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Erótico-->11. A INTERNAÇÃO -- 28/10/2003 - 06:32 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

De repente, Adonias viu-se despedindo-se de Adão, sendo levado pelos corredores pelo cicerone juvenil, o mesmo da outra vez, encarregado de destiná-lo ao quarto individual que lhe estava reservado.

Reparou em que o jovenzinho lhe dava todas as informações a respeito de quantos andares eles iam descendo, mas, dessa vez, não conseguiu guardar muita coisa. Ouviu falar em ala dos dementes, dos lunáticos, dos psicopatas, dos esquizofrênicos, dos loucos em geral, mas não se deu conta de que perguntas poderiam esclarecê-lo melhor a respeito das atividades. Mais tarde, iria vagamente lembrar-se de que o rapazelho lhe dissera de doentes do fígado, do estômago, dos pulmões, dos intestinos. Mas tudo isso se embaralhava na memória, capaz, isso sim, de recordar que se preocupara com o fato de ter de permanecer internado, enquanto, nas ruas, as pessoas davam curso às suas vidas sem perspectivas de grandes lucros morais, para fazerem jus à eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

No quarto, observou que a mesma enfermeira era quem aguardava por ele, tendo providenciado a roupa de cama e todos os petrechos necessários à estadia dele no hospital, incluindo pijama, escova de dentes, sabonete, no banheiro privativo, e uma pilha de livros, sobre a mesinha das refeições, com a recomendação enfática de que deveria começar a ler na ordem numérica.

“Afinal de contas, o meu mal está sendo tratado e dos meus distúrbios maiores já sei cuidar através das preces ao Pai, para concentrar os elementos da fé, que haverão de compensar o refluxo nas áreas prejudicadas pelo tumor.”

Deitado no leito, guardadas as suas roupas no armário simples de um só corpo, com duas gavetas, recebeu os primeiros medicamentos, constituídos de vários comprimidos e alguns sucos, estes, sim, com sabores definidos.

Seja porque o dia tinha apresentado tantas novidades, seja porque os remédios contivessem algum ingrediente de efeito narcótico, Adonias logo adormeceu. Quando acordou, percebeu que era tarde da noite por estar muito escuro, estando as luzes apagadas, com exceção da que iluminava o corredor.

Espreguiçou-se longamente, levantou-se e foi até a porta, a ver se via alguém que pudesse informá-lo a respeito das horas. Ninguém. Não se atreveu a ir mais longe, observando, contudo, que estava num momento de perfeita lucidez orgânica. Estranhou a formulação desse tipo de pensamento muito inusitado e desejou ver se tinha o controle do ambiente. No entanto, o interruptor da parede do quarto não funcionou. O do banheiro, acendeu uma luzinha tênue, capaz de orientá-lo apenas para uso da bacia. Quis ver se a água do chuveiro estava aquecida, mas logo sentiu que estava numa temperatura inadequada para o banho, tão fria se apresentava.

Voltou ao quarto, após aliviar a bexiga, notando que a água da pia estava tépida e agradável.

“Será que vou conseguir ler? Se os livros me foram tão insistentemente recomendados por Adão, é porque, sem eles, poderei enfrentar alguns problemas.”

Contrariou, no entanto, a ordem dos números e passou os olhos pelo último da lista. A bem da verdade, interpretou as letras, mas os textos se embaralhavam incompreensivelmente, como se muitas informações carecessem de dicionário. Desgostoso, porque se considerava com capacidade intelectual de bom nível, resolveu que deveria obedecer, passando mais de duas horas, segundo um cálculo precário que fez, sentado sobre o leito, a meditar a respeito de seus votos de sacerdote, tendo partido da análise do voto de obediência, aquele que ferira mais prontamente.

Nesse devaneio, cruzou as reminiscências antigas com as lembranças atuais, a enfermeira passeando pelo quarto, e disparou o pensamento na direção do voto de castidade:

“Eis aí um ponto que nunca me preocupou. Desde que ingressei no seminário, nunca mais tive necessidades fisiológicas no campo do aparelho reprodutor. Se uma ou outra vez me ocorreram poluções noturnas, nem precisei levar o problema ao confessionário, porque tudo transcorreu normalmente, sem o adendo da tentação pelas figuras femininas criadas pela imaginação nem divisadas na memória, sem gozo material nem moral, que o meu desejo sempre foi o de vencer as marcas físicas de minha organização biológica.”

