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Textos_Religiosos-->ESPIRITISMO AO VIVO -- 02/03/2005 - 07:06 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER








ESPIRITISMO

AO VIVO









TURMA DA CRÍTICA AMENA


REDATOR ESPIRITUAL: FERNANDO



Selon la doctrine spirite, d accord avec les paroles mêmes de l Evangile, avec la logique et la plus rigoureuse justice, l homme est le fils de ses ceuvres, pendent cette vie et après la mort ; il ne doit rien à la faveur : Dieu le récompense de ses efforts, et le punit de sa négligence aussi longtemps qu il est négligent.
Allan Kardec (Le Ciel et L’enfer ou La Justice Divine selon le Spiritisme. Cap. VI, item 21.)

Segundo a doutrina espírita, de acordo mesmo com o Evangelho, com a lógica e a mais rigorosa justiça, o homem é filho de suas obras, durante esta vida e após a morte; ele não deve nada ao favor: Deus o recompensa pelos seus esforços e o pune pela sua negligência tanto tempo quanto ele for negligente.




Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP



ÍNDICE


Palavras de incentivo ....................................
1. Tomando o bonde andando ..................................
2. Cleomena medita ..........................................
3. O blefe de Estanislau ....................................
4. Observações importantes ..................................
5. Firmino quebra a cabeça ..................................
6. Fernando .................................................
7. Jesualda .................................................
8. Considerações oportunas ..................................
9. O começo da primeira reunião .............................
10. No plano espiritual ......................................
11. A descoberta do texto ....................................
12. De volta ao etéreo .......................................
13. Prossegue a leitura ......................................
14. A palestra de Rodolfo ....................................
15. Firmino se expande mas se retrai .........................
16. Os fatos mediúnicos ......................................
17. As mensagens escritas ....................................
18. Curiosidade insatisfeita .................................
19. A vida continua ..........................................
20. No centro espírita .......................................
21. Fernando cai na realidade ................................
22. Brilha o sol .............................................
23. Rejubilam-se os do etéreo ................................
24. Preparativos para o casório ..............................
25. A poltrona ...............................................
26. As pastas ocultas ........................................
27. A vida não pára ..........................................
28. O destino dos papéis .....................................
29. Uma história que se esclarece ............................
30. Um visitante ilustre .....................................
31. Morre Fernando ...........................................
32. O despertar no etéreo ....................................
33. O bode expiatório ........................................
34. Considerações finais .....................................



PALAVRAS DE INCENTIVO

Não são poucos os irmãos de fé espírita que estão sentindo-se bastante frustrados em relação às conquistas das virtudes dentro do kardecismo, principalmente porque gostariam de ver os dirigentes abrirem as mentes e os corações para posturas mais propensas à aceitação de novas perspectivas científicas, tendo em vista os ganhos em muitas áreas do humano conhecimento a denunciarem a fragilidade dos conceitos que estimularam Kardec nos albores da doutrina.
Terão eles também o que reclamar quanto ao procedimento socioeconômico dos companheiros responsáveis pelos centros, sociedades, federações e demais entidades congregantes de atividades no âmbito dos postulados hauridos diretamente da codificação? Neste caso, o descuido adviria de fatores alheios aos preceitos morais cristãos, porque o desempenho deve ser visto como individual e subjetivo. Em todo caso, quem terá uma visão de conjunto tão abrangente que possa estabelecer com segurança em que setores da vida pública acontecem as piores falhas e o quanto de benefício se estende pelas várias camadas da sociedade?
Se nos propusermos a comentar um a um os aspectos em jogo nesse recriminar de muitos, teremos leitores a considerar as nossas apreciações como valiosas para o crescimento do movimento espírita? Ou a nossa visão virá a ser tão estreita e indefinida que o trabalho irá perder-se irremediavelmente?
Lançamos o desafio como uma rede de pesca e colhemos alguns graúdos espécimes de descontentamentos significativos e dignos de análise.
Eis o objetivo desta Turma da Crítica Amena, sob a batuta severa do Professor Ovídio, que nos fornecerá o roteiro para os comentários e o auxílio imprescindível para que não incidamos em desasados reparos dos pensamentos e das alheias emoções, porque o cuidado com estes temas deve ser o maior possível, já que não nos cabe fomentar estéreis discussões nem polêmicas irrelevantes para o congraçamento das pessoas em torno dos ideais do amor e da caridade, divisa maior do Espiritismo.
Como primeiro aviso, esperamos que os amáveis leitores se despojem, se possível, dos preconceitos relativos a dois problemas comuns entre os que têm o hábito da leitura das obras mediúnicas, ou seja, a desconfiança de estarem sendo engodados por espíritos de baixa estatura moral e a atribuição ao mediador dos pontos de vista expendidos. À medida que os textos se apresentarem para leitura, iremos dispor com o máximo de clareza que as nossas críticas se fundamentam em teses que se apresentam aos alunos da Escolinha de Evangelização, provindas de planos mais elevados, mas trabalhadas segundo a nossa capacidade de entendimento e expostas para um público seleto, culto, doutrinado e inteligente, embora em linguagem acessível, para que mais pessoas possam imergir conosco à busca de algumas pérolas preciosas para a formação espírita.
Também não queremos ouvir que este opúsculo era a obra que faltava na coleção dos trabalhos mediúnicos. Longe de nós estabelecer princípios que se desvinculem das noções básicas contidas nos livros da codificação. Queremos, sim, levantar problemas para propor soluções específicas; advertimos, contudo, desde o frontispício, que uma correta interpretação dos ensinos do Espírito de Verdade e seus comandados resolve quase cem por cento de quantas dúvidas possam pairar na mente dos encarnados.
Se o nosso raciocínio não estiver à altura de consignar aos atos de fé estrutura doutrinária coerente com os princípios científicos propugnados por Kardec, estabeleçamos para nós mesmos que jamais poderemos volver atrás na caminhada evolutiva, sabendo, pois, que ultrapassaremos mais rapidamente todas as dificuldades, se mantivermos a mente ativa e o coração devotado ao bem. Isto significa contar com o apoio dos guias e mentores espirituais, que sempre hão de premiar os esforços sinceros e generosos de quem deseja vencer as barreiras dos compromissos cármicos.
Ao final da jornada diária, dediquemos alguns minutos à prece de reconhecimento pelo amparo recebido em todas as atividades e ao rogo para a elucidação dos problemas pendentes de compreensão.
Escreve, em nome da classe, o aluno que responde pelo nome de Fernando.



1. TOMANDO O BONDE ANDANDO

Cleomena não tinha vocação alguma para a vida pública. Fechava-se em casa e punha-se a realizar os serviços domésticos com presteza e perfeição. O marido, que não se perca pelo nome, Estanislau, era, na opinião dela, um pamonha de primeiríssima, incapaz de se meter em qualquer assunto mais inteligente, sempre passando vergonha perante os colegas de serviço, que eram lúcidos e sabiam muito bem o que desejavam na vida.
Estanislau, não. Nas horas de folga, abria uns livros ensebados que recebera de herança do avô, e punha-se a decifrar-lhes os dizeres. Era nessa hora que Cleomena se deixava embalar pelos enredos das telenovelas, onde as mulheres se impunham aos homens, enquanto estes somente viam a vida como desafio a ser vencido a qualquer custo.
Se nós perguntássemos diretamente ao infeliz o que lia com tanto interesse, iria, com certeza, pigarrear, disfarçar e dizer que se tratava de algumas obras antigas, onde a fantasia andava na companhia dos acontecimentos que o autor jurava de pés juntos que se realizavam por influência dos espíritos.
Na verdade, Cleomena, uma vez, desejosa de discutir com o marido sobre aquelas coisas do outro mundo, pegou um dos livros mas correu a colocá-lo de volta no lugar:
“Mesas girantes e falantes, estátuas que se manifestam e outras tantas bobagens... esse meu marido está ficando biruta...”
E prometeu nunca mais pôr a mão naqueles livros, com medo de ser puxada pelos pés durante a noite.
Mas Estanislau deu um passo em falso, caiu na via pública, um caminhão não tomou conhecimento da presença dele, esmagando-lhe o crânio. Não tugiu nem mugiu. Um poeta diria que se esvaiu em sangue.
Vinte anos de casamento e tudo despencava aos quarenta e oito anos de idade para Cleomena. O que mais estranho sucedeu, após o período oficial de luto (aproximadamente um mês), é que Cleomena se surpreendia a conversar com a poltrona onde o marido se sentava.
“Meu Deus! Que acontece comigo? Morreu o pobre e estou aqui como se ele estivesse vivo?!”
Não iria muito além dessas reflexões, não recebesse, agora, a visita constante da irmã, Dona Assíria, matrona mais velha, que sempre achara que a mais nova ficava muito tempo presa em casa. Via que o dinheiro era suficiente, que a pensão daria para uma pessoa sozinha (porque não havia filho nenhum, nem solteiro nem casado), mas achava um absurdo que a viuvez pudesse encerrar a peregrinação carnal da irmã com o suspense apenas das novelas.
— Você tem ido à missa?
— Pra quê?
— Virou crente?
— Não agüento a enrolação dos pastores na TV.
— Pensa em Deus?
— Claro! Faço as minhas orações, como a mãe ensinou.
— O que o cunhado lhe ensinou a respeito do espiritismo?
— Nunca falamos sobre isso.
— Que você acha da vida? Será que vale a pena passar todo o tempo cuidando da casa?
— Pelo menos agora tenho ido fazer compras. O Lalau fazia todo o serviço de rua.
— Foi esse o trato entre vocês?
— Eu é que dava a lista de compras e ele trazia tudo direitinho. Aqui dentro não gostava de ser incomodado. Sabe que eu tenho a impressão de que ele está sentado justo aí nessa poltrona?...
— Será que não está?...
— Você acha que o espírito dele...
— Ele era um homem bom e honesto. Trabalhador. Alguma vez deixou faltar alguma coisa?
— Era muito calado mas nunca se aborreceu com nada. Aquela época em que tive hemorragia, me levou ao hospital e ficou comigo o tempo todo. Tirou férias e me fez companhia até que me viu de pé de novo.
— E eu não sei disso? Quem é que cuidou de tudo enquanto você estava na cama?
— Foi a minha querida irmã mais velha... Mas o Lalau ajudava no almoço, na comida dos gatos, na limpeza do banheiro...
— Ele até punha a roupa na máquina de lavar. Só não passava.
— Será que ele tem alguma coisa para fazer em casa? Não estará no céu, com Jesus e os apóstolos?
— Pelo menos o seu falecido lia os livros de Kardec. Mas isso não é passaporte para a bem-aventurança. Ele fazia o bem dentro de casa. E lá fora? Que é que você sabe a respeito do que ele fazia?
— Sei que não gostava de ficar com os colegas. Horário era horário: entrava e saía, bom-dia, boa-noite, como vai?... Nunca recebeu ninguém; nunca me levou...
— Será que você não era culpada? Não ficava implicando com ele?
— Implicar com o quê? A televisão, ele comprou; nem precisei pedir. Mas ele não via nada, nem futebol. Ficava lendo aqueles livros velhos que eu não tenho nem coragem de pegar pra jogar fora.
— Eu já li muitos deles.
— Como é que você sabe?
— Quando você ficou doente, nós conversamos a respeito. Eu só não consegui uma coisa: levar o homem para o centro espírita.
— Que é que vocês fazem lá?
— Quer mesmo saber?
— Se não for proibido contar...
— Lá a gente trabalha pelos que precisam. Mas eu não vou dizer mais nada. Se você quiser mesmo saber, venha comigo hoje à noite. Eu passo aqui às sete. Que é que você acha?
— Eu não queria perder o capítulo...
— Você está perdendo é a oportunidade de progredir. Ponha pra gravar e depois você vê. Eu acho que você vai gostar, porque todo mundo lá é muito legal.
Assíria tinha programado ficar mais tempo. Aproveitou, porém, o titubeio da irmã e escafedeu-se. Achava que era melhor para a outra meter na cabeça sozinha a idéia de sair da caverna.
“Se não sair agora, quando estiver no Umbral, vai passar lá uma boa temporada e vai dar um trabalhão pro Estanislau.”
Foi assim que, às sete e meia, Cleomena pisava pela primeira vez na soleira do centro espírita. Mal comparando, era como se estivesse pegando o bonde andando. Mas, lá no fundo do coração, curtia a esperança de conversar com o defunto de quem sentia a presença e a ausência.



2. CLEOMENA MEDITA

De volta ao lar, muita coisa havia sido colocada no centro espírita dentro da cabeça da viúva, para que pudesse ficar pensando seriamente sobre os rumos que daria à vida.
Não que tivesse conhecido alguém que pudesse substituir o finado, longe disso, mas o Seu Fernando era um partidão, sem dúvida. Devia estar beirando os sessenta; talvez um pouco mais, conforme sugeriu Assíria, mas era um homem suave, doce, meigo, carinhoso, compreensivo...
Surpreendeu-se atribuindo ao outro as qualidades do Lalau.
“Será que o homem tem razão? Por que, sem conhecer o meu marido, foi logo dizendo que ele deveria estar numa colônia de espíritos sem problemas, restabelecendo-se do susto da morte? Como diz Assíria, ele era um homem bom, atencioso, puro... um santo. Ninguém melhor do que eu para dizer isso. Teve recaídas no ânimo, mas nunca me ofendeu. Quando...”
A imersão no passado elegeria um episódio muito triste do casal, justamente quando ficaram sabendo que Cleomena não ia poder ter filhos. Estanislau, desde o noivado, falava em quatro ou cinco. Os anos iam passando e nada. Chegou a hora da verdade, quando foram ao médico. Os exames foram conclusivos. Mas o enredamento afetivo dos dois não feneceu nem diminuiu. Ao contrário, intensificou-se, porque freqüentaram um grupo de casais, por indicação do médico, onde tomaram contato com algumas obras sobre sexo.
Neste ponto das recordações, Fernando voltou à tona:
“Será que terei coragem de enfrentar outra pessoa no leito conjugal?”
Enquanto pensava através de palavras, era como que conversasse com o próprio confessor: arrependida pelos pensamentos, sem, entretanto, arredar pé de sentir as fortes emoções do prazer...
Balançou a cabeça como a afastar as tentações carnais e principiou a caminhar dentro da casa espírita, rememorando cada pequenina lembrança. Mas ia rápida, sem comentários sobre coisas e pessoas, até sentar-se junto à mesa, onde conversou com o Seu Fernando.
— A Senhora nunca esteve num centro?
— Meu marido era espírita e nunca me falou em ir a nenhum,
— Sua irmã já me contou sobre ele. Desencarnou faz pouco tempo...
— Um mês e pouco.
— Eu também perdi minha mulher faz três meses. Com os filhos casados e sem netos, transformei-me num fantasma...
Cleomena queria pular esse pedaço da entrevista, mas não conseguia resistir ao choque que sofrera, pensando no Lalau sentado na poltrona. Foi quando perguntou:
— O Senhor tem a sensação de ver a sua mulher dentro de casa?
— A gente não vivia muito bem. Ela estava muito doente da cabeça e tomava diversos medicamentos fortes. Eu, praticamente, vim trabalhar aqui para me afastar dela.
— Pois eu tenho a sensação de ver meu marido sentado no lugar de sempre. Às vezes, até converso com ele e aí vejo que estou falando sozinha.
— Não está, não. Se as suas lembranças forem boas, como a Senhora está dizendo, ele está muito bem e muito contente em saber que deixou alguém muito querida...
Foi nesse ponto que Fernando desenvolveu a hipótese de que os conhecimentos espíritas do falecido o teriam conduzido para os braços dos familiares e protetores na espiritualidade e já estaria sendo esclarecido a respeito de sua nova condição existencial. Apenas Cleomena achou muito esquisita a argumentação do outro:
— Ele deve estar bem porque não matou nem roubou. Vocês não tiveram filhos, mas a sua missão, com certeza, era a de enfrentar esse problema juntos. Quem sabe o que ele pode ter sido numa encarnação anterior?... Pode ter desprezado ou maltratado os filhos e agora voltou com o desejo de tê-los sem poder... A gente nunca sabe. Mas parece que ele enfrentou a situação muito bem, entendendo os seus problemas. Não é verdade que ele leu os principais livros de Kardec?
— Minha irmã deve ter contado tudo sobre os livros...
— Contou.
— Então...
— Então, quem mata e rouba, quem maltrata e faz mal às pessoas, quem não cumpre as leis de Deus, quem é egoísta, vaidoso, preguiçoso, prepotente, rancoroso... Desculpe, mas eu não resisto quando se trata de falar a respeito da misericórdia do Pai em relação aos que fazem tudo o que podem para uma vida saudável...
Nesta altura das recordações, Cleomena esqueceu a visita ao centro e passou a refletir a respeito da personalidade do marido. Foi cercando o trabalhador de carinho, percebeu o quanto significou para ele, quanto ele trabalhou para dar a ela tudo o que precisava e passou a desconfiar de que ele deveria ter procurado trabalhar no centro espírita, se, realmente, tivesse aquela fé e aquele conhecimento.
“Eu acho que a pessoa que trabalha pelas outras, como o Seu Fernando, deve ser recebido com muito mais festas pelos parentes falecidos...”
Aí pôs a fita gravada a rodar e a novela surgiu inteirinha, para ela ver e rever à vontade, sem intervalos comerciais, que ia apressando, muito melhor do que no horário em que foi transmitida.



3. O BLEFE DE ESTANISLAU

Estaria mesmo bem o pobre acidentado na via pública? Morto aos cinqüenta e dois anos de idade, era de esperar-se que tivesse vivido o suficiente para perlustrar todas as obrigações reencarnatórias de que fora investido ao momento da programação no etéreo?
Vamos direto ao ponto: Estanislau suicidou-se, nem mais, nem menos.
Queria provar a si mesmo que Deus é misericordioso e que iria perdoá-lo por falta tão grave, uma vez que não deixava muita dor de herança, pois a pensão, apesar de pequena, era constante, não precisando a consorte ficar quebrando a cabeça quanto a prover-se do necessário. A casa era própria e as vicissitudes mínimas. De resto, sempre sobrava para a cunhada bastante significativa reserva, para não deixar a irmã ao desamparo.
Convenhamos, entretanto, que tais pensamentos não se coadunam com um leitor tão assíduo das obras de Kardec. Estranho mistério que haveremos de deslindar.
Desde que descobriu a inutilidade de suas núpcias e tendo a certeza de que estava sendo punido por faltas pregressas de anteriores peregrinações terrenas, pois assim entendia a partir dos textos da codificação, assumiu uma postura de receosa crítica à maneira pela qual o Criador estabelecera a Lei de Justiça. Não que não concordasse com ela. Ao contrário, tinha a convicção firmada de que tudo quanto estava escrito em O Livro dos Espíritos correspondia à verdade. No entanto, quanto à aplicação, achava que, a partir do momento em que se compenetrara do problema, tinha de receber novos incentivos para ultrapassar os limites daquele drama, através, por exemplo, de um impulso irresistível para a adoção de crianças, cujo destino se ligaria ao dele, em proveito de todos.
Esse trecho de sua vida não se fixara dentre os das preocupações da esposa, mas a verdade é que Lalau tinha sido meio frouxo na apreciação com ela de sua íntima vontade de resolver o problema através da aceitação do princípio do sacrifício em prol de pequenino próximo carente. Aliás, se, para ele, a discussão assumiu aspectos de verdadeira tragédia, para ela, o fato de não poder ter filhos se resumira, conforme acreditava Estanislau, em mantê-lo cativo ao matrimônio, oferecendo-lhe o conforto de futuro sem nenhuma perspectiva de insegurança afetiva.
O surdo drama cresceu em perto de quinze anos de meditação, durante as leituras na célebre poltrona, onde deixara indelével a marca de sua presença.
Mas vamos aos fatos.
Naquela manhã fatídica, saiu decidido a desafiar a sorte. Pensava torto:
“Se devo sofrer a desdita de um resto de vida vazio, conforme venho passando estes anos de casamento...”
Nesse instante perpassou-lhe pela mente a recordação de que os fatos sexuais tinham sido do mais profundo agrado, até que lhe sobrevieram aquelas dores nas regiões genitais, cujo exame clínico e subseqüente tratamento declarou que não faria. Nos últimos tempos, até dessa satisfação estava privado. Mas Cleomena fora preservada de qualquer preocupação, sofrendo o marido mas fingindo que gozava.
“Se vou ter de curtir a desgraça de uma vida sem esperança de qualquer realização na área sentimental...”
E de uma série de afagos e carinhos se recordava no passado distante dos primórdios do consórcio matrimonial. Mas pôs um basta nesse tipo de reminiscência e foi ao ponto primordial de sua aventura de vida:
“Se é verdade que o meu destino está traçado e que nada existe que não esteja nos planos da divina sabedoria, vou atravessar a rua sem olhar para os lados, porque acidentes não acontecem.”
Juntou às palavras a funesta ação mentalmente delineada e deu no que já sabemos.
No etéreo, o protetor, meditando sobre a ocorrência, só pôde concluir de maneira até bastante insólita:
— Foi um suicídio não-casual, voluntariamente filosófico e doutrinário, seriamente comprometido com a burrice humana, que julga que toda a realização universal do Criador foi centrada nessas energúmenas criaturas, como são os seres hominais. Se me tivesse perguntado a respeito de como livrar-se do pungente drama do “vazio” existencial, aliás completamente preenchido por devaneios e fantasias espíritas, a própria expressão do preconceito mais horroroso, eu lhe teria fornecido as precisas informações a respeito de como fugir ao destino que subliminarmente ele mesmo vinha traçando para a história de suas encarnações. Em suma, essa inclinação ao mal estava inscrita em sua personalidade, mas não há como fazer uma pessoa ler no inconsciente, se é analfabeta!
O modesto discípulo que acompanhava o instrutor apenas gaguejou um inaudível “é verdade”, tendo guardado aqueles resmungos eivados de triste malogro para posterior reflexão.
Se Lalau tivesse ouvido Fernando a observar onde deveria estar residindo para o gozo de uma felicidade superior, iria chorar mais algumas lágrimas, porque, de imediato, pelo negrume do ambiente em que foi cair, compreendeu que exercera muito mal o seu livre-arbítrio, dizendo a frase fundamental sobre que deveria suportar os sofrimentos até o resgate que sabia que iria merecer, dada a confiança na divina misericórdia:
“Eis no que dá ter a vida como uma dádiva para ser usufruída em paz, ainda que haja contrariedades com as quais a mente se ajusta, para fintar o determinismo das punições e expiações. Não poderia ser diferente: eu tinha de estragar tudo de um jeito ou de outro. A contar que estejam certos os que explicam as normas espíritas, devo passar mais uns vinte a vinte e cinco anos no Umbral, pensando que esta obsessão da consciência que me aflige seja eterna. Se, para os santos, a paciência é a virtude mais querida, devo enfrentar com denodo toda a amargura deste isolamento...”
Mas não terminou a frase, assaltado que foi por seres infelizes que, imitando sirenes de ambulância, lhe encheram o coração de esperança, na crença de que estaria apenas desmaiado, a caminho de um hospital para a devolução de sua alma ao corpo, para a reformulação de seus projetos de vida.



4. OBSERVAÇÕES IMPORTANTES

Para quem vem relatar acontecimentos, nada melhor do que quando tudo se encadeia, nutrindo-se cada efeito pelas causas imediatamente anteriores. Todavia, quando se trata de estabelecer um roteiro mais abrangente, muitos fatos acabam por subentender-se e os vínculos por carecer de elos mais lógicos. Estamos fazendo esta anotação preliminar para que não nos venham acoimar de inconseqüentes. Mas vamos ao que interessa.
Cleomena, três meses depois de haver comparecido ao centro espírita pela primeira vez, estava terminando a leitura que lhe fora recomendada por Assíria e confirmada por Fernando. Nesse meio tempo, toda semana, no horário destinado às palestras e aos passes, lá estavam as duas, absorvendo os ensinamentos esparsos de diversos expositores, cada qual preocupado com um aspecto doutrinário mais adequado para colocar nas mentes e nos corações, pela via mais rápida, o desejo de saber como respeitar os preceitos de Kardec.
Quanto aos passes, pôde Cleomena observar, era o que arrastava a maior parte do povo, que pouco se interessava pelas palestras. Queriam, em geral, sentir-se bem após uma semana de renhida luta no dia-a-dia dos contatos humanos ou por estarem com alguns sofrimentos físicos, para cuja cura julgavam que a espiritualidade poderia contribuir.
Como as pessoas chegavam em silêncio e se dispersavam em seguida, logo após cada magote de dez haver recebido a influência fluídica, Cleomena não fez nenhuma amizade que pudesse ir além daquelas vetustas paredes. Conhecia de vista alguns dos freqüentadores, contudo, as histórias deles, se Assíria não narrasse, quedavam ignoradas.
Como a novata recebia os conhecimentos é o que se poderá deduzir da seguinte conversa entre as irmãs.
— Como é que a viuvinha sai da saleta dos passes?
— Você quer saber se estou mais calma?
— Quero saber se está em paz consigo mesma, mais compenetrada de que os acontecimentos de sua vida estão sendo assistidos por benfeitores espirituais.
— Só porque uma pessoa reza por nós, não quer dizer que a gente é capaz de saber o quanto os guias estão interessados.
— Vejo que você já incorporou alguns termos que usamos no centro.
— Como assim?
— Você falou em guias com a segurança de quem sabe o que está dizendo.
— É como muitos falam. Mas isso não quer dizer que eu esteja convencida da existência deles.
— Você não sente nenhuma vibração diferente, nenhuma sensação de tranqüilidade ou de conforto, quando está recebendo o passe?
— Eu fico um pouco confusa, principalmente quando o passista é homem. Não sei se é o cheiro...
— Cuidado com o que vai dizer!...
— Onde eu disse cheiro ouça perfume.
— Assim está melhor. Mas que tem de mais o cheiro dos homens? As mulheres também não usam perfume?
— Quando fico tão perto das pessoas, a minha cabeça começa a rodar um pouco...
— Outro dia, estive pensando que você teve pouco contato físico com as pessoas. O defunto não saía de casa, o que quer dizer que nem pensar em ficar no meio da multidão, nas filas, nos bailes, nas festas...
— Nunca senti falta disso.
— Pois eu acho que só o fato de carregar crianças já é um exercício muito bom para se sentir a presença dos outros seres. Além dos sobrinhos, quem mais você acariciou na vida, sem falar no seu Lalau?
— Nem os gatos lá de casa...
— Por falar neles, onde estão, que eu não tenho visto mais nenhum?
— Aos poucos foram indo embora. Era o Lalau quem cuidava deles e quem fazia umas festas, enquanto ficava sentado na poltrona. Foi ele quem trouxe cada um para casa...
— Entendi: vocês, não tendo filhos, ele concentrou o seu poder afetivo nos bichanos.
— Nunca pensei nisso mas pode ser que você tenha razão...
— Não é verdade? Vocês nunca pretenderam adotar?
Pega de surpresa, Cleomena não respondeu de imediato. Fez um gesto, como quem pede para pensar um pouco e deu irresistível mergulho no passado, porque algo lhe pareceu despertar para um aspecto a que não havia atribuído muita importância. Agora que o assunto veio à baila, parecia estar diante do falecido, a negar provimento ao pedido dele de levar para casa uma criança qualquer.
— Vocês me deram O Evangelho Segundo o Espiritismo para ler. Disseram que ali estão os principais ensinamentos de Jesus comentados pelos espíritos. Sei que Kardec também não teve filhos; nem Jesus. Será que eles concentraram, como você disse...
— ... a afetividade...
— ... isso mesmo, nas outras pessoas? Sei que Kardec, quando morreu, estava casado. Mas Jesus nunca teve esposa. Era casto...
— Como é que você está sabendo disso tudo?
— Eu presto atenção nas palavras que dizem no centro e também posso ter ouvido na televisão...
— Nas novelas, ninguém se preocupa com esses problemas íntimos nem históricos. Você deve ter lido em algum lugar.
— Não importa como é que sei. A verdade é que fui eu quem não quis adotar, porque o Lalau falou durante muito tempo que achava que uma criança correndo pela casa iria alegrar mais a gente.
Assíria percebeu que havia tocado num ponto delicado mas insistiu:
— Que foi que levou você a recusar a idéia?
— Eu não recusei a idéia. Eu achava, isto sim, que o cuidado com a casa ia aumentar, enquanto Lalau ia continuar sentado na poltrona, além de tudo, incomodado pelo barulho e pelo rebuliço. Ia sobrar pra mim...
— Mas você ia poder carregar alguém no colo...
— ... e limpar as fraldas e dar banho e dar mamadeira e dar remédio e levar ao pediatra e fazer dormir...
— Não sei não, mas pensando em termos espíritas, não terá sido essa atitude que causou a sua infertilidade?
Assíria falou e se arrependeu. Abraçou a irmã, pensando tê-la chocado e pediu-lhe baixinho que a perdoasse:
— Você não me ofendeu, querida. Deixe disso.
— Pode ser que agora você não sinta o que eu disse. Mas, se pensar direito, vai imaginar que a sua vida se condicionou segundo a sua história espiritual. Quem sabe irá suspeitar de que o seu físico se adaptou a algum problema de outras existências, provocando essa situação de tristeza e dor. Quem sabe o cunhado foi atropelado...
Desta vez, Assíria conteve-se a tempo, porque achava que o jeito do Estanislau era causado pela falta de prole. “Um debilóide, esquizofrênico, que se embruteceu depois que casou.” Recordava-se do moço tão alegre de solteiro e no começo da vida conjugal. Comparava com a casmurrice do fim e não punha dúvidas em que o relacionamento do casal estava por detrás daquele ar distante e distraído que o levara para debaixo do caminhão.
Por seu turno, Cleomena agarrava-se à irmã, apertando aquele abraço, querendo reaver uma vida inteira entregue apenas aos carinhos do marido.
Aquele mesmo espírito citado no capítulo anterior regozijava-se, dizendo ao espantado discípulo:
— Você está vendo como são as coisas, Firmino? Essa daí está sendo arrastada ao Espiritismo por problemas meramente materiais. Não é esquisito como a parte espiritual nos encarnados depende do corpo e vice-versa? Que pode você me dizer a respeito dessa situação?
Diante do inopinado do problema, respondeu o interpelado, para safar-se:
— É verdade, querido mestre. O Senhor tem toda razão...
E mais não se disse nem vamos nós imaginar que se possa inferir algo muito filosófico desses acontecimentos. Vamos aguardar o desenvolvimento dos fatos.



5. FIRMINO QUEBRA A CABEÇA

Jarbas, o instrutor, fizera de conta não perceber as respostas evasivas do discípulo. Mas, para a hora do ajuste de contas, ou seja, da tomada dos deveres de casa, marcou os dois pontos que ficaram pendentes:
1.o) Pode um suicídio ser casual?
2.o) Por que o corpo material se reveste de tanta importância para o progresso do espírito?
A primeira questão esbarrava num velho preconceito que o pobre Firmino fizera arraigar em sua mentalidade. Desde que voltara da Terra, numa de suas encarnações mais curtas, vítima de balázio inimigo, no campo de batalha, encasquetara na cachola que se metera em apuros porque tinha exposto a vida de forma muitíssimo perigosa.
“Por mais que me invista de patriotismo”, rosnava ele surdamente, “não tenho como justificar o fato de querer matar os adversários. Se fui morto antes de ter atingido alguém, isso não tem significado maior, à vista de não se ter apresentado oportunidade. Para mim, apesar de saber que muitas atenuantes existem a preservar relativa paz de espírito, ainda creio que, no mínimo, fui um suicida em potencial. Creio que, se expuser a Jarbas este raciocínio, ele me dirá que o meu objetivo não era oferecer a vida em troca da paz ou da vitória de minha facção; era, ao contrário, o egoísmo de futuras conquistas econômicas, políticas, sociais etc., o que me levava a considerar o risco da morte como meio de subir na vida. Esse coitado do Lalau não tinha nada que pudesse engrandecer a sandice de desafiar o acaso, em nome de postura doutrinária e filosófica. Fechou os olhos, sabendo que o exército inimigo não teria nada para fazer além de mirar e atirar de modo certeiro. Alguém me afiançou que não pretendia morrer sob a marquise que lhe despencou sobre a cabeça. Foi um acidente, mesmo porque não tinha conhecimento especializado a respeito de construções nem poderia estimar em que estado de ruína se encontrava o prédio. Assim, se considerarmos apenas o aspecto material, os acidentes existem e as mortes podem ocorrer fortuitamente. Entretanto, a assertiva categórica de que nada ocorre por acaso, no mundo material, me obriga a ir um pouco mais longe na história das pessoas que se encontram reunidas, por exemplo, em embarcação que naufraga, em edifício que se incendeia, em cidade devastada por furacão, em aldeia levada pelas lavas de vulcão que explode sem prévio aviso. Mas aqui me fica a pergunta ainda de pé: o suicídio está previsto no organograma existencial dos espíritos que reencarnam?”
Imaginou o aprendiz de teologia que Deus tem condições de saber quais de seus filhos vão cair ao impacto dos impulsos de autodestruição, por tendências que se podem investigar a partir dos rastros psíquicos dos últimos encarnes. Sendo assim, ainda que não seja o Criador quem estabeleça as diretrizes para existência corporal de risco, os protetores e guias responsáveis pela impregnação de vida na matéria através dos espíritos devem suspeitar, pelo menos, que aquele indivíduo pode pôr a perder uma programação de mínimo progresso:
“O que é certo e irretorquível é o fato de que nenhum protetor deseja para seu pupilo que fracasse, o que me faz convicto da tese de que não há suicídio programável. Isto não é o mesmo que dizer que todos os suicídios sejam casuais?...”
Devolvia subjetivamente a questão, sem resolver em definitivo o problema. Cansado, pensou que seria mais fácil responder à segunda pergunta.
“Em verdade, tudo o que se escreveu na codificação espírita a respeito da necessidade das encarnações para o progresso dos espíritos tende a ressaltar que, sem passar pelos mundos de expiações e de provas, as criaturas se demoram muito mais nesse marcar passo estagnante, porque não têm no etéreo o jugo da morte, isto é, a presença do fim a pressionar para as atividades regeneradoras, as reconciliações, os gestos meritórios, os resgates através do bem que se faz e da premissa maior do mal que se evita, tendo em vista os preceitos da moralidade superior, que determina que todos somos irmãos perante Deus. É uma imposição cármica própria dos estágios transitórios, a qual, uma vez bem compreendida, há de influir poderosamente no crescimento íntimo dos postulados do amor e das demais virtudes.”
Não contente com as reflexões, Firmino achou que deveria escrever os próprios pensamentos, não sem antes buscar auxílio na biblioteca do educandário (Escolinha de Evangelização), para as competentes citações abonatórias.
Em lá chegando, acionou os computadores de consulta por assuntos e logo recebeu, à vista de sua ficha de identificação, duas dezenas de títulos, com a clara referência de que tais obras tratavam dos temas em apreço de forma bastante acessível para o desenvolvimento intelectual do consulente.
Dentre os livros, encontrou dois que sabia de cor, estranhando, sobremodo, que não se ativera a eles, preferindo expor-se ao ridículo das conclusões pueris de quem é apenas principiante. Ao contrário, pois, de responder, preferiu formular dois problemas para que o seu instrutor particular resolvesse e escreveu em seu caderno eletrônico de anotações, muito embora guardasse a certeza de que não se esqueceria das questões:
1.o) Que tipo de bloqueio mental impede a consulta imediata aos recursos memorizados? Por que acontece isso?
2.o) Quanto mais elevado o espírito, mais integrados estão os elementos que constituem o seu aparato psíquico? Um espírito de luz é uma biblioteca viva, como um computador de imediata conexão entre todos os arquivos para a elaboração das respostas aos problemas que lhe são apresentados? Existem problemas para ele?
Naquele exato instante, apareceu-lhe o mestre Jarbas e lhe deu as respostas de maneira sucinta e límpida:
— Caríssimo amigo, o poder de perguntar antecipa o poder de responder, mas isto não significa, exatamente, que haja interesse premente para a solução dos problemas que se levantam. Se é bem verdade que não se recordou das observações a serem extraídas das obras memorizadas, também me parece evidente que você estava tratando dos temas apenas no sentido acadêmico de quem pretende desvencilhar-se de incômoda matéria curricular. A pergunta a respeito do bloqueio de memória remeteu-o à contemplação de si mesmo e do controle que deve exercer sobre a personalidade. Por isso, apresentou a segunda questão relativa aos seres superiores. Como você quer que lhe passe tais informações, se eu mesmo não possuo conhecimentos suficientes? O que lhe posso asseverar é que, se você prosseguir estudando os assuntos em função de real aprendizado, ou seja, para assimilar os conceitos e aplicar sempre em todos os atos de vida, seu desenvolvimento irá receber influxos muito significativos quanto ao exame do que ocorre também entre os nossos semelhantes. Parabéns!



