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Erótico-->33. OS PLANOS FRUSTRADOS DE PLÍNIO -- 09/10/2003 - 06:25 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Na sua concepção mais simples, o projeto do pai era saber se o delegado havia perdoado o agressor e fugitivo. Para tanto, precisava ouvi-lo de viva voz, dando-lhe, ao mesmo tempo, oportunidade de agir.

Conversou com Hortênsia a respeito, mas esta recusou-se a ceder o filho para a realização do plano.

Plínio insistiu:

— Ele não vai correr nenhum risco. Se os investigadores forem prendê-lo em casa, ele tem os documentos para provar que não se trata do Ovídio.

— Você está ficando louco. Vamos supor que o delegado imagine que o seu filho está com vocês. Se estiver com raiva, vai invadir de novo a sua casa e vai prender quem lá estiver. Até provar que o alho não é cebola, o meu menino pode levar uns cascudos...

— Eu não penso assim. Se ele entrar sem mandado de prisão, depois que eu tiver conversado com ele, vai saber que terá o pessoal dos direitos civis entrando com recursos muito sérios contra o poder constituído.

— Faça como você quiser, mas com o meu filho não conte.

Percebendo que Hortênsia não se dispunha a cooperar, procurou, na Mocidade Espírita do centro, alguém que se dispusesse a ir com ele à delegacia. Encontrou um velho conhecido do filho, mas esse foi Plínio mesmo quem não quis:

— Bem sei que você está tentando recuperar-se das drogas. Vai que é reconhecido por alguém e não irá sair de lá.

Como ninguém mais se ofereceu, Plínio entendeu que deveria agir sem levar ninguém para se fazer passar por Ovídio.

Numa tarde chuvosa, enfrentou o trânsito do bairro e aportou diante da delegacia. Entrou e solicitou uma audiência com o delegado, nomeando aquele que fora ameaçado. Não estava.

— Precisa ser ele? — perguntou o soldado junto ao balcão.

— Só pode ser ele.

— Pediu transferência. Está trabalhando no interior.

Ao saber o nome da cidade, Plínio sentiu um frio perpassar-lhe pela espinha.

Voltou correndo para casa e, imediatamente, ligou para ver se conversava com um dos filhos. Ambos estavam recolhidos aos seus dormitórios. Pediu, então, para falar com Cleto.

Depois de algum tempo, deu-se o seguinte diálogo:

— Alô! Pai? Que aconteceu?

— Conosco não aconteceu nada. Fiquei sabendo que o delegado do Ovídio está trabalhando justamente na cidade em que vocês estão.

— Eu já sabia.

— Como?

— Não posso explicar agora, mas vou escrever. Mas não se preocupe, porque o Bispo Moisés garantiu que tinha tudo sob controle. Posso pedir-lhe um favor?

— Diga.

— Vá ao instituto correcional e veja se consegue saber em que pé está o processo do Vidinho. Estou com medo de que ele tenha sido acusado de alguma coisa mais grave.

— Que coisa mais grave?

— Parece que os assassinos dos dois que morreram durante a fuga disseram que foi o mano quem praticou os crimes.

— Você tem certeza disso?

— Não sei em que pé as coisas estão, mas é bom ir verificar. O senhor vai?

— Eu vou mas não escreva, porque a sua mãe não pode ficar sabendo de nada disso. Escute: não seria melhor que vocês voltassem para cá?

— Para cair nas garras dos lobos? Muito obrigado. Eu lhe pedi para ir saber como está o processo, para saber como proceder daí para a frente. Se quisessem prender o pivete, o delegado já teria providenciado, porque ele sabe tudo sobre nós.

— Santo Deus!

— Fique frio! O diabo está sendo pintado bem mais feio do que é.

A conversa seguiria mais uns instantes, porém, Plínio não conseguiu demover o filho de sua decisão de permanecer onde estavam.

Naquela mesma tarde, correu a conversar com a insípida assistente social, com quem trocara as rudes palavras do tempo em que Ovídio estava preso.

— Vim conversar com a psicóloga responsável pelo processo do jovem Ovídio Saldanha.

O atendente procurou no arquivo, retirou uma pasta, abriu-a no último despacho e leu para o ansiado pai:

— O seu filho está sendo procurado, porque matou dois. Se o senhor sabe onde ele está, vai ter de dizer.

— Vou dizer para a autoridade. Agora eu quero falar com a psicóloga.

— Não está, no momento. Serve conversar com uma pessoa da administração?

— Serve.

