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Erótico-->8. TEMPO DE ESPERA -- 25/10/2003 - 06:48 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Adonias pensava dar no salão principal. Ao invés disso, encontrou-se num vestíbulo de uns quarenta metros quadrados, com muitos bancos e pessoas neles instaladas, como ainda, junto à parede fronteira, um balcão com duas recepcionistas uniformizadas de azul, espécie de “tailleur” de aeromoça.

Dirigiu-se para lá mas precisou aguardar que atendessem três pessoas, tendo ouvido uns fiapos de conversas:

— A senhora deve esperar junto ao elevador da esquerda. O seu nome será chamado logo.

— Quanto tempo vai levar?

— Não mais que quinze a vinte minutos.

— O senhor deve descer doze andares. Lá lhe darão todas as informações relativas à sua situação.

Adonias achou muito estranho que o edifício tivesse sido construído no fundo da terra. Estranhara que tinha quatro andares, incluindo o térreo, porque essas seitas economizavam no aparato material. No entanto, tudo ali era de primeira e agora vinha aquela informação surpreendente do número dos andares subterrâneos.

— Pois não, senhor!

— O meu nome é Adonias. Vim para ver o Senhor Adão.

— Doutor Adão. Um momentinho que vou consultar o arquivo no computador.

A jovem digitou algo e, imediatamente, na tela do monitor ao lado, surgiu um texto, que Adonias não conseguiu ler, porque não deu para ajustar o foco dos óculos.

— O Doutor Adão está avisando que o reverendo deve aguardar no consultório dele.

— Ele está à minha espera?

— Não, Padre Adonias. Ele pediu para que a gente o chamasse assim que o senhor chegasse. Nesta hora, ele deve estar operando no hospital.

— Por favor, serei indiscreto se perguntar em qual ramo cirúrgico se integra a especialidade do médico?

— O Doutor Adão é conhecido esteta de correção dos defeitos da face.

— Cirurgião plástico.

— Se é que se pode chamar assim a uma pessoa que se dedica particularmente a integrar as pessoas à sociedade quando apresentam defeitos congênitos ou quando sofrem acidentes que deformam o rosto. Mas ele lhe dará todas as informações que o senhor requisitar. Enquanto o senhor vai até o consultório, vou ligar para ele.

— Será que vai achá-lo?

— Não se preocupe. A telefonia celular acha sempre as pessoas.

Foi quando Adonias reparou num jovenzinho aparatado como serviçal do templo, ao seu lado, à espera das ordens da recepcionista.

— Leve o Padre Adonias ao consultório do Doutor Adão.

— Por aqui, senhor.

Dirigiram-se na direção contrária em que haviam seguido as duas pessoas atendidas antes, até uma porta lateral que abria para um amplo corredor, cujo fim a vista turbada do padre não conseguiu distinguir. Mas não caminharam muito, até que pararam diante de um elevador automático. O rapazelho fez que Adonias entrasse e ele mesmo acionou o botão do terceiro andar. Adonias examinou o quadro de botões mas ali só se assinalavam os andares superiores. Desse modo, a viagem foi curta.

Novamente se abria outro corredor extenso e de novo Adonias não enxergou o fim dele. Passaram perante umas quinze portas, onde se registravam os nomes dos ocupantes das salas e suas habilitações médicas, até que chegaram àquela em que estava o nome do “Dr. Adão”, com o respeitável anúncio: “Correção cirúrgica facial”.

Havia uma ante-sala com estofados, u’a mesinha de centro com revistas e um relógio na parede. Pela janela jorrava a forte luz do sol, filtrada através de um cortinado de tule azul claro, com flores amarelas e folhagens verdes, levemente esvoaçante. A Adonias pareceu ter a visão de um campo florido projetado num fundo celestial.

Viu-se sozinho. Sentou-se. Apanhou uma revista. Leu o título do artigo de capa: “A laparoscopia como sistema de tratamento das infecções”. O título da revista era estranho: “Medicina Universal”.

Fez um esforço de memória e chegou a um resultado curioso:

“Se bem me lembro, no hospital me fizeram passar por um exame laparoscópico. Mas o procedimento não era terapêutico. Era apenas uma exploração do estômago e da cavidade abdominal, que se transmitia para uma tela, onde os médicos podiam ver se estava tudo em ordem ou diagnosticar os problemas.”

A reflexão levou-o a procurar o artigo e logo encontrou a resposta que buscava. Tratava-se de um sistema de investigação dotado de recursos apropriados para a aplicação “in loco” de certas ondas e vibrações, com possibilidade de fechamento de úlceras, através de um método similar ao dos raios “laser”, através de fibras óticas de cerâmica.

Isso foi tudo que ele conseguiu assimilar, dando-se por satisfeito por entender algo muito difícil para quem não tem formação específica, mas, ao mesmo tempo, sentiu uma espécie de frustração íntima, porque lhe pareceu que as ciências se desenvolviam às custas das dores e sofrimentos. Abençoou mentalmente as pessoas que se dedicavam a sanar os males dos semelhantes, lembrou-se de Jesus a curar sem nenhum aparato médico e felicitou-se por haver sempre estimulado os jovens mais inteligentes a que se dedicassem a algo mais sério na vida do que os gozos e prazeres sensórios, primos irmãos dos vícios e dos crimes.

“Preciso estar atento para este tipo de raciocínio conjugado com os meus instintos e anseios de vida, senão tudo o que pensar vai estar fundamentalmente vinculado às pregações morais e religiosas, enquanto certos vislumbres diferenciados das palavras de Jesus, pela atualização necessária aos parâmetros do pensamento hodierno, irão perder-se no desarrazoado de minhas quiméricas deduções...”

Suspendeu a linha de raciocínios, achando tudo muito estranho. Tentou reproduzir a seqüência dos pensamentos e não conseguiu. Aí ia tirando como conclusão que estava ficando louco, quando o Doutor Adão entrou sorridente, estendendo os braços para levá-lo para si.

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