Usina de Letras
Usina de Letras
   
                    
Usina de Letras
102 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 54601 )
Cartas ( 21043)
Contos (12053)
Cordel (9422)
Crônicas (20970)
Discursos (3102)
Ensaios - (9880)
Erótico (13102)
Frases (39648)
Humor (17532)
Infantil (3554)
Infanto Juvenil (2304)
Letras de Música (5408)
Peça de Teatro (1309)
Poesias (135308)
Redação (2862)
Roteiro de Filme ou Novela (1035)
Teses / Monologos (2371)
Textos Jurídicos (1912)
Textos Religiosos/Sermões (4143)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Textos_Religiosos-->MEU PRIMEIRO MANUAL DE SOCORRISTA -- 02/03/2005 - 06:57 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER






MEU PRIMEIRO MANUAL DE SOCORRISTA


Turma dos Irmãos em Deus


“A todos serão pedidas contas, não só do mal que tiverem feito, mas do bem que tiverem deixado de fazer.”
Allan Kardec (Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Trad. de Júlio Abreu Filho. [s. ed.], São Paulo, EDICEL [s.d.] — Quinto ano, janeiro de 1862, p. 7.)






Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP



ÍNDICE

Despertar ...................................
1. O ponto .....................................
2. Predomínio da matéria .......................
3. Materialismo sutil ..........................
4. Sem mistificação ............................
5. Arrependimento tardio .......................
6. A resposta ..................................
7. Necessidade de um corpo espiritual ..........
8. Caprichos de poeta ..........................
9. Pálido como a morte .........................
10. Bendito recurso .............................
11. Utilizando o instrumental ...................
12. A alegria do comunicador ....................
13. Das interdições .............................
14. Os números da sorte .........................
15. É e não é exatamente isso ...................
16. Do socorrismo institucionalizado ............
17. Atividades perigosas ........................
18. Limites para as informações .................
19. Dos exercícios probatórios ..................
20. A felicidade de servir ......................
21. Diante dos fracassos ........................
22. No plano terrestre ..........................
23. Reprimendas e elogios .......................
24. Continuação da anterior .....................
25. A ajuda externa .............................
26. Da avaliação e da reciclagem.................
27. Do método ...................................
28. Das mensagens de amor .......................
29. Dos apetrechos ..............................
30. Dos talismãs ................................
31. Dever cumprido ..............................
32. Acréscimo de misericórdia ...................
33. Buscando o conforto pessoal .................
34. Mister Dash .................................
35. Avaliando o trabalho ........................
36. Conhece-te a ti mesmo .......................



DESPERTAR

Começando do princípio, rogo ao Senhor que me ampare neste empreendimento muito acima de minha capacidade.
É assim que exponho o primeiro sério problema: o de que o espírito que escreve não possui as qualidades exigidas para a realização da obra. No entanto, ao correr da pena, demonstro não ter sido fiel à verdade, pois o texto vai constituindo-se com certo rigor lingüístico, impróprio para atribuir-se a entidade desprovida de méritos intelectuais e culturais.
— Não seria melhor suprimir o muito acima de minha capacidade?
Penso que não, porque este desenvolvimento visa a indicar a riqueza dos argumentos e a pobreza do tema. Eis que caracterizo a opacidade de minha constituição mental, uma vez que dou primazia ao enredo e destituo de valor o conteúdo.
— É muito complicado este entrecho. Não quer dar início de novo, começando, realmente, pela prece em que roga inspiração ao Pai?
Vou responder esclarecendo que, quando digo que vou me arriscar em terreno desconhecido, cumprindo a missão que me foi atribuída pelo professor e amigo Otávio, da Escolinha de Evangelização, quero referir-me ao fato de que a maioria dos companheiros desta minha Turma dos Irmãos em Deus tem recursos muito mais ricos para melhor desempenhar o papel de escritor. Por outro lado, a assertiva me leva a considerar-me apaniguado pela fraternidade, dado que posso adicionar a informação de que não redigirei sozinho, pois receberei a ajuda deles.
— Surge outro senão que precisa ser esclarecido. Com que simplicidade se pode asseverar que há entidades no grupo mais indicadas para a elaboração da peça, ao mesmo tempo em que se comete a indelicadeza de mencionar outras menos dotadas?
Se ficar nas explicações de tudo quanto escrevo, não estarei incorrendo em falha de caráter de grave dimensão? Não estarei dando prioridade a mim mesmo, egoisticamente, quando deveria estar preocupado com os meus semelhantes, fornecendo aos encarnados pistas para viverem melhor os seus dias, com o fito de fazerem jus aos prêmios e recompensas que Jesus prometeu aos bons, aos justos, aos que fossem capazes de cumprir as leis de Deus, suplantando os próprios males, na busca da felicidade alheia, contentando-se com ela, a ponto de renunciarem aos privilégios sociais e regalias íntimas de se compreenderem acima da média das pessoas?
Penso que esta forma de exposição de um trabalho de fôlego tenha logrado êxito, apesar de haver obtido apenas a aprovação dos colegas e o nihil obstat do mestre.
— Afinal de contas, de que trata o nédio volume que tenho em mãos? — há de estar perguntando algum leitor desavisado quanto à necessidade de prosseguir lendo, para não adquirir preconceitos nem idéias falaciosas.
Mas respondo, ainda assim, para não fugir, pelo meio mais fácil, de me pronunciar a respeito das intenções da equipe. Somos uma turma que necessita prestar serviços na área das reações dos homens em crise emocional, a partir de problemas que não se põem na ordem do dia como necessários, mas como simples desafios. Ora, se não provocarmos os leitores, se não lhes dermos razões para refletir sobre seu comportamento moral, se não lhes oferecermos motivos de desajustes momentâneos, através da suscitação de dúvidas, de exames e de respostas provisórias, como é que iremos analisar, de um lado, as acomodações psíquicas e sugerir, de outro, as soluções protocolares fundamentadas nos ensinos espíritas cristãos?
— Sendo espírita, já não é cristão?
Eis a primeira demanda, cuja resposta, acredito, não é difícil.



1. O PONTO

Deve o leitor figurar um ponto, como único ser existente. O mais é apenas não-ser.
Obrigatoriamente, o pensamento deverá situar a pessoa que nos atendeu dentro desse ponto, uma vez que, fora dele, nada existe.
Como cada um de nós possui a noção de corpo, ou seja, cada um concebe que seu próprio ser tem dimensão, também deverá imaginar que esse ponto seja todo um universo, ou não constituirá como possível a correspondente criação mental daquele ponto.
Está difícil?
— Não está, a menos que seja simples brincadeira sem sentido, com o claro intuito de me fazer relacionar dimensão com universo tangível, segundo o conceito de sensação extraída dos meios que possuem os seres vivos de entrar em contato com a realidade. É isso?
Brincar não terá sido um termo muito feliz, porque o objetivo do autor não será jamais o de pôr a perder a sacratíssima oportunidade mediúnica. Então, melhor será dizer que se trata de um jogo que se inicia pela compreensão das regras, porque os participantes têm de conhecer para aplicar, tendo em vista o bom sucesso do empreendimento.
Estando dentro do ponto e sabendo-se que existem concepções que englobam o espaço e o tempo, procure o amigo imaginar um ponto em que não possa adentrar com o corpo físico. Explicando melhor: faça desaparecer as noções de espaço e de tempo, como se o avançar e o retroceder não se dessem através da transformação de energia em trabalho. Como é que você faria para interagir com os indivíduos de sua espécie, no interesse do mútuo progresso?
— Agora complicou, deveras. Seria como se eu me dirigisse às outras pessoas apenas através do pensamento?
Muito bem posto. Todavia, apenas está respondida a questão parcialmente, porque qualquer pensamento é produzido por tendências psíquicas fundamentais, aquelas que se situam na própria natureza das criaturas. Falta, portanto, acrescer uma noção. Qual?
— Tradicionalmente, junta-se ao intelecto isento de vibrações emocionais a necessidade de compartilhamento provocada pelos enlaces dos sentimentos. Terei acertado?
Na mosca. Sendo assim, as vibrações íntimas daqueles seres em dimensões diferentes das que vigoram na realidade universal, como se dispõe a matéria neste âmbito da existência, devem exigir outro tipo de condições, para que se realizem os intercâmbios. Posso adiantar que todos os mortais entretidos por religiosidade natural ou por concepções organizadas a partir de códigos teológicos têm de aceitar o fato de que, após a morte, crendo-se na persistência de algum elemento a que se pode dar o nome de alma, espírito, centelha, flama, algum outro plano de realidade deve receber a parte essencial do ser que se desfez, uma vez que os restos materiais se integram no cosmos, através de leis específicas.
Ou crê o amigo que se deveriam conservar as carcassas, mumificando-as, para ulterior aproveitamento, caso se der o regresso daquele ingrediente vital que se desprendeu?
— Preciso responder?
Faça o que considerar melhor para prosseguirmos nestas considerações pouco usuais. Se achar que estamos variando, que nos desviamos do objetivo de auxiliar no entendimento do porquê da existência, ponha de volta o livro na estante, até que tenha um tempo para estas filosofias.
— Vou responder, mas com a intenção de chegar apenas até aqui. Não tenho observado nenhum ressuscitamento dessa espécie. Os antigos egípcios, caso tiverem mantido o interesse em cultuar os organismos perecíveis guardados nos sarcófagos, devem estar frustradíssimos com as constantes violações de suas crenças, através da deterioração inexorável dos cadáveres. Posso ir um pouco além?
Esteja à vontade, por favor.
— Para encerrar definitivamente, pergunto-lhe, caro mensageiro, se passou pela sua (como direi?) cabeça, mente, inteligência, a hipótese da clonagem humana, ou seja, a perpetuação do mesmo indivíduo pelo recurso científico da interpretação do núcleo das informações que dão forma aos seres, o ácido desoxirribonucléico.
Não vou dizer que vim buscar lã e saio tosquiado, porque o tema levantado por meu virtual interlocutor está nas minhas cogitações desde algum tempo. Contudo, cabe ao meu real amigo, você mesmo que conduz os olhos sobre o texto impresso, buscar uma resposta sua, para o que vou dar-lhe algum tempo, pelo menos até o próximo capítulo.



2. PREDOMÍNIO DA MATÉRIA

Quem pretende resolver o problema da imortalidade aplicada aos humanos através da anulação dos códigos genéticos incrustados no D.N.A., ou seja, no ácido desoxirribonucléico, está mui simplesmente fazendo prevalecer o materialismo sobre todas as tendências espiritualistas.
Fazendo uso da fantasia, ou seja, ampliando o poder da imaginação para o campo da ficção científica, alguém poderá supor que a Ciência progredirá a ponto de intervir na Natureza, alterando as cadeias protéicas da síntese vital que se reúne naquele feixe de informações para desenvolvimento dos seres vivos, padronizando o complexo químico desde a fixação das características de determinada faixa etária, criando o segmento seguinte exatamente igual ao anterior, possibilitando que a juventude se estenda até o final dos tempos.
— Quero saber se entendi. Caso os cientistas genéticos consigam operar transformações válidas dentro dos elementos constitutivos do ácido desoxirribonucléico, metamorfoses que seriam reconhecidas pelo organismo vivo, que respeitaria as informações acrescentadas ou modificadas, agindo em consonância com elas para a manutenção do ser em estado inalterado de vida, então se poderia obter a chamada fonte da juventude, existindo a pessoa ou o animal sem nenhuma deterioração pela idade, apenas sob o risco dos acidentes para que lhe sobrevenha a morte. É isso?
Muito bem. Mas não se pense que o autor espiritual esteja fazendo previsões nem sugerindo que os encarnados atuem nesse sentido. Estou integrando-me na maneira de pensar dos cientistas que não crêem em nada além da matéria ou que se supõem com poderes de criação dentro do fértil setor tecnológico.
Vamos um pouco mais fundo nestas concepções e imaginemos que, realmente, os homens passem a reproduzir-se através da clonagem, elegendo certas personalidades de mérito incontestável quanto aos recursos intelectuais para a multiplicação dos indivíduos. Políticos, filósofos, cientistas, homens de grande vitalidade e eugenia, mulheres formosas, expoentes das artes e muitas outras categorias de pessoas saudáveis forneceriam os elementos com que formar exército de grande poder criador e transformador, elaborando as leis e os sistemas capazes de pacificar os ânimos por meio do enriquecimento de todos. E toda essa gente seria imortal, com o respaldo do cálculo das probabilidades dos desastres naturais, para efeito das margens de segurança estatísticas, para que não se perca definitivamente nenhuma espécie de clone.
— Seguindo a mesma linha de raciocínios, este interlocutor virtual pode deduzir que, em sendo materialistas os criadores dessas entidades distintas, cada ser individualizado corresponderá, sem pôr nem tirar, ao que lhe deu origem. Comparando com o que temos na própria natureza, seriam apenas irmãos gêmeos univitelinos, que se diferenciariam entre si pelas impressões que recebessem, segundo as circunstâncias existenciais em que se inserissem.
Com certeza. E qual a conseqüência ideológica desse serviço prestado à humanidade, sempre do ponto de vista de quem não aceita outra dimensão existencial além do que posso chamar de universo sensório?
— Quebrando a cabeça, posso dizer que, se estiverem certos, não causarão nenhum ganho significativo, porque, após alguns milênios, se sobreviverem a toda sorte de acidentes físicos, acabarão vendo os esfacelamento da Terra, precisando, se desejarem prosseguir vivos, criar um meio qualquer de se projetar no espaço sideral, com suficientes recursos para atingir um planeta em condições de receber os seres perecíveis transformados em imortais.
E cada vez que um deles morrer... Conclua, por favor.
— ...apagará definitivamente a sua presença como indivíduo, restando ser cultuado pela recordação dos demais, sem saudade alguma, porque a clonagem tem a subida condição de fornecer substitutos à altura dos que forem desaparecendo.
Por outro lado, se não for muita pretensão minha, creio que a repetição dos dias e dos trabalhos (e dos gozos), sem crescente compreensão dos valores humanos, dada a estagnação mental produzida pela fixação dos caracteres físicos, redundará em tediosa condição de imobilidade.
— Gostaria de interromper a intrigante viagem para dentro da mentalidade eivada de conceitos fundamentados nas percepções sensórias e conseqüentes deduções crivadas de positivismo pragmatista, como se o ser humano nada mais fosse do que o resultado de milenares adaptações das espécies animais ao meio ambiente, para dar meu testemunho de desagrado por me ver excluído do rol das pessoas escolhidas como modelos da perfeição física e intelectual, principalmente porque a minha cadeia genética jamais receberá o tratamento que me daria a eterna juventude. Como sei que vou morrer e como não desejo cair no conto do embalsamamento, quero que o meu compadre autor se dedique aos aspectos espirituais que prometeu fornecer-me para me proporcionar condições de crescer em virtudes.
Peço-lhe que tenha paciência até a próxima seção e que medite a respeito do fato deste escritor haver escolhido tema tão cheio de preciosismos culturais, como se cada leitor de carne e osso dispusesse de saber lingüístico suficiente para decifrar os conceitos impressos nas frases, como ainda discernimento para extrair das entrelinhas as sugestões que não ocupariam, se expressas, menos que o volume correspondente a uma enciclopédia. Pense também se não estou sendo por demais convencido. Obrigado.



3. MATERIALISMO SUTIL

Antes de adentrar os portais da espiritualidade propriamente dita, é preciso estimular o meu caro leitor no sentido de se definir por uma idéia muitíssimo comum entre os encarnados, qual seja, a de que, após o final dos tempos, ao som das trompas celestes e demais coros de anjos, os homens retornarão ao âmbito terrestre para a separação dos bons e dos maus, dos merecedores do divino perdão e dos que receberão o eterno castigo das chamas infernais.
Muita gente, não importa saber por influência de qual religião, supõe que os melhores irão herdar a Terra, isto é, ficarão no estágio de pureza e de inocência primitivos, como Adão e Eva no Paraíso, eternamente a usufruir as benesses dos prados floridos, da fartura dos alimentos, da isenção dos ataques das moléstias, na companhia de seus pares, esquecidos dos inimigos e das pessoas outrora amadas e que se perfilharam entre os excluídos da felicidade e bem-aventurança dos justos.
Não se trata aqui de outra formulação da mesma teoria materialista? Não é verdade que os bens estão condensados no orbe terráqueo, agora pleno de paz e de suprema assistência divina? Você, meu caro amiguinho, que acha disso?
— Penso que qualquer que seja o estágio de superior felicidade não haverá de ser gozado com o corpo que se tem neste mundo, em que o sangue corre pelas veias e ameaça jorrar sempre que alguém abrir um corte nos tecidos, atingindo os vasos e demais partes do aparelho circulatório. Em outras palavras, com o mesmo aparato corpóreo, não haverá de existir a glória excelsa dos que possam residir em esferas de maior beatitude.
Significa dizer que se deve transformar o organismo no sentido de seu aperfeiçoamento para a superação dos males físicos. É isso?
— A menos que Deus concorde com os humanos desejosos desse tipo de plenitude moral, fornecendo-lhes autonomia física e domínio sobre a natureza.
Para Deus, evidentemente, nada é impossível. Resta saber se para toda a humanidade essa alegria de volver ao plano terreno satisfaz. Se não for assim, haverá, provisoriamente talvez, uma distinção entre a felicidade de uns e de outros, porque alguns ficarão descontentes. Ora, qualquer idéia de transitoriedade ao final dos tempos, conflita com o ideal da perfeição absoluta, ou o que mais perto disso pode atingir a criatura, na aproximação do Criador, conforme todas as religiões instam para que compreendamos. Se os tempos acabam e se o espaço desaparece, viver sobre a crosta, com certeza, não passará de estado de contemplação do belo e do bom, o que, vamos convir, pode ocorrer em outras circunstâncias ou dimensões.
Caminhemos mais uns metros por esta mesma estrada e vamos analisar outro aspecto ainda mais engenhoso do materialismo, qual seja, o de que há pessoas que concebem a reencarnação integrada à teoria evolutiva. Não são apenas os espíritas que aceitam semelhante tese. Muitos orientais acreditam nesse volver constante e cada vez mais aperfeiçoado dos espíritos à carne.
Para essas pessoas, as civilizações, com a educação espiritual dos indivíduos, também vão depurando-se, oferecendo leis morais cada vez mais próximas das chamadas leis de Deus, aquelas citadas por Jesus, a partir do amar ao Criador e ao próximo, sem esquecer os inimigos (que, uma vez amados, se transferem para o círculo das amizades). Esse constante evoluir das instituições humanas tende ao infinito, de sorte que se pode esperar, se assim for, que um dia, antes do soar das trombetas acima aludido, os seres que se encarnarem não vão encontrar muitos obstáculos para a realização de seus ideais de captação dos padrões morais, filosóficos, religiosos, culturais etc., justamente aqueles que lhes servirão de passaporte para a etapa existencial seguinte.
Até aqui, a exposição visa a demonstrar que é possível tal desenvolvimento de ordem espiritual. O problema começa a surgir quando o aperfeiçoamento atinge os mesmos níveis que estabelecemos para o agasalho, nesta dimensão, daqueles outros irmãos que acreditam que deverão volver ao planeta para seu jornadear pela eternidade. Caso haja um mínimo de dor, de falência, de insucesso, de frustração, se exacerbarão os vícios do egoísmo, do orgulho, da vaidade, da prepotência, da malícia, do amor-próprio etc., volvendo a humanidade a um estágio de luta incompatível com o regresso visado ao paraíso terrestre, conforme a noção bíblica, quando o primeiro homem e a primeira mulher vagavam puros pelos jardins encantados, sem o perigo dos insetos peçonhentos, dos animais selvagens, das viroses letais...
— Quer dizer que o amigo não acredita em que o ambiente terreno possa agasalhar seres muito mais evoluídos do que os que presentemente vivem em todos os continentes?
A pergunta é capciosa, porque eu não disse que não vão avançando as criaturas nas sendas da virtude e da verdade, rumo ao reino do Senhor. O que estou afirmando é que, sem dúvida, as condições climáticas, o estado do solo, a poluição das águas, o envenenamento da atmosfera, a destruição das defesas naturais terminarão por inviabilizar a permanência no planeta de seres corpóreos cuja adaptação não se dará sem que se transformem completamente, elegendo, por exemplo, outro tipo de tecido orgânico para enfrentar a ausência do oxigênio e para a filtragem dos gases que predominarão e que, atualmente, são nocivos ao homem. Ora, a criação de outros meios de absorção dos ingredientes que manterão a vida corresponde à formação de outra espécie de seres, os quais poderão advir da atual estrutura mas não haverão de apresentar muita coisa em comum com os ancestrais. Mal comparando, é como se pode inferir a partir das transformações por que passaram os seres vivos desde o aparecimento das moneras, no fundo dos oceanos.
— Explique-me, por favor, a razão de não admitir o expositor que os corpos evoluam a par do aperfeiçoamento espiritual.
A própria questão incide na falha dessas pessoas que mais veementemente aspiram a volver ao mundo para vivenciarem a nova ordem humana: são materialistas; querem dar prioridade aos ganhos no campo energético do cosmos em que se inserem na qualidade de encarnados. Não privilegiam os ambientes menos densos e, portanto, mais quintessenciados. Por outro lado, não compreendem que outros seres existem necessitados de perpassar pelas mesmas fases evolutivas, segundo as provações específicas deste mundo.
— Entendi perfeitamente a exposição, embora não concorde que os espiritistas dêem tanto valor à evolução de caráter material.
Realmente, os que o fazem são bem poucos. Dei-os como exemplos de certa tendência para a prevalência de suas certezas sobre as dúvidas dos estudiosos que levantam problemas na área dos conhecimentos teóricos de maior profundidade interpretativa, aqueles que exigem das pessoas a compenetração de que estão impedidos de tudo conhecerem pela própria natureza de sua compleição intelectual.
— Então, eu lhe agradeço a confiança depositada em minha capacidade de discernimento e lhe solicito que vá adiante, ainda que minha inteligência se perca nos meandros especulativos das hipóteses.
Claro está que não posso deixar de instigar os leitor real, fazendo-o refletir sobre as suas aspirações quanto ao futuro imediato ao desenlace carnal. Se se considerar um pouco materialista, sugiro que reforme os conceitos espíritas, para a compreensão dos tópicos seguintes.



4. SEM MISTIFICAÇÃO

Muitos ignoram o fato de estarem sendo vítimas de obsessão e se dão ao trabalho mediúnico com certa displicência, como se fosse natural que os protetores e anjos guardiães se dispusessem favoravelmente às solicitações sem higidez e sem respeito às personalidades espirituais que alcançaram elevar-se por diuturno devotamento aos semelhantes.
Esta é outra falácia provocada pelo sentido materialista dado aos anseios de caráter existencial superior. Explico-me melhor: cada ser humano que investe nos pensamentos científicos de forte conotação religiosa, como sejam os ensinamentos evangélicos contidos nas explicações kardecianas, nota, desde logo, que coube a Jesus a pregação maior para a realização do princípio do amor, cabendo ao codificador do Espiritismo ressaltar os aspectos materiais e naturais dos fenômenos que, durante quase dois milênios e ainda hoje em certas instituições religiosas, foram considerados miraculosos e sobrenaturais.
— Devo entender que o tópico de hoje se refere aos filiados ao movimento espírita, nos centros, uniões e federações que se dedicam à prática da doutrina registrada na obra de Allan Kardec?
Vou ligeiramente além, pois pretendo referir-me inclusive às pessoas que se limitam a estudar nos livros, estabelecendo para si um roteiro vinculado às lições que ali se desenvolvem.
— Falta explicar o título.
Meu desejo é o de evidenciar que as pessoas estimam ganhar todas as discussões cujos temas decorram dos pontos doutrinários, para o que se metem em estudos polêmicos e em trabalhos arriscados. São pessoas não muito conscientes da intervenção dos espíritos nos atos envolvidos por esse halo de orgulho e vaidade. Quando estabeleço que até pessoas isoladas caem nessa armadilha, estou referindo-me à ascendência que sofrem de certas entidades que se infiltram em suas mentes, promovendo sentimentos de repúdio a quantos irmãos não soletrem as palavras pelo mesmo abecedário.
Vou dar um exemplo, porque a dissertação está ganhando contornos de profundo mistério.
João, chamemo-lo assim, era um indivíduo cioso de suas opiniões em todos os campos do conhecimento. Vivia dizendo que sabia discorrer sobre poucos temas, mas intrometia-se em quantas disputas se desenrolavam entre as pessoas de seu convívio. Um belo dia, diante dos pares da mesa mediúnica, deu oportunidade a um espírito de força moral e intelectual superior à sua para se manifestar. Era absoluta novidade, porque, toda vez que algum amigo do plano espiritual se dirigia a ele, solicitando os serviços de mediação, impunha como condição o poder de compreender o que redigia, escrevente que era. Aí, ao contrário do que acontecia habitualmente, começou pelo título. Qual era? Evidentemente: Sem mistificação. Advertiu, por estar consciente dos termos que transferia para o papel, que o desenvolvimento poderia referir-se a ele mesmo, dado que vinha percebendo que os textos resultantes de sua pena eram muito parecidos uns com os outros, nunca extrapolando os limites de seus conhecimentos. Ora, o amigo que o procurara trazia o rascunho de mensagem mais abrangente, de orientação menos específica, de aconselhamento a todos os companheiros médiuns daquela casa de benemerência, pretendendo que o texto pudesse adquirir nível lingüístico capaz de merecer publicação, ao menos, no jornalzinho da entidade. Que fez o nosso João? Obstruiu a passagem de maneira bastante sutil, transcrevendo as vibrações transformadas em idéias, através de palavras denotativas de que estava conturbado. Vinha-lhe o pensamento de que deveria escrever: “O médium que atende aos irmãos capazes de mais extensas dissertações...” Redigia, porém: “Quando a pessoa se vê orientada a partir do etéreo por espíritos eruditos, desejosos de expender opiniões pessoais...” Com sua intromissão, desvirtuou a diretriz temática do mensageiro, impondo ao texto as impressões subjetivas de sua própria personalidade. Terminou executando um pasticho de nenhuma importância, acrescentando, ao final, um conselho que lhe foi dado pelo espírito orientador da sessão, mas escrevendo a seu jeito: “Todo médium deve ter o cuidado de reconhecer a categoria do comunicador, para oferecer-lhe os conselhos e advertências a respeito da boa vontade com que deve aceitar as recomendações evangélicas de Jesus. Fique o irmãozinho escrevente tranqüilo, porque o irmão obsessor está sendo conduzido para internação no setor de psiquiatria do hospital de nossa colônia.” Na verdade, deveria ter escrito: “O nosso médium João não percebeu que o espírito que o procurou se inscreve entre os melhor dotados que já vieram ministrar conselhos aos encarnados por intermédio de sua pena.” Sendo assim, desprezou todas as explicações que poderiam apontá-lo como mistificador, porque não aceitava o fato de haver quem soubesse mais do que ele, afogando-se nas palavras, sem considerar a maior profundeza das considerações existenciais. Satisfez-se com estar tranqüilo após o abandono do mensageiro, porque adquiriu a certeza de que estava livre para estabelecer um fecho que correspondesse ao aviltamento do texto.
Tendo desencarnado, após alguns anos de peregrinações pela erraticidade, o nosso João foi conduzido ao Departamento de Reproduções das Atividades da Vida, para contemplar os momentos mais importantes e decisivos de sua encarnação, tendo ficado absolutamente contrariado consigo mesmo, ao observar o quanto de materialismo conservara na alma, porque não fora capaz de atribuir aos benfeitores e guias o poder de estimulá-lo através de idéias que lhe fomentassem um rebuliço na consciência.
— Preciso interromper, porque não quero ficar tanto tempo sem oferecer as minhas dúvidas e as minhas considerações, as quais sempre visam a possibilitar ao encarnado o sossego de estar cumprindo as obrigações cármicas. Não é verdade que os serviços prestados no campo da mediunidade se postulam como de acréscimo aos deveres corriqueiros dos humanos? Quero dizer e afirmo-o que os médiuns se esforçam para além do que se pede ao comum dos mortais. Isso não deve ser levado em conta, quando vêm obter dos mestres as notas relativas ao seu procedimento na Terra?
Não tenho como refutar a assertiva. Nem gostaria de fazê-lo, porque estaria contrariando as leis que regem a consecução dos trabalhos voltados para o próximo. No entanto, quem se propõe a exercer qualquer tipo de atividade dentro da seara espírita deve proceder à limpeza de sua mente primitiva, adquirindo os conceitos do amor e do desprendimento, sempre em nome de Jesus. Trabalhar como médium apenas para futuras recompensas não está entre os tópicos que serão apreciados como dignos para a oferta de melhores condições existenciais dentro dos padrões e regulamentos de qualquer colônia orientada para o favorecimento do progresso dos espíritas.
— Espero que, no decorrer das próximas aulas, possa elucidar todos os aspectos que me ficaram nebulosos nesta complicada dissertação. Posso suspeitar de que o médium com quem trabalhamos tenha interferido?
Absolutamente, não. O amigo está consciente de que estamos oferecendo subsídios para a reflexão do leitor. Aliás, caminhando nesse sentido, por que o encarnado não se dedica ao esclarecimento completo de suas decisões a respeito dos pontos polêmicos em cuja discussão se enreda, não para conhecer a verdade de cada tópico, mas para deslindar definitivamente o tônus sentimental ou os eflúvios emotivos que interferem na aceitação dos pontos de vista contrários? Faça isso e verá que, imerso na profundeza de sua individualidade, encontrar-se-á consigo mesmo, antecipando, em tempo hábil, algumas denúncias que promoverão alterações proveitosas em sua disposição intelectual.



