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Erótico-->28. ENTREMENTES, NO ETÉREO -- 04/10/2003 - 07:31 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

A recuperação de Ari estava sendo bastante lenta, mas de acordo com o roteiro socorrista do hospital que o agasalhava.

Tivera o jovem diversos diálogos com o orientador, com a finalidade de se pôr completamente a par de onde estava, do que sofria e do tratamento mais adequado para levá-lo a um estado de consciência superior.

À época da visita dos irmãos aos pais, capacitara-se a perceber sua história pretérita anterior à derradeira encarnação, de modo que foi capaz de observar suas próprias reações perante os acontecimentos de duas passagens terrenas e as conseqüências funestas das crises de rebeldia.

Entretanto, não punha muito sentido no fato de estar merecendo especial atenção, justamente depois de haver comprometido os votos de realizações proveitosas na Terra, à vista do suicídio involuntário, por meio de excessos facilmente previsíveis, levando em conta que estava dotado de suficiente inteligência para saber que aquela dose de drogas causaria a morte.

Esse tópico o levou a inquirir do amigo uma série de elementos. Começou por perguntar sobre a novidade da ajuda:

— Doutor Edgar, por favor, esclareça-me quanto ao fato de estar fazendo jus a tanta consideração.

— De maneira geral, Jesus recomenda que sejam atendidas as solicitações de cura, desde que haja verdadeira fé e sincero arrependimento.

— Quando foi que demonstrei essa fé que salva e esse remorso que reverte as condições dolorosas da existência?

— Primeiro, não há necessidade de que se expressem os sentimentos por meio das palavras. O que importa é o que o indivíduo pensa e como vê os próprios atos. Você, ainda imerso na carne, inconsciente para o sensório mas desperto para a percepção da tremenda falha, pôs, figuradamente, as mãos na cabeça, em sinal de desespero, comprovando que renegava o gozo material que buscara nas drogas. Recorda-se disso?

— Vagamente, porque são muito nebulosas as recordações em que me encontrava sob o efeito da alucinação. Aliás, como é que posso compreender o fato de ter tido a noção do erro, sem a correspondente lembrança extracorpórea?

— Boa pergunta. Não sei se estou apto a dar explicações científicas. No entanto, é preciso saber que há íntima correlação entre perispírito e corpo físico, enquanto existe vida. O cabedal de memória se registra em áreas do cérebro dos encarnados, nas fibras nervosas do corpo espiritual e, o que é o mais importante, vai constituindo a soma existencial do próprio espírito. Está muito complicado para você?

— Bastante. Se existem três setores de impregnação da realidade vivida, em que se distinguem entre si?

— No corpo físico, fixam-se os roteiros que dão sustentação fluídica à vida. Por isso, a pessoa não tem de prestar atenção nos processos do parassimpático, ou seja, na vida orgânica ou vegetativa. Você já pensou se precisasse deliberar conscientemente para cada contração dos diversos sistemas, como o linfático, o límbico, o sangüíneo etc.? Um toque involuntário em algo quente faz o cérebro reagir quase de imediato, na defesa dos tecidos atingidos. Até aqui tudo bem?

— Acontece que a gente armazena no cérebro inúmeras informações adquiridas pelos raciocínios e não só as extraídas através dos cinco sentidos. São essas reminiscências que passam para o perispírito? Não fica nada preso ao cérebro material?

— Alguma vez você se dedicou a refletir sobre esse sistema tríplice de memória?

— Deveria recordar-me agora de tê-lo feito?

— Analise a sua última frase. Poderia dizer que a construção dela foi assimilada na sua pouco mais de uma década de vida?

— Eu já entendi que estou reavendo as condições intelectuais de algumas vidas anteriores em que me atrelei ao saber acadêmico e jornalístico. Então, devo deduzir que aqueles ganhos através dos raciocínios se dispõem de modo definitivo no perispírito?

— Quase isso. Na verdade, muitos conhecimentos se perdem com a deterioração do cérebro. Imaginemos que você tivesse lido centenas de livros. Todos os parágrafos ficaram impressos em sua mente, isto é, na soma do cérebro, do perispírito e do espírito. Por processos psíquicos avançados, com ou sem ajuda de produtos químicos ou de processos físicos, sempre há, enquanto o sujeito está encarnado, a possibilidade de fazê-lo regredir à época das leituras, de forma que, em estado hipnótico, quase todas as pessoas têm o poder de reproduzir, linha a linha, tudo o que leram.

— Para mim isso é novidade quase absoluta, embora suspeitasse de que para uns existe maior facilidade que para outros, de acordo com os dotes mnemônicos de que estão dotados. A recordação completa não constava de minhas excogitações. Mas não me venha dizer que o perispírito não poderá passar pelo mesmo procedimento de reconstituição completa dos eventos carnais...

— O espírito comanda o fluxo das recordações úteis do ponto de vista do mundo em que se situa na atualidade. Dessa forma, preserva na memória do perispírito todos os elementos catalogados para futura aplicação, quando do regresso à carne. Caso notável é o dos interesses sentimentais, porque todos os agravos e desagravos são mantidos incólumes, para o ressarcimento dos débitos, em tempo hábil. Outros fatores são resumidos em forma de habilidades, de sorte que, quando reencarnados, os espíritos readquirem os conhecimentos cada vez com maior facilidade e destreza, como se pode exemplificar com as crianças superdotadas ou precoces, que aprendem sem esforço.

— Não é uma questão de constituição do cérebro, no qual os neurônios e os outros elementos físicos e químicos se ajustam para uma realização diferenciada?

— Aí entra o mérito dos seres mais evoluídos, que recebem o apanágio de uma família geneticamente favorável, para a herança dos bens que ele mesmo acumulou.

— Essa observação, “mutatis mutandis”, serve para todo o mundo.

— Certamente. Mas falta explicar a parte reservada ao espírito, quanto ao que lhe interessa recordar. Aqui é que sinto maior dificuldade, porque o desenvolvimento ou evolução das entidades vai tornando cada vez mais complexos os sistemas inerentes a esse fulcro sagrado da criação. Pela rama, porém, posso assegurar que, sem sombra de dúvida, as virtudes são o maior bem resguardado no âmago dos seres, sem nenhuma necessidade de rememoração dos entreveros, das injustiças sofridas ou praticadas, dos males vivenciados, dos desastres e das desgraças. Para que o indivíduo ganhe a condição de passar para uma esfera menos densa materialmente, mais apurada quanto aos fluidos cósmicos, quintessenciada moralmente, é preciso que possua em si os fatores da felicidade, os quais se toldariam pelas lembranças dos sofrimentos. Sobem um degrau na escada evolutiva mas seu esforço lhes credita a compreensão de que estes vales de expiações e de provações são absolutamente necessários para a depuração. A lembrança de que Deus é misericordioso e cuida de todas as criaturas com o mesmo zelo e amor completará o quadro da memória do espírito. Se você quiser acrescentar mais alguma coisa, esteja à vontade.

Ari estava extasiado com o campo dos conhecimentos que se abria à sua inteligência. Sopesou as informações que o amigo Edgar forneceu, para constatar que nem tudo se fixara em sua memória perispirítica. Foi quando percebeu que a memória do corpo físico não estava fazendo falta.

Edgar sorriu com as reflexões do pupilo, deixando-o embasbacado com a possibilidade da comunicação através do pensamento. Precisou enxugar algumas lágrimas fluídicas, tanta foi a emoção de se ver mais distante daquela pessoa tosca e retardada da última peregrinação terrena.

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