6. FERNANDO

Viúvo, como sabemos, há pouco mais de três meses, importava-se Fernando muito pouco com ir visitar a esposa no cemitério. Acompanhara o féretro e só. Depois disso, nem no dia de finados pôs os pés no campo-santo. Os irmãos repararam mas ele esquivou-se:
— Estou pronto para conversar com ela durante as reuniões espíritas. Vocês sabem que dirijo uma sessão com vários médiuns, toda terça-feira. Se ela quiser dignar-se aparecer, será muito bem-vinda, principalmente para instruir a respeito de como foi recebida no etéreo, diante do tanto de sofrimento que curtiu em sua pobre vida.
Se lhe pedissem, acrescentaria outros pensamentos igualmente solícitos, como fora bastante condescendente por ter comparecido à missa de sétimo dia. Entretanto, a sua base doutrinária era sabidamente rigorosa, desde há alguns anos, quando firmou para si o princípio de que melhor produziria espiritualmente no convívio com os colegas do centro.
Nos últimos três meses, todavia, talvez por não se ver forçado a nada dentro do lar, deu-se ao luxo de faltar algumas noites às atividades da casa de atendimento moral e material aos famintos de compreensão existencial e de gêneros alimentícios propriamente ditos.
Quando conheceu Cleomena, mais ainda desejou permanecer afastado das atividades evangélicas, que era como designava os trabalhos lá realizados, porque percebeu que facilmente se deixaria envolver pelos serôdios encantos da viúva. Aquele olhar que se demorava a afastar de sua pessoa traía o interesse por um congraçamento afetivo que, evidentemente, arrastaria a ambos para o enlace carnal.
Tais eram os pensamentos que desenvolveu, com plena consciência de que não poderia pintar mais realisticamente o quadro, para não provocar o afastamento dos benignos guias, que considerava seres do mais alto nível dentro da escala espírita, aos quais repugnariam as idéias da beligerância ou dos entreveros no campo dos prazeres materiais.
“Essa mulher apareceu para desdizer tudo o que sempre afirmei na vida a respeito da tirania feminina. Também, a minha pobre Jesualda se estafou com os seis partos...”
Parecia-lhe que as recordações iam ganhando tonalidades róseas, na lembrança saudosa da companheira de tantos momentos felizes e tristes. Colocar a outra em seu lugar, em casa e no coração, era atrevimento para o qual não se sentia suficientemente corajoso. Não lhe pesavam as opiniões dos filhos, da mesma forma que desconsiderou os palpites dos irmãos, mas havia uma retaguarda espírita, doutrinária, evangélica, moral...
Não acertava na configuração dos problemas que o inconsciente fazia aflorar para repelir o desejo de se consorciar em segundas núpcias. Não obstante, Cleomena estava tão à mão, tão ao jeito, tão fácil, que lhe parecia um desperdício de intenções ir muito fundo naquele relacionamento mal-e-mal intuído. Nos refolhos dos pensamentos mais íntimos, perpassavam-lhe os capítulos da responsabilidade e da poligamia.
“Essa idéia mundana de que as uniões se dão até que a morte os separe não deve prevalecer para a mentalidade dos espíritas convictos. Ninguém melhor que a gente sabe que os consórcios geram mútuas responsabilidades... Ou melhor, não são poucos os autores que afirmam que a morte não existe e que a vida no etéreo é mera continuação de tudo o que o casal realizou na Terra. Sendo assim me parece óbvio que um segundo casamento irá representar gravíssimo problema de bigamia.”
Lembrava-se de que, quando solteiro, mantivera relacionamentos passageiros com algumas damas não muito pudicas da sociedade, mas fugia de respeitar esses contatos físicos como causadores de vínculos mais sérios, mesmo porque aquelas mulheres também tiveram outros homens em suas vidas.
Nessa altura, buscava analisar a vida afetiva dos filhos, havendo dois que se engraçaram deveras por duas jovens com quem contraíram matrimônio mas que estavam separados legalmente, agora vivendo com outras parceiras. O mesmo valia para as desquitadas...
Pôs-se a imaginar como seria a recepção no etéreo daquelas celebridades cinematográficas que abusaram do direito oferecido pelas leis de se casarem muitas vezes, após rompimentos que geraram compromissos de pensões e de divisões de bens.
“Devo estar perdendo, realmente, a noção das coisas. E esses árabes que mantêm haréns ou casamentos múltiplos, porque a poligamia é institucionalizada? Será que o céu de Alá é diferente do céu de Jeová? Até parece que Salomão não tinha as célebres quatrocentas esposas...”
Fernando bateu com a mão na testa: havia despertado a memória para uma passagem do livro de André Luís, Nosso Lar, onde o próprio protagonista narra o encontro com uma pessoa com quem mantivera na juventude significativa união carnal.
“Se eu continuar pensando em termos de Espiritismo, deixando de lado as necessidades por que todos os seres encarnados normais passam, ainda assim posso sustentar a tese de que não terão sido poucos os espíritos que trocaram de posição na família, passando de marido a esposa, de filho a pai, de avô a irmão...”
Hesitou em imaginar que se pudessem unir os espíritos, em encarnações subseqüentes, cometendo incestos ideológicos.
Eram nove da noite. Se corresse, chegaria ao centro bem a tempo de receber um passe capaz de magnetizá-lo para pensamentos mais equilibrados.
Assim pensou, assim procedeu.
Chegou justamente quando o expositor terminava a prece de encerramento. Ali mesmo, junto à porta, estavam Cleomena e Assíria, sentadas na fileira encostada na parede.



7. JESUALDA

Quando Fernando informou a Cleomena que a esposa tinha problemas mentais, não disse tudo, evidentemente. Jesualda era uma pessoa doentia por natureza e, se foi capaz de gerar e de dar à luz a seis filhos, é que tinha a organização corpórea adequada à reprodução da espécie, tanto que seus filhos eram saudáveis e nunca tiveram graves problemas de adaptação ambiental.
Um bom cientista, analisando os diversos sistemas de seu aparelho material, talvez devesse chegar à conclusão de que foram as gestações que a sustentaram por mais tempo sobre a face da Terra.
Um teórico da doutrina espírita, por seu turno, poderia suspeitar de que, antes de cumprida a missão de trazer à vida alguns desafetos para o congraçamento afetivo e a superação dos males morais que havia causado a cada um deles em anteriores encarnações, não se deixaria abater.
Equivocava-se, pois, o viúvo na consideração de que Jesualda havia depauperado mental e fisicamente em virtude, como dizia ele, de seus partos.
Fomos coagidos a estas considerações pela necessidade de desfazer algum preconceito que se formava no espírito dos leitores. Seria o caso de pular os aspectos episódicos do entrelaçamento das vidas dos cônjuges para a reflexão concernente ao momento que vivenciava a mulher no etéreo, longe das lutas conscienciais de antigamente, reconfortada por dois parentes próximos que a assistiram durante a parte final de sua jornada na carne?
Digamos, então, que Jesualda não se importava mais com nada que pudesse estar ocorrendo ao ex-consorte. Não se amarrara sentimentalmente aos filhos e se deixara embalar, nos derradeiros anos, apenas pela contemplação plácida da deterioração do corpo, corroído por um câncer indolor que não fora diagnosticado pela Medicina.
Se estivermos a passar a idéia de certa euforia inconsciente pelo fato de haver vencido prova de longa duração e de forte intensidade, talvez incidamos em injustiça, mas a verdade é que Jesualda, durante os períodos de vegetação corpórea, estando o espírito livre para as observações de praxe de quem se vê no etéreo, se punha a conjecturar trabalhando tenazmente em prol das mulheres infelizes que não se deixaram seduzir pela maternidade, obstando, desde a formação de seu próprio aparato material, a constituição de harmoniosa configuração orgânica para tal objetivo. E nisso encontrava enorme felicidade.
Três meses lhe foram suficientes para readquirir a noção de si mesma e de seus problemas, recebendo o influxo agradável das informações dos guias dedicados quanto a ter desempenhado muito a contento a sua peregrinação terrena.
Eis o diálogo que decidiu de sua próxima programação:
— Meu queridíssimo avô Gregório e minha amantíssima vovó Celestiana, eis-me preparada para as tarefas que houverem por bem determinar-me. Vocês sabem quais são as minhas pretensões e devem estar cientes de que me encherei de alegria se me proporcionarem oportuna ocasião para exercer meus conhecimentos de socorrista na área da influência telepática ou da inspiração direta sobre os espíritos das mulheres avessas ao cumprimento de sua mais gloriosa função vital.
Os avós se entreolharam, como a considerar quem falaria com maior autoridade, decidindo que seria Celestiana a única a se manifestar, resguardando-se Gregório para a sustentação fluídica do magnetismo ainda necessário para que Jesualda se mantivesse plenamente ativa quanto ao entendimento de tudo quanto se lhe diria, tendo em vista o tempo que passou em vida afastada da lógica dos pensamentos práticos.
Disse-lhe a avó:
— Você está recordada do quanto esteve ranzinza nos últimos anos, desconsiderando o fator da moléstia que a roía?
Ia responder a interpelada, mas um gesto da outra indicou que a pergunta era meramente formal. Prosseguiu, pois, Celestiana:
— Inconsciente dos dramas familiares que provocou, a verdade é que Fernando se viu como que expulso do lar, porque não conseguia entabular conversação com a mulher. Você era dona de casa e produzia os serviços domésticos como um autômato, tendo a certeza íntima de que o fazia por um curto espaço de tempo. Mas não possuía mais nenhum elo com o mundo exterior, tanto que as noras, quando iam visitá-los, por insistência dos maridos, tinham de refazer muito do que você pensava haver realizado com proficiência. Bem sei que você nem irá recordar-se da secretária do lar que Fernando colocou mais para corrigir o que você fazia de errado do que, propriamente, para executar os trabalhos de cozinhar, de limpar, de lavar etc. Comente a respeito, por favor.
Jesualda não pensava que havia qualquer gravidade naqueles acontecimentos que protagonizara, porque não assumia a responsabilidade de tê-los provocado conscientemente, por maldade ou por negligência. Ao contrário, supunha que, mesmo que suas atividades não se coadunassem com o que se espera de uma dona de casa, não poderia se acusada de desleixo ou de incúria. Mas não pronunciou palavra, buscando transferir para a avó, através da força dos pensamentos, que achava necessário observar na tela do passado, ainda que de maneira muito rápida, esses anos a que se referia a mentora.
Não foi preciso ativar a parafernália eletrônica da colônia. Bastou que Gregório pousasse a mão sobre a cabeça da neta para que ela revivesse os fatos aludidos, restaurando, pela nova visão dos acontecimentos, a presença da empregada que a seguira como uma sombra e a quem não dera sequer atenção. Foi aí que percebeu que havia também uma enfermeira e que fora internada num hospital, nos derradeiros seis meses.
Nada disso, entretanto, impressionou Celestiana, que preferiu sentir em passado mais longínquo o aprendizado cultural de que dava mostras a querida pupila, porque o vocabulário dela, as expressões e a delicadeza das construções sintáticas alheias às formulações meramente telepáticas, tinham o cunho da civilidade de quem se acostumara ao trato social das camadas mais educadas e requintadas.
Tais lucubrações, todavia, não foram pressentidas pela neta, que se espantava muito com o fato de haver perdido a noção da realidade por tanto tempo.
Essa imersão de cada qual em seus pensamentos durou nada menos do que quinze dias, se contadas as horas pelo relógio dos encarnados. É verdade que Celestiana pôde confabular com Gregório, havendo ambos entrado em contato com seus mentores na instituição. Mas Jesualda não percebeu tais atividades, como se permanecesse alheia ao que ao derredor estava acontecendo, como lá na Terra.
Quando acordou, digamos assim, ouviu da instrutora a seguinte recomendação:
— Você, antes de ser integralmente atendida em sua justa pretensão de auxiliar as mulheres em vias de rejeitar os filhos, irá dar assistência a uma pessoa que passou pelo problema da esterilidade forjada pela rejeição intuitiva e conseqüente desarranjo físico. Concorda com isso, sem condições, após saber que o problema irá envolver o seu viúvo?
— Tenho escolha?
— A misericórdia divina é infinita, de modo que você poderá dedicar-se a outras tarefas meritórias. Esta terá o acréscimo do envolvimento emocional, para que você possa vencer alguns pruridos de egoísmo e de prepotência. Com o desenvolvimento dos trabalhos e a competente análise que fará de suas reações em todo o seu espectro moral ou existencial (o que é a mesma coisa, conforme irá aprender no decorrer do processo de assistência a que estará presa), você adquirirá a certeza de seus defeitos e a satisfação de poder conceber, com maior precisão cármica, qual a melhor forma de corrigi-los.
Foi assim que Jesualda se integrou ao pequeno grupo de protetores que assistiam aos projetos de vida de Cleomena e, por via de conseqüência, de Fernando, sendo reaproximada dos filhos e dos netos, a quem não estava dando muita importância.



8. CONSIDERAÇÕES OPORTUNAS

Gostaríamos de atender aos subjetivos apelos dos irmãos encarnados quando nos pedem que esclareçamos quais acontecimentos incidem mais decisivamente sobre a ação, de sorte que a narrativa ganhe fluência, elegância e certo toque de fino humor, não tanto no sentido de fazer graça, mas no de proporcionar estado de êxtase literário recheado de prazer espiritual.
O nosso enredo está entrecortado de cogitações doutrinárias, ou seja, de como os conceitos espíritas repercutem no seio intelectual dos encarnados e dos desencarnados e de como se ajustam, mais ou menos automaticamente, às necessidades decorrentes do interesse em se cumprirem os artigos do códice universal, o que nos conduz irresistivelmente a compartilhar do melodrama íntimo que todo ser vivencia, porque imperfeito e consciente disso.
É nesse ponto nevrálgico que a obra da fantasia se aproxima perigosamente da identificação com o autor (autores, no nosso caso), porque tendemos a prestar mais atenção a tudo quanto mantém contato com os pungentes exercícios de melhoria que efetuamos no decorrer das lucubrações a que somos forçados, para pôr em movimento esta engrenagem mais ou menos artística, mais ou menos filosófica, mais ou menos científica, muito religiosa e profundamente moral, que pretendemos apresentar aos olhos dos mortais como algo de importância no campo de nossa realidade.
Se Fernando, por exemplo, não tivesse um bom pé-de-meia, se dependesse financeiramente dos filhos, se se preocupasse excessivamente com a luta pela sobrevivência, se não possuísse uma saúde de ferro, se não mantivesse procedimento pautado pela morigeração dos hábitos sociais, seria possível aquela espécie de raciocínio sentimentalizado em relação aos encantos que conseguia observar na viúva Cleomena? Por outra, se ele estivesse fundamentalmente ligado por vínculos amorosos trágicos a Jesualda, não seria de esperar que estivesse transitando por período de depressão psíquica, a ponto de nem notar a existência de seres do sexo oposto?
Quanto a Jesualda, se não tivesse passado tanto tempo perturbada no plano material, como é que iríamos justificar que, em sendo mais de vinte anos mais nova que o marido, tivesse partido sem mágoa, por deixar avulso um homem de caráter impoluto, de moral elevada e de responsabilidade a toda prova? E se não se interessasse por propiciar o advento na carne das criaturas necessitadas de oportunidades para crescer em virtudes, não é fato que teríamos de afastá-la do serviço de acompanhamento da futura esposa de Fernando?
Se Cleomena não suspeitasse da presença constante na indefectível poltrona de seu finado, reminiscência que se aviventava a partir de determinadas horas coincidentes com a abertura dos trabalhos no centro espírita, como iríamos justificar o fato de que mulher tão caseira se predispusesse a tomar o rumo da casa de confraternização espiritual, aceitando a companhia da irmã, mulher realizada no casamento, com filhos lindos e marido ainda no pleno vigor da casa dos sessenta?
Finalmente, se não déssemos um toque de coerência entre os ensinos espíritas que Estanislau não conseguiu absorver na íntegra e o desafio improcedente ao acaso, congeminando os fatores da personalidade para a eclosão suicida, como é que iríamos aproximar as demais personagens de nossa história? Não é verdade que, se Lalau tivesse sido vítima de assaltantes, por exemplo, iria desempenhar papel fortemente alheio ao centro nervoso de nossa trama? Do jeito que está na berlinda, vai ficar impedido, por algum tempo, de influir na vida passional da consorte, abrindo a esta a possibilidade de enfrentar o fantasma apenas como aparição psicológica facilmente detectável pela psicanálise, não fora a inteira condição dos médiuns de receberem as informações precisas a respeito do ânimo em que se encontrará no momento em que as personagens principais se estimularem à consulta do etéreo para confirmação dos intentos matrimoniais.
O que fica meio esquerda neste entrelaçamento de interesses é a presença de um mestre e de seu discípulo, a refletirem sobre teses que não dizem respeito diretamente aos problemas suscitados pelas almas envolvidas pelo denso mundo carnal. No entanto, os entrechos em que aparecerem conduzirão os leitores para mais amplos horizontes existenciais, sendo o fulcro por excelência dos tópicos que precisamos assimilar em nossa jornada ascendente. Se bem que as respostas definitivas venham a assemelhar-se muito com as ponderações de Jarbas marcando para Firmino os limites de sua capacidade, de seu discernimento e de seu saber, talvez das sugestões possam decorrer meditações preciosas, mais ainda se acompanhadas de eficiente pesquisa bibliográfica nas obras da codificação espírita e nas mais expressivas que se seguiram, no campo específico da teoria, em todos os seus aspectos.
Pretendemos enlaçar as personagens sob a resplandecência dos conhecimentos ali contidos. Por isso, furtamo-nos ao dever de citar cada obra, particularizando-lhes os domínios temáticos e o rigor com que tratam os sentimentos humanos de quantos se deixam embalar por essas saudáveis e proveitosas leituras. Somos obrigados, porém, a colocar, desde logo, o nosso casal romântico diante das páginas sacrossantas de O Evangelho Segundo o Espiritismo, para o seu estudo semanal reservado, o chamado Evangelho no Lar, que todo sábado passou a ser realizado na casa de Cleomena, por proposta de Assíria, que se comprometeu a estar presente às reuniões, acompanhada de amigas dotadas de fértil mediunidade, para possível contato espiritual com Estanislau, caso se confirmasse a sua freqüência ao ambiente em que viveu por largos anos.
Percebam, amigos, que, tendo resolvido ir mais longe em nossos intentos melodramáticos, o episódio que se seguiu ao encontro de Fernando com Cleomena, no fundo do salão de conferências do Centro Espírita “Amor, Luz e Caridade”, propiciaria apenas um diálogo de meias-tintas, com claríssimo mas diminuto efeito para o desenvolvimento da intriga.



9. O COMEÇO DA PRIMEIRA REUNIÃO

Pelo que dispusemos no capítulo anterior, muitas sessões de estudos e de preces iriam realizar-se antes do desfecho deste enredo. No entanto, ficou assinalado na folhinha dos acontecimentos o dia em que, pela primeira vez, se deu o Evangelho no Lar, num sábado maravilhoso, à tarde, depois de um almoço bastante frugal patrocinado pela dona da casa, com vistas, naturalmente, ao necessário equilíbrio das forças materiais, para que as pessoas não se vissem empolgadas por fluidos deletérios, como ocorreria caso tomassem refeição em que os produtos animais e as bebidas alcoólicas se destacassem.
Cleomena cozinhava bem mas Assíria era perita nos condimentos, de modo que transformou simples salada em excelso acepipe, para a qual não faltaram o toque delicado dos aspargos na manteiga e a guarnição de arroz com legumes, acompanhada de coalhada seca regada a azeite virgem. Beberam suco de acerola gelado, preparado com água gaseificada, encerrando com sobremesa composta de figos e pêssegos frescos com creme chantilly.
Aprestou-se Cleomena a passar um cafezinho mas, por recomendação da irmã, foi deixado para depois do término da reunião, que se iniciaria exatamente às três horas.
Participaram com enorme alegria do repasto, Fernando, José, marido de Assíria, e os filhos Rodolfo e Guilherme com as respectivas esposas, convidados de última hora, porque apareceram sem se anunciarem.
Pouco antes do evento, chegariam duas senhoras conhecidas do centro espírita, que se disporiam, na qualidade de médiuns, uma escrevente, outra vidente, a auxiliarem no contato com a espiritualidade, o qual se prenunciava promissor pelos cuidados dos preparativos e pelo recolhimento espiritual a que se obrigaram todos, debatendo, com respeito e harmonia, apenas temas de elevada moralidade.
Realmente, ia acesa a conversa em torno dos méritos das pessoas que se dedicam a fazer o bem ao próximo, entre os varões, enquanto na cozinha as damas, pondo ordem na baixela e demais petrechos, trocavam impressões a respeito das crenças e das religiões e a necessidade de se condicionar a fé ao respaldo de rígido controle racional, quando chegaram Maria do Rosário e Dolores, as médiuns, as quais como que estancaram as manifestações espontâneas dos presentes, num silente apelo à concentração mental nos objetivos da reunião.
Foi nesse ambiente de calma e respeito pelos irmãos do plano superior que se colocaram ao redor da mesa da sala, devidamente coberta por alva toalha de linho. Além da pilha de Evangelhos de Kardec, vários outros autores também se arregimentaram para a eventualidade das consultas. Foi retirado o vaso que agasalhava os ramalhetes de coloridas flores trazidos por Fernando e por José, tendo sido disposta em seu lugar grande jarra transparente, cheia de água, ao lado da qual se alinharam pequenos copos descartáveis.
O dia estava límpido e as cortinas de tule apenas permitiam que a claridade fosse ligeiramente atenuada.
Assumiu a cabeceira o nosso doutrinador oficial, o velho Fernando, que, naquele momento, tornava as cãs que lhe emolduravam o semblante o símbolo da seriedade e da experiência no trato com as entidades do etéreo.
— Prezados amigos, irmãs e irmãos, carinhosos guias aqui presentes, permitam que realizemos uma sessão de estudos, assistindo e sendo assistidos, com inteligência e boa vontade, abrindo o coração e a mente para recebermos as informações mais de acordo com a nossa precisão. Votamos este dia ao encontro com os seres que possam orientar-nos em nossos íntimos anseios de perfeição, o que nos obriga a curvar-nos perante a magnificência das luzes que emanam dos textos reunidos por Allan Kardec, em nome do Espírito de Verdade, o enviado de Jesus, nosso mestre e amigo de todas as horas. Estando conosco duas companheiras habilitadas ao recebimento de mensagens do além, se for de seu interesse, sob a permissão das entidades de luz que nos amparam, solicito que nos facultem as lições mais importantes para o nosso atual estágio evolutivo. Muito especialmente, rogo, em nome dos irmãos aqui reunidos, que nos informem o paradeiro de nossos familiares recentemente transferidos para o mundo espiritual; e se podemos oferecer a eles o lenitivo de nossas preces, caso delas estejam necessitados. Rogo, ainda, por toda a humanidade sofredora, que se vê envolvida nos dramas que a miséria patrocina, tornando os resgates dos débitos mais dificultoso e dolorido. Queiram confraternizar-se conosco através de silencioso pai-nosso, que se evolará de nossos corações em busca da paz que nos abrirá as portas para o sagrado recinto dos conhecimentos doutrinários. Graças a Deus!
Após alguns minutos de silêncio, prosseguiu:
— Como esta é a nossa primeira sessão, o conteúdo moral deve prevalecer nas observações e apartes que cada um deseje fazer. Futuramente, mais afeitos aos trabalhos, poderemos estender os comentários para os aspectos filosóficos, científicos e religiosos do Espiritismo. Recomendo que cada um leia um trecho do capítulo primeiro, sem interrupções, para depois ser dada a palavra para perguntas ou o que for de interesse de cada um. Quanto à minha forma solene de conduzir a reunião, vocês, com o tempo, irão perceber que está conforme aos preceitos estabelecidos por Kardec, em seus diferentes escritos. Eu passo a ler o prefácio, que, segundo a nota do Codificador, “... resume ao mesmo tempo o verdadeiro caráter do Espiritismo e o objetivo desta obra.”
Com voz pausada de pregador, efetuou a leitura, ao cabo da qual, de imediato, foi dando andamento à pauta:
— Quem quer ser o primeiro a ler? Vamos honrar a anfitriã? Por favor, Dona Cleomena...
— Objetivo desta obra.
Fernando, com um gesto e um pigarro, chamou a atenção da leitora e dispôs:
— Vamos pular a Introdução, que eu recomendo que seja lida em particular, e passar para o capítulo inicial: Não vim destruir a lei. Como sempre, Kardec principia através de uma citação das palavras e dos feitos de Jesus, o que será uma bênção para a nossa pequena assembléia.
Cleomena e todos os outros folhearam os seus exemplares, permanecendo do Rosário e Dolores cabisbaixas, como quem pleiteia das forças sobrenaturais a fenda por onde penetrar no mistério.
A viúva de Lalau recomeçou:
— “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para dar-lhes cumprimento. Porque em verdade vos digo que o céu e a terra não passarão, até que não se cumpra tudo quanto está na lei, até o último jota e o último ponto. (Mateus, V: 17 e 18.)”
Fernando fustigou o auditório:
— Que lição Jesus está nos ensinando?



10. NO PLANO ESPIRITUAL

Durante a reunião, congregaram-se em torno dos humanos muitas entidades com variados interesses para o ensino e o aprendizado das realizações, com vistas a uma produção também mediúnica, embora essencialmente formativa doutrinária.
Dentre outros, portanto, lá se encontravam, na qualidade de observadores, os nossos conhecidos Jarbas e Firmino. Fora por solicitação do mestre que o discípulo teve de ir cumprir tarefa de seu manifesto agrado.
Concentremos, por enquanto, nossa atenção na palestra dos dois, no intuito de transmitir algumas noções específicas importantes para quem está a estudar a existência encarnada, segundo prisma destituído de considerações meramente transitórias.
Requeria Firmino:
— Professor, por favor, explique-me, em termos simples, a razão por que estas pessoas, encontrando-se materialmente felizes, já que têm tudo o que desejam, satisfazendo-se plenamente com seus físicos, suas famílias e suas posses, sendo capazes de realizar uma reunião em torno da mesa de alimentos com a consciência tranqüila, sabendo que vêm cumprindo as obrigações comunitárias a contento, ainda se dão ao trabalho da pesquisa dos conceitos espíritas, para o que precisam superar vários fatores determinantes de suas restrições orgânicas e psíquicas.
— Você quer saber se todos estão verdadeiramente voltados para o aprendizado, embora pareçam compreender, de maneira sadia, o que devem realizar na vida para ganharem os sacratíssimos pontos evolutivos, assim que se despedirem do corpo material?
— Mais ou menos isso. Sei que há o concurso do momento de paz em confronto com o conhecimento que todo ser racional possui do depauperamento físico e sei também que a pressão biológica tende a se constituir em significativa barreira às expectativas de plenitude do prazer até o final da vida. Não seria o caso, todavia, de eles considerarem o vigor intelectual para aplicá-lo em função da concretização daqueles desejos que subsistem imersos nos escombros milenares da cultura?
— Você deseja conhecer os meios mais adequados para que aflorem à tona do consciente os pensamentos e sentimentos em formação ainda, apesar de completamente formulados no plano mais profundo da personalidade, o chamado inconsciente?
— Não me expressei com inteira harmonia, porque eu mesmo considero a minha postura diante dos problemas por demais acadêmica, conforme constantemente o mestre me tem prevenido. Tomando o meu próprio exemplo, não deveria interrogar o querido preceptor no sentido de esclarecer-me o porquê de eu estar dando excessivo valor a determinados elementos constituintes de mínimo instante corpóreo, para transformá-lo em apanhado vital de amplo espectro, fundindo num só raciocínio causas e efeitos que exigem se encadeiem naturalmente, no âmbito mental?
— Digamos que você está frente a frente com o seu instrutor, com o rol de atividades curriculares no bolso, com o cronograma de estudos estabelecido, enquanto os mortais se dispõem a consultar forças estranhas ao cotidiano de seus contatos pessoais, crentes de que haurirão benefícios que se mesclarão às virtudes que percebem integradas às suas personalidades, aumentando o cabedal de conhecimentos para o enfrentar das situações carnais que intuem como possíveis, dada a sua experiência comum entre os semelhantes. Está você desejoso de se instruir em relação às personagens reunidas para inferir que, repetidas as mesmas circunstâncias, por exemplo, em sua futura encarnação, não incida nos mesmos erros ou se aproveite dos acertos deles?
— Espero que a resposta coincida com as minhas deduções preliminares, já que estou percebendo que o nosso diálogo tem como mérito principal o instigar de minha atenção para os fatos que estou presenciando e não para retalhos dos acontecimentos memorizados que me entretiveram, até pouco tempo atrás, em minhas correrias pela escuridão do Umbral.
— Louvo-lhe a perspicácia e acrescento que esta manhã dos parentes e amigos de Cleomena, se adentrarmos afoitamente no âmbito das percepções sensórias e das reflexões que realizam como reação ao contexto existencial em que se viram imersos, vai revelar-nos alguns problemas que não se exteriorizam e que também não se resolvem pelo simples influxo da paz do ambiente. Se alguns, por exemplo, aceitam como de inefável espiritualidade a continência gastronômica, outros estarão lamentando terem escolhido este dia para a visita mais ou menos protocolar aos pais e sogros. Não se manifestam diretamente porque suspeitam de que, por baixo das ondas do mar, existe um ponto mais profundo em que as águas permanecem estáveis, propícias para a vida de muitos animais marinhos. Como haviam decidido, porém, propiciar aos velhos a felicidade de suas presenças, condicionaram-se a passar aquelas mesmas horas de maneira contrária às expectativas.
— Nesse caso, foram tangidos para a reunião pelos protetores, que vemos regozijando-se com a oportunidade da apreciação dos valores espíritas que serão postos à baila. Isto me parece evidente.
— Está você satisfeito com as explicações a respeito dos lucros espirituais advindos das atividades humanas em torno de interesses e necessidades corpóreas, quando existe o intento de melhorar-se espiritualmente?
— A bem da verdade, vou levar comigo algumas dúvidas e intuições que não fui capaz de externar de forma organizada e categórica. Como sei que o saber flui constantemente para dentro dos seres, contentar-me-ei com a situação atual de meu intelecto. Apenas gostaria de saber a razão de estarem aqui tantas entidades, se a reunião se prenuncia como deveras simplória por causa da imaturidade doutrinária de quase todos os mortais presentes.
— Confirmam-se as palavras do Espírito de Verdade que acabamos de ouvir, ou seja, que “os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta, ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da terra”.
— Entendi, mas será que algum dos encarnados irá perceber que o texto se refere também a eles mesmos?
— Preste atenção no procedimento de Fernando durante as discussões que provocou a respeito das palavras de Jesus.
— Não seria o caso de me fazer capaz de ler-lhe os pensamentos?
— Essa faculdade você irá adquirir quando suportar as descargas emocionais dos encarnados, verdadeiras concentrações elétricas e magnéticas capazes de desequilibrar-lhe as energias fluídicas, as quais você mal mantém sob controle.
Naquele momento, Fernando passava a palavra a Assíria.



