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Erótico-->31. A COMUNICAÇÃO POR INTEIRO -- 07/10/2003 - 06:56 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

A paz com que se encerrou a sessão não punha Plínio completamente tranqüilo. Pensou em comentar com Margarida o teor do texto mas se viu impedido pela condição imposta pelos amigos de se aguardar a liberação da mensagem.

No dia seguinte, abriu o escritório mais cedo do que de costume e acomodou-se diante do computador, para a datilografia das páginas manuscritas. Pediu e obteve a presença do espírito que lhe ditou a página, fez uma prece aos seus protetores, agradeceu ao Pai todo bem que estava desfrutando naquele momento da vida e pôs-se a trabalhar.

Eis como o texto teve seqüência:



“Penso que não poderei livrar-me da necessidade de estender-me, em outra oportunidade, a respeito desse surpreendente enigma, embora possa adiantar que os que se dedicaram a narrar-lhe a vida sugeriram que a descida da cruz poderia ter ocorrido com ele ainda vivo, porque, em seguida, se descreve o encontro do túmulo aberto e vazio, como ainda se contam alguns feitos em que o Mestre comparece para dar testemunho de si mesmo.

“Meus filhinhos queridos, o que me trouxe atormentado durante muito tempo foi o fato de que desobedeci às ordens de meu Rabi, crendo necessário redigir um texto de impacto moral e religioso, para o que cometi uma apropriação indébita, cujas conseqüências têm surtido efeitos deletérios até hoje, vinte séculos depois. É que, simplesmente, copiei trechos inteiros de diversos autores dos livros sagrados do Velho Testamento, compondo um quadro sinistro de previsões tremendas, destacando a fome, a peste, a guerra e a morte como os flagelos de que a humanidade não se livraria, até se extinguir por meio de uma hecatombe inexorável provocada pela Besta que situei nos infernos.

“Para comprovar o trabalho de transcrição, basta cotejar muitas das passagens do ‘Apocalipse’ com trechos de ‘Daniel’, de ‘Ezequiel’, do ‘Êxodo’, do ‘Gênese’, de ‘Números’, de ‘Reis’, de ‘Jeremias’, de ‘Isaías’, dos ‘Salmos’, dos ‘Provérbios’, de ‘Zacarias’, do ‘Levítico’ e dos demais evangelistas. E vejam que não citei a todos.

“Jesus, quando tomou contato com a obra, não se conteve e veio censurar-me asperamente, proibindo-me, terminantemente, de realizar qualquer outro comunicado em seu nome, porque, disse-me ele: ‘O povo ignorante vai deixar-se impregnar pelo terror e cada geração irá suspeitar de ser aquela a experimentar os horrores dos castigos do Pai.’ E perguntou-me, pondo-me alvoroçado: ‘Esse seu texto não está em conflito declarado com a minha amorosa pregação? Você, queridíssimo amigo, não acha que a felicidade deverá alcançar todas as nações um dia, apesar das maldades da hora presente?’ Para me aguçar ainda mais a percepção dos males que poderiam provir de minha tosca e primitiva exposição dos efeitos desastrosos dos pecados humanos, afirmou, sereno e compassivo: ‘Quando você tiver uma oportunidade, deverá confessar o intento de dominar os corações e as mentes através do medo.’ Eu, que estava no fundo do poço, mesmo assim, argumentei: ‘Senhor, estou proibido de fazê-lo.’ Jesus sorriu e declarou: ‘O futuro lhe demonstrará a verdade de minhas palavras.’ ”

“Como havia perpetrado outra inconveniência anterior, passei a preocupar-me, daquele instante até a hora de minha morte, apenas com o momento presente.

“A revelação daquele outro caso, nesta casa de oração e auxílio fraterno, irá produzir mal-estar sobremodo angustioso para os que se esforçaram por entender a natureza divina do Espiritismo. Mas não posso perder esta oportunidade de referir-me à minha precipitação que, embora bem intencionada, não teve o respaldo da comprovação de nenhum outro escritor evangélico, tendo os estudiosos de se louvar tão-somente no meu testemunho, para o prenúncio que depositei na palavra do Messias, qual seja, o de que enviaria um ‘Consolador’, que denominei de ‘Espírito de Verdade’, para dar prosseguimento à construção de sua igreja. Mas esse informe terminou por sedimentar a doutrina espírita, porque a promessa ganhou foros de autenticidade, quando se aplicou ao nascente sistema filosófico de integral compreensão da existência.

