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Erótico-->4. COMO SE FOSSE UM SONHO -- 21/10/2003 - 06:32 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Adonias recolhera-se havia duas horas, quando foi acordado pela mãe. A velha senhora queria falar:

— Desculpe-me, meu filho, mas eu preciso confessar-me.

Adonias estava acostumado com essas interrupções noturnas. Embora não tivesse os paramentos devidos, pôs-se sentado no leito, fez Dona Genoveva ajoelhar-se aos seus pés, encostou o ouvido nos lábios dela e pronunciou algumas palavras mais ou menos formais, para dar aspecto sagrado ao ato íntimo:

— Que Deus me perdoe, se eu estiver pecando contra os mandamentos da Santa Madre Igreja, porque fui desvestido das ordens e fui impedido pela Santa Sé de praticar o sacerdócio. Contudo, em nome de Jesus, a pedido de minha mãe, aqui recolhida em prece, vou dar prosseguimento a este ato, solicitando ao Senhor que nos ampare e nos ilumine, enviando-nos os nossos anjos da guarda, que saberão afastar os demônios que iriam fazer-nos cair em tentação. Que eles leiam em nossos corações toda a pureza de nossa fé cristã e de nossa eterna esperança de salvação no reino do Senhor. Dona Genoveva, faz tempo que a senhora não se confessa?

— Uma semana, padre.

— O que a senhora fez que violou as leis de Deus nestes últimos dias?

— Pouca coisa, senhor, mas o suficiente para me arrepender do que fiz, precisando vir pedir o perdão de Deus, porque eu o ofendi, maltratando as pessoas de minha casa e pensando mal a respeito das vizinhas e de alguns parentes.

— Deseja contar por que se voltou contra seu marido e seus filhos?

— Seu pai, padre, está sempre falando mal do senhor, dizendo que se sente muito infeliz por haver abandonado a religião e, mais ainda, por estar perdido no mundo, feito louco, porque ele sabe que o filho fica fazendo pregações pelas praças, como se fosse um pastor sem rebanho, a acusar os outros pastores de desleixo no trabalho, porque ele sempre me diz que cada pessoa está sob a proteção de um pároco, de um distrito religioso, de uma diocese. Eu sempre peço a ele que fique em casa e converse com você, mas ele se recusa e vai embora. Ontem, quando você ia chegando, ele pegou o chapéu e ia saindo. Eu corri e fechei a porta para detê-lo, mas ele ficou furioso comigo e, sem falar nada, me arredou de sua frente, demonstrando uma força que eu não pensava que ele tinha, e ganhou a rua pelos fundos. Enquanto você entrava pela porta da sala, ele saía pelo jardim. Hoje, quando viu que você veio dormir, ele entrou, amaldiçoando a hora em que fez a promessa de dá-lo a Deus como um pastor de suas ovelhas.

— O que a senhora diz a ele? Fala que ele é isso e aquilo, ou somente fica com o coração cheio de fel e de agonia?

— Eu só falo para ele que Deus, um dia, vai recolher todos os seus filhos que se amaram como Jesus nos amou a todos e que, se ele continuar com tanto ódio no coração, não vai conseguir ocupar um lugar ao lado do Filho de Deus nem ao seu lado, porque eu sei que você não faz nada de errado, que você ama todas as pessoas, que você não prega a rebelião contra os ricos, mas que apenas pede a todo o mundo que reparta o que tem, conforme a Maria e a Marta me contaram, porque elas foram ouvir você pregar três ou quatro vezes e ficaram muito impressionadas com tanta palavra em louvor a Deus, como nunca têm ouvido nos púlpitos das igrejas do bairro.

— Mãe, eu não compreendo qual é o seu pecado. De que a senhora tem medo de se ver em apuros perante o julgamento de Jesus? De que a sua consciência a acusa?

— Eu acho que não devia censurar tanto o seu pai, porque ele é um homem muito bom, ajuda muitas pessoas e nem de você ele fala mal.; apenas fica resmungando que nada do que aconteceu devia ter acontecido, como se Deus não tivesse suficiente força para manter você no caminho que ele colocou. Eu acho que, desse jeito, em lugar de promover o bem, eu ajudo mais ainda o velho a se afundar em sua mágoa. Que devo fazer? Devo pedir a ele que se entenda com você ou pedir a você que vá até ele? E se vocês brigarem? Deus me livre de causar tanto transtorno!

— Mãe, a senhora verdadeiramente se arrepende de pensar assim ou está confessando um pecado que sabe que não irá vencer?