11. A DESCOBERTA DO TEXTO

— Você quer que eu fale como espírita ou como mãe?
Assíria, diante dos filhos, queria demonstrar que não era vão o estudo dos textos sagrados da doutrina.
Fernando esclareceu:
— Ponha todo o seu coração na resposta, sem inventar histórias fictícias. Fale como mãe, em primeiro lugar, mas não se esqueça de que os conhecimentos evangélicos são essenciais para quem quer aplicar-se à ciência ditada pelos espíritos, conforme o texto d’O Espírito de Verdade, que lemos há pouco.
— Pois bem, Kardec não escolheu ao léu essa primeira citação extraída de Mateus. Jesus pretendia que os filhos de sua raça fizessem como ele mesmo estava fazendo, ou seja, respeitando os ditames das leis de Deus, que ele afirmava que vinha cumprir até o último ponto. Na qualidade de mãe e de sogra, eu também gostaria de ver os seres que me devem respeito filial atendendo às solicitações estabelecidas no Decálogo de Moisés, que vamos ler daqui a pouco, especialmente no que se refere ao mandamento que pede aos filhos que honrem o pai e a mãe. Estou dizendo isso apenas para poder afirmar que meus queridos e sua esposas são obedientes e sempre me deram as maiores alegrias do mundo. Agora, vou falar a respeito de alguma coisa maior do que esse simples respeito, porque eu acho que Jesus, se estava cumprindo as leis, também estava acusando os fariseus e os doutores da lei de não cumprirem, senão não haveria razão para que viesse, espírito de tanta luminosidade, trazer novos ensinamentos. A mesma observação serve para Kardec, uma vez que, de cara, avalia as palavras de Jesus, querendo dizer que as pessoas devem seguir em paz e ordem os regulamentos e diretrizes da doutrina que estava codificando, para obterem o progresso possível durante uma encarnação de proveito para o espírito. No entanto, também Kardec trazia novidades muito fortes em relação aos postulados da igreja católica e mesmo da protestante, que eram as herdeiras das lições do cristianismo. Quando eu quis ressaltar a minha função de mãe e da função de pai do José, era para que Rodolfo e Guilherme não destacassem o que Jesus e Kardec representaram para as velhas idéias e me viessem com sugestões de reformas dos meus velhos hábitos matriarcais.
Angélica e Elisa, as noras de Assíria, olhavam a senhora com olhos muito grandes, embasbacadas com a sua fluência verbal, mas Fernando buscou pôr uma toalha fria nas testas que escaldavam de febre:
— Os mais jovens não se deixem impressionar com a facilidade de expressão da nossa confreira. Podem ter a certeza de duas coisas: primeiro, ela sabia que nós íamos estudar este texto e se preparou convenientemente para expor alguns pensamentos enxutos e provocativos; segundo, facultou a seu guia particular ou a algum espírito benfeitor que ocupasse parcialmente a sua mente, de forma que lhe ajudasse a falar algo importante para este nosso começo de estudo. Eu acho que a admiração que provocou pode virar contra esta nossa atividade e afastar os mais acanhados ou os menos hábeis em se manifestar oralmente, de modo que, no próximo sábado, estaremos aqui apenas eu, Cleomena, Assíria e José, este arrastado pelos candentes argumentos da loquaz consorte.
Fernando fez menção de prosseguir, mas Guilherme atalhou-lhe a manifestação:
— Concordo plenamente com os dois. Acho que Jesus e Kardec tinham muito mais a oferecer do que simples cumprimento das obrigações determinadas pelos antigos, principalmente porque as origens do judaísmo como as do cristianismo estavam, segundo as épocas em que eles viveram, conspurcadas pelos indignos representantes dos movimentos religiosos das respectivas civilizações. Também suspeito, com o nosso orientador emérito, nosso amigo Fernando, que muita gente poderia sair correndo deste tipo de reunião em que os intelectos sobressaem para as exposições menos vulgares de quem se apruma sobre uma cultura ou erudição mais vasta e consistente. Mas não podemos olvidar o fato de estarmos solicitando a presença dos espíritos superiores, as entidades que descem dos círculos mais elevados, impregnadas de forte luz pelo seu desempenho evangelizado, em nome do Senhor. Este fato nos conduz, inexoravelmente, a respeitar não apenas os preceitos da civilidade, como ainda nos obriga a sermos absolutamente íntegros perante a nossa própria capacidade, sendo honestos a mais não poder, porque foi assim que o Pai nos criou e é para níveis mais evoluídos que a doutrina espírita nos convida. Quanto a mim, se Elisa não me pedir o contrário, por razões ponderáveis e oportunas, prometo que voltarei quantas vezes o grupo se reunir, porque estou habituado, desde criança, a freqüentar este tipo de reunião, com a sabedoria humilde de quem deseja aprender cada vez mais. Antes que Fernando nos peça para lermos mais um trecho, quero ouvir il mio fratello, Rodolfinho, porque tenho a certeza que terá algo mais a acrescentar de importante, ao menos para demonstrar que também ele será capaz de não deslustrar a mui refinada sociedade que aqui se reuniu. Se não for muito, quero que analise a minha participação, enaltecendo o mesmo rumo de seriedade dado por mamãe em sua manifestação inicial, eliminando de vez qualquer subjacente intuição que as pessoas e os espíritos aqui reunidos possam extrair de minha contribuição, no sentido de ver nestas palavras sentimentos menos nobres, como algum ranço de ironia ou de melíflua e deselegante agressividade em relação aos que detenham escolaridade não tão apurada.
Rodolfo não se fez de rogado:
— Está claro que Fernando nos provocou um voto de obediência e de reiteração dos fervores doutrinários de que estamos prenhes desde crianças, quando ingressamos no movimento espírita através de um grupo de moços entusiastas quanto a estudar nas obras da codificação e a trabalhar em favor dos semelhantes, lá no templo-escola em que se constitui o centro. Interpretando o pensamento de minha querida Angélica, posso afirmar que iremos transferir para o sábado o estudo que, desde que nos conhecemos, ainda quando namorávamos, toda segunda-feira, sem uma única falha, vimos realizando. Quero fazer um reparo às palavras de nosso mestre Fernando, quando mencionou a possibilidade de mamãe estar recebendo amparo do plano espiritual, traduzindo, se não uma mensagem diretamente apanhada de seu benfeitor particular, ao menos uma inspiração mediúnica. É que de longa data tenho recebido informações quanto a não dar passividade para o contato com os espíritos neste tipo de reunião informal, porque, segundo sei, caso o mensageiro esteja em condições superiores, ou não teria oportunidade de desenvolver todo o seu pensamento, numa composição digna dele e de seus pares, ou obstaria a livre discussão entre os encarnados, impedindo que as idéias se expusessem com as suas incorreções e falhas, para a oportunidade das correções. No entanto, encontrei as irmãs Rosário e Dolores convidadas para a tarefa que reputava eu prejudicial, o que desqualifica o ponto de vista que trazia comigo, porque as demais pessoas reunidas podem, independentemente dos produtos mediúnicos por elas captados, desenvolver seus pontos de vista, realizando um estudo do Evangelho nos moldes antigos. Caso não tenha sido preciso em minha cooperação, peço que me desculpem e insistam comigo para melhorar o meu desempenho, que outro não é o fito de cada um de nós, sempre voltados para a elucidação de todos os pontos em que assestarmos a nossa atenção. Sendo assim e pelo modelo de minha elaboração lingüística, todos poderão concluir que não estamos aqui para as brincadeiras de quem, em sendo apaniguado por inteligência menos comum, não justificaria qualquer crítica pejorativa.
José estava impaciente para falar. Fernando notou e lhe passou a vez, com uma condição:
— Reduza para duas palavras apenas, por favor, senão a nossa leitura vai ficar em absoluto segundo plano, quando o nosso trabalho doutrinário, pela nossa intenção maior, deve concentrar-se em torno dos dizeres de Jesus eleitos e anotados por Kardec.
José pigarreou, fez um gesto que havia entendido o recado e se manifestou:
— Muito bem!
O gracejo animou o povo que estava embevecido e várias conversas cruzaram o ambiente, dando um tom menos solene à reunião.
Fernando voltou a assumir o posto de coordenador:
— Normalmente, coloco as pessoas bem à vontade para falarem no momento em que se sintam dispostas, sem forçar a participação de ninguém. No entanto, é preciso que todos compreendam como estão reagindo os parceiros em relação ao andamento dos trabalhos. Em nome, pois, do meu regulamento pessoal, intimo Cleomena que exprima o que lhe vai na alma e comente o que viemos fazendo até aqui.
Chamada a colaborar, Cleomena não se acanhou:
— Estou muito bem e muito admirada de que tantas idéias ocorram nas mentes dos meus sobrinhos, da minha irmã, do confrade dirigente da sessão e também que meu cunhado se exprima com tanta elegância, clareza, versatilidade e bom humor. Mas não vou resumir tanto quanto ele o meu discurso improvisado (ao contrário daquele da minha cara sorella), porque me sinto inspirada pelas forças do alto para dizer-lhes que pretendo ferir o meu egoísmo de tantos anos, sempre presa no lar, cuidando da casa e do meu ex com o máximo de desvelos que podia. Vou ser bem sincera e abrir o meu coração, para dizer que estou com muita inveja de minha irmã pelas maravilhosas criaturas que colocou no mundo. Infelizmente, não pude gerar em meu ventre nenhum filho, para profundo pesar do Lalau, que Deus o tenha em sua glória. Quero também dizer que entendi o objetivo da presença das duas amigas do centro, porque cá estão para receberem, se possível, informações seguras de como se encontram os nossos entes recentemente transferidos para o etéreo, que é como aprendi a dizer lá no centro. Atendendo à questão inicial a respeito das palavras de Jesus, devo ressaltar que, quanto à maternidade, segundo o que tenho sido ensinada pelo Espiritismo, vou cumprir, como aqui se registra, “tudo quanto está na lei, até o último jota e o último ponto, porque em verdade vos digo que o céu e a terra não passarão” antes que eu me proponha a reencarnar, com mais saúde e felicidade espiritual.
Queria prosseguir, mas a emoção agarrou-a pela franja da saia e obrigou-a a ajoelhar-se perante o Criador, agradecida, rogando e enaltecendo o poder divino que dava a ela, humilde e inexpressiva criatura, superior entendimento da existência.
A assembléia ficaria mais de cinco minutos em silêncio para refazimento da conturbação afetiva.



12. DE VOLTA AO ETÉREO

Todos aqueles discursos desagradaram ao novato discípulo de Jarbas. Esquecido de que deveria mais prestar atenção do que externar opiniões, manifestou-se Firmino ex-abrupto:
— Meu mestre querido, essas pessoas estão fora da realidade. Será que estão pensando estar numa conferência com espíritos de escol provindos das regiões da bem-aventurança eterna? Acredito que tenham facilidade mental e que estejam empolgadas com os pensamentos que correm céleres por seus cérebros privilegiados, mas deveriam ao menos suspeitar de que os seus guias e protetores não podem situar-se em tão elevado patamar da escala espírita, conforme com certeza tiveram conhecimento, porque vejo neles bons leitores das obras de Kardec. Não seria melhor propiciar-lhes uma visão momentânea do que se passa neste nosso ambiente, para que possam verificar que não precisam ser tão solenes, com o fito de promoverem relacionamento mais afetuoso e pessoal entre nós todos?
— Você está propondo um serviço a ser prestado ou o seu comentário é apenas acadêmico?
— A minha pergunta é realista. A não ser que eu mesmo não esteja percebendo a presença de seres de mais alta categoria, porque conheço muito bem as minhas limitações.
— Agora você deu um passo mais à frente. Na realidade, a freqüência onde atua o povo mais evoluído não é perceptível por nós, meros servidores braçais, às voltas com os primeiros problemas da espiritualidade. No entanto, se tivermos paciência e se soubermos interrogar os mentores, poderão eles demonstrar se estão acompanhando o desenrolar dos estudos, para dar força aos que têm boa vontade para que atentem para novos aspectos das lições que se encontram nos textos sobre que estão debruçados. Os dois irmãos fizeram questão de denunciar o seu conhecimento de que não devem ser pernósticos ou enfatuados nos comentários ou na formulação deles. Está acreditando você que eles estejam sendo honestos ou julga tudo não passar de mero malabarismo silogístico, para impressionarem os companheiros de mesa e os espíritos que sabem acompanhando a reunião? Perceba que lhe estou fazendo uma pergunta apropriada mais para o seu sentir do que para o seu pressupor.
— Jarbas querido, tenho para comigo que a leitura da aura dos encarnados sempre é possível de realizar-se, caso emitam ondas de baixa freqüência. Não estaria eu em condições de analisar os espectros de grande amplitude, se me deparasse com indivíduos de melhor condição moral. No caso dos irmãos, afirmo que falam a verdade, pois suas vibrações ultrapassam a minha capacidade de absorção. Para ser prático, diria que, uma vez despertos para a realidade espiritual, irão postar-se de imediato em degrau acima do meu. Mas não me referi à condição superior deles. Critiquei, espero que com amenidade, o fato de estarem a gastar vela de excelente qualidade com maus defuntos, propriamente falando.
— Meu caríssimo Firmino, façamos o seguinte: vamos voltar-nos para a observação das entidades presentes. Descreva-as para mim, buscando caracterizá-las no sentido do proveito que podem estar extraindo dos sentimentos e dos processos intelectuais postos em atividade pelos encarnados.
— Vejo diversos professores com seus respectivos alunos. Posso divisar várias linhas de aplicação didática sobre o que se realiza em torno do estudo que se pretende evangélico, muito embora as pessoas se identifiquem com os problemas levantados e se esqueçam um pouco de generalizar os ensinos. Há também alguns socorristas enérgicos, que mantêm espíritos zombeteiros sob controle, para que aprendam a respeitar os esforços alheios, de sorte que estão a lhes passar a lição saudável de que nem tudo é brincadeira na existência e que seres há que progridem, aspirando à felicidade de se tornarem mais equilibrados e cônscios de responsabilidades mais amplas. Noto a presença de uma irmã que atua junto a Cleomena, se não me engano de nome Jesualda...
— É a falecida esposa de Fernando, cuja missão visa a imprimir na consciência de sua assistida a noção de que o problema da maternidade frustrada poderá ser superado, conforme a manifestação que ouviremos agora.
Foi nesse momento que, ajudada pela benfeitora, Cleomena se deixou envolver emocionalmente.
Podemos dizer que Firmino ficou todo arrepiado? Pois foi o que lhe aconteceu, tal e qual.
Mas Jarbas não deixou a peteca cair e acrescentou:
— O grupo dos benfeitores familiares está todo presente. Você não vê, mas eu consigo enxergar emanações fluídicas provindas de esferas mais perfeitas, que estão fornecendo energia para a sustentação do elevado desempenho moral dos dois planos.
Aqueles cinco minutos de silêncio entre os humanos pareceram a Firmino uma eternidade. No entanto, respeitou os sentimentos de solidariedade e afeto, recolhendo-se em oração, para contribuir com sua parcela magnética. Foi nesses instantes de concentração que recebeu do mestre o influxo de conhecimentos intuitivos que deveria desenvolver como exercícios de caráter escolar, todos no sentido de elevar o padrão vibratório para reconhecimento mais eficiente dos intentos que permanecem na obscuridade das consciências malévolas, destacando-se como ponto primordial a necessidade de não confundi-los com as intenções da bondade, da fraternidade e da caridade.
Assim que teve o campo fluídico aberto para o contato direto, Firmino inquiriu:
— Por que o meu instrutor omitiu a percepção das irradiações do amor, da esperança e da fé?
— Veja que você, meu amigo, conhece as palavras e tem noção da grandiosidade do que significam. Mas daí a compreender o valor evangélico dessas virtudes essenciais vai enorme distância. Fique dentro dos limites de seus reflexos afetivos em relação aos seres de quem você gosta. Mais tarde, iremos examinar o que representam os sacrifícios, a renúncia às vantagens pessoais, o respeito ao livre-arbítrio alheio e outras conjunturas desse naipe para estabelecimento mais completo das diretrizes que se condicionam ao derredor das qualidades superiores. Mas me responda agora se mantém seu ponto de vista a respeito da desnecessidade do apuro do procedimento intelectual dos mortais.
— Retiro o que disse. Vejo com clareza que a perfeição absoluta só poderá ser atingida após exercícios exaustivos com vistas à melhoria de todos os aspectos e fatores da psique, o que não se achará pronto ou realizado, é óbvio, nestes nossos tão tacanhos ambientes. Satisfaço-me com a minha condição de aluno, mas me proponho a aprender cada dia mais, que é como poderei cumprir, nesta fase de minha peregrinação existencial, os mandamentos das leis universais, concentradas no regulamento da Escolinha de Evangelização.
— Vamos ouvir mais um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo.



13. PROSSEGUE A LEITURA

Fernando passou a palavra a Angélica, recomendando:
— Leia pausadamente e não ligue se alguém interromper. O mais importante para nós é o estudo, ou melhor, o aprendizado. Ora, se não discutirmos as questões suscitadas pelas dúvidas e observações de cada um, não daremos pleno atendimento ao nosso próprio objetivo. O Evangelho no Lar é uma instituição aberta e cada família é livre de proceder do jeito que julgar mais conveniente.
Firmino percebeu que o orientador terreno gostaria de prosseguir mas se conteve, deixando para momento mais importante certas considerações relativas ao exercício mediúnico posto em xeque por Rodolfo.
Enquanto Angélica se preparava para ler o tópico seguinte a respeito de Moisés e de sua legislação, conforme os comentários de Kardec, entendeu Jarbas que era hora de conduzir o discípulo a algumas leituras dos pensamentos dos encarnados, sabendo que estariam ao influxo das reminiscências que o texto despertaria.
— Você sabe, Firmino, como é que chegaram ao seu conhecimento as intenções íntimas de Fernando?
— Caro Mestre, terá sido porque desejou o auxílio de seu guia e protetor aqui presente para orientá-lo na melhor decisão, abrindo ao campo etéreo as vibrações de seu pensar habituado a tal relacionamento?
— Perfeitamente. Contudo, existe um meio de chegarmos à mente dos humanos, desde que saibamos respeitar-lhes os sentimentos, atendendo para o princípio de que todos somos criaturas em evolução, logo, imperfeitas e carentes de conhecimentos. A confecção das idéias exige que o cérebro aja segundo fatores de sua composição orgânica, que se constituem de contatos energéticos entre as células através dos neurônios. Você está recordado das aulas de fisiologia?
— Não passei dos elementos, das noções mais simples e ainda estou apanhando dos conceitos de criatividade e de armazenamento das sensações e do histórico de vida integrado.
— Bom. Então, serei bastante didático. A formação dos pensamentos exige atividade cerebrina. É lógico. Como o cérebro é material e existe um arquivo resguardado pelo invólucro orgânico constituído de moléculas biologicamente ativadas, a organização das idéias, ao influxo dos estímulos externos recebidos pelos sensores, no caso da leitura, auditivos, se dá através da repercussão dos componentes colocados pelo inconsciente à disposição da vontade, segundo o saber considerado positivo aprovado pelo sujeito pensante. Por exemplo, a palavra Moisés, que desencadeia o tópico que está para ser lido, acende determinados departamentos mentais em cada um de nós. Não é hora de longas dissertações sobre a lendária ou histórica figura preeminente do judaísmo, mas você poderá sentir alguns dos lampejos que esse nome provoca em cada membro do grupo dos encarnados. Está disposto?
— Não sem antes observar um fenômeno para o qual tenho concentrado a minha atenção nos últimos tempos, qual seja, o de que a realidade carnal às vezes parece fluir em câmara lenta. Será, por certo, efeito da extraordinária rapidez com que mantemos os nossos contatos. Aposto que, quando da composição das obras mediúnicas, os relatos das atividades nos dois planos ou mundos elegem este aspecto como de muito interesse para ensinar ou mencionar aos mortais a diferença do tempo como transcurso de causa e efeito. Perdoe-me a digressão, todavia, não levei mais do que uma fração de milésimo de segundo, caso desejasse computar o tempo decorrido pelo relógio terrestre.
— Essa velocidade ainda se amplia pela concentração sobre nós das vigorosas vibrações que recebemos dos companheiros que nos ajudam nesta tarefa. Pois bem, por quem você quer começar?
— Por Cleomena.
— Má escolha para a repercussão do texto e excelente para conhecer a concentração dos interesses dela.
Ato contínuo, Jarbas como que estendeu um cordão luminoso entre o cérebro da designada e o amigo, fazendo com que sentisse a formulação das idéias, ainda sob o estremecimento emocional de há pouco.
Eis o que pôde decifrar, depois de pôr em ordem os eflúvios intelectuais que se constituíam num emaranhado de fortes vibrações:
“Moisés é aquele chefe dos judeus que conduziu o povo através do deserto. Era um sujeito muito alto, uma espécie de mago capaz de transformar o seu cajado em serpente e de outros encantamentos, pois foi assim que convenceu o faraó do Egito a libertar os escravos...”
Firmino foi incisivo:
— É extremamente difícil de acompanhar essa montagem. O que posso dizer é que a figura posta perante a lembrança visual da senhora tem muito de ver com certa película cinematográfica, estrelada por Charlton Heston, Os Dez Mandamentos. Vamos ao cérebro de Guilherme, que suponho mais rico em conteúdo histórico.
“Moisés não era judeu puro. Era filho de princesa com um escravo. Pelo menos foi o que me lembro de ter lido numa das obras de Rochester. Mas não acredito nisso. Prefiro a versão de que a criancinha foi adotada após ter sido achada boiando no rio Nilo, numa cesta de vime lançada pelos pais hebreus, não sendo à toa que Moisés significa salvo das águas. Era uma pessoa superdotada de inteligência e, quando teve oportunidade, causou tantos problemas à cidade das pirâmides, onde hoje se situa o Cairo, a capital do Egito, que o faraó se viu convencido a dar a liberdade aos revoltosos, tendo em vista que a morte deles todos iria causar a maior epidemia ou peste, infectando o rio, a quase exclusiva fonte de vida dos egípcios...”
Firmino não acreditava em que houvesse tanta disparidade entre as informações colhidas em apenas dois dos elementos do grupo. Desejou conhecer o pensamento de Fernando:
“Moisés foi o primeiro grande médium da Bíblia. Recebeu, segundo consta, diretamente de Deus as tábuas das leis com o Decálogo, que iremos ler em seguida. Deu tanta ênfase ao relacionamento com o mundo dos mortos que desejou estabelecer contato direto, tanto que nomeou oficialmente setenta anciãos como responsáveis pelas comunicações. Mas talvez tenha sido muito exagerado em atribuir tudo o que fazia ao Pai, tanto que dizia que todas as leis que estabeleceu para o povo vinham diretamente dessa sacratíssima fonte; mas foi impedido de adentrar a Terra Prometida. Também não podia reclamar de nada, tantas foram as bênçãos que recebeu, inclusive o maná com que alimentou a turba no deserto, durante os quarenta anos da travessia nômade...”
Firmino exultava. Que estaria refletindo-se no espírito de Assíria?
“Em boa hora, Moisés apareceu para nos lembrar que o Espiritismo muito deve à cultura judaica. Vamos ver que Jesus determina o cumprimento das leis e que Kardec mantém completo respeito pelas informações que a tradição outorga ao decálogo. Não é à toa que Angélica está dando a melhor entonação para a leitura de seus comentários preliminares, porque o Codificador tem toda razão em considerar, como estou ouvindo, que há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus, promulgada sobre o Monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida por Moisés. Uma é invariável; a outra é apropriada aos costumes e ao caráter do povo, e se modifica com o tempo . Eis que se abre a perspectiva para a afirmação de que, com Moisés, tivemos a primeira revelação, com Jesus, a segunda e com o Espiritismo, a terceira...”
Firmino tentou um exercício diferente. Primeiro imaginou o que José estaria matutando, tendo chegado à conclusão de que deveria estar imerso na leitura, prestando apenas atenção, sem se deixar embalar pelos conhecimentos arquivados:
— Acho, Jarbas, que José deve estar tentando memorizar cada uma das chamadas leis de Deus, no máximo correlacionando o texto atual ao catecismo que, de menino, aprendeu na Igreja Católica.
— Vamos confirmar, prezado aluno?
— Por favor.
“Esse Kardec é mesmo muito sabido. Abriu a sua obra consignando uma cópia do decálogo mosaico diferente da que se divulga entre os católicos, mais completa e menos mnemônica. Também desconsiderou as hipóteses materialistas da época que atribuíam à mente do legislador hebreu o resumo que trouxe da civilização milenar a que havia servido durante largos anos. Não é de desprezar o poderio de um intelecto soberbo, absolutamente treinado junto aos sacerdotes mais sábios da época, havendo ajudado o faraó a estabelecer as regras para a melhor convivência com o povo escravizado e que vinha multiplicando-se para além da possibilidade de ser alimentado sem ônus para a sociedade teocrática do filho dos deuses...”
Firmino ia expender elogios à sua perspicácia, quando o instrutor observou:
— Cuidado que o contato entre vocês dois pode ter sido estabelecido em via dupla. Quer dizer que é perfeitamente possível que a sensibilidade do amigo José se tenha deixado influenciar pelos pensamentos que você desejava que ele elaborasse. Se não se deu um ato mediúnico, propriamente dito, com certeza houve inspiração. Deixe para resolver depois. Quer saber o que vai pela cabeça dos demais?
— Não perderia por nada o desenvolvimento das idéias de Rodolfo, mas gastei demasiado tempo com minha perplexidade e a leitura está encerrando-se. Vou aguardar os debates. Talvez o aspecto lúdico das discussões contenha um atrativo mais consistente para a minha observação de como as idéias se formam ao encadear-se dos estímulos concatenados por força de certa apreciação temática.
Era o momento em que Angélica lia a derradeira frase:
“As leis mosaicas, propriamente ditas, tinham, portanto, um caráter essencialmente transitório.”



14. A PALESTRA DE RODOLFO

Quem Firmino tanto desejava ouvir, assumiu seu papel:
— Desculpe-me o nosso bom diretor espiritual, o amigo Fernando, mas o fato de haver subtraído dos estudos do primeiro dia toda a introdução d’O Evangelho, que prepara o espírito do leitor para os textos sagrados, me dá a possibilidade de discorrer sobre um dos temas que me é mais caro e sobre o qual tenho uma conferência preparada, já repetida umas quinze vezes. Vou procurar resumir, porquanto não pretendo açambarcar a atenção do pessoal por mais de meia hora.
Houve protestos bem humorados, mas o orador prosseguiu impávido:
— Quem escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia, onde estão registrados todos os acontecimentos que envolvem a figura histórica de Moisés? Ele mesmo. Ora, não seria de desconfiar que pusesse nos papiros ou seja lá em que material escrevia (possivelmente em pele curtida), apenas o que julgava conveniente que os sacerdotes lessem nas reuniões de cunho religioso? Então, como frisa Kardec...
Rodolfo tinha o dedo indicador sobre a passagem que ia ressaltar:
— “Para dar autoridade às suas leis, ele (Moisés) teve de lhes atribuir uma origem divina, como o fizeram todos os legisladores dos povos primitivos.” Sendo assim, em não havendo testemunhas e em se sabendo que as civilizações mais antigas empregaram o mesmo esquema de segurança para garantia do sucesso de suas leis, nada mais eficaz do que o condutor do povo dizer que fora o próprio Jeová ou Javé que lhe ditara os mandamentos, que chamou de Leis de Deus, incluindo o artigo que proibia o uso do nome do Senhor (“não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” ), e reservando um dia para o culto religioso, para arrecadação do sustento dos Levitas, que se encarregaram dos ofícios religiosos, tendo sido impedidos das mesmas posses das demais tribos que compunham a nação hebréia (“lembra-te de santificar o dia de sábado” ). Mas vamos ao que interessa ao Espiritismo. Se nós derruirmos, se pusermos por terra a idéia de que o Decálogo nos tenha sido outorgado por revelação divina, estaremos, ipso facto, quer dizer, pelo próprio argumento, afirmando que Jesus não se encarregou da Segunda Revelação nem o Espiritismo seria a Terceira Revelação, como temos ouvido dos companheiros e lido na imprensa e na literatura, inclusive na mediúnica. Sem querer conturbar a mente de ninguém (e já pondo lenha na fogueira das idéias arrojadas), devo assegurar que não me afeta a convicção espírita nem me abala a fé nos cânones da doutrina o fato de não aceitar a terminologia aludida, mesmo porque (é o próprio Kardec quem nos afirma) o Espiritismo não é de hoje nem do tempo do Codificador nem de ontem: é de todas as épocas e de todos os povos, encontrando-se entre os mais civilizados, bem como entre os mais selvagens, desde que o caracterizemos pelo contato mediúnico, ou seja, o sistema cósmico ou universal de as esferas entrarem em sintonia. Claro está que precisamos separar desse amplo entendimento um conjunto de preceitos, normas e registros, um sistema filosófico-doutrinário, com tendência científica, que repugna a religião como culto ou igreja, a que chamamos de Espiritismo Cristão, porque impregnado dos ensinos de Jesus, conforme estamos começando a perceber neste maravilhoso texto diante de nossos olhos. Sei que existem dirigentes muito conceituados dentro do movimento espírita que não admitem esta minha postura crítica e que desatariam sobre mim as vergastadas canônicas mais doloridas. Paciência! O tempo (e um passeio pelo etéreo após o decesso) mostrará quem tem razão. Agora, preciso resguardar-me da tentação de tornar qualquer assertiva no campo teórico simplesmente um dogma, que é o que Kardec jamais aceitou. Dizer que o Espiritismo representa a Terceira Revelação, fixando opinião intransigente neste ponto, será, no mínimo, colocar uma venda sobre os olhos para o que realmente é importante dentro do conjunto de lições que a turma comandada pelo Espírito de Verdade trouxe para a humanidade, utilizando a inteligência do Professor Rivail, para tornar públicas as revelações. Que diferença faz que seja a terceira, a vigésima ou a milésima vez que as entidades de luz tomaram a iniciativa de nos auxiliar a atravessar o nosso deserto, fugindo do cativeiro, em busca da Terra da Promissão?! O que vale é saber que as idéias têm a força de abrir as águas do Mar Vermelho, que se interpõem entre nós e o conhecimento da verdade; e que essas idéias se fundamentam: (1.o) na realidade da vida espiritual após a morte; (2.o) na reencarnação com o objetivo de melhoria, através das provas e das expiações; (3.o) na possibilidade do conforto moral através do contato com os nossos defuntos, cujas almas pairam nos círculos superiores e velam por nós, oferecendo o seu amparo magnético e as inspirações valiosas para as nossas tomadas de decisão; (4.o) no conceito das penas e das recompensas futuras, a obrigar-nos a meditar a respeito das leis de Deus, ressaltando a maior designada por Jesus como sendo a do amor ao Pai e aos semelhantes, ainda que sejam, transitória ou provisoriamente, nossos adversários, porque devemos estimar fazer aos outros o que desejaríamos que fizessem a nós etc. Perdoem-me a velocidade com que disse tudo o que me veio à mente. Se vocês pudessem observar o roteiro, entretanto, teriam condições de avaliar que mantive, em linhas gerais, a palestra a que me referi de início. Antes de encerrar definitivamente, gostaria que pensassem que o povo judeu possui outro códice sagrado, a Tora, que transcreve de forma diferente os vários eventos relativos à criação do mundo e dos seres, muito embora os nossos dicionários e enciclopédias insistam em registrar que são os mesmos livros do Pentateuco mosaico, ou seja, os cinco primeiros livros da Bíblia. Mas isto é ir longe demais numa simples reunião de aprendizado doutrinário.
Guilherme arriscou-se:
— Il mio fratellino não estará confundido o Tora com o Talmude? Veja que pergunto sem saber responder.
Rodolfo não engasgou:
— Digamos que eu tenha embaralhado as obras. Em nossa intimidade, penso que não haja muita importância. O que eu não gostaria e refugaria veementemente é aceitar a Terceira Revelação, da mesma forma que os católicos acatam o princípio da maternidade virginal de Maria, o que, como as próprias leis do Decálogo, também se encontra nos textos sagrados de todas as culturas antigas e até mesmo naquelas cuja tradição seja somente oral. Não é verdade, para amenizar o debate, que eu disse a Tora e você o Tora. Qual está certo?
Momento de expectativa. Mas Fernando pôs água fria na fervura:
— Essa era uma dúvida que eu tinha, podem crer. Fui ao dicionário e lá se encontravam os dois gêneros. Portanto, concordo com o ponto de vista dos dois, porque nenhum de nós sabe tudo e, por isso mesmo, respeitamos o judaísmo religioso como outra maneira de se buscar o regaço do Senhor. O que é indiscutível é que teremos tardes de sábado muito agradáveis e proveitosas, o que devemos agradecer aos mentores da espiritualidade através da palavra (acho que ela fala) de nossa jovem senhora, Dona Elisa, que ainda não se manifestou. Caso se sinta constrangida, porque orar lhe cause excessiva comoção, passarei o encargo a outro...
Elisa fez uma careta como que de desagrado, mas sorridente e, com um gesto, assentiu em cumprir o seu dever.
Antes, porém, Fernando reassumiu o comando para determinar:
— É de todo procedente que ajamos com prudência quanto às informações mediúnicas. Todos notamos que as nossas médiuns estiveram concentradas em suas funções específicas, tanto que há algumas páginas cheias, em letras bem miúdas. Acho que também Rosário terá visto algo no plano da espiritualidade digno de relatar-nos. Assim, peço a Dolores que aguarde o encerramento da reunião, propriamente dito, para depois efetuar a leitura das mensagens. Tudo bem?
Tendo recebido o aval de ambas, passou a incumbência da prece final a Elisa.