Mais ainda se surpreendeu com a linha de formulação dos pensamentos, principalmente porque, desde há muito tempo, especificamente desde o acidente, se voltara para integral auxílio ao próximo na esteira doutrinária do Cristo.

“Será que os religiosos que prestam serviço nesta ‘Igreja Cristã’ têm permissão para constituir família? Será que Adão é casado?”

Imperceptivelmente, deixou descair a cabeça sobre o travesseiro e adormeceu. Ao acordar, chamado pela voz calma da enfermeira de sempre, não se recordava de haver sonhado.

— Padre Adonias, está na hora dos remédios. Primeiro, no entanto, o senhor deve ir ao banheiro, tomar um banho...

— Minha cara, por favor, como devo chamá-la?

— Como está no crachá.

Foi só aí que, fixando a vista, Adonias pôde ler o nome da moça:

— “Alice”. Muito bem! Esta noite a água estava gelada.

— O “boy” não lhe disse que, nos andares de baixo correspondentes às alas de internação, nós, como estamos sem contato com o exterior, adaptamos o dia e a noite a horários mais adequados à assistência dos pacientes?

— Ele deve ter dito, mas não prestei atenção. Se eu quiser controlar o tempo do lado de fora, é possível?

— Basta me perguntar, porque eu tenho horários para entrar e sair. O senhor não irá ficar perdido em relação ao dia e à noite. Agora, por favor, atenda à programação efetuada pelo Dr. Adão, porque eu não quero ser repreendida quando ele vier para a visita daqui a meia hora.

— Passe-me, rapidamente, a rotina diária, por favor.

— Não estou autorizada, principalmente porque a medicação e os exames só nos são informados após a visita dos médicos.

— Entendi, minha querida Dona Alice. A senhora é uma fiel cumpridora das determinações e quer que este paciente aqui não...

Ia fazer o miserando trocadilho de todos os hospitais, mas segurou-se a tempo, estranhando que estava derivando o seu modo de ser para um trejeito afetuoso e gracioso que, ultimamente, só se permitia quando ao lado das irmãs.

Quando voltou de banho tomado, de pijama limpo, e cheiroso, porque encontrou no armarinho do banheiro uma lavanda suave de alfazema, foi recebido por Alice com um farto dejejum.

Após tomar os remédios, estando ainda a saborear um gostoso copo de sumo de laranja, após uns pãezinhos umedecidos com margarina acompanhados de uma boa chávena de café com leite, apareceu Adão, com seu indefectível jaleco de linho branco.

— Bom dia, Pastor Adonias!

Ao desusado cumprimento, respondeu o sacerdote:

— Bom dia, Reverendo Adão!

Ambos esboçaram um sorriso, percebendo que se abriu um campo novo em sua nascente amizade.

Aí, o médico deu a explicação que lhe competia:

— Chamei-o de pastor para provocar-lhe uma novíssima emoção, como a lhe atribuir nova...

— Não há que se desculpar, doutor. Entendi. Se estou assumindo uma nova personalidade social, devo acatar as transformações no mínimo formais que a posição acarretará.

— Não apenas isso, meu caro irmão. Trata-se também de configurar uma nova filosofia em termos bem latos, como se você se transferisse do planeta Terra para Netuno, Vênus ou Plutão.

— Verdadeiramente, para mim tudo está parecendo a mais completa novidade. Por exemplo, em que língua foram escritas essas instruções que você me pediu para estudar?

— Como assim?

— Tentei ler esta noite... Posso dizer noite e dia, conforme Alice me orientou?

— Faça como quiser: dia, para os momentos sociais.; noite, para os de sossego e sonolência. Mas a leitura?...

— Saí da ordem. Peguei o último da lista e não entendi absolutamente nada. Que mágica é essa?

— Para saltar as etapas, você precisaria de um acompanhante que conhecesse muito bem todos os textos anteriores. São onze volumes. As explicações vão num crescendo, de modo que os conceitos se acumulam, não precisando quem conheça o primeiro, ao ler o segundo, voltar atrás. E assim por diante. Prefere que chame alguém para ajudá-lo ou vai começar do início? Não se esqueça de que você está para nós da Igreja como o escolar que se matricula no primeiro ano.

