, para o restante dos dias, não suspeita, verdadeiramente, quais os acidentes de percurso, quais os percalços da sorte, quais os mistérios do destino que deverá desvendar no decurso de sua existência. Nem sempre a escolha feita o foi por razões exclusivamente sentimentais e, mesmo assim, não é possível prever que tais motivações perdurem, quando as lutas do dia-a-dia se revelem sacrificiais. O caráter do outro pode não ser o mais honesto, forçando uma separação. Interrogado pelos fariseus, Jesus lhes disse: “Por isso, eu lhes declaro que qualquer um que repudia sua mulher, se não se trata de um caso de adultério, e casa com outra, comete um adultério.; e quem se casa com a que um outro repudiou comete também um adultério.” (São Mateus, XIX: 9.) Comentando a passagem, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, escreveu Kardec, no capítulo XXII, item 3: “Nem a lei civil, nem os negócios contratados através dela conseguem substituir a lei de amor, se esta não preside à união.; resulta daí que, amiúde, ‘o que se uniu à força se separa por si mesmo’.; que o juramento que se pronuncia ao pé do altar se transforma em perjúrio, caso seja dito como uma fórmula banal.; daí as uniões infelizes, que terminam tornando-se criminosas.; dupla infelicidade que se evitaria se, nas condições do casamento, não se fizesse abstração da única lei que o sanciona aos olhos de Deus: a lei de amor. Quando Deus disse: ‘Vocês formarão u’a mesma carne’, e quando Jesus disse: ‘Não separem vocês o que Deus uniu’, isso tem de ser entendido segundo a lei imutável de Deus e não segundo a lei variável dos homens.” Sendo assim, é de todo compreensível que as pessoas se sintam magoadas com quem não foi capaz de manter a palavra, caso elas mesmas tenham cumprido a sua parte do conúbio matrimonial. Ora, o fluxo da vida não pode nem deve cristalizar as intenções, mas renová-las a cada momento, segundo a constante aprendizagem que as pessoas realizam umas em relação às outras. O que existe de mais bonito num casal é o acréscimo de afeição diário, resultante das vitórias sobre o sofrimento em conjunto. Aqui se caracteriza a lei do amor. Peço perdão se fui além do que me permitiria a simples interpretação dos sentimentos de Margarida. Acredito, porém, que estamos pensando de modo uniforme. O futuro determinará a mim e a ela experiências que não compreenderemos pelo mesmo prisma? Pelo menos, por ora, nada nos parece com força suficiente para nos separar, nem o nosso passado, nem nenhum dos nossos inimigos.

Suspendeu a peroração e aguardou que alguém comentasse o seu jeito de reagir perante o divórcio entre os humanos, completamente estranho aos ensinamentos da Igreja, conquanto se recordasse perfeitamente das exceções papais para situações especialíssimas.

Ninguém, contudo, opôs resistência ao desenvolvimento das idéias, todos imersos em suas próprias reminiscências e na análise dos casos conhecidos. Não obstante, Joaquim quis acrescentar:

— Meus caros, estamos por demais preocupados com as ligações entre os encarnados. São importantes, é claro, pelas repercussões que provocam nos relacionamentos dos seres após o decesso. Mas devemos compreender que as uniões terrenas se regem segundo os costumes sociais. Tenho a certeza de que Deodoro não sabe que, no Brasil, a “Lei do Divórcio” está em vigor. É certo que à revelia da Igreja Católica, mas muitos casais estão tornando legal a separação que de fato existia. Se me permitirem uma observação talvez um tanto aguda demais, devo prevenir para o risco que correram os sacerdotes ao se unirem extra-oficialmente às suas amantes, porque estavam, de fato, referendando, na prática, a existência da separação do que Deus havia reunido através do sacramento do matrimônio, segundo a perspectiva do cristianismo igrejeiro. Se partirmos do ponto de vista espírita, doutrina que não aceita os ritos e os sacramentos, não podemos acusar ninguém de romper os tais laços sagrados, mas apenas os civis. Vão perguntar-me quanto à lei do amor referida por Kardec. Ora, se houver amor, não haverá separação, jamais. Se Deus é amor, conforme entendemos, quem ama está definitivamente unido, ainda que devamos acatar a premissa de que muitos seres possam amar-se concomitantemente. O que nos cabe observar no etéreo é que aqui não se caracterizará jamais o problema da poligamia, porque nós, espíritos, não temos sexo. A aceitação desta realidade ficará por conta do nível evolutivo de cada qual, que determinará o quanto de desprendimento se admitirá à vista da permissão natural de que o sujeito de nossa atenção possa manifestar o mesmo afeto a outras criaturas, inclusive de inferior condição espiritual. Se não for assim, é que algum elemento pernicioso está infiltrado a partir dos defeitos mais graves oriundos do egoísmo, do orgulho e da vaidade. Alguém mais gostaria de participar dos debates?

