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Erótico-->16. A SOLIDARIEDADE CONTINUA -- 22/09/2003 - 06:57 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Nem adianta reproduzir aqui o “cineminha” mnemônico do nosso herói. Quem é que, em tendo mais de trinta ou quarenta, não se deteve já para relembrar os fatos mais penosos e os mais felizes, tudo fazendo para reviver as emoções prazerosas ou descobrir as relações de causa e efeito entre os episódios desagradáveis? Quem não gostaria de volver atrás para gozar de novo as delícias dos momentos felizes ou para desfazer os transes dolorosos que deixaram seqüelas de culpa ou rastros de tragédia?

Pois o êxtase sentimental de Plínio durou cerca de quarenta minutos, ao término dos quais cerrou os olhos e adormeceu.

Queria Saldanha que o pupilo buscasse explicações para os diferentes problemas na tese espírita. Não conseguiu porque Plínio estava por demais preso à voluntariedade das pessoas, para compreender que partilhara com a farinha, os ovos e a manteiga para o bolo das tristezas. Imaginava que Simões não tivera tempo para protegê-lo, partindo para o cemitério antecipadamente. O mesmo quanto a Ari. No que respeita ao encarcerado e ao fugitivo, perguntava-se qual a sua participação nos acontecimentos desastrosos, se vinha trabalhando “feito um condenado” para manter a casa fornida de alimentos e de agasalhos. Fora pelo seu trabalho que a residência pertencia ao patrimônio familiar e mais o carro e todos os objetos, que dívida nenhuma havia para saldar, exceção do liqüidificador, para cujo financiamento precisara da escritura definitiva da casa, porque o emprego se esfumaçara e a carteira de trabalho assinalava a data da demissão. Não era o momento mais oportuno mas pegou no sono vendo as mulheres indo embora, o dinheiro criando asas, as mansões ruindo e os iates, no fundo do oceano.

Duas horas depois, ao redor das seis e meia, tocaram a campainha.

Eram Antonieta, Moacir, Silvinho e, fato extraordinário, Ariovaldo.

— Vamos entrando, por favor.

Deu um sorriso especial à vizinha, demorados abraços em Moacir e Silvinho, apertou significativamente a mão do palestrante, dizendo-lhes:

— Vão sentando que eu vou ver se Margarida está acordada para passar um cafezinho.

Antonieta antecipou-se:

— Se o senhor me permitir, vou ver como é que ela está. Quanto ao café, não vai ser necessário, pois estamos indo ao centro. Viemos ver se vocês querem ir junto.

Sem esperar resposta, como se conhecesse a anatomia do prédio, foi entrando, indo diretamente para o quarto do casal.

Enquanto isso, Ariovaldo se apresentava:

— Não sei se o senhor...

— Diga você, senão vou ficar inibido.

— Que seja. Você está sabendo que sou médico?

Plínio, que deveria sabê-lo, porque foi como se fez a apresentação dele antes da conferência, ficou desconcertado pela tentativa de mostrar-se íntimo.

— Pois bem, ontem aconselhei que sua esposa consultasse um facultativo. Antonieta disse que isso já ocorreu...

— Sim.

— Certamente, deverão ser realizados certos exames.

— Se quiser, eu lhe trago a lista.

— Não vai ser preciso. O importante é que, estando ela anêmica, é preciso impedir que se instale um processo infeccioso contra o qual o organismo não será capaz de apresentar defesa. Por isso, é importante providenciar os remédios, que sejam ministrados de acordo com a posologia recomendada e que as refeições sejam nutritivas, porque os complexos vitamínicos e de sais minerais não serão suficientes para colocarem a sua esposa perfeitamente sã. Eu não estou preocupado, ainda, com os aspectos psicológicos, mas o estado de desnutrição causa delírios que podem perfeitamente contribuir para a ilusão de que muitas coisas que aconteceram no passado ou com outras pessoas fiquem registradas como fatos atuais. Por exemplo, ela pode pensar que se alimentou, sem ter levado nada à boca. O contrário também é possível, ou seja, comer duas vezes no período de uma hora, julgando estar com fome. Em suma, cada caso é um caso. Você...

Silvinho complementou:

— Plínio...

