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Textos_Religiosos-->A TRANSIÇÃO -- 03/03/2005 - 04:52 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER













A TRANSIÇÃO












Grupo das Ações Pertinentes

Professor Afonso





















ÍNDICE


A Caravana ..........................................
1. Depauperado .........................................
2. Os inimigos .........................................
3. O sonho .............................................
4. Novo sonho ..........................................
5. Reflexões assistidas ................................
6. Olímpio sai do marasmo ..............................
7. O mistério dos departamentos ........................
8. O Professor Gaudino .................................
9. Primeiras idéias ....................................
10. Sólida abstração ....................................
11. Notável progresso ...................................
12. O aviso .............................................
13. Com Luciano .........................................
14. Margarida aparece ...................................
15. Comentários infelizes ...............................
16. Pequenas lembranças .................................
17. Outro ponto de vista ................................
18. Ritmo frenético .....................................
19. Primeira decepção ...................................
20. Menosprezo crítico ..................................
21. Mãe e filho se encontram ............................
22. Novos problemas .....................................
23. Esmeralda ...........................................
24. Mudança .............................................
25. A alma posta a nu ...................................
26. Olímpio se recompõe .................................
Epílogo .............................................



A CARAVANA

Excitados à vista do sucesso dos companheiros que nos antecederam, também quisemos, apesar da imaturidade do grupo, elaborar obra mediúnica que possa vir a tornar-se útil aos leitores encarnados. No mínimo, pensamos nós, haveremos de aprender algo importante: a nossa capacidade de transmissão, já que os textos estão prontos, havendo passado pela rigorosa crítica dos mentores.
Era para sermos acompanhados de perto pelo mestre Afonso, nosso orientador, no entanto, permitiu-nos ele que desenvolvêssemos todo o trabalho sem sua intervenção, o que nos dá muito maior responsabilidade. No momento mesmo deste ditado, estamos admirando a facilidade de transferir os pensamentos previamente organizados e até estes que improvisamos.
Aí haverá sempre quem possa estar perguntando-se se não incidimos em incoerência, já que afirmamos que recebemos prévia aprovação e estamos tomando uma outra estrada. Arguta observação! Provavelmente, teremos de sofrer graves repreensões no caso de rompermos as normas estabelecidas para esta obra. E teremos de apagar os trechos em que desandamos. Como fazê-lo? Voltando perante o médium e ditando novas instruções, com a mesma seriedade de agora, o que o conduzirá a meditar a respeito dos textos que considerarmos espúrios e a excluí-los.
Novamente, aquele mesmo crítico poderá opor-se ao método da correção, afirmando que, então, o médium irá assumir uma função que, primitivamente, não lhe pertencia. Excelente constatação! Ocorre, entretanto, que o resultado final não deixará transparecer nenhuma mudança, emenda ou acréscimo, o que impedirá o leitor de estabelecer em definitivo toda a extensão dos problemas que superamos.
Eis que a nossa caravana vai passando sem dar importância ao ladrar dos cães. Talvez esta anotação de sentido emblemático seja por demais agressiva, contudo, é a mais pura expressão da verdade, já que todas as informações que passarmos irão jazer no conjunto da obra, que merecerá ou não ser aprovada como um bloco de lições representativas das personalidades dos componentes deste Grupo das Ações Pertinentes.
O mais é o mais e será trazido cada dia um pouco à luz dos humanos.
Fiquem na paz do Senhor!
03.10.02.



1. DEPAUPERADO

Olímpio arribou no etéreo ofuscado com a luminosidade da região. Era o que havia pedido aos protetores durante a maior parte da vida, desde que se convertera ao Espiritismo. No entanto, sentia-se fraco para enfrentar o intensíssimo labor que imaginava estar destinado a ele, trabalhador incansável no centro espírita a que dedicou largos anos.
Tentou observar o que se passava ao redor, porém, não conseguiu fixar nenhum ser incorpóreo que se desse a reconhecer como criatura daquela esfera espiritual. Tateou na luz como um cego que despertasse de repente para o sol. Não se preocupara a princípio; agora estava ficando fortemente apreensivo.
“Falta-me orar com devoção pela presença de meu protetor ou dos guias que levavam os sofredores para a desobsessão.”
De imediato, pôs-se em atitude de profundo respeito e repetiu a oração dominical, pondo muita ênfase na necessidade de ser perdoado pelas falhas do caráter, falhas que não caracterizava muito bem, desconfiado de que se constituíam muito mais em imitação das preces repetidas pelas vozes dos obsedados do que propriamente em real configuração de sua personalidade.
Como nada repercutiu em torno nem percebeu qualquer presença significativa no ambiente, achou que recuperaria as forças, se descansasse algumas horas. Sentiu o chão em que pisava, viu que se tratava de gramado muito macio, lembrou-se de que por baixo da grama poderiam existir molestos insetos, mas deitou-se mesmo assim, confiando em que, naquela zona cheia de luz, não poderia ser atacado por nenhuma criatura peçonhenta.
Deitou e dormiu. E sonhou.



