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Erótico-->9. O SONO -- 16/11/2003 - 06:17 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Estranhamente, Adonias adormeceu como quem abandona o corpo e mergulha em águas profundas, consciente de que o faz rigorosamente seguro de si, porque a ausência de oxigênio não causará qualquer transtorno, como ainda nada que possa surpreendê-lo irá alcançar feri-lo ou sequer estremecê-lo. Sendo assim, movimentava-se livremente, examinando cada sutil escaninho de seu perispírito, como se estivesse pronto para abandoná-lo, exatamente do mesmo jeito que se recordava de haver sucedido toda vez que deixava para trás uma carcaça a caminho de deterioração, volvendo ao plano da espiritualidade.

Mas a sua curiosidade não lhe afetava a imaginação, de sorte que, em lugar de se dedicar a um exame acurado de cada órgão em correspondência com sua função, bastava-lhe perceber que manobrava à perfeição o conjunto de suas fibras energéticas, com o fito de satisfazer tão-somente o princípio da liberdade com que sua vontade se dispunha a realizar as reações necessárias para o conhecimento exato de sua participação no conjunto dos seres que lhe enviavam mensagens, as quais agora era capaz de captar, descodificar e responder.

Contudo, esse dom maravilhoso, que se processava sob o domínio do consciente, precisava ser melhor estudado, já que a recepção devia ajustar-se a uma determinada faixa de onda, como nos simples receptores de rádio se exige que haja um dial em que as freqüências são escalonadas, e atingidas segundo um trabalho mecânico do operador. Por isso, Adonias interessou-se em fixar certa freqüência, que lhe pareceu de fácil captação, havendo imaginado estar recebendo mensagem de Dona Genoveva, sua mãe amantíssima, que ele havia deixado, na última visita, um tanto desgostoso por saber que contraíra segundas núpcias.

Toda a extensão dos sucessos desse episódio se desenrolou perante a sua mente, como se estivesse ocorrendo naquele justo instante. A novidade era que, agora, Adonias tinha conhecimento de que toda a sua conversa com a mãe se dera espiritualmente, por contato perispiritual, ele transmitindo e ela recebendo na qualidade de médium mecânico, sem definição externa, para registro alheio, nem sequer interno, para fixação na memória corpórea. Foi como se alguém tivesse a capacidade consciente de entrar na aura de abrangência das emanações físicas mais sutis, onde poderia obter alguns dados, desde a temperatura, que seria a comunicação mais grosseira e material, até o influxo dos pensamentos e sentimentos que fazem vibrar os plasmas energéticos de que se compõe essa massa transparente e só perceptível pelo sensório humano se as pessoas treinarem à exaustão esse tipo de leitura extra-sensorial.

Pois bem, naquela época, ele não sabia de sua condição de entidade errante na espiritualidade, de modo que tudo interpretou como se acontecesse estando vivo entre os vivos. Recordou-se de que a mãe o havia atendido enquanto realizava as tarefas domésticas, ignorando a sua presença ou disfarçando a sua vergonha por haver casado uma segunda vez. Também fez perpassar por aquele quadro vivo a penúltima ao lar, quando a mãe o atendeu de maneira bastante mais afetiva, conseguindo estabelecer a distinção entre as duas acolhidas, ao definir que ela estava adormecida e que colaborava com a sua fantasia de ser que se engodava quanto à realidade em que se estabelecera.

Nesse estado de contemplação onírica, Adonias não se preocupava em efetuar nenhuma espécie de apreciação crítica, mas limitava-se a caracterizar seu nível perceptivo, em função da reconstituição da verdade como algo que devesse agilizar como processo de reconhecimento, uma vez que, imergindo nas cenas que o passado mais distante iria desvendar-lhe, precisaria estar seguro de como se estavam dando os relacionamentos em que se envolvera.

Mas havia a presunção de que estava recebendo uma mensagem de Dona Genoveva naquela faixa em que se detivera, novidade absoluta para sua mente, apesar de manter-se alerta quanto à possibilidade de sempre ter emitido e recebido comunicações alheias à sua vontade, ou seja, no plano do inconsciente. Pôs tento no teor das informações que estava recebendo e percebeu que era uma irradiação sentimental de caráter genérico, sem exigência de resposta, como alguém que lhe dissesse que estava pensando nele e que pedia para ele o amparo de Deus, nobre emoção envolta em prece, plena de amor e de saudade, numa promessa imanente e tácita de que se juntariam assim que se desligasse ela das peias que a prendiam ao corpo denso da matéria.

Adonias imaginou que poderia corresponder-se com a mãe no mesmo diapasão de fraternidade e de solidariedade universal e agradeceu a ela todos os sacrifícios que fizera por ele em vida e na espiritualidade, pedindo-lhe que o perdoasse pelas dificuldades que seu caráter imperfeito e tantas vezes intempestivo lhe causara. Achou que não era hora de enviar um influxo desequilibrado, de forma que obstou qualquer manifestação que pudesse induzir o espírito da mãe de que havia algo fora do lugar dentro do nível de expectativa dela quanto ao além-túmulo.

