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Erótico-->2. O CONVITE -- 19/10/2003 - 11:08 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Vagava há alguns anos observando a vida crescendo e perdendo-se nas ruas da cidade. Fixava seus pontos de vista em favor de empreender a salvação da humanidade, em nome de Deus, e rezava por horas a fio, às vezes, noite adentro até o raiar do dia.

Mas Adonias era lúcido, sabendo gravar na memória todos os fatos que reputava de interesse. Se conversava com uma pessoa, e isso ele fazia apenas durante as discussões públicas, porque nem aos familiares dava trela para arengas improdutivas, essa figura permanecia presa nos neurônios permanentemente.

Foi por isso que aquele mesmo sujeito que o interrogou a respeito dos pobres à porta das igrejas católicas, quando se apresentou de novo para novas questões, Adonias imediatamente despertou a recordação de todas as circunstâncias da vez anterior.

Desta feita, o sujeito ficou calado, anotando num papel não tão imperceptivelmente que o orador não houvesse percebido a atitude disfarçada. Mas calou-se também, desejoso de ver até onde poderia ir aquela atividade inusitada.

Falava a respeito de seu tema favorito, ou seja, a respeito da pobreza e do sofrimento, mescla de miséria humana a atingir boa parcela da sociedade:

— Quando Jesus curava e pedia para o povo manter sua fé no Senhor, era porque tinha a certeza de que muitos dos presentes seriam capazes de aprender suas lições, caso contrário qual seria a vantagem de pregar no deserto? Houve um momento em que duvidou de sua pregação, mas, iluminado pelas forças supremas do universo, soube resgatar a presença das boas sementes que se despejavam num terreno fértil e resguardado. Se vocês estão pensando que Jesus teve uma inspiração para efetuar a parábola das sementes e dos terrenos, vocês aí estarão completamente enganados. Jesus estava refletindo a respeito de como era penoso ir de povo em povo, proclamando a necessidade do bem e do amor, da caridade, sobretudo, do desprendimento dos bens mundanos e do perdão aos inimigos. Ele buscava que os seus ouvintes fossem capazes de praticar tudo quanto lhes ensinava, mas duvidava de que muitos o fizessem, porque conhecia o coração das pessoas, seus interesses mesquinhos e sua visão deturpada da vida e do mundo. Quando se recolheu, um dia, após repetir pela milésima vez que a boa semente quando cai sobre as pedras é queimada pelo sol, aí percebeu que nem os seus mais caros discípulos tinham tido a noção exata de suas palavras e precisou reproduzir os ensinamentos de maneira mais clara, a ponto de elucidar um fator de risco para quanta gente se dispõe a nivelar todos do público por cima, pois se viu forçado a explicar à parte, minuciosamente, o que cada trecho de sua augusta parábola estava a significar.

Foi quando o sujeitinho, respeitosamente, levantou a mão, solicitando permissão para perguntar. Adonias o que mais queria era aquilo mesmo, porque despertava o interesse dos que estavam presentes apenas com seu físico, porque o espírito pairava longe, embalado pela miragem histórica de um Cristo formoso e puro, a ter sob os pés, montanha abaixo, a multidão dos judeus e dos estrangeiros, alguns levando consigo armas e uniformes das milícias romanas.

Sendo assim, fez questão de que o povo todo se voltasse para a figura que desejava manifestar-se:

— Vejo que existe um amigo que pretende argüir-me a respeito do que estou falando. Vá em frente e diga tudo o que esteja pensando e que esteja sentindo. Ponha o coração em suas palavras, mas seja absolutamente claro e honesto, porque de perguntas maliciosas eu não sei livrar-me como Jesus fazia em relação aos fariseus e aos doutores da lei.

Apontava para a personagem, de modo que todos puderam voltar para aquele ponto no meio da multidão, havendo alguns que se apartaram da figura indigitada, para evidenciarem a quem estava sendo dirigido o dedo em riste do pregador. Mas a pessoa não se apurou e se pronunciou, talvez com ânimo renovado pela atitude amiga do que estava sobre a mesa de praia afastada das demais com a adrede intenção de ficar no centro da aglomeração:

— Meu bom homem, as suas palavras são a mais clara demonstração de sua boa vontade e de sua inteligência. Em primeiro lugar, para que fiquem cientes as pessoas aqui reunidas, nós não nos conhecemos e só trocamos algumas observações outro dia, numa belíssima tarde de sol. Se alguém pensar que estamos combinados, vai enganar-se. Mas eu devo dizer que Jesus era uma pessoa acima de qualquer suspeita, de forma que supor que ele pudesse ter problemas pessoais é um desplante. Jesus era o filho querido de Deus, Deus ele mesmo, a segunda pessoa da Divina Trindade, que se completa com o Espírito Santo. Sendo assim, eu não concordo e acho que muitos aqui não haverão de concordar quando você diz que Jesus estava preocupado com problemas pessoais. Jesus não podia passar por sofrimentos desse tipo. Se amargou a taça de fel até as fezes, foi porque os males da humanidade que iria destruí-lo eram maiores que o poderio de suas palavras. Veja que estou concordando com o fato de que muitas de suas palavras caíram nos espinheiros e não foram adiante. Também acho que as suas e as minhas não terão repercussão alguma na mente e no coração das pessoas que nos cercam, entretanto, quero reforçar o ponto principal de sua expressão pública, qual seja, a necessidade de que todo o mundo contribua para o bem comum. Mas eu não vou concluir o que vim dizer sem pedir-lhe permissão para realizar um convite a toda a gente e a você mesmo, meu bom amigo.