2. OS INIMIGOS

Vamos descansar por alguns momentos do Olímpio e enfrentar a dura condição de declarar a existência do mal nas almas das criaturas.
Sim, partindo do princípio de que todos somos bons desde a origem, porque Deus não nos iria impor a maldade como estigma, só podemos concluir que houve uma fissura na primitiva ingenuidade, dada a ignorância das coisas, entre as quais da necessidade da dor para o progresso, bastando um entrevero qualquer por razões sentimentais para despertar o rancor, o desejo de compensação e a prerrogativa da vingança, dado o instinto de justiça estar profundamente arraigado na crença de que temos poderes sobre as pessoas, quando estas nos arrebatam qualquer bem sobre o qual exercemos o direito de posse.
Eis o exemplo.
Quando Olímpio não tinha sequer noção de possuir um nome, ainda vagabundo em sua primeira encarnação em um orbe destinado à aprendizagem, na infância da criatura, foi devorado por seres de outra espécie. Dessa primeira desventura, a solicitação instintiva de inversão dos papéis, vindo a reencarnar em meio mais forte que o anterior, necessitado por isso mesmo de manter o vigor físico através de alimentação cujo processamento no trato intestinal fosse mais rápido, sem a ida e vinda dos bocados pelos estômagos duplos e pelas longas cavidades tubulares dos órgãos que viriam a ser conhecidos como intestinos.
Dissemos Olímpio, contudo, qualquer antropônimo caberia, que não existe ser humano no planeta que não tenha passado por aquele sistema de evolução, a não ser que para cá tenha vindo em espírito, a serviço da melhoria dos padrões de procedimento dos aborígines. Mas este não era o caso de nossa personagem.
Criou, pois, inimigos figadais, numa competição instintiva pela sobrevivência. Tantas foram as contendas que, ao se virem dominando os atos da vontade, se deixaram atiçar pela astúcia das explicações a que davam o cunho da naturalidade e praticaram atos de atrocidade sem o objetivo imediato da saciedade.
Dentre os que acenderam o desejo explícito da vindita dirigido a Olímpio, mantiveram-se fiéis ao código primitivo duas criaturas: Venâncio e Esmeralda, nascidos na mesma região do globo, sob o mesmo pátrio pendão.



3. O SONHO

Olímpio não percebeu que dormia. O sonho era tão verdadeiro como se ele estivesse empenhado em realizar todos os atos refletidos desde a profundeza da psique.
Assim, correu mundo a visitar inúmeros parentes e amigos, tendo para com todos o maior carinho, dando-lhes conselhos úteis e pragmáticos, ensinando diretrizes doutrinárias da mais vívida importância, contando casos para exemplificar a moralidade implícita e assim por diante. Se fôssemos detalhar todos os pseudo-acontecimentos, faríamos uma obra totalmente onírica.
Entretanto, fato curioso, ficaram-lhe na memória todas as minúcias da viagem astral, acrescentadas dos pensamentos, induções e conclusões extraídos a partir dos elementos psicológicos que conseguia decifrar em cada individualidade. Quando acordou, sem perceber que o fazia, examinou detidamente a condição física do perispírito, a ver se conseguiria perambular pelas redondezas, crente de que poderia provocar o sono de que se julgava necessitado.
A alcatifa do gramado pareceu-lhe um tapete daqueles que conhecera em vida, vistos através da televisão, sem ânimo de adquirir algum, não porque não pudesse financeiramente, mas porque achava que o dinheiro deveria destinar-se ao conforto material dos irmãos assistidos pelo pessoal do centro espírita, conforto básico do feijão com arroz ou da blusa de lã.
Ia por esses relances da memória, quando pareceu que o observavam de dentro do matagal inóspito que cobria o monte que se erguia mais à frente. Juraria que eram dois pares de reflexos, como se algum facho de luz incidisse sobre os cristais de quatro olhos.
Não ousou elevar a voz para demonstrar afabilidade e atrair os desconhecidos, tendo tido o pressentimento de que poderiam ser antigos adversários, lembrança bastante apagada de vidas anteriores. Também pensou que estaria sendo protegido de possíveis ataques pelos guias pessoais e do próprio centro, dado que foram inúmeros os amigos ali conquistados, quer pela incansável assistência aos carentes de conselhos trazidos até a mesa mediúnica, quer pela afeição de que se via correspondido junto às pessoas que recebiam de sua mão o com que alimentar os filhos, ou de sua boca as palavras de consolo para a infelicidade comum nas regiões em que a miséria predomina.
Voltou a deitar e a dormir. E a sonhar.



4. NOVO SONHO

Desta vez as impressões de Olímpio não foram tão claras, tanto que, ao acordar, não se lembrava positivamente dos acontecimentos mentalmente representados, apenas que estivera em alguma região do passado que bem poderia ter sido recuperada da memória. Havia diálogos, entretanto sobrara-lhe apenas a sombra de diversas discussões, tendo como pano de fundo o pesado ar da tragédia.
Também não reconhecera as personagens, bem podendo acontecer de serem figuras de outras existências. Misturava os fatos e se via presente em inúmeros episódios que sabia terem sido experiências de vida relatadas a ele mediunicamente, durante as sessões no centro espírita. Foi quando se sentiu penetrado por projéteis de armas de fogo, sufocado por grossa corda pendurada a uma trave, decapitado em antiga máquina de execuções cujo nome próprio lhe parecia provir do inventor, queimado em fogueiras sob a arruaça e vozerio da turba malévola, atropelado e estraçalhado por pesada locomotiva sobre dormentes que se umedeciam de seu sangue...
Haveria outras cenas de profunda agonia, contudo desencadeou-se o sistema de defesa psicológica, de forma que logo estava presente em julgamento em que se condenavam todos os réus à morte. Que papel desempenhava ali? Logo se viu na qualidade de testemunha de acusação, braço estirado, lançando na direção dos sentenciados tremente dedo em riste.
Novamente o mecanismo de proteção se acionou e Olímpio pôde respirar de modo menos opresso, restaurando-se quase imediatamente a paz que vinha gozando naquela zona espiritual. Somente abriu os olhos, endereçando-os à profundeza do matagal. Queria confirmar ali o rebrilhar mas nada encontrou, restando-lhe na mente os fantasmas do terrível pesadelo.



5. REFLEXÕES ASSISTIDAS

— Por que me vieram tantas lembranças de fatos cuja memorização não consigo restaurar?
Olímpio fez a pergunta crente de que obteria satisfatória resposta, ainda que apenas intuída, sabedor de que os guias espirituais estariam acompanhando-o e, talvez, influindo para que tivesse as visões e sensações. Sem hesitar, deu ele mesmo a resposta que lhe pareceu correta:
— Os seres evoluem sempre para melhor. De que lhes adiantará sofrer com o conhecimento de fatos desagradáveis em que se envolveram em suas existências carnais? Serviriam apenas para angustiá-los, já que lhes é impossível, como nesta minha condição atual, realizar qualquer procedimento de correção de rumo.
Parou para repensar sobre tais idéias, refletindo que a solução não era totalmente satisfatória, desde que poderia estar ocorrendo que estaria sob o efeito moral dos males praticados. Da mesma forma que se vira junto a inúmeras pessoas cujos sofrimentos aliviava, jubilosa situação!, também deveria ficar sob o influxo das sensações desagradáveis, no primeiro caso, como conseqüência das boas ações, no segundo, das más.
Instantaneamente, perguntou:
— Existe justiça quando as pessoas se esforçam por realizar o bem ao próximo, por amor a eles e a Deus, e se encontram diante de antigos conflitos, temores, castigos, perdas? Em suma, é justo que a memória traga acaçapantes recordações? Não é a própria melhoria evolutiva que dará ao saber o rumo da perfeição, rumo que incluirá não apenas a compreensão das ações e reações, como também o esquecimento da maldade praticada e sofrida?
Surpreendeu-se a responder:
— Quem vai montanha acima tem de passar, necessariamente, por muitos obstáculos. Tais obstáculos sempre representam pequenas vitórias. Quando o objetivo maior tiver sido alcançado, a felicidade da conquista não se obscurecerá pela recordação das quedas, das esfoladuras, dos espinheiros e dos ataques dos insetos e animais selvagens. Ao contrário, se houver necessidade de novas caminhadas, a experiência acumulada servirá para ajudar no aperfeiçoamento das habilidades de superação dos novos obstáculos. Não parece claro que aquele que estiver ainda no começo da aventura existencial será sempre quem fará as perguntas? Ou melhor, não concorda o amigo com que os que se acham integrados à verdade absoluta não necessitam inquirir nada dos protetores?
Foi o bastante para instigar Olímpio a avançar mata adentro. O brilho no meio da escuridão cresceu em importância, ainda porque o dia clareava e, breve, o sol estaria reinando no azul do céu.