15. FIRMINO SE EXPANDE MAS SE RETRAI

O discurso, ou melhor, a palestra de Rodolfo nem havia chegado ao fim e já Firmino inquiria a Jarbas:
— Não estamos diante de uma pessoa extremamente presunçosa, crente de que tudo pode, inclusive na crítica que faz às convicções dos semelhantes, mais ainda, dos fraternos colegas de Espiritismo? Expressei-me mal. Acho que Rodolfo deseja argüir o caminho seguido pelos demais, ele mesmo pondo-se como a tocha que irá debelar a escuridão em que seguem os que dispõem de poucas virtudes intelectuais. Será esse um mal dos expositores espíritas?
— Você tem de condescender...
— A mim me parece, preclaro professor, que o intransigente é ele, arrogante e prepotente, dispondo de sua maneira fácil de expor os raciocínios, para cercar de argumentos a simplicidade ou a pureza dos que pretendem apenas seguir os conselhos dos bons e dos justos. Ele, não! Ele discute, argumenta, insiste e persiste nas teses contrárias aos pontos de vista adotados pela maioria, talvez com inveja de Kardec, a quem, por certo, está a colocar defeitos da visão teórica, julgando-o como quem se põe em perspectiva histórica com o fito de enquadrá-lo no arcabouço cientificista do século dezenove, limitando-o como figura humana, para sufocar-lhe a obra no nascedouro.
— Não é você que está indo longe demais?
— Absolutamente, não! Conheço o sistema de quem enaltece alguns pontos positivos, aceita o principal, para depois afirmar que qualquer um deveria chegar aos mesmos resultados por generalização dos conceitos, atacando pelas bordas, até chegar ao âmago das afirmações. Fez muito bem Fernando — naquela hora o diretor da sessão comentava a necessidade de deixar para depois os depoimentos mediúnicos — em não permitir que se abrisse discussão a respeito do judaísmo, porque Guilherme ia pôr defeitos nas apreciações do irmão. Tenho seguido o desenvolvimento de alguns debates públicos entre os adeptos da doutrina...
Jarbas auscultou os elementos emocionais do pupilo e o interrompeu, para que ouvisse a prece que Elisa ia proferir:
— Pai de infinito amor e bondade, estendei vosso manto misericordioso sobre esta assembléia de seres humanos carentes de vossas luzes e também favorecei às entidades do plano da espiritualidade que nos acompanharam os estudos a absorção dos ensinamentos transmitidos por Allan Kardec, nos comentários a respeito das leis divinas e humanas, para fazer com que todos nós aprendamos as diretrizes mais importantes para o procedimento voltado para a felicidade comum, o que nos levará, forçosamente, a trabalhar com abnegação e denodo, enfrentando os empecilhos naturais das opiniões e dos interesses, que é como o Codificador viu a sua excelsa tarefa. Se preciso for romper os grilhões dos preconceitos, dai-nos inteligência, boa vontade e disposição física, porque a luta se nos afigura ferrenha, tenaz, a exigir perseverança e muita paciência, desde que o caráter dos indivíduos necessita da segurança das certezas e não apenas dos estímulos das dúvidas e das hipóteses. Se for a bem do progresso da doutrina espírita no seio da comunidade humana, sofreai o nosso ímpeto reformista e fazei-nos mais tolerantes em relação às naturais fraquezas de quem se encontra no dealbar deste maravilhoso dia da verdade existencial. Fazei, Senhor, que sejamos capazes de concentrar-nos no espírito de profunda compreensão pela fragilidade de vossas criaturas, e oferecei-nos, como solução para todos os problemas morais, a ânsia e o poder de perdoar-nos os defeitos e imperfeições a nós mesmos, em primeiro lugar, e a todos os que notamos que se aferram às idéias que apenas conduzem aos engodos materiais e religiosos. Abri-nos a mente e o coração, para o que vos imploramos que nos possibiliteis volvermos toda semana a nos reunir nesta paz auspiciosa, no lar de nossa companheira, que vos roga a deferência do conhecimento do estágio em que se encontra seu marido recentemente transferido para o etéreo. Agradeço, em nome dela, o que for possível revelar, pois que a nossa convicção espírita nos conduz pela senda da mediunidade, ainda que paupérrima em aspirações. Em nome de Jesus, orando fervorosamente para que Kardec envie para estas nossas tertúlias um mensageiro capaz de nos colocar no caminho reto do conhecimento superior dos fatos históricos e da realidade sobrenatural, agradecemos a vós todo benefício que nos haveis proporcionado através da presença de nossos guias e protetores, que nos estão, sem dúvida, inspirando e nos enchendo de fé e de esperança, pela caridade de nos auxiliarem, sem nos cobrarem postura mais generosa e objetiva. Aceitai, pois, que repitamos a prece que Jesus nos outorgou e abençoai-nos as boas intenções e as realizações concretas de nosso contínuo trabalhar em prol do adiantamento espiritual de todos.
Enquanto Elisa avançava em seus dizeres, pôde Firmino apreciar o papel que desempenhava uma criatura que não havia notado ainda. Telepaticamente, recebeu de Jarbas a informação de que era um dos protetores familiares de Jesualda (a esposa de Fernando), que vinha para dar apoio à protegida, na tarefa de orientação magnético-espiritual a Cleomena. Dava assistência a Elisa no sentido de pô-la a refletir e a externar seus pensamentos com o intento de apaziguar possíveis rebeliões íntimas provocadas pelo desabrido discurso de Rodolfo. Caso contrário, se não se visse no estudo do Evangelho nenhum ganho real para a família, poderia ocorrer que a dona da casa perdesse o ímpeto e daí a desfazer o grupo seria um passo que receberia o apoio dos obsessores de plantão.
As informações de Jarbas desviaram Firmino de suas preocupações teóricas e fizeram com que atentasse para novo aspecto absolutamente natural no relacionamento entre os seres dos dois planos imediatos: a presença constante das entidades que se aproveitam das brechas causadas pela falta de vigilância dos mortais, muito especialmente no que respeitava à novata nas lides espíritas, a ainda ingênua Cleomena, que precisava de Assíria constantemente junto a si, para o alerta contra as más inspirações.
Ato contínuo, Firmino desejou saber se irmãos mais poderosos no campo da maldade não estariam insuflando Rodolfo e os demais estudiosos do Espiritismo para a fixação de diretrizes conceituais em oposição às de outros próceres do movimento espírita, para o efeito do enfraquecimento e da cisão.
Foi assim que Firmino perdeu o empuxo de sua vigorosa manifestação, ao perceber, finalmente, que ele mesmo talvez estivesse contribuindo para esse terrível flagelo dos intelectuais e postulantes a cargos de chefia do rebanho, como é a crítica severa e pungente das atitudes que em aparência contrariam as teses kardequianas ou que, por outra, estipulam como de irrefragável virtude a defesa intransigente de cada pequenina manifestação de vontade que se apóie em fragmentos de mensagens e não na interpretação mais abrangente da doutrina como revelação de postulados de valor universal.
Não fora o pai-nosso vibrado com sublimidade naquele ambiente que se encheu de luzes e Firmino ter-se-ia prostrado macambúzio, imbuído da necessidade de resolver diversos problemas que via como prementes.
Para Jarbas, que acompanhava as fases daquele drama íntimo, a perspectiva do alheamento do discípulo iria adiar-lhe o estudo de alguns tópicos de seu programa de assistência. Felizmente, pôde despertá-lo para a parte final da reunião.



16. OS FATOS MEDIÚNICOS

Quando acordou para a realidade, Firmino percebeu que os humanos se aprestavam para ouvir o que Dolores e Maria do Rosário tinham para relatar. Havia passado o momento da prece aos cuidados do preceptor, mas foi com imensa felicidade que pôde perceber que merecera especial atenção. Não haveria, pois, de deixar de agradecer:
— Meu patrãozinho querido, Deus o abençoe por tanto afeto e tanto carinho...
O benfeitor, que o que menos queria era ouvir os transbordamentos sentimentais do discípulo, fez-lhe um sinal para ouvir as informações que se dariam.
Foi Rosário quem primeiro descreveu o ambiente espiritual:
— Os irmãozinhos que estou conhecendo hoje precisam saber que os videntes são os mais visados dos médiuns quanto a se acreditar neles. Se dizemos que estamos vendo um vulto, uma luz, uma pessoa, logo querem saber os detalhes: de quem se trata, se é espírito bom ou ruim, se é para se ter medo ou se é para se ficar feliz. Nem sempre a gente consegue convencer as pessoas. Sabendo disso, os que enxergam além da matéria se resguardam e só comunicam o que viram depois de certos de que as pessoas irão acreditar, para tirarem proveito das lições que a espiritualidade nos passa, quando nos permite entrar em contato com o seu mundo.
Fernando interrompeu-a:
— Sempre peço aos médiuns que vêem o que acontece do lado de lá para não contarem tudo, porque podem causar transtornos às pessoas mais sensíveis, mais impressionáveis. Um dia, um médium novato teve a notícia por um vidente de que havia um ser maravilhoso do seu lado, um espírito de mulher, cheio de luminosidade, e logo pensou que seu trabalho tinha a assistência do plano superior. Daí para a frente, todas as comunicações que recebia dos sofredores foram barradas desde logo, porque tudo queria registrar como se apenas fosse o intérprete dos seres mais importantes. Tantas aprontou que o vidente me chamou em particular para perguntar se podia dizer que via só espíritos malévolos ao derredor do médium. Preciso dizer que abandonou o centro e que nunca mais soubemos do seu paradeiro?! Mas, Rosário, aqui você vai poder falar sem medo, desde que não esteja impedida de informar por alguma autoridade espiritual.
Rosário retomou:
— Era esse o meu temor. Já que me garantem que não haverá nenhum perigo, posso dizer quase tudo o que vi. Em primeiro lugar, a irmã Jesualda, sua cara esposa, recuperou a lucidez...
— Graças a Deus! Graças a Deus! — repetia entre lágrimas o diretor dos trabalhos.
Rosário confortou-o:
— Não conversei com ela porque estava muito interessada em orientar os pensamentos de Cleomena, parecendo que era essa a sua missão durante os trabalhos. Mas o que mais me deixou feliz foi ver que havia muitos irmãos de grande poder, tanto que alguns zombeteiros só vieram tangidos pelos protetores para sua elevação moral. Conversei com um mentor chamado Jarbas... Alguém conheceu essa figura?
O relato parecia tão brilhante e oportuno que as respostas negativas não foram o bastante veementes para desfazer aquela atmosfera de agradável expectativa.
— Pois bem, esse espírito e guia fez questão de me dizer que a família aqui reunida faz muito bem em discutir os pontos polêmicos levantados, desde que, ele fez questão de frisar, não se emitissem vibrações de menosprezo pelas pessoas que pensam diferentemente. Não destacou ninguém mas me levou a observar que, durante as manifestações de cada um de vocês, o ar se enchia de irradiações coloridas, como se o mais alto aprovasse a decisão dos estudos e das conclusões em favor da aplicação das leis de Deus, independentemente de terem sido escritas para os hebreus, de terem sido abalizadas por Jesus e referendadas por Kardec. Ele me fez decorar este trecho do discurso, porque achava que as minhas próprias palavras não teriam a força que desejava dar às idéias.
Cleomena reuniu coragem para perguntar:
— O Lalau estava presente?
— Não sei. Se for aquele senhor da foto em cima da estante, eu não o vi. Mas vocês sabem que os espíritos podem aparecer aos videntes se quiserem. Ele não se deu a ver nem nenhum outro me forneceu qualquer informação sobre o paradeiro dele. Quem sabe Dolores tenha recebido alguma mensagem escrita.
Fernando, apesar de trêmulo, retomou a direção dos trabalhos:
— Se nenhum de vocês tiver perguntas a Rosário, vou pedir que Dolores leia o que escreveu.
Guilherme desejou uma resposta:
— A senhora esteve num lugar harmonioso, pacífico, sem problemas. É capaz de dizer também o que se passava no mesmo instante entre os encarnados, para fazer corresponder cada passagem de nosso estudo e de nossas participações aos fatos lá observados?
— Perfeitamente. Sem que tivesse necessidade de prestar atenção aos assuntos, sabia exatamente quais as reações dos espíritos conforme cada um daqui expunha os seus pensamentos. Devo dizer que bem poucas vezes estive com a visão tão clara e a mente aberta para as vibrações meramente dentro do campo dos fluidos. O nosso doutrinador poderá falar mais a respeito. O que eu posso adiantar é que vou para casa hoje pisando nas nuvens, agradecendo aos irmãos da espiritualidade superior todo o seu amparo e boa vontade. Com certeza, fazer qualquer coisa errada, ter qualquer sentimento menos digno, mais rasteiro, passar por alguma raiva ou acender ódios antigos, qualquer dessas coisas irá representar um desaforo muito grande em relação à amizade, ao afeto, à benquerença das entidades que nos cercam de carinhosa atenção.
Rodolfo estava prontinho para questionar mas limitou-se a demonstrar admiração:
— Devo dizer que, pelas reações que provoquei em todos do grupo, fiquei pensando se não havia ido longe demais nos meus comentários. Pelo que entendi, ninguém ficou ofendido...
Firmino fez um movimento para inspirar Rosário mas, antes dele, Jarbas lá estava a sugerir a ela que interrompesse o afoito crítico.
— Desculpe, meu filho, mas eu não posso dizer que todos concordaram com o que você disse. Acho mesmo que houve um que dardejou umas irradiações de desagrado, logo contido pelo mentor. Sendo assim, é bom colocar as barbas de molho.
O jovem palestrante não esperava essa espécie de contrariedade e se calou, a ver se encontrava saída honrosa para a situação.
Foi assim que pôde Dolores assumir o posto dos informantes:
— Tenho muitas mensagens individuais, cujo teor não fui autorizada a divulgar. Como cada um vai receber uma pequena página de incentivo, outros, de consolação, todos de muito amor e consideração pelo respeito com que se reuniram, passo a ler uma de caráter geral, cuja assinatura consignada é de uma esplêndida mulher, no auge de seus cinqüenta anos, uma senhora de cabelos brancos e olhos dulcíssimos.
Rosário logo se aprestou para esclarecer:
— Essa personagem eu vi perfeitamente e só não falei dela para ver se Dolores me confirmava.
Fernando também precisou intervir:
— A nossa querida confreira escrevente também enxerga os amigos do outro plano. Mas é preciso saber que a sua visão se limita aos que comparecem para a escrita. Não é isso mesmo?
Antes de responder, Dolores demoradamente se interessou pelos olhares que todos lançavam sobre ela, tendo notado que havia uma espécie de arrepio coletivo, como se estivessem perante um ser de notória ascendência espiritual. Precisou, pois, amainar o entusiasmo dos circunstantes:
— Não gosto quando as pessoas me tomam por algum anjo divino. A minha faculdade mediúnica me alegra e me dá um sentido mais elevado para enfrentar as dificuldades da vida. Mas também me obriga a permanecer vigilante, especialmente quanto ao agradecimento de me ver sempre sob o manto amoroso e protetor de meu guia e conselheiro. Não vejam nos mediadores entre os seres dos dois mundos pessoas especiais, mas apenas quem esteja cumprindo um dever de alto nível moral, porque trazem para o meio em que vivemos os ensinamentos dos que nos querem bem e velam por nós. Esses, sim, é que devem ser respeitados e acatados, porque, se estão em um degrau mais alto, é que souberam vencer os problemas, as vicissitudes de suas encarnações e agora estão às voltas com missões espinhosas, junto aos encarnados.
Rodolfo pediu permissão para falar. Dolores condescendeu. A pergunta veio envolta de segundas intenções, como se feita de propósito para derrubar qualquer resquício de hipocrisia:
— Esse discurso a senhora faz todas as vezes que vai ler as suas páginas psicografadas ou está recebendo inspiração neste exato momento?
A resposta veio para dissipar qualquer intenção menos edificante:
— Rogo a Deus que me conceda o privilégio de receber a influência sempre de espíritos adiantados. Como isso tem acontecido muito freqüentemente, acabei por decorar algumas prescrições salutares, que me têm tirado dos apertos em que me colocam os descrentes e alguns mal-intencionados. Mas vamos ao que interessa. Eis o texto que eu peço para que você mesmo...
— Rodolfo...
— ... Rodolfo, me faça o favor de ler, perdoando as falhas ortográficas e gramaticais que, como todos sabem, correm por conta do médium. Por isso, como você é muito instruído e inteligente, leia de maneira certa. Está bem assim?
Não preciso dizer que o moço pigarreou, ajeitou os óculos, que havia retirado para a fase das explanações, acomodou-se melhor na cadeira, percorreu a assembléia com os olhos, como a rogar perdão por haver sido tão desabrido, e, com ar de quem atribui à tarefa a transcendente importância que se dá a um comunicado superior de caráter oficial, leu, impregnando a voz de tépida emoção religiosa.
Pelo menos foi como viu Firmino, analisando o espectro da aura do encarnado.



17. AS MENSAGENS ESCRITAS

— Meus irmãos e afilhados, esta que lhes dirige a palavra é uma antiga companheira de lides terrenas e etéreas, cuja recordação vocês mantêm guardadas no âmago de suas existências espirituais, recordações umas boas e louváveis, outras nem tanto, porque temos vindo juntos nesta romagem desde tempos imemoriais.
Nesse instante, Rodolfo buscou a assinatura ao pé da página, tendo lido o nome em voz alta:
— Celestiana. Alguém se lembra de alguma pessoa ou entidade que se tenha apresentado com esse nome?
Ninguém se manifestou afirmativamente, de modo que Rodolfo prosseguiu:
— Hoje eu me encontro na direção de um grupo de socorristas, na companhia de meu companheiro de muitas jornadas, Gregório...
De novo Rodolfo interrogou o auditório, desta vez através de um gesto expressivo, mas o retorno também foi negativo.
— ... Gregório, que está assistindo o grupo reunido com o auxílio de várias entidades, para manter o local isento de más influências. Devo dizer que a força dos espíritas presentes seria bastante para coordenar diversas equipes de auxílio espiritual, de forma que o assédio dos obsessores só se dará caso mudem de procedimento, o que sempre é possível, caso se deixem impar de orgulho, de vaidade e de egoísmo. Este preâmbulo deve resumir a mensagem, porque não temos muito o que acrescer ao que se dirá em particular. Para esclarecimento, ficam os irmãos totalmente livres para divulgar ou ocultar as palavras que destinamos a cada um. Por outro lado, temos de incentivar — porque o contrário seria inconcebível — estes contatos mediúnicos, em todo tipo de trabalho voltado para a doutrina espírita, senão não alcançaremos orientar de maneira direta, no que nos for possível, o pensamento e as ações de nossos protegidos. Fique claro, porém, que a transformação da sessão de estudos do Evangelho em sessão simplesmente mediúnica não atrairá a mesma turma de espíritos, porque nós aproveitamos os textos e os debates, os raciocínios e as intuições, os conhecimentos e as teses, para desenvolvermos as aulas junto às turmas de principiantes. Sendo assim, que se destaque esta primeira reunião como única dentre tantas outras que se seguirão com a nossa presença mas sem as nossas comunicações, porque não queremos desviar a atenção dos encarnados para as apreciações dos mentores, as quais anulariam o interesse em debater dos que se reúnem. Esta participação especial foi incentivada junto ao querido monitor, o irmão Fernando, a quem damos o nosso apoio e o nosso agradecimento. Não querendo estimular a fantasia de quem almeja cargos importantes dentro do movimento espírita, sem o intuito de prognosticar as realizações que ilustrarão a vida de cada um dos que estão reunidos, posso dizer, em nome dos meus mentores, seus anjos guardiães, que, caso os trabalhos se desenvolvam com a mesma seriedade de agora, não passará uma década antes que vocês fundem uma nova casa de atendimento evangélico, para dar curso ao Espiritismo, integrando-se à parcela da humanidade que se dedica aos estudos, à pesquisa e à prática da mediunidade, no altíssimo interesse de atender aos reclamos dos guias da espiritualidade maior. Nada se encontra feito. Tudo está por fazer. Esta a filosofia que deve impregnar os seus pensamentos doutrinários, uma vez que é louvável a intenção mas é reconhecida a atuação benemérita em favor das hostes denegridas pelas necessidades morais e materiais. Da mesma forma que declaramos que vocês estão sendo amparados e assistidos, também estamos indicando a via das pedras para a sua preparação para as mesmas tarefas que hoje estamos realizando, em nome de Jesus.
Rodolfo suspendeu a leitura para interrogar os demais:
— Estou lendo sem perceber completamente o sentido das frases. Não seria o caso de discutirmos os pontos principais do texto?
Guilherme se antecipou a Fernando:
— Bem me recordo que foi você quem levantou os problemas inerentes aos fenômenos mediúnicos se darem durante o Evangelho no Lar. É sobre isso que gostaria de falar?
Assíria controlou a possível dissidência entre os filhos:
— Penso que a mensagem está muito clara no sentido de nortear os trabalhos. Se devemos ou não nos entender com os espíritos amigos durante estas tardes que se iniciam, é o de menos, porque, a critério deles, poderão responder ou não, segundo a importância que virem nas questões a serem propostas. Devemos prevenir-nos quanto a efetuar apenas leituras dos textos de Kardec, mas também poderemos, segundo uma premente necessidade, consultar opinião melhor qualificada para certos esclarecimentos, principalmente no campo de nossas vidas particulares, porque muitas vezes poderemos estar em vias de tomar decisões importantes e, sem reuniões específicas, enquanto não inaugurarmos o nosso centro espírita, vamos ter de improvisar. Quanto ao fato de discutirmos o que se registra no texto, acho que só devemos fazer isso depois de conhecermos a mensagem toda. Quem está de acordo comigo?
A proposta da mãe inibiu os filhos e noras, deixou de escanteio a irmã e colocou o diretor dos trabalhos à vontade para concordar. Foi o que fez Fernando:
— A respeito de entrarmos ou não em contato mediúnico, devem opinar as nossas caras irmãs Rosário e Dolores, pelo expressivo resultado deste dia. Se elas desejarem voltar todo sábado, acho que nada as impedirá de trabalharem como fizeram hoje, ou seja, em silêncio, sem interferirem no andamento das leituras. O que devemos ter em mente é que o mais importante é aprendermos a doutrina. Como nos deram a sugestão de criarmos uma entidade só nossa e não vinculada aos centros que freqüentamos, duas atitudes devem ser tomadas: primeiro, o que eu acho imperioso, é consultarmos pelo pensamento os guias de cada centro, para confirmação do que está escrito na mensagem da mentora Celestiana; segundo, que cada qual medite bastante a ver se têm vontade ou disposição para enfrentar o árduo trabalho de organização de uma casa espírita. Sendo assim, eu mesmo vou preparar uma minuta de tudo quanto é necessário para a fundação dessa entidade, vou fazer diversas cópias, que deverei trazer na próxima semana, para que vocês levem para casa e estudem com carinho e respeito.
José levantou disciplinadamente a mão. Queria pedir a palavra. Fernando atendeu-o:
— Diga lá o que pensa o nosso eloqüente amigo.
— Não mexa com o vespeiro, porque sou pior do que a Emília do Lobato: quando abro a torneirinha, ninguém consegue fechar. Mas isto não é uma ameaça. Desejo simplesmente notar que as reuniões devem ser curtas e esta está se prolongando para além das piores expectativas. Está certo que muitas coisas importantes foram levantadas, mas é preciso aliviar a sobrecarga ou a gente vai acabar ficando com medo de tanto Espiritismo. Voto, pois, com minha cara consorte, acreditando que falo pela maioria, e rogo ao meu petiz do coração que termine a leitura.
Guilherme não perdeu a vaza:
— E eu? Sou o seu petiz do fígado ou do estômago?...
— Você está no meus pulmões, porque é o ar que respiro.
Rodolfo, antes de ir até o fim da mensagem, ainda acrescentou:
— Um é o ar e o outro é o sangue. Quem há de ser o alimento saudável do espírito?... Aqueles que não vieram...
Assíria chamou a atenção do filho com um gesto de quem bate no traseiro e todos sorriram para as facécias.
Rodolfo retomou a leitura do texto de Celestiana:
— É preciso que ressaltemos a importância das leis de Moisés para os espíritas de hoje, definindo-as como um rol de incumbências de aspecto meramente moral, sem lhes atribuir o valor material dos relacionamentos humanos, porque incentiva, ao mesmo tempo, a liberdade dos hebreus em relação aos egípcios (“Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão... “) e permite que as pessoas possuam escravos (“Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva... “). Eis que é preciso convir que Kardec tinha razão em asseverar que “...só a idéia de um deus terrível podia impressionar homens ignorantes... “ o que nos conduz inexoravelmente à iniciativa dos estudos e do saber. Aceitem a nossa contribuição de hoje mas estejam certos de que não se repetirão, a não ser no sentido da inspiração sobre os que se apresentarem necessitados e verdadeiramente interessados. Fiquem com Deus, rogando a Jesus o benefício, que jamais lhes negará, do envio de seus representantes, ainda que sob a forma de modestos protetores individuais. Um afetuoso abraço desta que os ama e por vocês mantém carinhoso desvelo. Celestiana.
Sem dar tempo para mais delongas, Dolores distribuiu, em folhas dobradas, uma mensagem para cada um. O interesse foi então concentrado em outro texto, quedando as recomendações gerais no círculo das questões fadadas ao esquecimento.



18. CURIOSIDADE INSATISFEITA

Firmino não havia acompanhado a redação do noticiário individual. Aguardou, pois, com ansiedade que o primeiro abrisse e lesse o conteúdo de sua mensagem. No entanto, foi incapaz de se aproximar de alguém para ler-lhe sobre os ombros. Digo mal. Colocar-se de maneira adequada até que conseguia mas a vista se turbava e os dizeres se embaralhavam, como se estivessem magneticamente protegidos. Voltou-se para Jarbas:
— Eis aí um fenômeno que desconhecia. Não me lembra que haja lido algures que os espíritos podem ser impedidos de se imiscuir nas atividades meramente materiais dos encarnados.
Jarbas se divertia e deu ampla demonstração disso:
— Eu, com muitos anos mais de janela que você, tenho aprendido tanta coisa a cada dia que passa! Agora mesmo, notei que você empreendeu uma frasear erudito (não me lembra que haja lido algures) que está a me estarrecer pelo seu progresso tão repentino. Terá sido a reminiscência de alguma frase que o tenha deixado muito impressionado? Com certeza, porque, nesta nossa faixa de desempenho criativo, só o que se encontra arquivado na memória é que pode transparecer com eficácia para a demonstração mais enérgica dos pensamentos.
— Também não precisa me esnobar. Se o mestre quiser uma auto-análise percuciente, posso deixá-lo ainda mais boquiaberto, dizendo-lhe que me utilizei de um vernáculo mais perfeito por ajustamento à frustração, desejoso de passar aos meus mentores, V. S.a inclusive, que posso reunir suficientes méritos para receber o conhecimento de que me dei por falta, como ainda a confiança de saber que mensagens foram passadas em secreto para cada mortal aqui reunido.
Aí Jarbas sorriu prazerosamente, abraçando o pupilo e conduzindo-o para fora, andando ambos lentamente, de regresso à colônia, enquanto explicava:
— Acompanhe-me nos gracejos e você desenvolverá um savoir-vivre de importante contextura para as tarefas espinhosas que aguardam por nós, quando estivermos frente a frente com os problemas agudos dos irmãos que se obstinam em praticar apenas atos de maldade, cegos para o fato de que os mais prejudicados são eles mesmos. Se não soubermos ultrapassar com serenidade as ondas de desagrado alheias e se não tivermos condições de sufocar as nossas próprias angústias, ainda que meros dissabores momentâneos ao verificarmos que nos falta poder para a compreensão de cada fenômeno com que nos deparamos, ficaremos expostos às ondas das vibrações deletérias que nos abalarão até os alicerces de nossas mais fortes virtudes. O bom humor é peça fundamental nesse automatismo psíquico de firmeza moral, porque nos dá amplas possibilidades de expandir os sentimentos mais nobres, juntando-se a fé e a esperança, para a realização do amor e da caridade, que se traduzirão no auxílio que seremos levados a propiciar aos demais. Veja que estou absolutamente tranqüilo, sabendo discernir, com boa vontade e segurança, as melhores explicações e os exemplos mais adequados para levá-lo a considerar as razões que fundamentarão as respostas que tenho para sua dupla questão. Está seguindo os raciocínios?
— Neste passo lerdo em que caminhamos, posso haurir cada minúscula vibração de todas as suas enunciações, capacitando-me a digerir toda a sapiência concentrada nessa sua exposição, porque, no mínimo, o mestre está a exigir de si mesmo o melhor, não porque deseje impressionar-me, o que alcançaria com bem menos, mas porque quer me ver pelas costas, que é como os professores vêem os alunos quando estes se diplomam...
— Só não vou chorar de alegria porque teria sido hipócrita. Mas a verdade é que a sua demonstração de que muito bem se integrou ao espírito de minha palestra me confirma a suprema vocação de minha alma para o magistério. Mas vamos ao que interessa. Qual foi mesmo o primeiro problema que meu mui digno discípulo me solicitou resolvesse?
— Sei que não se esqueceu e que apenas me pede que repita para confirmar que continuo interessado em conhecer a causa de não me darem permissão para apreciar o inteiro teor das respostas etéreas aos íntimos desejos dos encarnados.
— Vejo que você acaba de dispor as questões em sua verdadeira ordem de interesse, porquanto a primeira pergunta se referia ao fato técnico ou físico de ter a vista embaralhada.
— Esta é a conseqüência. A causa vem antes.
— Muito bem! Leia na minha aura e veja se, através dessa leitura, descobre todos os ingredientes que compõem a minha personalidade, a partir dos elementos constituintes de minha história existencial, nos refolhos da memória que se organizou no perispírito.
— Nem vou tentar. Eu mesmo não permito que as pessoas, até as mais evoluídas, penetrem no âmago de minha figura caracterizada individualmente. Não sei se estou exprimindo-me bem.
— Comigo você nem precisa esmerar-se tanto no linguajar enquanto realização dos registros literários ou castiços, porque lhe decifro de imediato as mensagens. No entanto, se eu quiser ir mais além, devassando-lhe a intimidade, estarei bloqueado. A pergunta que se impõe é com que objetivo eu o faria.
— Agora vai querer averiguar por que esticava eu o pescoço para ler os recados mediúnicos.
— Penso que se tratava apenas de curiosidade.
— Colocando-me na posição de quem pratica um exame de consciência, confesso que desejei avaliar que recomendações os guias desejaram fazer aos pupilos.
— Em outras palavras, como diria Kardec, o seu nariz metia-se sem procurar instruir-se seriamente...
— Vejo que meu instrutor está lendo nas linhas e entrelinhas...
— Estou informando-me, segundo as idéias que se formam endereçadas a mim, as quais reforço com a minha experiência no trato com muitos alunos, nos últimos duzentos e cinqüenta anos. Não li nenhuma mensagem mas confesso que seria capaz de reproduzi-las todas, porque emprego um sistema mais elevado de percepção dos matizes mais sutis que se emitem nos reflexos das auras dos seres menos evoluídos que eu. Mas, em nenhum momento, me acendeu o desejo de fazê-lo, porque o meu trabalho se dispõe em patamar mais elevado daquele em que se encontram os encarnados que lá se reuniram. Sendo assim (compreenda que falo em tese, abstração feita de minha real condição evolutiva), não preciso conhecer o que se passa no âmbito dos fenômenos para intuir em que problemas cada qual irá se enredar, tendo em vista as tendências psicológicas mais ou menos padronizadas, conforme o grau em que se situam na escala espírita, ainda lembrando-me dos padrões levados até Kardec pelo irmão Sócrates, conforme se consigna nas obras da codificação e que você retém na memória.
— Eu, pobre de mim!, que mal soletro as primeiras letras do alfabeto humano, como é que vou entender os acontecimentos que se seguirão, se estou vedado quanto a algumas informações que me parecem de essencial importância para a dedução de quais elementos devo selecionar, para o encaminhamento das soluções dos problemas que se colocarão, inevitavelmente, de acordo com o roteiro programático da Escolinha de Evangelização, cujo digno representante está a ensinar a me dispor bem humorado, embora isto canse?...
— Vou resumir, pois quero deixar translúcida a melhor explicação que consigo fornecer-lhe: os espíritos de luz não têm necessidade de obter quaisquer informações a respeito dos menos evoluídos porque têm o poder de classificá-los, estipulando-lhes a real categoria em que estão estacionados. Isto ficou definitivamente sabido?
— Não posso responder afirmativamente, enquanto não me vir perante irmãos mais imperfeitos do que eu, levando comigo os recursos do esquecimento das faltas deles e da sabedoria de entender que não agiriam de maneira diferente, à vista da pobreza de suas mentes e da insensibilidade de seus corações.
— Percebo que entendeu. Vamos partir para a segunda questão, qual seja, a dos meios usados para vedar-lhe a visão da correspondência pessoal dos encarnados. Posso pedir que me adiante alguma suspeita sua do método empregado?
— Acho que há diversas maneiras de impedir que os intrusos vasculhem os ambientes morais, seja dos terrenos, seja dos etéreos. Para indivíduos, como no meu caso, aplica-se um ruído que atrapalhe o circuito das ondas elétricas que correspondam à extensão ou freqüência em que atuo, de forma a perturbar a recepção das informações pelo sensório motor. Sei que, como na audição, também na visão, são elementos fluídicos que se destacam do ponto de origem, enviando ao derredor vibrações, no caso luminosas (para a audição, sonoras). Esse ruído se constitui em outra emissão de mesmo teor das provindas dos objetos visíveis, mas capazes de intensificar-lhes a freqüência vibratória, destituindo-os da primitiva formulação. Creio que existam seres melhor dotados intelectualmente, se não for muita ousadia aplicar este termo, que descodificariam a mensagem que fui impedido de ler, mas para quem existem outras freqüências capazes de obstar-lhes também a curiosidade. Por exemplo, acredito que irmãos obsessores estejam mais ávidos do que eu para entender aquelas comunicações, no entanto, pelo cuidado com que se agiu em relação a mim, mesmo que alguns desses entes perniciosos possuam recursos técnicos mais aguçados, também sofreram restrições, para que não pudessem atingir os seus desígnios.
— Essa sua explicação me satisfaz plenamente. Vou ficar com ela.
— Mas, professor, não haveria outra mais plausível e mais direta?
— Qual seria?
— A de que eu estivesse necessitado destas explicações e o meu querido amigo, simplesmente, emitiu uma fagulha elétrica para desarranjo momentâneo de meu sistema de percepção, de forma que me fez crer em que não me seria possível entender o que lá estava escrito, num desequilíbrio aprovado pelos seus companheiros de magistério, porque visando à edificação de um bem e à obstrução de um mal.
— O meu preclaríssimo aluno teria a capacidade de imaginar mais algum processo de se sustar a realização de um ato tão comum, como seja o de efetuar a ruptura de um princípio fundamentado nas virtudes evangélicas?
— Sim, mas talvez não me atrevesse.
— Pois se atreva.
— Enfim, os meus comandos inconscientes estão regulados para me conter quando posso tentar a prática de algum ato de que venha a me arrepender. Tenho treinado bastante nesse sentido, pois muito sofri com a inconseqüência dos procedimentos sem reflexão, dando vazão a certos impulsos mórbidos que redundaram em estágios prolongados nas Trevas ou em peregrinações angustiosas através do Umbral, porque tive atitudes que prejudicaram outros seres, inclusive alguns que eu julgava estimar e mesmo amar.
— Posso afirmar que isso é sintomático. Saberia você elucidar a minha assertiva?
— Mas, Jarbas, estamos adentrando os portais da colônia...
— Então, fica a explicação para depois, como seu dever de casa.
— Entendi... Entendi...