— Será que conseguirei vencer todos os ciclos antes de receber alta?

— Considero a sua pergunta muito séria, aliás, a mais séria que poderia ser feita nesta circunstância. Então, vou dizer-lhe que os seus estudos vão depender de um estado de euforia religiosa contagiante, ou seja, que você deve irradiar a mais completa felicidade, primeiro para concentrar todos os seus neurônios no setor da mente reservado à fé, aquele mesmo a que fiz referência no caso do despertar dos sentidos. Em segundo lugar, para provocar a presença de seu anjo da guarda, que deverá trazer-lhe as bênçãos dos santos em quem você mais deposita as suas esperanças de que venham a tornar-se seus padrinhos ou padroeiros, na caminhada da salvação de sua alma. Para tanto, solicito-lhe que se esqueça do que você possa considerar a maldição do ato que o excomungou, porque deve considerar que Deus abre dez portas quando uma se fecha. Não é isso mesmo?

— Quer dizer que devo apostatar de minha fé católica?

— Ao contrário, deve aperfeiçoá-la no sentido do perdão divino para todas as faltas. Não é a sua Igreja que possui no mais alto conceito a lei do perdão? Então, se Deus perdoa os homens arrependidos, por que não haveria de perdoar os que desejam unicamente praticar o bem?

— É verdade, mas...

— Perdão. Considere, por favor, o fato de que existe, estatisticamente, um número insignificante de cristãos e mais ainda de católicos na história deste globo. Será que toda essa gente está carregando diariamente o limbo de novas almas? Será que...

— Perdão, doutor. Entendi a mensagem, mesmo porque são questões que desde um certo tempo tenho colocado diante da minha consciência e para as quais não forneci todas as respostas. O senhor, você, desculpe-me, pode garantir-me que as noções religiosas básicas escritas nestes compêndios vão dar-me a oportunidade de compreender, como você falou, uma nova filosofia de vida?

— Com certeza, sim, desde que você medite bastante sem colocar obstáculos meramente emocionais, como se fosse perder tudo o que construiu na vida, porque haverá de realizar certa mudança de itinerário.

— Posso ser bastante sincero?

— Por favor!

— Eu não acho que exista outra verdade além das que Jesus expressou e que se contêm nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Veja que não estou citando os textos sagrados dos pais da Igreja nem as bulas e encíclicas papais.

— Você acha que nós o traríamos para dentro de nossa casa e depositaríamos tanta confiança em sua inteligência e discernimento, sem tê-lo avaliado convenientemente, a ponto de lhe conferir previamente um cargo da mais alta responsabilidade? Acredite, meu amigo, você vencerá as próprias angústias e sairá desses livros um ser muito fiel a Jesus, como nunca foi antes, uma vez que as diretrizes do Mestre estão todas aí, todas absolutamente respeitadas, talvez com uma interpretação adequada a uma nova Igreja, que está mais para os primórdios do cristianismo do que para as concepções atuais do clero romano. Mas, conforme já lhe disse, estamos sempre dispostos a considerar todas as intuições e a ceder o nosso ponto de vista mediante uma argumentação cerrada e baseada na verdade dos fatos e nas conclusões da lógica mais rigorosa.

Adonias gostaria de prosseguir a perquirição, mas Adão fez-lhe um gesto indicativo de que estava na hora dos exames clínicos. A um sinal seu, os dois enfermeiros que estavam fora trouxeram um aparelho semelhante ao da tomografia computadorizada, mas de manejo mais rústico, tanto que se protegiam da radiação apenas com um avental mais grosso, como que recheado de chumbo ou outro tipo de metal. Ao acionarem o mecanismo, portavam na cabeça um capacete com visor, onde Adonias pôde perceber o reflexo de uma luz azulada durante o tempo de exposição de sua cabeça.

A resposta dos exames foi imediata e logo Adão colocou as chapas radiológicas contra a luz, para observar o resultado da investigação interna.

