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Erótico-->30. A PORTAS FECHADAS -- 06/10/2003 - 07:31 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Numa pacífica reunião mediúnica, Plínio apanhou mais um ditado com a assinatura de João. Naquela noite, só ele se dispôs a escrever, enquanto os outros médiuns davam comunicações orais. Todas elas trouxeram o cunho da seriedade, com muitas recomendações de vigilância e de oração, sempre enfatizando a necessidade dos estudos e do amor a Deus e ao próximo.

Um dos beneméritos guias da instituição, após declinar o seu nome, fez referência à visita de uma entidade de grande importância para o Cristianismo, que desejava realizar considerações de caráter pessoal e filosófico. Como, entretanto, nenhum dos manifestantes correspondeu à descrição, todos volveram a atenção para a página escrita por Plínio, antegozando o deleite de um texto de superior magnitude.

Ariovaldo foi quem estimulou o amigo a efetuar a leitura:

— Vamos lá, companheiro! Só falta você para completarmos esta maravilhosa sessão, onde espíritos de notável envergadura moral trouxeram os seus contributos especialíssimos para darmos rumo à vida, sob a luz do Espiritismo.

Foi quando se notou que o argüido estava pálido e ofegante, quase impossibilitado de falar. Estendeu o braço, indicando que precisava tomar da água fluidificada da jarra. À vista de tão grave reação, acrescentaram todos muito mais interesse à curiosidade estimulada pelo espírito protetor que se pronunciara.

Plínio, temeroso e hesitante, fez um preâmbulo prudente, como a requerer compreensão e indulgência pelas idéias que lhe foram ditadas:

— Vocês hão de ter paciência para comigo, por favor! Atribuam o que escrevi à entidade espiritual e não a mim mesmo, que apenas servi de instrumento.

O nosso amigo das censuras estava presente e logo fez questão de estabelecer um parâmetro metodológico para a recepção da mensagem:

— Tenho sido “do contra” em relação aos textos que se referem à vida de Jesus, pela reprodução de diálogos impossíveis de se comprovarem. A publicação no quadro de avisos e a distribuição das cópias não mereceu a minha aprovação. Contudo, como fui voto vencido, assenti, se estão lembrados, considerando a hipótese de um simples conto de caráter ficcional, do tipo dos muitos que o Irmão X, através da ágil pena do Chico Xavier, nos proporcionou.

Silvinho, muito mais preocupado em encerrar a reunião, não quis deixar o amigo estender-se por muito mais tempo:

— Vamos ouvir a leitura do texto. Depois a gente discute e decide sobre o que será melhor para todos.

Moacir apoiou suas palavras:

— Acho que todos tivemos um dia cansativo, porque trabalhamos para ganhar o nosso pão. Acabemos logo com isto.

Os demais presentes concordaram, de modo que o do contra teve de calar-se.

Plínio, com as mãos trêmulas e a voz embargada, deu início à leitura:



“Meus filhinhos, Deus é amor, como afirmei repetidamente durante toda a minha vida. Por isso, sempre insisti, até bem velhinho, que todos deveriam amar uns aos outros, deixando os problemas da vida para que Jesus lhes providenciasse as soluções. Tanto pensei nessas revelações particulares e coletivas, porque as igrejas estavam desviando-se da pregação do Cristo, que deliberei escrever o ‘Apocalipse’. Se alguém não sabe, ‘apocalipse’ é uma palavra grega que significa ‘revelação’.

“No entanto, se escrevesse, com o meu próprio nome, uma carta universal aos responsáveis pelas administrações das igrejas e aos sectários e fiéis, não obteria a repercussão que desejava para endireitar o que estava torto. Sendo assim, escrevi como que inspirado por Jesus, do mesmo modo que o meu médium está apanhando este ditado. Só que eu não recebi nada mediunicamente, porque Jesus estava vivo, uma vez que se salvara da morte na cruz.”



O “do contra”, cujo nome já é hora de declinar: Severo Amâncio Fortes, bateu na mesa, chamando a atenção para si:

— Meus irmãos, vocês vão me desculpar, mas não creio que devamos ouvir o resto do que o nosso ingênuo e obsidiado amigo Plínio registrou. Agora ele ou o espírito extrapolou os limites da paciência e da consideração que devemos ter pelos sofredores e infelizes. Se a malignidade deve ser um ponto a ser esclarecido, porque todos iremos evoluir sob o manto protetor de Jesus e as bênçãos de Deus, tanta ignorância não pode obter os favores de nossa atenção. Essa tese de que Jesus se livrou do extremo sacrifício da vida pela salvação dos homens está correndo mundo em forma de livros e de filmes. É hora de pôr um basta nessa onda que afronta a luz desse espírito de escol a quem se atribui a administração do planeta e contra quem ninguém pode levantar suspeita de fraude, de mistificação, de engodo, de mentira. Se me permitirem, vou retirar-me, já que expus com toda clareza, de modo absolutamente franco, tudo quanto penso, sem me deixar envolver por sentimentalismo obtuso ou por emoções perturbadoras de minha lucidez doutrinária. Se vocês tiverem a cabeça no lugar, vão impedir que essa mensagem espúria saia desta sala, obrigando os guias do centro a referendarem a informação de que visitava a nossa humilde casa um espírito de grande expressividade para o ideal cristão. Vão permitir-me realizar a prece de encerramento...