19. A VIDA CONTINUA

Cleomena ficou um tantinho decepcionada por não haver comprovado que Estanislau estava bem. O máximo que conseguiu foi a informação sigilosa de que deveria orar muito por ele, que lhe pedia perdão por havê-la abandonado tão cedo. Instada pela irmã, trocaram os papéis com as mensagens privadas, tendo constado que Assíria deveria cuidar para que toda a família se reunisse sob o dossel glorioso da doutrina espírita, o que julgou um exagero de recomendação, uma vez não havia filho, nora ou genro que não pautasse pensamentos e procedimentos segundo as determinações e preceitos evangélicos filtrados pelos princípios de Kardec.
— Assíria, você pode me explicar este excesso de zelo de seus guias?
— Desconfio que eles reivindicam uma atenção mais acurada no que respeita ao acompanhamento que eu e José deveríamos proceder em relação a ouvir as palestras do Rodolfo e as discussões em que se envolve com Guilherme e demais membros do centro que freqüentam e onde debatem.
— Nesse caso, posso presumir que você seja uma sumidade.
— Presumir e sumidade são palavras que jamais podia esperar que integrassem o seu vocabulário. Sabia que você possuía boa memória, mas não tinha idéia de que podia constituir frases que fugissem ao padrão do coloquial.
— Como é que você se arvora em crítica, aliás no bom sentido, e também fica a demonstrar conhecimentos além da expectativa?
— Posso explicar. Você notou como é que os seus sobrinhos se esmeram? Um dia, eu disse algumas bobagens e fui severamente repreendida. Se não fosse o José, passaria grande vergonha. Desde essa ocasião, ponho a língua de molho antes de batê-la contra os dentes. Mas você não me disse de onde provieram aqueles termos e mais alguns outros.
— Quer saber a verdade? Pois nem eu mesma sei direito. Talvez do tempo da escola. Ou, quem sabe, como vocês espíritas dizem, de outras encarnações. Talvez tenha facilidade para ouvir as sugestões de meu bom gênio e instrutor para a linguagem falada.
— Por que é que a gente fica toda arrepiada quando se trata de reconhecer algum mérito que ultrapassa os limites do corriqueiro? Com certeza é o nosso medo de parecer diferente; pior ainda: de se fazer passar por superior. Sabemos que o povo em geral detesta quem arrote erudição sem motivo, quando poderia fazer-se entender com mais simplicidade. Aí, quando vamos conversar com gente importante, como quando veio fazer uma palestra no centro o grande orador espírita, o notável médium Divaldo Pereira Franco, ficamos a enrolar o pensamento, saindo mal e porcamente algumas expressões que desejavam induzi-lo a perceber que o admiramos e estimamos, porque lemos as suas obras. Você já conversou com alguém de grande nomeada?
— Estou fazendo-o (note a colocação do pronome) neste justo instante.
— Não brinque. Acho que a última pessoa importante (mais ou menos) foi o pároco da diocese que rezou a missa de mês do seu marido. Fora disso, se nenhum político veio pedir voto, as suas conversas devem ter ficado resumidas a um diálogo sem resposta com as personagens da televisão.
— Nunca parei para pensar nisso. Afora os meus caros sobrinhos e o cunhadão, afins e você mesma (falando sério), quem me tem deixado impressionada pela faculdade de falar sem enguiço e sem chouriço (como ele mesmo disse um dia) é o Fernando. O Lalau, coitado, era taciturno e quanto mais velho menos palrador, até que acabou macambúzio, sempre sentado naquela poltrona... Aliás, por falar em poltrona, eu me esqueci completamente de perguntar às médiuns se elas viram ou pressentiram alguém ocupando aquele lugar. Não será o caso de mandar embora esse móvel que está me fazendo perder um pouco a tranqüilidade, sempre que me apanho falando com a sombra do defunto?
— Acho que foi um indício bastante claro.
— Indício de quê?
— De seu interesse sentimental pelo viúvo em disponibilidade.
— Não dei argumento nenhum para sua precipitada conclusão.
— Claro que deu. Veja bem. Foi só falar nele, desviou o pensamento para o ex, acrescentando que desejava que não estivesse mais presente. Isto não está significando que você precisa que vá embora o antigo para fazer entrar o novo, quem sabe jogando fora o jogo de sofás e adquirindo um mais adequado para o irmão do centro?...
— Assíria, você gosta de seu marido, não gosta?
— Por certo.
— Que você faria se ele morresse?
— Enterrava.
— Seja sincera: você não ia ficar com saudade, tendo a impressão de ele estar sempre por perto?
— Ia rezar pela elevação do espírito dele, porque sei que é um homem muito bom, cumpridor das obrigações (todas elas), responsável, amado de todos, respeitado pelo que ele é e pelo que sempre foi etc. Mas se você está querendo dizer que eu iria vestir luto e ficar chorando pelos cantos, querida, nem você faz isso. Vamos falar com o coração na mão. Não é verdade que o seu Lalau era um sujeito meio esquisito? Ele vivia com os livros de Kardec. Que centro é que freqüentava? Não me consta que sequer comparecia às palestras nem recebia os passes. Outro dia, enquanto você tomava banho, dei uma espiada na estante. Além das obras da codificação, percebi que foram lidas, pelo menos, mais vinte e cinco do Chico (Emmanuel, Irmão X, André Luís, O Parnaso etc.). Encontrei também Ramatis, Rochester e outros, entre eles, com espanto, lá está o Padre Quevedo, com as sua ideologia parapsicológica. Eu não sou muito boa nesses assuntos, mas ouvi de vários palestrantes algumas condenações muito pertinentes a certos textos... Em suma, encontrei anotações às margens, com pensamentos muito próprios, como se o seu marido entendesse do riscado. Por que você não pede para o Fernando comentar essas observações? Quem sabe seja um meio muito adequado para juntar as duas figuras numa só personalidade compromissada com a sua existência de mulher caseira?...
— Você está indo longe demais. Mas posso dizer-lhe que entre irmãs os segredos são demais. O certo é que o seu diretor espiritual...
— Não me envolva de maneira nenhuma com a pessoa que eu respeito mas que não me causa frissons de ordem alguma. Quando quero explicações a respeito de temas complicados, o Guilherme, em primeiro lugar, e depois o Rodolfo sempre estão disponíveis, na hora e no lugar certos. Não que o José seja ciumento nem invejoso dos dotes culturais alheios; mas não seria o caso de esse Estanislau que mora em sua intimidade ser, ele sim, um gradessíssimo panaca, a vigiar o que não mais lhe compete, ou seja, a vida da mulher que manteve sob as suas ordens durante tanto tempo, com ares de santinho do pau oco?
Ambas olharam-se para entender se havia qualquer malícia no pensamento de Assíria. Não havia, mas resolveram que algo poderia ser engraçado e colocaram um segundo sentido onde só havia um. Este narrador, pede escusarem-me se deixei cair o nível de moralidade das personagens e do texto. Caso o diálogo vença os pruridos de susceptibilidade moral dos editores e chegue até os olhos de alguma leitora mais sensível, faça de conta que não entendeu, mas não pergunte a ninguém, para não promover qualquer distúrbio doutrinário, religioso, filosófico ou científico. O que não posso esconder é que, a partir das boas gargalhadas que ambas soltaram, estabeleceu-se um padrão coloquial mais acentuado e toda aquela demonstração de domínio sobre a linguagem ruiu, ficando as duas a se entender em termos mais vulgares, os quais não nos permitiremos reproduzir. Para encerrar, preciso dizer que Assíria saiu convencida de que, além de vigiar o desempenho espírita dos familiares, também tinha de sondar com que entusiasmo Fernando ia à casa de Cleomena para ler o Evangelho.



20. NO CENTRO ESPÍRITA

Cleomena foi levada por Assíria ao coração das atividades evangélicas praticadas pelos irmãos reunidos sob a bandeira do Centro Espírita “Amor, Luz e Caridade”, o que significa dizer que lhe foi dado ajudar na distribuição de donativos aos carentes lá inscritos e devidamente cadastrados, como ainda comparecer às sessões mediúnicas de amparo a espíritos e encarnados em dificuldades de caráter moral.
Passou os seis meses seguintes, inteirando os primeiros nove de conhecimento espírita, entre alheia aos fatos de toda natureza e parcialmente interessada em manifestar-se favorável a uma radical integração nos trabalhos. Não foi à toa que Assíria, vendo a irmã sem entusiasmo, se propôs a forçar o relacionamento entre os viúvos, temendo muito que a simples leitura ou a audição dos expositores causasse mais distanciamento do que aproximação doutrinária.
Eis como se entendeu com Fernando:
— Tenho conversado muito com Cleomena e não tenho encontrado nela aquele elã que demonstra aos sábados, em casa. Aqui no centro, fica a maior parte do tempo calada, como que com medo de dar opinião, sempre fazendo o que a gente manda, desempenhando com relativa facilidade o seu papel de colaboradora, mas de maneira mecânica, tangida por uma força externa...
— E eu não tenho visto isso mesmo?! Nossa cara irmãzinha precisa entender que todos os atos e atitudes que tomamos na vida devem ter o mesmo valor para a história de nossa existência. Outro dia, propus a ela um probleminha na aula de evangelização e ela me saiu com esta, literalmente: “Se o Espiritismo resolvesse todos os problemas, ninguém precisava estudar, porque os espíritos assoprariam em nossos ouvidos todas as soluções.”
— Ela conduz os pensamentos de forma muito prática. Quando nós conversamos de maneira íntima, tudo me parece ficar claro. Ela tem aspirações legítimas e gostaria de encontrar quem lhe pudesse oferecer um ombro amigo para repousar de uma vida insossa. Ao mesmo tempo, quando a gente se põe perante as pessoas aqui no centro ou mesmo nas festinhas lá de casa ou de nossos muitos familiares, ela se retrai, com certeza vendo o fantasma do defunto marido a apontar-lhe um dedo de censura. Há muito tempo atrás, nós conversamos sobre pôr fogo na poltrona em que se sentava o Lalau...
— Ela me contou algo a respeito. Um dia, cheguei cedo para o Evangelho no Lar e procurei saber se havia alguma entidade espiritual guardando o lugar do antigo dono. Você sabe que sinto as vibrações dos obsessores. Pois bem, quem me impediu de sentar foi Cleo, a própria. Ela me disse que não gostaria de me ver ocupando o lugar do marido. Parece que ficou elétrica. Imagine se vai deixar que levem embora a poltrona! Você já viu alguém sentado nela?
— O que eu reparei é que, todo sábado, quando estamos lá, sempre há uma pilha de roupa arrumada naquele assento. Como eu sei o que se passa, nunca sequer ameacei provocá-la, tirando a roupa de lá para alguém sentar. Isto está muito estranho.
O que Fernando não contou foi que no quarto ele entrou, convidado pela viúva, para examinar os ternos do armário, que ela ia doar aos pobres. Não mencionou também que as camisas, que se mantinham dobradas na gaveta, foram retiradas, embrulhadas e transferidas para o bazar, tendo sido ele o portador. Também não tinha como dizer que havia sentido forte tendência a tomar a viúva nos braços e que não se deixara envolver pela tentação, porque, naquele instante, Cleo havia saído por ter ouvido soar o telefone. Quando voltou, veio com um porta-retratos, onde se via a foto do marido, a última de sua vida, em que ele estava de cenho franzido, zangado por haver sido surpreendido pelo sobrinho. Foi uma ducha de água fria na fervura de suas percepções das próprias vibrações.
O que Assíria não disse foi que ficara profundamente decepcionada ao notar que Fernando se deixava assediar com muita facilidade por diversas senhoras, motivo pelo qual não empreendeu com maior pujança o despertar do interesse dele pela solidão da irmã. Entretanto, depois de seis meses de observações, tendo constatado que Fernando se mantinha casto e que das mulheres nenhuma se ufanava por tê-lo conquistado, procurava agora aumentar as suas atividades de casamenteira, buscando trazer a irmã para o centro dos interesses do viúvo.
Mas faltava a ambos esclarecer um ponto sobre o qual tinham evitado falar. Foi Assíria incisiva:
— Era de sua mulher a mensagem que você recebeu naquela primeira reunião na casa de Cleo, não era?
Fernando não se importou em informar:
— Tenho o bilhete aqui na carteira. Quer ler?
— Passe pra cá.
A folha estava bem dobrada mas parecia haver sido manuseada muitas vezes. Assíria abriu e leu:
“Meu querido esposo, Fernandinho, peço-lhe que me desculpe ter-lhe dado tanto trabalho, tanta dor de cabeça. Infelizmente, o meu organismo físico decaiu nos últimos cinco anos de vida e minha cabeça acompanhou. A bem dizer, foi esse o tempo de sua viuvez. Quanto a mim, recuperei em grande parte a capacidade de refletir sobre a existência e me foi dada a possibilidade de saber as razões de minha vida procriadora. Faço silêncio sobre as causas da moléstia mental e lhe asseguro que me encontro muito feliz, tendo sido designada para acompanhar Cleomena, pelo fato de não ter tido a oportunidade de conhecer a maternidade. Se precisar de ajuda, chame pelo meu guia e mentor, conforme ele mesmo me recomendou. O nome dele é Gregório. Isto não quer dizer que os seus guias não sejam poderosos. Estou falando que você deve pedir auxílio a ele, quando houver algum problema que possa dizer respeito ao nosso relacionamento, meu e seu. Fique na paz do Senhor! Jesualda.”
Assíria não se conteve:
— Que maravilhosa mensagem. É toda uma declaração de fé espírita. Digo mal. É uma corajosa apresentação de estado de espírito. Parece que ela está completamente lúcida, recuperada da loucura ou debilidade mental dos últimos tempos. Quanto tempo fazia que havia morrido quando escreveu o bilhete?
— Seis meses, exatamente.
— Você acha que ela escreveu da própria cabeça ou alguém a estava sustentando fluidicamente?
— Gostaria de saber. Eu acho, pelos nossos longos anos de convivência, que ela deu poucas pistas de que fosse ela mesma quem estava ditando o bilhete. A linguagem, evidentemente, está totalmente modificada, mesmo porque ela jamais, que me lembre, escreveu qualquer coisa, apesar de não ser analfabeta. Quando queria escrever uma carta, sempre havia um filho por perto ou eu mesmo, quando ainda tínhamos um trato mais afetuoso.
— O que eu acho esquisito e a respeito conversei muito com o José, é que vocês produziram tantos filhos...
— Foram seis os que nós criamos e mais três que abortaram.
— Então vocês se davam muito bem sexualmente. É como eu com meu marido, que também tivemos quatro filhos, sem nenhum desastre ou frustração. Pensando em meu relacionamento conjugal, devo concluir que vocês eram muito felizes.
Fernando não gostava de enveredar por esses caminhos escabrosos e íntimos, ainda mais porque estavam no sagrado ambiente do centro. E foi bastante direto em seu ponto de vista:
— Querida irmãzinha, em nome de nossa amizade e de nossa estreita e produtiva ligação de trabalho nesta casa, acho que esses assuntos não ficam bem de ser discutidos ao abrigo destas paredes. Não que eu tenha resquícios de moralidade retrógrada. Você sabe que meu espírito é aberto para todos os temas. No entanto, quando se trata de falar de fatos que envolvem a minha pessoa, fico inibido, pensando que estou fazendo os guias perderem seu tempo, pois poderiam estar me ajudando num trabalho mais sério de assistência aos necessitados.
Assíria se desgostou do rumo dado pelo amigo à conversa, julgando ter razão em concluir que estava sendo acusada de irreverência e de desrespeito. Então, partiu para o ataque:
— Eu sei que este nosso templo está sendo protegido por espíritos de gabarito, muito sérios e dignos. No entanto, as particularidades dos relacionamentos entre as pessoas devem ser postas sob as lentes de nossos microscópios doutrinários, para que possamos conhecer quais os parasitos que estão infestando a nossa alma.
— Você está falando em tese, naturalmente.
— Estou fazendo referência aos casos específicos das pessoas que nos procuram com problemas em todas as áreas dos relacionamentos humanos, quando nos abrem o coração e falam sem peias na língua, porque lhes parece que isso é o que há de mais importante no mundo para eles, naquele instante. Se a gente não sabe como é que a mocinha contraiu AIDS, de que forma vamos oferecer-lhe os recursos para entender o que se passou com ela e como é que deve evitar de espalhar o mal?! Eu chamei o tema à baila, porque desejava prestar-lhes, a você e à falecida, Dona Jesualda, uma homenagem, embora atrasada.
— Desculpe-me o mal-entendido...
Assíria considerou que, se se retirasse naquele momento, deixaria o colega intrigado e propenso a considerar a própria vida sexual antiga em confronto com a atual. Sem mais delongas, despediu-se formalmente, deixando o outro como um basbaque perante a própria incompetência.



21. FERNANDO CAI NA REALIDADE

Não é que a tática de Assíria tenha dado certo, mas a verdade é que Fernando andava, desde a época em que recebera o bilhete da esposa, encafifado com o que estaria fazendo o espírito dela ao lado de Cleomena.
Está claro que a vida sexual vinha sendo sublimada por atividades mais do que caritativas junto ao centro espírita. Tentara ver se encontrava alguém que lhe pudesse enternecer o coração, a ponto de sufocar as doces recordações dos tempos de casado. Aproximara-se, mesmo, de algumas mulheres por quem se interessara de longe, mas a presença sempre lhe trazia à mente ranços de traição conjugal.
Eis o que pensou um dia, quando estava em casa a meditar, na cama:
“Se Cleomena não fosse viúva mas mulher livre e desimpedida das recordações matrimoniais, talvez com ela me arriscasse a passar algumas horas em êxtase sentimental. Mas com um defunto a pressioná-la contra a história de sua vida, constantemente a assombrá-la dentro de casa, como é que vou parecer-lhe, caso admita a possibilidade de eu vir a substituí-lo?”
Terá sido suficiente a exemplificação de como estava conturbada a mente de nosso herói, no sentido de demonstrar que andava bem longe da realidade, cheio de fantasmas a rodear-lhe os pensamentos, nas sugestões de existências que se imobilizam, sem futuro e sem esperança?
Pois o bilhete de Jesualda, ao confirmar-lhe todo o acervo espírita de seu retrospecto cultural e religioso, em lugar de fazê-lo entender que o princípio básico do evolucionismo espiritual deveria pautar as realizações de sua vida, decidiu-o pelo respeito ao além-túmulo, estabelecendo como diretriz filosófica a espera pelo desenlace, tolhendo-lhe as iniciativas, com a única perspectiva do reencontro, para o refazimento dos ideais juvenis e da maturidade, vivência que se introjetava perigosamente para as regiões de um passado colocado no pedestal da felicidade. As lutas, os tropeços, a doença terrível da esposa, os partos prematuros e os que deram certo, tudo ganhava foros de superior efeito das causas desconhecidas dos resgates que a doutrina lhe apontava como imprescindíveis. Punha todos os sofrimentos na conta dos lucros e se satisfazia, julgando que a vida lhe fora proveitosa.
Quanto ao futuro, qualquer coisa que se atrevesse a considerar no campo das novidades afetivas representava-lhe um acréscimo de martírios, novas programações de dor, novas intimações para solver problemas cada vez mais difíceis, porque conhecera o bem-estar de uma função decalcada nos padrões evangélicos do amor a Deus e aos semelhantes.
“Por que terei de criar novas situações de crise, segundo os traumas naturais dos relacionamentos humanos?”
Lembrava-se dos momentos em que a libido punha diante de si as façanhas através das quais engravidara tantas vezes Jesualda. Era só pensar naquela barriga a crescer e em mais uma pessoinha a alimentar, dando corda às recordações específicas de cada corrida ao hospital, para diluir os apelos naturais nas águas turbulentas da responsabilidade. E vinham-lhe as crianças a passear nos jardins de seus deleitosos momentos de felicidade e as formas femininas se desfaziam, sem deixar sequer a fragrância imponderável de um contato moral.
“Que estará fazendo Jesualda ao lado de Cleomena?”
Sabia o texto da mensagem de cor. Não tivera a viúva o que extrair de bom da maternidade. Desconhecia ela as ânsias e tensões fisiológicas. Não se lhe acenderam os desejos nem se lhe dera a impressão de ser a criatura transformada em depositária dos homenagens de Deus pela formação de mais um ser a habitar o paraíso terrestre. Não conhecera o vergastar da maldição das dores do parto nem a alegria pela recompensa que tudo faz esquecer ao levar ao seio o produto de suas entranhas, fornecendo-lhe o alimento, a seiva, a divina mistura do néctar e da ambrosia pela qual são ávidos os nascituros.
“Que penosa provação! Quão tremendos devem ter sido os castigos para faltas excessivas contra a natureza! Sem dúvida, deve ter provocado a expulsão prematura dos fetos indesejados em outras encarnações, para receber a afronta tremenda de sua incapacidade biológica!”
Ia respirando esses ares metafísicos, dando-se por satisfeito por haver encontrado na parceira da vida toda a mulher que satisfez os princípios das leis naturais, ainda que encontrasse, no final, o acréscimo de misericórdia do Senhor naquela alienação da realidade, em que pairava, como criança, bem distante das tragédias dos seres humanos. Agora regressava para dizer-lhe que estava bem, que cuidava de outro espírito, que lhe dava aulas de como postar-se perante o sofrimento...
Ia por aí, ora dando tonalidades poéticas aos sentimentos fugidios promovidos pelas reminiscências positivas, ora justificando o fado através dos fatores imponderáveis da lei de causa e efeito, até que lhe perpassou pelo cérebro a sombra de uma idéia que aquilatou, temeroso, fantasiosa e improcedente:
“E se Cleo não adentrou ainda na menopausa, estando sendo preparada para uma gestação tardia?...”
Esse pensamento iria desencadear outra série imensa de hipóteses existenciais, cansativa reflexão através de cuja reprodução não desejo expor a personagem ao bulício das suspeitas infundadas de que estaria desenvolvendo o processo de restrição aos compromissos que pensava haver assumido com os benfeitores e mentores do etéreo, por ocasião de seus passeios noturnos, as viagens astrais que acreditava realizar mas de que não guardava lembrança alguma.
“Realmente, as pessoas que contraem segundas núpcias são muito corajosas e não temem enfrentar certa condição de inferioridade quanto ao cônjuge que partiu primeiro. Cleomena é viúva. Eu sou viúvo. Não estará aí a solução para todos os problemas que tenho criado em minha maneira de imaginar o regresso à pátria espiritual? Se ela fosse solteirinha, poderia pleitear a minha companhia na esfera que nos aguarda. Sendo viúva, poderá ser recebida pelo marido, enquanto Jesualda virá reencontrar-me numa boa, já que tem estado ao lado daquela que irá ocupar fisicamente o lugar dela junto a mim, sem grandes entraves de caráter moral, porque, ainda que Cleo venha a engravidar, terá tido a assistência justamente da maior interessada em me ver isento de novos compromissos amorosos.”
Eis a conclusão a que chegou e que o levou a considerar a hipótese de firmar com Cleomena uma contrato provisório de ajuda mútua, no amparo que lhes faltou por quem de direito.
Na noite que antecedeu a conversa decisiva entre os dois pombinhos, Fernando foi mais despachado na fantasia sexual que o embalou, não tendo chegado ao clímax de suas lucubrações eróticas, porque Assíria compareceu bem no momento em que conjugava corpos e espíritos, trazendo ela pela mão uma moçoila de quinze primaveras, tendo gravada numa faixa que lhe descia do ombro esquerdo a frase: Condenada à morte pela droga e pelo sexo.
“Estará Gregório atento a estas minhas divagações? Aprovará a deliberação de contrair novas núpcias? Dar-me-á a satisfação de comparecer a uma sessão, para um comunicado esclarecedor? Ou estarei sendo impedido de cair nas malhas de obsessores desejosos de vibrações solitárias, para sua satisfação egoísta e prejudicial aos incautos que se deixam cair em tentação, sem vigilância, conforme a prescrição de Jesus?”
Agarrou-se na descrição de um futuro compartilhado e imaginou-se mudando-se para a casa de Cleo, acabando por sonhar que se sentava na famosa poltrona, sendo expulso pelo espírito de Lalau, que não admitia que ninguém se jogasse sobre o seu fantasma, lugar nobre, de onde, cetro na mão e coroa na cabeça, reinava absoluto.
O pesadelo fora repentino e tivera o mérito de acordar o pobre sonhador. Lembrou-se de que adormecera sem orar mas não chegou ao final das preces habituais e já partia para nova aventura nas terras de Morfeu.
De manhã, ainda sonolento, antes das abluções e cuidados higiênicos, punha em xeque a idéia de ir habitar nos domínios do rival:
“Se Cleo não quiser as acomodações que agasalharam Jesualda, juntaremos os haveres e partiremos para um negócio na imobiliária de um dos meus amigos espíritas.”



22. BRILHA O SOL

Logo cedo, Fernando foi à casa de Cleomena. Horário esquisito e inusitado.
Recebeu-o a senhora de peignoir, rugas à mostra, cabelos amarfanhados, entorpecida como quem é retirado do leito após mais de dez horas de sono.
Sem-cerimônia, Fernando foi entrando, dizendo que ia filar o café da manhã numa casa amiga. A bem da verdade, para dar cor ao diálogo, o que disse, entre outras coisas, foi o seguinte:
— Cleo, querida confreira, vim para conversarmos. Enquanto isso, hoje vou furar o esquema de meu café com leite de padaria e peço-lhe que me prepare a mesa, espantando de lá o fantasma do Estanislau.
Cleomena estremecia a cada palavra, ouvindo muito mais as entonações, que estavam adquirindo certa melodia, embora tudo lhe parecesse o batuque dos tambores, marcando um ritmo desarmonioso.
A poesia é do narrador mas é preciso descrever o ambiente sentimental de algum modo, para transmitir o agrado e a surpresa daquela mulher madura e inexperiente.
Fernando sabia de seu próprio atrevimento e ia adiantando os temas:
— Depois que você puser uma roupa adequada para receber a minha importante pessoa, nós vamos planejar o nosso dia juntos. Agora vá pôr na fisionomia o pó matinal da felicidade, porque não se compreende que tenha perdido o nascer do sol e também vá desperdiçar a tepidez desta manhã primaveril.
Se o intento do homem era fazer-se diferente do ex, cuja presença sentia em dois retratos dispostos no seu campo de visão, tinha conseguido, pois Cleomena estava absolutamente atribulada com o jorro dos pensamentos que não conseguia estancar. Praticamente fugiu para o fundo da casa, em busca da pia e dos cosméticos.
Lá ficou Fernando sozinho, como havia planejado, porque tinha por objetivo devassar algum segredo que revelasse a personalidade do anterior nos afetos da pretendida. Ficou tentado a sentar-se na famigerada poltrona mas preferiu dar curso ao projeto de vasculhar a biblioteca, na busca de algo valioso.
Parou diante da estante repleta de livros. Foi catalogando mentalmente os títulos, percebendo desde logo o que Assíria também havia notado, ou seja, que, junto às obras estritamente doutrinárias do Espiritismo, outras lá estavam de caráter mais ou menos metafísico, mais ou menos esotérico ou religioso, sempre a sugerir uma vida intelectual voltada para o misticismo.
Não querendo folhear os mesmos exemplares, foi retirando das prateleiras um por um, a ver se lhe caía algum papel indiscreto, com anotações misteriosas. O que mais viu de importante foram muitas inscrições às margens, como se o leitor comentasse os temas. Temeroso de encontrar algo com que se entreter, perdendo o valioso tempo de que dispunha, não lia os escritos, mas separava as obras anotadas das outras, formando duas pilhas de mesma dimensão.
Como havia aberto as janelas e acendido as luzes, podia à vontade esquadrinhar o fundo dos armários, sem sofreguidão, como um detetive meticuloso que sabe que deverá encontrar indícios do que procura.
Teve meia hora para extrair do cepo os renovos ressequidos e improdutivos. Quando Cleomena entrou no escritório, voltou-se para ela, afirmando:
— Tem muita obra aqui de interesse para a biblioteca do centro. Outras não receberiam o aval dos companheiros, porque contrariam os postulados de Kardec. Dividi em dois montes, um das que receberam anotações, outras em estado virgem. Que você pensa fazer com os livros?
Cleomena havia estabelecido como princípio, enquanto se arrumava, que deveria sustentar sua individualidade isenta das influências poderosas de quem percebia estar instalando-se em sua casa, sem haver recebido permissão. Por isso, adotou uma expressão fria e simplesmente pôs um fim no assunto:
— Como você já decidiu o que vamos fazer hoje, depois nós vamos definir a melhor resposta para a sua pergunta, conforme lhe for do agrado. A mesa está servida, mas o pão está saindo da geladeira e não do forno.
— Por isso não, minha cara. O embrulho que deixei na sala contém pãezinhos quentinhos e rosquinhas crocantes.
Na copa, a mesa comportava as xícaras, os bules e demais petrechos que pôde a dona da casa reunir: um copo de requeijão pelo meio, umas fatias de mozarela cascuda, uma lata com alguns biscoitos, sobra da reunião do sábado.
— Dona Cleo, onde a Senhora quer que eu sente?
— Diante de uma das xícaras, Dom Fernando.
— O que eu quero dizer é se não irei ocupar o lugar do Lalau.
— Fique sossegado que o lugar dele ninguém toma, a menos...
Não ousou concluir, mas Fernando farejou a facécia e insistiu:
— A menos...
Riram ambos perante o jogo que se estabelecia claramente ao redor dos objetivos comuns ainda não declarados. Mas Cleomena condescendeu em terminar a frase:
— A menos que vá ao cemitério e tire o cadáver do esquife.
Fernando não esperava tanta crueza de humor negro, mas se agradou do vigor da imagem, tanto que deu continuidade ao diálogo:
— Se formos juntos, o túmulo de Jesualda ainda não foi violado.
As macabras expressões tiveram o condão de arrefecer os ânimos criativos de ambos, mas foi Cleomena quem encontrou a porta de saída da câmara mortuária:
— Em lugar de ficarmos como bobos a contemplar a nossa estupidez, vamos até a igrejinha do cemitério, para orarmos pelas pessoas que estamos tornando nossos fantoches.
— Ainda bem que você se lembrou de que sempre existe uma capela onde os vivos podem encontrar-se com os mortos numa boa. A bem da verdade, estamos falando dos antigos parceiros, porque ambos sabemos o que vim fazer tão cedo em seu lar, doce lar.
— Eu não estou sabendo direito. A menos que toda essa alegria a que não estou acostumada signifique que você vai me convidar para algo que faríamos com os nossos cônjuges.
Mal falou, percebeu que poderia ser mal interpretada, caso Fernando pusesse um outro sentido à frase. E foi o que ele fez, revelando indiretamente que compreendia a intenção da anfitriã:
— Com os nossos consortes, só fizemos o que a natureza nos ofereceu como regra, ou como lei, segundo disseram os espíritos de luz a Kardec. Lá está n’O Livro dos Espíritos. Mas nós precisamos nos conhecer melhor, antes de contrairmos compromissos mais sérios. Este seu café está muito gostoso. Você não costuma passar manteiga no pão?
O pedido estava formulado. Se Cleomena não percebesse e não desse uma resposta afirmativa, poderia causar o fenecimento do impulso do homem que se atrevera a invadir-lhe a intimidade. Mas não titubeou:
— Aceito a sua sugestão, embora nós já nos conheçamos até que bastante bem, porque as pessoas que convivem trabalhando juntos e discutindo os pontos da doutrina, como temos feito tantas vezes, sem falharmos jamais, sabem o que as outras pensam e como pensam.
— Então posso assegurar-lhe que você tem atraído este seu modesto pretendente pelas tiradas inteligentes como essa. Por que você não se dedicou aos estudos, não cursou uma faculdade, não obteve um bom emprego, não se abriu para o mundo, tendo permanecido reclusa em casa a vida toda? Desculpe-me se lhe pergunto todas essas coisas. Eu tinha planejado convidá-la para almoçar num bom restaurante, onde a gente podia partir para uma tarde num shopping, algo bem descontraído, sem nenhuma intenção de ficarmos a sós...
Cleomena sorriu com muito gosto e afiançou:
— Você o que mais está querendo é ficar a sós, tanto que veio surpreender-me logo de manhã, sabendo que não temos nenhum compromisso, livres e desimpedidos que somos. Meteu-se em meu lar doce lar com a certeza deste nosso tête-à-tête, sem testemunhas e sem arroubos, porque de manhã o Sol brilha e nos faz ver todas as coisas com total sabedoria.
— Permita-me beijar-lhe a mão!
Sem aguardar pela resposta, Fernando levantou-se, passou o guardanapo nos lábios, e apanhou a mão que Cleomena lhe estendia, depositando-lhe no dorso um ósculo absolutamente respeitoso, mas fremente e deliciosamente feliz.
Cleomena levantou-se e puxou o homem de encontro a si, oferecendo-lhe os lábios, para um beijo em que selaram os sentimentos e as emoções de um primeiro encontro verdadeiramente amoroso.

Às duas horas da tarde, tomavam lugar em um requintado restaurante, juntando as cadeiras e entregando-se às borbulhas de um champanhe gelado.
Às quatro, tinham assentado a data do matrimônio, cujos preparativos não demandariam menos de três meses para serem ultimados. Mas a lua-de-mel estava em sua plenitude.



