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Contos-->MORTE NO 101 -- 20/11/2004 - 11:35 (Maria Hilda de J. Alão) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
MORTE NO 101

Maria Hilda de J. Alão.





O corpo estava estendido na cama. No peito a perfuração provocada por um projétil de arma de calibre 38. A vítima, mulher branca, aproximadamente 1,75 m de altura, mais ou menos 25 anos, cabelos castanhos, olhos escuros, não possuía outros ferimentos pelo corpo. Estava despida. Aparentemente não havia sinais de violação sexual, segundo o legista que examinava o cadáver. Horário da morte: por volta das 23,15hs.
Aparentava ser uma moça de fino trato. Unhas bem cuidadas, as mãos macias, dentição perfeita, os pés bem tratados. A roupa, arrumada no encosto da cadeira, era de grife. A bolsa, de couro, estava no assento da cadeira. Vazia. Nem documento, nem dinheiro, nada.
O investigador olhava cada canto do quarto em busca de qualquer coisa que pudesse servir para esclarecer aquela morte. A polícia técnica procurava impressões digitais nos móveis, nos trincos das portas e janelas, nos objetos do acanhado banheiro sem encontrar nada. Tudo estava limpo. O que estaria fazendo aquela moça fina num hotel de baixa classe? Era a pergunta para a qual Gregório teria de encontrar a resposta.
Trabalhava na polícia há 20 anos e nunca se deparara com uma cena de crime tão limpa de qualquer prova. Nem uma mísera impressão digital, um fio de cabelo, nada. Acendeu um cigarro e ficou olhando pela janela, como se estivesse esperando por milagre, algo para começar a deslindar aquele caso.
Desceu a velha escadaria, rangendo sob seus sapatos e, no balcão da gerência, pediu o livro de registro de hóspedes. Enquanto aguardava o livro, passou os olhos pelo ambiente. Reparou que atrás do balcão havia uma janela que seria de um escritório. A porta ficava à direita de quem estava no balcão.
Chegou o funcionário com o livro. Gregório perguntou:
- Esta sala, aí ao lado, é para quê?
- É o escritório do patrão.
Pegou o livro, verificou cada página até que chegou ao registro do quarto 101. Estava assinado: Sr. e Srª Bonfanti. Questionou o gerente sobre a forma de registrar hóspedes.
- Esta é uma forma irregular, - dizia ele - é passível de processo e até de fechamento do estabelecimento.
Hotel La Belle, espelunca que funcionava num prédio de 2 andares, antigo e em plena decadência, na rua da Ladeira, 510, no bairro Dois Irmãos na cidade de Serrana, era freqüentado pela escória.
Gregório interrogou os funcionários. A camareira, que encontrou o cadáver, não sabia de nada, assim como os outros. Faltava o porteiro da noite que saíra do trabalho às 7 horas da manhã. Ficou acertado com o gerente que o funcionário deveria se apresentar na Delegacia no dia seguinte para prestar depoimento.
O corpo foi levado para o Instituto Médico Legal. O quarto foi lacrado para uma posterior verificação.
Três dias depois, Gregório voltou ao local do crime. Pegou a chave com o porteiro e abriu a porta do quarto. Entrou. Olhava cada detalhe do ambiente. Os móveis eram velhos. A cama tinha um pé quebrado, mas fora consertado com um pedaço de madeira que não era a mesma do restante da mobília. Abriu o armário. Vazio. Uma barata saiu lépida, antes que Gregório fechasse a porta. Mais uma vez o investigador se interrogava:
- Por que aquela moça estava ali? Não foi por sexo, isso já fora descartado. Ficou mais uns minutos olhando para o aposento com o pensamento distante do cenário. Finalmente partiu.
Enquanto isso, no DP, a equipe de Gregório interrogava o porteiro da noite que havia se apresentado.
- O senhor pode me dizer a hora que a vítima chegou?
- Às 23 horas.
- Estava só ou acompanhada?
- Acompanhada.
- Homem ou mulher?
- Homem.
- Pode fazer uma descrição da figura?
- Era um senhor vestindo um capote de gola alta e usava um chapéu que lhe escondia boa parte do rosto. Usava luvas pretas como o capote. Eu estranhei porque não estava tanto frio assim.
- Lembra como era o chapéu?
- Comum, na cor preta.
- Pagou com dinheiro ou cheque?
- Pagou com dinheiro e me deu o troco. Fiquei admirado porque os fregueses não dão o troco pro porteiro.
- Viu quando ele saiu do hotel?
- Não senhor.
- O senhor costuma se afastar da portaria durante o seu turno de trabalho?
- Só para ir ao banheiro.
- Na noite do crime, depois da entrada do casal, chegou mais alguém?
- Sim. Muita gente. Não se esqueça que é um lugar de alta rotação. Sai uns entram outros.
- Por hoje está dispensado. – disse o interrogador.
O telefone tocou.
- Gregório – gritou o colega – é pra você!
Ele caminhou até a mesa, pegou o telefone:
- Alô!
Uma voz alegre, do outro lado da linha, dizia:
- Amigo, é o Carlos do DI.
- Olá Carlos! Como vai o trabalho aí no Departamento de Identificação?
- De vento em popa.
- Podes vir até aqui? Já saiu a identificação da assassinada.
- Mas isso é maravilhoso! Estou indo.
O DI ficava a uns quatro quarteirões do DP. Foi a pé. Precisava caminhar para pensar. O caso da moça o deixara tão intrigado que dormia e acordava pensando nele. Chegou. O amigo o recebeu alegre mostrando tudo que havia descoberto sobre a morta. Finalmente Gregório soube o nome da mulher. Agradeceu e pediu cópias dos documentos para continuar a investigação. Entrou no DP e foi direto para a sala do chefe pedir autorização para divulgar o nome da vítima pela imprensa.
No dia seguinte o jornal da cidade, em sua página de “Ocorrências Policiais” trazia a manchete:
“Identificada a moça morta na espelunca La Belle. Maria Luisa G. Bartelle Lacoste, 23 anos, filha do industrial Pedro Bartelle Lacoste e Ana Luisa Gomes Lacoste. A polícia intensifica as investigações.”
Ao meio-dia, o investigador Gregório foi chamado ao telefone. A pessoa, do outro lado da linha, identificou-se como amigo de Maria Luisa. Marcou encontro no restaurante onde os policiais costumavam almoçar. Chegou. Olhou os fregueses almoçando e finalmente viu o homem que girava uma maçã num prato. Esse foi o combinado para que identificasse o autor do telefonema. Avançou na direção da mesa que ficava no fundo do salão.
- Sou Gregório Naves, investigador de polícia.
- Muito prazer. Sou Luiz Eduardo Alvarenga Peixoto, amigo de Maria Luisa.
Apertou a mão do investigador perguntando se aceitaria beber ou comer algo. Gregório optou por tomar um refrigerante.
Enquanto saboreava a bebida olhava, através do copo, aquele homem, ali, à sua frente. Era alto, ainda jovem, falava bem. Quando sorriu, Gregório reparou que tinha dentes perfeitos. Tinha alguns fios brancos nos cabelos bem penteados. Finalmente perguntou:
- O senhor era amigo de Maria Luisa? Desde quando?
- Desde que ela tinha 15 anos. Sabe, eu nunca vi uma pessoa tão feliz quanto ela. Estudava com o sonho de ser cientista. Queria aprender tudo, descobrir coisas que pudessem ajudar a humanidade. Eu era seu professor de matemática no Ensino Médio e de física quando ingressou na faculdade.
- O senhor estava apaixonado por ela?
- Sim. Quem não era apaixonado por aquela moça? Era uma linda mulher, sensual, inteligente.
- Vocês... quero dizer...
- O senhor quer saber se tivemos um caso? Sim, tivemos. Ela foi a paixão da minha vida.
- A paixão era recíproca?
- Eu pensava que fosse.
- Durou até quando?
- Até o ano passado, quando ela viajou com os pais para a China.
- Eles não sabiam do envolvimento da filha com o senhor?
- Sabiam.
- Eram a favor ou contra o namoro?
- Nunca disseram uma palavra a respeito.
- Era bem recebido na casa?
- Nunca percebi hostilidades embora o pai fosse de pouca conversa sempre preocupado com seus negócios em Serrana e a vinicultura que tem em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.
- E a mãe?
- Uma boa senhora, mas alheia à realidade. Vive no seu mundo de luxo sem perceber o que acontece fora dele.
- Depois que Maria Luisa voltou da China, qual era o comportamento dela?
- Bem, estava diferente da moça alegre que eu conheci. Passou a sair com Marcus Chang.
- Quem é Marcus Chang?
- É filho de Woo Chang um milionário exportador e importador de componentes eletrônicos que mora em São Paulo.
- Ela já havia falado sobre esse tal de Marcus Chang?
- Não. Nunca mencionou tal nome, mas pelo jeito já o conhecia de longa data.
- Qual a justificativa que ela deu para terminar o caso com o senhor?
- Ela foi direta. Disse que tinha se envolvido com um conhecido, durante a viagem à China, e que esse envolvimento era definitivo. Quando eu perguntei quem era, disse-me que era seu amigo Marcus Chang. Insisti para que ela pensasse antes de tomar uma decisão final, mas ela foi taxativa: - Tudo acaba aqui. – disse.
- Onde o senhor estava no dia e na hora do crime?
- Estava na faculdade dando a última aula que termina às 23,30 hs.
- Muito bem, Luiz Eduardo, obrigado pela colaboração. Procurá-lo-ei se precisar de mais informações.
Despediram-se e Gregório Naves partiu para o DP. Para ele a entrevista não acrescentou muito, apenas um nome para ser investigado.
Subiu os degraus da escada de dois em dois. Chegou à sala de informática e pediu que fizessem uma pesquisa sobre Woo Chang e seu filho. Pediu urgência e foi para sua sala. Sentou-se, acendeu um cigarro e começou a ler o relatório sobre o pai de Maria Luisa. Num certo trecho dizia: “dono da vinicultura Santa Clara...” Tirou os olhos do papel e ficou pensativo.
- Além de industrial ele tem vinhedos no Rio Grande do Sul.
Chegou o relatório sobre Woo Chang. Importador e exportador impoluto. Nada que desabonasse sua conduta. O filho, estudante de engenharia, tinha uma passagem pelo 98º DP por motivo de bebedeira e arruaça. Além dos negócios de importação e exportação, Woo Chang era sócio de uma vinícola no Rio Grande do Sul, a Vinicultura Santa Clara, dizia o relatório.
Gregório foi conversar com seu chefe sobre viajar para o Rio Grande do Sul para, junto com a polícia de lá, investigar os negócios do pai de Maria Luisa. Saber nunca é demais, pensava ele.
Chegou a Bento Gonçalves e foi direto falar com o Delegado da cidade.
- Caro colega – disse o delegado de Bento Gonçalves – faz algum tempo que investigamos, secretamente, as atividades dessa vinicultura. Há suspeita de lavagem de dinheiro, tráfico, contrabando e etc. Ainda não temos nada confirmado, mas vamos chegar lá. Essa gente é muito esperta.
- Lá, em Serrana, o proprietário desse negócio é respeitadíssimo. – disse Gregório.
- Aqui também amigo, mas quem vê cara...
E soltou sonora gargalhada.
Gregório, juntamente com o delegado e alguns investigadores partiram para as investigações sobre o vinicultor. Já estava em Bento Gonçalves fazia 15 dias e não tinha provas suficientes para intimar o vinicultor.
Estava descansando no quarto do hotel, onde se hospedara, quando o telefone tocou. Era o Delegado de Bento Gonçalves.
- Alô!
- Gregório, venha ao meu escritório que recebi uma informação quente.
Chegou à delegacia arfando de tão rápido que andara.
- Então, o que é?
- Hoje, depois da meia-noite, haverá um carregamento de vinhos. Uma frota de caminhões levará a carga até o porto de Paranaguá e de lá seguirá, de navio, para a Europa. Horário esquisito para carregar caminhões. Estaremos lá para ver.
Gregório exultou. Será que finalmente surgiria uma pontinha da linha que formava aquele grande novelo que era a morte da moça?
Partiram para o local indicado pelo alcagüete. Era um galpão pertencente à vinicultura de Pedro. Posicionaram-se de forma estratégica para observar o movimento. As vinte e duas horas começaram a chegar os homens. Alguém, que estava dentro do galpão, abriu a porta. Entraram. Um dos policiais esgueirou-se entre os caminhões e foi para trás do galpão. Depois mais outro policial fez o mesmo, até que cercaram tudo. Essa operação de cercamento não demorou mais que 15 minutos. Examinaram as armas e, ao sinal do delegado, arrombaram a porta do depósito gritando:
- Polícia! Mãos para cima.
Os homens não reagiram. Gregório, o delegado e os policiais começaram a examinar as caixas onde estavam as garrafas de vinho. Nada de anormal. Reviraram o galpão e nada encontraram. Gregório se aproximou do homem que parecia ser o chefe da turma e começou a interrogá-lo.
- Seu nome companheiro?
- João de Mariana.
- Por que carregar caminhões de vinho depois das vinte e quatro horas?
- Não sei. Foi a ordem que recebemos. Nós somos pagos e não questionamos.
- Quem contratou os senhores?
- Foi um advogado que vem de São Paulo.
- Sabe o nome dele?
- Não. Só o conheço como Advogado.
- Conhece o dono da carga?
- Sim, senhor.
- Quem é ele.
- O sr. Pedro.
- Certo.
Enquanto isso, lá fora, os policiais examinavam os caminhões, desde a carroceria até o motor. Nada demais. Foi então que um deles teve a idéia. Estalou os dedos dizendo:
– É isso aí!
Falou com o delegado e esse deu a ordem:
- Rasguem um dos pneus desse caminhão!
A ordem foi cumprida. Surpresa. O pneu estava recheado de pequenos pacotes de cocaína. A polícia apreendeu a frota de caminhões e prendeu todos que estavam no galpão. Foi uma noite vitoriosa para a polícia de Bento Gonçalves. Quinhentos quilos de droga foram retirados das rodas das carretas.
Gregório estava eufórico. Será fora dado um passo importante na investigação do crime da moça? O pai, aparentemente, estava envolvido com o tráfico de drogas.
Pedro foi detido em Serrana. Levado à presença do delegado disse desconhecer a carga de drogas. Confirmou o embarque da carga de vinho e quem cuidava disso para ele, era o Dr. Juan Penido, seu advogado em quem ele tinha confiança. O Dr. Penido foi chamado para depor. Das drogas ele não sabia de nada, mas confirmou que contratava homens para carregar os caminhões que pertenciam à vinicultura de Pedro.
Enquanto isso, em São Paulo, Woo Chang e seu filho eram detidos para prestar depoimento.
- Há quanto tempo é sócio de Pedro B. Lacoste?
- Faz dez anos que somos sócios.
O interrogatório continuou e como não houvesse nada que desabonasse Woo Chang, ele foi liberado juntamente com o filho. Mesmo assim, o delegado de Serrana pediu auxílio à Interpol para saber sobre as andanças de Woo Chang pelo mundo.
Chegou o dossiê. Woo Chang não era flor que se cheirasse. Foragido da justiça chinesa correu vários países do oriente e da Europa antes de vir parar na América do Sul. Morou na Bolívia, na Colômbia e finalmente veio para o Brasil. De posse dessas informações o delegado de Serrana acionou a polícia federal de São Paulo. Preso, Woo Chang não teve como negar suas atividades criminosas. Pertencia à máfia chinesa. Traficava mulheres e drogas, contrabandeava produtos de informática e eletrônicos por todos os continentes, e se alguém se pusesse no seu caminho era morto sem piedade.

Passava das duas horas quando Gregório chegou à casa do pai de Maria Luisa. Tocou a sineta e aguardou. Uma senhora gorda veio atender.
- Gostaria de falar com os donos da casa. – disse o investigador.
- Eles saíram e não sei a hora que voltam. – respondeu a mulher.
Gregório começou a fazer perguntas sobre o casal e a filha, certo que os empregados sabem muito sobre a vida dos patrões.
- Seu nome senhora?
- Lili
- Há quanto tempo trabalha aqui?
- Desde que a patroa se casou com o senhor Pedro.
- Eles se dão bem?
A conversa continuou. Lili serviu café para o investigador que, ao final, agradeceu com uma reverência.
Sentou-se na luxuosa sala da mansão aguardando a chegada dos donos da casa, pois tinha subsídios para prender Pedro B. Lacoste. Assim foi feito.
Pedro foi conduzido à delegacia, cabisbaixo, ante os olhares perplexos de seus empregados.
Foram mais de seis horas de interrogatório. Sabedor da prisão de Woo Chang, Pedro confessou que era sócio dos negócios de tráfico do chinês.
- Como é feito o embarque das drogas? Perguntou o investigador.
- Dentro dos pneus das carretas.
- Esclareça.
- São pequenos pacotes de cocaína envolucrados num material plástico a prova de infiltrações. São colocados dentro dos pneus e antes de chegar ao porto são retirados, embalados, novamente, em sacos plásticos com pó de café. Feito isso, são colocados dentro das sacas de café cru e despachados para Europa e Estados Unidos.
- Esse trabalho é feito onde?
- A primeira etapa é feita em Bento Gonçalves. – disse – e segunda é feita em Paranaguá, em armazéns de exportadores de café.
- Quem é o tesoureiro do seu negócio de drogas?
- O nosso advogado, Dr. Penido.
- Porque nunca foram descobertos?
- Temos a cobertura de funcionários da alfândega.
Terminado o interrogatório, a polícia de Serrana enviou comunicado ao Secretário da Segurança Pública do Paraná, narrando a história e pedindo a prisão da quadrilha que operava no porto de Paranaguá e nos armazéns de exportação de café.
Mas o assassinato da jovem ainda era um mistério. Quem a teria matado? Por quê? Por que seus pais não prestaram queixa do seu desaparecimento, se a identificação do corpo demorou quatro dias?
Em Serrana o povo, perplexo, comentava a prisão de Pedro.


Quinze dias depois da prisão de Pedro, Gregório recebeu a visita da mãe de Maria Luisa.
- Pois não, senhora! A que devo a sua visita?
Ana Luisa começou a chorar copiosamente. Gregório tentava acalmar a mulher. Pediu um copo de água para um dos subordinados e ofereceu à senhora. Ela tomou um gole e se sentiu melhor. Enxugando as lágrimas do rosto disse:
- Senhor policial, foi meu marido quem matou Maria Luisa.
As palavras caíram como uma bomba na sala de Gregório. Agora ele entendia porque eles não comunicaram o desaparecimento da moça. Ficou calado por uns momentos e, depois que dominou a surpresa, perguntou:
- Por que ele faria tal coisa se é o pai?
- Quando eu me casei com o Pedro estava grávida de outro homem.
- Ele sabia disso?
- Não. Escondi por causa de meus pais. Eram muito severos e o rapaz não era aceito por eles porque era de origem humilde.
- E o que aconteceu para a senhora afirmar que seu marido matou Maria Luisa?
- Quinze dias, antes da morte da minha filha, eu resolvi contar a verdade porque vivia me corroendo de remorso. Pedro amava demais Maria Luisa. Dizia a todos que se perdesse tudo na vida, não importava porque tinha a filha. Quando eu disse que ela era filha do meu primeiro namorado, ele ficou possesso. Os seus olhos se encheram de ódio. Agrediu-me selvagemente. Isso o senhor pode comprovar com os empregados da casa. Eles só não sabem o motivo da agressão.
- Disso eu já tinha conhecimento, pois falei com sua empregada Lili. Que mais ele disse?
- Depois que passou a ira, ele me disse: “ela terá o mesmo fim dele”. A princípio eu pensei que ele fosse deserdá-la e deixá-la pobre como o pai verdadeiro. Mas quando ela apareceu morta naquele hotel eu compreendi as suas palavras, então eu o acusei frontalmente.
- E o que ele respondeu?
- Disse-me que a tinha matado da mesma forma que matou o pai dela vinte e três anos atrás, atraindo-o para uma cilada.
- Então seu marido sabia da sua gravidez?
- Não. Como eu já disse, ele não sabia da gravidez. Ele tinha ciúme do outro porque eu o amava e que só me casei com ele para satisfazer a ambição do meu pai.
- E como ele levou Maria Luisa para o La Belle?
- Ele a levou até lá dizendo que Marcus Chang a estava traindo e que ele havia armado um flagrante. Assim que entraram no quarto ele a fez tirar a roupa e deitar na cama. Sem se importar com o terror estampado nos olhos de Maria Luisa, sacou a arma, pôs a mão na boca da menina para abafar os gritos e disparou no seu peito. Esperou um tempo para ver se tinham ouvido o disparo. Como não apareceu ninguém, ele se encaminhou para a portaria do hotel. O porteiro trocava a lâmpada do escritório e para ver a porta de entrada seria preciso descer da escada. Então ele saiu sem ser visto.
- Depois de me contar tudo isso, ameaçou-me de morte. Pôs a arma, com que matou a minha filha, na minha testa e disse: - Serás uma mulher morta se deres com a língua nos dentes, sua vagabunda. Ele me tirou tudo, a começar pelo dinheiro que meu pai me deixou. Eu nunca me importei com o dinheiro, pois tinha o amor de minha filha e a lembrança do homem que amei, mas agora, neste instante a morte é bem-vinda.
- Então Pedro cometeu assassinato duas vezes. A arma do crime ainda está na sua casa? – perguntou Gregório.
- Sim. Está no cofre.
Gregório desligou o gravador e ficou pensativo...
...........................
O despertador tocou. Maria Luisa virou para o outro lado e continuou dormindo. A mãe subiu correndo as escadas da mansão e foi direta para o quarto da filha.
- Lindinha, acorda! Vamos preguiçosa, está na hora da faculdade.
- Ah, mãezinha me deixa dormir só um pouquinho mais...
- Não senhora. Levante-se porque o Marcus está lá embaixo esperando por você. Acho que ele tem um presente.
Riu beijando a filha com carinho e encaminhou-se para o quarto onde o marido dormia.
- Pedro, acorda homem! Você tem uma longa viagem pela frente. De Serrana até Bento Gonçalves tem muito chão para ser percorrido.
E beijou o marido que ficou se espreguiçando na cama.
Quando chegou à sala Maria Luisa já estava tomando café ao lado de Marcus Chang.
Neste momento tocou a sineta da porta. Lili atendeu e gritou:
- Menino Marcus é o seu pai.
Woo Chang entrou, abraçou o filho e beijou Maria Luisa. Dirigindo-se à Ana perguntou:
- E o Pedro, já acordou? Estamos atrasados...
- Ele já está quase pronto. Tome café conosco Woo.
E serviu o café para o sócio chinês de seu marido, quando a filha disse:
- Sabe mãezinha, esta noite eu tive um sonho tão estranho! Sonhei que estava morta e que não era filha do meu pai ... parecia tão real...
Um leve tremor percorreu o corpo da mãe que tirando os olhos do rosto da filha disse:
- Filha, sonhos são apenas sonhos.


Enquanto isso, a pequena delegacia de polícia iniciava o seu expediente. O investigador Gregório chegou. Abriu a janela da sua sala, olhou as pessoas na rua e exclamou:
- Eita cidadezinha modorrenta que não acontece nem um crime!
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