5. ARREPENDIMENTO TARDIO

— Começo eu, o interlocutor virtual, para dizer que não entendi direito a questão da revolta do amigo João da historinha do capítulo anterior, quando regressou ao etéreo e se inteirou dos elementos a que não deu a formulação mais próxima do ditado. Quer dizer que as pessoas são capazes de analisar, depois de ingressarem numa colônia aparelhada com o chamado Departamento de Reproduções das Atividades da Vida, não apenas as suas atividades conscientes, como ainda tudo quanto acontece nos refolhos do cérebro, junto a cada setorzinho de reminiscências geradas por tópicos e fugidios relacionamentos químicos ou físicos, em cada faísca elétrica que estabelece os contatos entre os neurônios e todas as fibras nervosas?
Não precisa esmiuçar muito os diferentes quadrantes cerebrais, porque entendi perfeitamente a sua dúvida. Vou expressá-la de outra forma e você me diz se estou certo. Preste atenção. Quando falamos em restabelecimento de todos os acontecimentos de que participou o indivíduo durante toda a sua vida, dando-lhe a exata contextura das emoções, a par dos fluxos e refluxos instantâneos dos pensamentos, estamos, na verdade, fazendo referência à capacidade de o espírito registrar e reconstituir cada momento. Se a pessoa, por exemplo, se vir injustiçada, agredida, ferida, tendo sofrido alguma espécie de perseguição da parte de outros seres vivos ou mortos, vai reagir de acordo com a sua elevação moral, podendo partir para o revide ou para o perdão. Por outro lado, o exame é tão rigoroso e perfeito que dá aos mais capacitados à percepção das falhas a interpretação da solução mais adequada ao reequilíbrio ou à harmonização da sociedade humana, gerando-lhes a necessidade de crítica e de correção. Da mesma forma que o sujeito agiu em consonância com sua aptidão mental relativamente aos dramas causados por outras pessoas, irá aplicar o princípio a si mesmo, podendo satisfazer-se com a revelação, para posterior procedimento de eliminação dos conceitos equivocados, ou contrariar-se, acusando-se de muitos defeitos, o que lhe propiciará momentos de profunda depressão e angústia. A sua dúvida reside, justamente, no insight ou na descoberta repentina de que a sua contextura psíquica ou intelectual não foi capaz de decifrar a tempo os problemas, como no caso do nosso amigo João, quando percebeu que deveria ter reproduzido as mensagens mais sérias sem as intervenções que as desfiguraram. O meu amigo virtual se surpreende perante a nova fórmula da realidade, asseverando que não possuía suficientes elementos para compor-se, no sentido de dar o melhor de si, nas circunstâncias em que a consciência o acusa de desleixo ou de imersão nos valores do mais pungente materialismo, aqueles que davam corpo ao aparato ideológico que justificou o fato de cuidar mais de si do que dos semelhantes. Claro está que a defesa também será examinada e esfacelada, pondo-se a nu o âmago imperfeito do espírito, que estava apto a agir em conformidade com os ensinos de Jesus, mas se deixou impregnar pelas vibrações deletérias das vantagens da encarnação.
— Não sei se foi tudo isso que me perpassou pela mente, porém, não posso assegurar que não tenha tido a intuição de cada fragmento de idéia, conforme a sua descrição. Na verdade, não posso diminuir a minha capacidade de entendimento, para lograr desvencilhar-me das acusações íntimas, favorecendo o aparecimento de mais uma crosta de alienação e de postergação dos meios de adquirir o progresso, pela vergonha de passar aos companheiros o sentido de minha inferioridade ou de minha imperfeição.
Quem tem de reclamar, nesta altura do campeonato, é o amigo encarnado, pelo exagero das abstrações, segundo o ponto de vista decalcado nos princípios válidos apenas para os seres despojados da densidade corpórea. Mas é exatamente sobre essa base que repousa a nossa argumentação, qual seja, a de que, antes de serem pessoas humanas, todos os seres encarnados são espíritos. Apelando para as noções incluídas nas obras de Kardec, diríamos que os cuidados para com a alma (considerando tecnicamente esse termo como o espírito enquanto habitante de um corpo material, nesta dimensão dos chamados encarnados) devem lograr prioridade, orientando-se todas as tendências para a consecução dos objetivos morais superiores integrados na psique dos indivíduos, por força da atuação dos protetores ou dos anjos guardiães empenhados na incrustação do perispírito dos seus pupilos na hora da concepção.
— Mas é isso o que se aprende em todas as religiões!
E quem disse que iríamos enquadrar-nos em fórmulas diferenciadas, apenas porque proviemos de outra esfera existencial? O nosso exame da realidade é que tende para o aperfeiçoamento das diretrizes, enquanto concretização dos anseios de cada qual, num evidenciar impostergável de que nem tudo quanto se aprende através do intelecto, aceitando-se as premissas como verdadeiras, se transforma em ação ou reação coerentes.
— Daqui o sentido do título, porque, tendo o arrependimento despertado depois do passamento, é ele tardio em relação ao momento mais propício para a ruptura com os acima referidos anseios de caráter material, o que deveria ocorrer durante a existência dentro da dimensão humana.
Como temos tido a preocupação de oferecer uma espécie de exercício ao final de cada capítulo, não podemos deixar passar esta oportunidade de ouro para acicatar a mente do leitor de carne e osso com a questão que ele mesmo deve ter elaborado: “Os raciocínios do autor da obra suportariam o mesmo tipo de exame que está requerendo dos pobres mortais?”
Eis que se abre um novo universo de idéias. Pense nisso.



6. A RESPOSTA

— Eis-me de novo, a presença virtual, para reclamar do estranho pedido de reflexão a respeito dos valores em que imergem os raciocínios do mensageiro. Que importância terá se o mortal acatar ou rejeitar o modo de existir de qualquer pessoa? Será sempre indiferente para a absorção das diretrizes, com vistas ao crescimento de cada ser humano. Caso o leitor não realize os exercícios, não perderá nenhuma oportunidade de percepção de como age a psique imersa no drama da orientação, tendo em vista a personalidade em crise de auto-afirmação de quem ensina. Aliás, será que existe quem alcance objetivos evangélicos mais expressivos tão-somente assim?
Concordo e devo dizer que não era outra a resposta que almejava, porque tenho espicaçado o discernimento do mortal, sempre no intuito de vê-lo cada vez mais autônomo em relação aos ensinos emanados da espiritualidade, porque sempre haverá de ser muito superior o aprendizado adquirido à custa das experimentações. Claro está que a teoria descrita a partir dos estudos e da vivência dos mais velhos deve despertar o interesse para os problemas e para a prontidão perante a novidade das circunstâncias. Contudo, sem o sofrimento causado pela premência das soluções aos desafios, poucos haverão de sair-se bem tão-só pelas informações mais ou menos aprazíveis dos relatos ou das dissertações.
— Também não pretendia ir tão longe. Bastava-me o ponto em que nem todas as notícias são capazes de despertar para a verdade, principalmente quando o nível de existência não atingiu os graus de elevação do redator. Terei de exemplificar para tornar mais claro o meu pensamento. Imagine-se um rapazola de seus treze anos de idade, de escolaridade normal, sem lampejos de genialidade, às voltas com problemas extraídos dos manuais universitários. É o mesmo que se dá quando os que estão num plano existencial de tanta coerção quanto o terreno são chamados a considerações que mal-e-mal compreendem os que se matricularam nas escolas na colônia, após passarem temporadas mais ou menos longas pelejando contra a mais grosseira ignorância. Se nem os daqui têm condições de compreender as reações mentais dos monitores, que se dirá de quem está preocupado em pôr comida na mesa, em oferecer segurança e paz aos familiares, em manter os filhos nos educandários para aprenderem a vencer as dificuldades da vida?!...
Poderá o leitor concluir que não estamos orientando-o no sentido de reagir em consonância com a perfeição. Vamos entender-nos. Queremos (e estou falando em nome da classe) que os que se encorajaram a ler estas manifestações tenham a certeza de que os problemas são muito sérios e devem ser encarados cientificamente, com o espírito voltado para a realização de quanto benefício em prol dos semelhantes seja possível. Esse possível representa a coerência entre o que se sabe correto e o que se entende como premente do ponto de vista emocional. Deixando mais fácil, posso dizer que os pensamentos devem possuir a contextura da verdade e as emoções, a lisura das virtudes, segundo o grau de desenvolvimento evolutivo de quem sabe ler e escrever ou ser capaz de compreender as palavras de Jesus ao nos afirmar que não devemos querer para os outros um tico a menos do que desejamos para nós.
— Tenho de intrometer-me de novo, para prevenir a argúcia de certos indivíduos que gostam de brincar com o poder do intelecto, useiros e vezeiros em desvirtuar o sentido do que se diz. No caso, poderão elaborar um sofisma, qual seja, o de que, em sendo débeis em qualquer aspecto da personalidade, irão pleitear para o próximo a mesma ruína com que se regozijarão, por estarem impregnados de pessimismo e de más intenções, não se importando com os prejuízos que a sorte lhes reserve, porque tendem ao desperdício da vida. Feito o reparo, acredito que o leitor poderá consignar para nós mais um pontinho na área da responsabilidade.
De qualquer modo, tive o ensejo de revelar algo mais da formação do nosso caráter, segundo o currículo que a administração da colônia instituiu para a Escolinha de Evangelização e que os professores cumprem à risca. Não obstante, deixamos de propósito os informes meio truncados e sem sistematização, para que sejamos reinquiridos pelos mais interessados, porque sempre existem aqueles que desejam estabelecer roteiros mais abrangentes de atuação espiritual, unindo os esforços mentais às contenções emotivas, para a concretização filosófica de um prisma espírita bem mais sólido do que as meras e fugidias intenções de ser bonzinho, de ser cordato, de ser generoso, de ser, enfim, crente, no mau sentido de tudo aceitar sem discussão, depositando nas mãos dos preceptores a responsabilidade do discernimento e a tarefa das preleções.
— Posso, já que reclamei da tarefa anterior, prescrever o próximo exercício?
Vamos lá!
— O amigo de carne e osso deve meditar a respeito das modalidades de consulta aos espíritos, para que possa reinquirir o mensageiro a respeito dos informes meio truncados e sem sistematização.



7. NECESSIDADE DE UM CORPO ESPIRITUAL

Não deve o título acima estimular a rejeição do tema a quantos conhecem O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, porquanto as explicações estão todas lá contidas, sendo justo que os espíritas se ponham de pé atrás ao se depararem com discussão aparentemente cediça. A minha turma, não obstante, após propugnar pela advertência que encabeça o texto, recomendou-me o máximo de simplicidade e clareza na exposição dos pontos que mais nos interessam, para fornecer ao encarnado outros subsídios com que se aparelhar para postura mais real, assim que transpuser os portais da morte.
— Sem o intuito de desviar a atenção para o secundário, temo que a observação inicial possa servir de pedra de tropeço para a mente do leitor mais atento, porque irá perguntar a razão de não ter havido a mesma precaução de simplicidade e clareza relativamente aos tópicos anteriores.
Penso que não preciso responder diretamente. Sugiro, entretanto, que se relacione a forma com o conteúdo e se extraia a noção de que a complexidade temática foi, de certa forma, contornada por redação criativa e estimuladora. Se não se concordar com o mergulho que propusemos nos conhecimentos necessários para a percepção daqueles pontos absolutamente verdadeiros, pedimos vênia para propor séria e imediata releitura dos capítulos anteriores.
Quando me referi a que o tempo e o espaço são criados a partir das leis físicas segundo as quais a energia se transforma em trabalho, disse também que, no etéreo, é o pensamento que rege o intercâmbio de fluidos. Não disse, porém, que, naquela esfera, não exista uma espécie de poder que exercem os indivíduos sobre a matéria sutil que compõe essa dimensão. Na realidade, através das forças de irradiação dos pensamentos, os espíritos criam o seu ambiente, conforme o seu nível evolutivo.
Já se afirmou alhures que muitos seres destas regiões são extremamente inferiores, mais do que muitos homens. Não seria justo considerar que o mundo em que habitam devesse ser ainda mais denso que o do universo tangível dos humanos? Pois é o que acontece, na realidade. Na erraticidade, os espíritos buscam aglomerar-se por afinidades morais e por vibrações físicas de mesmo comprimento de onda, se assim pudermos definir o chamado fluido cósmico universal, verdadeira atmosfera em que existem os seres após o decesso. Espíritos muito infelizes, ou seja, imperfeitos em todos os aspectos, por razões que não vou analisar neste item, não podem cotejar-se àqueles que dominam muitos dos ramos dos conhecimentos. Como é que, sem a correspondente ciência, alguém irá construir uma ponte? Hoje, a tecnologia permite aos homens vencer distâncias razoáveis, até por sobre o mar. Será que todos estão aptos a executar tal serviço? Pois o mesmo ocorre no ambiente de nossa esfera existencial.
Ora, para que os espíritos possam construir uma caverna que seja em meio ao todo em que imergiram, têm de se movimentar à maneira da Terra. Sendo assim, precisam constituir um envoltório fluídico de acordo com a natureza do lugar.
— Um momento, por favor. Estava este virtual interlocutor aguardando aquele deslize típico de quem faz afirmações muito categóricas e o meu amigo caiu na esparrela. Como é que, de repente, aparece o conceito de espaço, que tão ciosamente antecipou não prevalecer na dimensão espiritual?
Ainda bem que mantenho o controle dessa intrometida personagem. Respondo com o argumento de que o espaço e o tempo se criam internamente, como o próprio universo sensório está em expansão. Se o pensamento existe, tem um desenvolvimento qualquer, precisando evoluir para a formação de um contexto individualizado, ou seria a mais completa imobilidade, incompatível com a lei do progresso. Pessoas existem que acreditam nessa absoluta alienação das entidades, que não seriam afetadas nem interna nem externamente, conceito que se fixou como nirvana e que soluciona, em parte, o problema filosófico de que a criatura só pode alcançar a felicidade divina se perder a identidade, sem adquirir outra contextura que a obrigue a novos empreendimentos cármicos.
Ora (eis que a conclusão lógica se avizinha), se existe um processo de intervenção num ambiente, preciso será que haja meio de atuar sobre ele, transformando aquele novo tipo de energia em novo tipo de trabalho. Para tanto, existe a necessidade de instrumental corpóreo capaz de executar os serviços que a realidade da dimensão requer para a concretização (esta palavra cai aqui como uma luva) dos objetivos que visam a propiciar recursos para o regresso à carne ou para a sucção dos aperfeiçoados pela dimensão evolutivamente mais propícia a promover aos que superarem todos os defeitos, a compatibilidade das suas vibrações com as dos seres superiores.
— Se me permite a ranzinzice, preciso observar que o texto não está tão claro e simples quanto as recomendações iniciais fariam supor. No entanto, concordo em que o tema é deveras complexo, sendo muito difícil de oferecê-lo ao aprendizado do leitor, sem as referências obrigatórias às leis naturais vigentes neste quadrante existencial. Ainda bem que existe a possibilidade das analogias. Quero ver como é que se sairá o autor, quando as comparações não puderem ser realizadas...
Vou encerrar dando o nome de perispírito a esse corpo semimaterial, conforme se encontra na obra kardequiana. Como exercício, peço ao leitor adepto da doutrina espírita que cite de memória ou busque nos livros da codificação o trecho em que se explica se foi Kardec ou algum espírito quem criou o neologismo.
— Enfim, uma questão plausível!



8. CAPRICHOS DE POETA

Então, o meu bom amiguinho está a imaginar que vou partir para a mais pura fantasia, já que o título sugere algo em torno da capacidade de certos espíritos de exaltar a realidade, expondo os sentimentos num universo de beleza, em apelo às emoções.
— Fui citado. Quero o direito de resposta.
Vamos lá! Diga tudo o que lhe vem à mente, porque estou em vias de rejeitar a postura comprometida com a visão pessoal, uma vez que elejo a verdade como o resultado da aplicação dos princípios racionais à observação dos fatos e fenômenos, sem perder de vista que toda teoria se compõe a partir dos estudos científicos, através de metodologia apropriada.
— O poeta, pelo que me foi dado entender durante toda a minha existência, prima por intuir a verdade, sem interessar-se pelo rigor demonstrativo das causas e efeitos. Como, porém, não existe poeta sem que escreva, ou melhor, não existe artista sem que componha, pinte, esculture, cante, dance etc., precisa dominar uma das técnicas adequadas a representar a sua íntima vibração, diferenciada e única.
Vejo que o meu parceiro busca compreender os sensitivos como expoentes artísticos, logrando firmar ponto de vista emocional de maneira absolutamente coerente com sua potencialidade criativa, uma vez que, mesmo que copiem ou imitem, têm de apresentar obra que demonstre as características de suas personalidades, o que se pode denominar de estilo. Como é que definiria o amigo as pessoas que têm pendores para a expressão dos sentimentos através das palavras, ou seja, os poetas, os vates, os cancionistas, os ficcionistas, os literatos e quantos indivíduos se dedicam ao mundo da imaginação, ainda que tendentes a recriar a realidade, a constituir um universo em que o mundo se retrate de maneira ideal?
— Tenho a impressão de que o meu criador deseja que eu exponha, laconicamente, a tese de que são poetas os que fogem dos conceitos triviais expressos pelas palavras, o chamado sentido denotativo, para fabricarem nuanças de significados que não traduzam diretamente os pensamentos, mas busquem provocar nos leitores (inclusive estendendo a noção de leitor ao próprio produtor do texto poético, que será falado pela própria linguagem) fluxos e refluxos de idéias e de sensações emocionais, que repercutam não na inteligência propriamente dita, mas nos meandros da sensibilidade, abrindo-se as acepções em leque de possibilidades de entendimento, os chamados sentidos conotativos.
Vamos elucidar o nosso ponto.
Quando o mensageiro do etéreo traz notícias aos encarnados de como é a existência na erraticidade, desperta nos leitores as mesmas reações visadas pelos poemas, ou seja, abre-lhes a mente para um mundo equivocadamente fantasioso, porque trabalha muito mais com comparações e analogias do que com a exposição metódica da realidade espiritual. Fora disso, as descrições tendem a ser genéricas demais, levando os autores a se utilizarem de meia dúzia de vocábulos mais ou menos universais, como energia, vibração, fluido, sem que se alcance estabelecer um padrão mais rigoroso para a concepção de como se realiza a vida ou o existir nesse plano extracorpóreo.
Por isso, têm razão quantos recomendam que os espíritas apreendam os conceitos doutrinários através dos livros de estudos produzidos por Allan Kardec, refugando as obras diretamente produzidas ou orientadas pelos espíritos, já que tendem a fixar, nas informações, os tópicos sem o competente comentário elucidativo, passando aos encarnados o conhecimento de uma realidade sempre subjetiva, porque impossível de ser constatada pela experiência, pela observação ou pelo cotejo imprescindível de quantos trouxeram o seu interesse em tornar mais tranqüilo e confiante o advento ao etéreo dos espíritos, segundo mais justa visão do reencontro com o antigo universo.
— De novo, suspeito que a intrigante inteligência que me compôs se deu mal, porque afirma que os mortais não têm condições de entender proficientemente o mundo que espera por eles após a morte e, ao mesmo tempo, assevera que todos vão apenas voltar para uma realidade conhecida. Não haverá excesso de preocupação em trazer a quem tem outros interesses a novidade de conhecimento que se despertará de imediato, assim que se desfaçam as perturbações próprias da passagem de um estado a outro?
Concordaria plenamente com a censura, se o desconhecimento da verdade da existência de outra dimensão não conduzisse a reflexões e atividades em descompasso com os objetivos finais da vida corpórea. Sendo assim, conclua, por favor, que a nossa conduta se afina com os preceitos cristãos de praticar a caridade, desenvolvendo o amor pelos semelhantes, para que haja a salvação, segundo o lema de Kardec: fora da caridade não há salvação.
Pensando no conforto do amigo encarnado, reproduzo o texto que deve ter sido encontrado em O Livro dos Médiuns, quanto ao exercício do capítulo anterior: “Vemos que, quando se trata de exprimir uma idéia nova, para a qual a língua não possui termo, os Espíritos sabem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletromedianímico, perispirítico, não são nossas. Aqueles que nos criticaram por havermos criado as palavras espírita, espiritismo, perispírito, que não tinham termos análogos, poderão agora fazer a mesma crítica aos Espíritos.” Trata-se de uma nota de Kardec.
Como prática decorrente da exposição, deve o meu leitor real efetuar levantamento de quantas obras espíritas leu de maneira completa e crítica, estabelecendo para si mesmo se aceita as informações que são oferecidas através de textos poéticos, as que se encontram em obras mediúnicas de caráter científico e as que se registram nos romances de qualquer procedência.
— Da minha parte, estarei às ordens para partilhar das agruras morais dos que nada leram antes deste opúsculo.



9. PÁLIDO COMO A MORTE

Poderia o texto chamar-se “De pé quebrado”, sem qualquer problema para o entendimento do que iremos desenvolver.
— Tanto um quanto outro, ambos os títulos são esquisitíssimos!
Evidentemente, não queremos tornar as impressões fugidias dos humanos a principal característica da comunicação. Sempre que se foge do lugar-comum, arrisca-se a provocar reações de surpresa ou de espanto. Mas não é isso o que promove o sucesso entre os mortais? Não é o apelo para a admiração, para o arrojo, para o atrevimento?
Muitas vezes, até os tratados mais sérios, justamente aqueles destinados aos estudiosos, aos cientistas, aos doutores, é que causam o maior rebuliço entre as pessoas mais bem dotadas de sabedoria e de inteligência. São tantos os exemplos de obras que não vingaram em seu tempo que não nos vemos coagidos a citações. Baste-nos lembrar que, ainda hoje, as próprias obras da codificação são consideradas por muitos como absolutamente inverossímeis.
— Temo que, neste diapasão, o autor irá estender-se a respeito da estranheza que irão sentir os leitores deste opúsculo. Não haverá aí a presunção de brilho de forte luminosidade, como se os espíritos deste grupo se situassem em plano elevado, pelo menos no mesmo patamar daqueles seres superiores que ditaram as respostas às questões de Kardec?
Realmente, o nosso intento é o de comentar as dificuldades que enfrentamos ao discorrer a respeito de temas de interesse espírita, sem, contudo, estarmos sequer próximos dos amigos de Kardec, nem orientados pela lucidez de mentalidade de tão extensa cultura e tão profunda percepção dos valores quanto a do Codificador.
Este tópico, portanto, há de refletir na personalidade do leitor encarnado como a pedra de toque da humildade com que levantamos alguns problemas atuais, porque consideramos que os permanentes se encontram registrados, discutidos e explicados nas obras básicas da doutrina.
Sendo assim, a recomendação primeira se fundamenta na necessidade de amplo conhecimento das informações contidas naquelas obras.
— Por que não se fez a presente advertência ao início dos trabalhos?
Sabendo que os homens da civilização contemporânea são contemplados com textos muito próximos da imagética medieval, pois confiam em que são os anjos que administram o cosmo e as consciências, permitindo que os encarnados esperem deles verdadeiros milagres quanto às revelações de além-túmulo, quanto à intuição da verdade universal, quanto à orientação do procedimento, quanto ao aperfeiçoamento do espírito, através de rituais de obediência e respeito às forças sobrenaturais, tivemos que optar por começo de impacto científico, motivo pelo qual elegemos alguns tópicos de repercussão popular, porque veiculados pela mídia. Estabelecido o quanto de aspiração material integra a filosofia hedonista predominante e dispondo que tal objetivo é falacioso conforme a teoria espírita, estamos aptos a prosseguir estudando os mesmos temas, segundo a visão dos espíritos.
— Justificado está o tardio aparecimento da explicação. No entanto, perdoe-me a insistência, vir dizer aos espíritas que devem conhecer a fundo as obras de Kardec não será chover no molhado? Creio que, ainda que haja sutil reprimenda a muitos que comparecem aos centros espíritas, sem que se dediquem aos estudos com a energia intelectual mais apropriada, não se deveria destacar o óbvio. Vai-se acreditar que se trata de simples recurso retórico para valorizar o presente discurso.
Não fosse criação minha e esse meu interlocutor poderia ser classificado entre os obsessores.
Evidentemente, o gajo incidiu em grave contradição, sugerindo que estamos passando a idéia de sermos superiores e, ao mesmo tempo, aplicando a nós o figurino do impostor.
— Já entendi. Você está falando de si mesmo, para despertar no ânimo do leitor de verdade o interesse pelos temas e não pelo pobre autor destas pálidas dissertações.
Finalmente, uma observação inteligente!
Quero, sim, destacar do assunto a minha personalidade. É como vou desenvolver os próximos capítulos, crente de que estou sendo lido pelo que valem os comentários e não pela maior ou menor importância do autor.
Aqui hei de exemplificar.
Seja o mote dos clones. Do ponto de vista da implantação dos espíritos nesses corpos forjados pela genética in vitro, nenhum abalo há de sofrer o velho sistema natural de integração do perispírito do ente que está nascendo, como milernamente vem ocorrendo, quando da fecundação do óvulo pelo espermatozóide.
Nesse caso, a escolha do espírito a reencarnar é que irá requerer maiores cuidados, porque tem de ser buscado, a critério dos responsáveis pela administração terrena, dentro do grupo evolutivo a que pertence o doador das células de D.N.A.
Quero que o encarnado medite a respeito do fato de que estou instalando em sua mentalidade uma preocupação de aspecto mais lúdico do que vivencial, mais filosófico do que pragmático, mais misterioso do que passível de comprovação, justamente no caminho de Compostela, conforme aprendeu a ponderar, e não dos laboratórios e clínicas.
— Não sei o que acrescentar...
Pois é melhor mesmo que se contenha nos limites de sua fantasmagórica condição, simulacro de virtudes e guardião de minha pureza ideológica.
Que terá a concluir o meu bom leitor, caso não esteja com a intenção de largar o livro na estante, definitivamente? Se lhe restar alguma coragem, busque concentrar-se em seus conhecimentos do etéreo, imaginando como são as dimensões que recebem os seres que ascendem, tendo realizado todos os preceitos de Jesus.
— Quem é que entendeu o sentido do segundo título: De pé quebrado? Pois esse pé, segundo o dicionário, é a parte em que se divide o verso metrificado. Quando o verso é imperfeito, diz-se de pé quebrado. Foi como o meu mestre e senhor imaginou que poderia parecer modesto, referindo-se indiretamente à depauperada composição que está em vias de encerrar. Graças a Deus!