6. OLÍMPIO SAI DO MARASMO

Caminhou fundo floresta adentro, decidido a achar o que procurava. Nada encontrou que pudesse ser o pálido reflexo de dois pares de olhos a brilhar na escuridão. Mas se viu diante de uma cidade em pleno bulício.
As pessoas sequer o notaram, tão compenetradas pareciam a cumprir as obrigações. Também ele não se pôs à vontade para conversar e informar-se a respeito da comunidade.
Pensou que toparia com indícios que evidenciariam o adiantamento daquelas criaturas, conforme lhe perpassavam pela mente as leituras espíritas, que não tinham sido poucas.
Onde estava, com certeza, era um bairro residencial, sem estabelecimentos comerciais de qualquer natureza. Andava sobre a calçada, como em qualquer cidade onde vivera. A rua era ocupada por veículos individuais ou coletivos, que transitavam silenciosos em ambas as direções, mantendo sua mão como na Terra.
Havia pequenas tendas onde descansavam as pessoas em rústicos bancos. Alguns conversavam em voz baixa, sem gestos e sem manifestações fisionômicas expressivas. Contudo, era fácil sentir que estavam bem, transmitindo vibrações de paz e confiança, como nunca fora capaz de perceber nos encarnados.
Olímpio buscou um lugar vago e sentou-se para observar. Logo as pessoas se levantaram e se dirigiram sem pressa para uma espécie de veículo elétrico, que as agasalhou e transportou. Como restassem algumas, resolveu que iria entrar no próximo coletivo, para o que verificou nos bolsos se guardavam algum dinheiro. Achou diversas moedas com desconhecidas efígies, deduzindo de imediato que serviriam para pagar a passagem.
Foi assim que entrou no que apelidou de litorina, logo descobrindo que havia impresso acima de cada porta o itinerário de ida e de volta, o que descobriu pelos pontos terminais cujos nomes se repetiam. Ficou-lhe claro que se tratava de uma espécie de circular. Como as estações eram indicadas por se acenderem algumas pequenas lâmpadas, prestou atenção nos nomes, pondo-se curioso a respeito da indicação: Ministério da Recepção e do Trabalho.
Sem atropelos, desceu no ponto desejado. Só aí deu de si com algumas moedas a menos, as quais trazia presas na mão. Misteriosamente lhe haviam cobrado a passagem, deixando-o sobremodo maravilhado.
O prédio do ministério era um edifício enorme. Não lhe foi difícil, no entanto, encontrar o departamento que lhe pareceu o mais indicado para oferecer-lhe todas as informações: Recepção aos Recém-chegados.



7. O MISTÉRIO DOS DEPARTAMENTOS

O funcionário que atendia no Departamento de Recepção aos Recém-chegados, além de muito atencioso, prontificou-se a encaminhar Olímpio ao melhor lugar da casa:
— O senhor, de algum modo, antecipou a sua chegada, enviando-nos telepaticamente informações a respeito das necessidades cármicas. Em que podemos servi-lo de imediato?
— Gostaria de observar que o nome deste Departamento não está exatamente correto, já que a recepção só se pode proporcionar a quem está chegando de fora.
— Senhor, eu não saberia como ajudá-lo nesse quesito. Sugiro-lhe que vá até o balcão do Departamento de Informações Gerais e Particulares, logo ali, bem na entrada do edifício. Lá, tenho a certeza, irão esclarecê-lo a respeito.
Como em certas repartições na Terra, o guichê foi fechado e Olímpio se viu meio inconformado com a presteza com que o recepcionista desapareceu de vista. De qualquer modo, dirigiu-se ao balcão indicado, este completamente aberto, sem janelinhas de correr.
Lá estava uma atenciosa senhora, de face lavada, com ligeiras bochechas cor-de-rosa, cor natural e saudável.
— Em que posso servi-lo?
— Gostaria de saber a razão de o Departamento de Recepção aos Recém-chegados não se denominar, simplesmente, Departamento de Recepção.
— O senhor gostaria que se fizesse a alteração?
— Não sei se...
— Pois já está feita. O nosso lema é de bem atender a todos.
A mulher falou e logo apanhou um longo tecido de lã que tricotava, pondo-se a trabalhar, sem mais palavra ou olhar para o consulente.
De si para si, Olímpio comentou:
“Será que, se eu pedisse para mudar o nome deste departamento de Departamento de Informações Gerais e Particulares para Departamento de Informações, seria atendido?”
Afastava-se mas olhou para trás dando com a mudança de nomenclatura estampada no letreiro da parede.
“Aqui as coisas são realizadas como se as pessoas se comunicassem telepaticamente. Aliás, os que conversavam esperando a condução deveriam estar agindo assim, porque não lhes ouvi som algum.”
Terminava o pensamento diante de outro letreiro modificado: Departamento de Recepção.
Lá estava o mesmo funcionário, com o mesmo sorriso, expressão muito agradável mas vazia de conteúdo emotivo. Não deu para Olímpio saber se estava o rapaz comovido de algum modo com o fato de o recém-chegado haver obtido que realizassem a sua vontade.
— Seja bem-vindo, senhor. Em que podemos servi-lo de imediato?
Olímpio prestou atenção ao de imediato, notando que fora a mesma fórmula empregada da primeira vez.
“Aqui o de imediato é realmente de imediato.”
Em voz alta:
— Gostaria de saber se a minha voz está reverberando na atmosfera deste círculo existencial ou se estou pensando e você já está interpretando a minha fala, da mesma forma que me disse haver recebido antecipadamente, por meio telepático, as informações sobre as minhas necessidades cármicas.
— Perdão, senhor, mas os problemas de comunicação se resolvem junto ao Departamento de Fonoaudiologia e Lingüística, no primeiro andar. Elevadores à esquerda.
Ia Olímpio se manifestar e já deu com a janelinha corrida.
Desta feita, resolveu bater no vidro. Logo o mesmo funcionário apareceu, solícito:
— Prezado senhor, em que poderemos atendê-lo de imediato?
Olímpio não titubeou:
— Não precisa ser de forma tão imediata. Gostaria de registrar-me para os cursos de aprendizagem da instituição.
— Perfeitamente. A sua ficha está preenchida com os dados que nos passou instintivamente, restando saber apenas se o seu nome se escreve com i e acento ou com ípsilon.
Olímpio ia perguntar se haveria alguma diferença entre uma notação gráfica e outra, porém, desconfiou a tempo que seria encaminhado a algum departamento especializado na escrita. Imaginou que haveria diversos Olímpios e outros tantos Olympios e que poderiam ser confundidos uns com os outros.
— Com i e acento.
— A matrícula está feita para o Curso de Primeiras Letras. Dirija-se ao Coordenador Luciano, no pavilhão trinta e dois, saindo pela porta principal, à direita.
Não deu tempo para informar-se sobre o programa, mas confiou em que o computador houvesse selecionado a classe em que melhor se ajustaria.



8. O PROFESSOR GAUDINO

Cumpriu Olímpio direitinho o trajeto até o edifício de número trinta e dois, lá encontrando, assim que chegou, o Coordenador Luciano, que fez as honras da casa:
— Bem-vindo, meu caro Olímpio. Vou levá-lo até a sala do Professor Gaudino.
No instante seguinte, encontraram-se diante da porta aberta de um elevador. Entraram e, sem que se apertasse nenhum botão, o mecanismo começou a deslizar lateralmente, sem ruído ou solavanco. Olímpio sentiu quando o verdadeiro caixote parou. Aberta a porta, foi recebido por um velho de longas barbas brancas, sorridente e amistoso:
— Agradeço ao Luciano tê-lo trazido até mim.
Olímpio voltou-se mas já lá não se achava o veículo que o trouxera como também o Coordenador.
— Caro Olímpio, seja bem-vindo ao Curso de Primeiras Letras.
— Muito prazer, Professor Gaudino. Responda-me, por favor, por que fui matriculado num curso tão elementar.
— Perfeitamente. Aqui você irá aprender a escrever.
— Tenho a minha instrução primária completa. Aliás, freqüentei, na Terra, os cursos médio e superior. A menos que aqui a orientação gráfica seja diferente...
Foi quando se lembrou das inscrições corrigidas e do número do pavilhão, tudo escrito com caracteres conhecidos. Então, corrigiu-se:
— Percebi que, ao menos, sei ler, caso contrário não me orientaria na litorina para descer no Ministério da Recepção e do Trabalho.
Gaudino não deu mostras de impaciência, demorando até um pouco para explicar:
— Nós não vamos obrigá-lo a aplicar-se a um currículo inútil. Como você bem lembrou, estamos no Ministério da Recepção e do Trabalho. Considera-se você recepcionado?
— Perfeitamente.
— É chegada, então, a hora de trabalhar. Vou acomodá-lo em sua carteira, mostrar-lhe os recursos para que possa escrever e solicitar-lhe que inicie a primeira letra, ou seja, a primeira manifestação escrita.
No enorme salão, dezenas de estudantes concentravam-se em suas tarefas, nenhum dando qualquer atenção ao novo colega.
O lugar designado para Olímpio constava de uma mesa, com uma tela e um teclado embutidos. A um toque do professor, a tela deu sinal de vida, aprumando-se e acendendo-se no mais puro verde-água, como Olímpio jamais vira.
— Como consta em seu dossiê, você sabe datilografar. Caso sinta alguma dificuldade, existem explicações minuciosas ao toque desta tecla especial.
Gaudino apontou para a primeira tecla à direita.
Olímpio ardia de curiosidade para a tarefa que lhe seria passada:
— Professor Gaudino, que deverei escrever?
— Você irá comentar os principais acontecimentos de sua vida à luz do Espiritismo, conforme a notícia que se contém em seu arquivo. Boa sorte.
Ao levantar os olhos do teclado, Olímpio já não mais se deparou com a fisionomia tranqüila do instrutor.



9. PRIMEIRAS IDÉIAS

“Por onde começar, meu Deus!”
Volveu Olímpio à época da fecundação. Não se recordava de absolutamente nada, nem de caráter físico, nem de origem espiritual. Mas um tema lhe bailou na cabeça:
“Como encara a doutrina espírita o ato amoroso para reprodução?”
Vasculhou a memória mas nada achou que se referisse ao evento em si. Vislumbrou pensamentos de muito respeito, considerando que o Espiritismo não poderia condenar algo de extraordinária sublimidade dentro da natureza.
“A bem da verdade — falava consigo mesmo — não posso deixar de recordar-me de certas posições filosóficas que postulei intimamente durante a vida inteira. Era a da influência do prazer sexual que meu pai proporcionava à minha mãe grávida. Sempre desejei saber se as ondas de vibração erótica me atingiam e me satisfaziam, ainda que de modo precário, ou melhor, elementar. Sei que tais reflexões não deveriam constar de minha autobiografia comentada. Pelo menos, muitas vezes me vi abominando tais intuições canhestras, incapaz sequer de discuti-las com os colegas, durante as sessões de estudos doutrinários. Será que terei suficiente discernimento para escrever isto nesta tela?”
Não havia tocado no teclado, contudo, surpreso, constatou que tudo quanto havia pensado estava redigido e codificado em linguagem inteligível, bem à sua frente.
“Espantoso, a transmissão se dá telepaticamente!”
Desejou ver escrita a derradeira exclamação, mas não houve jeito de transcrevê-la na tela.
“Parece que só o que tem relação com o tema que me foi passado é que impressiona o mecanismo diretamente. Se estou meditando sobre algo diferente, atual, sem relação com os sentimentos espíritas sob o qual devo escrever, o aparelho não registra nada eletronicamente. E se eu quiser apagar alguma coisa, será que basta repensar sobre o assunto? Vamos acionar a tecla das informações.”
Diante dele, a tela encheu-se de dizeres, em letra miudíssima. Enxergava-as perfeitamente, porém, quis vê-las maiores. Não conseguiu apenas manifestando o desejo. Passou, então, o cursor sobre todos os ícones do programa, atento para as descrições sucintas, a ver se topava com aquele que aumentava o tamanho da fonte.
Estranhou que os termos lhe vinham à mente sem qualquer correspondência com os que guardava na memória. Eram-lhe absolutamente novos, no entanto, intuía que se encaixavam rigorosamente à descrição dos objetos designados.
Nessa ocupação gastou bastante tempo, tanto que, quando percebeu, estava sozinho no salão, absorto a ponto de não ter sentido a saída dos colegas. Evocou Gaudino:
— Caro Professor, poderia auxiliar-me em minha modesta aflição?
— Perfeitamente, Olímpio, mas não agora, porque a primeira sessão se encerrou há três dias. Você não está cansado?
Ia responder que não, instintivamente, todavia, um alquebramento inesperado prostrou-o moralmente, refletindo em todo o organismo perispirítico. Sentiu que se deitava sobre o tapete, como fizera sobre a grama, e adormeceu de imediato. Desta feita, não sonhou.



