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Erótico-->6. ANACLETO -- 12/09/2003 - 08:04 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Tivéssemos mais traquejo na elaboração da estrutura dramática do romance, não escreveríamos este capítulo, porque estamos correndo o risco de antecipar vários aspectos importantes da trama, sem conectá-los com o fundamental para nós, ou seja, a teoria espírita. De qualquer modo, vamos enfrentar a dificuldade, sem mais tardanças.



Anacleto, como ficou dito na voz dos companheiros Moacir e Silvinho, era o que mais preocupava quanto ao envolvimento com os vícios. Se pensarmos um pouco mais seriamente, verificaremos que o fato de Ovídio ter sido apanhado demonstrou que não tinha a mesma capacidade de disfarce do que ficou livre.

Na verdade, a inspiração do assalto foi toda do mais velho, pois era quem mantinha relações de comércio com os fornecedores e quem organizava a venda em diversos pontos do bairro, mantendo-se à frente de mais de vinte pequenos pombos-correio, raia miúda mais dependente da droga do que positivamente negociante.

Anacleto mantinha a turma sob rigorosa vigilância, sem permitir qualquer desvio de féria ou de produto. Pagava prontamente, sempre em espécie, nunca em dinheiro, fazendo-se cheio de sutileza quanto a reter os serviçais, porque escolhia a droga segundo via o poder de atuação de cada um, oferecendo maconha a uns, cocaína a outros, craque para a maioria. Para os que se iniciavam, proporcionava cola de sapateiro e algum psicotrópico estimulante menos drástico, a ver se conseguiam discernir os comandos, obedecendo às ordens que lhes dava.

Ele mesmo não consumia demasiado, procurando manter-se lúcido para a eventualidade das fugas. Era ladino da esperteza dos malandros mais experientes e só se dava às picadas quando sabidamente estava protegido pelos seguranças oficiais dos bailes suburbanos, onde a polícia não vai, porque a multidão exige força de repressão incompatível com a colheita de produtos e marginais.

Nunca, porém, precisara desaparecer, porque a polícia não havia estendido os tentáculos para o seu grupo. Naquela oportunidade, dera azar porque o irmão escolhera mal a vítima e agora deveria utilizar-se de um dos três planos que imaginara para a circunstância adversa.

Procurou, pois, sair da cidade imediatamente, após verificar que havia um traficante que ia buscar um carregamento no interior do Estado. Levava dinheiro suficiente para passar alguns meses instalado em alguma pensão modesta, tempo suficiente para se inteirar do tráfico da cidade e propor-se como auxiliar, para o que deveria oferecer a contrapartida de sua coragem e de seus conhecimentos.

Para tanto, possuía documento de identidade falso, em que a idade o colocava no rol dos maiores, de sorte que poderia, inclusive, empregar-se, para dar aparência honesta à sua permanência na nova localidade. Para não facilitar o trabalho da polícia, buscou uma cidade de médio porte, onde passaria despercebido, caso seu retrato fosse divulgado.

Essa era outra providência de que se gabava, porque a foto do documento incluía o disfarce da cabeleira curta e loira, quando era moreno e prendia o cabelo na forma de rabo-de-cavalo. Vira em diversos filmes que precisava complementar a transformação pela colocação de lentes de contacto que combinassem com a cor do cabelo, mas isso iria ter de deixar para mais tarde, porque os seus haveres eram pequenos.

O filho mais velho de Plínio sabia, também, que vários criminosos chegaram a submeter-se a operações plásticas no rosto, mudando-se para outro país ou continente, integrando-se em bandos organizados para tal finalidade. Mas, para o nosso Cleto, tal perspectiva se enquadrava na área da fantasia e da possibilidade.



Vamos encontrá-lo dois dias após, conversando com garotos à porta de um instituto de educação, solicitando informações:

— Tem alguém aqui que já experimentou?

— Qual é, meu? Onde está o microfone?

— Vocês estão pensando que sou repórter? Essa é boa. Estou é precisando de uma dose, que estou começando a desandar.

Cleto não escondia nunca os efeitos nocivos da droga mas buscava deixar evidente que era capaz de se manter sadio, controlando as quantidades.

Os pequenos, crendo-se sabidos, logo soltaram a língua:

— Se é maconha o que você quer...

— Qualquer coisa serve.

— Craque é na antiga estação. Não é difícil de achar. Os caras trabalham à luz do dia.

— Pode ser maconha mesmo.

— Nesse caso, é só esperar um pouco que logo eles passam para ver quem quer.

— Falou! Vocês foram legais. Vou me lembrar disso.



Cedemos à tentação do diálogo para alertar que o Cleto tinha meios de convencimento bastante técnicos. Se se dedicasse aos estudos, conseguiria, com certeza, um diploma universitário. Do jeito que levava a vida, não passara da sexta série primária, sempre prometendo entrar no Curso Supletivo, à noite, o que faria positivamente se visse que iria faturar mais trabalhando do lado de dentro da escola.



Não foi difícil, portanto, enturmar-se com os traficantes locais, não sem contar as peripécias da turma do irmão, para justificar a procura de outra praça. Com o fito de demonstrar boa vontade, comprou uma boa quantidade, que logo embalou convenientemente, dispondo-se a trabalhar nos pontos que lhe designassem.

Forneceram-lhe um companheiro e, em três tempos, deu conta do recado, mantendo-se absolutamente sóbrio, afastando-se até do cigarro e das bebidas. Precisava conquistar a confiança dos chefes da gangue para poder atuar mais livremente, até formar a sua própria. Fazia-o, porém, sem muito entusiasmo, profissionalmente, como a cevar o rio para futuras pescarias. Tinha a certeza, contudo, de que dificilmente voltaria para casa, não tanto pela autoridade dos pais, mas porque o delegado não sossegaria antes de pôr-lhe a mão no “cangote”.

Na pensão, em lugar de se mostrar reservado, fez alarde de que procurava emprego, acabando por receber uma oferta de um dos companheiros de quarto, por ter sido aberta uma vaga de balconista na farmácia em que trabalhava. Está visto que Anacleto construíra uma imagem saudável, mantendo-se limpo e asseado, trajando roupas de “griffe”, sem ostentação, trazendo-lhe o corte de cabelo certa luz aos olhos, a provocar a simpatia dos inquilinos. Digamo-lo francamente: era um belo rapaz. Pena que começamos a descrição dele pelos aspectos menos felizes da sociopatia e da marginalidade.

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