Ariovaldo, contudo, estranhou o jorro verborrágico do confrade e impediu-o de tomar as rédeas da reunião:

— Sinto que o nosso Severo está, deveras, convicto de tudo quanto disse. É muito importante para o grupo que haja alguém assim atento, sempre pronto a defender a pureza doutrinária kardequiana e, mais ainda, os sagrados escritos evangélicos. Não acho, todavia, que esteja certo em obstar que a turma tome conhecimento integral da mensagem, porque pode conter pontos polêmicos com o fito de nos despertar para a verdade, predispondo-nos à análise e à crítica, segundo a metodologia proposta por Kardec, para classificar as manifestações mediúnicas. Devo lembrar o irmão de que o Codificador agasalhou textos assinados por Santo Agostinho, por São Luís, pelo “Espírito de Verdade” e até pelo próprio Nazareno, conforme lemos na “Revista Espírita”. Se estamos diante de um problema sério, vamos tomar uma atitude adulta, refletindo maduramente sobre as idéias e pensamentos consignados, para concluirmos pela exclusão de parte ou pela anulação do todo. Para isso é que estamos reunidos, ou seja, para obtermos uma orientação segura sobre os mais diferentes tópicos do conhecimento e da verdade. Por outro lado, o seu impulso, caríssimo Severo, é de todo respeitável mas não condiz com o sentimento democrático que deve imperar no seio da comunidade espírita, onde todos devem opinar a respeito de tudo, se não for para esclarecer o grupo, pelo menos para facultar aos mais experientes a oportunidade de explanarem com sabedoria a respeito dos temas em descompasso com os ensinos da doutrina. Como também deixei o meu ponto de vista, tenho a obrigação de abrir o debate, para que todos os médiuns presentes disponham do mesmo tempo e da mesma atenção que nós dois merecemos. Quem quer fazer uso da palavra?

Moacir logo levantou a mão e foi designado para falar:

— Volto, com toda a simplicidade, ao meu parecer anterior. Qualquer discussão a respeito desse ponto relativo à morte ou não do Salvador na infamante cruz irá custar-nos horas exaustivas e já estamos suficientemente cansados, inclusive para julgar com imparcialidade a celeuma levantada. Voto pelo encerramento da sessão, através do término da leitura, para que todos nós tenhamos noção dos assuntos tratados, os quais, no mínimo, atiçaram a turma para a capacidade demonstrada pelo meu patrão e amigo, Plínio, em sufragar as comunicações imputadas a João Evangelista. Tenho dito.

Silvinho quis ser ouvido e logo lhe foi dada a vez:

— Concordo com Moacir mas não discordo de Severo e muito menos enfrento a lógica de Ariovaldo. Muito pelo contrário...

A turma percebeu a facécia e sorriu, como prevendo que os ânimos não se exaltariam mais.

Silvinho prosseguiu:

— Será justo aceitar qualquer escrito? Vou além: será justo desconhecer o esforço do confrade que se dispôs a incorporar um irmão, ainda que venha com o intuito de causar mal-estar e dissidência entre nós? Penso que não, respondendo a ambas as questões. Nem está certo aceitar qualquer coisa, nem é digno de espíritas que fazem jus a essa designação menosprezar o trabalho mediúnico. Sugiro, pois, que Plínio faça cópias integrais do texto, numere-as e distribua entre os que estão hoje aqui, desde que se prontifiquem a estudar a mensagem e a resguardar os segredos dela até que a deliberação final seja tomada a portas fechadas. Neste caso, rogo ao irmão Severo que não se furte a colaborar conosco, uma vez que as suas luzes, se ausentes, nos deixarão envoltos em nossa penumbra, em nossas sombras.

O último orador acompanhou as derradeiras palavras com um sorriso amável, tanto que Severo se levantou e veio dar-lhe a mão, correspondendo aos anseios de paz de que as suas ponderações estavam plenas.

Coube a Ariovaldo conduzir a votação:

— Quem concorda com a proposta de Silvinho permaneça como está.

Era a fórmula de decisão mais rápida, a qual tinha o condão de amenizar os rancores pela alegria que sempre despertava. Ouviram-se comentários abonadores e satisfeitos, de modo que o grupo pôde dissolver-se, depois que Ariovaldo solicitou a Severo que fechasse a reunião, com a prece que anteriormente prometera.

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