10. BENDITO RECURSO

Entre os humanos, existem o pensamento e a linguagem. Quando o indivíduo se emociona, se perturba, se exalta, se dobra perante a força dos acontecimentos e deseja manifestar o estado alterado, emprega a linguagem acompanhada de gesticulação, de esgares, de entonações diversas. No caso de se escreverem tais enunciados mais ou menos crivados de emotividade, criou-se sistema de descrição de como se encontra a personagem, porque não há termos específicos para todas as agruras e alegrias.
No etéreo, a comunicação entre os espíritos de mesma categoria se dá de maneira variada, desde a mais absoluta ausência de palavras, até a sutileza mais perfeita das vibrações, descodificadas com a máxima precisão pelos interlocutores. Isto se dá, se utilizarmos de comparação, como entre os animais de cada espécie, uns pipilando, outros rosnando, outros grasnando, outros guinchando, outros nitrindo, outros, os racionais, enunciando palavras, conforme códigos mais ou menos ricos para a tradução dos pensamentos e dos sentimentos. Entre estes, existem diferenças ponderáveis, desde o mais ignorante até o mais erudito. Também os níveis intelectuais os distinguem entre si, uns podendo mais, outros menos, sem contar que o aprendizado se dá conforme a sociedade.
— Demorei para intervir, mas devo assinalar que o quadro que se está pintando qualquer cidadão que tenha suficiente habilidade para ler e entender poderá imaginar. É preciso tomar cuidado para não se subestimar o leitor encarnado, dando-lhe informações que é capaz de haurir das próprias observações.
Agradeço a lúcida intervenção do amiguinho, contudo, devo avisá-lo de que estou elaborando tal quadro tendo em mira poder situar as considerações que se seguirão a respeito de como se dá o relacionamento entre os espíritos, em presença e a distância.
— Talvez porque tenha sido elogiado, tenho outra lúcida intervenção. Muitos autores espirituais mediunizaram textos com o mesmo objetivo de esclarecer os meios de que utilizam os desta dimensão para transferir conhecimentos. Existem, por exemplo, muitos relatos de como se ajustam as freqüências das ondas energéticas entre as entidades e os encarnados, durante o ato mediúnico.
Procurarei resumir para não ser repetitivo. Caso venha a ser, peço que me desculpem os leitores ilustres, como são todos os que perlustraram aquelas mensagens e ainda se mantêm atentos para a revelação de novos dispositivos.
A pergunta essencial dos encarnados é como se entenderão com os benfeitores, amigos e parentes, quando arribarem a estas praias.
Os que se situam entre os fadados a desembocar em áreas menos felizes, mais grosseiras, onde a sua habilidade, como me referi anteriormente, apenas consegue abrir cavernas no ambiente denso dos infortúnios, perderão muitos dos recursos atuais, porque se embrenharão nas profundezas de suas consciências perturbadas, apenas com o poder de exprimir os horrores do medo, da agressividade, da prepotência e demais manifestações com que imaginam afastar os inimigos reais ou fictícios, segundo estejam sendo perseguidos ou criando necessidades de defesa pelas acusações que se fazem. Após algum tempo no ambiente de sofrimentos, acreditando-se no direito de vergastar os adversários que lhes causaram males, passam a buscar vingança e se tornam os famigerados obsessores. Tanto num caso quanto noutro, a recordação dos crimes comporta a tradução dela através das palavras habituais de sua anterior peregrinação.
— Desculpe interromper, mas devo fazer uma pergunta muito simples. Em caso de inimigos que se utilizem de idiomas diferentes, como nos morticínios entre tribos selvagens ou entre exércitos de diferentes nacionalidades, como é que vão entender-se, se a linguagem de uns é incompreensível para os outros?
E, no entanto, se entendem, porque, em sua intimidade mental é que os pensamentos elegem um elenco de expressões e frases conhecidas. Quando, porém, se dirigem aos desafetos, o fazem com os recursos de seus perispíritos, ou seja, por meio de vibrações que denotam a agitação de seu psiquismo. Um leão não precisa esforçar-se muito para encher de medo (e de necessidade de fuga) o coração de suas prováveis vítimas, sem que se entendam através de linguajar uniforme. Muitas vezes, é suficiente o sentido do olfato.
À medida que os seres vão evoluindo, ou seja, vão admitindo que erraram ao contrariar as leis universais (aquelas que Jesus enfatizou, por exemplo) — e isso se dá sem contagem de tempo, através de multíplices encarnações —, todo retorno ao etéreo será um pouquinho menos doloroso, reunindo-se os indivíduos aos seus pares, conforme o nível espiritual. O crescimento vai sendo realizado em todos os setores do organismo perispiritual, o que inclui o aperfeiçoamento dos recursos de comunicação. Na Terra, diria que as pessoas vão incorporando ao vocabulário ou ao cabedal idiomático, palavras, expressões e elementos gramaticais mais sofisticados.
— Não está na hora de referir o digno instrutor ao meio ambiente em que se passam as informações de espírito para espírito?
Compreenderá o meu caro leitor que existe uma similitude entre a atmosfera terrestre e a que envolve as entidades no etéreo? Veja que estou falando em analogia e não em igualdade. Mesmo no campo denso da matéria, entre os corpos celestes, não há como alguém falar de viva voz, embora se possa estabelecer contato através de aparelhos energeticamente preparados para a emissão de notícias auditivas e visuais.
— Quero ver se entendi. As pessoas não se comunicariam sem a ajuda de sua inteligência e de sua experiência?
Isso mesmo. Parabéns! Ocorre, no entanto, que os recursos de comunicação espírito a espírito são tão ou mais perfeitos do que as transmissões elétricas e eletrônicas entre os encarnados, porque, em nossa atual dimensão, não há a necessidade de instrumentos em que se apoiarem as comunicações a distância, pois cada espírito se identifica por determinada extensão vibratória, reunindo-se por seus méritos e anseios em extensos conglomerados, mas mantendo a individualidade, de sorte que, discando-se o seu número, será ele mesmo quem irá atender, esteja onde estiver.
— Vou esclarecer um ponto que poderia constituir-se em dúvida para quem exige todas as explicações. Esse esteja onde estiver deve ser restringido por determinadas circunstâncias críticas em que a resposta não pode ser dada, como no caso de estar encarnado, de estar sendo recebido por companheiro mais importante, de estar em missão de socorro aos internados nas trevas e muitas outras situações inibitórias. Parece-me inteiramente compreensível que o esteja onde estiver tenha merecido a minha cooperação.
Obrigado! Já que você está tão ativo, passe a tarefa de hoje ao amigo terreno, por favor.
— Com prazer. Peço-lhe que medite a respeito das informações acima e que formule as suas dúvidas, porque a mim me pareceu que o tema não poderia ter sido tão sintetizado.
Um momentinho! Não foi você mesmo quem me pediu para ser breve? Como é que agora vem com a sutileza dessa recriminação?
— Não foi de propósito. Por isso lhe peço que me perdoe e que me mantinha ativo. Vou propor outro exercício mas antecipo que será muito mais penoso para o encarnado. Quero, na medida do possível, que o amigo busque, nos livros da codificação e em outros da extensa literatura espírita mediúnica, alguns ensinamentos que se acrescentem aos de hoje. Boa sorte!



11. UTILIZANDO O INSTRUMENTAL

Quero, antes que me perguntem, esclarecer que, no ato mediúnico, os espíritos se entendem, aquele que está na dimensão dos desencarnados e aquele que se encontra no orbe terrestre. Muito embora não necessitem das palavras, utilizam também o linguajar humano, segundo o repositório da memória do médium, para que se encontrem os termos mais apropriados e as frases mais bem (melhor) formuladas, para a tradução dos pensamentos dos mensageiros, segundo estejam mais ou menos eivados de emotividade.
Por outro lado, quando os espíritos estão há pouco tempo desenfaixados dos laços carnais, mantêm os vezos terrenos em quase todos os aspectos, de acordo com seu nível evolutivo. Por isso, muitas vezes as mensagens apresentam expressões ainda em vigor na sociedade, até mesmo quando se trata de linguagem específica de determinados setores, como a gíria dos bandidos, dos policiais, dos médicos, dos advogados, dos engenheiros, dos cientistas e assim por diante.
Mas esse aspecto pode ser buscado por mensageiro ávido por demonstrar que domina o idioma da personagem de que se reveste. Embora não esteja oferecendo comunicação verdadeira do ponto de vista da autenticidade pessoal, ainda assim é compreensível que deseje ver apreciadas as suas informações, porque imbuído da vontade de orientar para o bem. Neste caso, a busca das expressões se faz em colaboração com o médium, de acordo com o conhecimento que este possui do idioma.
— E se o médium não conhece o vocabulário, as construções sintáticas assim como os sistemas morfológicos pleiteados pelo mensageiro?
Se o aparelho mediúnico não satisfaz o princípio do acervo dos conhecimentos específicos, apresentará, evidentemente, o recurso de registrar mecanicamente o que lhe for ditado, como se o fizesse em língua estrangeira desconhecida. Vou um pouco além e consigno que até médiuns chamados conscientes, os que atuam na área dos conhecimentos evocados com a memória desperta, conseguem transcrever palavras desconhecidas, porque são levados a considerar os fluxos magnéticos semelhantes ao que pretende o espírito, até que atinam com um vocábulo que pode apresentar-se correto, segundo sua intuição idiomática, o que irá averiguar mais tarde, quando da correção das possíveis falhas ortográficas e quejandas.
— Seria o caso de solicitar ao nosso escrevente que exemplifique?
Absolutamente não, ou incidiria em postura incorreta perante os encarnados, fazendo-os crer em que vem participando muito mais ativamente da elaboração dos textos.
Seguindo adiante no tema das notícias trazidas aos mortais por via mediúnica, vou dedicar-me àqueles irmãos cujos nomes repercutem na mente das pessoas como seres conhecidos, conquanto, a maior parte das vezes, através apenas de obras escritas. Muitos são donos de extenso aparato lingüístico, estudiosos da forma, modeladores do próprio estilo, de sorte que dominaram os recursos lingüísticos mais apurados de seu tempo, podendo acrescentar ao rol das virtudes literárias, obras poéticas urdidas metodicamente, segundo a arte de metrificar em voga durante a sua vida. Aliás, exemplos existem de autores que evoluíram através dos movimentos literários, aprendendo também a compor de acordo com esquemas vanguardeiros.
Ora, a citação de um nome famoso repercute na mente da pessoa, despertando-a para as caraterísticas do autor. Sendo assim, qualquer nova fórmula de exprimir o conteúdo atual irá favorecer a descrença de que se trata realmente de quem assina, levando os críticos a considerações de impostura ou de mistificação. Mas, se, como acentuamos, cada comunicador pode extrair do repertório do médium as palavras modernas, como ainda pode ter ouvido do povo, no seio do qual ninguém o impede de vagar, por que não dará ao texto tonalidades mais próximas de seus novéis leitores?
— Sei muito bem que cada ser deve apresentar-se cônscio de várias peregrinações terrenas, de modo que o seu renome não deve servir para se oferecer resistência. Contudo, desde que se apresentou com o nome conhecido, não será plausível que demonstre a personalidade que possuía à época da citada encarnação?
Como me referi acima, no caso de ser recente o desenlace, é mais do que justo que assim seja, mesmo porque o Espiritismo ensina que, quanto mais recente a presença carnal, mais evoluída é a entidade que se manifesta. Dessa forma (agora quem pergunta sou eu), não haverá severa restrição à comunicação de determinados autores antigos, quando tiveram outras vidas posteriores àquela, sofrendo e se aperfeiçoando, assimilando os novos registros adotados pelo idioma? Exigir deles que se expressem segundo roteiros antigos não será o mesmo que despertá-los para problemas e imperfeições que jazem no esquecimento?
— Se o autor estiver, realmente, bem mais equilibrado, consoante os princípios que regem a evolução espiritual, não se afetará e até mesmo correrá o risco de não contentar os leitores modernos, mas conseguirá fabricar um texto pelos moldes antigos, com certeza tratando de temas que lhe interessam agora, porque seria tão-só histórico o valor da obra que regressasse ao passado através da confirmação do conteúdo e da forma, de uma só vez.
Vejo que o meu amiguinho compreendeu perfeitamente o meu ponto de vista. Fico contente com isso e lhe peço para levantar alguma questão pertinente ao assunto do dia.
— Gostaria de que o leitor encarnado buscasse na biblioteca um texto mediúnico de autor de renome e aplicasse a ele as noções expostas neste capítulo. Caso não consiga perceber nenhuma novidade idiomática em relação à obra dele enquanto encarnado, escrutine o texto no sentido temático, se possível cotejando com as preocupações demonstradas pelo autor em vida.
É exeqüível tal exercício, mas o meu caro e ideal discípulo haverá de convir comigo em que esse trabalho não se abre para a possibilidade de todos. Não seria mais oportuno pedir que se faça um cotejo entre a nossa exposição e a que se encontra em O Livro dos Médiuns, de Kardec, no capítulo em que trata o mestre da identidade dos espíritos comunicantes?
— Com certeza. Mas que se obriguem os mais doutos a enfrentar as duas tarefas.



12. A ALEGRIA DO COMUNICADOR

Estabelecidos alguns princípios norteadores do labor mediúnico, estou plenamente convicto de que devo satisfazer o interesse de meu leitor encarnado, antes de prosseguir revelando pequenos segredos da natureza etérea. Trata-se de classificar a estirpe dos seres que buscam o contato com os irmãos terrenos, uma vez que deixei claro que as vibrações se ajustam entre os espíritos, favorecendo o convívio daqueles que possuem idêntico nível evolutivo.
— Posso tornar a questão o mais próxima possível dos anseios de quem nos lê?
Esteja à vontade.
— Pois a pergunta mais freqüente diz respeito às manifestações espíritas que se dão em detrimento da saúde física e mental, com graves repercussões na vida familiar e comunitária. Muitos existem que desejam afastar-se da mediunidade, porque se sentem coagidos a obrigações de baixíssima contextura moral, como nos casos de matança de animais, em determinados terreiros, de oração aos exus, para o prejuízo dos inimigos do médium ou de alguém que recorra ao espiritismo, latu sensu. Ora, a assertiva de que os semelhantes se atraem remete esses irmãos a se considerarem extremamente pobres de espírito, justificando-se, a seu modo de ver, o desejo de livrar-se das influências espíritas deletérias. A presente colocação também acaba por envolver os centros kardecistas, os quais, muito embora não trabalhem pelo mal e apenas busquem realizar a caridade, refletem a mesma atitude de aceitação das entidades obsessoras. Já falei demais, conquanto não tenha dito tudo.
Muito bem.
Não vou negar que seria muito menos problemático se todas as incorporações mediúnicas se dessem em benefício dos que se reúnem nas casas espíritas. Mas também não posso desconsiderar o fato de que existem irmãos da mais baixa condição moral: invejosos, vingativos, ciumentos, orgulhosos, egoístas, prepotentes, lascivos, zombeteiros, violentos, astuciosos, cheios de malícia e de má-fé, muito próximos da concepção dos demônios elaborada dentro das seitas que não admitem a existência de espíritos erráticos de superior virtude.
A que vem o Espiritismo?
Vem para esclarecer os encarnados quanto à realidade da existência deles enquanto criaturas do gênero humano em evolução, dentro de certos parâmetros mínimos e máximos de desenvolvimento espiritual. Vem para demonstrar a necessidade das reencarnações, tendo em mira a absorção das virtudes que seu atual estado de compreensão lhes permite assimilar. Vem para ajudar no exame científico de todos os recursos intelectuais e sentimentais, na intenção de facilitar seu melhor desempenho em prol de alcançar os objetivos da peregrinação pelo orbe. Quanto aos esclarecimentos das relações com os desencarnados, vem para tornar mais segura e plena a tarefa de se inteirarem dos valores dos espíritos de luz, como ainda para facultar o melhor encaminhamento dos irmãos sofredores, aqueles que apresentam os vícios acima relacionados, às zonas umbráticas menos penosas, onde se dará a compenetração de que devem melhorar-se para merecerem ascender em paz ao reino do Senhor.
— Em nome de meu autor e orientador, eu, ser apenas eventual, afirmo que a essência do Espiritismo está acima condensada, não com as expressões mais felizes e confortáveis para a transmissão mais correta das idéias, mas com o intuito de fornecer subsídios para os raciocínios que se seguirão.
Quem conseguir apreender os verdadeiros ensinos que se encontram nas obras de Kardec, no sentido de realizar filosófica, científica e religiosamente os deveres de casa, dando a todos os atos a contextura do bem ao próximo, por amor a eles e a Deus, no exercício de consciente livre-arbítrio, sem nenhuma intenção de se considerar apto a receber as excelsas bênçãos do Pai, mas com humildade e reconhecimento da nossa pequenez de criaturas apenas perfectíveis, não sofrerá o assédio dos maus nem se verá prejudicado, quando se deparar com o serviço evangélico para o amparo dos seres inferiores. Sendo assim, em qualquer circunstância, os protetores e benfeitores, os anjos guardiães e demais entidades empenhadas em preservar o equilíbrio das forças que contendem, vão defender os obsedados, litigando ao lado deles a favor do esclarecimento dos agressores.
Não obstante, nem todos os que procuram as casas espíritas desenvolvem essa isenção, muitos desejosos apenas de livrar-se das tarefas mais penosas, interessados em propiciar a si mesmos e às famílias, a melhoria material que, mais tarde, vão requerer aos representantes dos cultos que devotam aos seres incorpóreos a malquerença produzida pela ignorância, pela hipocrisia, pelos interesses imediatos de conforto e bem-estar e pelas aspirações de se manterem sob o manto de Jesus por toda a eternidade.
Não vou correr, todavia, o risco de asseverar que melhor será para os menos preparados a sua saída das instituições kardecistas. Claro está que, se procurarem os templos ditos evangélicos, irão ser afastados, aparentemente, daquelas entidades perniciosas, porque perderão o pendor à mediunidade. Tiveram medo, estremeceram, não confiaram nos amigos da espiritualidade, preferindo dar crédito à concretude das manifestações das entidades em conluio com os pastores ou às farsas e mistificações do poder dos ministros religiosos de exercer o direito, em nome de Jesus, de enviar às profundezas infernais aquelas criaturas votadas, segundo eles, ao eterno sofrimento. O que os espíritas realizam beatificamente, na quietude das salas protegidas pelos guias, eles tornam um espetáculo público para milhares de fiéis ou de curiosos, quando não o transmitem, por via eletrônica, para ser visto dentro dos lares de milhões de telespectadores.
— Devo concluir que...
Deve concluir que o Espiritismo está encetando seus primeiros passos, no enfrentar das terríveis disposições mentais e culturais das populações ignorantes, mantidas assim por interesses políticos engrenados ao poderio das forças econômicas. Para vencer tais barreiras, o trabalho há de surtir seus efeitos paulatinamente, na conquista dos espíritos mais lúcidos, porque a doutrina espírita exige discernimento escolar de amplo espectro, não bastasse ter sido codificada por professor universitário de ponderável vigor intelectual.
— Falta explicar o título.
Não é verdade que devo considerar-me apaniguado pela deferência de poder vir demonstrar que o plano espiritual está atento para o desenvolvimento da humanidade, alegrando-me, sobretudo, com o fato de ser lido e compreendido por almas de eleição, no contexto do movimento espírita mais ilustrado?
— Hoje eu não quero deixar a lição de casa.
Não tem importância. Creio que o leitor terá sobre que meditar, caso estabeleça um nexo entre a sua vida, a de seus amigos tarefeiros da mediunidade e mais as daqueles que abandonaram a liça por razões que examinará.



13. DAS INTERDIÇÕES

Existe lógica quando se pensa que são plausíveis as censuras a determinadas notícias que muitos encarnados desejariam receber. O caso mais flagrante se refere às revelações dos acontecimentos futuros, aqueles mais precisos, como os números da loteria, por exemplo. Na verdade, não são poucos os que pleiteiam de todas as forças sobrenaturais essa informação preciosíssima no campo das realizações materiais sem esforço.
Outros pedidos insistentes condizem com estados emotivos muito graves, justamente de quem perdeu pessoas de íntimo relacionamento. Aliás, é o que mais conduz às praias do movimento espírita as pessoas religiosas de outras tendências, muitas das quais contrariando frontalmente as expressas recomendações dos sacerdotes.
Será justo oferecer a uns e outros o consolo do dinheiro ou o alívio da dor?
— Essa pergunta está sendo dirigida a mim?
Saberá você responder?
— Posso tentar. No caso das apostas com lucros certos, como se as pessoas jogassem com cartas marcadas, eu mesmo, se pudesse, correria à primeira casa lotérica para fazer a minha fezinha, sem esperança mas com a convicção do prêmio. E por que não faço isso? Simplesmente porque a antecipação dos resultados pressupõe que se possa conhecer o futuro. Como o tempo é uma realização física, como me provaram anteriormente, ou seja, é a energia que, através do trabalho, se constitui em espaço e tempo, só podemos pensar em termos do presente, porque o futuro não existe senão como expectativa, do mesmo modo que o passado se registra no cérebro ou se fixa nas películas de maneira mecânica ou eletrônica. Caminhar no tempo, para se poder usufruir vantagens, por meio de conhecimento prévio dos fatos, é idéia falaciosa.
E, se eu lhe dissesse para jogar em determinados números e eles vierem a corresponder aos sorteados, que teria o amigo a considerar?
— A partir do princípio de que só o tempo presente existe, de resto fluindo pelo diapasão da aplicação energética, como nos lembra a tradicional figura das águas do rio, que sempre se renovam ao passarem por debaixo da ponte, então posso suspeitar que hoje o meu benfeitor me dá os números e depois providencia, junto aos mecanismos do sorteio, para que as bolinhas da fortuna sejam escolhidas por intervenção do que chamaria de efeito físico, através da ajuda de médium com tal faculdade. Mas devo dizer que isso jamais vi.
Pois lhe afirmo que muitos médiuns de pressentimentos antevêem certos episódios, justamente por serem informados pelos guias a respeito da atuação dos seres encarnados e dos espíritos, para a realização deles. Por exemplo, não seria conveniente avisar os protegidos de que, em determinada rua, há assaltantes preparados para o bote contra os transeuntes? Indo um pouco além, sabemos de casos concretos de pessoas que tiraram a sorte grande, com forte sentimento antecipado de que iriam consegui-la.
— Agora surge o problema das interdições, não é verdade?
Certamente. Em primeiro lugar, favorecer o enriquecimento instantâneo de uns, em detrimento de tantos outros, é perfeitamente compreensível do ponto de vista dos mortais, haja vista que foram eles mesmos que instituíram essa modalidade de jogos de azar e se comprazem em arriscar maior ou menor parcela dos haveres, na esperança de que algum dia há de chegar a sua vez. De qualquer modo, com ou sem interferência dos espíritos, sempre há quem ganhe.
O que nos interessa considerar é o aspecto da casualidade desse acerto lotérico, desde que firmemos o princípio de que as pessoas têm deveres e obrigações assumidos antes da encarnação, precisando agir em consonância com eles para satisfazer as necessidades mínimas de progresso. Conclua você, segundo as anteriores considerações, por favor.
— Evidentemente, quem estabelece os programas de vida e busca os códigos genéticos mais adequados à consecução deles, também não sabe o que poderá ocorrer, porque para todos é somente o presente que existe. Quando alguém sofre qualquer acidente de percurso — e não precisa ser ganhar uma bolada na loteria ou perder pessoas importantes em tragédias no trânsito —, imediatamente, tanto em estado consciente como no âmbito espiritual durante o sono, reformula os planos e projetos de vida. Podem certos indivíduos estar tão convictos de seus objetivos que abrem mão do dinheiro extra, reservando apenas a quantia correspondente às necessidades mais imperiosas, quantia que almejava ao comprar o bilhete. Outros, aqueles que buscam os centros espíritas em caso de desastre, se desarranjam religiosamente e estabelecem outras metas nesse importante setor psíquico.
Vejo que meu discípulo está em franco desenvolvimento dos atributos intelectuais. Apenas para acrescentar, devo referir-me a quem tem autoridade de interditar os informes do etéreo aos encarnados. Imaginemos que certas pessoas sejam muito impressionáveis, podendo desfalecer, no sentido emocional, ao receberem notícias desagradáveis.
— Em outras palavras, podem desequilibrar-se, estressar, enlouquecer...
Pois bem, essas transformações, com certeza, vão além do campo das experimentações cármicas programadas. Os protetores, incluindo a figura ímpar do anjo guardião, não vão permitir que as notícias desagradáveis cheguem ao conhecimento dos encarnados nesse estágio espiritual, quando, por exemplo, os falecidos merecem permanecer em regiões de extremos sofrimentos, por diferentes motivos. Não lhe parece óbvio que esse sistema de segurança psíquica deva apresentar servidores fiéis à causa da benignidade e da bem-aventurança, investidos de autoridade para o bloqueio das informações que irmãos de categorias inferiores se interessassem em ministrar, por sua péssima formação, conforme assinalamos na reportagem anterior?
— É possível que certas notícias vazem?
Freqüentemente, mas com a anuência dos vigilantes defensores de seus pupilos, para pô-los à prova, a ver se estão aprendendo a agir em consonância com as virtudes que lhes foram anteriormente estimuladas. Caso contrário, ou seja, se não se caracterizarem as comunicações como de apoio ao crescimento espiritual e se constituírem em peso acima da capacidade de suportar das pessoas, interditarão o processo de contato entre os planos, solicitando ajuda superior sempre que não se sentirem em condições de levar avante a sua benemérita participação.
— Dizer-se que as proibições partem diretamente de Deus está correto? Quanto aos administradores siderais, ou seja, os espíritos de luz da categoria dos responsáveis pelos conglomerados humanos, por exemplo, Jesus, têm o poder de veto nos casos acima considerados?
Gostaria de não expor meus pensamentos em relação ao Criador, porque entendo (e minha capacidade é diminuta — modéstia à parte) que o universo se rege através de leis estabelecidas com essa finalidade. No que tange aos seres exponenciais, que muitos conhecem como serafins, querubins, anjos e arcanjos, mas que não passam dos espíritos de escol que ascenderam a essas posições de comando por meio de muito estudo, muito trabalho e de muito sacrifício em prol dos semelhantes, compreendendo que o amor é o fundamento de todas as virtudes e amando irrestritamente a todas as criaturas, conhecendo, inclusive, o valor das penas e sofrimentos dos que se internam nos mundos de exílio, de expiação e de provas, não se poderia imaginá-los ausentes quando se trata de evitar injustiças. Talvez eu ainda venha a discorrer a respeito das guerras e dos morticínios como fórmulas para a melhoria espiritual dos sofredores, contudo, por enquanto, creio que atingi o meu objetivo mais próximo.
— Então, assumo a responsabilidade de indicar o exercício do dia ao encarnado. Que pense muito bem se vale a pena correr o risco de, ao fazer sua fé na loteria, ganhar um prêmio polpudo, o qual se transformará em problema moral de extensão imprevisível. Por favor, retire do rosto esse sorrisinho maroto!