O atendente indicou uma porta no fundo do corredor. Lá foi Plínio meio trôpego, mas sem se esquecer de orar pelos seus protetores espirituais. Bem no fundo da consciência, declarou, temeroso:

“Vocês ficam discutindo através da minha mediunidade problemas que apenas estão gerando insegurança no grupo do centro. Deviam dedicar o seu tempo, prevenindo-me desses graves assuntos que interessam à minha família. Quanta gente vem ditar cartinhas de conforto e de respeitoso aviso aos parentes vivos. Por que é que não me trouxeram as notícias dos fatos que podem prejudicar o meu filho?”

Não teve tempo, contudo, de ir mais longe nas considerações, porque, estranhamente, foi logo recebido no gabinete da senhora presidente da instituição. Feitas as apresentações, ela tomou a iniciativa das informações:

— Eu não acredito que foi o seu filho quem matou os menores. Mas uns quinze combinaram acusar o moço. Depois de a polícia investigar, chegamos à conclusão de que Ovídio, que não teve o apoio da psicóloga, diga-se de passagem, tendo em vista as declarações de seus amigos, aqueles que o ajudaram na fuga, os quais estão albergados conosco, sumiu da área em que esteve detido, sem passar pela zona em que se deram os assassinatos. Sendo assim, estou preparando um dossiê que será remetido ao juiz, solicitando que o denunciado fique livre das acusações, embora estejamos torcendo para que ele se entregue, porque deve cumprir a sentença que o condenou a ficar recluso até a maioridade. Se o senhor tiver confiança em nossa instituição, diga onde podemos encontrá-lo ou, o que seria bem melhor, peça a ele que se apresente.

Plínio estava zonzo com tantas informações, jogadas sobre ele em catadupas de palavrório. Percebeu, todavia, que deveria agradecer à boa vontade da funcionária que o atendera, ao discernimento dos que investigaram o caso e aos colegas do rapaz, que não tiveram medo de falar a verdade. Os olhos marejaram e as mãos tremeram. De relance, perpassou-lhe pela mente que fora injusto para com os protetores, os quais, se tivessem informado a respeito do que estava acontecendo, poderiam trazer desassossego e desequilíbrio, inclusive em relação ao trabalho mediúnico.

Em lugar de se prontificar a responder, estendeu aquele momento de emoção, para poder retratar-se com os benfeitores, elevando uma prece de agradecimento ao Pai.

Tanta foi a dor que demonstrou que a presidente o socorreu com um copo de água, que ele bebeu com muito gosto, rogando intimamente fosse fluidificada.

Insistiu a severa mulher:

— O que vai ser? Temos de ir buscar o moço em sua casa ou ele virá de livre e espontânea vontade?

— A senhora tem de compreender que o coração de um pai fica muito pequenino quando lhe dizem que o filho matou alguém. Eu vim pensando muito nisso, embora soubesse que ele está inocente, porque fiquei sabendo como foi que ele fugiu. Contaram à senhora que ele me pediu o último dinheiro que eu tinha, dizendo que precisava fazer uma tatuagem? Pois empregou as minhas economias com o aluguel dos serviços do grupo que o transportou para fora da cidade. Por isso, ele está longe daqui...

— Mas o senhor sabe muito bem onde.

— Sei mas seria trair meu filho se lhe contasse onde ele está.

— Não tenho outro recurso senão informar ao meritíssimo que deve intimá-lo.

— A senhora foi tão gentil em me receber e em livrar meu filho das acusações. Se eu lhe disser que ele está trabalhando com os pastores de um templo de culto protestante, longe da vida de crimes, posso contar com a sua comiseração?

— Quando é que ele vai completar os dezoito?

— Daqui a um ano e meio.

— O senhor disse que ele não está com a família. Podemos mandar alguém para comprovar?

— Com certeza. O quarto dele está vazio, depois que vendi tudo que pertencia a ele e ao que morreu.

A narrativa do desastre que vitimou o mais novo amenizou a carranca da administradora. Sentiu que o pai tinha outros motivos para sofrer. Então, Plínio fez render a loucura de Margarida e o desaparecimento de Cleto. Mostrou-se em recuperação financeira e espiritual, fazendo questão de explicitar alguns de seus trabalhos junto à comunidade espírita. Chegou a perguntar se a interlocutora tinha fé religiosa.

— Acredito em Deus mas não freqüento nenhuma igreja.

Em suma, para encerrar o episódio, Plínio alcançou que o relatório seguisse sem ênfase ao fato de Ovídio permanecer foragido. Quem compulsasse o processo, depois de pronto, não saberia que o fugitivo não tinha sido recapturado. Automaticamente, Ovídio deveria considerar-se livre de qualquer perseguição policial.



Saldanha, no etéreo, não esfregava as mãos com a mesma certeza.

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