Notou que as vibrações que vinha recebendo da mãe ganharam a suavidade de quem se tranqüilizava, até que desapareceram. Adonias precisou admitir que esse tipo de percepção estava eivada de pressupostos, como se tudo estivesse ocorrendo em torno de si, sem que pudesse efetuar verdadeiro controle da realidade. Como, de fato, havia adquirido a convicção de que conversava a distância com a mãe, se não tinha nenhuma medida confiável de que era verdadeiramente dela a emanação recebida? Claro que todo o conjunto das sensações conduziam para aquela conclusão, mas lhe pareceu óbvio que, em outras circunstâncias, por razões específicas que se justificariam de acordo com os eventos em andamento, alguém poderia ocupar o lugar de Dona Genoveva ou de qualquer outro ser, interferindo na recepção através de algum processo que tanto poderia provocar reações positivas quanto negativas.

“Terei algum recurso de acompanhamento visual, ou coisa assim, que pudesse assegurar-me de que a pessoa que estou contatando seja exatamente aquela que se declara como tal?”

A elaboração do tópico em forma de pensamento coordenado pôs Adonias alerta para o fato de que poderia estar emergindo do sono, dado que o registro da questão deveria efetivar-se em área de atuação do consciente, para tornar-se produtiva no aspecto do acrescentamento de informações do mundo espiritual, tendo em vista que precisava progredir em todos os sentidos, mui particularmente no do domínio de si mesmo, para fazer jus a um convite que lhe chegaria em tempo hábil de algum irmão habitante das esferas superiores, da mesma forma que recebera o de Adão, há alguns anos atrás.

Toda essa reflexão se deu em pleno domínio da realidade circunstante, percebendo Adonias que acordara como que tangido por uma necessidade íntima de absorção de novos conhecimentos. Passou a refletir a respeito de tudo o que ocorrera enquanto dormia, para ver se podia confiar em que sua memória mais profunda lhe seria fiel na indicação de um passado recentíssimo, sem omissão ou acréscimo.; omissão por solução de continuidade no fluxo da investigação a que se dera.; acréscimo por estabelecer como boa alguma produção mental dentro dos padrões da realidade dos sonhos, sobre o que não exerceria controle. Mas o resultado de seu exame redundaria satisfatório e Adonias passou a imaginar se não teria desenvolvido já a faculdade de dormir e de acordar sob o comando de sua vontade.

Deu a ordem de adormecer e entrou de novo no ambiente de seu perispírito, como dentro de um tanque ou piscina em cujas profundezas nadava sem respirar e sem nada temer.

Imediatamente lhe veio à lembrança uma das páginas de instruções que mais o haviam impressionado dentre todas as obras que lhe foram recomendadas por Adão, para que pudesse dominar melhor o perispírito. Dizia-se no texto que havia várias fórmulas de entrar em contato com todos os seres em disponibilidade de comunicação, nas esferas logo acima ou abaixo da que em que se situa o indivíduo. Recordava-se de que havia uma nota esclarecedora quanto à terminologia precária do “acima” e do “abaixo”, insistindo o autor que a localização espacial era mero ponto de referência para a compreensão do tema.

Dentre os tipos de realização desse contato, havia o que ele acabara de realizar, qual seja, a mera transmissão dos pensamentos, e outros mais complexos em que, além das idéias, há também som e imagens, formando uma espécie de quadro vivo, segundo o poder de quem transmite e de quem recebe, precisando-se, portanto, que haja integração das vibrações através de um padrão uniforme ou uniformizado pela capacidade do espírito mais desenvolvido em ajustar seus recursos de captação aos do transmissor.

Consciente de que dificilmente iria alcançar sucesso, tentou elaborar um contexto em que se integrasse alguma das entidades amigas que ele sabia que deveriam estar recolhidas àquela hora. Mas aí lhe ocorreu que as sensações que ele mesmo poderia transmitir eram quadros arquivados na memória, nada como a visão da realidade externa. Se os seus amigos estavam adormecidos como ele, não teriam outro tipo de quadros a oferecer-lhe. Pensou na irmã, Clarice, formulou um pensamento de muita benquerença, adicionou uns ingredientes extraídos de suas mais amáveis lembranças dos tempos em que, jovenzinhos, brincavam juntos, embrulhou tudo numa prece de bom sentimento e enviou o pacote via vibração afetiva do mais puro desejo de efetuar um contato positivo, para passar a impressão de que existe vida após a morte física, no desejo de dar-lhe tranqüilidade, acima de tudo.

Esperou um bom tempo por uma resposta, mas seu aparato perceptivo nada registrou e Adonias ficou sem saber se o intento havia ou não sido coroado de êxito.

Aí recordou-se, também, de que, além de pensamentos, sons e imagens, os espíritos podiam abandonar o perispírito no local do repouso e, como os seres vivos que deixam para traz o corpo em suas viagens astrais, mantendo contato fluídico sempre visível para os desencarnados, que se traduz numa espécie de cordão luminoso, sair em visita a paragens mais adiantadas, sempre sob a tutela de um ser superior a eles.

No livro estava escrito que não era o espírito, simplesmente, que se deslocava, porque ficaria vulnerável às condições adversas das “atmosferas” em que seriam envolvidos. Ele poderia ter desenvolvido um perispírito mais sutil, veste que irá trajar no plano existencial subseqüente e mais elevado, estando, portanto, a pique de passar adiante um passo na escala evolutiva. Poderia ser agasalhado no perispírito de seu acompanhante, caso este tivesse desenvolvido essa técnica, a qual não se encontrava descrita no capítulo. Poderia receber um perispírito de empréstimo, adequado para a região mais depurada que iria visitar para cumprir alguma tarefa de imensa responsabilidade perante a própria consciência e perante a administração da colônia. Poderia ter acoplado a seu perispírito um aparelho transmissor das impressões alheias, de sorte que seu espírito não sairia do lugar mas teria toda a sensação de estar volitando no sentido na esfera contígua de maior ou de menor densidade fluídica, vendo com os olhos do outro, podendo comunicar-se livremente, porque estaria utilizando o aparelho correspondente do perispírito do protetor. Poderia, ainda, receber todas as informações por telepatia, inclusive as impressões térmicas, olfativas, tácteis e demais, como se estivesse integrado ao ambiente e não se mantivesse numa atividade meramente virtual.

Sabia da existência de roupas específicas, espécie de escafandros ou vestimentas de astronautas, para quem se aventurasse nas regiões abismais, o que mais não era que um resguardo perispirítico, considerando-se que sua função era justamente de proteger a sutileza do corpo espiritual apropriado a climas mais amenos.

Nesse ponto de suas reflexões, pôs-se alerta para o fato de que a única entidade de seus relacionamentos que lhe parecia pairar mais além era o seu anjo guardião a quem vira ao final da palestra do Professor Maciel e a quem não tinha como explicar seu interesse em contatá-lo, sem lhe causar nenhum transtorno absolutamente inútil pela futilidade de sua pretensão, à vista das preocupações afetas a seu guia, as quais ele nem ao menos era capaz de imaginar.

Foi quando ficou vermelho até os refolhos mais íntimos da alma, se não fora uma transgressão da doutrina espírita chamar de alma ao espírito propriamente dito, porque desencarnado em relação ao plano material da Terra. Essas reflexões paralelas como que atenuaram a vergonha que sentiu ao se lembrar da patética figura de seu pai a increpá-lo de intolerância religiosa e de falta de decoro religioso, por pretender o filho, primeiro, mudar as estratégias eclesiásticas.; segundo, altercar-se moralmente com toda a cúpula administrativa da Igreja.; terminando por bater o carro e lhe tirar a vida.

Mas Adonias se equilibrou ao perceber que, sendo seu pai um espírito sofredor, conforme não poderia deixar de pensar já que se suicidara, ofendendo, ao mesmo tempo, várias leis superiores consignadas em “O Livro dos Espíritos”, de Kardec, estaria necessitado mais que a mãe e a irmã de suas preces, muito embora ele se dedicasse a elas, regularmente, duas vezes ao dia.

“Será que o Senhor Fernando seria capaz de receber um influxo de bons sentimentos da minha parte, à frente dos quais vou postar o meu amor por ele, para demonstrar que nem perpassou pela minha cabeça nenhuma recriminação pelo fato de ter-me, acidentalmente, tirado a vida? Se ele está na escuridão do Umbral, como penso, talvez tenha recobrado a memória dos tempos anteriores ao último período vital, de forma que há de saber, ainda melhor que eu, quais foram os nossos relacionamentos durante toda a existência. Sendo assim, não será melhor orar, sem a intenção de receber uma resposta, para, em seguida, efetuar um mergulho no passado em busca de reconhecer quem fomos um para o outro, desde épocas imemoriais?”

Adonias se sentiu incomodado com as possíveis revelações que deveria enfrentar com paciência, fleumaticamente, com sentimento bem mais depurado de quando lhe foram abertas, de par em par, as portas de todo o passado, porque agora as lembranças iriam repercutir expressivamente no presente, podendo afetá-lo em sua presunção de que já não tinha inimigo nenhum para enfrentar.

“Manterá meu pai para comigo aquele azedume que o desvairou tão gravemente?”

A pergunta iria perder-se numa série de pensamentos desencontrados, imagens que se cruzavam incompreensíveis, esforço de memória baldado por uma sonolência que lhe escapava ao controle. Adonias entrou numa fase de sonho, tal qual teria ocorrido se estivesse encarnado e se deparasse com a necessidade de dar repouso ao corpo e à mente. Ainda com certa lucidez, formulou a seguinte questão, que julgou de uma acuidade de inteligência superior: o homem dorme porque precisa sonhar, ou sonha porque precisa dormir?
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