14. OS NÚMEROS DA SORTE

Os prognósticos, já vimos, dependem de ação sempre atual, para que possam dar certo. Não fosse assim, haveria a possibilidade de se realizarem pactos entre encarnados e obsessores, de forma que, por qualquer troca de serviços, uns dariam aos outros o que lhes parecesse o cumprimento de sua vontade mais inteligente.
— Estou pensando em algo como conseqüência dessa (se assim posso dizer) combinação simbiótica, porque exclui das vantagens todos os outros seres. Ao contrário, haveria prejuízos e danos materiais e morais causados de propósito, com o fito principal de acertos de contas, sem que os visados tivessem a oportunidade de se defender. Não será por isso que existe todo um sistema de proteção dos inocentes (chamemo-los assim), justamente aqueles inermes perante a surpresa dos ataques?
“Mas existe a legitimidade das guerras!” — hão de exclamar quantos se sentem no direito de enviar aos inimigos o ultimato com as exigências para ressarcimento dos prejuízos. E elas têm acontecido de maneira trágica, arrastando muitos povos à miséria, dizimando as populações, empobrecendo as pátrias, aviltando os homens. Quem haverá de justificar o morticínio de milhões de civis, não só através dos bombardeios, como da fome e da doença?
— Se estou lembrado, existe, nos textos codificados por Kardec, a assertiva de que as grandes catástrofes fazem a humanidade adiantar-se, porque uma das pedras basilares da superação dos defeitos e vícios é a dor, ainda mais quando provoca a sensação de um sofrer que promove a reflexão, a comoção e o desvelamento das causas pessoais que conduziram àquele estágio de infelicidade. Fiquei pensando a respeito e atinei com um tipo de adiantamento científico promovido pelos combates sangrentos, qual seja, o da Medicina, que pôde estudar inúmeros procedimentos para amenizar a dor física, para restaurar os tecidos danificados, para ligar as estruturas ósseas esfaceladas e até para encaminhar de novo à sociedade, por meio de acompanhamento psiquiátrico, muitos ferozes combatentes, apaniguados com medalhas de honra pelo dever cumprido, quando, na verdade, simplesmente abateram os adversários.
Outra espécie de adiantamento ligado às grandes desgraças coletivas é a sufocação do orgulho, porque os indivíduos se sentem muito pequenos perante o Universo, muito frágeis diante das vibrações telúricas, muito efêmeros em confronto com a duração dos próprios elementos que lhe constituem o físico. Imaginam os milhões de anos decorridos para o aparecimento dos organismos humanos na face da Terra e se dão por satisfeitos quando perlustram todas as fases da vida até a última senectude.
— Compreende-se (permita-me uma singela questão) que os que sobram dos cataclismos possam formular essa visão de si mesmos e da existência carnal. Contudo, podemos desconfiar de que os que tiveram a comprovação de sua condição de mortais venham a extrair dos funestos eventos as mesmas lições?
Em primeiro lugar, os que sobrevivem só adquirem os benefícios da dor se têm o discernimento das reflexões positivas, ordenando no cérebro todos os fenômenos como sucessão de causas e efeitos absolutamente naturais, ainda que por provocação humana. Explico-me. Mesmo quando as vidas dos filhos, pais, irmãos, companheiros e amigos são tiradas pela violência dos inimigos, deve-se compreender a necessidade da sabedoria para que tais desatinos não houvessem ocorrido, porque a maldade existe como condição de uns se sobreporem aos outros, seja qual for o campo das ações e reações. Se a conclusão óbvia for a de que aqueles criminosos são ignorantes, a decisão mais inteligente se dará no âmbito da caridade, a principiar pelo sentimento do perdão. Se houver um pensamento egoísta, justamente aquele tendente a apresentar-se a criatura perante Deus como vítima, iremos acusar de inepto aquele que é puro amor, sem nenhuma tentativa nossa de obter avanço de qualidade no âmbito dos ganhos morais.
Em segundo lugar, os que partem para o etéreo e se sentem fortemente presos ao corpo físico perdido também desenvolvem pensamentos de repúdio à justiça divina, raciocínios quase sempre argamassados nos desequilíbrios das lágrimas de quantos estão a lamentar, entre os vivos, a temporária ausência dos entes queridos. Para aproveitamento integral da passagem repentina para a outra dimensão, hão os espíritos que visualizar a existência como constante e revitalizado movimento ondulatório de energias, temporariamente magnetizadas para a contextura orgânica dos encarnados, mas muito mais freqüentemente disponíveis para a absorção das luzes (por falta de termo melhor) projetadas pelos seres mais perfeitos. Ao mesmo tempo, têm de entender que existem obrigações imediatas, como o amparo aos infelizes e o encaminhamento de todos para regiões de paz, porquanto o contraste com as visões derradeiras da implosão dos fluidos vitais é que fornecerá os recursos fecundantes da fé e da esperança, na sedimentação dos valores evangélicos. Eis que à contemplação das leis e dos fenômenos se junta a premissa do trabalho, sendo que, quanto mais elaborada a fase ideológica, melhor há de ser o desempenho gregário.
— Significa que os números da sorte devem ser interpretados, no campo da espiritualidade, como de recompensas pelo proceder reto e justo, pautado pelas virtudes, em consonância com o princípio de que a evolução de uns promoverá acréscimo de benefícios para todos?...
É e não é exatamente isso. Mas o problema da proporcionalidade terá de merecer mais profunda meditação da parte do amigo encarnado. O que posso assegurar é que, se todos se dedicarem a descobrir o segredo da questão proposta no dilema, iremos, os da Turma dos Irmãos em Deus, nos dar por imensamente felizes.



15. É E NÃO É EXATAMENTE ISSO

Não poderia furtar-me a desenvolver o tema dilemático proposto ao amigo que nos segue lendo.
O cerne da questão encontra-se na palavra insidiosa que se intrometeu no contexto da assertiva do amiguinho virtual, qual seja, a interpretação dos números da sorte.
Para crescimento espiritual, a figura da interpretação, se não se tem o poder dos raciocínios perfeitos, irá esbarrar em conclusões errôneas ou tendentes à fixação dos preconceitos. Vale aqui copiar o dicionário : Interpretar [Do lat. *interpretare, por interpretari.] V. t. d. 1. Ajuizar a intenção, o sentido de. 2. Explicar, explanar ou aclarar o sentido de (palavra, texto, lei etc.). 3. Tirar de (sonho, visão etc.) indução ou presságio. 4. Traduzir ou verter de língua estrangeira ou antiga. 5. Representar (no teatro, cinema, televisão etc.). V. transobj. 6. Julgar, considerar, reputar.
Assim se resume a assertiva de que a observação tenderá a estar correta, caso haja plena consciência na aplicação dos dispositivos das leis a todas as participações dos indivíduos, no sentido de efetuarem o melhor possível para o auxílio, que compreenderam imanente à própria existência, em prol dos menos afortunados.
Mas a perfeição é dom divino. Em nosso meio, não se encontram seres espiritualizados capazes de realizações supernas, próximas da quinta-essência dos fenômenos puros.
— Em outras palavras, permita-me, a pessoa pode estar fazendo algo que reputa maravilhoso, dentro dos padrões evangélicos que absorveu, seguindo a trilha dos exemplos que legaram os antigos, conscienciosamente, mas sem alcançar os objetivos específicos, segundo a necessidade dela mesma e dos seres socorridos.
É exatamente isso. Agora estamos entendendo-nos.
— E como superar tão extraordinária dificuldade, se tudo o que representa ser o melhor pode ser o contrário, para o efeito do bem que se quer praticar?
A humildade responde pelo mais profundo exame das atitudes e das atividades; atitudes, enquanto aspectos morais, religiosos, sentimentais, em suma, espirituais; atividades, como tradução dos pensamentos em ações de desvelado amor e comovida caridade, ao se englobarem, no conjunto da benemerência, os produtos resultantes de anteriores aplicações da riqueza, mesmo sob o sacrifício da vida inteira.
— Posso resumir o que entendi?
Faça-o, por gentileza.
— Tudo o que se faz deve levar o sinete da compreensão de que os resultados não importam tanto, no sentido da conquista de pontos que se acumulam no ativo das pessoas, porque a doce aspiração do progresso não deve estimular o servidor. Ao contrário, a percepção de que tudo quanto fazemos alguém, com mais traquejo, com mais experiência, com mais recursos, faria bem melhor, deve realçar a conclusão de que o importante é o caminhar e não o destino superior, porque as portas do reino estão por toda a parte, conquanto venham a ser abertas apenas quando o sentido da perfeição houver atingido o apogeu da glória, instante supremo de compenetração de que tudo se conserva no repositório de bens do espírito, ficando de fora até mesmo a recordação de qualquer tipo de mal, de dor ou de sofrimento, ou próprios, ou alheios.
É a educação da sensibilidade que deve preocupar as criaturas desde sempre, em quaisquer situações existenciais. Por isso, nesta nossa Escolinha de Evangelização, estamos em constante perquirição dos méritos dos textos confeccionados, porque sabemos que o leitor merece usufruir as lições mais importantes, aquelas que assimilamos nós na qualidade de espíritos e não mais de ex-viventes.
Sendo assim, voltamos o interesse do grupo para o estudo sério e acabado das regras de viver em sociedade, sem desfalecer perante as fraquezas dos nossos repertórios emotivos, dando vazão a todo gênero de imperfeições nos trabalhos escolares em que simulamos a realidade com que nos depararemos assim que nos formarmos na teoria.
— A que tais informações visam, tendo em vista o leitor de sangue nas veias?
À preparação das mentes e dos corações para os períodos que se avizinham de erraticidade compulsória, porque, um pouco antes ou um pouco depois, todos se verão face a face com o reflexo de si mesmos, tendo sorte se conservarem o ânimo isento de acusações promovidas pelo sentimento de culpa.
— Ainda bem que sou mero artifício do intelecto do escritor, senão estaria imerso na douda preocupação de como superar os males de que seria acusado pela consciência. Iria buscar arrepender-me desde logo, mas não saberia como ressarcir os credores zangados. Talvez corresse para longe, mas como evitar ser perseguido pela minha sombra ou, conforme mencionou o meu criador, o reflexo de mim mesmo?
Pois é o enfrentar disso tudo que irá promover o impacto da verdade. Se a leitura destas mensagens for deveras inteligente, ninguém será apanhado nas malhas finas do desespero, porque, ao partirem para o etéreo, estarão preparados para o pior, sem a malícia da consideração de que tudo o que se fez com a intenção do cumprimento dos deveres evangélicos reverterá em bônus que os agraciarão com a desculpa incondicional dos erros e dos vícios.
Pense na seguinte chave para a porta da paz: o passado erige a personalidade do presente; o presente está sempre presente; o futuro nunca chega.
Primeiro comentário, por favor, meu caro amiguinho.
— Penso que o passado teve os seus presentes, que, em sendo sempre presentes, já foram o futuro. Terei compreendido a proposta ou estou complicando ainda mais o sofisma produzido pela tese de que tudo quanto se venha a guardar terá a sua vez de deterioração?
Graças a Deus!



16. DO SOCORRISMO INSTITUCIONALIZADO

Qualquer pessoa pode fazer o bem, independentemente de conhecer ou não os aspectos científicos da preparação dos socorristas. Então, é preciso distinguir os indivíduos que se crêem habilitados dos que recebem o alvará das organizações espirituais denominadas de colônias...
— ... tomando-se sempre o cuidado de executar os serviços na justa medida da necessidade do assistido. Tenho conhecimento de que existem muitos que buscam proporcionar o máximo de si àqueles que julgam carentes e, quando se deparam com a verdade, estão recebendo muito mais do que dão.
Tudo bem. Quero, todavia, referir-me aos que assumem a condição da justiça na caridade que se realiza com amor, isto é, aos beneméritos que produzem com a intenção de auxiliar, predispostos a reverter o quadro, para absorção dos ensinamentos que as circunstâncias promovem.
Nada impede que os seres cresçam em virtudes na erraticidade, percorrendo todos os pólos de sua dimensão, palmilhando cada pequenino trecho vibratório, para o domínio da realidade e para a facilitação do seu trabalho em prol dos semelhantes. Temos de convir, porém, que esse isolamento, se não nos induz a desconfiar de timidez, de orgulho ou de presunção de plena sabedoria, ao menos nos leva a pensar em que esses espíritos perdem excelentes oportunidades de conhecer outros caminhos, para a assimilação dos princípios do procedimento evangelizado.
— Não se pode supor quem trabalha por si mesmo como espírito de luz em missão na Terra ou no Umbral?
Nesse caso, o objetivo é específico e seu grau evolutivo se situa em patamar superior. Sendo assim, não está sozinho, mas vive em permanente contato com os da dimensão de onde partiu, continuamente recebendo informações precisas a respeito dos serviços que deve prestar. Não trabalha, pois, em isolamento.
— Posso tentar mais uma vez interpor relevante observação?
Faça-o, por obséquio.
— Pois bem, segundo as notícias recebidas dos instrutores espirituais por Kardec, as camadas existenciais reúnem seres de mesmo nível vibratório, os chamados concidadãos ou conterrâneos entre os encarnados, porque vivem mais ou menos segundo uma única orientação filosófica, política, social, psicológica etc. Chamaria de espírito de sistema ou de estrutura psíquica, conforme as leituras que tenho realizado. Ora, quando estão juntos em determinada colônia, o que têm de ensinar uns aos outros, que todos já não conheçam? Veja que pergunto para dar-lhe oportunidade de responder, porque posso imaginar que a explicação eleja pensamentos como o de que o paralelismo entre os seres se dá nos aspectos morais, porquanto uns sabem gramática, mas não sabem mecânica, por exemplo.
Agradeço o encaminhamento para as questões prévias necessárias ao desenvolvimento do tópico principal, qual seja, o do trabalho que os que se sabem em condições de maior ventura buscam realizar junto aos corações empedernidos dos menos felizes.
Enquanto vão assimilando os conhecimentos físicos do meio ambiente em que existem, os espíritos que se congregam em colônias orientam-se moralmente pelas lições mais simples do evangelho de Jesus, a partir do princípio de que se deve fazer aos outros o que se gostaria que se fizesse consigo. Por isso, vamos aprendendo a ser pacientes, generosos, brandos de coração, compreensivos, pacíficos, humildes, sagazes quanto ao repúdio do mal e dos vícios e perspicazes no que diz respeito à futilidade das satisfações pueris de quem se contenta com pouco, como quando se aprende a somar e se pensa que não há nenhuma outra espécie de conta para aprender.
— Entendi esse aspecto. Mas há outro igualmente importante, o que se refere à necessidade de prestar assistência aos seres situados em dimensões menos evoluídas. Não haverá, neste campo, o entrave de uma noção elementar do código moral que reza que a intervenção pode retardar a aquisição dos bens, atribuindo-se ao ser superior a sabedoria, bastando aos mais simples acreditarem às cegas, contrariando, inclusive, o princípio da fé raciocinada?
Por isso é que temos a obrigação de nos matricularmos nos cursos de socorrismo da instituição, para conhecermos as bases científicas do trabalho junto aos irmãos em condições inferiores. Se aparecermos como donos da verdade, eles se ajoelharão perante o suposto brilho dos benfeitores e nos adorarão como seus salvadores, atribuindo-nos a responsabilidade de conduzi-los aos páramos celestiais da eterna bem-aventurança.
— Fico também a imaginar que a informação de que são imperfeitos os amigos que os procuram para ajudá-los — imperfeições que, de resto, não têm recursos para compreender — possa levá-los ao menosprezo dos instrutores, colocando-os na categoria dos frustrados, porque não conseguem soerguer-se e teimam em ministrar lições, na clássica ilustração do provérbio famoso: faça o que eu mando e não faça o que eu faço.
Esse é outro cuidado elementar, cujo alerta recebemos nas primeiras aulas do curso acima aludido. Aliás, sempre é tempo de oferecer a melhor definição para certos termos em voga na área espírita dos mortais mas que, para nós, não se justificam plenamente.
A palavra socorrismo (conquanto não dicionarizada) talvez não tenha concorrente à altura para a descrição do serviço que se presta aos assistidos. Segundo o dicionário, socorrer tem as seguintes acepções: V. t. d. 1. Defender, proteger, auxiliar, ajudar. 2. Prover de remédio; remediar. 3. Dar esmola a; esmolar. 4. Prestar socorro, auxílio, a. 5. Bras., BA. Abastecer do necessário a embarcação de (outrem), para a pesca da baleia. V. p. 6. Pedir socorro; buscar. 7. Lançar mão; valer-se. Vamos destacar alguns sinônimos: ajuda; assistência vinda do exterior a alguém que se encontra em situação difícil; amparo; apoio; atendimento que se dá a uma pessoa acidentada ou acometida de mal súbito; auxílio da religião.
— Como, dentro do currículo da Escolinha de Evangelização, se denomina a matéria que trata do assunto?
A denominação não se traduz exatamente através de um ou dois termos. Vou utilizar-me de uma perífrase: Curso Consciencial de Atendimento de Superior Categoria para a Elevação dos Semelhantes no Plano Evolutivo, através da Aprendizagem das Noções Preliminares das Virtudes Evangélicas ainda sem Repercussão no Âmago de suas Personalidades.
— Só a compreensão do título exige muito discernimento. Que dirá o desenvolvimento do conteúdo disciplinar!
Não se esqueça das aulas práticas e dos estágios. Sendo assim, ofereço eu o exercício do dia.
Deve o amigo esforçar-se por compreender que nem tudo o que dizemos é mero malabarismo espiritual para convencê-lo a nos aceitar. Ao contrário, se a conclusão pender para a configuração de certa autonomia intelectual, vista-se com a mesma capa daqueles que seguem peregrinando sozinhos ou inscreva-se, urgentemente, num círculo de estudiosos das questões espíritas.



17. ATIVIDADES PERIGOSAS

Toda vez que alguém se estima preparado para auxiliar os irmãos que considera necessitados, põe à prova todo um rol de virtudes. Se não for assim, qualquer ajuda corre o risco de não resultar na prática do bem, porque a caridade decorre da doação do essencial, uma vez que se desfazer do excesso não detém mérito algum, como os evangelistas pregaram, em nome de Jesus, e se encontra enfatizado na obra kardequiana.
— Nenhuma novidade, meu caro senhor. Basta lembrar a passagem do óbolo da viúva.
Certo! É isso mesmo. Então, vou caminhar um pouco mais no campo das apreciações a respeito dos socorristas.
No etéreo, o que é que os espíritos possuem a mais?
— Na verdade, cada um carrega consigo um repertório moral mais ou menos desenvolvido, segundo os padrões evangélicos. Acho a questão extremamente inteligente para minha modesta condição virtual.
Não se preocupe, pois vou chegar a um resultado prático.
Responda à minha pergunta: existe, nas Trevas, quem exerça a benemerência, ou seja, busca alguém consolar e aliviar a sobrecarga de sofrimento dos irmãos em aflição?
— Do que me recordo dos tempos atrasados, era um empurra-empurra infernal, ninguém admitindo que houvesse privilégios de atenuação dos males, pela difusão generalizada da inveja, do egoísmo, da maldade e de tantos outros defeitos.
Vamos considerar a hipótese de que um ser qualquer vislumbrasse a necessidade de estender a mão a um parceiro de infortúnio. À vista de sua resposta anterior, o que estaria arriscado a perder?
— A momentânea tranqüilidade da percepção do sentido da ajuda que lhe perpassou pelo cérebro.
Ótimo! Quer dizer que estaria dando de si justamente a sua qualidade mais preciosa, uma vez que iria ver-se, imediatamente, perseguido e azucrinado pela multidão. Estou certo?
— Certíssimo!
Engano seu! Estou errado. Naquelas circunstâncias, uma luzinha que se acenda no coração dos sofredores vai despertar a atenção dos socorristas de plantão, de sorte que o improvisado bom samaritano receberá apoio vibratório inesperado, podendo ou não estender a paz rudimentar que o abranger ao ente visado por sua comiseração.
— Caí na armadilha feito um patinho! Não tem importância. Aí, aquele que intentou fazer o bem será resgatado, talvez na companhia do outro, para receber influxos energéticos de melhor calibre, em região menos infeliz.
Agora você foi brilhante! Apenas deve considerar um aspecto físico ou material daquele ser imerso nas Trevas. Se sua tendência à caridade for estimulada através da compreensão de que enveredou pelo caminho certo, vai desejar permanecer ao lado dos inimigos (porquanto lá não há amizade sincera), para prosseguir em sua obra benemérita, mesmo porque desconhece regiões menos terríveis.
— Não tinha pensado nisso. Mas é verdade. Quando lá me achava, não fazia idéia de que a realidade poderia ser diferente. Quando muito, pensava nas diversas romagens terrenas e meu sofrer recrudescia, se intensificava, dado que me acusava de muitos pecados (com perdão da má palavra). Mas a que leva essa informação?
Leva os socorristas a agirem dentro de esfera muito mais densa, necessitando estar prevenidos quanto aos ataques dos pobres seres inferiores, os quais visam a sugar a vitalidade energética dos visitantes, cientes de que se alimentarão com os atributos que os aliviarão das penas. Não imaginam que aquelas criaturas também estiveram, muitas vezes, internadas nas mesmas regiões, conseguindo sair de lá pela compreensão de que a caridade recompõe a justiça e permite o auxílio superior.
Mas voltemos àquele que iniciou a caminhada ascendente. Quando é que vai deparar-se com a porta de saída?
— Quando fixar a diretriz do bem como norma de conduta, comprovando a sua melhoria por meio de algumas obras em favor dos irmãos. Quero dizer que o intelecto não se estimula apenas pela emotividade, mas se encorpa e se desenvolve através da aplicação integral de todas as forças intrínsecas em prol dos semelhantes. Ou seja, quando o indivíduo não dá apenas o que tem em excesso, mas se oferece em sacrifício, mesmo que seja por um instante de lucidez de algum miserável companheiro.
Instante de lucidez que pode redundar no entendimento da lição que o outro já havia aprendido, para permitir aos socorristas nova intervenção benévola. Somente aí é que aquela porta vai abrir-se para ele, que se deparará numa outra região umbrática, porém, muito menos hostil, onde a história irá repetir-se, até que...
— Esse é outro capítulo do livro dos socorristas, creio eu, modestamente. Agora a aquisição dos méritos deve prever outra sorte de atitude, muito mais voltada para a descoberta de si mesmo, ou seja, das causas que promoveram a condição de inferioridade.
Nesse estágio, embora seja mais fácil a aproximação, o espírito se torna, não direi mais agressivo, mas muito mais arredio. Antes, tinha de se defender dos ataques diuturnos. Agora, essa preocupação diminui; crescem, todavia, os assaltos da consciência pejada de culpa, incentivando um comportamento emocional negativo, a impedir que as formulações puramente intelectuais atinjam o cerne das atividades mentais. Dessa forma, a atuação dos socorristas ganha nova dimensão, sendo outros os princípios de abordagem.
— Estou um pouco cansado. Gostaria de refletir sobre os elementos que o mentor me ofereceu. Em outras palavras: dá um tempo!
Sem dúvida, o meu amiguinho não possui o hábito de meditar a respeito do sistema etéreo de tratamento das afecções morais, embora o que introduzi neste capítulo seja de meridiana clareza. Aliás, clareza meridiana significa, simplesmente, claridade absoluta, integral, total, completa.
Ele está tão imerso nos problemas que lhe propus que não vejo outra saída senão a de encerrar a mensagem, insistindo junto ao leitor que não desista jamais de auxiliar as pessoas, ainda que se demonstrem ingratas, intolerantes e incompreensivas. Algum dia, os espíritos protetores alcançarão colocar nos endurecidos corações delas a réstia de luz que poderá tornar-se na brecha necessária para a debandada dos vícios e defeitos.



18. LIMITES PARA AS INFORMAÇÕES

Fiquei tentado a desenvolver outros pontos do envolvimento dos socorristas no seu trabalho assistencial, em cada fase dos favorecidos, conforme estes vão aprendendo a agir pelos padrões evangélicos de mais fácil compreensão. Dissuadido fui, contudo, pelo mestre Otávio e também pelos colegas, porque este opúsculo não visa a reproduzir o grosso volume de orientações que temos de estudar e aplicar durante o primeiro ano do Curso Consciencial...
Disseram-me que é suficiente despertar o interesse do amigo encarnado para as atividades que terá de exercer obrigatoriamente, antes de ser guindado ao patamar seguinte, na caminhada ascensional evolutiva. Sendo assim, perco em profundidade na explicitação dos rigores disciplinares com que temos de nos entender até nos postarmos aptos à prestação do serviço de ajuda institucional aos carentes.
— Quero crer que já foi completamente esclarecida a supremacia da formação que se ministra nas colônias, em cotejo com o autodidatismo dos que peregrinam sozinhos ou em pequenos grupos. O que gostaria de ver um pouco mais desenvolvida (porque me parece que pode causar confusão) é a descrição das Trevas, pois a impressão que se transmite é a de que se trata de uma região fechada. Neste caso, como é que a literatura espírita se refere universalmente à influenciação perniciosa dos irmãos em fases críticas de maldade, os chamados obsessores? Os espíritas, é certo, sabem que não existe um ambiente terreno e outro espiritual, destacados um do outro. Mas o entrecho pode cair em mãos menos hábeis...
Esse é outro limite que devo respeitar, ou seja, o da informação precisa da natureza do relacionamento entre vivos e mortos. Sem revelar nenhuma novidade, posso lembrar que a atmosfera espiritual ao derredor das pessoas se cria a partir das vibrações que elas emitem, caracterizando externamente a sua personalidade e permitindo a aproximação de quem se sinta confortável em sua companhia. Esse pequeno círculo se amplia, à medida que os semelhantes se atraem, podendo estar imersos os encarnados em qualquer das dimensões referidas: a das Trevas e a do Umbral. Claro está que os ambientes trevoso e umbrático recebem eflúvios vibratórios de muitas categorias diferentes, contudo, não acho que interessa referir-me aos vários círculos, como o fez Dante, em sua Divina Comédia.
— Quer dizer que basta ler aquele poema para saber...
Nada de precipitar conclusões, por favor. Trata-se de mera comparação, para que o leitor entenda que as pessoas na Terra convivem espiritualmente com os seres de sua estirpe. Os criminosos insensíveis, que matam por encomenda, sem remorso e sem arrependimento, merecem estar entre obsessores, que os ajudam a manter a consciência sufocada. Quando uns e outros recebem auxílio de seres educados evangelicamente, raramente dão ouvidos, podendo fazê-lo por conveniência, maliciosamente, para obterem favores vantajosos. Por outro lado, as pessoas que se inscrevem entre os beneméritos das organizações honestas de misericórdia, como muitos profissionais se dedicam graciosamente a atender os necessitados, é justo que se deixem cercar por criaturas etéreas de lhanura e bondade superiores.
— Propriamente dito, se me situar a certa distância dos grupos que congregam vivos e mortos, poderei confundir-me, tendo a ilusão de que se trata de uma única dimensão, porque se interpenetram as vibrações espirituais, formados os perispíritos de igual massa energética.
É isso o que ocorre, na realidade, mas com o acréscimo material dos encarnados, cujo corpo se constitui em empecilho para integração mais íntima, de acordo com a natureza da esfera dos humanos. A bem da verdade, é o que estabelece o limite para as informações das regras socorristas. Imerso no plano denso da matéria, o espírito vive em tempo e espaço constritos ao campo carnal pela forte impregnação dos elementos físicos e químicos determinantes do fator biológico, a impedir que a visão e os outros sistemas sensórios operem através dos órgãos do perispírito, ou o indivíduo não desenvolveria as habilidades terrenas.
— Ouço dizer que existem pessoas dotadas de dupla vista, de audição etérea etc.
Perfeitamente. Muitos espíritos assumem corpos preparados para a percepção extra-sensorial. Outros se exercitam, alcançando a liberação do perispírito, durante a vigília, de sorte a facultar à memória do cérebro o recebimento de informes obtidos através do corpo astral. Trata-se de estilo de mediunidade às avessas, ou seja, é a mente material que se estimula ao contato com o plano espiritual, adaptando os recursos energéticos ativamente, promovendo a liberação do perispírito para a captação das notícias em outra região do planeta ou dentro do plano espiritual, qualquer que seja o comprimento de onda, segundo a freqüência evolutiva em que atua.
— É por isso que se pede aos médiuns que dêem passividade, para se tornarem instrumentos úteis a serviço dos benfeitores espirituais. E o que acontece no caso de receberem visões e audições que absolutamente não promoveram conscientemente?
Esses são os chamados médiuns videntes e audientes, segundo a nomenclatura clássica de Kardec. O fato de serem capazes, no entanto, de exercer esse gênero de mediunidade não significa que estejam habilitados a fazê-lo por livre iniciativa. É bom separar aqueles a que me referi mais acima destes últimos. Entretanto, o caminho pode apresentar via única ou dupla, segundo as características individuais.
— Penso que outros aspectos deste tema venham a ser apresentados. Então, sugiro que a tarefa de hoje diga respeito...
Vou fazer diferente. Vou deixar que o leitor tenha completa liberdade de imaginar quais serão os outros aspectos a que se referiu o meu fiel escudeiro. Não será uma dádiva de Deus chegar ao etéreo com muitos conhecimentos adequados à adaptação imediata da consciência aos labores socorristas?



19. DOS EXERCÍCIOS PROBATÓRIOS

Antes de as equipes de noviços saírem a campo aberto para atendimento junto às esferas em que se encontram os necessitados, devem realizar simulacros de reuniões de ajuda. É durante esses treinamentos que se corrigem os desvios do padrão da caridade como resultante da mais premente necessidade íntima, porque, convenhamos, em pleno desenvolvimento das potencialidades espirituais, pouca atenção se haverá de dar às susceptibilidades impressas no arcabouço sentimental dos socorristas.
Sendo assim, escolhem-se situações as mais próximas possíveis dos problemas que mereceram acendrado estudo e consideração nas fases de deslindamento dos hábitos malsãos, para que os alunos se sintam envolvidos pelas mesmas vibrações que encontrariam diante dos desafetos, dos adversários ou de simples seres antipáticos.
— A pergunta a que me obrigo é se os novatos é que dariam oportunidade ao desequilíbrio ou se haveria astúcia dos malfazejos na decifração das causas das perturbações, a ponto de conduzir os inexpertos ao insucesso.
Uma coisa e outra. À vista das condições muito próximas dos que enfrentaram percalços por culpa dos assistentes, estes se desarvoram e se deixam imergir nas penumbras mentais das recordações nefandas.
— Mas não deveriam ter superado esse procedimento prejudicial ao progresso?
Se o tivessem feito, não seriam calouros. É justamente para o aprendizado se concretizar dentro da realidade dos embates com os irmãos combalidos pelos infortúnios que se dão a todo esse trabalho de controle pessoal das intempéries morais e conscienciais.
Se titubearem, darão ensejo a que os ignorantes perscrutem a insegurança com que se apresentam ao serviço, para a acusação de praxe, qual seja, a de que seres sem autoridade moral não se deveriam aprestar para a demonstração de que o bem se compõe destes ou daqueles elementos. Quem aspira a soerguer os caídos, deve manter-se competente para a assunção da responsabilidade pelo futuro imediato deles.
Nesses exercícios, muitas vezes, são utilizados aparelhos sofisticadíssimos de produção de vibrações sutis, em ondas muito próximas de se identificarem com as reações deletérias dos seres infelizes.
— Posso adiantar que essas ações se concentram em câmaras hermeticamente fechadas, para o efeito da recomposição energética dos que não souberem agüentar as descargas em suas freqüências de fragilidade emocional. Posso dizer também que o treinamento é bastante parecido com aquele por que passam os astronautas, com extensa bateria de testes psicológicos, físicos, intelectuais...
A comparação é válida para demonstrar a seriedade com que os socorristas são preparados para a prestação de socorro eletivo de primeira grandeza aos que demonstram possuir aquela tênue luzinha de discernimento a que anteriormente me referi. Mas preciso adiantar que nem sempre os escolhidos para as provas simuladas correspondem à expectativa, porque se despertam neles outros fatores de inferioridade de que se impregnavam e que nem sequer suspeitavam possuir.
— Essa informação não é assaz perigosa para os mortais? Não será o mesmo que dizer que os cursos não foram suficientemente esclarecedores nem a escolha do currículo adequada para a formação dos pleiteantes?
Se o leitor que nos acompanha criou para si a imagem de que as colônias estão perfeitamente instrumentalizadas para oferecer todo e qualquer tipo de resposta aos infinitos problemas da alma humana, terá superestimado a capacidade dos seres imersos nas faixas vibratórias da esfera umbrática. A ajuda superior que os administradores recebem vai constituindo-se em maravilhoso aparato de recursos, mas cabe aos próprios habitantes da colônia executarem todos os estudos para a elaboração dos programas de ensino e dos instrumentos de apoio.
— Se eu fosse comparar com o que acontece entre os terráqueos, poderia dizer que a experiência não se transfere, no sentido de que, sem que se apliquem, as pessoas não vão assimilar jamais os conhecimentos. A dor de uma queimadura ninguém consegue imaginar.
Digamos, porém, que a sua colaboração tenha sido imprecisa, porque não se há de pedir que se cortem fora as pernas para saber que, sem elas, não se consegue andar. Entretanto, a observação é válida para estabelecer como método de aprendizado prévio destes preceitos do socorrismo o interesse em realizar, com disciplina e resignação, todos os cursos e exercícios que os instrutores vierem a recomendar.
— Que outro paralelo se pode traçar entre estas atividades no etéreo e aquelas que devem desempenhar os espíritas em suas casas de atendimento evangélico?
Boa pergunta. Eis que me encaminho para a afirmação de que as Ciências, a Medicina, a Odontologia, a Engenharia de Alimentos, a Pedagogia e todos os demais ramos do conhecimento humano tratados academicamente devem prevalecer na formação dos dirigentes espíritas, suplantando a improvisação e a simples boa vontade, ou a sensibilidade à flor da pele. Os homens estão especializando-se e esse aperfeiçoamento científico não pode ser ignorado, em nome de uma caridade que vise (perdoe-me o amigo iletrado) a satisfazer o ego do atendente, para a tranqüilidade pura e simples de sua consciência.
— Posso atenuar a rudeza de suas palavras?
Não penso ter sido descortês. Mas diga o que lhe sugerem as palavras de Jesus.
— O Nazareno, em sua sublime humildade e despojamento dos interesses materiais, recomendava que as pessoas se desfizessem de seus haveres, se quisessem segui-lo, afirmando ser muito difícil a aceitação incondicional dessa premissa, sendo mais fácil um camelo etc. Mas o que eu pretendia acrescentar é que o leitor encarnado deve entender que não há como adiar indefinidamente a decisão do desprendimento dos bens materiais. Numa encarnação qualquer, mesmo aqueles socorristas treinados, todos teremos de radicalizar o ensino de Jesus.
À vista das tremendas promessas de esforços, trabalhos e sacrifícios, acho que vamos dar de barato o exercício probatório do dia, satisfazendo-nos com o fato de o amigo ter chegado ao final da mensagem.
— Apoiado!



20. A FELICIDADE DE SERVIR

Quando o aluno se integra num grupo de socorristas, tem de levar consigo o maior de todos os sentimentos: a felicidade de servir.
Creio que o entendimento do serviço, enquanto se está encarnado, fica muito próximo do processo da troca de favores, mesmo quando se trata da mãe alimentando o filho, pois a noção de que existe poderoso elo afetivo entre os seres mais íntimos favorece a benquerença mútua, até que se criem outras necessidades para ambos.
— A descrição está gélida. Eu condeno essa apreciação mais ou menos mórbida do enlace de amor entre quem gerou e quem foi gerado. Não teria sido melhor, simplesmente, realizar uma referência aos compromissos que se eternizam, a partir do momento em que se assume a responsabilidade de se dar à luz uma entidade incorpórea?
E quem é que, tendo tido o prazer imenso de produzir uma nova existência terrena, não irá, com o passar do tempo, desviando sua atenção do objeto de seu estremecimento para outros estímulos vitais? Quando elogio o desprendimento materno, porque dá do próprio organismo para a formação do feto, não posso esquecer-me dos homens, ou corro o risco de eliminar do processo da geração de novos seres a imensa alegria que os pais sentem.
— O tema me parece delicado, mesmo porque os filhos nem sempre são únicos e aquele afeto aparentemente absoluto irá diluir-se em função de idênticas providências sentimentais junto aos demais membros da prole. Acho que não entendi tudo...
Pois o serviço que se presta em benefício dos necessitados haverá de se repetir indefinidamente.
— Pelo resto da eternidade?
Sim, se mantivermos o conceito de eternidade ligado ao sentido humano de tempo. É que, ao nos formarmos socorristas, estaremos assimilando a felicidade de servir. Assim, para cada trabalho realizado, corresponderá uma como que plenitude de amor pelo próximo.
— Fica-se tão impregnado do espírito de benemerência que tudo passará a girar em torno desse turbilhonante remoinho catalisador da atenção e da consciência. É assim?
Não é assim, não! Se assim fosse, apagaríamos da memória a nossa própria identidade e agiríamos como autômatos. Ora, o princípio essencial do socorrismo reside no discernimento da melhor solução a ser sugerida para o crescimento espiritual dos semelhantes, após o tratamento de suas moléstias morais.
— Desculpe-me estas freqüentes interrupções. Veja se entendi direito. A essência socorrista consigna somente um mero aconselhamento, depois de se pensarem as feridas e de se curarem os vícios? E precisa amar o próximo como a si mesmo, conforme tanto se tem enfatizado?
É que o serviço tem de ser edificante também para quem o realiza. Sendo assim, todos os estudos e exercícios práticos não terão efeito algum, caso se exerça o socorrismo sem envolvimento emocional de superior quilate, porque o tratamento das afecções espirituais somente obtém sucesso se efetivado através da doação integral de si mesmo. Por isso, o socorrista tem de estar isento de más vibrações, conforme assinalamos em mensagem anterior.
— O remédio, portanto, é o próprio socorrista.
E não pode ser diferente porque, no etéreo, a confecção da realidade circunstante depende do poder de manipulação dos fluidos energéticos e tal poder se insere no tônus evolutivo de cada entidade.
Devo dizer que forneço estes dados com o temor de vir a ser mal interpretado, porque muitos haverão de inferir que o espírito se põe à disposição da sociedade concentrada nas colônias, como se se deixasse escravizar pelos administradores, que agiriam diretamente sobre o intelecto dos cidadãos, nublando-lhes a mente e impedindo-os de aplicar seu livre-arbítrio.
— Quero que meu criador e amigo não trema com essa preocupação, pois, para mim, que sou pobre de espírito, ignorante e simplório, ficou absolutamente claro que, sem esforços concentrados em todas as áreas do conhecimento, inclusive para a percepção de todas as falhas mentais e defeitos morais, ninguém se forma socorrista. Ora, o desenvolvimento da crítica sobre todos os valores impede que os alunos sejam robotizados. Tenho dito.
Você se saiu bem, mas eu prefiro concentrar os meus argumentos no primeiro aspecto da proposição, ou seja, na felicidade que se extrai dessa intensa participação na existência universal. A escravatura produz seres infelizes. O socorrismo dá aos espíritos a apoteose da liberdade.
— Depois desse fecho de ouro, só me resta congratular-me com o meu irmão encarnado, pedindo-lhe, humilde, que ore uma prece ao Senhor, em agradecimento por lhe haver facultado o discernimento do exame eqüidistante da verdade contida no texto, acrescentando a solicitação de amparo a todos os seres desencarnados e humanos que lhe propiciaram a oportunidade deste contato ideal. Muito obrigado, irmãozinho e irmãzinha!



21. DIANTE DOS FRACASSOS

Pode parecer incrível que, depois de termos sido tão prudentes e de estarmos sob a sábia direção dos mestres, ainda falemos em insucessos. Acontece que, por mais que cerquemos de cuidados a aprendizagem das normas da boa conduta socorrista, mesmo assim resta pequenina fresta por onde pode penetrar o receio de sermos pegos em falta, porque temos consciência de não sermos perfeitos.
— Após considerarmos como fruto do egoísmo e do orgulho qualquer expectativa do mais absoluto êxito, teremos de precaver-nos contra os arroubos do amor-próprio ferido?
Nem mais, nem menos. O fato de estarmos de volta às regiões conhecidas do báratro, onde fomos muito infelizes, nos leva a crer que muito pouco concretizamos na área das conquistas morais e nos sentimos em débito para com todas as forças positivas do Universo; isto quando não personificamos as acusações na ponta do dedo acusador de Deus. Aí, estremecemos e nos definhamos, pondo-nos inativos perante os apelos dos necessitados. Tornamo-nos nós mesmos aqueles seres frágeis e rogamos pela benemerência dos protetores, uma vez mais, envergonhados e tímidos.
— Pelo menos, tais delíquios ocorrem durante os exercícios preliminares...
Engano seu, amiguinho. Muitos irmãos passam incólumes pelas barreiras das vibrações forjadas, todavia, desfalecem durante as primeiras incursões reais. Não ocorre, freqüentemente, que artistas novatos, conquanto desempenhem sem hesitação durante os ensaios, gaguejem e se apavorem na estréia?
— Digamos que muitos passem por funestas experiências. Qual o remédio mais eficaz para a recuperação do bom ânimo que tinham enquanto estudavam e se exercitavam?
A primeira ajuda chega no exato momento em que ocorre o problema. Há sempre uma equipe de experientes socorristas pronta para a emergência da revitalização do companheiro através do empréstimo das energias que se esvaíram. O que não se deseja, antes de mais nada, é a perda da campanha em favor dos irmãos selecionados para a recepção do auxílio. Caso aquele colega seja capaz de recobrar os sentidos e se ponha em condições de observar os trabalhos, permanecerá sustentado fluidicamente, podendo participar das tarefas segundo a programação. Mais tarde, na companhia da classe, irá ter a oportunidade de expor em minúcias todas as sensações que o despojaram do vigor primitivo. Receberá, então, o apoio irrestrito dos mestres, para a avaliação mais precisa do problema, tendo em vista o retrospecto de suas análises arquivadas na Escolinha de Evangelização.
— É correto supor que todos nesse estado de depressão irão superar as dificuldades?
Sem dúvida, embora os tratamentos variem de conteúdo, segundo as novas perspectivas de abordagem das deficiências levantadas. Mas é justo considerar que o acréscimo de atenção jamais irá apresentar o mesmo agudo grau de dificuldade das providências anteriormente levadas a cabo.
— E quando o novato...
Antes que me pergunte a respeito dos desmaios mais sérios, preciso observar que as falências não se dão apenas entre os aprendizes, mas muitas vezes soem derrubar os mais experimentados socorristas.
— Esse é tópico que merece maiores esclarecimentos.
Não é de difícil compreensão, contudo, pois basta explicar que nem todos os problemas são revelados durante as sessões de tratamento voluntário. Muitos são despertados mediante estímulos repentinos, para a surpresa dos que oferecem seus préstimos socorristas. Para tranqüilizar o meu caro ajudante-de-ordem, meu palafreneiro, meu anspeçada, devo afirmar ser raríssimo os veteranos necessitarem de imediata ajuda externa, porque o titubeio não significará nada além de tênue névoa, simples nuvenzinha a toldar a mente, logo dispersada por enérgica reação moral sob o domínio da razão. Posteriormente, passarão por aquele mesmo processo de reconstituição dos fatos e discussão das soluções.
— Volto à questão em suspenso. E quando o noviço não recupera os sentidos?
Aquela mesma equipe de apoio irá trasladá-lo de volta para a colônia e interná-lo para recomposição perispirítica, procedimento este que se caracteriza como de assistência médico-hospitalar. Posto de bem consigo mesmo fisicamente, terá oportunidade de meditar sobre sua fraqueza, enquanto aguarda o regresso dos colegas de turma, quando os procedimentos se regularizam segundo a fórmula mencionada.
— Percebo que as notícias contidas nesta mensagem dizem respeito exclusivamente ao campo da espiritualidade. Como é que o amigo encarnado deve encarar os seus próprios insucessos?
Você deve estar querendo que me refira às diferenças de atitude perante os erros e defeitos. Não há tantas disparidades assim. Caso o amigo errou, deve cuidar para que a consciência não sobreponha uma tremenda sensação de culpa à paz que o sucesso produziria, porque nada tolda mais a visão serena dos fatos do que a emotividade produzida pelas acusações mórbidas de quem aspirava a ser um pouco melhor do que é. Pior será quando tais falhas forem motivo de sérias reprimendas alheias ou de maldosas pilhérias.
O que se recomenda é o refazimento dos cálculos das ações e reações, como se o resultado, por exemplo, decorresse do mau emprego de uma fórmula algébrica. Ir atrás das causas para a compreensão dos efeitos está na raiz do entendimento das leis naturais. O mais é perturbação promovida por compreensível fragilidade humana.
Existe, porém, uma panacéia que poderá influir decisivamente na superação dos males. Diga-a você, meu caro cavalariço.
— Esta é do arco das velhas escrituras. Trata-se da prece dita com o máximo possível de compenetração do amor e da justiça de Deus, na irrepreensível confiança de que Jesus jamais deixa ao desamparo nenhum membro da comunidade hominal, para quem envia os seus mensageiros à vista da mais débil vibração de sofrimento. Sendo assim, está na hora de solicitar ao leitor que estabeleça seus padrões de comportamento de acordo com as regras impressas neste manual, mesmo que seja para deduzir da inviabilidade da maioria delas.



22. NO PLANO TERRESTRE

Chegou a hora do que muitos conhecem através da vasta literatura mediúnica, ou seja, a hora de revelar ao leitor alguns tópicos relativos aos trabalhos junto aos encarnados.
Não me tem movido o interesse de apresentar as reações das entidades que recebem o apoio dos socorristas, mas o ponto de vista dos que prestam serviço, suas peripécias e dificuldades.
Por meio do pretenso interlocutor, venho amenizando a árdua tarefa de apresentar um manual de regras e normas de conduta, porque esta minha Turma dos Irmãos em Deus se obriga à divulgação de alguns fundamentos que regem a confecção de cada artigo do estatuto. Peço a essa imaginária criatura que me ajude agora, vestido da psicologia dos encarnados em dúvida quanto à veracidade das informações. Tudo bem?
— A primeira questão que coloco, segundo esse novo prisma conjectural, é quanto à própria necessidade deste trabalho; primeiro, no que se relaciona aos pontos positivos que se acumulam nas fichas desse grupo de aluninhos; segundo, no que tange ao mínimo de proveito que possam haurir os terráqueos.
A questão é delicada porque argúi o princípio filosófico da intromissão dos mortos na vida dos habitantes do planeta. Realmente, que importância haverão de ter as mensagens psicografadas ou os conselhos ao pé do ouvido? Não haveria de ser mais produtivo para os espíritos cuidarem de seu desenvolvimento, relegando ao livre-arbítrio a função de esclarecer cada um, paulatinamente, a respeito das leis universais, especialmente a de ação e reação?
— Da mesma forma, muitas seitas religiosas pregam o distanciamento em relação às forças etéreas capazes de tangenciar a aura dos mortais, porque todo o bem se encontra descrito nos textos sagrados, a Bíblia, em primeiro lugar, e nas produções dos santos e pais das igrejas. O que podem acrescentar os mortos que os vivos não sejam capazes de deduzir através da lógica dos raciocínios voltados para a descoberta da verdade? Dentro do Movimento Espírita, mais ainda se podem rejeitar os acréscimos mediúnicos à doutrina explicada pelo Codificador, o Professor Rivail, nosso ilustre irmão Allan Kardec. Submeter as novas mensagens ao crivo da razão, conforme a recomendação deste, talvez venha a ser um esforço inútil, porque nenhum informe terá o condão da novidade, ainda mais quando a confirmação da autenticidade haverá de merecer trabalho exegético de mui extenso sacrifício.
Colocado o ponto de vista de muitos dignos estudiosos, pessoas de expressiva projeção no meio espírita, cabe-nos deslocar a discussão para o fato em si, uma vez que os espíritos, com ou sem autorização superior, continuam a exercer o direito natural da influência sobre a humanidade, pelos mais variados recursos disponíveis, os quais se encontram exaustivamente explicados nas obras da codificação.
— Eu me refiro, porém, especialmente aos fenômenos repetitivos e às teses inatacáveis. Se as pessoas se prestam, de boa mente, ao trabalho mediúnico, devem merecer progredir nos conhecimentos, para o que as mensagens têm de caraterizar, sem polêmica, as notícias inéditas.
Agora estamos chegando a um acordo, porque há de ser óbvio para o leitor comum que todo cuidado é pouco para a recepção de teorias que não se confirmem pela metodologia da comprovação, de acordo com as orientações de Kardec. Este pensamento é que tem norteado a nossa transmissão, nunca demasiado profunda para não provocar reações de muito desagrado, caso a nossa tendência, sem contrariar os postulados da doutrina, visem a enunciar outros aspectos ainda desconhecidos dentro da literatura, vamos dizer assim, oficial.
— Quero amenizar o texto, trazendo-o para o que é mais corriqueiro no relacionamento entre os planos. Não é verdade que a quase totalidade das comunicações dos espíritos se situa na faixa dos esclarecimentos pessoais, no auxílio dos desencarnados recentes e no consolo de seus entes amados?
Vejo que meu ideal interlocutor vive preso aos centros espíritas mais ortodoxos, esquecendo-se daqueles que estimulam a mediunidade de cura e que atraem verdadeiras multidões, inclusive de pessoas que professam religiões cujos dogmas repugnam declaradamente a ação dos espíritos. Mas não tem importância, porque está certo quando afirma que os guias dessas instituições têm por objetivo primordial as almas torturadas pelos sofrimentos e pelas dúvidas, não a revelação sistemática da dimensão espiritual. Ou seja...
— A tendência das instituições credenciadas para funcionarem dentro dos estatutos espíritas, quando se trata das sessões de contato com os irmãos desencarnados, é a do trabalho prático e não teórico, acatando ainda mensagens de incitação ao bem e à virtude. No que respeita aos estudos das obras principais, restringem-se ao que está consagrado desde Kardec, admitindo uma ou outra leitura de textos mais recentes, com o cuidado de estimular o cotejo entre as obras, para ressaltar que estão sendo respeitados os cânones dos espíritos de luz que orientaram Kardec. É ponto a ressaltar o fato de existirem inúmeras recomendações nos catecismos, quanto a não se dar ensejo ao contato mediúnico nessas sessões destinadas às discussões doutrinárias.
Quer dizer que os espíritos não têm acesso às apreciações teóricas?
— Acho que não sou eu quem tem de responder.
Certo. Em havendo a predominância da boa vontade, da honestidade de propósitos, o interesse em assimilar as verdades espirituais, o desprendimento do egoísmo, a negação da vaidade, o sufoco do orgulho, a submissão da prepotência, o império do respeito mútuo, no amor pelo conhecimento, os espíritos de melhor quilate intelectual e moral se reúnem aos mortais para inspirá-los e, muitas vezes, corrigi-los. Do contrário, são atraídos apenas aqueles irmãos infelizes que se comprazem na arrelia, estimulando a dissensão entre os reunidos, a cizânia, o ódio, a malícia e tantos outros defeitos e vícios que acabam por afastar os mais bem dotados moralmente falando, não demorando para que o grupo se desfaça e o trabalho se perca, apesar da doce influência dos superiores conceitos que são postos sob as vistas de todos.
— Penso que me caiba, daqui para a frente, a função de propugnar os exercícios. Então, vou recomendar o que já deverá estar sendo esperado, isto é, que o meu amigo reserve alguns minutos para a análise das reuniões que esteja freqüentando em sua comunidade espírita. Boa sorte!



23. REPRIMENDAS E ELOGIOS

Este é capítulo especial no relacionamento entre os planos, que se escreve a partir das dificuldades de se seguirem instruções.
Gostaria de não estar entre os espíritos considerados íntimos, nesse sentido de me sentir em liberdade para as reprimendas e elogios, para que as minhas mensagens não se classifiquem entre as que estabelecem diretrizes de procedimento, puro e simples. O meu escopo principal é o de descrever o que ocorre no etéreo, quando não se ajustam os irmãos aos deveres relacionados nas leis cósmicas. Por isso, tudo o que representar mera recriminação ou incentivo gratuito deve ser posto à conta ou de entusiasmo meu não vigiado ou de agudo senso de observação do leitor.
— O patrão está preocupado com o que irá dizer a respeito dos discursos mediúnicos orientados para a disciplina dos trabalhadores da seara espírita. Acho que o leitor está tão habituado a essas falas paternais que até poderia estranhar o fato de não encontrá-las aqui.
Isso mesmo. Tenho percorrido muitos locais de reuniões mediúnicas, para poder afirmar, convicto, que os benfeitores das casas espíritas zelam pelo desenvolvimento moral dos pupilos, atentos, portanto, para tudo quanto realizem na vida pública e privada. Quando não alcançam impedir os excessos através da insuflação direta de avisos na mente dos faltosos, aproveitam a primeira oportunidade mediúnica para falarem ou escreverem a respeito, aconselhando as providências mais sábias para o desfazimento dos erros.
— Peço-lhe, querido chefe, que seja mais incisivo, uma vez que o leitor não se sentirá magoado, se for ferido em seu egoísmo, em seu orgulho, em sua vaidade...
Não sei, não. Quando o senso de autoridade dos guias espirituais se acentua, têm os encarnados a impressão de que estão face a face com entidades que privam da companhia dos que têm acesso ao quadrante dimensional do Cristo. Ficam perplexos com a força das palavras de represália ou de condenação, porque não sentem aquela doçura a que foram estimulados desde crianças pelo sentimento do perdão haurido diretamente nas expressões de Jesus.
Não são poucos os que desvirtuam os dizeres de severa prudência, para induzirem o coração a considerar o enérgico mensageiro como excessivo ou ignorante da condição frágil dos seres encarnados. Perdoam-se a si mesmos, atribuindo à reprimenda valor apenas simbólico, algo como o efeito que se pode aguardar mais tarde, no etéreo, pelo desprendimento da matéria, cujos apetites entendem como invencíveis agora.
— Permita-me concluir, meu digno instrutor, afirmando que esses que assim procedem deveriam observar a lhanura da recomendação do Espírito de Verdade, verdadeiro axioma do Espiritismo: “Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.”
Eis que o meu parceirinho denuncia, quem sabe até sem querer, um procedimento lingüístico inusitado dentro do linguajar comum, ou seja, o emprego da segunda pessoa do plural nas ordens de caráter genérico. Essa fórmula, no caso traduzida do francês, se sobrecarrega de novas conotações para o entendimento dos leitores em língua portuguesa, porque se perde o sentido familiar primitivo, adquirindo a formalidade das determinações dos que se investem de poder.
Nenhuma tradução do texto se aceitará entre os espíritas, se consignar inexpressivo amem-se e instruam-se, ainda que embutidos em perífrases verbais acompanhadas de sujeitos indefinidos, como: “Devem vocês amar-se e precisam instruir-se!” O imperativo tradicional, em desuso no registro vulgar dos falantes, na escrita, ganha a suntuosidade da ordem superior, sendo empregado constantemente com essa exata intenção de subordinar o leitor ao sentido moralista do texto.
— Quanto à seriedade deste mesmo discurso, não estará o meu augusto professor incidindo na falha de promover a dúvida quanto à lisura de sua manifestação?
E que importância há de ter esse pequenino deslize, perante todo o aparato temático que desenvolvo? Quem disso suspeitar não incorrerá no vezo de presumir tudo o que não entende como de inferior procedência?
— Vejo que o parágrafo acima corre por conta da exemplificação necessária quanto à demonstração do que seja um texto recriminatório. Não está na hora de falar dos elogios?
Esse é tópico muito perigoso, porque amplamente comentado por Kardec e muito difundido entre os orientadores e doutrinadores espíritas. Existe, não obstante, um ponto a ser discutido, desde que mantenhamos o alto nível das apreciações, sem provocar estremecimentos de estreita compreensão temática.
Quando o espírito comunicante elogia, pode estar desejoso de agradar, de reconhecer méritos, de incentivar padrões de procedimento, de recompensar moralmente certos serviços, como pode também trabalhar no intuito de fazer perder o obsidiado, pelo reforço dos vícios psíquicos do egoísmo, do orgulho, da vaidade, da prepotência, do amor-próprio acendrado, do ciúme e da inveja alheios, na intenção de provocar reações contrárias ao estabelecimento de amizades sinceras e duradouras.
Quem se detém no exame das conseqüências prejudiciais pode transferir para as palavras de exaltação do valor ditas pelos bons espíritos os sentimentos mais sórdidos, englobando num só feixe o trigo e o joio. Para se evitar tal extremismo, recomendo atenta leitura da obra kardequiana, porque existem inúmeras mensagens de apoio ao trabalho executado, centradas nos aspectos positivos das realizações.
— “Eu mesmo tenho recebido alguns pitos e outras tantas prolfaças, os primeiros a me fazerem refletir sobre a necessidade de melhorar-me; as últimas empenhadas em me manter otimista quanto a conseguir os altos objetivos que venho perseguindo e que me foram determinados pelos meus superiores.” Não será essa a reação que o meu criador está na expectativa de ouvir do leitor encarnado?
Perfeitamente. Aliás, eu mesmo estou ávido por conhecer a repercussão deste meu trabalho, porque devo orientar os próximos empreendimentos pela correção das falhas, pelo preenchimento das lacunas e pelo aproveitamento mais inteligente das propriedades positivas. Para tanto, sei que vou ouvir reprimendas e elogios, seja dos amigos do etéreo, seja dos leitores do orbe.
— Por que leitores do orbe e não amigos do orbe?
Sirva a questão de exercício para o amigo leitor.



24. CONTINUAÇÃO DA ANTERIOR

Se lhe pareceu que esgotei o assunto, preste atenção ao próximo desenvolvimento, porque haverá surpresas, certamente.
A que visam os espíritos superiores quando se apresentam para as manifestações que julgam importantes?
— Não sei se a questão se propõe para mim. Em todo caso, vou responder a ela, afirmando que, qualquer que seja a minha interpretação, sempre haverá de ser a versão de um ser inferior àqueles, de sorte que as hipóteses que levantar não trarão consignada a verdade. Apenas os seres de luz é que poderão informar a que e por que vêm.
Nesse caso, se os habitantes desta dimensão se julgarem ofendidos pelos termos da comunicação, poderão estar incidindo em erro de leitura dos intentos daqueles cuja sabedoria é mais abrangente. É isso?
— Penso que sim, porque não se pode imaginar que entidades postadas em planos mais elevados tenham interesse em prejudicar o avanço evolutivo dos espíritos que podem sempre considerar-se seus protegidos.
Se disser que um de meus afilhados terrenos deve reformar-se neste ou naquele aspecto, correrei o risco de melindrá-lo?
— Certamente correrá, porque não tem ele como comprovar que se trata de mensagem redigida segundo os parâmetros e diretrizes da moralidade de esfera mais perfeita. Somente acurado estudo do teor do texto, em confronto com a realidade de sua psique e de suas ações, é que redundará em confirmação do grau de superioridade do arauto do Senhor.
Do mesmo modo, deverá agir o encarnado quando se trata de levá-lo a uma conclusão positiva a respeito de seus esforços na área da benemerência?
— Aqui com maior razão, uma vez que, se achar que não está cumprindo direito as obrigações morais, poderá pressupor a presença de obsessor interessado em mantê-lo na cegueira das atitudes em descompasso com o que lhe recomenda a própria consciência.
O que significa dizer...
— ...que as mensagens oriundas do etéreo devem ser vistas com muito cuidado, sempre, sem se facilitar a aceitação imediata de nenhuma delas.
Muito bem. Agora, posso inferir que as minhas comunicações estão nesse mesmo pé. Então, por que é que mantenho esta constância diante do aparelho mediúnico? Não me seria bem mais produtivo realizar obra de tratamento direto dos temas, sem estas discussões metodológicas, propondo soluções de indiscutível concordância doutrinária com os princípios espíritas consagrados?
— Peço-lhe um exemplo dessa manifestação de valor incontestável.
“O meu irmão encarnado que me perdoe, mas a guerrilha urbana provocada pela maldade dos poderosos está dizimando a idéia da solidariedade, fazendo da maioria da população apenas seres egoístas, num salve-se quem puder calar-se ou isentar-se de qualquer atitude de represália. Que importância tem a morte, se soubermos calibrar as atividades pelo prisma da lei universal e perante a misericórdia de Deus? Não é verdade que os mártires serão exaltados e receberão as glórias dos que se sacrificaram por um ideal cristão? Não fique indiferente e se propugne a auxiliar os bons no combate aos crimes, dentro de seu restrito campo de atuação, com o pensamento voltado para a benquerença dos inimigos, porque devemos separar o que os criminosos têm de seres criados por Deus, que criou a todos nós, do que possamos atribuir-lhes como demérito na aplicação dos compromissos do reencarne.”
— Vejo que estão embutidos os dois itens de que se formou o tema em pauta, ou seja, a recriminação da pusilanimidade e o elogio da coragem. Mas será que o texto comportou, realmente, soluções de indiscutível concordância doutrinária com os princípios espíritas consagrados? Não terá o esboço de mensagem o rigor excessivo de quem se situa em esfera mais elevada, onde reina a paz? Se a pessoa morresse sem ódio no coração, em condições de considerar o trabalho efetuado no âmbito da caridade muito expressivo, verdadeiramente digno de quem realizou sua missão sem hesitar, conseguindo ampliar os recursos morais dentro do campo das virtudes perenes da espiritualidade, eu até admitiria que arriscasse a perda da própria vida e dos familiares, pelas mãos dos que se vissem prejudicados e que não pusessem freio moral às ânsias de revide. Entretanto, talvez a lei de conservação pudesse ser aventada para a defesa da vida, apesar de o indivíduo não se empregar com denodo para a melhoria da sociedade. No mínimo, a proposição merece ser examinada com muita precaução, o que me faz concluir que, mesmo quando a mensagem está fundamentada em teses irretorquíveis, ainda assim precisa o recebedor encarnado fazê-la passar pelo crivo da razão, segundo a ética ou a filosofia moral, princípio norteador das atividades propícias ao desenvolvimento da humanidade.
Só faltou o amiguinho concordar em que nenhum mensageiro do etéreo deve responsabilizar-se ou ser responsabilizado pelas ações humanas, porque não haveria progresso espiritual a ser extraído diretamente dos textos. Indiretamente, sim, porque levariam à reflexão quanto ao equilíbrio das atividades normativas do bom emprego das energias vitais.
— Não sei se chegaria até esse ponto. Não obstante, agradeço a oportunidade de cooperar na elaboração do capítulo, momento profícuo de profunda assimilação do conceito relativo à mais completa isenção pessoal quanto às recriminações e aos elogios. Se alguém suspeitar de que a acusação tem por objetivo magoar, deve refrear os sentimentos, porque, mesmo quando as notícias advêm de espíritos obsessores, nunca devem representar algo sobre que basear as emoções, as quais só poderão causar distúrbios e sofrimentos. Da mesma forma quanto aos elogios, pois, até quando são ditos pelos amigos da espiritualidade superior, não devem provocar mais do que vigorosa concentração na realidade evolutiva, uma vez que a felicidade a que visam se integrará à personalidade do homenageado no momento da ascensão ao patamar seguinte da escalada rumo ao bem maior, ao reino do Pai.
Que exercício proporá a minha virtual criatura?
— Penso que o leitor não aproveitará melhor o seu tempo senão buscando decifrar todos os termos doutrinários embutidos naquele esboço acima de obra de tratamento direto dos temas. Fique com Deus!



25. A AJUDA EXTERNA

Diante das ponderações concernentes aos estímulos negativos ou positivos, conforme os dois itens anteriores, terá este comunicador qualquer outra informação de caráter genérico que possa favorecer o crescimento espiritual do leitor? Não estarei impedido de me manifestar, tendo em vista repousar sobre os largos ombros do amigo encarnado a total responsabilidade de suas próprias ações?
Falo por mim, sem abrir o meu manual de socorrismo.
O que mais me satisfaz durante os cursos a que me dedico é o auxílio dos mais experientes, porque me oferecem recursos ideológicos para a garantia de novas perspectivas de soluções dos problemas. Fique claro que, muitas vezes, a orientação que deles recebo define tão-só a bibliografia especializada, quando não se trata de colegas com as mesmas hesitações, com quem troco idéias e divido as pesquisas.
— Meu chefinho está tentando demonstrar que a literatura espírita contém as diretrizes doutrinárias mais perfeitas para cada questão duvidosa, dentro do litígio moral da própria natureza humana, porque, a cada tomada de decisão, em qualquer campo de atividade, se tem de obter a máxima segurança de que não se vai falhar ou prejudicar ninguém.
Se fosse apenas para isso, não precisaria postar-me diante do leitor. Bastar-me-ia acompanhar qualquer trabalho de psicografia das turmas da Escolinha de Evangelização, uma vez que todos os textos se obrigam a enfatizar o valor do estudo das obras da codificação espírita. O que desejo passar ao amigo encarnado é a idéia, mais ainda, a exata compreensão de que, em todas as fases de crescimento espiritual, haverá alguém, em estágio evolutivo mais avançado, a postos para o melhor encaminhamento do aprendizado. Sendo assim, a atitude mais coerente com essa predisposição dos maiores será a de corresponder com firme aplicação aos exercícios práticos e aos estudos teóricos.
— Posso adivinhar que o próximo passo da exposição é aliviar a carga intelectual dos menos dotados, porque seria falta de consideração e de respeito englobar todos os seres humanos numa faixa de superior entendimento das noções abstratas, as quais exigem discernimento e cabedal escolar, o que poucos encarnados possuem, segundo a qualidade mínima de seu desempenho, à vista dos desenvolvimentos altamente literários, científicos e filosóficos da doutrina espírita codificada por Kardec. Aliás, muitos universitários se sentem embaraçados, mal decifrando os textos de forma a terem segurança em suas conclusões.
Se o meu prestimoso auxiliar se incumbe de efetuar os reparos que presume venham a ser o motivo da dissertação, vai evitar-me considerável trabalho de esclarecimento. Não obstante, se tiver um pouco de paciência e ler com atenção as mensagens, vai notar que nem este autor, apesar de preocupado com as faculdades intelectivas do encarnado, teve o cuidado de elaborar textos suficientemente fáceis para todo tipo de capacidade.
— Só posso deduzir que a ajuda externa não contempla quem não haja tido a possibilidade de se alfabetizar, no caso dos trabalhadores dos centros espíritas...
Precipitação sua, pura e simples. É de rigorosa obrigação de quem sabe mais auxiliar os que se esforçam por aprender. Note bem. Eu disse: os que se esforçam por aprender, que é bem o caso dos que buscam o conforto de uma doutrina completa, doutrina que não teme enfrentar todo tipo de desafio, desde os temas teológicos mais escabrosos até os processos científicos mais modernos. Em tempo: escabroso apliquei na acepção de difícil, árduo, e não na de oposto às conveniências ou ao decoro.
— Notei que o uso do dicionário é imprescindível e posso dizer que se trata de uma das melhores ajudas externas a que as pessoas podem recorrer, sem medo de passar vergonha pela demonstração de sua ignorância.
Eis que chegamos ao ponto fundamental da dissertação. Da mesma forma que temos de estar com o ânimo isento de estremecimentos quanto às reprimendas e aos elogios, também quando se trata de solicitar ou de receber ajuda espontânea, devemos agir com calma e discernimento emocional, certos de que a dinâmica da aprendizagem redundará a favor do crescimento do repertório de conhecimentos, o que, em última análise, irá fornecer os subsídios para as ponderações a que acima aludi, quando sugeri ao meu virtual colaborador que falasse a respeito da necessidade que se tem de obter a máxima segurança de que não se vai falhar ou prejudicar ninguém.
— Como é que, no etéreo, as entidades encaram esse ponto?
Existe uma infinidade de reações, como entre os habitantes da Terra, já que somos diferenciados pelo grau evolutivo. Refaça a questão, por favor.
— Em cá chegando, como é que deve reagir o encarnado que nos lê, uma vez que está recebendo tanta informação confidencial?
Gostei do termo confidencial, porque sugere que estamos conversando com uma pessoa distinta, alguém com capacidade suficiente para saber o que pode esperar dos benfeitores que virão recolher-lhe o espírito, na hora da morte, exercendo o dever de ajuda externa, que se deve solicitar, em nome de Jesus, e agradecer.
— Que fique como trabalho de casa o exame de quão verdadeira é a sugestão que se contém no parágrafo anterior.



26. DA AVALIAÇÃO E DA RECICLAGEM

Muitas vezes, o cansaço toma conta do organismo, levando a pessoa a considerar que seria melhor recompor as forças (e o ânimo), para prosseguir na tarefa de auxílio aos necessitados. É muito justo esse pensamento, porque é preciso que se reciclem os objetivos, de quando em quando, para se firmarem os princípios da benemerência. Não é que se debilite a vontade nem que arrefeça o propósito de servir. O que ocorre é a necessidade de avaliação, como em todos os projetos humanos.
— Quero saber, desde logo, se o mesmo se passa no âmbito da espiritualidade.
Sem dúvida, principalmente quando o estudo dos casos acumulados durante a jornada sugere a suspensão do trabalho, para a reformulação teórica e o apuro dos recursos disponíveis.
— Não me ficou claro. Quer dizer que nem todos os casos foram previstos?... Desculpe-me, senhor e amigo, mas surgiu-me de repente na memória que o tema já foi esclarecido. Reformulo a questão e proponho que se desenvolva o tópico através de exemplo.
Quando os médiuns vêm trabalhando por anos seguidos, tendem a padronizar as manifestações, de modo que, ao impulso das vibrações magnéticas dos espíritos, se despacham, reproduzindo as falas e os discursos que obtiveram sucesso e se cristalizaram em suas mentes. Veja bem que não se trata de animismo nem de mistificação. Trata-se de eliminar as dificuldades ao se ouvirem as queixas ou as recomendações, promovendo, junto à mesa mediúnica, um clima familiar, para a contaminação fluídica dos companheiros e para o exercício doutrinário do dirigente da sessão.
Por isso é que freqüentemente recomendam os guias que todos os trabalhadores voltem aos bancos escolares, retomando os estudos teóricos, lendo e discutindo os diferentes códices de Kardec, acrescentando as obras de novos autores, seguindo os critérios dos estudiosos do Espiritismo.
— No caso destes tratados mais recentes, é recomendável que se consultem os protetores dos médiuns ou os dirigentes espirituais da casa?
Embora não haja nenhuma necessidade disso, poderão ser ouvidos os responsáveis pela direção espiritual do centro, os quais haverão de prescrever prudência na escolha dos textos e discernimento na adoção de novos conceitos técnicos, uma vez que a experimentação deve seguir rigorosa metodologia de caráter científico.
— Perdoe-me, professor, mas essa orientação não se destina mais aos socorristas do etéreo do que aos seareiros encarnados?
Cada qual tem seus sistemas de atuação, de acordo com a natureza de seu círculo existencial. Entretanto, não posso estabelecer nenhuma distinção metodológica, porque cabe ao intelecto normatizar os procedimentos, qualquer que seja a área de aplicação dos princípios doutrinários. Esta mensagem, por exemplo, inclui os conselhos dos mentores e os ensinamentos dos próceres do movimento espírita, pode ter a certeza disso. Contudo, o meu médium não pode ser acusado de reproduzir um desenvolvimento temático habitual.
— Sugere, portanto, o meu benemérito criador que o encarnado se estimule ao exame de outras composições ditadas pelos companheiros da Escolinha de Evangelização. Não estará, de certa forma, patrocinando a propaganda do serviço prestado por todos nós?
Que importância haverá de ter esse fato, diante da intensa, da deslumbrante felicidade em servir? Caso se incite o amigo a percorrer todas as mensagens da gente, acrescendo-as ao acervo das obras de outros médiuns, com certeza irá enriquecer o patrimônio doutrinário, munindo-se de mais farto material de consulta íntima, quando for solicitado para a reciclagem supracitada.
— Na mensagem de número doze, A alegria do comunicador, comenta-se a preocupação com a fuga dos servidores. Na presente, insiste-se na tese do aperfeiçoamento contínuo das técnicas e do conhecimento teórico. Não há espaço para o lazer dentro do Espiritismo?
Aceito-lhe a provocação e aproveito para citar os textos mais amenos dos romances, dos contos, das poesias, do teatro, dos testemunhos de vida, conquanto exijam outro tipo de raciocínio, qual seja, o de desbastar o episódico para realce das lições. Em todo o caso, sempre se encontrará mais prazer neles, porque o belo é um dos principais objetivos das composições dramatizadas.
Cabe-me perguntar também à minha loquaz criatura, se, em alguma parte, condenei a formação de grupos de teatro, de concursos de poesia, de disputas entre jovens para a premiação dos mais estudiosos e para o esclarecimento dos temas de forma lúdica e agradável?...
— Significa que os que se sentirem exaustos deverão diversificar as atividades, procurando fazê-las prazerosas e criativas. Sendo assim, passo à lição de hoje. O meu leitor deve refletir sobre o que vem realizando no centro espírita, na tentativa de caracterizar o ponto nevrálgico em que se verá angustiado por excesso de trabalho. Haverá alguém que julgue a sua cooperação inferior à capacidade de desenvolver atividades úteis para a ampliação da área de atendimento da instituição?



27. DO MÉTODO

Após tantas manifestações, falar em método pode parecer abuso do poder discricionário do autor. Vamos, no entanto, esclarecer que se trata de ponto em que não se pretende polemizar, porque se deve levar avante o objetivo primordial de expor as razões que coordenam o sistema de auxílio da colônia, em função das obrigações existenciais que se desvendam através dos estudos.
Falamos já dos companheiros que compartilham esta faixa evolutiva e que, por disciplina própria, preferem ser autônomos. Quer dizer que agem sem método? Absolutamente, não. Cada qual adapta à sua personalidade uma fórmula particular de reagir aos diferentes estímulos produzidos pelo sofrimento alheio. Eles mesmos, aliás, procuram satisfazer as próprias necessidades, requisitando o apoio dos mais adiantados, inclusive permanecendo em estágios nas colônias.
Desmistificada a impressão de que estas detêm a exclusividade do socorrismo e elucidada a questão do progresso individual em área essencial para o aplicar das leis universais, sou coagido a afirmar que a ninguém é dado passar para o plano evolutivo seguinte, sem condizente capacidade de doação integral de si mesmo, na confiança perenal de que Deus é pai de misericórdia e justiça.
— Será o mesmo que dizer que os sacrifícios têm o condão de elevar o tônus moral à quintessência possível de conquistar-se neste setor do Universo?
Os sacrifícios não têm esse mérito, por si mesmos. É a consciência de que não há risco algum em aplicar-se integralmente ao próximo que prepondera na formação psíquica do espírito. Em outras palavras, o dom da sabedoria, adquirido dentro dos padrões evangélicos superiores, por meio da exaltação de todas as virtudes, é que coroa o aperfeiçoamento dos indivíduos.
Imaginemos um ser dotado de todas as qualidades prescritas para o homem de bem, conforme a pregação cristã. Não será difícil de conceber que esse ser deverá freqüentar dimensões mais depuradas do que aquela em que existimos nós. Se, um dia, por missão especial, precisa descer até o nosso círculo, estará em perigo a sua integridade?
— Percebo agora que o exercício do socorrismo visa também a propiciar aos trabalhadores aquele acréscimo de saber ou de luz que imanta os perispíritos, oferecendo completa proteção contra todo tipo de malefício dos seres das camadas em que precisam imergir.
Eis que se configura que a dedicação aos estudos pressupõe contextura moral de superior qualidade, o que só se pode obter com método, dentro do sistema de assimilação gradual de cada matéria, após a contenção das tendências ao egocentrismo, à vaidade e ao orgulho.
— O que caracteriza, afinal, esse método? Parece que se está dando um significado misterioso ao termo, como se resguardasse ele certo segredo sobrenatural, magia ou encantamento, cujo uso produz maravilhas, pela transformação imediata do ignorante em sábio...
Etimologicamente, método é caminho para, ou, melhor explicando, caminho para determinado fim. Qualquer dicionário irá definir o termo dentro desse parâmetro inicial. Para mim, que respeito as instruções dos professores, método é o meio ou o recurso de que se lança mão para alcançar os objetivos. Alguma dúvida?
— Qualquer colegial com algum discernimento diria a mesma coisa.
Então, aqui vai a explicação definitiva.
O objetivo de todas as criaturas é atingir a perfeição. Esse alvo é indivisível, não se decompõe em elementos, porque, para qualquer lado que se volte, tudo há de demonstrar o mais alto nível de desempenho. Sendo assim, sem sofismar, o próprio sistema empregado para atingir essa meta tem de se apresentar íntegro, sem falha, inalterável, perfeito. Ou seja, o meio é também um fim. Situando-se a expectativa num ponto de vista preliminar, tem-se de concluir que não se pode admitir um método apenas provisório, o que nos levará à essência do problema.
Atingida a perfeição do recurso, ipso facto, o trabalho socorrista perde o sentido de educação do espírito. Salvar, ajudar, influir, soerguer, aconselhar passam a ser fatores secundários, tendo em vista a premissa do livre-arbítrio. Adquire, portanto, a entidade a condição de ser guindada a paragens de maior harmonia, porque atingiu o apogeu dentro da esfera que o agasalha.
— Resta saber se os encarnados, detendo o mesmo poder de melhoria, vão ascender diretamente àquelas regiões mais excelsas.
Por que não? Conquanto sejam mais solicitados para o excitamento das incertezas, à vista do perecimento material, também podem compreender as diretrizes expostas nos evangelhos e especificadas nas obras da codificação espírita, agindo em consonância com os preceitos de pureza conceptual e emocional. Eis que se revela o significado misterioso a que se referia o meu discípulo ideal.
— Exercite-se o leitor buscando caracterizar o seu método de apreciação da vida, avaliando se está ou não próximo da perfeição. Quanto a mim, para conforto das conclusões insatisfatórias, devo dizer que longe me encontro de ser alçado para mundo de maior paz e harmonia.



28. DAS MENSAGENS DE AMOR

Todos os seres estão em permanente contato com seus guardiães. Tal afirmação leva, naturalmente, a questionar sobre a partir de que momento se desprendem os vínculos entre os protetores e respectivos protegidos, uma vez que o crescimento não cessa, levando cada um a desenvolver-se de acordo com sua aplicação ao bem, com seus esforços de aprendizagem e com a disciplinada obediência às normas de mais perfeita coordenação entre sentimento e pensamento, para suplantação dos males e dos vícios e aquisição dos bens e das virtudes.
Queria que meu amigo de toda hora me ajudasse nesta apresentação, formulando as perguntas mais adequadas para o encaminhar mais lúcido e pragmático da redação.
— Realmente, devo imaginar que a escalada ascensional se faz em progressão cada vez mais rápida, devendo os discípulos aproximar-se cada vez mais do ponto em que se encontram os mestres, havendo um instante em que seus conhecimentos devem juntar-se, para que ambos se abracem numa faixa de mesma vibração energética superior.
Essa intuição está fortemente impregnada do que acontece entre os humanos, porque existe um instante na vida em que se conclui o ciclo biológico do crescimento intelectual, passando a existir equiparação de potencialidade entre os adultos para a aquisição das experiências. Por outro lado, os arcabouços genéticos são diferenciados, havendo quem permaneça em patamar de inteligência assaz sofrível, enquanto outros jamais param de crescer nesse aspecto, porque aprendem a aproveitar cada vez melhor o seu aparato de recursos mentais.
A idéia, portanto, de que vai acontecer entrosamento entre guardião e assistido, no plano espiritual, não deve prevalecer-se dessa impressão carnal. Se, como disse o amiguinho, a escalada ascensional se faz em progressão cada vez mais rápida, essa verdade deve valer também, e com maior razão, para os anjos ou entidades dos escalões mais elevados. Aí se daria o contrário, isto é, o distanciamento iria crescendo, em vez de diminuir.
— Solicitado a colaborar, preciso intervir para oferecer um pouco de resistência ao que se disse no parágrafo anterior, pois, se me vali da experiência dos encarnados, não há como deixar de observar que o meu criador está entrando em pleno domínio das conclusões racionais fundamentadas em silogismos e não através da comprovação pelos fatos, dado que não possui nem o desenvolvimento intelectual nem os conhecimentos dos mensageiros de luz da plêiade que se apresentou a Kardec para o assentamento dos princípios doutrinários do Espiritismo. Não é verdade que você está inferindo o que pode ou deve ser e não o que é exatamente?
O argumento seria absolutamente válido não fosse por pecar contra o próprio sistema de auxílio entre os mais adiantados e os mais atrasados. Se existe corrente de guardiães e de assistidos, conforme a tese com que dei início à dissertação, e se os mais adiantados auxiliam os menos evoluídos (eis a segunda premissa do silogismo), logo, é cabível supor que haja também uma corrente de informações. Isto é o mesmo que asseverar que as perguntas não ficam jamais sem resposta, uma vez que tudo o que a entidade mais próxima, dentro do plano mais elevado, não souber irá procurar esclarecer junto ao protetor; e assim indefinidamente.
— Devo concluir que o título atribuído ao capítulo, Mensagens de amor, se refira exatamente a esse encadear de sabedoria e de ensinamentos. Evidentemente, como alhures discutimos neste volume, é preciso que os menos dotados se desfaçam dos preconceitos, como me recomendou o mestre quando me apontou a imprecisão pelo fato de basear-me na realidade dos espíritos encarnados. Mas, convenhamos, essa é premissa de mui difícil apreensão, embora de fácil digestibilidade intelectual.
Bem colocado. Por isso é que o tempo todo repetimos o conselho sobre que Kardec não se pejou de insistir, qual seja, o de que todos os informes mediúnicos devem ser expostos à luz da razão e do bom senso, nunca se atrevendo quem recebe a mensagem a aceitá-la no primeiro impulso, por favorecer de alguma forma o seu próprio modo de pensar a respeito da realidade.
— Indo um pouco mais à frente, podemos inferir que, por meio dessa cadeia de saber, lá no início, se posta o nosso Criador, de onde se irradiam todos os focos de luz, os quais somente não nos causam cegueira, porque se diluem as vibrações a cada passagem de um ser superior a outro inferior? Não seria o mesmo que dizer que, no topo da escada, estão as criaturas que vão adentrando no reino, conforme nos propôs Jesus e nos afiançaram os mensageiros através de Kardec?
Vejo que o querido pupilo me aceitou a argumentação e está utilizando-a à revelia de sua proposta de que o meu conhecimento é meramente teórico. Se o amigo encarnado se estimular a efetuar o mesmo exercício metodológico, terei a imensa satisfação de sentir que a presente obra está atingindo o meu maior objetivo, o qual, aliás, se confunde com os da Turma dos Irmãos em Deus e do mestre Otávio.
Quanto a responder às questões propostas, parecem-me elas que estão aí apenas para a retórica do texto em forma de diálogo, já que nenhuma outra ponderação poderá desmentir a assertiva que nelas se embutiu.
Antes que a amada criatura me critique por estender-me através de um capítulo inteiro sobre tema que poderia ser exposto em um único parágrafo, vou esquivando-me, propondo que o leitor examine as linhas e as entrelinhas do que aqui deixei registrado, para deduzir, conforme lhe sugiro, que será este o sacrifício relativo à minha coroação como redator oficial do grupo, porque não estou importando-me com a minha imagem, desde que possa oferecer testemunho de amor e benquerença por quantos encarnados vierem a tomar contato com esta produção.
— Vou aproveitar o ensejo para instigar o leitor no sentido de que estabeleça um padrão para avaliar todos os textos mediúnicos, seja de que autor for, sempre voltado para a absorção de quanto de sentimento se depositou em cada página, mediante a decifração do empenho pessoal de cada um, pelo desejo da melhor elaboração possível para se aproximar cada vez mais dos ideais literários, doutrinários, filosóficos, morais, científicos e religiosos dos encarnados.
Para encerrar, sem pretender meter o bedelho onde não estou sendo chamado, mas por dever de consciência, preciso advertir o examinador para que exclua do texto qualquer sentimento ruim, porque apenas espíritos de baixa categoria se deixariam conduzir por orgulho, por vaidade, por presunção e demais vícios morais. Ou será que tais mazelas são encontradiças em minha escrituração?...



29. DOS APETRECHOS

Quando saem os socorristas para exercer a sua função específica, portam consigo algumas ferramentas de trabalho, sofisticadíssimas para o entendimento dos encarnados, muito embora, para a descrição delas, nos utilizemos de nomenclatura bastante próxima dos aparelhos a que se habituaram em seu dia-a-dia. Por exemplo, podemos falar em macacões ou escafandros, vestuários especiais para imersão em zonas de densas vibrações, os quais evitam, por absorção das ondas fluidas deletérias, que os perispíritos sejam atingidos e a organização corpórea sutil ferida, a ponto de impedir o prosseguimento dos trabalhos.
Como referir-me à composição do tecido de que é fabricada a roupa, se o leitor não poderá captar os aspectos físicos mais corriqueiros da industrialização dos fios energéticos, que se condensam a partir da concentração mental dos operários, que apanham, na atmosfera menos densa da colônia, as moléculas carregadas de virtudes espirituais doadas pelos benfeitores com essa finalidade?
— Não tenho muita certeza do processo, mas posso estabelecer como princípio, para informar ao encarnado, que o bem que se faz às pessoas, no orbe terráqueo, pressupõe atitude positiva, a transmitir afeto, calor humano, boa vontade, otimismo, ou seja, fatores de equilíbrio para a reorganização mental ou corpórea. Da mesma forma, no etéreo, os seres que aspiram a fazer o bem, em lugar de se integrarem em grupo que vai à busca dos necessitados, preferem, por razões próprias, dentre as quais o fato de estarem um degrau acima na escada da caridade, oferecer aos que partem uma espécie de protetor pessoal, uma bateria de retenção daqueles fluidos especiais de amor, de benquerença, de esperança, de fé, de confiança na misericórdia divina, que serão capazes de anular as ondas dos defeitos morais, pela transformação delas em matéria inorgânica, como se fossem transformadas de venenos em água potável, de fogo em aquecimento saudável e reconfortante, de ventos tempestuosos em brisas brandas a levar para longe os miasmas pestilentos da maldade.
Gostei da longa intervenção. Parece-me ter ficado assinalado que o objetivo dos socorristas não se resume em se protegerem do que de pior lhes for arremessado, mas em permitir que as entidades auxiliadas possam observar que as ações perversas se transformam, no âmbito dos seres que lhes asseguram a benevolência do Senhor para com todas as criaturas, em qualidades de incontestes merecimentos, mesmo para sua imperfeita visão do bem.
Por outro lado, existem instrumentos parecidos com os utilizados pelos médicos, sem falar ainda nos remédios. Por exemplo, sempre haverão de levar consigo agulhas e linhas para a sutura dos cortes, como também aparelhos ortopédicos para a redução das fraturas.
— Acho muita graça nessa espécie de elucidação, porque os vocábulos são tão apropriados para explicarem os atos de primeiros socorros, como se disséssemos que os jogadores de futebol batem com os pés em pedaços da casca de animal quadrúpede, cosidos por manufatura ou eletronicamente, em fábricas que também trabalham com látex extraído de certas plantas exóticas da floresta americana, para a qual foram trazidas por exploradores interessados em enriquecer-se e à civilização. Reconheço que é um esforço de informação necessário, no entanto, penso que a descrição deveria privilegiar o sobrenatural, fazendo com que o leitor se conforme com a impossibilidade de apreender, através da inteligência carnal, qual o aspecto ou aparência dessas ferramentas de auxílio direto, objetos fluidos que se desprendem dos auxiliares para introdução no organismo perispirítico dos assistidos, ali permanecendo como sustentação externa, até que eles mesmos possam conceber o meio mais adequado de substituir os ingredientes de empréstimo por influência pertinaz e suficiente de sua contextura moral.
Temo que a presente manifestação esteja a sugerir que existem em nossa dimensão os mesmos problemas afetos ao plano físico, como se os elementos subatômicos e atômicos se organizassem, por influência da energia que se produz através da própria agitação, criando as colônias a que chamaremos de moléculas. A partir daí, tudo vai ganhando uniformidade, segundo o direcionamento padronizado das composições químicas, até se estabelecer um critério físico de apresentação para um universo de foco irradiante de matéria. Desse caos primitivo, provém a vida. Estará, pois, o amigo encarnado a imaginar que haja perfeito paralelismo ou até mesmo sincronia entre a criação dos seres sobre as faces dos mundos e aqueles que se compõem nos círculos a que se convencionou chamar de espiritual inferior (região umbrática e das trevas) ou superior (zona de felicidade e bem-aventurança).
O meu temor só irá dissipar-se no momento em que for capaz de referir-me com absoluta clareza às similitudes relativas, às comparações esclarecedoras para a mente mergulhada nos problemas estruturais de determinada condição existencial. Todo o processo a que aludi no parágrafo anterior pode ser transposto para esta camada em que a colônia erigiu as construções. Sem dúvida, é válido que a mentalidade vigente entre os espíritas admita aqui uma espécie de realidade condizente com as formas a que os recursos sensórios humanos estão acostumados. Mas há aspectos que podem ser surpreendentes para quem não percebe, por exemplo, que as suas cidades se deslocam sobre o magma ígneo, aquele mesmo capaz de levantar montanhas e aprofundar os vales, movendo os continentes, porque o tempo de vida, em comparação com as transformações geológicas, não lhes dá a perspectiva das alterações. Assim, se eu disser que a nossa colônia se movimenta como se estivesse dotada de silenciosos motores a jato, tendo em vista as flutuações constantes dos limites das esferas, poderão estranhar muitíssimo. Se falar em marés, por intervenção gravitacional do satélite da Terra, poderei lograr melhor êxito na descrição do fenômeno da deslocação a que me referi?
— Creio que estamos afastando-nos do ponto a que nos propusemos nesta mensagem, qual seja, dos apetrechos que as equipes de socorristas carregam para facilitar o serviço. Ficou em suspenso a medicação apropriada aos irmãos sobrecarregados de débitos, mas que estão a merecer apoio e consideração. Não estará na hora de falar dos analgésicos e drogas anestésicas que se administram por via oral ou endovenosa?
Queira Deus o meu irmão tenha tido a paciência de assimilar as dificuldades que a transmissão destas noções mais positivas está a demonstrar. Não era outra a minha intenção, embora, ao mesmo tempo, mantivesse acesa a esperança de que pudesse ele inferir que as turmas de socorristas não agem de mãos vazias, sem preparo adequado para enfrentar as reações mais intempestivas dos que ignoram que as entidades se aproximam para a prática de ato apenas em benefício de alguns, porque nem todos estão em condições de enfrentar os rigores da disciplina imposta aos habitantes das colônias.
— Como exercício, gostaria que o companheiro encarnado meditasse a respeito de sua visão do serviço de socorro no etéreo, dedicando especial atenção aos pontos que polemiza, não aceitando os nossos informes. Acredito que, por mais se dedique a levantar questões pertinentes, sempre haverá de buscar na literatura mediúnica outros textos que tratam deste mesmo assunto. Boa sorte!



30. DOS TALISMÃS

Vai o título como chamariz, porque o que deixamos registrado no capítulo anterior e em diversas outras passagens do livro pode conduzir o espírito do leitor a imaginar que os objetos se deixem imantar de vibrações com propriedades curativas ou outras. Tratando-se de energia que se acumula em baterias, não custa comparar os recursos do etéreo às descargas elétricas que disparam os dispositivos similares para ligar os motores a explosão.
Em tese, tendo em vista que o espírito se encarna e dá vida aos organismos, aproveitando-se dos fluidos cósmicos, os quais se acham descritos em O Livro dos Espíritos, se poderia concluir pela existência de outras emanações provindas do etéreo, com o poder de insuflar nos objetos materiais um pouco daquela energia sutil.
— Tudo indica que a informação vai coroar-se pela negativa dos poderes dos talismãs. Sugiro, então, que se diga logo o porquê dessa impossibilidade.
Não há como capacitar-se a composição eletromagnética existente no universo tangível dos humanos a assimilar os elementos estruturados a partir da natureza da dimensão em que existem os espíritos. Não se dá sequer a mistura que se infere erroneamente, quando se pensa na conjugação das vibrações para o trabalho mediúnico.
— Essa explicação pode deixar comigo. É que o contato é de espírito errático para espírito encarnado, através da compatibilização das ondas de freqüência em que os perispíritos atuam. A parte material do ser humano recebe os fluxos energéticos, sem que haja necessidade de adequar-se ao mundo etéreo, porque a emissão deles é que sofre o tratamento fluídico dos técnicos do além. O mais se dá conforme o mesmo princípio de impregnação vital que mantém o espírito preso ao corpo, através do perispírito.
Um reparo ao que você noticiou. Do jeito que está expresso o seu pensamento, a impressão que passa é de que o serviço de intermediação entre os planos necessita de gente especializada, quando se sabe que muitos irmãos executam sozinhos a aproximação aos encarnados. É preciso ressaltar que a intervenção de terceiros se faz quando há a necessidade de preparar o perispírito do humano para a recepção de mensagens provindas de planos mais elevados, em relação ao nível de desenvolvimento do médium. Quando se trata de espíritos afins, o trabalho é mínimo, se a informação não contiver o intuito de prejudicar ninguém, caso este em que os protetores intercederão em favor das possíveis vítimas. Também existem fenômenos de relacionamento entre espíritos menos evoluídos com pessoas de bom nível moral. Nesta situação, os médiuns agem na qualidade de doutrinadores, dando oportunidade aos que compareceram para a obsessão de se compenetrarem de que suas ações reverterão em malefício para eles mesmos.
Voltando aos talismãs, eles agiriam como pequenas pilhas carregadas de força para uso indiscriminado, servindo para a prática do bem ou para o acréscimo dos males, como a ignição dos motores pode provocar a reação favorável nos automóveis ou a detonação de artefatos mortíferos. Enquanto a responsabilidade repousar exclusivamente sobre os ombros dos encarnados, assumem estes as conseqüências de seus atos. O que não se admite é que haja ativa participação dos espíritos superiores na formulação de projetos unicamente etéreos, como a descrição física e matemática, por exemplo, de dispositivo para ser aplicado praticamente na confecção de objetos de uso regular, ou como a indicação de uma nova fonte de energia. Tudo bem, se os cientistas se dispuserem a discutir suas próprias teorias com as entidades com quem privam. Mas despertar do sono com a solução de problemas que não se puseram no rol de suas preocupações, jamais.
— E como explicar ao leitor, nesta altura da obra, que o desejo do meu suserano é o de capacitá-lo a enfrentar, com maior harmonia e equilíbrio mental, as vicissitudes da vida, em planeta de expiação e de provas, onde todas as criaturas têm de encarar a progressiva e inexorável deterioração física? Não existe íntima contradição com o que se disse no parágrafo imediatamente acima? Não há aqui uma orientação específica, fornecida por via mediúnica?
Excelente questão, porque o amigo que me lê pode julgar que esteja sendo apaniguado com informações privilegiadas, quando, na verdade, o Espiritismo, durante toda a História da Humanidade, apenas reforçou as teses dos sábios, dos estudiosos, dos cientistas, de quantos se aplicaram ao exame da realidade, concluindo, precisamente, que, sem o preceito da reencarnação, sem a comprovação da existência da alma, sem a compreensão de que todos tivemos um mesmo Criador e de que, em sendo irmãos, devemos respeitar-nos e amar-nos, estaremos à deriva em mar de sofrimentos, porque se acenderiam os desejos do egoísmo, para prevalência do orgulho, da vaidade, da força bruta e de quantos defeitos reservam a possibilidade de evolução apenas aos que sabem furtar-se do convívio da sociedade assim estabelecida.
— Em havendo um texto bem construído, com idéias brilhantes e conteúdo doutrinário impecável, não podemos tratá-lo como um talismã de grande poder de sugestão?
Claro que sim. Eu mesmo me deparei muitas vezes com páginas da mais pura benquerença espiritual, redigidas de acordo com os princípios mais dignos da retórica literária, capazes de espargir o amor pelos semelhantes e a compreensão pela obra de Deus, a ponto de me comover até às lágrimas. Mas não posso considerar essas obras do mesmo modo que julgaria os talismãs. Digamos que, em linguagem tão-só figurada, a imagem é propícia a induzir o encarnado ao respeito aos temas e aos autores.
— Está claro que o trabalho que vou solicitar vai contemplar esse mesmo aspecto, insistindo junto ao amigo que encontre textos mediúnicos cujo valor demonstre cabalmente que seus autores estão muito perto da angelitude.



31. DEVER CUMPRIDO

Eis outro sugestivo título, daqueles que servem para finalizar qualquer obra, como se algum dever se possa considerar, em termos de socorrismo espírita, como encerrado.
— Quero abrir, desde logo, o meu bico, para participar como advogado do diabo, neste caso. Defendo intransigentemente o direito de os que alcançam avançar rumo ao próximo círculo existencial gozarem férias, deixando para os que vão apresentando-se ao serviço a incumbência do auxílio aos carentes de esclarecimentos e de cuidados energéticos. Nesse caso extremo, não poderão dizer que cumpriram completamente as suas obrigações?
Permita-me, meu caro, interrompê-lo, caso contrário a sua verborréica manifestação irá ocupar todo o espaço que me foi reservado para este tópico.
Devo partir de um princípio saudável e nenhum haverá de ser mais do que este de asseverar que a tarefa socorrista é plena em si mesma, íntegra, coesa, suficiente para ocupar a mente e o coração de qualquer ente que a pratique pelo bem e pelo amor aos semelhantes. Dito isto, a conseqüência imediata é a de que todo aquele que estiver imerso nessa atividade de superior categoria moral e espiritual jamais irá sentir-se cansado, mas terá contínuo acréscimo de alegrias e de felicidade, ao constatar o crescimento dos assistidos; maior ainda quando receber reconhecidos abraços da mais pura amizade, refazendo laços anteriormente rompidos, curando as mentes dos vícios e mazelas mais contundentes, arrefecendo os ânimos exaltados pelo desejo de vingança, encaminhando os débeis mentais para a compreensão sadia das leis cósmicas, ensinando os valores evangélicos segundo a pregação do Cristo a quem se espoja no lodaçal dos crimes...
— Creio que não me expressei com clareza. O que pretendia dizer é que essa mesma bem-aventurança deve ser recompensada com momentos de superior equilíbrio espiritual, para o refazimento das teses doutrinárias em vias de merecerem adendos construtivos, de acordo com a natural evolução dos conhecimentos, em função do avanço evolutivo que o bem e o amor produzem.
Sendo assim, nada se torna mais fácil do que conceber que o próprio sentido do dever vai albergar incrementos de significados ponderáveis e desconhecidos para quem está progredindo a passos de gigante, a exigir dele novas e mais abrangentes diligências, para a consecução das obrigações, as quais ganham dimensões maiores, consoante a ampliação da responsabilidade de aplicação das diretrizes que se absorvem.
O dever jamais se dá por cumprido, a não ser que uma autoridade transfira o submisso e disciplinado subalterno para outra ocupação, dando-lhe nova tarefa, ainda que se constitua em simples estudo dentro de biblioteca, para leitura e assimilação de textos com diferentes perspectivas científicas, filosóficas e religiosas. É trabalho de sedimentação dos conhecimentos que se faz isolado, no recesso da mente. Entretanto, logo que concluído dentro de delimitada programação, necessariamente irá ser testado junto a grupo de irmãos com as mesmas características de personalidade. Posteriormente, haverá estágios junto a trabalhadores em exercício ativo, até a formação de nova turma, com autonomia deliberativa, sem jamais deixar-se perder da vista do protetor e amigo situado em patamar mais alto.
— Peço perdão por haver sido intempestivo. Compreendo agora que a regra do cumprimento do dever é apenas provisória. Quando não se repete ele seguidamente, transforma-se, proporcionando aos operários do bem a alegria do conforto sentimental e imprimindo, de forma indelével, o cunho da perfectibilidade no âmago dos seus espíritos. É como ocorre com o meu mentor, que vai encerrando os capítulos e imediatamente se põe na produção do seguinte. Será que, ao terminar este manual, irá, compulsivamente, por força da satisfação do dever temporariamente cumprido, escrever outra obra, aperfeiçoando as qualidades, eliminando os defeitos, suprimindo esta incômoda criatura?...
Não me provoque a sacratíssima ira de autor, por que tenho o poder discricionário de fazê-lo desaparecer...
— Pelo amor de Deus, por tudo quanto venho representando para a simpatia do texto junto ao leitor, mantenha-me vivo, ativo e feliz, crente de que meu desempenho é favorável à apreciação lógica, coerente e amiga, dos temas que nesta obra se tratam. Não quero para mim todas as atenções, modesto que sou, particularmente no sentido atribuído por Jesus aos pobres de espírito, aos simples, aos mansos, aos pacíficos, aos puros de coração, porque realizo a minha existência dentro de um campo ideal e perfeito, onde estão reunidas todas as virtudes do conhecimento de meu criador. Se, às vezes, me atrevo a divergir ou a dissertar sobre determinadas teses imperfeitas, faço-o sob o mais rigoroso controle de meu diretor espiritual. Dentro desta perspectiva, nem pretendo solicitar uma vida própria, independente e responsável. Mas saber que se vai apagar sem memória, convenha comigo, meu mestre, é antecipar a preocupação sobre um fato que não deveria causar crise alguma.
Apenas posso prometer-lhe que, enquanto perdurarem estas sessões mediúnicas, vou conservá-lo exatamente do jeito que me pede.
— Muito obrigado, patrãozinho! Sabia que você tem o coração amolecido pela felicidade de compor estas mensagens, o seu dever desta hora. Futuramente, pedirei a palavra de novo para expor outros aspectos deste nosso relacionamento. Posso contar com isso?
Perfeitamente. Temo, contudo, que logo mais deverei escrever com maior seriedade o título do dever cumprido.
— Por falar em dever, a lição de casa desta unidade vai requerer do meu amigo encarnado que caracterize as suas tarefas de todo dia como obrigações que lhe trazem o máximo de felicidade, porque úteis e necessárias, ainda que se resumam em lavar, limpar, cozinhar e lavar, limpar, cozinhar... Se nenhuma dessas atividades estiver no rol das suas funções, transforme o lavar em mergulhar os maus sentimentos nas virtudes evangélicas; o limpar em eliminar do coração os pendores para os vícios; o cozinhar em purificar as ações através da aplicação da divisa “Amor e caridade, porque essa é a divisa de todo verdadeiro espírita” .



