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Erótico-->10. TRISTES ACONTECIMENTOS -- 16/09/2003 - 06:57 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Houve um momento em que Plínio se sentiu à solta, chegando a considerar-se, até certo ponto, feliz, uma vez que atinou com o fato de que não tinha de enfrentar mais o cativeiro das longas horas do trabalho de cada dia. Imaginou-se, durante os últimos vinte e tantos anos, tão liberto de compromissos como agora e desejou pintar um passado menos tenebroso, como se não se tivesse casado e muito menos procriado. Já dissemos que ter de tomar conta apenas do Ari, o mais novo, lhe pareceu uma dádiva do destino.

Mas a realidade tem o mau hábito de criar barreiras às pretensões da fantasia, de modo que chegou o instante de ter de sair de casa para visitar o filho recluso.

Ovidinho os recebeu indiferente, como se não existissem. Fingido, foi logo dizendo:

— Vejam o que vocês fizeram comigo! Se tivessem cuidado melhor de minha educação, não estaria curtindo esta “cana”. Não me venham dizer que vou sair logo, porque sei que o juizado vai me manter até completar dezoito. O “delega” não vai deixar por menos. Então, se me arrumarem dinheiro, eu posso comprar os inspetores, que vão me deixar sossegado.

A mãe, retorcendo as mãos, quis saber se ele estava apanhando:

— Essas marcas no rosto...

— Isso aqui foi no dia que me pegaram. Apanhei da polícia e dos presos. Escapei por pouco. Logo vieram me buscar e me jogaram neste depósito. Aqui os pequenos apanham dos grandes e estes “entram na dança” nas mãos e nos porretes dos funcionários.

Por respeito aos leitores, não reproduzimos exatamente os dizeres que os pais ouviram, porquanto tudo se encontrava tremendamente mesclado de palavrões e de referências malcriadas às partes pudendas. Se resolvêssemos colocar reticências, encheríamos diversas páginas de linhas pontilhadas, sem sermos originais, que esse recurso gráfico foi utilizado antes.

Margarida tinha outras questões:

— Ouvi dizer que a comida não é ruim, que vocês têm roupa limpa para vestir e pôr na cama, que existem médicos e remédios, que até dentistas cuidam de seus dentes...

— Pode parar! Tudo pode ser do melhor ou do pior, se é que vocês estão me entendendo. Não posso ficar falando estas coisas muito alto, porque, se descobrem, eles me disciplinam...

Plínio estranhou:

— Disciplinam? Como assim?...

— É um modo gozado de falar que a gente leva umas borrachadas que não deixam muitas marcas mas que doem “pra cachorro”, por mais de uma semana. Vocês não ouviram falar de que há rebeliões e fugas? Por que será?

Plínio não estava acreditando no filho e logo foi respondendo:

— Porque os “pivetes” são mesmo perigosos, têm vários homicídios cada um, assaltos à mão armada, estupros, além de “mandarem ver” nas drogas de toda espécie.

Ovidinho não queria seguir o pai por esse caminho. Apenas inquiriu:

— Quanto vocês vão me deixar?

Margarida foi quem tentou esclarecer:

— Você sabe que seu pai foi mandado embora?

O filho não quis ouvir mais nada. Concluiu que não iria levantar fundos e se mandou, sem despedidas ou acenos. Deu as costas e, sem prestar atenção aos apelos da mãe e às ordens do pai, retirou-se, com ares de profunda indignação.

Quando chegaram aborrecidos ao lar, deram pela falta do liqüidificador.

No ato, Plínio equacionou o problema:

— Margarida, o Ari está vendendo as nossas coisas.

— Nunca aconteceu antes.

— Vamos olhar nos armários. Quem sabe tenha sido mesmo a primeira vez.

As gavetas foram sendo abertas uma a uma. Todas apontavam para o desaparecimento de algum objeto. Até o pequeno cofre das moedas tinha sumido. As poucas jóias de ouro também. O terno, as camisas, as calças, as meias e demais peças de roupa não se encontraram. A mala havia ido com Cleto mas as valises não estavam no lugar. Salvou-se a televisão.

Margarida era uma desolação só. No entanto, Ari não havia tocado nos pertences de uso dela. Contentara-se com os brincos, os colares, os anéis, as pulseiras, os broches e demais badulaques e bijuterias.

Plínio tinha um lugar secreto no fundo falso do guarda-roupa onde guardava o dinheiro mais graúdo para as despesas do supermercado e da quitanda. Nada achou ali. Foi o que lhe deu o maior desespero e a convicção de que teria de manter sob proteção bancária a quantia que iria receber de indenização.

O casal conversou exasperado durante mais de duas horas. Dessa longa conversação, extraímos o seguinte trecho:

— Margarida, explique-me, por favor, por que é que ele não nos furtou antes.

— É porque não tinha precisão. Parece que agora começou com as drogas mais caras...

— Não tem lógica. Prefiro pensar que a fonte em que ele bebia secou.

— Como assim?

— O Cleto, Margarida! O Cleto!

— Quer dizer que o mais velho cuidava dos outros dois? Com que interesse?

— Era o chefe. Os outros serviam. Um foi preso, idiota, assaltando uma autoridade. O menor ficou ao desamparo, porque a gente não dá dinheiro para os vícios. Você dá?

— Que dinheiro, se você leva sempre tudo muito bem controlado?!... Se eu trabalhasse e ganhasse o meu...

A observação caiu como um corisco no meio dos dois. Ambos se recordaram das palavras do Ariovaldo, exaltando o trabalho como modo de afastar os jovens das drogas.

À noitinha, ouviram um ruído no quarto. Parecia um gemido distante, de alguém abafando fortes dores. Correram e encontraram Ari contorcendo-se, com as mãos sobre o ventre, suando em bicas. A janela aberta demonstrava que tinha entrado por lá. Mas não havia tempo para reprimendas. Precisavam correr com o “beócio”, para dizer o menos, para o pronto-socorro mais próximo, de atendimento gratuito, naturalmente, que o Plínio tinha os documentos em ordem, merecedor que era do zelo do serviço público de saúde.

No dia seguinte, assistido do etéreo por Pedro Otávio, Plínio foi em busca de uma funerária para as providências do enterro do corpo do filho, cujo espírito estava sob os cuidados de Saldanha e equipe de socorristas.

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