Usina de Letras
Usina de Letras
                    
Usina de Letras
72 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 56831 )
Cartas ( 21161)
Contos (12584)
Cordel (10014)
Crônicas (22151)
Discursos (3133)
Ensaios - (8956)
Erótico (13388)
Frases (43355)
Humor (18383)
Infantil (3751)
Infanto Juvenil (2630)
Letras de Música (5464)
Peça de Teatro (1315)
Poesias (138029)
Redação (2918)
Roteiro de Filme ou Novela (1053)
Teses / Monologos (2394)
Textos Jurídicos (1923)
Textos Religiosos/Sermões (4770)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Erótico-->36. UM GRANDE SUSTO -- 12/10/2003 - 07:17 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Estava Ovídio distribuindo alimentos aos mendigos da praça. Passava da meia-noite. Os obreiros e os pastores, com os repórteres da igreja, tinham partido. Cleto ficara para trás, porque havia dois sacos de pães e alguns mais de roupas para distribuir. Com eles, o motorista do Bispo Moisés, o mesmo segurança que acompanhara os irmãos à casa dos pais e o Pastor Honorato. Eram cinco e o pessoal a atender inumerável, famílias inteiras de “sem-teto”, muitos homens caídos, bêbados, jovens sob efeito de craque e maconha, crianças a chorar, sob os impropérios dos insones.

Enquanto Ovídio e Honorato iam passando agasalhos e sanduíches, Cleto preenchia fichas e mais fichas, com os nomes dos miseráveis, na tentativa de identificá-los, segundo o registro que consultaria no dia seguinte na sede do templo, a fim de caracterizar quantos eram novos e quantos não tinham dado atenção aos apelos anteriores da busca da palavra do Senhor.

O guarda se mantinha pronto para entrar em ação, caso algum abusado investisse contra os missionários. O motorista não ficava ao volante, mas vigiando de longe a perua, que mantinha com a trava do câmbio acionada, zelando pelas chaves escondidas.

A zona era de muito perigo, principalmente porque estavam os necessitados invadindo a região do comércio, o que, como era sabido dos bons samaritanos, propiciava emprego a muitos malfeitores encarregados de afastar à força os que se atrevessem na área que reputavam oficialmente e por direito das taxas e impostos pagos de seu domínio.

Outro risco era o das ações dos traficantes enganados por consumidores inadimplentes, os quais não hesitavam em atirar nos devedores e em quem os pudesse reconhecer.

Finalmente, podiam ocorrer batidas policiais, pela desconfiança de que marginais estivessem escondidos entre os párias da mendicância, em especial quando se davam rebeliões nas cadeias, com fugas de presos.

De repente, diversas viaturas policiais surgiram de vários pontos da praça, faróis que se acenderam de súbito, despejando enorme contingente fortemente armado. O povo parecia acostumado com a brutalidade uniformizada e não deu mostras de temer os abusos. Não houve um só que não fosse intimado a mostrar os documentos. Efetuaram-se diversas detenções, justamente dos que não portavam identificação. Esses foram simplesmente arremessados no camburão, com ameaças e palavrões. Houve um que recebeu saraivada de golpes, porque possuía um canivete cuja folha retrátil saltava para fora do cabo a um simples toque no botão. Armas de fogo não foram achadas e a operação não durou mais do que trinta minutos.

Os cinco homens da igreja foram reunidos e forçados a acompanhar os policiais à delegacia. Norma do novo delegado.

No caminho, Honorato, através de seu telefone celular, alertou o pessoal da sede, dando-lhes as coordenadas da ação. A resposta veio de imediato:

— Não se preocupem. Mandaremos a força advocatícia, com o apoio logístico do Bispo Moisés.

Brincavam, naturalmente, cônscios de que nada havia para temer. Entretanto, assim que o grupo chegou ao distrito, foram os cinco recebidos na porta pelo delegado que se transferira há pouco, aquele mesmo do entrevero com Ovídio, Doutor João da Silva Medeiros, que já está passando da hora de apresentar aos leitores.

Anacleto sentiu um leve puxão na camisa. Era Ovídio a demonstrar quem era a figura.

“Vamos ter uma cena”, refletiu o jovem candidato a pastor.

Mas a recepção da autoridade foi surpreendentemente conciliadora:

— Vejo que o meu amiguinho Ovídio, finalmente, deu o ar da graça. Você deve ser o irmão dele, Anacleto Saldanha, pois não?

— Muito prazer, Doutor...

O delegado declinou o nome e convidou os dois a entrarem em seu gabinete. Contudo, Honorato, que estava a par do que acontecera, buscou interceder pelos rapazes:

— Doutor Medeiros, por favor, não me deixe de fora. Afinal de contas, sou o responsável eclesiástico, por assim dizer, dos irmãos Saldanha.

— Sei quem o senhor é, Pastor Honorato. Fique sossegado que reconheço o poderio de sua igreja e que não vou abusar do meu direito de retirar de circulação dois cidadãos contra quem existe mandado de prisão. Em todo caso, entre também, para que, mais tarde, ninguém me acuse de excesso de autoridade.

Enquanto os quatro se acomodavam no recinto fechado, o segurança como que passou em revista a turma designada para os trabalhos noturnos, tendo tido a satisfação de cumprimentar três amigos dos tempos em que pertencera à corporação. Suas relações eram cordatas, tendo havido várias prestações de mútuos serviços, o que permitia ao empregado do pastor entender-se a respeito dos interesses do delegado quanto a reter os dois irmãos. Foi assim que ficou sabendo, muito discretamente, que o aparato militar contra os pedintes e caterva encobria o real objetivo de capturar os protegidos da igreja.

Munido do mesmo celular, o ex-policial encareceu a necessidade de se tomarem providências urgentes, relatando o que ouvira diretamente ao Bispo Moisés.

Enquanto o socorro não chegava, Medeiros pressionava Ovídio de forma muito delicada:

— Tenho obtido informações a seu respeito, meu jovem. Sei que está morando no local de trabalho, que tem freqüentado a escola, que tem ido a alguns bailes da pesada, que tem consumido drogas...

Ovídio desejou interromper o delegado mas Cleto, sentado ao lado, segurou-lhe a mão, pressionando-a significativamente.

João percebeu o gesto e sorriu. Depois ofereceu a palavra a Ovídio:

— Se estou dizendo alguma coisa que contrarie os fatos, conteste à vontade.

— Tudo bem. O senhor pode prosseguir.

— Claro que posso. E vou. Sei que tem adquirido bebida alcoólica e cigarros e que tem levado para dentro do templo. Imagino que leve também maconha, craque e cocaína, mas isto eu não posso comprovar.

Dessa vez, Honorato não se conteve:

— Doutor João, o senhor está comprometendo os pastores e quantas mais pessoas de bem são abençoadas por Jesus, em nome de Deus, sem que possa justificar a sua acusação, conforme o senhor mesmo afirma estar imaginando.

O delegado recostou-se na cadeira de alto espaldar, fê-la girar na direção do pastor e se pronunciou, impregnando a voz de absoluta seriedade:

— Meu amigo e prezado Pastor, não se abespinhe, que não vou formalizar nenhum boletim de ocorrência, mesmo porque a nossa conversa é reservada. Com certeza, o senhor está a par de que esse seu amiguinho me encostou uma lâmina na barriga, obrigando-me a entregar-lhe carteira, documentos, o relógio e até o paletó. Só não me levou a arma porque o inepto não percebeu que havia uma no coldre do cinto que fiz girar para trás. Se quisesse abatê-lo, poderia ter feito pelas costas, que os dois meliantes que o acompanhavam nem armados estavam. Agora, não me venha com histórias de Jesus Cristo nem de Deus. Vamos ficar por aqui mesmo, numa boa, porque não pretendo mandar de volta o menino para o “reformatório”, vamos dizer assim. Quanto ao mais velho, salvo o fato de ter providenciado o desaparecimento das prateleiras da drogaria de certos produtos de tarjas vermelha e preta, com que finalidade desconheço, não tem feito outra coisa além de seduzir a filha do dono e enganar os trouxas com a história de que se reformou, de que não mais pratica o tráfico, porque Jesus lhe apareceu e lhe deu alvará para ser perfeito.

Anacleto percebeu que algo soava muito falso na pregação do delegado. Por isso, não se estimulou a oferecer defesa, encarando as informações como produto da experiência de quem já lidou muito com a criminalidade e seus adeptos.

“Esse sujeito está plantando verde para colher maduro”, concluiu. Mesmo assim, para dar a impressão de que se ofendera, levantou a mão, como um aluno disciplinado a solicitar ao mestre permissão para falar.

O delegado não foi muito cordato desta vez:

— Se for para dizer que estou mentindo, é melhor calar-se, porque não é remota a hipótese de que posso lançar mão dos recursos de investigação que o governo proporciona. Em todo caso, diga o que seja para se defender.

— Desculpe-me, Doutor, mas Vossa Excelência está enganado. Não me admira o fato de saber como é que me apresentei aos crentes de nossas dioceses, porque foram atos públicos e nós não pedimos documentos às pessoas que nos procuram. Lamento que não o tenha reconhecido nalgum dos cultos de que participei. No entanto, se o senhor quiser, tenho diversos vídeos integrais de minhas confissões e posso oferecer-lhe para acompanhar os documentos com que formulará as acusações contra mim. Se tiver de me apresentar perante o tribunal dos homens, estou às suas ordens ou de qualquer juiz investido de autoridade. Se, mais ainda, for condenado, embora injustamente do meu ponto de vista, porque me considero redimido, livre dos meus pecados, esforçando-me por compreender os desígnios de Deus para comigo, oferecendo aos pobres, nas praças e debaixo dos viadutos, de onde fomos bruscamente subtraídos ainda há pouco, a comida e a roupa que eles não têm, ainda assim me resigno a aceitar a sentença. Não veja, porém, nestas minhas expressões, nenhum desrespeito à sua autoridade policial nem à sua condição de filho de Deus, meu irmão e parceiro, nesta caminhada rumo ao Reino. Quanto ao meu mano Ovídio, recebeu o Bispo Moisés a palavra de honra do Senhor Delegado de que somente o recolheria, se ele se apresentasse ao crime de novo e lá onde o senhor se encontrava. A sua transferência para esta região, quero crer, não afetará o seu voto de manter-se...

Não pôde prosseguir, porque a reunião foi interrompida. Era o guarda anunciando a chegada do Bispo Moisés e de dois advogados.

— Acomodem-se, por favor! — Era o Doutor Medeiros a oferecer as poltronas que os rapazes deixaram vagas, indo eles ocupar as duas cadeiras que vieram da outra sala.

Moisés foi diretamente ao ponto:

— Sei que o senhor, meu amigo, não pleiteou à toa sua transferência para esta cidade. Veio com o intuito de se aproximar destes jovens. Nem a diligência desta noite teve nada mais em mira do que esta reunião, modo muito criativo de equacionar um problema que precisamos resolver. Há duas modalidades de solução. Vou tentar a primeira. Ovídio, por favor, peça perdão à autoridade que você ofendeu.

Pego de surpresa, o rapazelho titubeou e precisou de alguns segundos para se refazer do choque. Mas os pensamentos se desembaraçaram com rapidez, de sorte que lhe voltou a presença de espírito que os longos pronunciamentos haviam proporcionado. Tentou organizar algo com concatenação, mas a premência da imposição do bispo fez com que improvisasse:

— Doutor Medeiros, queira aceitar o meu pedido de desculpas. Devo dizer que o tempo que passei preso apenas aumentou o meu desejo de vingança. Mas a liberdade me fez ver que o senhor estava com a razão e eu pude me arrepender de todos os meus crimes e vícios. O senhor sabe muito bem os horrores que vivem as crianças e adolescentes nas mãos dos depravados. Aquela parte de noite que passei na delegacia, eu acho, foi o bastante para me fazer reconhecer o quanto fui injusto para com meus pais. Mais tarde, ferido no meu orgulho, precisei de todas as forças de minha inteligência para me manter inteiro dentro daquele covil... Naquela época, não faz tanto tempo assim, eu falava palavrões e me calava, fazendo-me misterioso. Correu que eu havia ferido gravemente um delegado. Deixei que acreditassem nisso. Era melhor para minha segurança. Mas voltar para lá, eu lhe peço, por amor de Deus, eu não quero, principalmente depois que conheci tanta gente de bem, tantos homens de Jesus.; agora que sei o que é oferecer tudo o que se possui para tornar a vida dos outros um pouco mais digna. Não sei o que o senhor quer exatamente de mim. Mas sei o que preciso dar-lhe para poder merecer a bênção de Deus. Bispo Moisés, muito obrigado por este momento em que pude dizer tudo o que venho armazenando em minha mente e em meu coração nos últimos dias, desde quando fiquei sabendo que o Senhor Delegado estava trabalhando na cidade. Podia ter fugido, mas estou preso à Igreja, ao meu irmão, aos pastores e aos bons amigos que fizeram da minha vida algo de valor. Se preciso dizer que nunca mais vou me drogar, eu digo, porque existem coisas no mundo de muito maior importância para um jovem fazer.

Ovídio tinha outras idéias que poderia desenvolver. Julgou, todavia, que tinha ido muito além do que precisava para demonstrar que não era tolo, que fugira uma vez e fugiria outras tantas quantas se visse detido.

O delegado tinha mais um ponto a observar:

— Eu não posso dizer que fiquei contente por me ver assaltado por um “pivete” de quinze anos. Mas não aceito a acusação de que pedi transferência para satisfazer meus desejos de vingança. O que me trouxe foi a idéia de ter sido enganado, quando o Senhor Bispo lá esteve a se entender comigo. Só depois é que fui comunicado de que Ovídio matou dois menores durante a fuga.

Ovídio quis protestar mas Moisés fez-lhe um sinal para que deixasse o barco correr. Medeiros prosseguiu:

— Vim para reparar um erro muito grave, porque me julguei pessoalmente envolvido. Contudo, há menos de uma semana, em contato com as autoridades responsáveis pela apuração dos crimes, fiquei sabendo que o meu desafeto não teve nenhuma participação nas mortes. Disseram-me, também, que se aproveitou da sedição dos menores para pôr em andamento um inteligente plano, o qual incluiu o “achaque” ao próprio pai, que lhe deu todo o dinheiro que levantara, pensando que iria ser utilizado para uma tatuagem intimidadora. Todos estão a par disso?

Ninguém deu demonstração de que se interessava pela narrativa. Medeiros, então, desejou pôr um ponto final no que chamou de qüiproquó:

— Eu poderia ter ido atrás dos dois, para nos entendermos. Como, porém, seria recebido? Era a minha incógnita. Trouxe-os aqui, na esperança de promover justamente este distúrbio para despertar a comunidade religiosa para o meu conflito entre cumprir o dever e “fechar os olhos”. Aceito a ação dos pastores e do Senhor Bispo e não ponho em dúvida que Ovídio e Anacleto estejam falando a verdade. Peço, porém, aos responsáveis por eles, ou melhor, pelo Ovídio, porque a Anacleto já não se podem imputar os crimes cometidos durante a menoridade, uma vez que, sagazmente, permitam-me lembrá-lo, desejou enganar-me, oferecendo “teipes” que não significam mais absolutamente nada. Vão em paz.; mas não pensem que conquistaram a minha simpatia. No máximo, digo-o com franqueza, me comprovaram que são muito espertos e inteligentes. Se crêem realmente em Deus, como afirmam, irão criar juízo e nunca mais cairão nas malhas da lei.

As derradeiras palavras não impediram que Honorato estendesse a mão para demonstrar que agradecia o gesto generoso e magnânimo. Os dois advogados também se despediram protocolarmente. Anacleto hesitou em oferecer a mão, mas Medeiros tomou a iniciativa. Quando chegou a vez de Ovídio, o delegado pôde observar que o garoto tinha os olhos úmidos e disfarçava as emoções. Puxou-o para si e o abraçou, sussurrando-lhe ao ouvido, sem que ninguém mais ouvisse:

— Sou eu que devo pedir-lhe que me perdoe! Lembre-se de mim em suas orações.

Aturdido, o moço não soube o que responder. Recebeu sobre o ombro o braço do irmão e se retiraram, ficando para trás apenas Moisés, que solicitou que todos se fossem, ficando apenas o motorista e o segurança.

Fechada a porta do gabinete, Moisés tomou a iniciativa:

— Falei em duas saídas. Estou contente de que a primeira tenha sido satisfatória. Mas não posso deixar de ouvi-lo quanto à segunda. Com quanto devo contribuir para as obras sociais em que o senhor está envolvido, porque não ignoro que tem freqüentado um centro espírita muito carente, onde tem posto boa parte de seu ordenado?...

Medeiros observou atento todas as nuanças fisionômicas do pastor, sendo incapaz, no entanto, de penetrar no âmago dos sentimentos do outro. Mas considerou a proposta honesta, porque lhe havia dado a oportunidade de uma decisão consciente, tendo em vista o destino do dinheiro. Resolveu, todavia, rejeitar a oferta, por mais substanciosa pudesse ser, não tendo como justificá-la perante as discrepâncias doutrinárias das duas instituições. Respondeu, simplesmente:

— Compreendo que Anacleto e Ovídio signifiquem muito para a sua igreja, porque são conquistas valiosas, como pude avaliar através de suas lúcidas exposições. Mas não vou me aproveitar desta oportunidade para “cumprimentar com chapéu alheio”. Caso, um dia, se fundirem as diretrizes doutrinárias das duas tendências filosóficas e religiosas, as trocas de favores se sedimentarão no princípio da caridade. O senhor deve ter percebido que tenho problemas sérios na formação dos profissionais da repressão ao crime. Procure ajudar-me educando o povo nas leis de Deus, fazendo com que as famílias se reúnam em torno do bem e do amor. Eu me sentirei reconfortado, se o meu amigo Moisés retirar a proposta. Obrigado.

O acordo foi selado com um longo aperto de mão, reiterando o bispo que o delegado poderia contar com ele para o que fosse.

Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Perfil do Autor Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui