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Erótico-->38. AS DECEPÇÕES DE PLÍNIO -- 14/10/2003 - 06:48 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Seja porque haja presenciado os horrores de um desastre que envolveu diversos veículos, tendo o ônibus passado rente aos corpos carbonizados de várias pessoas, seja porque tivesse mantido a impressão de que o filho mais velho estava concretizando algo no campo da religião, a verdade é que Plínio deliberou tomar a iniciativa da divulgação de suas páginas psicografadas.

Expôs a idéia à esposa, que lhe obtemperou:

— Eu não sei quase nada a respeito do que você tem escrito. Se não me mostrou as mensagens até agora, como é que vai imprimir e dar ao povo? Eu acho que você precisa esperar muito tempo mais. A sua mediunidade tem um ano. Quando você me falou a respeito de que o Chico Xavier está precisando de substituto, não pensei que fosse a sério. Em todo caso, a minha palavra não vale nada. Você precisa conversar com o Doutor Ariovaldo.

— Quer dizer que eu devo ficar marcando passo, aos cinqüenta anos de idade?

— Quer dizer que alguém com mais experiência deve dizer se você deve ou não colocar nas mãos das pessoas aquilo que você mesmo não tem condições de criticar.

— Como é que não tenho?

— Se fossem as contas dos livros de contabilidade...

Plínio não quis continuar, porque reparou que Margarida estava bem firme na sua opinião. Imaginou que ela estivesse com medo da projeção no meio espírita, de sorte a prejudicar o filho pastor.

“Ela até que pode ter razão. Vamos que o povo se agrade do livrinho que eu montar com as mensagens que recebi de tantos espíritos, principalmente daquelas do benfeitor maior, o meu caro João Evangelista, e aí o meu nome vai aparecer e o Moisés vai colocar sérios embaraços ao desenvolvimento do menino. Em todo caso, não posso fugir do compromisso que assinei com a espiritualidade, porque tudo o que me trazem do etéreo não deve servir apenas para mim e para as pessoas do centro. Por que razão João Evangelista iria falar sobre acontecimentos tão graves de seu tempo de vida, a ponto de mudar muitos dos conceitos históricos, se não fosse para que os estudiosos e os demais espíritas pudessem refletir sobre o assunto?”

Perpassou-lhe pela mente a suspeita de que pudesse estar sendo testado, que estivessem dando-lhe corda para verem até onde ele iria no desejo de se fazer o substituto do maior médium conhecido. Se tivesse aberto a inteligência para as intuições de caráter mediúnico, talvez viesse a conversar com o protetor, que estava aflito com a deliberação que se delineava extremamente perigosa.

“Vamos ver” — refletia Saldanha — “se o meu amigo aceita a hipótese de que os reais benefícios que pode prestar se circunscrevem ao âmbito da casa espírita, sem reflexos nas teses doutrinárias ou nas concepções religiosas.”

Mas as vibrações não alcançaram mais o protegido, que voava alto, águia a pairar sobre florestas e montanhas, ampliando os horizontes em busca do infinito.

Passou a noite sonhando com ditados e com edições de obras espíritas, vendo-se lido e apreciado pelas multidões, ampliando o movimento através das federações, enchendo os templos, enquanto os novos adeptos agitavam os braços, cantando e agradecendo as bênçãos de Deus, porque ninguém havia que não superasse todos os problemas. Houve um momento de delírio, quando se deparou com os mortos carbonizados, mas logo entendeu que as criaturas eram recebidas pelos missionários do Senhor, para serem conduzidas a esferas de maior felicidade, porque haviam purgado no fogo os pecados.

No dia seguinte, passou a limpo a recente mensagem, decidido a mostrá-la aos parceiros, especialmente a Ariovaldo, Moacir e Silvinho. Imprimiu várias cópias e seguiu impávido rumo à consagração.

Logo que chegou ao centro, porém, observou desusado movimento de pessoas, um entra e sai afobado, como se algo muito sério estivesse ocorrendo. Parou o primeiro que reconheceu:

— Que está acontecendo?

— Um princípio de incêndio na secretaria. Parece que deu um curto-circuito e os aparelhos todos se estragaram.

Plínio correu a ver se ajudava a salvar o que fosse possível. Tudo se perdera. O que o fogo não consumiu a água desfez. Plínio correu em busca dos disquetes em que gravara todos os escritos. Todos queimados.

Lembrou-se de que levara para o computador do escritório apenas os textos do Evangelista. As participações dos familiares e amigos dos consulentes tinham desaparecido. Uma ou outra ele conseguiria recuperar, porque fornecera cópia aos interessados. Mas a maior parte se fora.

Não quis o frustrado médium demonstrar a ninguém o seu aborrecimento particular. Deu um dedinho de prosa com Ariovaldo e se retirou, porque nada havia que pudesse fazer ali.

Voltou ao escritório e, com tristeza, observou que, no máximo, havia material para umas cinco páginas, com os tipos bem grandes.

Ao contar para Margarida o que havia acontecido, ouviu dela um conselho bastante ponderado:

— Essas coisas acontecem. Por que você não resguardou o seu tesouro menor, como fez com as peças de ouro? Você vai ter de escrever muitas comunicações, até obter material suficiente para a pretendida publicação. Pense no Chico Xavier, quase oitenta anos de mediunidade, a trabalhar ainda, doente mas lúcido, produzindo pouco, mas contente com tudo quanto fez. Para você chegar à idade dele, vai ter pela frente mais trinta e tantos anos de mediunidade. Vai poder escrever bem uns quinze ou vinte livros, se tiver juízo, porque vai precisar selecionar muito bem as mensagens, para aprender a reconhecer aquelas que podem interessar às pessoas. Você não vai falar nada?

Plínio, na verdade, acompanhou os raciocínios da esposa como se ele mesmo estivesse a compor a falação. Nem lhe passou pela mente que ela estivesse sendo inspirada e que seu sistema de defesa tivesse sofrido uma ruptura, juntando à voz da esposa as vibrações do benfeitor espiritual.

Vendo que o marido não conseguia coordenar as idéias, Margarida buscou interessá-lo noutro tema:

— Enquanto você esteve fora, lembrei-me de uma passagem de Kardec, em “O Livro dos Espíritos”, sobre a qual gostaria que a gente refletisse. Eu havia pensado em deixar o assunto para o dia de leitura do “Evangelho”, mas acho que você vai aproveitar o trecho para meditar a respeito de nossa situação, em relação aos nossos filhos.

Ela estava de posse do volume. A página merecera um marcador de sorte que, ato contínuo, executou a leitura:

— Aqui estão a pergunta de número oitocentos e noventa e dois e a resposta: “Quando pais possuem filhos que lhes causam desgostos, não merecem eles escusa por não terem para com estes a ternura que haveriam tido no caso contrário? Não, pois isso constitui um encargo que lhes foi confiado, e sua missão consiste em fazer todos os seus esforços para orientá-los para o bem. Mas esses desgostos são amiúde a conseqüência do mau hábito que eles deixaram que criassem desde o berço.; eles estão colhendo, então, o que semearam.” (1)

Plínio tomou o livro das mãos da esposa e leu de novo o trecho, até concatenar os pensamentos. Margarida o deixou à vontade, porque via que ele se esforçava para compreender o seu objetivo.

Demorou para ele fazer uma tímida observação:

— Vejo que você está muito preocupada com a nossa responsabilidade em relação aos crimes praticados pelos nossos filhos. Mas você não acha que eles já “foram conduzidos ao bem”?

Plínio apontava para a frase escrita.

— O que eu acho é que nós “não fizemos todos os esforços” para esse efeito.

Margarida também pôs o dedo na linha correspondente. Sem transição, acrescentou:

— Vamos ler agora outro trecho.

Retirou outro marcador e leu:

— Questão de número novecentos e oitenta e dois: “É necessário professar o espiritismo e crer nas manifestações para assegurar nossa sina na vida futura?” Resposta: “Se fosse assim, seguir-se-ia que todos os que não crêem ou que não se acharam em condições de se esclarecer estejam deserdados, o que seria um absurdo. É o bem que assegura a sina futura.; ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que conduza a ele.”(2) Quero que você observe que os espíritos não insistem na necessidade de a pessoa ser espírita para realizar o bem. Não é o bem que conduz os seres humanos ao reino de Deus?

De novo, Plínio precisou de mais tempo para assimilar os conceitos. Leu e releu o trecho, mas preocupava-se com o visível intento da patroa de justificar a debandada do casal para as hostes do protestantismo. Queria encontrar uma resposta ali mesmo para opor-se, até que atinou com a explicação subseqüente do Codificador. Foi um alívio. De imediato, desejou afastar o perigo que rondava as suas atividades mediúnicas:

— Minha cara, concordo com você. Está certo que os hinduístas, os maometanos, os budistas, os xintoístas, os protestantes, os católicos, os umbandistas e sei lá quantos mais profitentes de religiões existem diferentes do Espiritismo, o qual nem chega a ser uma religião na mais rigorosa acepção do vocábulo, conforme explicou o Ariovaldo outro dia, muitos deles conseguem arremeter-se escada acima até os píncaros da bem-aventurança. Mas, então, para que serve o Espiritismo? Você leu a explicação de Kardec? Pois eu leio para você: “A crença no Espiritismo ajuda o homem a se melhorar ao lhe fixar as idéias sobre determinados pontos do futuro.; ela apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas porque permite considerarmos o que seremos um dia: é, pois, um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo ensina a suportar as provações com paciência e resignação, desvia o homem da prática dos atos que podem retardar-lhe a felicidade futura, e é assim que contribui para a sua felicidade. Mas nunca se disse que sem ele não se possa atingi-la.” Você quer deixar o Espiritismo. Tudo bem. Mas vai ter de ascender até Jesus bem mais devagar.

Margarida, porém, esperava pelas observações do marido e, de imediato, contrapôs, encerrando a conversa:

— Eu não disse, em momento algum, que deveríamos abandonar a doutrina dos espíritos. Eu disse e reafirmo que devemos cuidar melhor dos nossos filhos, principalmente do Cleto, porque, se firmarmos a nossa crença nos princípios espíritas, quem irá se atrasar na caminhada é ele e não nós. Um retardamento hoje não representará, dentro de uns cinco ou seis anos, quando ele for completamente dono de seu destino, nenhum tropeço para o nosso avanço espiritual.

— Você preparou esse discurso e me pegou num momento muito triste.

— Eu só lhe pedi para pensar sobre o assunto. Quando estiver disposto, a gente volta a conversar.

Realmente, Plínio não estava bem. Notou que Margarida não havia feito o almoço e suspeitou de que passara a manhã preparando-se para o debate. Na hora certa, porém, apareceu uma salada coberta de maionese, dessas que se compram em vidro, e alguns pedaços de lingüiça no meio de uma farofa, com a farinha embolotada e os ovos meio crus.

À tarde, o centro dedicava-se às tarefas da mocidade espírita. Era um momento oportuno para jogar conversa fora, porque as pessoas ficavam apenas a pajear os moços, quase sempre curtindo a macarronada domingueira. Os poucos gatos-pingados como que davam vazão à necessidade de descanso, inclusive quanto aos programas de televisão a que as famílias assistiam.

Mesmo sabendo disso, Plínio foi até lá, deixando Margarida às voltas com a louça e, coisa muito estranha, com a bíblia que ganhara de presente do Cleto.

Não estavam Silvinho nem Moacir, mas Ariovaldo encontrava-se pondo ordem ao que restara da secretaria. Com ele, outros diretores, em ferrada investigação para saber a quem se poderia atribuir a responsabilidade do incêndio.

Chamado a opinar, Plínio não pôs em dúvida o procedimento de nenhum companheiro, atribuindo o acidente ao cansaço do material embutido na parede ou ao trabalho destruidor das ratazanas.

O serviço estava no fim, de sorte que, uma hora depois, lamentando muitíssimo a perda do equipamento, mas fazendo um bom projeto para aquisição de nova e mais moderna aparelhagem, pôde Plínio mostrar aos confrades, todos a par de seus contatos mediúnicos especiais, o novo texto, resumindo a história dele, enfatizando o fato de ter sido obtido em sessão privada, subtraindo a informação de que a sala servia também para trabalhos umbandistas.

Ariovaldo e os outros guardaram as cópias, simplesmente, não demonstrando nenhum interesse pelo teor do texto. Foi o médico quem se manifestou:

— Meu caro Plínio, vamos deixar para expor os nossos pensamentos durante a reunião da próxima quarta-feira. Até lá, pense bastante a respeito deste gênero de comunicação a que você vem dando oportunidade, porque está parecendo à maioria que os temas estão muito acima de nossa capacidade de crítica, mesmo porque os problemas concernentes às mensagens apocalípticas não têm muito que ver com a doutrina espírita.

— Quer dizer que vocês discutiram a respeito, nas minhas costas?

— Não leve as coisas por esse lado. Se você estivesse presente ontem, teria participado da reunião informal em que alguém levantou a tese de que todos temos as tarefas habituais e rotineiras e não podemos ficar na dependência da orientação dos espíritos. Eles é que têm de se adequar ao nosso esquema, porque quem define os objetivos do centro são os encarnados, segundo as necessidades específicas de nossa esfera e de nossas realizações de vida, para vencermos o nosso carma.

Cabisbaixo e magoado, sem prestar atenção às palavras de apaziguamento dos parceiros, tendo mesmo a impressão de ter ouvido alguém dizer para deixarem-no ir refletir em paz sobre o que haviam deliberado, Plínio abandonou o sagrado recinto, caminhando lentamente na direção de casa.

Não sabia se deveria comunicar à esposa o recente acontecimento, contudo, não a encontrou. Foi à cozinha e sentiu que a mulher havia deixado tudo na melhor organização. Buscou algum recado, mas não achou.

“Terá ido à casa de Hortênsia? Sim, porque a Antonieta me parece carta fora do baralho, à vista dos sucessos igrejeiros do Cleto.”

Meditou sobre os “sucessos igrejeiros” e atinou com a possibilidade de Margarida ter ido ao culto protestante. Esse pensamento deixou-o ainda mais desolado. Resolveu, então, ir ao escritório, onde poderia desfrutar do máximo de sossego, imaginando que destino daria à sua mediunidade em xeque.

Uma vez diante da tela do computador, onde fazia os textos de João avançar e recuar, teve uma idéia salvadora:

“Vou enviar uma cópia da última mensagem para os jornais espíritas, a ver quais reações serão favoráveis e quais desfavoráveis. Se tiver sorte, encontro algum que publique, levantando uma polêmica das mais ruidosas, uma vez que jamais encontrei em nenhum periódico qualquer demonstração espiritual de personagem tão importante.”

A decisão valeu-lhe o resto da tarde de trabalho, não tanto para a redação da missiva, na qual demonstrava como elemento essencial o fato de haver trabalhado sob a vigilância dos amigos do centro, mas principalmente na busca dos nomes dos responsáveis e dos endereços das publicações. Conseguiu postar quinze cartas, que guardou em sua escrivaninha para colocar no correio no dia seguinte.

Ao se reencontrar com Margarida, foi logo dizendo:

— Estive relendo a última mensagem do “Evangelista” e encontrei um trecho de que você vai se agradar muito.

Tirou do bolso um exemplar e leu:

— Veja como é que o autor termina: “Meus filhinhos, a paz do Senhor esteja com todos, não importando se a sua opção seja por esta ou aquela seita, por este ou aquele culto, por esta ou aquela religião. Cumpram os preceitos do bem e da virtude. O mais vocês auferirão em acréscimos de bênçãos.” Não lhe parece estar lendo o trecho de “O Livro dos Espíritos” a que você aludiu?

Margarida ficou desconfiada de que o marido lhe preparara alguma armadilha. Por isso, apenas perguntou:

— O que você quer dizer com isso?

— Estou dizendo que posso dar meu braço a torcer e aceitar a sua tese de que devemos parar um pouco com o Espiritismo, para o bem do Cleto, conquanto eu ache que o Vidinho não irá concordar com essa atitude.

— Você está me escondendo alguma coisa que aconteceu no centro.

— Você é que não me disse aonde foi enquanto estive fora.

— Eu não disse porque resolvi na última hora. Será que você não foi capaz de imaginar que estive no templo, cantando e orando, pedindo que Jesus nos abençoe com o esclarecimento de sua mente, o que, você vai ter de concordar, aconteceu deveras, caso contrário não tinha dito nada do que disse?!

— Eu sabia que você podia ter ido à igreja. Só que a você eu informei que ia ao centro. Por que não me deixou um bilhete?

— Supus que chegaria antes e não lhe disse nada há pouco, porque você chegou falando até pelos cotovelos. Mas você não me respondeu...

— Não respondi ao quê?

— A respeito do que você está me escondendo. Algo muito grave deve estar acontecendo, para você mudar tão depressa de opinião.

— Você não disse que foi Jesus quem nos abençoou?

— Não brinque com as coisas sérias. Vai dizer ou vou ter de perguntar ao Moacir?

— Pergunte também ao Silvinho, porque ambos não se encontravam lá.

— Então ocorreu algum fato bem grave...

— Ariovaldo me informou que o pessoal não quer mais que eu dê passividade às mensagens do meu amigo João. Eles acham que já têm muito o que fazer para darem trela aos estudos organizados a partir dos desencarnados.

— Em outros tempos, eu diria que são uns mal-agradecidos. Agora, posso pensar em que tenham recebido inspiração dos benfeitores espirituais.

— Por que não está você afirmando que foi Jesus quem os estimulou? Não se esqueça de que a conversa com os mortos está proibida desde os tempos de Moisés e os protestantes fazem questão cerrada de anunciar que os entretenimentos entre mortos e vivos são conduzidos pelos demônios.

— Que é que você vai fazer agora?

— Já fiz.

— Como “já fiz”?

— Vou mandar uma carta, que já escrevi, para diferentes órgãos de divulgação espírita, para ver se publicam a mensagem que recebi no dia de ontem. Aliás, se você quiser ler, eis a cópia que imprimi especialmente para você. Veja que enchi de coraçõezinhos.

— Mesmo antes de tomar conhecimento do texto, acho que você está se precipitando. Em todo caso, prepare-se para algumas surpresas desagradáveis. É tudo o que eu lhe digo.

— Vejo, querida, que posso contar com você para me animar.

— Para animar, não, querido.; para lhe oferecer o ombro, onde você vai curtir a dor dos desapontamentos, das desilusões, dos desenganos...

No dia seguinte, quase um autômato, Plínio levou à agência dos Correios os quinze envelopes e despachou-os, sem alegria e sem confiança. Pensava que não deveria ter sido esse o caminho mais fácil para a divulgação das confissões do santo.

Fez os cálculos e concluiu que iria levar, no mínimo, uma semana para obter a primeira resposta.

“O que vou ficar fazendo, enquanto isso? Não creio que os meus parceiros de mesa vão aceitar com muita facilidade o texto que lhes deverei fornecer ainda hoje. Em todo o caso, como alguns já estão com uma cópia...”

Trabalhou casmurro o tempo todo, tendo dado preferência a ir à empresa, para não demonstrar seu mau humor aos sócios. Deitou-lhes sobre a mesa um exemplar da mensagem para cada um e se foi, em busca de mergulhar fundo nas contas do ex-patrão.

Na verdade, alcançou seu objetivo, tanto que restabeleceu todos os critérios anteriores de fixação dos elementos contábeis, terminando por recomendar ao Palhares que mantivesse um dos funcionários à testa do departamento, dispondo-se a oferecer retaguarda técnica de alto padrão, para o caso de haver problemas na reimplantação do sistema.

Não contava, porém, com certa resistência de quem lhe propôs, inesperadamente:

— Você, meu bom amigo, conhece melhor do que ninguém os segredos da firma. Se não deseja aceitar o serviço para o seu escritório, tudo bem. Dá para compreender. E se nós restabelecêssemos o seu vínculo empregatício, readmitindo-o no antigo posto, com salário compatível ao cargo de diretor-técnico, caso em que responderia pelo correspondente fluxo dos documentos contábeis e pelo setor de pessoal de toda a empresa, responsabilizando-se pela manutenção ou dispensa dos atuais empregados e pela admissão de quantos forem necessários para dar implemento ao novo sistema?

— Não estou bem para definir uma posição agora. Posso adiar a resposta até amanhã?

— É justo que você queira conversar com os sócios. Veja bem. Estamos dando-lhe um cargo de confiança. Se você quiser reempregar os dois amigos, esteja à vontade.

— Não creio que aceitem, porque ganham dez vezes mais lá do que aqui.

— Você está sugerindo que a nossa proposta não alcança os seus ganhos atuais?

— Absolutamente, não. Tenho a certeza de que com vocês estarei melhor, mesmo porque poderei manter-me na condição de sócio da minha pequena empresa...

— Não há nenhuma restrição quanto a isso, desde que esteja no comando do departamento, dentro do horário comercial. Se você quer a minha opinião de amigo de tantos anos, aceite, tire umas férias de suas preocupações na condução do escritório e, se não der certo aqui, exponha com lealdade e clareza e retire-se, levando consigo a nossa amizade e respeito.

— Já que entramos no terreno pessoal. Diga-me o porquê de os donos terem admitido a hipótese de verem um espírita no comando de um dos setores da empresa.

— Correu um boato de que você tem um filho pastor. Parece que houve um entendimento entre as autoridades da igreja e da firma. Mais do que isso eu não saberia dizer.

Plínio voltou para o almoço, caminhando nas nuvens. A bem da verdade, pouco pensou sobre a oferta de emprego. Via-se cercado pelos bispos e pastores, como se fossem eles os demônios obsessores que acusavam de possessão dos espíritas. Em certo ponto da meditação, quase perdeu o fôlego:

“Se eu contar tudo o que se passou para a Margarida, ela vai dizer que Jesus está me convidando para entrar nas fileiras protestantes. Se não contar, por outro lado, como poderei explicar o fato de haver aceitado de volta, e com tantas regalias, o meu velho emprego? Se disser que Moisés está por trás de tudo, vai rir-se de mim ou vai confirmar o interesse dele em nos manter distantes do centro espírita, reforçando a figura do Cleto na qualidade de pastor ou de sei lá que outro cargo possa a vir ocupar na igreja. Acho que vou ter de consultar-me com meu anjo de guarda ou pedir um conselho pessoal ao apóstolo João.”

Não precisou de prece nenhuma para pôr-se em estado de receber os eflúvios etéreos do Saldanha, que lhe deixou claro, na consciência, a idéia de que a vida é dada aos espíritos para sanar os defeitos e viciações e para resgatar os débitos com os que outrora foram inimigos e que atualmente devem estar no círculo da parentela e das amizades. Mais não quis passar-lhe, a não ser a sombra de um pensamento doutrinário fundamental, ou seja, de que sem livre-arbítrio a humanidade não progrediria.

Não teve a oportunidade, contudo, de comunicar à esposa o que se passara pela manhã, porque ela havia reservado para ele umas surpresas:

— Li o texto do “Evangelista”. Você está disposto a ouvir a opinião de uma pessoa ignorante mas prática?

— Se você guardar as suas idéias só para você, vai me deixar zangado.

— Zangado você vai ficar se eu disser o que penso.

— Zangado por zangado, diga tudo, pelo menos terei um motivo conhecido.

— Vamos deixar as brincadeiras de lado e vamos direto ao ponto. Eu não acho que o santo iria escolher você para trazer notícia tão revolucionária, para usar um termo seguro das conseqüências do restante que tenho para dizer.

Passou pela mente do marido que Margarida havia confabulado com alguém, porque o vocabulário não era o habitual. E disse-o, interrompendo-a:

— Antes de mais nada, quem mais está a par do conteúdo da mensagem?

Pega no pulo, Margarida não titubeou:

— O meu conselho íntimo, quer dizer, Hortênsia, que representou os católicos, e Antonieta, que trouxe as idéias espíritas.

— Então, pelo menos, foi dada alguma importância ao texto!

— Não diria que ao texto mas à pessoa que o escreveu: você, meu querido.

— Eu não escrevi, porque não trazia na cabeça nenhuma dessas idéias revolucionárias. Você sabe que sou um homem de boa paz, que desejo viver sossegado, sem mexer com as pessoas, embora esteja vendo que esbarrei num vespeiro.

— Vamos dizer que não tenha sido você o autor intelectual. Em todo caso, foi quem pôs a mente a funcionar, caso contrário não teria apresentado texto algum. Eu, por exemplo, não tenho escrito nada...

— Porque não se propõe. Basta concentrar-se para que algum espírito amigo...

— Esse é o ponto. Será que esse espírito é amigo? Não me venha dizer que Jesus recomendou ao discípulo que viesse comentar a respeito do fato de ter vivido depois da crucificação. Hortênsia me assegurou que a tese poria abaixo o dogma da salvação da humanidade pelo sangue e pela paixão do Senhor. Toda a Igreja Católica iria cair de pau sobre você e mais ninguém. Antonieta me tranqüilizou, por outro lado, que a mensagem não vai encontrar quem a publique, porque os espíritas também não vão aceitar que um conceito novo e, aqui vale, revolucionário, seja colocado na ordem do dia pelo próprio indivíduo que incorporou o sublime espírito do apóstolo.

Plínio não podia esperar tanto. Tímido, desejou um esclarecimento:

— Você escreveu e decorou o que conversaram ou devo concordar com Cleto quanto a você possuir um gravador mental?

— Preste atenção que o que eu tenho para dizer é importante.

— Sou todo ouvidos, querida.

Ia dizer “orelhas”, mas sofreou a tempo o impulso que desvendaria o seu íntimo repúdio às intenções dos que desejavam expulsá-lo do convívio dos espíritos superiores.

— Nós três concordamos que Kardec apenas codificou as mensagens das entidades de todas as classes espíritas que lhe eram passadas pelos médiuns. Você — preste bastante atenção — deve encontrar o seu Kardec, aquela pessoa que vai reunir os textos seus e de outros médiuns, para comentar e pôr em condições de serem avaliados e incorporados, se for o caso, ao conjunto do pensamento doutrinário do Espiritismo. Você fez o que prometeu?

— O que foi que prometi?

— Você colocou as cartas no correio?

— A sorte foi lançada...

Se Margarida conhecesse a origem da expressão, diria que o nome dele, apesar de latino, não era César. Limitou-se, pois, a prognosticar:

— Sente-se, porque de pé você vai cansar de tanto esperar pelas respostas.

Ressabiado, Plínio não quis apostar no contrário. Apenas aproximou-se da mulher, afagou-lhe os cabelos que se engrinaldavam de branco, deu-lhe um beijo na testa e agradeceu-lhe com algumas ameaças de lágrimas:

— Muito obrigado, meu amor. Jamais vou me esquecer de sua preocupação para comigo.

Almoçou introspectivo, temeroso de que tivesse feito algo muito ruim para a carreira de médium, precipitando-se ao divulgar a mensagem polêmica obtida na casa do delegado.

À tarde, em lugar de tratar dos temas espíritas com os sócios, deu-lhes a conhecer a proposta da empresa e chegaram os três à conclusão de que o melhor seria aceitar o oferecimento de emprego, mantendo-se o vínculo com a sociedade. Foi Moacir quem levantou um problema:

— O Plínio, saindo, vai abrir uma lacuna, ou seja, vai sobrecarregar-nos com o preenchimento dos formulários e demais prestações de contas ao fisco, conforme ele vem fazendo junto ao computador. Proponho que a gente contrate alguém para substituí-lo quanto ao trabalho mecânico, porque os rascunhos nós teremos de fazer juntos.

Plínio teve uma idéia repentina:

— Se vocês não fizerem nenhuma objeção, trago o meu filho Ovídio, esperto o suficiente para o serviço. Basta que a gente explique tudo direitinho. Aliás, ele está querendo voltar para os pais e vai ser muito bom que encontre algo com que se entreter, como vem fazendo na ajuda que dá ao irmão e aos pastores.

Silvinho apoiou:

— Bem lembrado. Acho mesmo que vai ser melhor assim, porque pai e filho poderão ajudar-se, caso tenham um micro em casa, porque, disquete vai, disquete vem, a nossa firma só tem a ganhar com isso.

Plínio antecipou a decisão. Voltou para conversar com Margarida, que deu inteiro apoio a que o plano tivesse seguimento. Foi, em seguida, à empresa, para conversar sobre as condições do contrato. Palhares e Coelho reuniram-se a ele e tudo se acertou de forma a contentar as partes.

À noite, munido de diversas cópias da famigerada mensagem, foi ao centro, com o intuito de agradecer formalmente aos guias o restabelecimento de sua vida, porque julgava que a vinda do Ovídio, o estabelecimento na igreja do Anacleto e a assistência que se dava ao Ari no etéreo eram definitivos, como estava certo da recuperação mental da esposa.

Encontrou o povo no centro alvoroçadíssimo. Nem entrou e já as moças do grupo, Olívia à frente, pegaram-no pelo braço e o conduziram para a secretaria, onde, porta fechada e vozes abafadas, lhe expuseram o que sucedia:

Ana Beatriz foi quem iniciou:

— Como sou a que está mais calma, fui incumbida de pôr você a par dos acontecimentos. Não se sabe quem, mas todas as nossas mensagens reservadas foram copiadas e distribuídas em diferentes centros.

Plínio não conteve uma exclamação:

— Santo Deus!

E mais não disse, aguardando outras informações.

Ana prosseguiu:

— Os diretores foram chamados para uma reunião urgente na sede da União das Sociedades Espíritas. Não sabemos o que será tratado mas não deve ser nada bom para nós.

Plínio admirou-se:

— Por que vocês estão se incluindo, se fui só eu quem escreveu as mensagens?

Judite respondeu:

— Quando um médium trabalha em conjunto com outros, todos são tidos como cooperadores, como meeiros, como responsáveis. Se tivesse sido apenas um texto, talvez ninguém desse importância. Mas quatro...

Plínio estranhou:

— Como quatro? São apenas três.

Judite, porém, estava certa de suas contas:

— Existe o primeiro texto do substituto do médium Chico Xavier. O segundo é o da pergunta de João a Jesus sobre as palavras com que Deus receberia os espíritos excelsos...

Plínio reconsiderou:

— Com esse, são quatro mesmo. Mas, se bem me lembro, não se pode contar entre os “reservados”, porque foi distribuído e até saiu impresso como separata de jornal.

Mas Judite estava querendo caracterizar os outros dois e continuou:

— Pois o terceiro foi o do “Apocalipse” e dos trechos copiados do “Antigo Testamento”. O quarto foi o do corpo de Jesus...

Novamente, Plínio interveio:

— Este último não pode ser considerado entre os “reservados”, porque nem foi escrito neste centro. Aliás, vai ser bem fácil de descobrir quem foi que desencadeou o escândalo na federação...

Ana corrigiu-o:

— Na U.S.E. e não na federação.

— Pois que seja. O fato é que distribuí...

Plínio contou nos dedos:

— Uma para o Ariovaldo, outra para o Severo, mais três ontem, duas hoje, outra para minha mulher... Ao todo foram oito cópias. Além, é claro, das quinze que postei hoje cedo e aquela que ficou com o Doutor João.

Olívia, que estivera segurando-se, finalmente deslanchou:

— Meu caro amigo, não importa que você tenha feito um milhão de cópias. Aliás, você não relacionou as nossas cópias. O que interessa, porém, é a reação das pessoas. Os diretores que foram mantidos fora do nosso círculo se sentiram traídos. Vamos dizer, é apenas uma hipótese, que Margarida, inadvertidamente, tenha mostrado a mensagem a algum deles...

— Ela ou Antonieta...

— Veja que as coisas se complicam. Aí, um dos descontentes resolveu denunciar, com a desculpa de conhecer o parecer da entidade “et cetera” e tal...

Insistiu o abobalhado médium:

— Mas não houve tempo para isso. Afinal, foi anteontem que eu apanhei o texto e ontem é que mostrei para o povo daqui. Como é que chegou tão depressa aos outros centros e teve uma resposta a jato? Existe algo misterioso nessa história.

— O que não é misterioso foi o que ouvi e acho que você deveria saber. Prepare-se para o pior. Estão dizendo que, se você quiser continuar ajudando o centro, vai ter de se contentar com as tarefas manuais e voltar a cursar as aulas de doutrina. A mediunidade está proibida.

— Vou para outro centro.

— Se houver algum que o aceite, porque o fato está tendo ampla repercussão.

Foi só aí que Plínio atinou deveras para a preocupação das amigas. Olhou-as fixamente nos olhos, alternadamente, e agradeceu-lhes o interesse:

— Eu nunca mais vou me esquecer de nenhuma de vocês. Sinto muito que tenham sido envolvidas. Sabem que mais? Vou para casa agora mesmo. Vou conversar com minha mulher. Juntos, nós vamos decidir sobre o que vai ser melhor para todos. Antes, porém, quero que vocês saibam que isto ia acontecer de um jeito ou de outro, mais tarde, evidentemente, porque enviei quinze cópias, para quinze jornais espíritas. Se algum publicar, o escândalo vai ter repercussão muito maior. E, se não houver crítica mas elogio...

Olívia contestou:

— Se bem conheço essa gente, você vai morrer e o texto vai mofar nas prateleiras. Além do mais, palavras de “elogio”, meu caro, esqueça, porque, se alguém falar alguma coisa, vai ser para derrubar você do seu pedestal. Pode estar certo do que estou falando.

Algumas lágrimas brotaram dos olhos dela, contagiando os outros três. Abraçaram-se como se fora o derradeiro encontro nesta encarnação e Plínio se retirou, tão distraído que quase abalroou Severo que passava no corredor.

— Plínio, meu bom amigo, eu li a mensagem que você nos entregou ontem. Interessantíssima! Acho que o seu amigo da espiritualidade está tentando uma tarefa ingente, qual seja, a de unir os espíritas em torno de um pensamento único que acolhe Kardec e Roustaing ao mesmo tempo. Quarta-feira, vamos ter muito o que conversar com a turma.

Pareceu a Plínio que Severo acabava de chegar e desconhecia a agitação do centro. Sem condições de falar, contudo, tomou a mão do amigo, apertou-a contra o coração e saiu com a vista embaciada, sem perceber que Ariovaldo conversava do lado de fora com outros diretores. Caminhou ao longo de cinco quarteirões, quando se recordou de que fora de carro. Arrepiou caminho, já mais dono de si, pôs a chave na ignição, deu partida e, lentamente, avançou na direção de casa.



(1) KARDEC, Allan — O Livro dos Espíritos. Tradução inédita de Wladimir Olivier.

(2) Idem, Ibidem.

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