“Prometo estar à disposição dos irmãozinhos para quaisquer informações e comentários que desejarem endereçar-me. Não vou, perdoem-me, coroar hoje estas manifestações que estou empreendendo, não só porque o meu instrumento está conturbando-se, como a seqüência do ditado demandaria tempo mais amplo.

“Amem-se uns aos outros com o mesmo elã do seu amor ao Pai. Graças a Deus!”



Quando Plínio datilografou a última frase, suava em bicas. Via e ouvia Severo a verrumar contra ele as piores observações, pela inobservância do preceito básico de somente atender os espíritos que desejassem dar comunicações de conforto, em harmonia com os preceitos das virtudes e da moral cristã e espírita.

Pensava, macambúzio:

“Estas idéias são muito mais bombásticas do que aquelas que me impeliam a desfalcar os cofres da empresa. Aquela intenção egoísta, pelo menos, causava apenas problemas materiais aos meus semelhantes. Este texto está eivado de subjetivas acusações, porque, historicamente, pinta quantos agiram em função dos pensamentos expressos por São João como alienados da realidade ou, o que é muito pior, usufrutuários das negras previsões. Em suma, está Severo absolutamente correto em restringir o conhecimento do inteiro teor da mensagem apenas a mim, na qualidade de médium. Se não der cabo dos originais e da transcrição, por minha conta e risco, vou ter de me aconselhar com Ariovaldo, no mínimo para que se prepare e me oriente para o chumbo grosso que os demais se sentirão na obrigação de atirar sobre obra, autor e intermediário.”

Quando não havia ninguém por perto, imprimiu uma cópia apenas e fechou o arquivo do computador com uma senha, para que nenhum penetra pudesse desvendar o seu segredo mediúnico, guardando o manuscrito numa repartição secreta da carteira.



Na primeira oportunidade em que se viu com o amigo no centro, puxou conversa para sentir qual fora a repercussão da indiscrição do mensageiro a respeito de o Cristo não ter morrido na cruz:

— Doutor, pelo amor de Deus, me ajude! Quando me trazem ditados pessoais, próprios para acalmar as pessoas tristes e acabrunhadas com as desgraças que ocorrem em suas vidas, não hesito em escrevê-las, designando, até com certa precisão, os nomes dos destinatários e dos desencarnados. Que devo fazer quando estiver sendo assediado por algum ente que se faz passar por espírito de luz?

— Caro Plínio, você tem feito o que nós temos recomendado. Não lhe dissemos para não colocar obstáculo nenhum, porque a crítica deverá ser posterior ao evento mediúnico?

— O que me preocupa é quanto à seriedade das informações. Não me consta que nenhum médium tenha dado comunicação que retire Jesus vivo do madeiro em que o pregaram.

— Com certeza, se alguém registrou esse acontecimento por influência espiritual, deve ter sido obstada quanto à publicação, como faremos nós, à vista das incongruências e demais fatos desconexos que se escreverem. Você efetuou a cópia que lhe pedimos?

— Pus no computador, mas os temas me pareceram tão absurdos que fiz apenas uma reprodução, que lhe trouxe, respeitosamente, mas com muito medo, porque acho que devo ter sido um marionete nas mãos de algum obsessor muito poderoso.

— Como é que você sentiu no momento do trabalho?

— Foi como se pairasse nas nuvens. Nessas horas, não sinto o peso do corpo nem qualquer preocupação que me desvie a atenção das frases que se compõem uma a uma. Já experimentei, algumas vezes, vibrações desagradáveis pela aproximação de espíritos que se revelaram inferiores, imperfeitos. Mas essas vezes em que o espírito João se apresentou foram da mais absoluta serenidade intelectual, como se tudo o que estivesse manifestando recebesse o alvará dos guias e benfeitores.

— Devo insistir, então, num ponto importante: jamais dê vazão a qualquer mensagem desse gênero estando em casa ou, como você tem feito, isolado, no centro, perante o computador. Deixe-me ver o texto, por favor.

Plínio tirou da pasta a folha em letras bem miúdas e, com o coração apertadinho, observou Ariovaldo durante a leitura, imprimindo à fisionomia as mais graves transformações.

Ao final da leitura, pediu o médico ao médium que se concentrasse e ambos oraram confrangidos um pai-nosso, que outra prece não seriam capazes de criar para a situação.

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