— Você, Plínio, prosseguiu o médico em seu estilo de expositor, me perdoe a aula e este sentido de obrigação de fazer tudo certinho, bem como o atropelo das palavras ditas como quem vai “livrar o pai da forca”. No entanto, é preciso organizar a vida, para dar ao tratamento da saúde da esposa a prioridade que requer. Por outro lado, insistem estes seus devotados amigos e colegas que você tem de freqüentar as reuniões em que se cuida dos vícios, porque eles têm medo de que os seus dois mais velhos sigam na esteira do que transgrediu as leis físicas, alijando-se da própria vida, suicídio involuntário, uma das mais graves ofensas contra as leis de Deus. Desculpe-me de novo pelo tom didático com que estou falando ao senhor, mas veja em minhas expressões o desejo mais digno de respeitá-lo e de levá-lo a conviver conosco, readquirindo a alegria natural de quem tem sucesso em suas empresas. Está de volta a nossa Antonieta. Deve estar interessada em nos dizer algo.

— Em verdade, eu quero declarar que Margarida dorme a sono solto. Dada a importância da presença do “Seu” Plínio na reunião do centro, se estiver de acordo, eu fico tomando conta dela e o senhor vai com os outros. Se me permitir, vou dar um trato na cozinha, porque as comidas estão à disposição dos insetos.

Plínio não estava acostumado com tanta mordomia. Sentiu o rosto avermelhar mas não teve tempo para tartamudear qualquer agradecimento. Pediu um tempinho para se arrumar e, dez minutos depois, apresentou-se penteado e de camisa limpa, com a indefectível gravata do escritório.

Não vamos perder tempo contando tudo o que acontece nesse tipo de encontro de pessoas estressadas, pela ânsia de superação dos graves dramas de suas vidas. Plínio não se sentiu à vontade, a todo momento buscando o apoio invisível da esposa, a quem entregava a palavra nessas situações públicas. O momento mais angustiante se deu quando precisou demonstrar o quanto estava sofrendo pelos profundos desgastes em tantos aspectos de sua vida. Nesse ponto, foi auxiliado pelos amigos, que se encarregaram de descrever as crises mais fortes do destino.

A comiseração pela dor das perdas se acentuou, quando o grupo foi capaz de perceber a estreita amizade que unia os três contabilistas, tendo Moacir e Silvinho permanecido um de cada lado de Plínio, durante toda a sessão.

Todo o segmento da reunião em que se tratou das tragédias da nossa personagem não levou mais do que quinze, no máximo, dezessete minutos. Todavia, para o coitado, ficou a impressão de que mais da metade das duas horas do encontro foi dedicada a ele. Sendo assim, não levou para casa muitas das informações que lhe transmitiram, precisando os dois amigos insistirem para que compreendesse que precisava, urgentemente, tirar o Ovídio da reclusão e trazer de volta o mais velho.

— Vai ser difícil...

Desta feita foi Moacir quem se manifestou:

— Conte conosco para o que der e vier. Se for preciso, acionamos o nosso departamento jurídico, ou seja, os nossos dois companheiros advogados, que saberão o que providenciar junto aos órgãos de defesa dos direitos dos menores. Temos também como localizar o Anacleto, acionando justamente as pessoas que estiveram na reunião, cujos parentes drogados podem estender uma rede para colheita de informações. Penso que não seria impossível.

Quando Plínio entrou em casa, sentiu logo um cheiro apetitoso proveniente da cozinha. Lá encontrou as louças lavadas e guardadas, o chão limpo e a comida no fogão.

Antonieta foi logo expondo:

— Fiz o que pude mas tem muito mais para fazer. É preciso cuidar da roupa, do banheiro e do pó da casa toda. Sem asseio, vai ser muito complicado para a saúde de Margarida.

— Como está ela?

— Dorme ainda. Nem percebeu que o senhor saiu. Mas está muito tarde e tenho de ir cuidar da minha casa. Amanhã, a gente decide qual vai ser o melhor para vocês. Boa noite, “Seu” Plínio!

— Muito obrigado, Dona Antonieta! Deus lhe pague! Deus lhe pague!

Saldanha queria que o infeliz deduzisse que a doutrina espírita fundamentava o procedimento de toda aquela gente. Não logrou êxito. O máximo que Plínio inferiu foi que deveria aplicar-se com mais energia para fazer com que a mulher voltasse a trazer a casa um brinco.

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