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Erótico-->12. UM PASSAR DE OLHOS NA VIDA DE CLETO -- 18/09/2003 - 06:42 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Enquanto Plínio e Margarida se envolviam com terríveis problemas, Anacleto assumia o posto na farmácia. Aceitou o emprego interessado na possibilidade de manipular os medicamentos, tendo acesso aos remédios de tarja negra, os que não se vendem, sem que se retenham as receitas.

“Se for o caso, havendo clientela certa e confiável, surrupio os comprimidos ou substituo por outros menos poderosos.”

No começo, deu “chá de sumiço” junto aos da “pesada”. Queria entrar e sair da pensão em horas que não despertassem suspeitas. Ao mesmo tempo, foi ganhando a confiança dos demais vendedores, tanto que se propôs a cruzar as noites na vigília do atendimento de emergência.

Não tinha acesso ao caixa mas não demorou a captar as simpatias gerais, oferecendo-se para o aprendizado das aplicações intravenosas, musculares e subcutâneas. Fez de conta que nunca manejara uma seringa e deu a entender que tinha um pouco de receio das agulhas. Em seus primeiros desempenhos com a clientela, foi acompanhado pelos mais antigos, os quais lhe deram as notas mais elevadas que um neófito conseguiria, apoiando os elogios com recomendações técnicas e explicações anatômicas. Logo, portanto, era requisitado pela eficácia das picadas, sem dor e sem seqüelas, principalmente porque sempre acompanhava a execução com palavras de advertência para as sensações que os produtos causariam.

Para quem vendia no mercado proibido das esquinas, a porta aberta significava facilitação total. Sendo assim, Anacleto saía-se muito bem em todas as tarefas, ao passo que ia tomando ciência dos hábitos do estabelecimento, do poder de cada empregado e das atividades concernentes aos donos. De modo particular, requereu do farmacêutico responsável que o orientasse na leitura das bulas, tendo recebido grosso volume emprestado, onde se liam as propriedades dos elementos químicos, em função do tratamento das moléstias.

Para surpresa própria e íntima alegria, verificou que assimilava os conhecimentos com extrema facilidade, imaginando que o fato ocorria porque era o que verdadeiramente desejava na vida.

Sói acontecer que os proprietários de estabelecimentos comerciais são pessoas adultas, com família constituída, muitas vezes com filhas casadoiras, à procura de seu par ideal. Não se deu de modo diferente naquela rede de farmácias, de sorte que Aurélia, tendo um dia visitado as dependências comerciais do progenitor, se engraçou pelo rapaz, endereçando-lhe significativos olhares.

Timóteo, o pai da moçoila, tomara-se de amizade pelo subalterno, contudo, não estimulou namoro nenhum, sem que definisse qual era a tendência religiosa do recém-chegado.

Ao contrário de Plínio, Cleto logo percebeu que havia ao lado da caixa registradora uma bíblia freqüentemente compulsada. Tendo juntado a beleza e a prosperidade da rapariga à prática protestante da família dela, foi atrás do mesmo templo, onde se entendeu com o pastor, tendo adquirido um livro sagrado, que passou a ler com mais poderosa inspiração do que o glossário dos remédios, de modo que, quando se fez a pesquisa, lá estava ele dando seu testemunho de fé nos cultos diurnos da igreja.

Em malfadado dia, recebeu as tristes notícias de casa, em resposta à correspondência que se lembrou de enviar a antigo colega, porque lhe coçara no coração o desejo de demonstrar aos pais que não estava de todo mal na cidade que o agasalhara.

Não pôde, todavia, obter respostas concludentes sobre as dúvidas que o sucinto relato lhe provocou.

“Se Ari morreu de ‘overdose’, deve ter caído nas mãos de algum explorador que não viu senão o lucro no comércio da droga. O mano deve ter reunido um bom dinheiro com a possível venda do resultado dos furtos caseiros, deixando tudo no bolso do traficante. Bem que o moleque vinha tentando levar as coisas de casa, o cretino! Se eu pudesse voltar, ia atrás dos criminosos. Nem para o tráfico essas pessoas têm talento! Se cevassem o rio, como costuma dizer meu pai...”