Ninguém se atreveu.; nem Deodoro, sempre muito palrador, tinha algo fortemente concatenado para expor. Instintivamente, aproximaram-se todos e se abraçaram longamente, querendo selar, naquele ato de confraternização, a promessa de, um dia, quando estivessem plenamente desenvolvidos segundo as premissas existenciais daquela esfera, se consagrarem uns aos outros com vistas ao progresso de todos. Por enquanto, deixavam claro que tinham problemas inadiáveis para resolver.

— Acho — concluiu Deodoro, após certo tempo — que vou abrir mão das experiências particulares, que estão a me parecer agora a perseguição do obsessor a si mesmo, e vou considerar melhor a hipótese de ir em auxílio de Roberto e de seus coadjuvantes. Os meus pretensos inimigos serão agraciados, mais tarde, com mais eficaz atendimento, porque me sentirei mais à vontade para merecer deles o seu perdão, caso me julgarem digno dele.

Joaquim precisou fixar com muita atenção os reflexos íntimos dos sentimentos na coloração da aura do monsenhor para saber se gracejava ou se estava sendo absolutamente sincero. Foi só aí que Deodoro percebeu que o que dissera poderia ser interpretado de duas maneiras diferentes. Não perdeu a vaza e complementou:

— Quando o espírito falha e demonstra inferioridade moral, é de todo recomendável que os amigos corram para socorrê-lo. Eis que Joaquim se prontificou a me ajudar, por efetuar manifesto exame de minha aura. Cabe-me pedir-lhe perdão por não haver refletido de forma mais precisa a respeito das expressões. Este é ponto que desejo ver melhor desenvolvido no corpo do livro que pretendo ver escrito, porque, dada a complexidade dos temas e o inusitado do ponto de vista a cavaleiro dos seres imateriais, muitos encarnados tenderão a forçar os nossos pensamentos a se enquadrarem em seu conjunto de valores, porque não têm como avaliar se o nosso estremecimento se coaduna com a mensagem de amor do Cristo, uma vez que não vêem a nossa aura. Requeiro desde já ao professor e amigo que oriente o grupo de redação no sentido de tornar o mais fidedignas possível as descrições, o mais verossímeis as narrativas e o mais sábias as dissertações.

— Você terá a oportunidade de ver compor-se o texto exatamente conforme o roteiro que o grupo estabelecer, sempre de acordo com as diretrizes dos mentores da “Escolinha de Evangelização”. Por ora, devo afirmar que me entrego à sua inteligência e à sua acuidade sentimental, pondo-me à disposição dos alunos. Mas o momento é de decisão. Que vamos fazer em seguida?

— Como proceder para evocar o meu amigo Rupério?

— Não é difícil, desde que você se recorde bem de quem seja ele.

— Um colega dos bons.

— Concentre-se nos tempos em que conviviam no seminário.

Deodoro não teve dificuldade em recordar muitas passagens em que os quatro amigos se reuniam para os trabalhos escolares, auxiliando-se mutuamente nas pesquisas e nos desenvolvimentos das aulas. Estava vagando por um dia em que Rupério se havia saído muito bem numa prova, quando ouviu a voz conhecida:

— Ora vejam só quem está me chamando! O Deo. Você sabe de onde eu venho?

— Que importância terá, amigo, se estamos juntos outra vez?

— Pois você me despertou da letargia...

Queria explicar o que se passava, entretanto, travou-se-lhe a língua e não pôde prosseguir.

Deodoro buscou abraçá-lo como quando jovens mas o outro se retraiu:

— Espere aí. Estou me lembrando de que você foi muito longe e se constituiu num dos esteios da Religião. E nem me respondeu às cartas que lhe mandei, pedindo para me retirar daquele fim de mundo a que fui mandado. Se não estiver errado, acho que sei quem foi que sugeriu que ali eu me daria muito bem.