32. ACRÉSCIMO DE MISERICÓRDIA

Não se deve esperar do além mais do que excelsa retribuição aos desforços de melhoria. O dito popular de que merece ajuda quem se ajuda é o mais correto dentre quantas pretensões se possa dirigir aos amigos da espiritualidade superior. Quem subestima o auxílio que oferece também não alcança realizar nada em proveito próprio ou alheio. É um círculo vicioso.
— Deixe-me ver se entendi, porque o texto me pareceu confuso. Quer dizer que o bem que reverte em favor de qualquer indivíduo deve partir exclusivamente dele mesmo. Em outras palavras: não existe puro socorrismo, no sentido de que os espíritos que se preparam para o exercício da caridade não podem levar a efeito a sua atividade precípua em ajuda de qualquer um. Se houver uma pessoa em vias de praticar um crime (caso extremo), não pode ter desviada sua intenção por força do trabalho de assistência especializada dos grupos que se destinam a esse mister.
Como atuação direta sobre a vontade, não, porque seria o mesmo que burlar a lei do livre-arbítrio. Pode haver coação física, nos mesmos termos com que os policiais retiram a liberdade dos suspeitos. Os socorristas podem intervir nas ações deletérias, impedindo que haja procedimentos prejudiciais a quem podemos denominar de vítima. Mas isto não significa exatamente realizar um ato socorrista.
— Agora complicou de vez. Eu ajudo uma pessoa a salvar-se de uma situação perigosa e não estou exercendo o socorrismo?
Que bem produz ao espírito dos criminosos a simples detenção deles pela polícia? Evitou-se a prática de um ato contrário à lei de justiça, amor e caridade. É certo. Mas, além disso, nada ocorreu no campo dos acontecimentos fenomênicos que pudesse alterar o sentido das ações, caso não tivesse havido a intervenção.
— Quer dizer que, uma vez solta a pessoa, irá voltar a realizar a mesma ação antes tolhida, não lhe tendo aproveitado a prisão. É isso?
Sem dúvida. O ato socorrista teria sentido se a tal pessoa não oferecesse resistência à pregação dos princípios evangélicos. De que vale conversar com os que não querem ouvir? Sei que você irá referir-se à validade das tentativas. No etéreo, contudo, como já explicamos, existe absoluta competência dos espíritos situados a cavaleiro sobre os infelizes, de sorte que todas as informações emitidas, mesmo inconscientemente, são descodificadas e interpretadas com rigor, sabendo-se definir quem está em condições de acatar as palavras de advertência. Por isso é que registramos a expressão de Jesus como título da mensagem.
— Mais uma vez estou aprendendo de forma rústica, após enunciar conceitos tolos e desprezíveis.
Essa é a história dos homens através dos tempos. Não é que só conseguem aprender depois de errarem e de sofrerem as conseqüências. Não. Todos temos condições intelectuais de refletir antes de emitir opiniões, idéias e pensamentos. A precipitação ou o envolvimento emocional é que facultam um número maior de enganos e de desvios da realidade ou da verdade.
— Gostaria de volver ao problema do socorrismo que não se antecipa à solicitação do assistido. Todos estes nossos desenvolvimentos mediúnicos visam a favorecer apenas aqueles que se dispõem a aprender. Ora, essas pessoas têm a seu favor a liberdade de escolha das obras, podendo eleger livros bem mais importantes do que este. Defina-me, distinto preceptor, a característica desta obra, em função da necessidade de escrevê-la e de ditá-la. Não será um acréscimo de misericórdia o fato de haver um único leitor interessado nos textos? Que se dirá, então, se lograrem publicação?
Não sei se deverei responder a essa questão diretamente. Seria mais conveniente deixar o barco correr e aguardar a guarida que lhe for dada no seio da comunidade espírita. A minha pobre imaginação esbarra na imponderabilidade dos sucessos. Quem sabe de imediato não receba nenhuma atenção, ficando a mofar no arquivo do médium, até que alguém o descubra e edite, por razões de difícil ajuizamento prévio...
De qualquer modo, atendendo em parte ao que me pede este meu incitante alter ego, posso afirmar que a composição da obra busca fazer-me compreender a mim mesmo e dar-me confiança na produção de algo que traduza objetivos de alto teor socorrista, conforme cada elemento de minha Turma dos Irmãos em Deus gostaria de realizar.
— Nesse sentido, posso garantir-me a existência dentro de padrões um pouco além de mero recurso retórico, ou seja, posso considerar-me parte de sua consciência, um outro idealizado, no qual você vem projetando, sistematicamente, parcelas de sua vida secreta, a concretizar pensamentos que se estruturam no imo do inconsciente, como se deitado estivesse no divã de psicanalista. Em suma, tenho a mesma importância (se não tiver mais, conforme um ponto de vista que encare a personalidade como um todo) do que a sua manifestação direta, sem o travessão que me caracteriza.
Vejo que você (deveria dizer meu eu interno) extrapola os limites de minha vigilância e se remete por inteiro no reino da realidade. Não quero nem vou perder o controle de sua manifestação, mas temo que terei de realizar algumas digressões sobre as quais não excogitei quando da formulação do roteiro desta viagem metodológica.
Como primeiro informe sereno e verdadeiro, preciso referir-me às palavras do mestre Otávio, em aula, avisando o grupo que o socorrismo abria perspectivas de surpresa, tendo em vista que, durante o trabalho, haveria insights inesperados de aprendizagem. De resto, tendo dado caráter científico aos dizeres, em outro capítulo me referi exatamente a este tema.
Comprometo-me a dar vazão a outros aspectos de meu eu interno, desde que me permita o leitor que me prepare convenientemente.
— Fica por minha conta o exercício correspondente ao item. Que de suspeitas emergirão do cérebro do amigo quanto a este roteiro ter sido apenas produzido para a apresentação de um problema? Ou você não está absolutamente admirado pelo rumo que toma o manual? Terá condições de escrever algumas linhas a respeito?



33. BUSCANDO O CONFORTO PESSOAL

Não é esta tribuna o lugar mais adequado para vir o autor lavar a alma. Escrevesse poesia e teria ensejo de manifestar os sentimentos mais íntimos. No entanto, a própria natureza do serviço que se presta a desencarnados e humanos consigna uma fase de aprendizado de quem o realiza, sob a supervisão, é claro, do diretor espiritual. Em meu caso específico, tenho comigo um grupo de companheiros interessadíssimos em observar o desenvolvimento do trabalho, em função do currículo escolar que nos foi determinado pela administração da Escolinha de Evangelização, sendo o mestre Otávio aquele que permanece atento para qualquer desvio de rumo.
Meu amigo de toda a hora, Mr. Dash, grande travesso, pregou-me uma peça de que jamais me esquecerei. Prometi-lhe dar a palavra quando solicitasse e não posso voltar atrás, apesar de correr o risco de pecar contra a objetividade que procurei manter em todos os temas.
Enquanto não se manifesta, vou aproveitar para desenvolver um assunto meio esquisito, qual seja, o do sorriso franco da alegria, no meio etéreo. Quase sempre as brincadeiras mediúnicas repercutem muitíssimo mal entre os encarnados, não tanto porque esperem que os espíritos sejam sisudos, sempre preocupados em executar obras de alta categoria moral, mas porque desconfiam de que apenas os de mais baixa categoria podem atrever-se a brincar com descontração em obra de cunho eminentemente doutrinário.
Com quem terão aprendido a pensar assim?
Teria sido com Kardec?
Enquanto escritor e codificador, raríssimas são as tiradas que podem sugerir sorridente reação, ainda assim muito sutis, fina ironia de quem respeita os adversários, tendendo mais para surpreender os aspectos miseráveis que condena nas personalidades deles do que para expô-los ao escárnio dos leitores.
Teria sido com Jesus?
Enquanto fatos da vida do Prof. Rivail se deixaram ficar na ribalta das atividades doutrinárias, sabendo-se que brindou alegre o Espiritismo e os espíritas de várias cidades por onde viajou, os episódios pessoais que envolveram o Nazareno se contam em maior número. Dentre eles, os que poderiam fazer supor que estivesse regalado foram os constantes banquetes, festivos e comemorativos, havendo transformado água em vinho, em ocasião em que faltou. Também teve os cabelos banhados de caríssimo bálsamo, sofrendo por isso rude repreensão do tesoureiro dos apóstolos, à qual interpôs vigorosa resposta.
Quanto a Jesus, creio que os momentos de maior felicidade advieram das curas que distribuía a mancheias, da salvação dos pecadores, da conversão dos ímpios, das conversas ingênuas com os petizes. Quem, em sendo consciente de seus deveres para com os irmãos, não se sente bem ao realizar um sonho, um desejo, uma melhoria moral?!... Assim, deveria Jesus alegrar-se com a felicidade alheia.
Como o meu interlocutor não comparece para o contra-argumento, eu mesmo terei de levantar o problema concernente à impossibilidade do narrador de conhecer os sentimentos e as emoções de um ser humano perfeito.
É verdade: o que faço é pressupor, é imaginar, é advertir para a possibilidade de Jesus ter intimamente sorrido de satisfação por perceber o crescimento espiritual daqueles que compreenderam que sua ajuda se deu no sentido do aperfeiçoamento das virtudes, como se descreve no episódio da crucificação, em relação ao ladrão arrependido, que mereceu do Mestre o amparo de sua superior vibração e a promessa formal (a crer-se na palavra bíblica) de que o parceiro de suplício iria adentrar o reino naquele mesmo dia.
Resta considerar a participação de meu insuspeito elemento interior como benfazejo para a simpatia do encarnado que me vem acompanhando pari passu nesta caminhada em busca do saber.
Você, meu amigo, sorriu, ficou satisfeito, surpreendeu-se de maneira agradável, com os dizeres que se registraram na mensagem anterior, quando, graciosamente, o caretinha me fez deitar no divã das modernas confissões, liberando-me do tribunal da católica penitência? Achou algum resquício de humor no fato de atribuir àquela que pensava eu fictícia personagem o nome jocoso de Travessão, por fazer-se anunciar sempre por esse sinal gráfico e, ao mesmo tempo, por se apresentar de maneira ridícula, muitas vezes? Gostou de deparar-se com uma expressão inglesa insólita (Mister Dash), como a configurar que estou desconfiado de me haver exposto em demasia, não para as sérias considerações de quem tem por objetivo conhecer um pouco mais do plano espiritual, mas para a gargalhada da desconsideração pública?
Abertos vários canais para a interpretação desta mensagem no mínimo curiosa, posso encerrar, asseverando que não amordacei o meu eu interno. Se não compareceu diretamente, fi-lo mostrar os finos bigodes atrás da porta em que me espreitava para dar o bote. Se estou preso nesta ratoeira de ignorância, necessitando do auxílio da turma, do professor e do guardião, para ir atrás do saber, também não posso considerar-me em estado de tanta miséria que não seja capaz de provocar o espírito do leitor, no sentido de fazê-lo ponderar, com muita energia, a respeito das características e peculiaridades do Umbral.
Saí em busca do conforto íntimo que julgava alcançar através de meu desempenho intelectual, elaborando texto equilibrado e informativo, quanto ao conteúdo; agradável e elegante, quanto à forma. Chego ao termo dele hesitante como nunca, porque já não tenho a certeza de estar sendo compreendido ou simplesmente perdoado. Se os colegas caçoarem, haverão de preservar-me das críticas mais contundentes, fazendo-me rir de mim mesmo, porque, afinal de contas, quem poderá considerar-se perfeito escrevendo para os humanos?
— Estou chegando atrasado, tendo estado preso em reunião com o pessoal de minha formação cultural e de meu nível evolutivo. Perdi muita coisa? Fiz falta? Que poderá o meu amigo encarnado me oferecer, caso se decida a refletir sobre o que acima se escreveu? De qualquer modo, fique na paz do Senhor, abrindo o coração para as suas amoráveis bênçãos.



34. MISTER DASH

— Não pretendo ocupar o lugar de meu amigo escritor e socorrista. Mas devo afirmar que, pelo menos, possuo um nome pelo qual ser chamado e ele nem isso tem, embora muito se insistisse para que registrasse algum dentre tantos que recebeu nas diversas encarnações. Não quer sequer declinar o apelido pelo qual é reconhecido nesta Turma dos Irmãos em Deus. Inquirido como é que seria evocado pelos mortais que desejassem tê-lo por perto, disse que bastaria que se referissem ao Irmão do Manual.
— E a que venho, se não estou recebendo nenhum estímulo para manifestar-me? Deveria reservar-me o direito às provocações ou às encenações de mera antítese, pobre criatura secundária nesta farsa existencial. No entanto, não me peja o fato de tornar-me a caricatura de entidade que se substanciou em obra plena de informações sábias e objetivas.
— Quer dizer que este capítulo é espúrio? — obrigo-me a perguntar-me.
— Quer dizer que meu autor e provedor está desejoso de evidenciar que existe em cada criatura um ser escondido, muitíssimo imperfeito, que, aflorado, há sempre de perturbar aquele que por hábito se põe aos olhos do povo e, quase sempre, reflete para si mesmo o que gostaria muito de ser na realidade profunda.
— Nesse caso (estou a considerar com meus botões), não posso argumentar com muito mérito nem realizar rico e proveitoso texto. Antes, deveria redigir com extrema dificuldade, com os raciocínios deturpados por falsas razões, em estilo capenga e muito pouco atrativo. Entretanto, se me ponho a meditar sobre quanto tenho escrito, sou levado ao elogio da forma, apesar de o conteúdo se manter um tanto ou quanto misterioso.
— Para melhorar definitivamente este último aspecto, precisaria pôr do avesso a minha própria estrutura psíquica, ou melhor, escancarar as portas do reduto em que me prende o mestre, durante a maior parte do tempo, dando-me instantes apenas de oportunidade de aparecer. O que é pior é que ele mesmo se atemoriza com estas minhas investidas, tanto que está a morder os lábios, só não me amordaçando, conforme no texto anterior afiançou, porque assumiu o compromisso com a classe de levar a cabo todas as diretrizes estabelecidas para a confecção da presente obra.
— Estando, pois, livre para dizer tudo o que me der na telha, quero aproveitar o ensejo para dizer que o meu criador é também o meu criado. Se lhe sou o fiel escudeiro, é ele que tem a obrigação de encontrar recursos com que prover a minha manutenção, dado que não logrará jamais me dispensar, tantos bons serviços lhe presto, não se capacitando jamais a sobreviver sem mim.
— Seguro de meu papel de incentivador dos desenvolvimentos racionais dos temas objetivos, preciso, por dever de oratória, requisitar uma explicação fundamental para o andamento da dissertação, qual seja, a formação espiritual de dupla personalidade, como se cada ser fosse um dentro de si e outro a apresentar-se em sociedade. Será certo dizer que a parte externa recebe o influxo das exigências do meio, para o qual o cerne espiritual tem de oferecer uma espécie de máscara? Não terá o encarnado a impressão de que isto é muito evidente para quem tem um corpo material, guardando um espírito revestido de perispírito, enquanto o ser errático deveria irradiar vibrações diretamente do fulcro energético de seu espírito, para que todos pudessem ler nele como em livro aberto?
— Estou quase apelando para os esplêndidos desenvolvimentos teóricos de meu dono, porque, neste ponto, me sinto frágil intelectualmente e prestes a descair em tristeza pelo fato de saber perguntar mas com poucos méritos para responder. É que o subjetivo pena por demais para extrair de si mesmo toda a verdade de cada tópico que é capaz de interrogar. Há de ser sempre no mundo dos relacionamentos que poderá adquirir completo domínio da realidade, pondo-se a caminho da perfeição.
— Em todo caso, atrevo-me a responder pelo modo a que me acostumei, sugerindo, sem dizer diretamente, organizadamente, como se escreve para os tratados, que o amor, fundamento da existência, segundo a definição última dos atributos do Pai, só se realiza integralmente nesse interessar-se pelo próximo em seu processo evolutivo, envolvendo-o em nosso halo pessoal, para dar a ele oportunidade de fazer o mesmo por nós.
— Para concluir, pergunto, buscando fazê-lo sem pudor e sem medo de provocar as iras do patrão: não é verdade que, enquanto manifestar a minha existência, essa coesão ideal haverá de ser imperfeita?
Segui extremamente curioso a linha de raciocínios adotada por meu criado teúdo e manteúdo. Não fiquei zangado mas triste com a conclusão a que chegou, porque é a mais pura e cruel realidade o fato de ser este que se comunica bastante inferior dentro da linha evolutiva. Claro está que me alivia saber que caminhei bastante na senda das virtudes, estando capacitado a efetuar mui dignas mensagens, tanto que foram aprovadas pelos mentores para divulgação. Mas também acredito que deverei aprender muitas outras matérias no campo do conhecimento empírico, de sorte que a leitura de manuais mais adiantados é de rigor.
Se desse a palavra ao Mr. Dash, com certeza iria me inquirir a respeito da possibilidade de o encarnado seguir as explicações técnicas que neles se contêm e teria de responder-lhe evasivamente, porque, se não conheço o inteiro teor dos textos, não poderia evidenciar nenhuma conclusão satisfatória em favor dos dotes intelectuais daquele leitor. De qualquer modo, vou pedir-lhe que passe o dever de casa.
— Ressabiado, peço que o amigo considere o presente capítulo como excrescente do restante do volume, elaborando um rol de motivos que deverão basear o seu repúdio ou a sua aceitação, dentro ou fora do roteiro da obra. Caso opte por encontrar pontos positivos, forçando a natureza dos argumentos que apresentei, agradeço-lhe a prece que dirá em favor dos irmãos necessitados de auxílio. Caso contrário, passe adiante, sem levar consigo a lembrança de um momento de fraqueza do autor.



35. AVALIANDO O TRABALHO

Destinaram-me a tarefa de transmitir este ditado mediúnico e de tal modo deveria fazê-lo que não significasse nenhum apanhado de meus interesses pessoais, nem nenhum ponto sobre o qual se debruçasse o encarnado de que me sirvo. Sendo assim, busquei dar tonalidade pastel aos entrechos, na tentativa de despertar o leitor para os dramas do conhecimento das entidades espirituais, sem, contudo, perder de vista a necessidade de tornar o texto elevado e acessível.
Claro está que não vou, nem vai o meu eu interno, Mr. Dash, julgar se atingi os objetivos ou se logrei dispor os temas de modo compreensível e elegante. Não vim produzir obra de caráter literário mas científico, sem os rigores, evidentemente, da metodologia terrena, a qual não se coaduna com o nosso círculo existencial, mas de que nos servimos em parte, principalmente para a dialética das mensagens de comprovação meramente teórica.
Aliás, como frisamos algures, sem que se estabeleçam princípios de autonomia quanto ao fato de se encararem as dimensões diversamente, porque diferentes são as suas naturezas, não se poderá transferir para o humano saber nenhum indício do que ocorre no campo de atuação das entidades espirituais. Eis o cerne da questão, para que se avaliem os méritos intrínsecos do trabalho, em função sempre do arcabouço mental do leitor, de suas perspectivas culturais, de sua impregnação doutrinária espírita e de sua disponibilidade emocional para acrescer novas óticas na apreciação dos velhos temas.
— Não queria ficar de fora deste maravilhoso...
Pode parar, companheiro. Evite os adjetivos laudatórios e as descrições jocosas, por favor.
— Desculpe-me! Queria participar deste resumo, colaborando com a minha opinião caolha...
Essa é a tal da jocosidade a que me referi.
— Devo dizer, comportando-me, que não tenho nenhuma observação importante, o que representa, por tudo quanto se disse de mim anteriormente, que é extremamente positivo para o desenvolvimento da mensagem a ausência de pareceres que não se referendem no mundo dos relacionamentos. Se não viesse expor a minha concepção de analisar os dizeres do texto, por certo faltaria um elemento ao conjunto das avaliações, para se enfeixarem as idéias e sentimentos num único extrato de considerações.
Muito bem! Sinto-me profundamente agradecido ao inconsciente por haver evitado a tonalidade do emotivo patético em sua manifestação. Se exerci o meu poder de contenção, dei também o exemplo de como restringir o campo de ação das tendências psíquicas de caráter inferior. Esse controle sobre a rebeldia íntima, a qual possuímos enquanto não merecermos pairar sobre região menos material, é aquele mesmo pedido de disciplina contido na prece de Jesus, ou seja, “não nos deixeis cair em tentação”; tentação que reside dentro de nosso espírito e não nos objetos exteriores, porque é ao nosso psiquismo que devemos atribuir os desejos incoerentes com a pregação evangélica.
— Posso falar a respeito do “livrai-nos de todo mal”, que complementa a expressão que se reproduziu?
Se não o fizer provocativamente, pode.
— Quando Jesus nos manda rogar ao Pai para que nos livre do mal, está, na verdade, querendo que reflitamos a respeito da maldade que costumamos exercer nos relacionamentos externos e, às vezes, internos, porque os seres são tão capazes de agredir os semelhantes como de ferir-se a si mesmos. Se me permitir avançar mais um pouco, porque sinto na pele esse efeito malévolo, posso dizer que as criaturas são tão organizadas ao prejudicarem os demais, em proveito ilusório de vantagens efêmeras e transitórias, que chegam a estabelecer como princípio de atuação a duplicidade de pensamentos, argumentando que estão constantemente sob a influência de duas entidades de poder e força contrários, um anjo e um demônio. Ora, não é raro depararmo-nos com indivíduos que fazem calar o anjo.
Posso interromper, para uma questão de ordem?
— Esteja à vontade!
Pois bem, as suas ponderações são judiciosas e sensatas, correspondendo à realidade. Concordo. Entretanto, gostaria de resguardar o leitor que nos vem seguindo as exposições, porque não posso acreditar que nos dê ouvido tão atento e não queira ouvir também a voz da razão, ou seja, a própria consciência alertada pelos princípios da moralidade superior do cristianismo. Estou certo de não ter ele o desejo de encontrar neste manual as regras do procedimento segundo os preceitos evangélicos, embora tenhamos tido a oportunidade de confirmá-las todas, para sossego de quem irá responsabilizar-se pela divulgação do opúsculo.
— Enquanto você expunha a sua tese (que não vou alcunhar de sábia para não lhe provocar os melindres da objetividade), meditava sobre a possibilidade de se interpretar o que vinha eu redigindo como de revolta contra o meu eu externo. Pelo amor de Deus, não pense assim o encarnado, caso contrário irá derruir pela base o edifício que se ergue sobre a verdade desta dimensão, onde os seres buscam efetuar um trabalho socorrista valioso para a formação do companheiro que se dispõe a seguir o mesmo ideal de solidariedade, irmanando-se nesta turma, em nome de Deus.
Gostaria de encerrar a parte que me coube com uma bela oração, rogando a Jesus que nos agasalhe em seu manto de amor, para que criemos confiança em que a nossa obra atinja o coração do meu amigo encarnado. Mas não vou fazê-lo, no sentido de não me perturbar perante a harmonia deste relacionamento mediúnico, deixando rastros de muita imperfeição, porque não saberia expor convenientemente as vibrações que me afetam os sentimentos e me levam às lágrimas. Vou dizer simples muito obrigado e despedir-me, permitindo-lhe que me evoque durante a releitura do opúsculo, mais do que dever de casa, missão obrigatória, para que a avaliação do trabalho se constitua em premissa para a próxima aventura intelectual.
Fiquemos na paz do Senhor!



36. CONHECE-TE A TI MESMO

O aluno que ditou os textos também se encarregou de sua formulação e redação. Os temas, no entanto, discutiram-se entre os da Turma dos Irmãos em Deus, sob a minha tutela.
Venho para encerrar os trabalhos da classe, com o fito de dar ênfase ao conceito de superior filosofia moral e prática, o qual se inscreveu no pórtico do templo de Delfos e se constituiu em divisa para a pregação socrática.
Longe de mim e dos meus colegas instrutores pensar em diminuir a importância histórica da expressão. Cabe-me, porém, a ingrata tarefa de situar o conteúdo cultural da máxima dentro dos muros estreitos da civilização ocidental e cristã, tanto que o presente manual quase se limita a cumpri-lo, não fosse por alguns lampejos de entendimento das normas socorristas, as quais posicionam o semelhante como centro de interesse das atividades das criaturas em ascensão.
E qual argumento o põe em segunda plana?
Não é preciso ser muito arguto para perceber que o conhecimento de si mesmo gera excessos de preocupação com a própria pessoa, promovendo o egocentrismo natural de quem deseja ardentemente cauterizar as feridas que vai encontrando nesse peregrinar coração adentro.
A pergunta imperativa irá revolver o íntimo da tarefa pessoal, no desejo de saber se ali se encontrará a perfeição.
Quando Jesus propôs que o reino de Deus se abriria aos homens que fossem perfeitos como o seu criador, expunha o ponto final de longo evolutir, esfera atrás de esfera, num crescendo de conquistas espirituais. Mas mandou que o jovem rico se desfizesse dos bens materiais para segui-lo, em seu jornardear em prol dos sofredores, dos ignorantes e de quantos estivessem iludidos pelo fascínio carnal.
Jesus, por certo, conhecia-se melhor do que qualquer dos membros da humanidade terrestre, Sócrates, inclusive. Mas como buscou esse conhecimento? Pelo que se encontra registrado nos Evangelhos, sua vida de relacionamentos era intensa, viajando para a pregação dos ensinamentos das leis universais, dedicando-se aos enfermos do corpo e da mente, preocupando-se em harmonizar os querelantes, amparando os miseráveis, alimentando os famintos, vestindo os desnudos, desafiando os maldosos com argumentos irrefutáveis.
Inquirido sobre como é que se poderia conhecer melhor o homem a si mesmo, respondeu Santo Agostinho: “Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de cada dia, interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever, se ninguém teria tido motivo para se queixar de mim. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim necessitava de reforma.”
É a essa conclusão que gostaríamos que o leitor chegasse, ou seja, que desse a si mesmo valor meramente de referência, ou seja, que analisasse os dons de caridade de que se sinta possuidor, para reformá-los, no sentido da melhoria do desempenho junto ao próximo.
Reconstituo o pensamento: devemos colocar em primeiro lugar os atos de benemerência e só depois o nosso próprio ser. Se chegássemos à perfeição sem jamais voltar um único pensamento à necessidade que todos temos de progredir, talvez evoluíssemos mais depressa.
É com tal objetivo que ministramos as primeiras aulas no curso de socorrismo, instando junto aos alunos que eliminem, desde logo, a subjetividade de sua visão quanto aos problemas alheios. Tudo deve fundamentar-se em aspectos científicos, objetivos, segundo as experiências consignadas nos inúmeros relatos arquivados. Daqui o empenho do nosso escritor em estabelecer os padrões de comportamento íntimo, fazendo-os aflorar na personagem a que deu o sugestivo nome de Mr. Dash.
Eis a razão de haver certa instabilidade nos escritos, pelo temor de não realizar a contento a tarefa de demonstração dos tópicos primordiais de interesse do encarnado. Em geral, todavia, regozijamo-nos com o grupo pela feliz concretização dos trabalhos no plano da mediunidade. Quanto a obter sucesso editorial, não nos preocupamos, tendo em vista as dificuldades próprias de um texto que se presta à polêmica, pelas assertivas que não se comprovam na realidade da dimensão material.
Ao leitor, resta-nos assegurar-lhe que não perdeu tempo. Ainda que passe a vida cumprindo os preceitos do Cristo, sempre haverá de recordar-se dos temas, quando se deparar num dos educandários do etéreo.

Jesus, amigo e mestre, favorecei-nos a fé no nosso trabalho, para que o realizemos em proveito dos irmãos. Estabelecei, Senhor, os mesmos parâmetros de amor e caridade, para que o encarnado satisfaça as diretrizes espirituais da peregrinação terrena. Aos nossos mentores e guias, fornecei a paciência, o que muitas vezes nos falta, para nos orientarem em nossa missão existencial. Acima de tudo, enviai os vossos mensageiros de luz aonde as trevas predominam, para que supram as nossas deficiências e nos dêem a exata dimensão do exercício socorrista. Assim seja.
Indaiatuba, de 06 de janeiro a 27 de fevereiro de 1998.
Comentários

O que você achou deste texto?       Nome:     Mail:    

Comente: 
Informe o código de segurança:          CAPTCHA Image                              

De sua nota para este Texto Perfil do Autor Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui