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Ensaios-->MEU LIVRO DE CORDEL - UMA OBRA DESTACADA DE CORA CORALINA -- 18/07/2010 - 14:42 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
MEU LIVRO DE CORDEL - UMA OBRA DESTACADA DE CORA CORALINA
João Ferreira
Cidade de Goiás, 15 de julho de 2010

Na edição oficial da produção literária de Cora Coralina feita pela Global Editora e Distribuidora Ltda de São Paulo, autorizada pela filha Vicência Bretas Tahan, há um elenco das obras da escritora. Entre essas obras está “Meu livro de cordel”. Esse livro tem na intencionalidade artística e afetiva de Cora uma ligação simbólica explícita com os cantadores e repentistas de cordel, especialmente com os menestréis anônimos nordestinos. Devemos notar porém que seu livro não é obra de literatura de cordel no sentido em que os críticos de Literatura Brasileira se habituaram a fichá-la. É, todavia, um livro onde a autora não se esquece de homenagear os cordelistas na apresentação. Há certamente um motivo nessa homenagem explícita. Cora Coralina faz questão de fazer a homenagem pelas razões que ela mesma explicitamente apresenta. Razões de proximidade, razões artísticas e razões de origem. Diz textualmente: “ Meu livro de cordel. Pelo amor que tenho a todas as estórias e poesias de cordel, que este livro assim o seja, assim o quero numa ligação profunda e obstinada com todos os anônimos menestréis nordestinos, povo da minha casta, meus irmãos do Nordeste rude, de onde um dia veio meu pai para que eu nascesse e tivesse vida.”
É entretanto importante dizer para o leitor menos precavido que Meu livro de cordel não é escrito de forma similar ao modo como a literatura de cordel nordestina é escrita ou apresenta seus cordéis. Não é. Digamos que enquanto a literatura de cordel clássica, enraizada na cultura popular brasileira, se caracteriza como expressão desta pela tríplice forma da simplicidade, da narração de uma história e da rima, a poesia de Cora, em Meu livro de cordel, é absolutamente diferente. É correto dizer que o livro de Cora, de uma maneira geral, é também um texto que podemos classificar como documento de cultura popular. Podemos dizer ainda que uma parte dos poemas de Cora Coralina tem a estrutura e a dinâmica expressiva de uma história. Tem. Mas nem todos os poemas do livro, em sua singularidade, têm esta característica de história narrada ou contada. O estilo predominante não é narrativo. Há muitos estilos. Desde o estilo narrativo em primeira pessoa, como no poema Das pedras, por exemplo, ao estilo descritivo, como Estas Mãos. Mas há estilos mistos que associam o estilo interrogativo com o estilo narrativo e declarativo como Mãe Didi. São estilos apenas preocupados no cerne da história em si. Dizê-la de uma forma ou de outra é o objetivo, até porque Meu livro de cordel não é um livro de contos nem de narrativas simples. Não podemos pedir-lhe técnicas fora do gênero. É um livro de poesia. E como tal, embora os conteúdos sejam a preocupação principal, a forma de dizer pesa também.Muitos dos poemas são autobiográficos e fazem parte de uma história global. A história de Cora Coralina. Através do poema Cantoria tomamos conhecimento da proposição geral da intencionalidade poética: “Meti o peito em Goiás/e canto como ninguém/Canto as pedras/ canto as águas/ as lavadeiras também[...]. Mesmo não tendo rima, Cantoria tem um ritmo próprio do cordel tradicional.Dito isto, cumpre observar também que não foi à toa que a autora escolheu esse título específico para o livro. Havendo uma estória que está sendo contada em poemas diversificados, o leitor certamente saberá apreendê-la em seus diferentes lances nas formas específicas com que a história é contada. Por outro lado, também é fácil descobrir nos poemas de Cora uma alma popular presente de muitas maneiras, se desnudando com simplicidade e humildade aqui e ali, querendo mostrar aos seus leitores o seu tipo de luta, a sua biografia guerreira e seu caminho de mulher consciente e livre. Não podemos esquecer que o cordel originário do Nordeste nasceu de pelejas e cantorias verbais nas feiras populares do Ceará, de Pernambuco, da Paraíba e de outros Estados nordestinos, e era acompanhado de viola ao vivo e só depois era impresso e vendido. Mas há também o cordel que foi produzido diretamente para vender. Quanto à rima típica e à estrofe escolhida para veicular o cordel (usa-se a estrofe de dez, de oito, de sete e, mais comumente, de seis versos) a comparação com Cora Coralina mostra uma diferença fundamental. Essa diferença é a de que em termos de rima e ritmo na poesia de Cora não essa preocupação, buscando sua poesia uma dicção e um ritmo próprio, não necessariamente cordelista, na forma cultuada pelo Nordeste brasileiro. Sendo assim, ficamos preparados para ler o livro de Cora sem lhe cobrarmos o “estilo cordelista” nordestino, que seu livro não tem, nem na intenção nem na prática do verso e da estrofe. Cora Coralina é ela própria, irrepetível, personalista e só. Não encontraremos por isso necessariamente em Meu livro de cordel nem sextilha nem outras estrofes do cordel nordestino. Encontramos a mensagem que ela quer legar ao leitor através da memória autobiográfica que relata cenas exemplares. Esse é o cordel de Cora Coralina.
