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Erótico-->15. TOMANDO PÉ NA REALIDADE -- 01/11/2003 - 08:12 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Em breve, os dois se encontravam com Alice, num amplo salão, espécie de refeitório, naquele momento apinhado de gente. O vozerio era bem forte, mas Adão fazia-se ouvir e compreender perfeitamente:

— As suas horas de você se alimentar serão passadas aqui. Não mais será servido no quarto. No entanto, basta dirigir-se a qualquer terminal de computador, registrar seu nome ou usar este cartão (passou o cartão ao padre, que não teve tempo de examinar) e, dentro de, no máximo, cinco minutos, você será chamado ao balcão para apanhar sua bandeja. Não se preocupe que o seu cardápio está preservado, de modo que somente pratos de sua preferência é que lhe serão servidos. Quer tentar agora ou vamos deixar para depois de você ser medicado, dispensando a nossa querida enfermeira?

Adonias era um feixe de pontos de interrogação, mas limitou-se a perguntar se Adão estava a par dos resultados dos últimos exames.

— Claro que sim. Num local totalmente informatizado, quem sabe lidar com as teclas e com os botões nunca se perde. O meu interesse por sua saúde mental me obriga a acompanhar tudo quanto se registra em seu nome. Por isso, estou perfeitamente apto a compreender por que Anésio determinou certas modificações nas doses que vinham sendo ministradas, substituindo dois ingredientes por outros mais específicos. Quer uma descrição técnica?

Adonias refletiu que era preferível ir adiante, porque as palavras iriam soar ocas e a sua mente iria pairar nas nuvens de sua quimérica ilusão de poder intelectual definido no sentido moral. Não se deixou envolver pelas reflexões que se iniciavam e respondeu:

— Deixo a minha saúde em mãos profissionais do mais alto valor. Cumpro, de resto, as obrigações que me impõem, porque sei que são de meu interesse. Agradeço, além do mais, e rezo por todos vocês, rogando ao Pai que os mantenha ainda por muito tempo cuidando dos sofredores, porque essa é missão divina. Vamos aos medicamentos e, depois, quero conhecer o meu novo reduto pessoal.

Dessa feita, Alice aplicou duas injeções, uma na veia, outra no músculo, e passou-lhe três comprimidos para beber com um suco com sabor de goiaba verde que fora buscar no balcão.

Em seguida, a enfermeira se retirou, deixando crescer o burburinho nos ouvidos do sacerdote, que se aplicava em entender como é que deveria utilizar o cartão magnético que Adão lhe dera para pedir a refeição, observando que havia bem quinze máquinas iguais às que conhecia dos saguões das casas bancárias.

Adão acrescentava:

— Esse cartão contém registrados magneticamente todos os dados descritivos de sua pessoa. Serve aqui para as refeições. No seu terminal de computador, que se encontra no dormitório (o pessoal fala em apartamento, mas você vai ver que essa palavra é puro eufemismo), o cartão vai servir para você entrar em contato com a biblioteca e com o serviço de informações, ao qual deve recorrer toda vez que alguma dúvida, seja qual for, passar-lhe pela mente, ainda que de inteiro teor teológico, religioso, filosófico, matemático, geofísico, esportivo e assim por diante. Não quer dizer que lhe darão uma resposta convincente ou satisfatória, mas deixarão anotada a questão para ser levada ao colendo corpo administrativo da entidade, que encaminhará ao sábio de plantão, conforme o tema aventado. Não se espante se lhe chegarem consultas justamente a respeito dos assuntos de seu domínio, nem receie não responder a contento, porque todos nós temos definidas as nossas limitações, mesmo dentro de nossas especialidades.

Desta feita, Adonias prestou atenção e como que sugou todas as informações que recebeu. No entanto, alegrou-se quando saíram daquele ambiente barulhento e caminharam pelos corredores, cruzando com muita gente, que o horário devia ser de fim de expediente. Foi o que perguntou a Adão:

— Este povo todo, aliás muito simpático e alegre, bem diferente das pessoas com quem tive contato nas alas hospitalares, está se aprestando para entrar ou sair da rotina de trabalho?

— Muitos estão indo para suas casas, outros estão indo descansar em seus apartamentos, a maioria está assumindo os postos que vão vagando à medida que cumprem seus horários os que estão saindo. O que faço questão de ressaltar é que você não foi capaz de distinguir quem trabalhou de quem descansou. Sabe por quê? Porque ninguém aqui desempenha função alguma para a qual sinta qualquer aversão. Aliás, aquela rotina que você mencionou é logo detectada em relação aos que se cansam das tarefas repetitivas, de sorte que são transferidos para outros setores, passando por um ciclo de treinamento com o fito de avaliar as condições de elevado interesse pela função desconhecida, para que não ocorram deslizes vocacionais. Aposto que você nunca esteve numa organização tão responsável quanto ao conforto e ao bem-estar físico e mental dos trabalhadores. Ponto para a instituição, porque somente participam de nossas atividades pessoas que doam de si voluntariamente.

Aí se calaram, até que Adão passou outra chave a Adonias:

— Com esta você abre a porta do seu cubículo.

Mas Adonias, antes de usar o pequeno objeto de metal, foi categórico:

— Eu acho que o sistema melhoraria muito se eu pudesse utilizar o mesmo cartão magnético para abrir a porta.

— Bem observado, companheiro, mas, se você reparar direito, a chave não serve para abrir, porque não há fechadura propriamente dita. Serve para informar aos responsáveis pelo corredor e pelo andar que o Padre Adonias está entrando ou saindo do dormitório. Aí as atividades de gerenciamento do silêncio, da luminosidade, de água e esgoto, de eletricidade são acionados para ligar ou desligar, neste caso avisando o setor de limpeza de que está na hora da faxina. De resto, jamais alguém virá procurá-lo aqui, porque, como você verá, só cabe um aí dentro e conversar no corredor irá atrapalhar o descanso dos que se recolheram.

De fato, Adonias se espantou que Adão devesse ficar do lado de fora, apontando simplesmente para onde estavam os petrechos à disposição do habitante do, como ele disse, “apertamento”. Havia uma cama encostada na parede, de pé, embaixo da qual se situavam uma mesa e uma cadeira que mal acomodavam uma pessoa. Mas a cadeira era acolchoada. Adão pediu para que Adonias abaixasse a cama e este pôde ver que a mesa e a cadeira se encolhiam automaticamente, quedando embaixo do colchão. Por isso, as roupas de cama estavam presas através de um material parecido com velcro, sem, contudo, a aspereza daquele produto.

Havia uma abertura na parede, sem porta, dando para o banheiro, onde Adonias encontrou a bacia, uma pia e o chuveiro atrás de um biombo de plástico. Na parede, quatro torneirinhas, que Adão descreveu como fontes de sabonete, de perfume, de creme dental e de ar aquecido para enxugar o corpo.

— E a escova de dentes, o aparelho de barbear, o pente etc. etc.?

— Aperte esse botão do seu lado direito.

Imediatamente, abriu-se um pequeno escaninho com vários utensílios, inclusive um espelho com lente, escondendo-se a portinhola lateralmente.

— Isto aqui não vai criar bolor?

— Criaria, se todo o ambiente não recebesse o influxo energético de um poderoso bactericida elétrico. Se não fosse assim, como é que você acha que os japoneses poderiam fabricar hotéis para hóspedes que apenas pernoitam em verdadeiras gavetas funerárias?...

Adonias sorriu com a lembrança da tecnologia oriental e se conformou com a situação. Mas não teve como não perguntar:

— Por que tanta economia de espaço?

— Porque são cem mil quartos deste tipo.

O número estarreceu o sacerdote:

— Cem mil? E estão todos ocupados?

— Foi difícil liberar este aqui para você. Mas o principal, no seu caso, porque não é em todos os apartamentos que existe, é esse computador embutido na parede, tela plana de cristal líquido, cujo teclado se encontra logo abaixo, podendo você desprendê-lo para trabalhar sobre a mesa. É um terminal exatamente igual ao que você tem na sua sala de palestras, de modo que, daqui, você poderá comandar o outro, o que vai facilitar enormemente a preparação de suas aulas, de suas conferências, de seus sermões etc. Para você ter acesso pessoal ao arquivo que lhe está sendo destinado, passe o cartão debaixo da tela, onde existe uma flecha direcionada como um vetor para a esquerda. Você irá ligar o aparelho e se ver diante dos programas que lhe podem ser úteis “profissionalmente”. Acho que isso é tudo. Vamos à biblioteca?

Antes de se retirar, Adonias examinou a chave que tinha em mãos, onde se registravam os dados relativos ao quarto, ao corredor, ao andar, com uma definição impossível de desviar o usuário de seu destino. Assim mesmo, até chegar ao elevador, foi memorizando as cores e os símbolos do caminho.

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