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Erótico-->14. TEMPO DE ESPERA -- 20/09/2003 - 07:43 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Logo no primeiro posto de saúde, Plínio encontrou a boa vontade de um médico de clínica geral, que diagnosticou forte anemia, decorrente, como supunha, de muito precária alimentação.

— Dona Margarida vem fazendo regime, senhor?

— Tenho notado que nos últimos tempos ela não vem comendo nem mesmo da comida que prepara para a família. Depois do falecimento de nosso filho menor, nem prepara mais as refeições. Comer, nestes últimos dias, não tenho visto.

— Vou dar-lhe uma receita e um pedido para diversos exames. O senhor tem recursos para ir a laboratório particular?

— Se não estivesse desempregado ou se tivesse recebido o que me devem, eu teria. Do jeito que as coisas andam, tenho de procurar o auxílio oficial.

Enquanto Plínio expunha as suas dores financeiras, o facultativo preencheu rapidamente uma folha do receituário, grifando alguns medicamentos que eram, conforme reiterou, imprescindíveis. Os que assinalou com X poderiam ser encontrados de graça ali mesmo. Em folha impressa, designou os exames que deveriam ser realizados nos próximos quinze dias. Num memorando próprio do centro clínico, requereu que se marcasse consulta com o psiquiatra.

Durante o tempo todo, Margarida permaneceu sentada sobre a maca do consultório, a olhar, na parede, uma figura de médico a tratar de um paciente, colocando-lhe a mão sobre a cabeça.

Ao saírem, Plínio verificou que somente três dos oito remédios foram obtidos no posto, embora dois outros estivessem indicados com X. Quanto à marcação da consulta, somente para dali a três meses. Plínio chorou as pitangas mas apenas conseguiu irritar a atendente.

O pobre marido adquirira forte receio de conversar com a mulher, desde a conversa da “felicidade conjugal não realizada”, entretanto, tomou coragem e perguntou:

— Margarida, por favor, me ajude. Que você acha que devemos fazer para conseguir os remédios?

— Para que existem as farmácias?

— E se forem muito caros?

— Você não compra.

— E daí?

— Você vai ao centro espírita e pede.

Plínio refletiu que as respostas tinham coerência e que mais doido deveria estar ele mesmo, porque fizera umas questões de fácil resolução.

Na farmácia, descobriram que, dos cinco remédios ainda em falta, apenas dois tinham condições de comprar.

Em casa, a indiferença de Margarida contribuiu para que tomasse os remédios sem protestos. No entanto, Plínio precisou determinar as doses e esconder os frascos porque, pela esposa, o envenenamento seria certo.

Um dos remédios era para abrir o apetite, de modo que Plínio fez o que pôde para pôr na mesa um almoço de boa nutrição, embora o arroz estivesse empapado e o feijão, empedrado. Em todo caso, conforme recomendou o médico, fritou um bife e fez uma salada de alface com rodelas de tomate e de cebola, lembrando-se de que eram todos alimentos que agradavam o paladar da mulher.

Preventivamente, colocou comida em apenas um prato e ofereceu-se para ministrá-la às colheradas. Margarida recusou-se peremptoriamente, sendo taxativa:

— Enquanto o Cleto, o Ovidinho e o Ari não se sentarem junto comigo, eu não vou comer!

E não comeu, por mais que Plínio insistisse com todos os argumentos disponíveis. Falou que o Cleto estava almoçando em algum restaurante, que Ovidinho recebia as refeições no centro de reabilitação de menores e que Ari, por estar no campo santo, não precisava mais comer. Nada surtiu efeito.

— Se eu lhe disser que Ari está aqui junto de nós, em espírito, esperando que a mãe recupere a saúde, você não pode dizer o contrário, porque sabe que o Espiritismo ensina que os seres que morrem voltam para ajudar os vivos.

— Voltam para ajudar ou voltam para perseguir.

— Você acha que Ari iria estar aqui para prejudicar a gente?

— Ele está aqui.

— Então?...

— Ele está aqui e não quer se sentar para comer.

— Você está vendo o menino?

— Eu sei que ele está aqui.

— E por que não quer comer?

— Ele está dizendo que eu fui a culpada de ter morrido e também de estar sofrendo.

— Por que ele está dizendo isso?

— Porque eu não quis dar para ele as coisas que ele levou embora e depois fiquei cobrando dele.

— Você está ouvindo tudo isso de verdade ou está imaginando coisas?

— Quem conhece a doutrina espírita sabe do que eu estou falando.

Plínio não conhecia nada, a não ser o que ouvira na palestra de Ariovaldo. Mas suspeitou de que, nesse ponto, a mulher não estava raciocinando direito. Em todo caso, fez um prodígio intelectual e saiu-se com esta:

— Você acha que deve colaborar com a ruindade dele, fazendo justamente aquilo que ele quer que você faça para se prejudicar? Se ele não quer que a mãe coma, é porque deseja ver você doente, internada no hospital ou enterrada no cemitério. Se você quer ajudar o espírito dele, como eu quero, deve ficar forte e lúcida, para ir ao centro espírita ouvir da própria voz dele o que tem a nos dizer, seja para o bem, seja para o mal.

O discurso foi bastante longo, alcançando parte do objetivo. Margarida perguntou:

— Quando é que a gente vai ao centro espírita?

— Esta noite mesmo.

— Então, eu vou me preparar.

— Antes, coma umas colheradas.

— Não vai dar tempo.

— Claro que vai. O centro abre às sete da noite. São duas horas.

— Vou colocar o meu chapéu e já vou esperar você no carro.

Plínio, coitado, não estava entendendo nada, porque Margarida não tinha chapéu nenhum. Como estivesse faminto, comeu um pouco do prato intocado pela esposa e foi à sala ver televisão. Para seu desespero, ao acionar o botão, ouviu um estalido, viu uma fumaça subir por detrás do aparelho e sentiu um forte cheiro de queimado.

“Será que é alguma travessura do Ari?”

Nisto ouviu a buzina do próprio carro. Margarida o chamava. Assim que a viu, percebeu que ela, não possuindo chapéu, estava com um boné do Cleto na cabeça, com a aba voltada para trás, conforme era hábito do filho. O rosto estava empoado, os lábios carminados e as pálpebras coloridas. Mas o trabalho fora um desastre, dando a ela um aspecto triste e caduco. Num picadeiro, talvez fizesse sucesso. Em qualquer lugar, chamaria a atenção.

— Você sabe se há alguma atividade no centro agora à tarde?

— A casa do Pai nunca pode fechar as portas.

“Comparar uma casa de alvenaria comum aos templos católicos demonstra que está fraca da cabeça. Mas vamos até lá. Se estiver fechado, aguardamos no carro.”

Com extraordinária paciência, propôs-se Plínio a não contrariar a esposa, confiando em que os remédios, uma hora ou outra, fariam efeito. Com a desculpa de ir buscar os documentos e as chaves, bem como que precisava fechar a casa, entrou, rapidamente cortou um pão, pôs o bife no meio, colocou dentro de uma embalagem de supermercado e saiu, para não dar oportunidade a que Margarida se fosse sozinha. Achava que a convenceria a comer.

Chegando ao centro espírita, encontraram a porta aberta. Atendia-se à tarde às senhoras gestantes e outras mulheres carentes, desejosas de aprender algumas prendas domésticas, para poderem levar as cestas básicas da comiseração pública e algumas noções, do mesmo modo básicas, da doutrina.

No etéreo, Saldanha esfalfava-se para conduzir, fora do horário habitual, uma das principais figuras da benemerência daquela instituição: Dona Antonieta.

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