23. REJUBILAM-SE OS DO ETÉREO

Firmino exultava:
— Caro Jarbas, nem sempre temos a feliz oportunidade de presenciar tão completa vitória das forças espirituais sobre os encarnados. Talvez canhestramente esteja eu a deduzir que os objetivos do casal sejam o de uma conclusão de vida em harmonia com as diretrizes da doutrina, sob o manto protetor do Cristo. No entanto, do ponto de vista dos beneméritos protetores, terão os nubentes o ensejo de constituir um lar que possa agasalhar algumas crianças órfãs, para que se dê ensejo a Cleomena de, não importa se parcialmente, aprender alguns aspectos da maternidade, como ainda a Fernando o equilíbrio emocional para favorecer o legítimo interesse de levar avante a idéia de uma casa de atendimento espírita.
Jarbas também estava contente com os eventos terrenos, mas não se punha a soltar fogos, porque não adquirira a arte da pirotecnia, para a qual os discípulos estão sempre propensos. Em todo caso, pôde observar que Firmino estava tratando o tema sob um ponto de vista benevolente, porque punha fé nos resultados que adviriam do consórcio físico entre duas criaturas empenhadas em projeto de felicidade.
— Quer que eu lhe faça alguns reparos em seu entusiasmo, sem, contudo, demovê-lo de sentir que algo bom se prepara para eles?
— Acho, pelo espectro de saúde orgânica e psíquica que estou preparado para examinar a partir das emissões áureas das personagens em questão, que possuem todos os requisitos para efetivarem um relacionamento que irá transformar duas solidões em um bem comum.
— Que pensa que possa acontecer (veja que estou apenas levantando uma hipótese) caso os filhos de Fernando se posicionarem contrários ao conúbio paterno?
— Talvez algum passageiro estremecimento. Diante, contudo, da irreversibilidade da tomada de decisão do pai, terão de ceder, porque não me parece que sejam maus filhos, tendo o progenitor que têm.
— Você já pesquisou a respeito?
— Não, senhor.
— Esse senhor é muito elucidativo, para quem tem o hábito do exame das manifestações e expressões através da linguagem. Significa que reconhece estar em débito com a lógica dos raciocínios, porque está argumentando sem base na realidade. É isso?
— Exatamente, prezado instrutor e amigo.
— Agora que você conheceu o influxo da ciência da interpretação, busca impregnar em seu vocabulário terminologia adequada para me desviar a atenção do fulcro a que estava direcionado. Simples guerrilha, meu caro, para quem está acostumado a cercar o inimigo com esquadrões militares de grande potencial de fogo. Pois bem, e se os filhos de Fernando se opuserem ao casamento, com alegações emocionais, considerando a memória de Jesualda, os seus sacrifícios e sofrimentos?...
— Tal perspectiva não existe, contornada com grande antecipação e maestria por Gregório e Celestiana, que tiveram a idéia de fazer a protegida escrever uma mensagem bastante clara quanto a ter superado os traumas da encarnação, bem como quanto ao fato de ela mesma estar dando amparo à noiva. Agora não estou postando-me como franco-atirador, senão que ataquei pelos flancos, buscando cercar a cidadela inimiga.
Jarbas refletiu e saiu-se com esta:
— E se os filhos não partilharem dos ideais do Espiritismo, lustrando os bancos e cadeiras de outras instituições mais religiosas e menos científicas?
— Se o caro mestre o diz, é porque sabe. Não iria atirar com balas de festim. Levanto a bandeira branca e peço-lhe uma trégua.
— Exijo rendição incondicional, caso contrário desloco os meus exércitos e mais a força naval e todo poderio aéreo.
— Não é preciso tanto. A praça inimiga se rende.
Abraçaram-se como velhos amigos, guardando o arsenal bélico para ser melhor empregado em ocasião oportuna.
Foi Firmino quem voltou à carga, mas sem a euforia de antes:
— As resistências serão tão fortes que porão por terra a doce ternura das juras de amor?
— E quem poderá saber?
— Mas foi o meu bom Jarbas quem asseverou...
— Não asseverei coisa alguma. Apenas refreei o seu desejo de comemorar, porque alguém estourou uma garrafa de vinho espumante.
— O que significa...
— ... que o nosso trabalho não se satisfaz com pequenas conquistas, porque temos de ter presente que os humanos são instáveis, bastando alguns delíquios orgânicos para que o seu humor flutue em função de problemas que assumem ares terríveis, quando não têm domínio das causas nem perspectiva dos efeitos. O desconhecido assusta, mesmo quando as pessoas estão convictas dos princípios evangélicos e demais preceitos da doutrina espírita.
Firmino não se continha quanto a expor um pensamento que lhe ocorrera:
— Sem mesclar em minhas expressões nenhum fato de caráter emocional, mas dando vazão à necessidade de investigar todos os aspectos possíveis dessas duas vidas, que neste exato instante estão entrelaçadas sentimentalmente, devo colocar na ordem do dia a hipótese (porque eu também tenho direito a elas) de que existe a possibilidade de Cleomena engravidar, desde que ovula ainda e a contagem de espermatozóides no líquido seminal de Fernando é altíssima, conforme se comprova através do número de vezes que fecundou o útero de Jesualda.
— Como você deseja constatar se a sua tese pode confirmar-se pelos fatos? Há diversas maneiras, a mais cômoda de todas é dar tempo ao tempo, ocupando-nos das tarefas rotineiras, estudando casos reais na biblioteca, conversando com os colegas de turma para os relatos verídicos ou buscando os resultados dos exames antigos que davam a nossa irmã como incapaz de gerar filhos.
— Pode ter havido erro médico?
— Pergunte de novo, reformulando a hipótese.
— Pode ter havido uma correção da falha biológica, por participação técnica dos mentores espirituais, que atuariam diretamente sobre o sistema reprodutor, ajustando o aparelho perispirítico para a recepção de entidade fadada à reencarnação?
— Terá sido assim que Isabel, esposa de Zacarias, concebeu João, na velhice?
— O velho caso relatado no Evangelho de Lucas...
— Você sabe a que estou referindo-me.
— Sei que posso acrescentar algo mais próximo dos mortais, como seja o implante de fetos criados in vitro nas chamadas barrigas de aluguel, expressão bastante depreciativa quando se trata de avós dando guarida a netos, em idade que até há bem pouco tempo seriam consideradas inimagináveis para tal efeito.
— Vejo que você tem acompanhado os acontecimentos terrestres. Parabéns!
— Ora, professor, bem sei que devo enfrentar muitas outras encarnações. Tanto melhor se conseguir acompanhar as ondas civilizadoras, muito especialmente aquelas que abrem perspectivas de desenvolvimento profícuo, porque os homens nem sempre hão de ficar iludindo-se com as discussões da moralidade que se limita a ver o mundo com a luneta distorcida de quem se atribui todas as visões e todos os conhecimentos.
— Ainda bem que você não está discorrendo para uma platéia de estudiosos do Espiritismo.
— Se estivesse, nada diria ao contrário, porque a verdade está acima da susceptibilidade e do egoísmo. Mas respeitaria as figuras humanas dos meus irmãos, acrescentando que, um dia, eles verão a existência através de minha lente, como também irão observar a verdade colocada nas lâminas de seus microscópios evangélicos.
— Se a poesia se coadunasse com a ciência, Platão não teria posto os poetas do lado de fora de sua República...
— Louvo-lhe, querido amigo e mentor, a sua habilidade em me fazer discorrer abertamente, externando os mais íntimos pensamentos. No entanto, devo-lhe uma resposta. De acordo com meu ponto de vista canhestro, como anteriormente afirmei, acho, agora mais do que nunca, que os guias do casal vão ter um trabalhão para coordenarem os anseios em conflito, facultando a Cleomena o conhecimento das alegrias e das dores inerentes à maternidade e a Fernando o justo orgulho de haver fundado um centro espírita.
— Vejo que optou por aguardar os acontecimentos, sem abrir mão, evidentemente, de influenciar, na medida do possível, as decisões mais adequadas para a consecução dos programas de vida dos irmãos encarnados. Deus nos proteja a empresa e nos dê condições de aproveitar as lições que dela provierem!
A prece condicionava o discípulo às reflexões sobre os diversos tópicos discutidos, obrigando-o a reformular o que estivesse menos correto e a caracterizar as dúvidas sobre que deveria aplicar toda a sua atenção. Dessa análise resultaria, é preciso que antecipemos, um sorriso de imensa satisfação por reconhecer que era capaz de gracejos sem agressões, apenas no intuito de tornar as pessoas mais felizes. Rejubilava-se, portanto.



24. PREPARATIVOS PARA O CASÓRIO

O que mais iria preocupar o casal era a residência onde habitariam. Se Fernando podia oferecer um apartamento de dois quartos, bem localizado, com vizinhança boa e tranqüila, para Cleomena a sua casa térrea possuía os confortos de uma copa e de um escritório, além das dependências externas, de bom jardim e de amplo quintal. Perdia quanto a ser bem mais devassável por curiosos e amigos do alheio, mas sempre havia a possibilidade de se erguerem mais os muros e de se construir um salão nos fundos, onde se formaria o núcleo inicial da projetada casa espírita.
Havia algo que iria preponderar na escolha: a privilegiada localização do lar de Cleomena quanto às casas de comércio. No circuito de dez quarteirões, até um banco existia, além de excelente supermercado, farmácia, armarinhos, bazares, lojas de confecções e de tecidos, restaurantes e aquele shopping center. A bem da verdade, o prédio estava resistindo bem ao assédio dos pontos comerciais.
Havia também bares, um clube de danças e um templo evangélico, a congregar pessoas de diferentes categorias sociais e culturais, a soar a campainha seguidamente para as contribuições e para a mendicância. A isto Cleomena contrapôs a proximidade da casa de Assíria e tudo se resolveu a contento, não sem antes Fernando obter parecer técnico daquele amigo corretor de imóveis:
— Viva na casa enquanto a vizinhança não perturbar. Conserve o apartamento, alugando-o. Deixe comigo a administração dele. Mais para a frente, se for o caso, vocês se mudam para o edifício, derrubam a construção e erguem uma big residência, com um salão na frente para qualquer ramo de negócio.
— Estava pensando num prédio para um centro espírita.
— Nesse caso, vocês passam nos cobres a casa e, com o bom dinheiro que ela vai representar, vão poder adquirir um terreno na periferia, bem mais barato, lá mesmo onde o atendimento ao povo é mais urgente. Deixe o centro da cidade para as uniões e federações.
— Nada como falar com um profissional.
— Às suas ordens, irmão. Assim que você liberar o apartamento, eu passo por lá para ver o estado dele, quais as providências e, no máximo em dois meses, garanto que estará ocupado.
Dedicamo-nos a descrever uma ínfima parte das preocupações materiais do nosso herói, porque é preciso ressaltar que a vida oferece campo de luta em que se provam a resistência aos vícios e o equilíbrio nas virtudes.
No íntimo, perpassou pela imaginação de Fernando que o casamento poderia oferecer algum lucro, ainda mais que a legislação cobria a pensão da viúva, apesar das segundas núpcias. Sendo assim, iria destinar às obras de beneficência do centro tudo quanto representasse acréscimo provindo da nova situação econômica.
Haveremos de ver que o futuro iria reservar surpresas nesse setor.
Por seu turno, definida a moradia em que iriam viver, Cleomena começou a pensar seriamente em trocar muitos dos móveis, ainda mais porque a famosa poltrona deveria tomar chá de sumiço. Mas não quis deliberar sozinha e, numa das deliciosas tardes em que passeavam pelo shopping, mãos dadas e olhares longos e provocativos, sentaram-se diante de um sorvete e fizeram a lista do que iria ficar e do que iria sair. Foi inevitável o convite:
— Querida, vamos ter de ir ao meu apartamento, para ver o que vai querer aproveitar.
Era o estabelecimento definitivo de seu relacionamento amoroso aos olhos da comunidade, muito desconfiada pelas coincidências dos horários de chegada e de saída em todo lugar.
— Querido, vou ter de enfrentar as línguas das comadres do prédio. Nos arredores de casa, bem pouca gente existe interessada na vida alheia. Já onde as pessoas se conhecem tão bem, numa convivência de longa data, qualquer mudança nos hábitos há de chamar a atenção.
— Fizemos bem em não dar festa. Não precisamos dos presentes e iríamos gastar demais. A viagem ao Nordeste vai desafogar os mexericos e, quando a gente voltar, todos estarão resignados.
— Você já contou para os seus filhos?
— Sabe que estou com receio? Tenho a impressão de que não vão receber muito bem.
— Se eu fosse mocinha e você, o rei do abacaxi ou o empresário do ano, poderiam reclamar. Mas estamos apenas juntando os trapos...
— Não se esqueça de que existe um inventário e um espólio e nós dois estamos querendo registrar tudo no tabelião. Tenho cinco propriedades e meus seis filhos não querem nada por enquanto. Sendo assim, a renda continuará sendo minha. Mas vai dia, vem dia, e vinte e cinco por cento de tudo, pelo menos nominalmente, vai ter de passar para eles. Ainda bem que esses procedimentos legais são morosos.
— E se você não vender nada?
— Melhor para eles, que vão dividir tudo entre si, quando eu desencarnar. Se me desfizer hoje de algum imóvel, a metade do dinheiro é minha por direito. Da outra metade, tenho de receber metade. Não traz vantagem para eles a venda. Se não me casar, eles vão aceitar que tudo fique como está. Tenho sessenta e três anos. Quantos mais você acha que viverei?
— Eu quero que você chegue, no mínimo, aos noventa e tantos. Vamos curtir uns trinta. Quarenta e nove mais trinta igual a setenta e nove. Para mim está muito bom como perspectiva de vida.
— São essas contas que me fazem achar justíssimo que a gente vá até o apartamento. Lá há muito com que nos entreter, porque você vai ter de separar até alguns pertences da Jesualda a que minhas filhas e minhas noras não deram cabo. Sabe que até dois beliches ainda estão montados desde os tempos em que meus últimos filhos eram solteiros?!
— Mas devem ter tido algum uso ultimamente, com a separação de dois deles. Devem ter passado alguma temporada com o pai.
— Passaram nada. De vez em quando um ou outro casal aparece mas nunca ninguém passou uma noite sequer.
— Você está me dizendo isso para me dar sossego quanto a alguma estadia de um deles no nosso futuro lar...
— Também. Mas estou dizendo, principalmente, para demonstrar que eles estão noutras. Eu já lhe disse que só um é espírita?
— Disse que as duas moças são evangélicas e que três rapazes não são nada.
— Os dois que estão de caso novo não posso dizer que apito tocam. Você sabe que as mulheres é que arrastam os namorados para esta ou aquela igreja. Quando o rapaz começa a ir muito aos estádios de futebol, pode contar que está preferindo as companhias dos amigos...
— E quando não se sabe aonde vai, a história pode ser bem mais perigosa para o relacionamento.
— Você quer mais sorvete?
— E aumentar estes meus maravilhosos cinqüenta e seis quilinhos?... Deus me livre! Eu sempre cozinhei mas soube o que faz bem e o que faz mal, o que engorda e o que alimenta. Você nem vai sentir, mas vai perder esses seus quinze ou vinte a mais.
— Trinta e dois.
— Tudo isso? Vamos ter de fazer exame pré-nupcial, sem brincadeira. Chega um velório...
— Será que vamos ter o nosso primeiro ponto de discórdia?
— Não haverá atrito algum, se você não for teimoso. Como é que dizem os espíritos nas sessões de desobsessão?
— Não sei a que você se refere.
— Ora se sabe. E muito bem. Eles dizem que foram suicidas involuntários, porque não cuidaram como deviam da saúde. E olha que são os sofredores que nos passam essas lições. Se eu repetisse as coisas que dizem os guias...
— Diga uma só, por favor. Eu gosto de ouvir você malhando firme nos vícios e defeitos alheios.
— Não me venha com essa malícia barata de pessoa experiente e vivida. Eu falo dos defeitos alheios do mesmo modo que aponto para os meus, como no caso em que falhei quando não dei atenção ao que me dizia aquela senhora preocupada com o filho. Ele acabou preso e eu não dei nenhum conselho que pudesse orientá-la.
— As pessoas são responsáveis pela sua sorte, porque possuem seu livre-arbítrio.
— E eu não preciso repetir nenhum ensinamento dos benfeitores, porque você já falou por mim.
Enquanto caminhavam no meio do bulício da multidão de volta para a casa de Cleomena ali perto, onde ficara o carro de Fernando, este perguntou de repente, sem mais nem menos:
— Que você acha de a gente manter na sala a poltrona do Lalau?
Esperava desencadear uma onda de protestos: que não ficava bem, que a sombra do passado não deveria obscurecer a vida dos amantes, que o ex deveria estar numa esfera mais evoluída, estudando com os anjos e arcanjos, no mínimo aprendendo no Ministério do Restabelecimento Perispirítico de uma colônia no plano astral superior e não iria incomodar-se com o fato de se pôr fogo em seus pertences materiais. No entanto, Cleomena foi lacônica e incisiva:
— Se é isso o que você quer, ela fica no mesmo lugar.



25. A POLTRONA

São tão importantes os fatos que rodeiam o dia do casamento, que a descrição deste passou totalmente a segundo plano.
Para começar, um mês antes da data, aliás marcada rigorosamente dentro dos períodos menstruais, para o que Cleomena não conseguiu prescindir da ajuda de Assíria, certos enjôos acometeram o organismo da nubente, de sorte que, para resumir, o exame pré-nupcial que sugerira se transformou em exame pré-natal.
Cleomena estava grávida, nem mais nem menos.
José brincou dizendo que eram trigêmeos, para tirar o atraso, mas o que fez mais graça, à sorrelfa, foi a insinuação de um dos filhos de Fernando, que imaginou se não seria adequado um exame de sangue para se conhecer a verdadeira paternidade do feto. Mas isso foi pura maldade de quem se frustrara pensando que poderia sustar o casamento paterno temporão.
Enfim, a festinha particular acabou aberta aos amigos do centro espírita, porque não se poderia convidar uns e não outros, havendo todos os parentes de comparecer, inclusive, para espanto do casal, uma irmã do Lalau, convidada por desencargo de consciência, e todos os cunhados e cunhadas de Fernando, a quem o casamento havia sido anunciado por telefone. São surpresas muito agradáveis a quem deve sentir-se querido e respeitado e de quem deseja constatar, finalmente, se a união não houvera sido forçada.
Cleomena percebeu tudo, tendo ficado muito intrigada como é que a notícia de sua futura maternidade se espraiara, mas Fernando matou a charada de prima:
— Eu falei aos meus filhos, porque sabia que iria sofrer resistências quanto à herança, precisando afiançar que passaria todas as propriedades para eles, inclusive o apartamento, que não se preocupassem, porque iria residir com você. Daí, a minha família foi avisada, é claro. A sua, como segurar a língua de Assíria?
Esta conversa, que mais pareceu um monólogo, se deu no início da viagem ao Nordeste, durante a qual José e Assíria se encarregaram de fiscalizar uma companhia contratada para pintura e reparos da casa, inclusive limpeza geral e levantamento de mais um metro de muro, com a competente grade de segurança lá no alto.
Recomendação indefectível:
— Assíria, minha amada irmã, por favor, não deixe que mexam na poltrona do Lalau. Se quiserem deslocar, podem. Mas passar o aspirador ou impermeabilizar o tecido, só sob minha supervisão.
— O Fernando sabe disso?
— É claro que sabe. Foi ele quem me pediu para deixar a poltrona no lugar de sempre. Foi uma esquisitice, mas talvez seja para demonstrar que respeita os meus sentimentos...
— Ou para confirmar mais tarde se o fantasma do Estanislau ainda vem ocupar o antigo lugar. Esses médiuns têm as suas manias.
A conversa ainda teria outros desdobramentos, mas episódicos, de modo que vamos nos situar naquela sala remodelada, com móveis aproveitados do apartamento, outros novos e outros definitivamente excluídos. Além de um espelho grande que tomava toda a parede, permanecia soberana a famigerada poltrona, com a sua toalha de renda disposta cuidadosamente no encosto, e algumas roupas dobradas, prontas para o engavetamento.
Assíria ficara com o casal e estava com a irmã na cozinha, preparando o jantar, logo após proveitosa leitura do Evangelho. José saíra com os filhos para assistir a uma palestra de Guilherme, que faria sua estréia como expositor, sob a orientação do experiente Rodolfo. Voltariam para a refeição, a convite do dono da casa, que não fora para dar assistência à esposa, na eventualidade de uma corrida ao médico, porque a fase dos enjôos estava no apogeu.
Sozinho, pois, a perambular pela casa, Fernando pareceu ter visto uma sombra passar do corredor para a sala. Não se arrepiou, como seria de se esperar, para buscar um efeito físico, como o vôo de um besouro, de uma borboleta ou de uma vespa perto do lustre. Na sala, não viu inseto algum, mas um frêmito mediúnico pronunciado anunciou-lhe que havia alguém com desejo de estabelecer contato.
No etéreo, Firmino, na companhia de Jarbas, observava os esforços de Jesualda para chamar a atenção do ex-marido. Sabia que ela estava recebendo o amparo fluídico de mais alto, porque não havia mais nenhuma entidade infeliz na casa, todas retiradas por ocasião do término da reunião doutrinária. Naquela tarde não houve manifestação mediúnica, de sorte que a Fernando pareceu natural que alguém vibrasse nesse sentido.
Firmino intrigava-se com a pouca possibilidade de recepção de mensagens do encarnado e interrogou o mentor a respeito:
— Sabemos que Fernando, apesar de sensível aos eflúvios do etéreo, não dá passividade para as comunicações diretas. Estará apto a sentir intuitivamente o que Jesualda deseja informar?
— Certamente, caso contrário não teriam permitido a ela perder tempo. Observe, apenas, e ajude no direcionamento energético das vibrações para o centro cerebral de Fernando...
— A glândula pineal ou epífise.
— Silêncio e concentração, por favor.
De fato, Fernando foi levado a notar que as peças de roupas colocadas sobre a poltrona eram todas de seu enxoval. Não pensou duas vezes e retirou-as com a intenção de levá-las para a camiseira no quarto. Em menos de cinco minutos, habituado que estava por ter passado algum tempo a cuidar de si mesmo, vinha de volta à sala, com a firme determinação de se acomodar na poltrona. Antes, porém, deu uma passada pela cozinha, a ver se a mulher estava entretida, para não dar nenhum flagrante.
Tudo certo, adiantou-se depressa e sentou-se, como a desafiar as forças misteriosas do etéreo.
Firmino não se conteve:
— Como pode ser tão importante que ele se acomode no lugar do outro? Não me parece...
— Silêncio e concentração, por favor.
De fato, assim que se sentou, algo estranho aconteceu ao assento. Amolgou-se lentamente e Fernando praticamente se entalou no fundo que se rompeu. Por sorte sua, não houve rangido que revelasse o que estava ocorrendo. Fernando se esforçou, pôs as mãos nos encostos laterais, já temendo que também afundassem, até que conseguiu livrar-se da incômoda situação. Mas não havia como retornar com a roupa para o disfarce de sua proeza. O jeito foi investigar o que acontecera ao assento.
O homem de trinta e tantos quilinhos a mais, sem se lembrar de se afligir por não haver perdido um grama sequer, levantou a almofada solta de espuma e encontrou uma tábua corroída por cupins e mais ou menos esfacelada. Na tentativa de compor as partes que haviam derreado, acabou ficando com elas na mão, com os olhos muito surpresos por descobrir debaixo do assento, que percebeu removível, duas pastas de elástico cobertas de poeira.
Firmino, alheio à necessidade de se manter em sintonia com as vibrações produzidas por Jesualda, queria ver o que tinha sido escondido pelo antigo proprietário.
— Mestre Jarbas, você sabia da existência dessa papelada?
— Não. Mas vou adverti-lo de que, se se trata de segredos pertinentes àquele espírito sofredor que paira nas trevas, não poderemos vasculhá-los com a nossa curiosidade improcedente.
Jesualda pareceu estranhar a presença dos dois, examinou-os detidamente, pareceu contentar-se com o que viu e lhes informou:
— O conteúdo dessas pastas se resume em noticiário médico relativo a exames de saúde realizados por Estanislau e que ele ocultou dos olhos da esposa. Há também alguns escritos apagados, quase ininteligíveis em sua totalidade, que refletem o estado de espírito de quem os escreveu, em função das idéias religiosas e doutrinárias contra as quais se rebelava. Nada que possa atiçar estudos mais profundos da psique humana em geral, mas que poderá ser útil para Fernando e, por via de conseqüência, para seu relacionamento com a esposa e com o filho que traz a nossa irmã no ventre.
Não precisamos indicar as fases psicológicas por que passou sucessivamente o nosso herói. Da perplexidade, saiu para a corajosa atitude de tomar os pequenos fardos poeirentos, e daí a correr para a biblioteca, sem se mostrar as mulheres na cozinha, foi uma deliberação levada imediatamente a cabo. Lá havia uma caixa de coisas suas ainda cerrada. Não teve trabalho para depositar o que levava com tamanha compenetração bem no fundo, ciente de que Cleomena não poria ali nem mãos nem olhos.
Ato reflexo, Fernando retornou à sala, voltou com as tábuas rotas ao lugar, cobriu-as com a almofada de espuma e sentou-se, entalando-se de novo, a rogar em altos brados por ajuda.
“Passo esta vergonha, refletia, mas não vou macular a imagem do meu irmão comborço, haja vista que Cleo não deve saber que aqui mantinha ele uma correspondência secreta.”
Firmino insistia com o mentor:
— Por que esta atitude agora? Suspeita de que a esposa conhecia o que ali se guardava, cartas de amor surrupiadas aos eventos dolorosos de relacionamentos ilícitos? Age em consonância com o espírito de solidariedade que obriga os machos da espécie a se protegerem mutuamente, perante a ameaça de diminuição de seu poder patriarcal? Está aguardando apenas um momento azado para a descoberta do real conteúdo dos invólucros, com o fito de escolher o que pode mostrar à esposa? Quer assumir o papel de déspota do lar, reservando munição para momentos de confronto ou de desânimo conjugal? Que lhe passa pelos pensamentos e sentimentos?
Jarbas, pacientemente, respondeu:
— Não precipite conclusões. Como você quer que ele reaja intelectualmente, se está premido por possível e homérica raspança por haver burlado a lei maior da residência, aquela que dizia que a poltrona pertencia a um ser muito querido, cuja recordação impoluta se guardava no fundo do coração da ex-viúva? Vá com calma e ajude a refrear os impulsos de forte azedume da esposa, para esperar o mínimo, como ainda o olhar de desagrado e de censura da cunhada, afora todos os gracejos e brincadeiras dos que daqui a pouco irão voltar do centro. Compute a favor de nosso irmão a intrepidez com que está a denunciar parte do crime.
De fato, as duas correram a saber o que estava acontecendo e, ao depararem-se com a obesidade a prender no engradado a infortunada personagem, contrariando todas as expectativas e deixando Jarbas e Firmino abestalhados, abriram-se em gargalhadas e chistes:
Cleo:
— Eu sabia que Lalau estava preparando uma armadilha para capturar o intruso.
Assíria:
— Mas não é que o doutrinador se vê às voltas com uma situação terrível de encalhe! Será que o seu perispírito vai ficar preso entre os planos, quando você desencarnar?
Cleo:
— Aqui não se trata de espiritualidade em sobejo; mas de materialidade em acréscimo de misericórdia.
Assíria:
— Você está querendo ajuda das frágeis senhoras ou prefere ficar aí até que venham os homens?
Cleo:
— Desculpe-me, querido, mas a sua peraltice mereceu esse castigo.
Fernando:
— Eu acho que foram vocês duas que me prepararam esta. Como é que não sabiam que estava tudo podre?
Assíria:
— Não foi você mesmo que pediu para deixar a poltrona no lugar?
Cleo:
— Eu me lembro muito bem que você foi taxativo e não me permitiu jogar fora essa velharia.
Fernando:
— Mas se você cuidava tão bem dela!...
Assíria:
— Do que é que ela não cuida bem?
Cleo:
— Isto está indo longe demais. Ajude, Assíria, que nós vamos tirar este gigante daí.
Quando retornaram os demais, não mais viram o móvel, arremessado lá na escuridão do fundo do quintal, ameaçando percorrer todo o corredor externo até a calçada para o despejo usual. Ao invés, no dia seguinte, queimou junto de alguns companheiros igualmente carunchados.



26. AS PASTAS OCULTAS

Nem será preciso dizer que Fernando passou a cercar o caixote da biblioteca com ganância de descobrir os segredos ali escondidos. Milhares de idéias perpassaram-lhe pela mente, inclusive sugestões claríssimas da consciência de que havia praticado um ato desonesto em relação à memória das pessoas que habitaram um dia sob aquele teto. Mas algo lhe dizia que deveria levar avante o plano de ler os papéis, antes de incinerá-los.
“Cleomena deve me dar uma trégua, indo com a irmã à cabeleireira ou às compras. Com ela em casa, é muito arriscado abrir os fichários do Lalau.”
Aí lhe cruzavam instigantes fantasias, que ia repelindo uma a uma, porque insistiam em se apresentar vestidas de maledicência e de maliciosas premonições.
Teve de esperar quatro dias para obter umas duas horas de isolamento. Realmente, Assíria convidou e Cleomena aceitou o convite para saírem em busca do enxoval do nenê.
Pôs-se Fernando diante das pastas, lembrando-se, como não poderia deixar de ser, de orar ao Pai, a Jesus, aos guardiães e demais espíritos protetores, para que o impedissem de julgar, porque não queria ser medido com a mesma medida. Se lhe fosse dado observar o etéreo, verificaria que estava cercado de muitos espíritos amigos e outros trazidos por estes para lhe tomarem o pulso perante as revelações.
Antes de abrir os elásticos, cuidadosamente, passou um pano úmido para retirar o pó meio incrustado nas fendas do plástico fosco azulado, que permitia descobrir que havia papel timbrado numa das pastas. Na outra, só a sombra de folhas; não dava para saber se estavam em branco ou não.
Hesitava ainda o nosso homem? Um pouco, porque sentia que o conhecimento do que se guardara iria redundar em compromissos para com a verdade e em responsabilidade perante as virtudes.
Firmino é que estava ansioso, embora naqueles dias tivesse podido, com base nas informações de Jesualda, deduzir que Estanislau devia sofrer de alguma doença incurável, tanto que, infeliz, resolvera desafiar o imprevisto, acidentando-se de propósito, mergulhando nas trevas com o peso do suicídio. Acrescentava hipóteses que melindravam o respeito que deveria manter pelo irmão, porque supunha que deveria ter redigido alguma carta de despedida à esposa, crente de que ela iria encontrar os despojos morais de seu desequilíbrio doutrinário. Mas também ele se cansara de arquitetar conjecturas, de modo que lá estava meio ofegante a estimular o encarnado a que tomasse definitivamente a decisão que vinha protelando.
Fernando pegou a primeira pasta, retirou-lhe os elásticos um tanto frouxos mas não abriu. Depositou as duas sobre a escrivaninha e levantou-se, indo em busca de um pouco d’água na cozinha. Chegou-se até a porta, notou que o dia estava ensolarado e saiu para o quintal, andando ao acaso, até que se deparou com as cinzas dos móveis.
“Não posso deixar este serviço pesado para a Cleo. Vou pôr dentro de um saco plástico e deixar lá na frente, para ser apanhado pelo lixeiro...”
Disse lixeiro e sentiu um calafrio perpassar-lhe pela espinha:
“Esse nome está carregado de preconceitos. Preciso adotar outro modo de denominar esses eficientes servidores públicos. Aposto que na lei são chamados de coletores de lixo. Realmente, esta expressão não contém nenhum menosprezo por essa categoria imprescindível para a civilização.”
Ainda gastaria algum tempo ruminando lembranças de épocas de greves e paralisações dos coletores de lixo, quando a cidade e a televisão se encheram de protestos e de sacos espalhados pelas ruas.
Ao dar de novo por si, estava apelidando-se de lixeiro, zangado porque não conseguia tocar fogo naquela papelada.
“Se as informações que eu colher forem de proveito para o meu relacionamento com minha querida esposa, porque nos ajudarão a compreender melhor a personalidade do Lalau, elevando-o aos nossos olhos à categoria de guia familiar, então poderei dizer que estou sendo tão útil quanto os coletores de lixo.”
Cremos que fizemos o possível para incentivar que se deixe de lado a curiosidade mórbida de quem está apenas desejoso de obter um certo prazer egoísta com a descoberta da falência dos semelhantes, como se a desgraça alheia que não nos atingiu (ou cuja recordação não está fresca em nossa memória) pudesse demonstrar que temos tido mais méritos e que a nossa passagem pela vida se caracteriza como de sublime missão e não como de meio para que purguemos no sofrimento os débitos de anteriores maldades. Sendo assim, é possível refrear os impulsos para lermos os textos, numa tentativa válida de solicitar que se nos perdoe o conselho de passar para o capítulo seguinte, sem se tomar conhecimento dos segredos de Estanislau.
Se déssemos o parágrafo anterior ao Firmino, como é que o rapaz iria comentá-lo? Exatamente, diria que o fato de alguém escrever significa que deve ser lido, ou não se passarão através dos textos mediúnicos as lições primaciais da doutrina espírita que nos cabe incentivar.
Então Fernando leu.
Havia duas dezenas de receitas médicas e alguns resultados de exames, cujas datas remetiam para o princípio do casamento. Os diagnósticos clínicos não conseguiu decifrar completamente, mas pôde perceber que se tratava de exames do líquido seminal. Pareceu-lhe que o homem não seria capaz de engravidar a esposa.
Enquanto punha certa ordem cronológica nas folhas, lembrava-se de que ouvira Cleo dizer que não estava habilitada a ser mãe, tanto que ambos consideraram verdadeiro milagre a concepção atual.
“Será que Lalau lhe mostrou estes resultados?”
Firmino, que acompanhava atentamente as reações de Fernando, por força da obrigação curricular, porque lhes prescreviam os deveres que era para notar como sentia e como pensava uma pessoa formada de acordo com o roteiro da doutrina espírita, adquiria a certeza de que Cleomena desconhecia completamente o teor daqueles pareceres especializados, mas ia imaginando que, por honrar a memória do falecido, bem poderia ela jurar que tudo lhe fora esclarecido à época.
A tanto não chegou o marido, que se deparou com novos exames bem mais atuais. Estavam expressos em termos ainda mais misteriosos, porque quantificavam e qualificavam abcessos e tumores; mas uma palavra imperava absoluta sobre as demais, sem qualquer subterfúgio técnico: positivo.
“Eis que meu medo de ferir aquele espírito errante me confunde.”
Atrapalhado com a perturbação dos sentimentos e sem saber direito qual a melhor conclusão a extrair dos informes, Fernando recorreu à fórmula mais inteligente de que podem lançar mão as criaturas: a prece. E foi assim que orou, obrigando os que do etéreo o acompanhavam a emitirem vibrações de muito conforto e paz, tanto pelo pedinte, como pelo destinatário:
“Senhor, perdoai-me a minha grave preocupação comigo mesmo. Estou descobrindo, Pai, que todo este mistério que se desvenda, não está remetendo os meus sentimentos nem os meus pensamentos para aquela entidade que paira no etéreo, com certeza ainda sob os efeitos de uma vida repleta de angústia. Fazei-me considerar, Senhor, que o pobre irmão soube atenuar as dores da esposa querida, escondendo-lhe que sofria. Deixai-me com a certeza de que as realizações de vida desse meu amigo, quaisquer que tenham sido, estão sendo motivo de reflexões, para que haja lições a serem aproveitadas dentro em breve, em provável reencarnação. Não quero, Pai, que me informem se o filho que gerei no ventre de Cleo é aquele mesmo espírito que freqüentou o corpo de Estanislau. Contudo, se for ele mesmo quem se apresentou para formar na nossa família, que eu saiba acatá-lo, amá-lo, ampará-lo, educá-lo, dando-lhe uma vida saudável e progressista. Vede que estou pedindo forças para mim, mas não me permitais crer que qualquer destes atributos que vos solicito me venham a adornar de virtudes e méritos. Que sejam, realmente, as luzes com que qualquer pai deseja aclarar o caminho dos filhos. Perdoai-me, portanto, quanto engano cometi em relação às demais crianças que Jesualda me ofereceu, porque vejo que melhor deveria ter procedido em relação a elas. Aceitai esta minha contrição e favorecei-me um arrependimento fértil para resgate de minhas culpas.”
Nesse momento, percebeu que chegavam as mulheres, mal tendo tempo de colocar de volta os papéis na pasta e as pastas no caixote. Ia saindo do escritório e Cleo ia entrando.
— Nando, você tem de ver cada mimo de roupinhas que comprei...



27. A VIDA NÃO PÁRA

No etéreo, a prece de Fernando teve repercussão. Pelo menos para Firmino deu motivo a bem amplas cogitações:
“Não é que seria até muito razoável dar a Cleomena como filho o espírito do ex-marido! É tese para se pensar com muito carinho.”
Poderia ir bem mais longe a nossa reprodução do livre pensamento da interessante figura de aprendiz, não fossem os parâmetros estabelecidos para esta narrativa. Interrompemo-lo, portanto, dando a Jarbas a oportunidade de uma resposta indagativa, se não estivermos incorrendo em contra senso:
— Perdoe-me ter ouvido o seu entretenimento reflexivo, caro amiguinho, mas a verdade é que é muito mais fascinante conhecer os fatos do que meramente perder tempo a imaginá-los. Tem você necessidade de saber quem ocupa espaço no ventre de Cleomena? Vá atrás de quem possa informá-lo. Antes, por dever de ofício, quero que me caracterize essa necessidade de saber, porque, se não for séria, eu o remeto de volta para junto da classe em que deveria ter aprendido a lição.
Firmino tinha na ponta da língua a resposta:
— Eis que é essa uma das minhas práticas mais comuns no âmbito da assunção das responsabilidades escolares, ou seja, tenho dedicado bastante de minhas energias para concentrar-me em temas úteis, que me possam representar dividendos substanciosos no momento em que me consagrar ao serviço socorrista propriamente dito. Que necessidade tenho eu de saber a verdade a respeito deste ou aquele evento fruto das atividades de meus irmãos? Poderia levianamente responder que se trata de assimilar as regras das leis universais que estão sendo aplicadas, para compreender certas passagens de minha própria peregrinação existencial. Hoje, pondo na palma da mão a sementinha da curiosidade e observando-a bem de perto, noto que tem recebido influxos muito vigorosos de potencialidade de germinação, se me for dado vencer as minhas limitações intelectuais e sentimentais, o que se mostrará ao meu intelecto com sua aura de integral veracidade, no momento em que receber alvará para adiantar-me um passo que seja na direção de meu aperfeiçoamento, o que consignará que tenho estado muito mais preocupado com meus semelhantes do que comigo mesmo. Sei que meu mestre não aprecia quem junta tantas palavras para dizer algo tão simples como: o progredir está na razão direta do bem que se faça aos semelhantes; o que equivale dizer que fora da caridade não há salvação e que, em suma, Deus é pai de amor e misericórdia e para ele devem tender todas as experiências, porque cobertas serão pelo manto de sua sacratíssima justiça.
— Aplique esses seus mandamentos íntimos às circunstâncias de vida de Fernando e resolva os problemas atuais do maduro senhor, caso obtenha a certeza de que vai ser pai de uma criança que mais não é do que a reencarnação da antiga paixão de Cleomena.
— Antes de voltar-me para a questão específica, posso deduzir de suas expressões que de fato é Estanislau quem vai ser devolvido ao mundo denso da matéria?
— Pode.
— Então, como é que...
— Pode deduzir mas não pode passar adiante sem me equacionar o problema.
Firmino fez um gesto como a solicitar um tempo para restabelecer os vínculos dos fatos revelados naquele instante com o remoinho das idéias a que se entregara anteriormente. Buscou camuflá-las o mais que pôde para não permitir ao instrutor que lesse em seu pensamento íntimo, tendo recebido uma explicação não solicitada:
— Caro amiguinho, não precisa configurar com tantos cuidados o seu sistema de resguardo das emoções e idéias que não deseja que o seu companheiro analise, por força de considerá-las provisórias e imperfeitas. Sei que não é por vergonha que age assim, mas para não me decepcionar, uma vez que quer corresponder ao nível do ensino que lhe venho ministrando, por meio de superior qualidade de aprendizado. Louvo-lhe o sentimento, mas devo assegurar-lhe que não tenho interesse algum em acompanhar tudo o que se passa em sua intimidade, porque, não se esqueça, tenho a minha e, enquanto você está a planificar o seu mundo, também estou a integrar em meu consciente os dados que tenho tido o condão de decifrar, segundo as atividades que me concernem. Posso afiançar-lhe que os seus momentos de solidão e de contenção dos impulsos de comunicação com o mundo exterior me servem muito bem para o meu adiantamento em áreas da consciência que você desconhece.
Enquanto Jarbas expunha em forma de apreensão sadia um roteiro que envolvia certo saber para o qual o pupilo não desenvolvera interesse e que não se constituía, portanto, em necessidade, Firmino punha de lado o temor de errar, voltando com mais garra e disposição a manifestar-se, segundo a sua alegre personalidade:
— Obrigado pelo alerta, prezado Senhor. Quero crer que tenho a solução do problema que me foi proposto, qual seja, como reagiria Fernando ao ter a certeza de que Estanislau é o seu filho. Pois bem, a vida não pára, como suspendemos nós cá no etéreo o nosso tempo, agindo de tal forma velozes que somos capazes de cumprir cem tarefas enquanto o ser humano caminha de casa até o centro espírita. A existência no etéreo corre por conta de paradigmas muito bem definidos, dentro dos recursos energéticos de cada um, sempre apropriados para as funções que recebemos dos nossos orientadores. Se estivéssemos no Umbral, perdidos para as reflexões de cunho filosófico e doutrinário segundo os dispositivos morais dos Evangelhos, poderíamos estar ainda mais emperrados em nossa caminhada do que os mortais no exemplo que dei. Admitindo-se a possibilidade que este diálogo venha a ser transmitido por via mediúnica ao povo na Terra, haverá de parecer sonolenta exposição de pareceres bem pouco relacionados entre si e aos deveres que assinalamos como atividades de cunho escolar. Iriam categorizar-me, sem dúvida, como mero estudante de primeiras letras, a desperdiçar o meu bom empenho vibratório com quireras de melindres, porque suspeitariam de que estaríamos gastando o nosso tempo com preciosismos intelectuais, tantos são os vocábulos que se acumulam num texto (porque a minha fala para um escrito se transladaria) de muito pouco valor para o conhecimento de como é que imagino que Fernando iria receber a informação que a mim provocou enorme rebuliço mental. Devo, então, afirmar que não posso sequer fazer a mínima idéia de como o nosso irmão encarnado reagiria. Digo mais: nem vou propor que consultemos a tal personagem durante seu passeio noturno, porque iríamos interferir indevidamente em ação que cabe aos guias e preceptores da família. Em tempo oportuno, com muita tranqüilidade e paz de espírito (sem trocadilho), ficarei sabendo, se isso vier a propósito de minha educação nesta Escolinha, quais as conseqüências para o futuro imediato dos envolvidos.
— Diga-me, precioso fedelho, se não é bem melhor extrair dos fatos os conhecimentos, ao invés de gastar os neurônios na criação de uma fantasia, que poderá constituir-se em empecilho à aceitação da realidade, uma vez que tudo quanto a gente se julga capaz de mentalizar parece criar raízes no cérebro, agarrando-se firmemente na qualidade de preconceitos, dificultando depois a sua extirpação.
— Pois, claríssimo mentor, se fizermos com que Fernando estabeleça como princípio de vida a perspectiva de que não deve gerar pensamentos que o conduzam a ações sem correlação com o ideal da verdade, estaremos propondo-nos a um serviço de muito valor no sentido de facultar-lhe oportunidades concretas de assimilação dos preceitos doutrinários através da leitura das obras fundamentais do Espiritismo, criando fatores de análise e de crítica bem fundamentados quando da apreciação de outras obras, cujos méritos se restringem às informações mais ou menos corretas ou argutas, segundo o potencial intelectual de quem as lê. Antes que meu bom Jarbas insista comigo para explicar melhor este meu arroubo, devo simplificar os dizeres, para não pôr dúvida em que estou sendo sincero ao asseverar que podemos, por diversos meios, influenciar no âmbito das decisões dos encarnados, desde que tenham a boa vontade de receber os influxos de nossa inspiração.
— Ou seja...
— Desta vez estou bem prevenido, caríssimo professor. Ou seja: não sei aonde quer o amigo chegar.
— Ou seja: quem cuida de si mesmo e tem a responsabilidade de conduzir reuniões espíritas em que se apresentem encarnados e desencarnados, deve exigir o máximo de suas faculdades, jamais deixando-se debilitar por problemas pessoais, superando o estresse que causariam, através da prece, como a que declamou o nosso Fernando, elevando o pensamento para os atributos da perfeição do Pai, para a mansuetude dos conselhos de Jesus, para a lucidez dos preceitos de Kardec, abrindo o coração para agasalhar todos os irmãos, cumprindo, na medida do possível, o segundo maior mandamento das leis de Deus, ou seja, amando os semelhantes como a si mesmo.
— Posso dizer eu a última palavra?
— Desde que não seja um simples e engraçado: “Sim, Senhor!”
— Desta feita o gracejo é seu. O que desejo dizer, para que possamos passar adiante neste enredo metafísico de meu aprendizado etéreo, é simplesmente que...
Aí disseram os dois juntos:
— A vida não pára!



28. O DESTINO DOS PAPÉIS

Já se sabia o que havia na primeira pasta. Que surpresas estariam reservadas na segunda?
Estranhamente, Fernando passou a não mais se interessar pelo conteúdo desta última. Dois meses depois, estando proeminente a barriga de Cleomena, viu-se o nosso herói forçado pela esposa a dar um fim ao incômodo caixote, tendo em vista que os livros das estantes tinham sido levados embora, uns para o acervo da biblioteca do centro, outros para o manuseio dos sobrinhos da mulher, interessados nas anotações e nas obras esotéricas sem cunho doutrinário.
Para adquirir certeza de que a moléstia de Lalau não era contagiosa, porque, meditava Fernando: “se ele, vamos imaginar, tivesse AIDS, e a tivesse transmitido a Cleo, desta para ele de volta em seu ventre seria realmente trágico”, recolheu os exames e as receitas, colocou entre as suas coisas, na pasta que carregava para cima e para baixo e, na primeira oportunidade, mostrou tudo ao médico que dava assistência aos carentes do centro. Não confiava em que os exames pré-natais incluíssem a pesquisa daquela moléstia. Menos ainda se encorajava a solicitar à esposa esclarecimentos a respeito.
— O Senhor Estanislau sofria de um tumor maligno na região da pélvis. Deve ter morrido em virtude de seu alastramento, porque, segundo consta da descrição, havia ramificações.
— Era na próstata, Doutor?
— Possivelmente, embora estes resultados sejam incompletos. A descrição deve ter ficado no fichário de meu colega ou teve algum fim dado pelo enfermo.
— Com que intensidade sofria?
— As dores não deviam ser intensas, mas deveriam impedir uma realização sexual satisfatória. Você disse que esses exames eram do antigo esposo de sua mulher. Pergunte a ela.
Era uma situação desagradável, mas, para pôr uma pedra sobre o vexame, Fernando perguntou claramente:
— Pelo receituário, existe a possibilidade de ter contraído alguma doença venérea que pudesse ter contaminado a esposa?
— Se estou dizendo que poucas relações devem ter mantido, pelo menos no final... Mas fique tranqüilo que sífilis ou AIDS nunca foram tratados com estes medicamentos.
— A propósito, Doutor, ele morreu atropelado.
Aquele atropelado repercutiu de modo muito esquisito na mente de Fernando. Mas outra preocupação surgiu-lhe de chofre:
— Doutor, será que preciso pedir-lhe que não comente nada com a minha mulher? Eu acho que nem ficou sabendo da doença dele e agora não vai adiantar de nada, ainda mais que está no sexto mês.
— Segredo profissional, meu caro. De mim ela não vai ouvir palavra. Fique sossegado.
Ali mesmo, com certa cisma, Fernando foi fazendo picadinho de cada folha, de modo que não se pudesse remontá-las sem sério trabalho de perícia técnica, tendo depositado tudo no cesto do lixo, tomando o cuidado de colocar por cima outro tanto de papel picado em branco.
Se não levava de volta para casa nenhum estremecimento antigo, portava agora imensa curiosidade sobre o que poderia estar contido na outra pasta.
Firmino e Jarbas haviam sido convidados por Jesualda para o colóquio, de modo que os três estavam compartilhando as apreensões que se criavam na alma do afilhado.
Entrementes, Firmino abria-se para a nova amiga e lhe punha à mostra uma dúvida e uma admiração, mistura de pontos de interrogação e de pontos de exclamação que dariam para preencher toda uma folha.
— Se faz tão pouco tempo que você se encontra conosco de volta de uma vida bastante proveitosa para o seu adiantamento, como é que tem estado ocupada justamente com uma pessoa que deve apresentar-se como um escolho preso a seus pés.
Jarbas interveio:
— Ele quer saber se Fernando não representa um obsessor às avessas, isto é, que você tenha de continuar dele ainda agora que está livre para orientar os seus filhos, estes, sim, aparentemente muito mais necessitados de auxílio.
Jesualda esclareceu:
— Na verdade, a minha função devo exercê-la junto a Cleomena. Acompanhei o Nando hoje para avaliar se deveria tomar providências quanto a prevenir a senhora grávida quanto a possíveis melodramas. Vocês devem ter percebido que passei o tempo todo canalizando vibrações superiores, para que o homem pudesse pacificar o coração, ao mesmo tempo lhe sugeri a possibilidade do suicídio do infortunado Estanislau. No que tange aos meus filhos, a programação de vida de todos é muito extensa, de modo que a nossa equipe familiar tem tempo para buscar influenciá-los no sentido de adquirirem modelos de virtude que julguem oportuno seguir. São todos entidades com quem antigamente assumi compromissos por diferentes questões, que se resgataram pela promessa cumprida de lhes oferecer reencarnações em boas condições físicas e intelectuais. Se quiserem, eu lhes mostro o nosso arquivo, de onde poderão extrair matéria para bom estudo dos relacionamentos entre seres em litígio, interessante também para obra de ficção, porque ficam bem delineadas as correlações entre os crimes e os castigos, o que os professores, como o meu amigo Jarbas, chamam de lei de causa e efeito ou de ação e reação, distinção que ainda não estou apta a executar.
A longa exposição não tocou em outros pontos de interesse de Firmino, que argüiu a boa vontade da irmã:
— Estaria disposta a me fornecer elementos para que eu não estabeleça um roteiro falso a respeito do fato de você estar recebendo ajuda direta de seus protetores Celestiana e Gregório?
— Acho que eles estão melhor informados, não é verdade? Mas posso adiantar-lhe que, em outros tempos, eu nem sequer saberia da existência deles, tão cega estava por força de desejar fugir das lutas exaustivas que terminei empreendendo, porque entrevi, no esforço de uma existência corpórea deficitária, a misericórdia do Senhor. Conclua você se não é essa mesma misericórdia que está me alcançando agora através das luzes de meus gentis guardiães. Até mais ver, amigos.
A sós, Jarbas definiu a melhor resposta para a indagação do aluno:
— Não interrogue quem não esteja apto a formular resposta satisfatória. Você notou que ela é um instrumento dócil, altamente interessada em ultrapassar esta fase da existência que está pesando sobre o seu ideal de liberdade, porque ainda se encontra aferrada a conceitos muitíssimos humanizados da lei do livre-arbítrio. Mas isto você deve tirar de letra, porque não há aluno matriculado na Escolinha que não tenha passado por uma pressão exercida de dentro para fora, para agir por conta própria.
— À medida que o mestre ia discorrendo, ia compenetrando-me justamente desses fatos ocorridos comigo. A sua exposição foi perfeita. Vamos acompanhar agora a leitura da papelada da outra pasta?
— Quanto vale que essa sua expectativa irá frustrar-se?
— Aceito o desafio, mas assumo que veremos que Fernando não se deixará envolver pela idéia de conhecer os escritos de Lalau e se desfará deles sem se condoer por tê-lo feito.
— Assim não vale. Você está jogando com cartas marcadas. Saberá dar uma explicação psicológica coerente com a sua suposição?
— Fundamento-me no conhecimento que tenho da psique do nosso irmão. Como bom espírita, isto é, como alguém que sabe que está sob o amparo de bons guias e protetores, irá ficar à sombra deles, assenhoreando-se das intuições que lhe serão oferecidas quanto a não ser ético tomar ciência dos pensamentos íntimos de qualquer pessoa que não tenha dado permissão para fazê-lo. Germinará a idéia do suicídio e aí mais ainda é que não quererá estar a par do conteúdo da pasta, porque será bem mais confortável, caso se veja na necessidade de ser verdadeiro perante Cleomena, dizer que pôs fogo em tudo, em lugar de levantar uma lebre que poderá causar-lhe problemas ao se embrenhar numa selva desconhecida, onde poderá cair nas garras de bichos bem mais perigosos.
— Altere, então, a sua proposta.
— Noto que meu professor reparou que desloquei meu centro de interesse para outro ponto, sem perder o elã pela descoberta de como reagirá o encarnado. Propus que fôssemos acompanhar a leitura. Proponho que constatemos a incineração dos papéis.
— Não deseja voltar para a colônia e receber a notícia dos acontecimentos pela correspondência que estamos aptos a manter com o pessoal em campanha?
— Posso deduzir que a sugestão tem que ver com o fato de estarmos apenas atuando em nosso favor, sem nenhuma prestação de auxílio, que seria a tarefa mais condizente com seres que aspiram ao diploma de socorristas?
— Como você sabe, o tempo que levará Fernando até se colocar diante do dilema de ler ou de pôr fogo nos alfarrábios poderemos aproveitar para outros estudos pertinentes ao drama que estamos acompanhando. Por exemplo: não haverá muito que aprender junto aos irmãos responsáveis pelo reingresso tão rápido de Lalau na carne, em sendo suicida?
— Está aí algo que me parece edificante para minha formação acadêmica. Penso, inclusive, que depois teremos ensejo de acompanhar a formação do arcabouço decisório que propiciará a Fernando a certeza de que a destruição da segunda pasta é o que de melhor poderá fazer.
Com a velocidade do pensamento, viram-se perante o prédio que comporta o Departamento de Reencarnação do Ministério da Vida de sua colônia espiritual.



29. UMA HISTÓRIA QUE SE ESCLARECE

Chegados Jarbas e Firmino ao Setor de Encaminhamento dos Estudos Relativos aos Projetos de Reencarnação de Espíritos Sofredores, foram atendidos por Justino, um dos solertes técnicos a quem se confiam os primeiros pareceres a respeito da necessidade e da conveniência de nova peregrinação terrena de irmãos cujas famílias estejam sob o amparo da colônia.
De extrema simpatia, foi logo prontificando-se:
— O caso de Estanislau é recentíssimo. Nem preciso valer-me do arquivo para dar-lhes todas as informações que poderão ser úteis para o desenvolvimento do tópico da aula do professor e para o aprendizado do aluno. Estou às ordens para o que desejarem perguntar.
Jarbas cedeu a vez a Firmino, que trazia a questão na ponta da língua:
— Que razões ponderáveis terão levado os administradores do Departamento a ajuizarem da oportunidade de se reintegrar o referido amigo em uma família terrena, em sendo um suicida? Não deveria ter permanecido mais tempo no Umbral, até desvencilhar-se do peso da consciência, propondo-se a laborar pelo próprio adiantamento, resgatando os males que causou aos familiares e à sociedade em geral, tendo em vista o mau exemplo que deu?
Jarbas se inquietou mas pôs fé em que Justino saberia colocar tudo nos eixos. De fato, Firmino teve de ouvir considerações que pulverizaram as colocações infundadas:
— Em primeiro lugar, vamos destruir desde logo a conjectura do mau exemplo, tendo em vista que o suicídio não recebeu divulgação entre os que poderiam abalar-se com a idéia. Para constar, a notícia do acidente foi aceita pacificamente. Se, para o futuro, como é de se esperar, o ato contrário à lei de conservação vier a ser do conhecimento de pessoas que pudessem melindrar-se, estará muitíssimo atenuado pelo fator tempo, o que significa dizer que muito entulho estará depositado sobre a memória da pessoa em pauta, bem como outros interesses estarão exercendo seu poder de atração emocional sobre os envolvidos, minimizando as conseqüências morais em relação ao choque que causaria a informação dada à época do acontecido. Por outro lado, Deus é pai de misericórdia e a sua lei de justiça está fundamentada na benemerência do perdão assistido, o que é o mesmo que dizer que, se à pessoa for oferecida uma nova oportunidade de adquirir os valores evangélicos em falta, poderão quedar no esquecimento os débitos anteriores para resgate em tempo hábil, segundo novos parâmetros de procedimento, muitas vezes tão imperativos que o sentimento de culpa passa pela consciência do indivíduo como simples sombra de que se liberta através de uma prece em que promete jamais volver a praticar o mesmo deslize, promessa que tem razão de ser à vista das realizações no campo do bem que se concretizaram no período de trégua. No caso específico do Lalau (apelido carinhoso que ele mesmo fazia questão de ouvir dos demais), podemos considerar várias atenuantes para o seu ato desmiolado, como a terrível pressão das dores físicas, que não lhe permitiam sequer o conforto de alguns desempenhos fisiológicos e, particularmente, o desajuste da personalidade, que se ensimesmou desde que lhe foi dada a notícia de que a sua vida estava comprometida no aspecto muito importante da progênie. Sofreu tanto em vida que alguns escritos seus se encontram no dossiê no etéreo, para futura reflexão, com o fito de se descobrirem as falhas dos raciocínios e das conclusões, a ver se foram superados os traumas psíquicos.
Foi Jarbas quem se interessou por outro aspecto:
— Havia uma programação de vida que, evidentemente, não pressupunha o suicídio. Será cobrado dele, mais tarde, o tempo que decorreria até seu esgotamento orgânico, até sua morte natural, haja vista que um dos processos de punição desse tipo de constrangimento das expectativas cósmicas é a manutenção da vítima pelo mesmo período diante da própria falência, desde que esteja apta, é claro, a correlacionar seu sofrimento ao ato praticado?
— Esse ponto mereceu de mim especial devotamento, porque estou acostumado a analisar causas e conseqüências de atentados contra a própria vida bem mais complexos. Lalau, mesmo no Umbral, não teria tido necessidade de cumprir todo esse tempo, mesmo porque a sua moléstia o traria para cá bem pouco depois do desastre. Estaria com os dias contados pelo projeto anterior da encarnação? Eis o ponto fundamental sobre que ponderei bastante, tendo saído em busca de informações consistentes a respeito. Posso dizer que a minha pesquisa redundou favorável a um parecer positivo. Não tenho permissão, entretanto, como vocês estão sabendo, de revelar os episódios das pregressas atividades terrenas ou etéreas, porque inúteis para a finalidade de sua perquirição. Acrescento, à vista da minha experiência, que chegado o momento do esclarecimento, qualquer entidade é retirada do meio perverso em que tenha mergulhado, haja cumprido ou não o esquema mais comum da correspondência entre o tempo ideal de sua vida e aquele em que deve perambular à deriva de sua própria incompetência evangélica. Existem muitos que despertam para o crime mas desafiam o castigo (se me permitem servir-me do jargão popular), de sorte que permanecem por séculos entregues a si mesmos, ao seu desespero sem conciliação, à sua agonia sem arrependimento, aos seus acessos de rancor sem remorso.
Firmino não esperava tanta teoria de um simples operário do instituto e desejou manifestar a sua surpresa:
— Justino, queira receber os meus encômios admirativos, porque me foi gratíssimo saber que o pessoal que trabalha nestes serviços aparentemente técnicos tenham formação espiritual de alto coturno. Não repare no arrevesado de minha manifestação, mas estou buscando, pela forma, demonstrar meus sentimentos do mais puro reconhecimento pelas lições que tão carinhosamente levarei em meu coração. Muito obrigado. Resta-me perguntar a respeito de sua escolaridade de nível superior, para poder encaminhar-me com a mesma desenvoltura e lucidez, quando chegar a hora de me decidir a respeito de que tarefa deverei responsabilizar-me na qualidade de socorrista.
Foi Jarbas, porém, quem se propôs a responder:
— Boquiaberto discípulo, esteja certo de que todos os roteiros lhe serão apresentados. Justino é um velho amigo meu e só por isso reservou estes momentos para nos atender. É ele não menos que um dos dirigentes do Ministério, de forma que sua história haverá de permanecer tão em secreto quanto aquela que declinou de oferecer-nos relativa ao passado de Estanislau. Na presença dele, e como forma de reverenciá-lo e agradecer-lhe a deferência das explicações, posso asseverar-lhe que seus conhecimentos não se restringem aos cursos nem se amparam nas funções que exerceu como estagiário e mestre na Escolinha de Evangelização. Para merecer estar entre os principais da colônia, dedicou-se com raro empenho ao trabalho meticuloso de levantamento dos liames entre os atos e as conseqüências morais, tendo ficado nesse setor mais de quinhentos anos, e, veja bem, tempo computado pelo sistema terrestre, o que para nós, se multiplicarmos por aquele mesmo fator cem, irá representar cinqüenta mil anos.
Quando Firmino voltou sua atenção para Justino, já não estava ali, pois se retirara ao ouvir aquele na presença dele do instrutor, transformando-o em na ausência de.
Aí, o aluno não se agüentou e cometeu uma imprudência:
— Como é que personagem tão ilustre pode contar-se entre seus amigos? Não deveria o sábio administrador ter um círculo de amizades de sua própria categoria?
Jarbas riu com gosto da ignorância e da falta de sutileza do pupilo. Bastou-lhe, portanto, acrescentar duas palavras:
— Não vá corar de vergonha quando algum espírito mais evoluído demonstrar afeto e consideração por você. Não é o que você está prometendo aos sofredores que pretende auxiliar, como você mesmo disse, na qualidade de socorrista?
Tanto bastou para Firmino perder a consistência intelectual que forcejava por manter, caindo em lágrimas nos braços do protetor e conselheiro. Havia aprendido mais uma importante lição.
Depois de algum tempo, cujo desenlace Jarbas apressou ao ministrar eflúvios sedativos ao jovenzinho, elucidou:
— Eis que vivenciamos algo muito semelhante à consideração que se teve por Lalau ao reintegrarem-no à sua família, que mais não é, atualmente, senão a ex-esposa, os irmãos e parentela de terceiro grau, além de algumas ovelhas desgarradas que se deixarão levar ao aprisco em tempo oportuno, conforme sói ocorrer aos grupos de seres que evoluem através do fortalecimento dos laços afetivos que os unem. Será que teremos tempo para presenciar a queima da pasta por Fernando?
Firmino colocou um obstáculo:
— Tenho dúvidas quanto à importância de estarmos lá presentes, desde que se encontram arquivados todos os escritos, que poderão ser compulsados a qualquer momento, quando Lalau estiver, naturalmente, compenetrado do valor histórico e episódico deles para os estudantes da colônia.
Mas Jarbas, apesar de intimamente louvar-lhe a postura isenta de curiosidade, insistiu em convencê-lo a irem à casa de Fernando:
— Quem sabe tenhamos oportunidade de presenciar alguma atividade dos guardiães, em função das diretrizes de atendimento aos encarnados. Sempre há o que aprender, quando se sabe observar.
Com a mesma velocidade anterior, já se encontravam no interior da residência de Fernando, podendo verificar que os protetores familiares lá se encontravam às voltas com alguns seres de feia catadura, gente até então desconhecida de Firmino, que ficou sem compreender o que se passava.
A bem da verdade, Fernando ainda não havia chegado.



30. UM VISITANTE ILUSTRE

Nem bem tinham chegado e chegava também uma figura imponente, cheia de vigor espiritual, que, não fosse pela extrema modéstia, se poderia confundir com alguma autoridade importante dentre os humanos.
Fez-se visível para todos naquele círculo e começou uma arenga a respeito de tema absolutamente insólito para o coitado do Firmino, desacostumado com as agruras das longas exposições doutrinárias.
— Meus irmãos, disse o recém-chegado, graças a Deus!
De pronto Firmino pôde constatar que alguns, apenas mencionado o nome do Criador, intentaram tornar o ambiente num alvoroço, pela emissão de zumbidos e pela agitação vibratória que produziram através da movimentação.
Mas havia, em muito maior número, seres de responsabilidade quanto à contenção dos arrelientos, os quais imediatamente estabeleceram um circuito eletromagnético que imantou a todos os que tinham espectro de mais baixa capacidade de desempenho energético. Foi como se tomassem um choque e estremecessem de medo de ficarem presos naqueles fios desencapados que se fechavam em esfera, cujo diâmetro como que se adaptava ao alcance das atividades de cada um.
Firmino foi intuitivamente convidado a participar do esforço coletivo, de modo que o seu desejo de tocar nas ondas passíveis de serem vistas quedou inerte até desaparecer completamente, engolfado pelas palavras do estranho a verberarem:
— Meus irmãos, que a paz do Senhor esteja no coração de todos nós! Vejo que estão reunidos nesta formosa residência de pessoas dedicadas ao bem alguns seres famintos por se saciarem nas delicadas vitualhas a que dão forma os seres em trânsito pela Terra, em seu veículo carnal. Querem espojar-se nas angústias que se mantêm ricas de sumos vibratórios, para extraírem dos desatentos um mínimo de prazer, porque serão capazes de rir do facies doloroso de quem intensamente se lamenta por não ter dado conta da missão anterior no âmbito terrestre.
Firmino ouvia buscando entender o inteiro teor do discurso, que lhe parecia absolutamente inadequado para a grosseria das vestimentas perispirituais dos obsessores contidos.
Jarbas veio em seu socorro, falando abertamente, como se apenas os dois estivessem ali:
— Meu caro, cada qual ouve os dizeres segundo o seu entendimento. Se fôssemos traduzir para o dialeto de domínio dos menos adiantados, talvez nos surpreendêssemos com a formulação de algumas palavras que lhes repercutem no cérebro vetusto como absolutamente agressivas, o que nos forçaria ao emprego de termos chulos, vulgares e até de modismos para cujo significado teríamos de recorrer ao dicionário de gírias e de expressões coloquiais das diferentes regiões do território brasileiro.
Firmino anotou a observação mas não teceu nenhum comentário, porque desejava seguir o discurso, se possível, através da leitura do texto que se formava na mente de um dos seres presos na armadilha da amorosa rendição dos benfeitores.
Percebeu-lhe o intento o palestrante e não hesitou em enviar-lhe uma formulação etérea dos pensamentos de maneira muito menos condizente com a sua alta capacidade de absorção do vernáculo. Era como se lesse uma obra quase pornográfica ou assistisse a uma dessas peças teatrais em que as personagens se exprimem representando sentimentos de desajuste social, através das expressões ofensivas dos palavrões.
Aí ocorreu um fenômeno muito estranho no âmago da psique do aluninho. À medida que sofria os impactos da versão popular da oratória, corria pela sua vértebra ideal um frêmito que o despertava para antigas emoções, que não lhe causavam mais sofrimento algum mas que haviam tido o condão de pô-lo de joelhos perante a cruz do Cristo, em lágrimas profusas de arrependimento e em votos carregados de virtudes potenciais. Era um deslumbramento que confirmava a sensação íntima de que estava, desde que ingressara na Escolinha de Evangelização, merecendo atenção muito especial da parte dos superiores da colônia, que lhe passavam a tranqüilidade da bem-aventurança, como se, adentrado recentemente em corpo terreno, a consciência espiritual se limitasse a perceber o agasalho do ventre materno, para, muito devagar, ir recobrando o domínio de si mesmo pela influência dos fatores externos.
A voz do espírito iluminado deixou de ter qualquer valor pela formulação das frases para adquirir a augusta estabilidade do ser que irradiava tão-só fluidos da mais completa realização socorrista. Desejara o nosso pequeno herói sentir o vigor com que repercutiam as lições nos corações afadigados dos mais infelizes ali reunidos; alcançara, porém, conhecer a extensão maravilhosa do bem que viera praticar pela exaltação das virtudes, em consonância com as necessidades de cada um.
Terminava o orador a sua peça, quando Jarbas tocou em Firmino para que acordasse para a realidade ambiente. Foi um choque a descarga suave com que se sentiu chamado. Acordou um pouco confuso, sem reconhecer de imediato o local dentro do plano terreno em que estavam.
Mas, antes de se retirar, levando consigo todos os malfeitores completamente apaziguados e mais os auxiliares que se contavam em dobro, a entidade que comandava a excursão se deu a conhecer:
— Querido Firmino, meu nome é Maciel, diretor e superintendente da entidade educacional que o vem acolhendo desde que você manifestou o desejo de crescer em qualidades morais e em conhecimentos teóricos e práticos do socorrismo. Creia que a nossa atividade de hoje uniu ao trabalho de atendimento dos irmãos, que estamos levando para tratamento, uma aula valiosa à sua classe, que toda compareceu, cada qual com seu respectivo monitor, visão que passamos a descerrar, para que todos se confraternizem no ensejo do reencontro após estes últimos anos em peregrinações individuais. Recebam o meu abraço mais carinhoso e meus votos de que sejam felicíssimos na aquisição do saber. Fiquem com Deus!
Então Firmino pôde perceber que o clarão que se mantivera num foco correspondente ao lugar em que ficara o mentor se ampliara em tons rosas e azulados, tênue vapor transparente que se enchia de vibrações que inundavam os espíritos de intensos sentimentos de felicidade. Um coro de muitas vozes entoava ao longe suave melodia em louvor ao Pai, enquanto o aroma suavíssimo de raras essências transpunha as lindes de resistência etérea dos perispíritos, para firmar no conteúdo divino de cada um daqueles seres a concepção da misericórdia divina, pela estabilidade integral de sua contextura íntima. Foi nesse êxtase que compreendeu Firmino o quanto era importante ascender na escala espírita para fruir dos benefícios das entidades de luz, ao mesmo tempo que foi capaz de reconhecer, naquela réstia de amor que se concretizava na alma de todos, o quanto de bem-aventurança deve sentir a criatura de excelsos poderes, por alcançar objetivos tão sublimes.
Mas não houve tempo para a troca de impressões a respeito das tarefas de cada aluno. Satisfizeram-se em apertarem-se em amplexos de companheirismo renovado e logo partiram, cada qual volvendo ao campo de sua luta para aperfeiçoamento intelectual e emocional.
Desta feita, coube a Firmino despertar Jarbas, não o fazendo sem remorso por trazer de volta ao mundo das relações pessoais aquele que deveria estar na quintessência de felicidade que lhe era ainda desconhecida. Mas o regresso dele foi instantâneo, como se apenas tivesse os olhos cerrados. E foi logo explicando:
— Deve você, meu amiguinho, estar cheio de ânsias muito justas, dado que a vinda de nosso superior se deu de maneira surpreendente e inusitada. Em primeiro lugar, devo dizer-lhe que não fui advertido previamente, de sorte que não tenho senão conjecturas a respeito das razões que nos trouxeram o amigo administrador. Esteja claro que para mim, no entanto, não teve o mesmo significado que para você, como deve deduzir do fato de haver recebido uma dupla denotação da fala, a qual, entretanto, redundou numa única e íntegra manifestação, segundo pude observar em sua aura, durante a fase correspondente à deferência de que você foi alvo, por inquirir a respeito da particularidade da exposição. Fique claro também que os seus colegas receberam respostas ímpares para problemas que formularam, tendo cada um se sentido apaniguado por especial atenção. Essa capacidade de distribuição de ensinamentos em diferentes faixas de captação só possuem na colônia poucos irmãos e é fenômeno naturalíssimo, quando se conhecem os meios de obtê-lo. No que tange à presença de seres que poderemos considerar inferiores pela condição atual das existências, foram para cá atraídos, como deve suspeitar você, pelas baixas vibrações do nosso Lalau, que está, aos poucos, voltando do estágio de catalepsia que caracteriza o início da implantação do espírito no corpo material. Não tivesse sido anestesiado e teria provocado compreensível aborto. O que desejo ressaltar é que fomos transportados para outro ambiente espiritual em tudo semelhante à residência de Fernando e Cleomena, para onde foram enviados todos os seus e os meus parceiros, cada qual mentalizando o seu próprio domicílio terreno, de sorte que vivenciamos as nossas realidades dramatizadas e, ao mesmo tempo, concretizadas pela atuação dos socorristas em trabalho efetivo com os irmãos que foram retirados de perto dos obsedados. Mas eis que Fernando está de volta e nós também.