Adonias, por seu turno, estava preocupando-se com outro aspecto do exame e não receou atrapalhar o clínico, perguntando de afogadilho:

— Adão, você não acha que existe excessivo resguardo dos enfermeiros, quando eu mesmo me exponho diretamente aos raios emitidos por essa geringonça tecnológica?

— Desculpe-me, amigo. Foi falha minha. Eu deveria tê-lo advertido de que, ao mesmo tempo que os raios localizam e medem o tumor, efetuando o registro eletrônico dele, também mantêm um efeito propício ao processo de cura, uma vez que a concentração irradiada está perfeitamente amparada pelos resultados dos exames de ontem. Os enfermeiros se premunem, simplesmente, porque a descarga poderia afetá-los diversamente, causando prejuízos, uma vez que não necessitam do tratamento. Até simples aspirinas podem causar danos a organismos, por exemplo, afetados por certas...

— Já entendi. Peço-lhe que me desculpe. Então, eu lhe pergunto por que tantos cuidados em que eu vá compreendendo todas as ações relacionadas à minha moléstia. Não bastava o tratamento?

— Outra questão fundamental. No seu caso, é preciso muito cuidado com o fator neurológico dispersivo, ou seja, a medicação tem de atingir os centros do cérebro de preferência em momentos de expansão dos neurônios, para a euforia que anteriormente mencionei. Sendo assim, a sua colaboração é imprescindível, desde que você não nos vê, a nós da “Igreja Cristã da Misericórdia Divina”, como autoridades indiscutíveis. Imagine que você estivesse perante o próprio Mestre. Não é verdade que se entregaria a ele integralmente, de corpo e alma, porque saberia que a cura seria certa? Nós também almejamos declarar-lhe que foi a sua fé que o salvou. Mas é preciso, antes, que você tenha fé.

Agora Adonias resolveu calar-se. Avaliou que Adão não deixava jamais a peteca cair enquanto ele mesmo tinha necessidade de respirar um pouco para readquirir as condições ideais da absorção de novos conhecimentos.

Foi só um momento de reflexão, mas, quando volveu à consciência, viu que estava só no quarto, deitado ainda na cama, para onde o haviam levado ao abandonar o aparelho.

Lembrou-se da recomendação de só estudar após apoiar a mente na religião e, de imediato, concentrou o pensamento na Virgem, rogando-lhe que mediasse o seu pedido junto ao filho querido, para que sarasse o mais depressa possível, que tivesse tempo e disposição para empenhar-se no trabalho que lhe prometiam.

Foram alguns minutos só mas Adonias constatou que aguçara as sensações, porque a visão estava a revelar-lhe as ondulações mínimas da pintura da parede em frente. Sentia também o odor da lavanda a ponto de enjoar-se. Prestou atenção nos sons que lhe chegavam pela porta e distinguiu claramente alguns gemidos e alguns pedidos de socorro e de clemência. Impressionou-se a ponto de pôr a cara no corredor para sondar de onde poderiam estar vindo aquelas vozes misteriosas. Foi quando enxergou o fundo do corredor, divisando uma enfermeira sentada atrás de u’a mesa, junto à parede. Contou quantas portas havia, tendo distinguido nitidamente quinze portas, alternando-se de cada lado do corredor.

Pareceu-lhe que as vozes se atenuavam, mas sentia-as agora com menor agitação, porque a calma da enfermeira inspirou-lhe a confiança em que tudo deveria estar sob controle. Foi quando descobriu na memória a voz juvenil de seu cicerone, apontando, andar a andar, as alas do hospital. Era da ala psiquiátrica que, evidentemente, deveriam estar vindo as lamentações.

Entrou, sentou-se junto à mesa e apanhou o primeiro livro da coleção. Antes de abri-lo, reforçou o pedido de luz e discernimento, orando três ave-marias e um padre-nosso.

Desta feita, as letras se ordenaram às maravilhas e ele pôde, rapidamente, passar pelo título e pela introdução, absorvendo as recomendações iniciais que, mais ou menos, reproduziam as palavras de Adão a respeito da necessidade de uma atitude intelectual isenta de preconceitos.

“Tudo está me parecendo bem coerente, desde este título simplicíssimo de A Unidade da Criação. Se for o que estou pensando, vou reler o Gênesis de Moisés.”

Aí começou o primeiro capítulo: Deus. Sorriu contente porque percebera o intento dos autores de colocarem o leitor, desde logo, perante o Criador. Mas a primeira questão e respectiva resposta, esfriaram-lhe o ânimo. Parecia-lhe estar diante de um texto conhecido e que um dia havia rejeitado.

Rapidamente foi lendo, sem meditar no assunto, apenas curioso pela similitude da composição sabida até de cor, porque era capaz de reproduzir previamente as perguntas e respostas que compunham o corpo da obra.

“Isto aqui é a mais deslavada cópia de um livro antigo de Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, com uma diferença: não contém as observações do autor, conforme consigo ler na memória.”

De repente, o pensamento falhou, a vista descaiu em luminosidade e Adonias perdeu a capacidade de absorver com tamanha voracidade o texto. Notou, então, que as suas habilidades sensórias haviam diminuído completamente, a ponto de se sentir alheio à realidade, mal conseguindo chegar ao leito e apertar o botão que chamava Alice.

Quem chegou, porém, quase em seguida ao seu chamado, foi Adão, trazendo consigo os dois enfermeiros, mais Alice e até o ajudante-de-ordens mirim. Foi quando Adonias desmaiou.

Ao acordar, sem noção de quanto tempo decorrera, sentiu que o ambiente estava mergulhado em trevas. Sua primeira lembrança foi a de que não havia feito senão uma ligeira refeição matinal. Demorou um pouco na avaliação de sua fome, percebendo que comeria algo, talvez mais tangido psicológica do que fisicamente, porque não se afligia. Talvez tomasse um bom copo d’água, como aquele que Homero lhe havia oferecido no açougue.

“Que tolo que estou sendo! Se é tão fácil de superar todos os meus entraves mentais, concentrando-me no Salvador!”

Sem titubear, recitou um padre-nosso, vindo-lhe à memória os terços que repetira durante tantos anos junto ao altar, puxando o coro dos fiéis, nas rezas do começo da noite. Não teve a sensação de haver restaurado o poder aguçado dos sentidos, mas se sentiu transportado para aquela igreja onde exercera o começo de seu sacerdócio. Na sua frente, delineava-se por inteiro, como numa grande tela de projeção tridimensional, todo o aparato teatral da composição, não faltando os nichos, as imagens dos santos, os castiçais, cujas velas estavam acesas, e até as flores colhidas no dia pela mulher do...

Fez um esforço inaudito para se recordar do nome do seu mais direto auxiliar leigo, mas apresentou-se uma dificuldade inesperada. Nem como daria o nome à tarefa do capelão lhe veio à consciência.

“Devo ter feito algo errado para não ter conseguido concentrar os meus recursos neurológicos...”

A palavra lhe soou como sem sentido algum, vazia e inexpressiva. Vagamente a palavra “neurônio” deu o ar da graça e logo desapareceu, submersa num mar crescente de preocupações com seu estado de depauperação orgânica. Era como se estivesse tendo uma recaída completa. Dessa feita, não teve tempo de acionar o botão da pêra do alarme mas não perdeu os sentidos. Como se estivesse lúcido para enxergar mas desativado para qualquer ação, pior do que tetraplégico, observou que Adão chegava apressado, antes mesmo dos auxiliares paramédicos, buscando aplicar-lhe sobre o peito uma série de fortes apertões, evidentemente com o fito de restabelecer as batidas cardíacas.

Alguns segundos e entrava toda uma equipe:

— Doutor, o desfibrilador.

Adão colocou o estetoscópio no pescoço de Adonias e se manifestou, aliviado:

— Não tenham pressa. Acho que o problema do coração está superado. Estou escutando na carótida um leve fluxo sangüíneo. Vamos fazer o teste da respiração.

Imediatamente, apertou as asas das narinas do paciente, bloqueando a passagem de ar. Foram dois minutos de angustiante espera, até que Adonias abriu a boca, sorvendo o ar de maneira muito sutil.