A recordação da figura paterna lembrou-lhe o desemprego dele.

“Se eu ficar sabendo que estão passando necessidade, remeto algum dinheiro, porque estou em débito para com eles. Como diz o pastor, a gente deve honrar pai e mãe...”

Nesse ponto, não soube interpretar a frase que lera na carta do amigo: “A sua mãe está de ‘miolo mole’, sempre na rua, com o seu pai correndo atrás dela.” Mas punha o bestunto para funcionar:

“Eu perdi um irmão. Ela perdeu um filho. Como viu tudo acontecer na sua frente, deve ter ficado perturbada, ainda mais que os dois restantes também estão fora. Aliás, se eu pegar o Ovidinho, vou dar umas porradas nele, porque tudo aconteceu quando foi esfregar a faca na barriga do policial...”

Esse estágio de revolta e tristeza se manteria por mais uma temporada, até o dia em que, já com namoro firme, deixou Aurélia apanhar na carteira a carta reveladora de algumas das situações esquisitas de sua vida anterior.

Não houve arrufos nem querelas. Mas Timóteo exigiu que o rapaz se explicasse, não acreditando nos indícios de que traficava e de que estava sendo procurado pela justiça.

Cleto faltou ao trabalho nos dois dias subseqüentes, solicitando que relevassem a ausência e, numa reunião da congregação religiosa, sabendo o patrão presente, deu testemunho de si mesmo e do senhor, assumindo a vida pregressa, sem esconder quase nada:

— Irmãos, peço o perdão de Deus porque sou um grande pecador. Trafiquei, organizei quadrilhas de menores para furtos e assaltos, freqüentei locais de prostituição, consumi drogas e fugi de minha cidade por causa de perseguição policial. Tenho um irmão detido por ameaçar a vida de uma autoridade e, recentemente, perdi outro, por ingerir cocaína em quantidade demasiada. Mas não posso condenar meus pais, que sempre foram muito bons e severos. O meu instinto é que era muito mau. E continuaria sendo, se não recebesse a assistência de Deus, pelas palavras e conselhos do nosso pastor e amigo, e se não fosse amparado por uma criatura temente ao Senhor, o irmão Timóteo, que me empregou e me vem dando o agasalho afetivo que só se dá aos filhos. Se não me quiserem mais na Igreja, aceitarei a vossa decisão. Mas se me acolherem como a um irmão arrependido, filho pródigo, ovelha que se desgarrou mas que se recolheu ao aprisco, ficarei eternamente empenhado e prometo, solenemente, que não cairei jamais nas tentações do demônio. Aleluia! Aleluia!

Quem vasculhar o discurso, vai encontrar expressões que absolutamente não eram do vocabulário regular do capadócio. Mas o que fizera ele durante aqueles últimos dias? Procurara um discurso pronto, adaptara à sua situação, substituíra alguns termos segundo as sugestões do dicionário e omitira o interesse por Aurélia, a adulteração dos documentos de identidade e o novo colorido da cabeleira. Como explicou a Timóteo o nome diferente na missiva?

— Era o meu nome de guerra, para que a polícia não me identificasse.

A partir daquela sessão religiosa, passaria por um estágio probatório de vários meses, até que Aurélia demandou da família uma avaliação conclusiva da personalidade do pretendente. Não iremos, contudo, avançar ainda mais nos relatos das venturas e desventuras de Anacleto, para não perdermos a oportunidade da narrativa dos acontecimentos que envolveram, por aquela época, as demais personagens.

Cabe-nos ainda apenas simples referência ao fato de que os protetores espirituais da família de Timóteo incentivavam um desempenho cada vez mais honesto do jovem, imaginando, com certeza, que disso dependeria a felicidade de Aurélia.

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