— Eu acho que as minhas idéias e os meus sentimentos só irão sossegar quando vocês se reconciliarem. Para isso, estou com medo que Fernando só vai aceitar você de volta se regressar à Igreja e restabelecer os seus vínculos religiosos.

— A senhora está com medo de que Deus seja injusto e não saiba ver quem pratica o bem e queira somente a felicidade dos outros? É isso?

— Essa acusação ao Senhor já me passou pela cabeça, mas eu fico estremecida com essas idéias e não quero que meu coração participe dessas reações. Quando isso acontece, eu rezo muito, vários terços em seguida, e vou acender algumas velas junto ao quadro do Coração de Jesus. Depois, eu corro a me confessar, mas a minha cabeça fica confusa e eu não sei o que pensar direito, tanto que, às vezes, tenho até medo de comungar.

Adonias fez um gesto, pedindo silêncio e se concentrou em preces, rogando ao seu anjo da guarda que o inspirasse, no sentido de dar à mãe toda a tranqüilidade do mundo. Após alguns minutos, falou:

— Mãe, Dona Genoveva, o “Seu” Fernando, meu pai, está passando por momentos de muito sofrimento, porque sempre é muito difícil de compreender uma desilusão tão forte, quanto a perda de um filho, porque, para ele, eu só existia enquanto cumpria a promessa que ele havia feito. Eu acho, a senhora me desculpe, que ele não pode querer a salvação eterna só porque um filho seu não correspondeu à sua expectativa. Se dependesse de mim, eu voltava para a Igreja, renovava os meus votos e me instalava num convento, somente com o intuito de lavar a alma do velho e deixá-la branquinha para entrar no céu. Mas a verdade é que eu tenho a minha vida para viver e eu acho que tenho feito tudo o que posso para levar um pouco de luz à mente das pessoas que fazem deste mundo um antro do vício, dos crimes, de perversidade etc. Como a senhora disse, eu não acuso ninguém, mas não deixo de apontar os erros, exatamente como Jesus fez com todo o poderio de sua inteligência divina, porque soube compreender os homens de seu tempo, tanto que tinha a certeza de que seria traído e crucificado. Eu não fui capaz de arregimentar ninguém para me seguir, porque as pessoas que se interessaram em ficar comigo apenas queriam furtar as carteiras dos meus ouvintes, enquanto prestavam atenção em mim. Mas essa é história que este momento não comporta. De qualquer jeito, eu acho que a senhora não praticou pecado nenhum. Aliás, se insistir em achar que está sendo injusta em relação ao Senhor, aí é que estará errando em um preceito fundamental: o da fé em que o Pai irá dar a cada filho a melhor oportunidade de reparação de todos os males. Por último, a senhora veio pedir a um excomungado que a perdoasse. Desse jeito está ofendendo os mandamentos da Santa Madre Igreja, que não lhe permite agasalhar uma pessoa no meu estado. Sendo assim, se a sua consciência a censurar, não hesite em procurar um padre verdadeiro para lhe contar tudo o que se passou nesta noite. Reze agora o ato de contrição e depois cumpra a penitência de um padre-nosso e três ave-marias em intenção às almas do purgatório, acendendo uma vela nova junto ao quadro da sala.

Adonias aguardou a mãe terminar a oração, benzeu-a como um padre revestido de poderes e pediu-lhe que o deixasse sozinho, porque:

— [...] preciso meditar a respeito de um convite que recebi para comparecer a um templo de outra religião. Mas não diga nada a ninguém, pois eu não sei se vou ou não aceitar permanecer trabalhando com o pastor Adão.

A mãe saiu lacrimosa, levando no coração uma paz nova, cheia de admiração pela lucidez com que o filho soube conduzir as ânsias de sua alma perturbada pelas reações de duas das pessoas que lhe eram mais caras no mundo.

Enquanto isso, Adonias começou a suspeitar da identidade do homem que chamou de Adão:

“Eu não conheço a tal de Igreja Cristã da Misericórdia Divina, como é que vou logo afirmando que o tal é um pastor?”

Não dando maior importância à visita noturna da mãe, embora lhe houvesse ficado a intuição de que algo novo havia naquela confissão, embarafustou os raciocínios para dentro de si mesmo, a fim de surpreender em que exatamente estava extraviando dentro dos parâmetros ideais de um pensamento absolutamente lógico.

“Afinal de contas, quem sou eu para julgar meu pai?...”

A pergunta ficaria borboleteando por mais algum tempo no forro, até que ele apagou a luz, virou de lado e adormeceu de novo.

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