Adão explicou aos demais:

— Ele está em estado de choque, com as atividades em suspensão quase total. Se nós medirmos as funções cerebrais, vamos ver que o tumor está obstando o livre trânsito dos neurônios responsáveis pelo sistema parassimpático, inibindo o funcionamento normal do organismo. Tenho certeza de que ele está nos vendo, talvez com muita dificuldade e nos ouvindo, sem poder ainda dar uma resposta positiva. Então, será bom dizer-lhe que medite a respeito do que possa tê-lo levado a uma situação tão precária. Pelo que posso imaginar, deve ter havido algum processo de refluxo eletromagnético dos centros da fé, como se tivessem sido desativados, por causa da descoberta de algo muito ruim para o equilíbrio mental que o sustentava em pleno domínio de si mesmo.

Só aí Adão pôde descansar da canseira da correria, sentando-se na única cadeira existente, vendo-se diante do livro aberto nas fatídicas páginas que provocaram o problema de Adonias.

— O meu amigo deve ter achado algo que o contrariou em algum ponto fundamental de suas crenças religiosas. Vejam aqui que as questões onde ele parou estão relacionadas à existência de Deus, dos espíritos, do princípio vital. Se tiver sido isto, é importante que ele pense bastante, revolvendo todas as noções que lhe estão nos arquivos mnemônicos.

Realmente, Adonias havia acompanhado tudo mal e mal, mas recebendo todas as informações como que provindas do fundo de uma caverna, tão deficitário estava o seu sentido auditivo.

Então, passou a meditar conforme o conselho do médico:

“É certo que o hospital está dotado de bons profissionais. Em outras mãos, talvez meu corpo estivesse sendo encaminhado para o necrotério. Essa de me tapar o nariz foi genial. Se conseguir acordar, tenho de dar-lhes os parabéns e agradecer-lhe por me haver salvo a vida. Se tiver de me encontrar com São Pedro, para que faça uso de sua balança das ações boas e más, irei solicitar-lhe que dê vida longa ao meu amigo Adão, para que empregue os seus conhecimentos na cura e salvação de muitas pessoas. E olha que ele cuida primacialmente do restauro dos defeitos faciais...”

Adonias ainda iria ficar nessa lengalenga durante um bom tempo, até se decidir a enfrentar o texto de Kardec que lhe aparecia íntegro na memória, texto que havia lido em tempos de seminarista como forma de se preparar para os argumentos dos espíritas, caso tivesse de discutir com alguém no confessionário ou se apresentasse alguma oportunidade pública de confronto religioso. Lembrou-se, então, de que o professor de teologia havia introduzido o livro, prenunciando uma sutileza difícil de ser percebida de imediato, mas que iria transparecer aos poucos, até se configurar uma insidiosa e pertinaz presença materialista na tese que, segundo ele, defeituosamente recebera o nome de “espiritismo”, palavra que mandava grifar porque absolutamente desnecessária à vista da existência do termo “Espiritualismo”, que o professor mandava escrever com maiúscula inicial.

“A minha reação mental com seqüelas físicas não posso compreender, porque, no fundo, bem que eu fiquei em dúvida com relação a ser o espiritismo verdadeiramente materialista, muito embora Kardec falasse que o corpo espiritual, como lemos em Paulo, era semimaterial, insistindo em dizer que os espíritos não definiam o que eram eles mesmos, caso se desvestissem daquele corpo intermediário, cujo nome, dado por eles, era perispírito. Mas eu não vejo como um conhecimento antigo possa, de repente, aflorar e causar um transtorno tão grande. Evidentemente, algum componente emocional desta hora foi que desencadeou a minha reação de desconfiança de que estava ao desamparo das forças angelicais.”

Nesse meio tempo, chegava um aparelho cheio de luzes pisca-piscantes e de números acesos, vermelhos e verdes.

Adão:

— Vamos instalar os eletrodos em vários pontos do crânio, para saber onde se concentra a atividade cerebral. Eu gostaria que avisassem o Doutor Anésio. Preciso de um especialista para me ajudar a interpretar os dados.

Enquanto se tomavam as providências requeridas, Adonias continuava:

“Acho que está ficando claro para mim que esta formulação mental, conforme venho reparando desde algum tempo, difere extraordinariamente dos meus tempos de sacerdote ordenado e respeitado. Naquele tempo, eu não conversava comigo mesmo. Se bem me lembro, as idéias ocorriam diretamente. Agora elas aparecem sob a forma de fala preparada para um diálogo, como se o tempo todo eu esteja esperando que alguém me responda. Mas não é sempre que acontece. Somente quando tenho de me decidir a respeito de algo importante. Em casa, automaticamente, tomava minhas refeições, sem conversar com a comida. No entanto, era ler uma linha e já entrar em considerações lingüisticamente estruturadas, onerando sobremaneira a velocidade das idéias, buscando, como agora, dar uma seqüência ao pensamento de forma lógica e racional. Se eu contrapuser esta maneira de pensar, de refletir, de meditar, como me pediu Adão, ao momento em que me tomei de pânico por me achar perante um texto adulterado de outra espécie de filosofia, sem conteúdo religioso...”

Foi nesse ponto que se recordou de que havia outros dez livros, onde, com toda a certeza, os primeiros tópicos mereceriam melhores desenvolvimentos.

“Creio que me precipitei emocionalmente. Se começar a sentir os fatos da vida moral tão intensamente, então podem me encomendar o caixão.”

Esse “me encomendar” desencadeou outra série de considerações paralelas, como se Adonias estivesse assustando-se deveras com o fato de se haver angustiado com a possibilidade de estar no seio de uma instituição de fundo materialista, onde a religião entraria como lenitivo ou paliativo para a cura, fé materializada de fato na concentração neuronial em certos lóbulos cerebrais. Se Adão havia dito que Jesus se utilizara desse recurso...

Chegando a Jesus, lembrou-se das preces que não haviam tido sucesso e foi capaz de distinguir o quanto de artificiosos eram os sentimentos religiosos do tempo das repetições enfadonhas da obrigação eclesiástica.

“Parece até que minha consciência sabe acusar-me por dentro, sem que eu mesmo perceba o bulício íntimo causado por uma atitude rigorosamente falsa perante as verdades que assumo desde sempre, diante do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

Perpassou-lhe de relance pelas fímbrias da memória que o espiritismo de Kardec não aprovaria essa Santíssima Trindade, mas fechou as portas a novo desfalecimento, porque percebeu que o despertar para a falha que cometera em relação a querer imprimir um ritmo sem valor às preces lhe havia propiciado um alento novo, atmosfera haurida com mais força, oxigênio a regar mais intensamente o cérebro, movimento mais rápido da química através dos reagentes orgânicos que lhe davam, de novo, a habilidade de entrar em contato sensório com a realidade.

Para os circunstantes, Adonias simplesmente voltou do desmaio. Ouviram-se comentários de alegre reconhecimento do valor terapêutico das providências gerenciadas por Adão. Mas logo o quarto se viu ocupado apenas por dois médicos, por Alice e pelo paciente.

Antes que Adão tomasse qualquer iniciativa, Adonias, com uma vozinha sumida, conseguiu dizer:

— Muito prazer, Doutor Anésio. Seja bem-vindo ao quarto deste ressurrecto.

Estava dito tudo. Os médicos e a enfermeira souberam compreender que Adonias havia recebido todos os recados e que entendera o método de reaver os sentidos.

Mas Anésio não queria ter vindo inutilmente, por isso, após cumprimentar o sacerdote, fez questão de conluiar com Adão a respeito dos dados dos exames da caixa craniana e matéria encefálica correspondente.

Enquanto Alice providenciava alguns exames complementares, medindo a pressão, examinando a temperatura, retirando sangue do braço e da ponta de um dedo do paciente, os médicos se puseram de costas para o leito e conversaram baixinho. No entanto, Adonias era capaz de ouvir as mínimos sibilos da voz ciciada do novo facultativo presente. Não quis, entretanto, deixá-los alheios ao fato e, buscando as energias que lhe restavam, falou com voz pausada e rouca, mas audível e agradável:

— Doutores, por favor, se houver algum segredo que não possam revelar-me, procurem outro lugar, porque estou ouvindo perfeitamente o que os dois estão confabulando.

Os três sorriram felizes com a notícia da acuidade sensória e Adão logo dispensou Anésio, prometendo para a próxima hora ir ter com ele para conversarem. Enquanto isso, Alice ministrava os remédios acompanhados de sucos de várias frutas, asseverando que, conforme os resultados dos testes clínicos, o padre iria comer uma refeição mais substanciosa. Dito isto, saiu, deixando Adão e Adonias “tête-à-tête”.