O monsenhor não tinha a menor lembrança do que o outro dizia. Desejou saber:

— Você endereçou a correspondência diretamente para mim?

— Claro!

— Espere que vou consultar os arquivos.

— Que arquivos, que nada! Agora é tarde. O mal está feito. “Rupério, você é ótimo!” Não era assim que me dizia? E ali fiquei a gosmar a pachorra, até o final da vida, quando me vi, de repente, no seio duma comunidade religiosa de anões, como se as pessoas todas tivessem encolhido. Só eu mantive a estatura normal e, por isso, me tratavam como um gigante, tendo muito medo de mim.

Joaquim se aproximou de Rupério e fez-lhe ligeira fricção sobre o halo superior da cabeça, adormecendo-o.

Deodoro estava boquiaberto. Joaquim tomou a palavra:

— Vamos mantê-lo tranqüilo, para o que devemos orar em sustentação fluídica. Peço a Alfredo e Arnaldo que o façam. Quanto a Margarida, quero que ajude Deodoro a enviar mensagem à colônia, para as informações relativas aos acontecimentos que envolveram o pároco. Eufrásio, fique de prontidão. Quanto a mim, vou procurar ler-lhe no inconsciente, a ver se me revela a origem desses desacertos psíquicos.

Ao cabo de alguns instantes, telepaticamente, Deodoro foi informado a respeito das cartas. Na verdade, Rupério escreveu diversas missivas, contudo nenhuma achou o destinatário, porque eram obstadas dentro do próprio hospital de alienados mentais em que fora internado. Resumidamente, a informação anotava que o padre quisera progredir na ordem mas não obteve êxito, por causa de excessiva ambição, forjada sobre a inveja de ver muitos colegas melhor situados. Deu-se à bebida, às injeções de morfina, à zona do meretrício, fez escândalo e terminou os dias após atormentada estadia numa clínica psiquiátrica reservada ao clero.

Joaquim complementou os dados:

— Faz mais de quarenta anos que vaga pelo Umbral, após longo estágio nas Trevas, mercê de terríveis débitos anteriores. Perdeu a oportunidade de regeneração e regressou quase sem haver evoluído nada. Rejeitou completamente a ajuda do protetor, até quando foi libertado dos obsessores. Faz uns cinco anos que vem recuperando a lucidez. Penso que a visão do antigo colega lhe deu a impressão de haver voltado a uma época de alegria. Imediatamente, porém, a mesma imagem provocou nova crise, porque lhe arremessou a fantasia para a época da desintoxicação das drogas.

Deodoro não sabia como proceder. Jamais poderia imaginar que o colega querido estivesse tão necessitado de amparo, enquanto ele mesmo se dedicava à sua brilhante carreira. A doce recordação do coleguismo enterneceu-o, mais ainda porque a figura que se patenteava aos seus olhos era a daquele mesmo rapazola inteligente e alegre. E chorou por não ter mantido contato com os amigos mais íntimos, tendo preferido aqueles que se projetavam no seio da comunidade eclesiástica. Se o outro não fora bem sucedido em seus anseios de grandiosidade, alcançara ele o sucesso porque manipulara melhor a vaidade alheia.

Tais pensamentos lhe iam enegrecendo a aura, contudo, Margarida estava atenta e lhe deu alguns conselhos oportunos:

— Não vá tornar-se, querido, em mais um problema para o grupo. Supere a crise, pensando em que Jesus está enviando para nós os mensageiros mais esclarecidos, que nos alertarão para o que fazer em prol da melhoria do estado do irmãozinho sofredor. Observe como Joaquim está manipulando as energias providenciais para que Rupério se sinta aliviado quanto às acusações que lhe fez, passando-lhe a informação de que as cartas jamais lhe chegaram às mãos. Quando despertar, terá maior cuidado em efetuar qualquer crítica, porque está compenetrando-se de que o auxílio que lhe chega o fará apto a raciocinar sobre bases reais.

Compreendeu Deodoro que o momento não era o mais propício para se deixar envolver pelas ondas deletérias emitidas contra si. Viu-se invigilante e se envergonhou, pensando seriamente que precisaria de mais tarimba para realizar algo semelhante ao que estava fazendo Joaquim.

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