No que diz respeito à estrutura com que é disposta a matéria do livro, é importante saber que Meu livro de cordel está dividido em duas partes: na primeira parte a autora colocou alguns poemas biográficos como a Flor, A Casa do Berço azul, Jabuticabal, Estas mãos, Amigo. Mas há também poemas toponímicos como Anhanguera, Rio Vermelho ou sociais, como Dolor e também poemas religiosos como Meu Pequeno Oratório, Humildade, Misticismos, assim como poemas de exaltação épica de figuras populares trabalhadoras e sertanejas como O Cântico de Dorva, Estas mãos, Vida das lavadeiras, além de poemas ideológicos recortados de profunda sensibilidade e fraternidade humana. É o caso de Israel...Israel... e de Barco sem rumo. Neruda? Por sua relação plural com a vida achamos o poema Pão-Paz um poema omnímodo, voltado para várias frentes. É um hino à Providência, à epopéia da terra, ao trabalho, à transformação, ao semeador. Há poemas simbólicos e idealistas como “Eu voltarei”ou dramáticos como “Errados rumos”. A segunda Parte do livro é abertamente autobiográfica. Abre com uma pergunta frontal, servindo de título do primeiro poema: Cora Coralina. Quem é você?. O poema responde diretamente à pergunta apresentando, em detalhes, o retrato íntimo que Cora Coralina faz de si mesa. Seus ideais, seus projetos, sua vida real, sua educação. Nunca recebeu estímulos familiares para ser literata, confessa. Mas beneficiou da autenticidade para escrever sua poesia “arrancada aos pedaços” do fundo de sua sensibilidade. Na linha biográfica, estão os poemas Minha vida, meu Destino, O chamado das Pedras, Lucros e Perdas, Não conte pra ninguém, Meu Pai, Mãe Didi, Meu Epitáfio.É um livro em que o eu do escritor coincide com o eu ora lírico ora dramático que perpassa pelos poemas. Meu livro de cordel é uma obra de grande significação autobiográfica. Mostra não só a origem, mas também a formação, a personalidade e a capacidade intelectual, emocional e pragmática da Aninha nos vários caminhos e encruzilhadas que trilhou. Uma obra profunda que analisada em termos globais é a história em verso de Cora Coralina. Uma história que autora quis que se chamasse Meu livro de Cordel.
No plano literário voltaremos a discutir esta obra para analisar um problema complicado que se instalou em nossa mente crítica como fruto de leitura de Meu livro de cordel. O problema consiste em deslindar ou tentar avaliar o valor de duas aparentes e paradoxais afirmações de Cora Coralina no livro. Numa delas, Cora fala da “falta de sinceridade nos meus versos”. Noutra refere-se à “autenticidade de minha poesia”. “Falta de sinceridade nos meus versos” não quadra, a nosso ver, com “autenticidade de minha poesia”. Haverá que debater essas passagens através de uma análise cuidadosa e profunda. A beleza da poesia de Cora Coralina depende muito da sinceridade com que ela conta seus grandes momentos de vida. Sem a ajuda dessa sinceridade e autenticidade, cairia por terra o edifício da grandeza que os fãs e leitores têm dessa mulher rara e invulgar. Tentaremos levar a fundo o debate hermenêutico em torno dessas duas passagens presentes em Meu livro de cordel. Mas em artigo à parte. Dedicado exclusivamente a essa questão.

João Ferreira
Cidade de Goiás, 15 de julho de 2010
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