Foi Adão quem iniciou o diálogo:

— Queira dizer-me, amigo, se foi, realmente, esta leitura que o perturbou.

— Sem dúvida. E digo mais, se não fosse a sua orientação quanto à necessidade de eu ceder às emoções descabidas (eu já explico o “descabidas”), talvez eu estivesse descendo para o morgue.

— “Morgue” quer dizer “necrotério”. Isso eu sei. O que você não sabe é que o nosso necrotério não está embaixo, mas cinco andares acima. Quer dizer que, se você tivesse morrido, estaria subindo, com certeza na direção do céu. Mas o que foi que o perturbou tanto?

— Eu descobri que vocês copiaram um livro conhecido em boa parte do mundo...

— Você se refere a Kardec?

— “O Livro dos Espíritos”, sim senhor.

— Há uma nota na introdução que, por certo, você não leu.

Adonias, se não estivesse tão exaurido, teria corado até à raiz dos cabelos. Mas se controlou e disse, como adendo:

— Eu não estava preocupado em ler.; estava, sim, em dar uma passada d’olhos para me inteirar dos assuntos, pela rama. Deixei-me envolver por suspeitas tremendas e “descabidas” oriundas dos tempos de seminarista e caí. Acho que a experiência me valeu. Quer dizer, então, que as teses são espíritas?

— As teses começam sendo espíritas, até um ponto em que somos obrigados a concentrar a atenção nos interesses da clientela a que servimos. O enfoque inicial dá relevo aos aspectos mais comezinhos da caracterização da existência que temos possibilidade de investigar. Como temos comprovações que nos dão a certeza de que o plano mais elevado, lá onde se encontram os anjos ou espíritos superiores, consegue comunicar-se conosco, seguimos a sua orientação desde o princípio das noções mais elementares, sem fixar, entretanto, definitivamente, os conceitos. Os textos que nos pareceram mais eficazes para introduzir os leitores no mundo das idéias filosóficas comprometidas com certa linha religiosa do cristianismo foi aquele. Mas isso não quer significar que, neste nosso prédio, não existam capelas e salas para todos os cultos, segundo o pendor religioso das pessoas, pois o que nos interessa, de fato, é vê-las felizes e saudáveis, prontas para enfrentar o mundo lá de fora, com o desejo, digo mais, com a convicção de que saem daqui munidas dos ensinamentos básicos de Jesus, preparadas, portanto, para a prática do bem em escala bem maior do que quando para aqui vieram. Imagine, você, meu bom padre e amigo, saindo para as suas pregações de modo ainda mais efetivo, quantas almas não irá cativar para o evangelho!

Adonias, ou porque estivesse verdadeiramente fraco, ou porque estava acostumando-se com a idéia de não precipitar respostas e refutações, buscava no discurso do outro o ponto essencial de suas naturais reflexões, para não abrir em leque a exposição. Concentrou-se, portanto, em algo que julgou de interesse transcendental, sorrindo intimamente para o jogo sutil dos pensamentos:

— Podemos derivar o nosso tema para o que o amigo chamou de comunicação entre os planos?

— Perfeitamente.

— Quer dizer que a “Igreja Cristã da Misericórdia Divina” concebe a existência da mediunidade, ou seja, o contato entre os vivos com as almas dos mortos?

— Podemos discutir sobre isso. Mas agora, não, simplesmente porque a sua leitura está atrasada, muito embora você tenha deixado claro que conhece os textos de cor. Entretanto, como há de saber de antemão que não existem diferenças? Desculpe-me, mas estou prevendo que a sua leitura e a sua recuperação, superada esta última crise, irão acontecer muito rapidamente. Você não está notando que os remédios estão fazendo efeito? Pois eu lhe adianto que o resultado do eletroencefalograma foi muito positivo no sentido de demonstrar a quase regularidade completa do funcionamento de seu cérebro. Amanhã faremos uma radiografia e, se necessário, uma exploração tomográfica para delimitar a extensão do tumor. Fique com Deus!

— Deus o abençoe, meu benfeitor!

A frase de Adonias alcançou Adão já avançando pelo corredor.

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