Adonias, pela amostra do dia anterior, não poderia ter suposto que o homem seria capaz de colocar seu ponto de vista com tamanha desenvoltura. Sendo assim, enquanto o outro falava, ia analisando as palavras, os gestos e a roupa do oponente virtual e logo deduziu que se tratava de algum pastor evangélico dessas seitas protestantes emergentes, dessas que captam o mais possível de pessoas, para delas extraírem tudo que possam conseguir, com a promessa da devolução, decuplicadas por Deus, de todas as oferendas e doações. Dessa forma, quando o outro lhe solicitou permissão para o convite, ele estava preparado para prosseguir em sua peroração:

— A sua educação, meu amigo, está a me indicar uma pessoa voltada a fazer o bem. No entanto, tenho muito medo de que a sua contribuição evangélica e moral, quando atribui a Jesus todas aquelas qualidades, as quais eu não nego, se restrinja a um peditório desenfreado, enaltecendo a figura excelsa para a comoção do público reunido em seu templo particular, onde o dinheiro jorra para a grandiosidade material de sua igreja, como o pessoal da Igreja Católica vem ostentando desde há muitos séculos uma riqueza que faz mossa, que comete a mais horrorosa provocação das sensibilidades voltadas para aqueles que estão a ponto de praticar todas as loucuras contra as leis de Deus, somente porque precisam sobreviver e dar de comer aos filhos. Se o seu convite, meu caro, for para nos levar até uma assembléia armada com o propósito de verificar quanto somos capazes de doar para efeito de sermos recompensados futuramente, esqueça, porque eu não pretendo dispor da boa vontade de ninguém para me acusar mais tarde de estar mancomunado com uma pessoa que me vem seguindo, provavelmente para distribuir panfletos, como se eu mesmo estivesse explorando a boa-fé dos meus ouvintes. Mas eu não vou recusar-me a atender ao seu pedido. Deixei o meu aviso para quem tem ouvidos de ouvir. Se alguém quiser ver para crer, que aceite ir aonde você quer levar esta gente.

A bem da verdade, havia umas vinte e poucas pessoas. O debate, talvez por isso mesmo, ganhava aspectos surrealistas, como se dois tremendos apóstolos do Cristo estivessem a debater as verdades eucarísticas, segundo os ensinos que se poderiam deduzir como corolários das verdades simples que Jesus dispunha perante o povo constituído de milhares de pessoas.

O que havia sido incitado a declinar de que convite se tratava, calou-se e fez um gesto expressivo, informando ao orador que não iria prestar a informação que anunciara. Mas não faz menção de se retirar, talvez com a esperança de que alguém lhe pedisse para voltar atrás desta última deliberação. Como ninguém se manifestou, Adonias prosseguiu em sua palestra, a ver se mais alguém pudesse oferecer-lhe condições de expor algum tema de interesse particular. Mas a sua expectativa se frustrou como a do outro, de modo que resolveu encerrar o sermão, incentivando o povo a ter compaixão pelos semelhantes.

Assim que o povo se dispersou, o homem se apresentou a Adonias:

— Meu nome é Adão, nome que talvez esteja muito próximo do seu, que eu sei que é Adonias. Você me interpretou mal e bem ao mesmo tempo. Na verdade, eu ia convidar a todos para irem à minha igreja, mas resolvi não fazê-lo, porque seria estupidez minha aproveitar-me de seu trabalho evangélico de maneira sub-reptícia e falaciosa. Uso de um vocabulário que eu tenho certeza que você compreende, porque sei que é culto e conheço sua origem familiar e sua interrupção sacerdotal. Mas é com muito prazer que vou convidá-lo para ir à minha casa, para conversarmos exaustivamente a respeito da obra de Jesus, da sua peregrinação e dos meus objetivos, porque eu acho que a nossa reunião não irá ofender os princípios que você vem defendendo, podendo entender por que eu o quero junto a mim, em nome, veja bem, não de Deus nem de Jesus, em nome daqueles entezinhos que você vem defendendo sem ter a oportunidade de lhes limpar as feridas nem de lhes colocar o Evangelho nas mãos.

Adonias não soube o que responder mas apanhou o cartão que o outro lhe estendeu, onde leu o nome da instituição (“Igreja Cristã da Misericórdia Divina”), o endereço e até os horários em que poderia comparecer para a conversa, abrindo-se a possibilidade para o mês inteiro. Então Adonias enfatizou:

— A sua atitude foi ponderada e ética. Reconheço. Mas se você pretende me arrastar consigo para uma nova congregação aparente de bondade e de misericórdia, mas que se construiu para a defesa de seu patrimônio, então estará jogando más sementes em terreno muitíssimo fértil, isso eu lhe posso garantir.

— A semente não estará escondida mas à mostra. Você irá decidir sobre a qualidade dela. Entretanto, não vou cansá-lo com a minha pessoa. Vou dar-lhe tempo para pensar e decidir, mesmo porque eu acho que você está querendo visitar os seus pais no subúrbio, que a sua batina está necessitando de um trato de água e sabão.

Foi assim que se deu o primeiro real encontro entre Adão e Adonias. Que nos perdoem os leitores, mas o novo encontro vai ter de esperar por novos acontecimentos e explicações.

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