31. MORRE FERNANDO

Fernando chegou transpirando. Sentia-se muito mal, mesmo assim, com a idéia fixa na pasta, foi apanhá-la, conseguindo reunir forças para incinerá-la no fundo do quintal.
Em casa estavam Cleo e Assíria, que esperavam por José. Quando Fernando chegou, preparavam o jantar e nem notaram que o homem não se encontrava bem. Viram-no sair e entrar e só então perceberam algo estranho.
Mas Fernando não deu tempo para que lhe dirigissem a palavra e foi logo pedindo socorro:
— Não estou passando bem; me ajudem a ir ao quarto.
Mas não houve tempo. Caiu fulminado no chão da cozinha, aterrorizando as irmãs.
Para resumir, o féretro foi seguido por todos os associados e auxiliares do “Amor, Luz e Caridade”, os filhos e noras, a parentela toda da esposa, muitos amigos, ex-vizinhos, pessoas ligadas a outras sociedades espíritas, administradores das uniões e federações e um bom número de pessoas atendidas na casa evangélica.
A viúva estava inconsolável, mas não cabe agora ao narrador ficar reproduzindo sentimentos não muito coerentes com os preceitos espíritas, porque a dor da perda remete a alma humana para os refolhos em que se escondem os preconceitos, as indulgências e os hábitos sufocados por força dos raciocínios que não vingam completamente, enquanto não exaurirem os aspectos teóricos pela constatação prática dentro da realidade.
Penso que farei melhor se dedicar algumas linhas às reações dos nossos dois irmãos do etéreo tomados de surpresa pelo passamento daquele que lhes suscitara tantos momentos de reflexões e da mais sadia e científica curiosidade.
— Vejo — dizia Firmino, após ter sido recolhido o espírito de Fernando à câmara de restauração energética do perispírito, por haver passado por trabalho de emergência de desligamento corpóreo — que o meu mestre Jarbas está demonstrando completa ausência de conhecimento de que iria ocorrer tão rápido desenlace dessa personagem que se prenunciava ainda como de muitas atividades no campo da fraternidade, desde que almejava construir um centro espírita em casa, como também no âmbito familiar, pela criação e educação amorável de mais um filho.
— É verdade que não esperava fim tão iminente, porque minhas leituras do esquema orgânico do prezado senhor registravam normalidade quase absoluta em todos os sistemas vitais. Quem é que poderia suspeitar de dengue hemorrágica, de cholera morbus, ou de trombo originário de acidente vascular, a causar-lhe derrame cerebral?
— Já se sabe qual foi a causa mortis?
— A sua pergunta, caro Firmino, parece-me devida mais ao desejo de apor outra expressão latina ao nosso diálogo do que ser fruto de real necessidade de investigação. Quer ainda que se esclareça o fenômeno orgânico que nos trouxe de volta o nosso Fernando?
Tomado de assalto em setor que deveria estar morto e enterrado, qual seja, o da curiosidade simples e pura, Firmino reconheceu:
— Se nós estivéssemos respondendo diretamente pela sorte dessa existência para os exigentes vigias do desempenho dos benfeitores e guias, iríamos ter de deslindar esse mistério. Aliás, se Jesualda não estiver a par é porque o enredo de sua protegida Cleomena presumia algo como esse choque vital que, se não foi casual, terá sido provocado com certos requintes de perversidade. Posso deduzir, pergunto com muito medo de estar extrapolando os meus limites de aluno, que aquelas figuras menos adiantadas que daqui foram retiradas pelo grupo de Maciel podem ter exercitado a sua condição de inferioridade, não tanto em relação ao pai, mas à vista das dificuldades do filho ainda em vida intra-uterina?
— Para responder-lhe como deveria, teríamos de percorrer em sentido inverso os sucessos pertinentes ao desempenho moral de Estanislau, coisa que não iremos fazer por inútil para a nossa programação curricular. Em todo caso, a resposta é afirmativa. Contente-se com isso, porque terá a satisfação de ter elaborado teoria próxima da verdade. Responda-me você: que fôramos fazer na casa de Fernando neste dia fatídico?
— Tínhamos em mira conhecer as intenções do amigo quanto a ler os textos da pasta que incinerou como último gesto realmente terreno.
— Você acha que ele havia adquirido a certeza da morte e, mesmo assim, se deu ao trabalho de fazer desaparecer os escritos do ex-marido, no intuito de poupar a esposa?
— A sua perquirição visa a estimular-me a argúcia de leitura do espectro da aura do agonizante, com certeza. Constatar pela informação que poderemos obter do próprio, assim que despertar, talvez venha a ter aspectos de injusta consideração de que o contrário poderia ser possível. Sou obrigado, para não postergar a resposta, a aventurar a hipótese de que Fernando acreditava que o mal que o acometia era passageiro e que seria superado. Foi ao fundo do quintal com a certeza da volta incólume ao seio da família, porque, tal como nós, não poderia ter recebido informação fornecida pelo parassimpático ou sistema nervoso autônomo, a ser decifrada pela consciência. A verdade, contudo, é que a sua decisão ficou definitivamente esclarecida quanto a não magoar a esposa através de possíveis revelações que pudessem evidenciar os problemas de Lalau que este não teve coragem de revelar em vida e que guardara para a desagradável descoberta após o seu decesso. Em tendo sido esse o pensamento de Fernando, não apenas considerou o mal que seria causado a Cleomena, como ainda pretendeu desfazer possível sobrecarga de vibrações energéticas de baixo teor que atingiriam Estanislau, acrescendo-se a tudo a pertinácia das forças desagregadoras dos obsessores que, na qualidade de doutrinador de mesa mediúnica, Fernando conhecia com rigor altamente técnico.
— Faça, Firmino, algumas considerações a respeito da possibilidade de o nosso recentíssimo egresso do campo magnético terrestre restaurar o conhecimento do etéreo de imediato, com apenas algumas horas de internação hospitalar.
— Não se trata de emitir opinião. O mestre Jarbas deseja que realize verdadeiro resumo da existência terrena desse espírita convicto e ativo, pai de família zeloso, honesto e honrado; sofredor perante a calamidade de muitos anos de matrimônio onerado pela aflição da companheira e ampliado de mais alguns anos infelizes pela incompreensão dos filhos e pelo sentimento de frustração em não tê-los educado em consonância com as diretrizes doutrinárias a que se dedicou tão tardiamente; delicado amante de sua novel esposa, cuja gestação cercava de carinhosa atenção e desvelo; idealista a ponto de imaginar-se responsável por casa de atendimento solidário na área evangélica, com repercussões imprescindíveis no setor da assistência material; desinteressado em tornar-se a estrela de primeira grandeza da constelação familiar, tanto que estava distribuindo as principais funções aos sobrinhos da esposa, que admirava com amor e sabedoria, porque lhes ministrava conselhos sem cobranças... Pesava-lhe o corpo muito além do desejável, mas considerar suicidas involuntários todos os que falecem com excesso de peso é desconsiderar o empenho que possam ter feito no sentido de preservar a saúde, apesar do lépido ponteiro da balança. Sim, eu creio que será bem curta sua permanência no Departamento de Ressuscitamento Perispirítico e logo estará acompanhando Jesualda nos trabalhos relativos ao parto, ao pós-parto e à primeira educação de seu pimpolho, atento para as reivindicações dos outros filhos quanto à herança que se julgam no direito de não dividir com alguém que, por ocasião da morte do progenitor, estava ainda em formação.
Jarbas sorria complacente com o jorro de expectativas que Firmino ia criando, porque o roteiro que seria capaz de traçar criaria em sua mentalidade raízes bem fortes, que iriam agarrar-se no subsolo da consciência, para dali extrair a seiva com que alimentaria os galhos, as folhas, as flores e os frutos dessa semente de projeção intelectual no campo das elaborações programáticas. Sendo assim, interrogou-o em função do que observara:
— Se lhe disser que você tende a escolher o Departamento de Planejamento da Vida para exercer seu primeiro trabalho socorrista, estarei sendo precipitado nas conclusões que estou extraindo de seu procedimento intelectual? Não estará sua vocação ou aptidão centrada no interesse construtivo de organogramas e de cronogramas das personalidades destinadas à reencarnação?
Firmino concentrou-se no que ouvira mas foi incapaz de vincular todos os argumentos subjacentes na fala do instrutor ao resultado de sua proposição. Por isso, foi evasivo:
— Precipitado seria se respondesse a algo que, sem dúvida alguma, foi o produto de profunda meditação, a partir de elementos positivos extraídos de minha psique, sem dar a mim mesmo certo tempo para refletir e para restaurar todo o processo de raciocínio do mestre.
Nesse momento, Jarbas anunciou que estava recebendo um recado telepático:
— Pedem que vamos assistir ao despertar de Fernando.
— Mas já?
— Pois não foi você quem levantou todos os dados favoráveis a este acontecimento? Não seja incoerente, ou está desejoso de receber festiva manifestação de minha parte pela lucidez de sua visão?
No instante seguinte, reuniam-se à multidão de amigos de Fernando, que esperavam em silêncio para recepcioná-lo alegremente.



32. O DESPERTAR NO ETÉREO

Antes de relatar o ocorrido junto ao perispírito adormecido de Fernando, é preciso que dediquemos algumas linhas ao pessoal encarnado, cujo sofrimento se mesclava à profunda perplexidade de quem não mantém programação paralela com inclusa possibilidade de perda dos membros da família.
Cleomena, coitada, era a que menos se conformava, por mais que Assíria lhe assegurasse que Fernando não poderia estar mal perante as entidades responsáveis pelo acolhimento dos espíritos das pessoas devotadas ao bem.
Nos primeiros três sábados após o desenlace, não chamou ninguém para o Evangelho no Lar, limitando-se a passear, alheia a tudo, pelo shopping, buscando os locais que freqüentara com Fernando. Ao centro espírita não ia, porque não desejava ser alvo de perguntas incômodas. Quando da morte de Lalau, ainda se restringia ao lar e apenas dava pequenas saídas para as compras diárias. Em relação a Nando, tinha Assíria e, principalmente José, a auxiliarem-na nesse setor, de modo que os passeios aos sábados tinham o mérito de justificar a fuga do compromisso doutrinário. Com certeza, se tivesse quem a arrastasse para outro templo, iria com a maior satisfação.
Em casa, nem ao menos tinha tido tempo de fixar um lugar de preferência para o marido, de sorte que não conversava sozinha com o fantasma dele. Muitas vezes, dava com o olhar perdido num ponto vazio da sala, onde, por muitos anos, permanecera a célebre poltrona do Lalau. Nesses instantes, era despertada por alguns movimentos mais bruscos da criança, como a requerer para si a atenção sentimental da mãe.
Estivéssemos particularmente interessados nos pensamentos da nossa amiga e transcreveríamos alguma reflexão pessoal. Entretanto, veda-nos essa incursão o sentido que teria de indiscrição, sem qualquer valor para a nossa narrativa de cunho didático e filosófico.
Na quarta semana, com a presença, no plano espiritual, do esposo e da protetora Jesualda, Cleomena pôde admitir que a reunião se desse, aceitando a sugestão de Assíria, com a mais entusiasta aprovação de José, de que Fernando deveria comparecer.
Eis que o narrador, por força de não querer ficar por tempo demasiado a descrever o que acontecia no etéreo, acabou por remeter a ação para o futuro, sem atualizá-la devidamente. Peço vênia, portanto, para volver ao dia em que Fernando foi recepcionado pelos amigos.
Ao acordar, o nosso herói (e cada vez mais inibido me sinto de chamá-lo assim) soube reconhecer e confraternizar-se com todos os espíritos presentes. Deu demorado abraço em Jesualda, misturando as lágrimas de conforto moral às de reconhecimento pelo esforço da esposa em conduzi-lo pelos caminhos tortuosos da vida, sem temor por haver adquirido completa confiança no poder da divina misericórdia e, numa troca rapidíssima de informações íntimas, se inteirou do momento cármico de todos os de seus relacionamentos, pondo-se a par, inclusive, de que estava sendo requisitado pelo maioral da Escolinha de Evangelização para imediata matrícula, porque tinha lugar reservado numa classe reunida desde algum tempo.
Ao estabelecer contato com os guias, solicitou informes exaustivos a respeito de cada um dos filhos, porque Jesualda lhe dissera que estava às voltas com a maternidade de Cleomena, estando Estanislau entregue aos orientadores espirituais do Departamento de Acompanhamento das Gestações de Risco Quanto ao Teor Energético do Nascituro. Foi quando ficou sabendo que haveria lutas internas e externas relativamente aos bens que haviam ficado sub judice, porque o processo do espólio nem havia sido ainda concluído e já havia necessidade de outro.
— Que poderei fazer no sentido de conduzir os herdeiros à melhor solução? — inquiri, ainda fremente por ligar ao meu o destino daquelas seis criaturas.
— Você deve entender, Fernando, respondeu-me meu bisavô, que o sofrimento também é excelente estimulante para as reflexões existenciais mais sadias. Não fora assim e não haveria qualquer necessidade de se provocarem moléstias morais e físicas, porque se perderia o sentido da divina justiça.
Não sei quantos de meus amigos leitores tiveram a capacidade de adivinhar que aquele autor espiritual da página de rosto era a personagem tantas vezes mencionada no corpo dela. Se desse, agora, a palavra a Firmino, crivar-me-ia de perguntas pertinentes ao tema de minha rápida integração na Turma da Crítica Amena, sob a lúcida direção pedagógica de nosso mentor, Professor Ovídio. Contudo, devo reservar uma página especial para os esclarecimentos necessários relativos ao meu progresso.
Entrementes, vou prosseguir contando como é que os demais amigos me festejaram, com alegria e com graves promessas de meu entrosamento nas lides escolares e socorristas.
Foi Jarbas quem me colocou ao corrente das lições da turma e o fez em pouquíssimos instantes de colóquio, enquanto ainda recebia os abraços no leito hospitalar.
— Quer dizer que o meu regresso estava tão bem caracterizado que até me destinaram encargo de tamanha responsabilidade quanto o de escrever a peça resultante dos embates da vida como lições a serem aprendidas na escola?
— Certamente havíamos dado tempo para que você pudesse fundar a sociedade espírita que lhe estava enchendo de sonhos a fértil imaginação doutrinária. O que não podíamos esperar é que, de repente, o êmbolo resultante do trombo em sua perna, causado por infeliz flexão quando reunia as cinzas da poltrona do Lalau, viesse a se alojar em ponto tão vital do cérebro. Importa saber se você será capaz de substituir o trabalho efetivo no campo material por outro subjetivo no etéreo, mas que estará disponível aos encarnados, assim que o mediunizarmos.
— Tenho escolha?
— É preciso medir a sua disposição perispiritual em função da augusta vontade de ser útil em setor de mui curta repercussão entre os mortais, porque os trabalhos escritos de mais largo fôlego e de maior rigor conceptual não se aceitam muito facilmente, nem para editoração, nem para a compra e ainda menos para a leitura.
— Se houver compra não é de obrigação a leitura?
— Você é recém-chegado. Vendia livros. Está perguntando por razões meramente retóricas?
— Estou pensando na reprodução textual deste diálogo, para forçar a informação de que muitos livros espíritas são comprados com intuitos meramente sociais, porque se visa a dá-los, cumprindo o doador com a obrigação de divulgar a doutrina, mas sem a cobrança impositiva de quem exerce ascendência de qualquer espécie sobre o presenteado.
Jarbas me trouxe Firmino, em quem notei forte interesse em desvendar vários mistérios correlacionados à minha história. Tão sérias eram as suas intenções que, de pronto, resolvi que seria o meu braço direito na confecção do livro que já ia empolgando as minhas energias. Penso que terei de escrever mais sobre isto.
Finalmente, Gregório e Celestiana se deram a reconhecer como superiores a Jesualda, na linha de assistência a Cleomena. Identifiquei-os pelos encontros que mantivemos em minhas excursões astrais durante o sono e não foi sem emoção que me pediram para incentivar uma vida social mais intensa para a viúva, porque, não tendo complacência de meu recente convívio terreno, julgavam que o melhor para ela e para o filho seria encontrar um homem em condições de arcar com as responsabilidades domésticas.
Prendia-me a mão Jesualda, como a auscultar as minhas íntimas reações sentimentais. Passei por levíssimo delíquio emocional, logo contornado pela impressão de estar sendo prepotente. Ocorreu-me perguntar se não bastava a Cleomena haver recuperado a convivência com Estanislau, do mesmo modo que eu reencontrara Jesualda, mas intuí que a resposta se encontrava no amor do Pai a englobar todas as criaturas numa única esfera afetiva.
Aquela reunião terminou com a prece feita para a ocasião por Maciel, que me deu a honra de uma visita de cortesia, com o intuito declarado de me estimular as melhores reações para as reminiscências dos momentos felizes, as quais soem pôr-se em cotejo com as angústias do presente, gerando o sentimento a que se dá o nome de saudade.
Eis o trecho correspondente de sua oração:
“É preciso, Pai, que nos conforteis o coração e que nos dissipeis as sombras das dúvidas de que a felicidade arquivada nos arcanos da memória jamais retorne ao campo das sensações, porque se nos afigura que as circunstâncias estão sempre adquirindo novas fisionomias, em contraste com a ingênua capacidade que tínhamos de sentir. A força da intelectualidade faz expandir os limites de nosso universo, enquanto presilhas existenciais nos restringem os afetos, que não se permitem diluir em ondas de mesma intensidade. É preciso, Pai, que nos debeleis o temor de contrairmos novos compromissos com seres que devemos agregar ao nosso círculo.”



33. O BODE EXPIATÓRIO

O grupo a que pertenço, denominado, como se sabe, de Turma da Crítica Amena, não contente em me fazer seu relator, também investiu em minha experiência espírita vinculada a uma sociedade kardecista, para que se pudessem expor os sentimentos, mais ainda, os eflúvios mentais reunidos em feixe energético, mescla de intelectualidade e de emotividade, que o aparato doutrinário sedimenta na personalidade dos que se dedicam aos estudos e às tarefas inerentes à prestação de serviços afeta aos planos da matéria e da espiritualidade.
Aquela expressão Crítica Amena, longe de representar conforto para mim, logo se tornou grave preocupação, porque qualquer atividade de que me recordasse ia catalogando segundo meu prisma de duvidoso conteúdo científico. Assim, para exemplificar, simples entrevista de alguém que se tivesse proposto a freqüentar o centro passei a esquadrinhar de começo ao fim, a ver se não me vali da posição de dirigente e de responsável, para humilhar a pessoa, quer pela postura de qualificado representante do movimento doutrinário, quer no de conhecedor das obras básicas, além de provado e aprovado pela congregação que me respeitava o desempenho físico e moral, social e particular.
Quero crer que venci o medo de me expor, tendo adotado a fórmula da terceira pessoa, iniciando a ação do meu relato bem antes de para cá ter sido enviado tão de repente. Essa manobra estrutural da composição obrigou-me a falar de mim com bastante despojamento, o que não faria se minha fosse a iniciativa desta meia biografia. Peço, pois, que me desculpem se fiz por merecer o epíteto de orgulhoso ou de vaidoso, tendo em vista os diversos encômios, os quais espero que não se transformem em vitupério. Antes, solicito que qualquer pensamento desairoso quanto a minha personalidade seja encaminhado ao grupo, que se encontra preparado para o mea-culpa dos atrevimentos programáticos.
Por outro lado, as peripécias que não me envolveram e cujo inteiro teor não tinha como conhecer, foram-me passadas quer pelos orientadores das pessoas encarnadas, quer pelos próprios espíritos interessados, exceção de Estanislau, cujos problemas apenas sucintamente pude mencionar, à vista das restrições ao enredo que não se deixa aprovar por si mesmo, mas que necessita da voz de comando da entidade em questão. De qualquer modo, nesta altura dos acontecimentos, posso dizer que meu filho Fernando Estanislau (porque só Fernando já havia outro) me autorizou em parte o relato de suas crises, impedindo-me formalmente a divulgação dos escritos guardados em seu arquivo no etéreo.
Quem me apóia incondicionalmente é o amigo Jarbas, de antigos relacionamentos, que me empresta, em horários bem definidos, o nosso Firmino, com quem tenho mantido colóquios os mais proveitosos para meu restabelecimento integral na qualidade de instrutor das ordens inferiores dentro desta mesma instituição escolar.
Mas este capítulo não escrevo senão para cumprir a promessa de falar a respeito de dois pontos específicos mal delineados no tópico anterior, quais sejam: 1.o) os esclarecimentos necessários relativos ao meu progresso; 2.o) a confecção deste livro.
Para bom entendedor, as tantas palavras acima devem ter sido suficientes para esclarecer o porquê, tão logo cheguei, já me integrei aos trabalhos da comunidade escolar. Acrescento que a derradeira encarnação só não cumpriu inteiramente seu programa no sentido de me fazer mais cônscio do poder da fé raciocinada, como alavanca para a crítica de tom elevado a quanto defeito testemunhei no âmbito do movimento espírita. Se me fosse dado volver (palavras de muita sensibilidade sem nenhuma contrapartida existencial), iria vergastar, através da imprensa, quanta manifestação caracterizasse como frontalmente contrária aos preceitos embutidos na codificação. Ao contrário, perdoava, simplesmente, pondo na mão de Deus a solução dos problemas, sem avaliar que os bens do discernimento devem ser empregados a favor de todos e de cada um. Não quisesse ferir susceptibilidades, mantivesse correspondência íntima, mesmo correndo o risco da incompreensão e da má vontade dos possíveis desafetos. Causava-me certa repugnância ler nas páginas da imprensa confessional as discussões sobre pontos nem sempre exclusivamente teóricos. Além disso, arrepiava-me ao contato esporádico de um ou outro prócere cujos artigos feriam mais fundo através da aspereza da crítica a que expunham seus contraditores.
Como se pode notar, o espírito da amenidade se mantém na minha exposição, mas por força da recomendação psicopedagógica do mestre Ovídio, tanto que evito ao máximo chocar a sensibilidade de meus leitores encarnados.
Quanto ao segundo ponto, muito também adiantei acima, mas me resta informar que estou sendo instado para seguir de perto a vida de meus familiares, pelo menos até que haja necessidade de me pôr à parte, tendo em vista um novo congraçamento afetivo de Cleomena, o qual, de resto, devo patrocinar.
Finalmente, conforme me expôs Jarbas, penso que preciso referir-me à mediunização da obra, ou seja, a todo o processo concernente à transmissão a um dos médiuns escreventes de que se utiliza a Escolinha de Evangelização.
Ressalto, de início, que alguns escrevem sem saber que estão sendo dirigidos por companheiros nossos. Existe um que há vinte anos nos tem servido quase exclusivamente, sem saber também que introduzimos em seus lavores muitos textos avulsos de entidades não pertencentes ao nosso círculo. Esclareça-se que o aparato técnico nós é que fornecemos.
Mas o que desejava mesmo tornar evidente é que o conjunto de mensagens que venho preparando ficará à disposição da classe e dos mentores, para correção e adequação aos objetivos programados. Sendo assim, muito do que se está lendo (conforme devo presumir) não estará absolutamente de acordo com o meu primeiro rascunho. Sei que, no momento do ditado, todo o livro terá repassado pelas minhas mãos, devendo responsabilizar-me por alguns adendos, com o intuito de compor um texto coerente com o meu estilo, mas, caso haja distorções, acréscimos ou supressões provenientes das naturais dificuldades da mediunização, caberá ao leitor estabelecer certo padrão de análise para poder reconhecer o que nos coube como preocupação e o que incide sobre o espírito da turma a quem caberá tornar compatíveis as ondas energético-fluídicas, para estabelecer o campo magnético mais adequado à tradução de nossas vibrações intelectuais e emotivas para o dialeto eleito dentro da norma culta, a mais indicada para este contato de certo nível espiritual.
Firmino, ao meu lado, chama a minha atenção para a impropriedade do rótulo do capítulo, porque nem tudo quanto escrevi tem de ver com o fato da minha posição dentro da turma.
— Meu caro, digo-lhe eu, vai ficar como está, primeiro porque a expressão é apelativa e, de certo modo, reflete um instante de perplexidade da minha parte; segundo, porque, se promover alguma celeuma restrita aos comentários a que o espírito crítico dos encarnados sempre se predispõe, que sirva de modelo para o estabelecimento definitivo de que a perfeição paira muito longe das esferas que circundam o nosso mundo espiritual. Valha-nos o desforço dissertativo.



34. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É uma pena quando se chega ao final de um trabalho a que se tem dedicado muito amor e cujos frutos estão sendo colhidos ao decorrer destas maravilhosas tardes de transmissão.
Deram-me a primazia, a mim, Fernando, de participar ativamente de todas as etapas da mediunização, de forma que posso asseverar que o texto resultante deste excelente convívio entre os da classe e o médium estão aprovados integralmente.
Claro está que, como mais acima dissemos, a perfeição não teria redundado numa obra sequer parecida a esta. Mas isto é o que menos está preocupando-nos. Se o fato vai citado, é apenas para motivar o comentário segundo o qual é preciso que cada leitor estabeleça, como parâmetro crítico de tudo o que lê, os fundamentos morais de Jesus e os preceitos do Espírito de Verdade, que se encontram em Kardec.
Eis que encerramos a obra sem perpassar por todos os setores em que se aplicam os diligentes espíritas em suas casas de benemerência. Mas bastaram-nos alguns princípios de procedimento para evidenciar que o melhor que ali se pratica reside nos corações que se educam e nas mentes que se esclarecem, para o que contribui mui eficazmente, dependendo do que assiste e do que recebe a assistência, todo e qualquer gesto de solidariedade e de co-participação nas decisões que resultam em criação de ambiente espiritual propício a uma paz duradoura.
Tantas palavras quando nos seria suficiente dizer, com Kardec: fora da caridade não há salvação!
Por outro lado, também não nos trouxe até aqui a ânsia de substituir as diretrizes doutrinárias das obras da codificação. Trouxe-nos, sim, a necessidade de apontar alguns defeitos de postura perante os ensinamentos, muitos preconceitos que estão arraigando-se na mentalidade dos que excedem o direito de determinar os padrões, instituindo as suas idiossincrasias como normas absolutas dentro do círculo de que se acham responsáveis.
É preciso, por exemplo, encarar o erro como fato normal, sem o que as conseqüências deles deixam de ser contadas entre as lições. É justamente por isso que não nos empenhamos em ir às minúcias, mas em fazer apanhado temático de espectro bastante amplo, que é para dar ocasião a que os amigos encarnados transfiram para o âmbito de sua atuação esta nossa sugestão de buscar estabelecer a crítica de todos os empreendimentos, mas de forma amena e evangelicamente condicionada.
Não tivemos tempo, nestes últimos meses, de caracterizar um relacionamento conseqüente para Cleomena mas nos foi possível, durante as sessões públicas de atendimento mediúnico, ditar algumas mensagens, às vezes cifradas, para que a família mantenha aceso o pendor espírita filosófico, principalmente.
Pede-me Firmino para elucidar o caráter de um texto mediúnico cifrado. É aquele que não diz diretamente que a pessoa deveria ter oferecido os préstimos para contribuir para a Festa da Salada, mas que elogia e demonstra a felicidade de uma personagem por ter participado da organização do Bazar das Doações, que gerou tais ou quais benefícios, enchendo o coração do povo acolhido de graciosas prendas espirituais.
Outro exemplo bastante considerável está no corpo de nossa obra, no que tange a não nos termos estendido em considerações a respeito da prece, mas termos reproduzido algumas, como forma de aplauso e orientação, porque a prece deve representar, conforme nos esclarece o Codificador, a manifestação íntima do desejo de se relacionar com a Divindade. Talvez estejamos incidindo numa falha ao expormos esta questão de modo a causar uma espécie de reação em cadeia na alma dos leitores, mas que se apliquem a nós os sinceros votos de progresso, os quais hão de significar um grau a mais na compreensão de como nos ajudam as vibrações carinhosas de quantos se simpatizam conosco, com certeza por descobrirem em nossa mensagem o mais sincero interesse em divulgar os conhecimentos a que estamos outorgando a superior importância de aplainar as dificuldades para o labutar doutrinário.
Deixo o emocionado até breve de Firmino, de Jarbas, de Jesualda, de Celestiana, de Gregório, de Ovídio e de Maciel, na esperança de que não se permitam os amigos apenas uma leitura simples deste livro. É para acreditar que servem os textos como processo de invocação dos autores, sendo muitos os que compartilharam da elaboração da obra.
Jarbas me avisa que gostaria de deixar um recado pessoal. Ei-lo:
— Meus amigos, não estranhem que em nossa história não haja vilões, ou seja, pessoas de má formação moral. Os pobres espíritos que aqui compareceram vieram para demonstrar que os desgraçados têm sempre de contar com a ajuda dos que ultrapassaram as lindes dos sofrimentos mais onerosos para o equilíbrio psíquico. Os filhos de Fernando, por desejarem a sua herança pensando nela como um ato da mais nobre justiça, não foram mais que de sombras, mesmo assim vigiadas quanto a serem alertadas para os seus defeitos pela lei de ação e reação. Aliás, sugiro que a distinção que deixou de ser realizada entre essa e a lei de causa e efeito se fundamente num mero recurso retórico, porque ambas têm o mesmo aparato filosófico: empregue-se esta última com maior sentido material; a outra, para referir a fatos meramente espirituais. Confundi-las, portanto, é perfeitamente justificável e não irá causar nenhum problema para as susceptibilidades dos que gostariam de ser precisos em todos os conceitos. Era o de mais importante que desejava dizer-lhes, mas sempre menos do que os meus votos de plenitude espiritual pelo estudo das obras básicas do Espiritismo e pela prática diuturna da caridade, por amor a Deus e aos semelhantes.
Firmino está louco para comunicar-se com os vivos:
— Louco não deve entender-se senão no sentido de intensivo emocional para a fala resultante de raciocínio lógico e ponderado maduramente. Meus irmãos, jamais se deixem levar pela frieza dos processos mentais; antes, considerem que os sentimentos operam milagres quando disciplinados pelas virtudes. Fiquem com Jesus, orando ao Pai a sua maravilhosa prece. Graças a Deus!
Cleomena, Assíria, José, Guilherme, Rodolfo, Elisa, Angélica, Maria do Rosário e Dolores, em estado sonambúlico, instados a se manifestarem a respeito de sua presença no roteiro da obra, assentiram sem resistência, após terem lido os rascunhos. Inclusive fizeram questão cerrada de que os seus dizeres fossem reproduzidos com a maior fidedignidade possível. A resposta de Lalau já conhecemos.
Resta perguntar se os leitores encaram este nosso universo como real ou ficcional. Porque, entretanto, não há meios de registrarmos a sua resposta aqui, deixamos anotado que a Turma da Crítica Amena e mais todos os mentores da Escolinha de Evangelização, em especial o Professor Ovídio, aceitam a tese de que a concepção universal da existência como resultante de todas as experiências individuais e coletivas forçosamente deverá conter os pensamentos e os sentimentos gerados a partir desta leitura e isso é o que está no âmago da realidade.
Deus nos abençoe e nos prodigalize os bens de uma vida proveitosa junto aos entes queridos, ampliando-nos os horizontes para podermos agasalhar em nossos corações os novos amigos que vamos cativando. Vivamos sob o manto protetor de Jesus e sob as luzes inefáveis de Kardec. Assim seja! Graças a Deus!
Indaiatuba, de 02 de abril a 22 de maio de 1998.
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