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Erótico-->17. ERGUE-SE UMA PONTA DO VÉU -- 03/11/2003 - 09:02 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Adonias chegou quando estava escurecendo. Mas o céu ainda oferecia certo rebrilhar do sol, luz vespertina que punha tristeza em tudo. Via a ameaça das sombras, não percebia as promessas do repouso e da restauração das energias.

Encontrou a mãe atarefada na cozinha, preparando o jantar. Ela nem percebeu que ele chegou, de modo que o seu abraço apanhou-a de surpresa. Nesse instante, irrompeu porta adentro uma criança de uns oito anos de idade:

— Vó, vó, o vô vai demorar?

— O que você está querendo dele?

— Ele me prometeu um brinquedo. Disse que era surpresa.

— Então, vá lá no jardim, que ele costuma entrar pelos fundos.

O menino saiu numa disparada, não dando a Adonias sequer a impressão de tê-lo visto.

— Quem é esse?

Dona Genoveva não deu mostras de se comover com o interesse do filho e respondeu, arrastando as palavras:

— Esse é o seu sobrinho, o Fernandinho, o filho de sua irmã, que estava grávida da última vez que você nos visitou.

— Mas eu saí daqui há uns dois ou três dias, no máximo.

— Saiu daqui há quase nove anos.

Adonias não se deixou abater pela informação. Apenas não podia acreditar em que a mãe estivesse falando a verdade. Então, insistiu:

— E Marta? E Maria? Onde estão?

Pensava que elas lhe diriam a verdade, que a mãe estava insana.

— Que Marta? Que Maria?

Adonias percebeu que algo se passava de muito estranho na mente de Dona Genoveva. Resolveu que não deveria ir mais longe. Então, percorreu a casa e não encontrou vestígio das irmãs. Saiu, foi até o seu quarto de fora, encontrou a porta encostada, entrou, mas não se deparou com a costumeira arrumação da cama, do armário, da mesa, nem nenhum de seus livros.

Voltou à cozinha. Queria saber mais:

— Que fim levaram os meus pertences?

— As roupas, o que prestava eu dei.; o que não prestava, transformei em pano de chão ou pus no lixo.

— Os livros, os meus livros: onde estão?

— Depois de uns tempos que você tinha desaparecido, vieram uns homens de uma tal de Igreja da Misericórdia, disseram que você precisava deles e levaram todos embora. Aliás, levaram também o crucifixo, as medalhas, os terços e alguns objetos que você guardava num pequeno baú, onde eu nunca mexi.

— Mas você deixou que fizessem isso?

— Por que não? Você escreveu uma cartinha pedindo cada coisa.

— Quero ler.

— Seu pai botou fogo nela.

— Por que ele fez isso?

— Eu acho que está na hora de você saber a verdade. Seu pai morreu.

— Mas até outro dia ele estava bem...

— É o que posso dizer...

— Mas, esse Fernandinho perguntou pelo avô...

— Quantos são os avós de cada um de nós? Quatro: dois homens e duas mulheres...

— Mas o que estaria fazendo o sogro de minha irmã nesta casa?

— Ele mora aqui.

— E ela?

— Ela mora sozinha. Deixou o filho pra gente cuidar. O homem é muito bom, trabalhador, apesar da idade, e tem uma boa aposentadoria. Não é como seu pai que vivia de bar em bar...

— Do jeito que a senhora está falando...

— Nós estamos casados, sim: na Igreja e no Cartório.

— Eu não acredito. A senhora está querendo me enganar...

Na verdade, Dona Genoveva estava deveras diferente. Olhou para o filho uma única vez e, assim mesmo, quando o neto entrou espavorido. Depois passou o tempo todo de costas para ele, encostada na pia, indo às vezes até a geladeira ou até a despensa, sempre como se ele nem estivesse ali.

As coisas estavam muito complicadas para o entendimento do padre. Resolveu insistir quanto às irmãs:

— Por que a senhora diz que nem Marta nem Maria estão mais aqui?

— Eu estou dizendo que elas nunca foram daqui. Elas vinham com você, ajudavam a cuidar de sua roupa e de seu alimento, cortavam as suas unhas, penteavam os seus cabelos, chamavam você de Rabi...

— De Rabi? Como assim?

— Você não se lembra que seus cabelos e a sua barba eram compridos e que você saía a fazer sermões pela cidade?... Um dia você falou que o lago de Tiberíades estava na maior ressaca. Eu bem que achava que sua cabeça não estava boa, mas a Dona Genoveva aqui muitas vezes foi chamada de Maria, seu pai, de José, o da terra, que o do céu era seu outro Pai e Criador. Não me diga que você não gostava que o chamassem de Jesus, de Nazareno, de Cristo?...

— É mentira!

— Eu acho bom você sair um pouco, dar uma volta no bairro, ver se encontra os seus apóstolos e discípulos, conforme apregoava que tinha tantos e que estava na hora de ser crucificado, só que a sua idade, fazia tempo, tinha passado dos trinta e três...

— Mãe, me diga uma coisa: quanto tempo eu fiquei internado em estado de coma?

— Três dias. Depois você fugiu do hospital. Se você não se lembra de nada disso é que sua memória está mesmo muito ruim.

— O que é incrível é que eu me lembro de livros e mais livros inteiros, até em línguas estrangeiras, em francês e latim, e essas coisas não se tornam claras na minha cabeça.

Passou pela mente de Adonias que tinha feito um tratamento justamente do cérebro e lhe ocorreu que aquela gente bem podia ter feito uma trepanação para retirada de algum lóbulo da memória, já que aparato técnico e científico eles tinham até de sobra.

“Por que é que me deu aquela gana de sair de lá correndo? De repente, sem mais aquela, eu me vi na rua, na viatura...”

O raciocínio não caminhava pela direção que ele desejava imprimir às idéias. Notou, no entanto, que as emoções não lhe estavam causando os transtornos psíquicos das outras vezes. Pôs atenção aos sentidos, a ver se estava ouvindo, vendo, cheirando direito. Tudo normal. Melhor ainda, pois era capaz de perceber até a vozinha da criança falando sozinha no quintal, ao mesmo tempo que percebia que ela deveria estar amassando a grama, pelo odor que se relacionava ao som, como se as vibrações sonoras se mesclassem às odoríferas. Houve até um momento em que pensou ter vislumbrado a figura do rapazote através das paredes, mas fixando a visão naquela direção, somente percebeu uma névoa que se desprendia, colorida, dos muros. Desejou, então, tocar nas panelas, mas afastou as mãos rapidamente, que o calor era forte e ele teve medo de queimar-se.

— Quem a senhora acha que eram aquelas moças que vinham comigo? É uma ilusão essa muito forte.

— Eram duas sirigaitas atrás da sotaina...

— Mãe, a senhora está fazendo mau juízo das moças. Eu lhe posso jurar que jamais toquei num só fio de cabelo de qualquer uma delas.

— Eu não disse que você fizesse nada de imoral. Elas é que estavam interessadas ou foram convencidas pelo seu palavrório cheio de virtudes e de promessas de estar, logo mais, do lado direito do Pai etc. Não me cabe ficar a relembrar certas coisas, se você perdeu a memória delas. Isso só vai causar maior preocupação e você até pode ter uma recaída. Por exemplo: por que é que você não me conta onde é que esteve nestes últimos anos?

Adonias não teve ânimo de convencer Dona Genoveva de que estivera internado, em tratamento mental, onde vira tanta modernidade tecnológica. Achou que a mãe não iria compreender nada daquilo e, tendo ouvido a criança rir muito, fazendo graça ao avô que chegava, resolveu que estava na hora de sair. Antes, porém, quis conhecer o padrasto mas este com o sobrinho entraram em festas, trazendo um cachorrinho novo no colo, o presente da surpresa. Tão entretidos estavam que nem notaram a presença daquele vulto esquelético que se esgueirou pela parede, buscando sair sem causar problema maior àquela família totalmente esquisita em que os pais eram avós e o filho, neto. Concluiu que eram coisas dos tempos hodiernos, em que as famílias estão em plena degenerescência e desejou visitar a irmã. Mas só então percebeu que não apanhara o endereço. Fez menção de voltar mas perdeu o impulso pela imposição de sua figura inoportuna naquele ambiente de alegria.

“Que faço, agora? Se, ao menos, o Valério estivesse por perto!...”

Aí se lembrou de que o motorista havia dito que iria jantar no bar da esquina. Correu para lá e, deveras, o carro da Igreja Cristã estava estacionado do outro lado da rua.

Adonias resolveu, então, esperar mas não demorou e o motorista chegou, palitando os dentes:

— Ora, ora, Monsenhor, o senhor de novo?!...

— Dá pra você me levar de volta?

— Claro! Para onde o senhor quiser.

— Você sabe onde minha irmã está morando?

Adonias manteve a esperança de que o outro lhe perguntasse por Marta ou por Maria, mas teve uma decepção:

— Clarice está morando no centro. Muitas vezes eu a levo para o apartamento dela, quando ela vem ver o filho. Menino bonzinho, aquele.

— Então, eu quero ir visitá-la.

— Faz tempo que o senhor não a vê. Desde que eu o levei à Igreja nunca mais eu soube que o senhor saiu de lá. Olha que já vai para nove anos ou mais...

Era a primeira confirmação do fato narrado pela mãe. Mas não arredou pé do intento de ir ver a irmã. Achava que ela teria alguma informação melhor para ele. Deixou para depois uma conversa franca com Adão e, principalmente, com Alice, que havia dito que o manteria informado do tempo que estava passando do lado de fora.

Foi quando começou a prestar atenção no movimento das ruas. Observou os carros que passavam a ver se reconhecia os modelos novos, destacando-os daqueles que vira nos derradeiros tempos de sua primeira viagem à Igreja. De fato, os carros e até mesmo os coletivos estavam bastante modificados, em suas linhas gerais.

Olhava para os letreiros luminosos multicoloridos e via neles uma tecnologia desconhecida. Observou as roupas das pessoas e percebeu que havia enfeites e modelos que nunca vira antes. Principalmente, as moças se vestiam muito mais com cortes masculinos e os rapazes se adornavam com brincos e, pelo que pôde entrever, muitos cortavam e coloriam os cabelos de maneira estranhíssima.

Mas calou os pensamentos e Valério ficou sem saber o que lhe passava perante os olhos da consciência.

Mas essas circunstâncias começaram a perder a importância quando Adonias viu algumas crianças de rua cheirando cola, debaixo de um viaduto. Duas grossas lágrimas percorreram rapidamente o espaço de suas faces e se projetaram sobre o colo, umedecendo-lhe as calças negras. Compreendera que ficara muito tempo alheio ao propósito essencial de sua vida, o auxílio fraterno aos pobres, aos necessitados, aos miseráveis do vício.

Bateu no ombro do motorista:

— Valério, toca para a Igreja, por favor. Desisti de ir ver minha irmã. Acho que tenho uma necessidade bem maior de ser esclarecido quanto à moléstia mental que me fez perder preciosos anos de minha existência carnal.

— O senhor manda, Monsenhor. Estamos indo na mesma direção, bastando pegar a avenida de baixo para seguir direto pra lá.

— Tudo bem!

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