10. SÓLIDA ABSTRAÇÃO

Margarida queria que o filho soubesse que estava sob proteção, livre de ser prejudicado pelos inimigos, que eram dois, como já dissemos: Venâncio e Esmeralda.
Registrou-se na mesma escola mas não lhe foi permitido inscrever-se no mesmo curso, já que possuía a consciência da própria personalidade e pertencia a um grupo bastante amplo de mútua compreensão e ajuda, com a finalidade de progredir mais rapidamente.
Foi Margarida quem propiciou a Olímpio as saudáveis visões daquele sonho tão próximo da realidade, como se pudesse existir solidez na abstração.
Tendo colocado o responsável pelo pavilhão, o Coordenador Luciano, a par desse fato, logo foi encaminhada à classe do Professor Rodolfo para redigir algo bastante concreto a respeito da representação corpórea como fator de integração universal dos seres.
— Amável amiga, nossas aulas serão ministradas em círculos de alunos interessados na conduta intelectual aplicada à caridade, para ajuda dos companheiros mais próximos, como foi o seu caso. No entanto, como o curso já se encontra adiantado, vou designá-la para redigir curto ensaio a respeito do tema, ao mesmo tempo que irá tomando conhecimento do que a turma vem produzindo.
Margarida não tugiu nem mugiu, sabedora de que receberia a tempo todas as instruções para acompanhar o desenvolvimento do filho no campo das descobertas de sua condição espiritual.



11. NOTÁVEL PROGRESSO

Olímpio acordou meio zonzo, demorando para reconhecer o local onde estava. Era um quarto pequeno, pintado de branco com janelas e porta azul-celeste. Viu-se deitado sobre alvos lençóis, como os que se lembrava vagamente de haver utilizado nos dias finais na Terra.
Esta lembrança desencadeou uma série imensa de recordações, todas envolvendo camas e quartos. Não fazia força para rememorar: os fatos se desenrolavam muito vivos, como em cinematógrafo projetado na tela da mente.
Assim que a última visão se desfez, solicitou, aéreo, que se repetissem todas as cenas, acrescidas das personagens de ocasião. Queria restabelecer os antigos vínculos afetivos, mesmo que se arriscasse a presenciar desavenças e frustrações.
Não foi atendido. Ao contrário, a jornada de estudos lhe foi violentamente assinalada, parecendo ouvir agudo despertador na voz esganiçada que repetia:
— A aula se iniciará dentro de dez minutos. A aula se iniciará dentro de nove minutos e cinqüenta e cinco segundos...
Quando abriu a porta, deu com o corredor cheio de estudantes, corrente alvoroçada em direção única. Se tentasse voltar, não conseguiria. Assim, chegou diante da porta do Professor Gaudino, por onde entrou, recepcionado pelo próprio.
— Vou aproveitar-me das impressões que retive esta manhã, começando a descrição interpretativa pela sensação de abandono no leito de minha primeira infância. Posso, Professor?
— Esteja à vontade.
Diante da máquina de escrever eletrônica, fez desfilarem as palavras e as frases, em velocidade inaudita.



12. O AVISO

Escrevendo e comentando, Olímpio pôde perceber que tinha sobremodo desenvolvida a inteligência ou, como preferiu caracterizar, a habilidade de tornar claras as idéias, fossem meras observações, fossem o registro de algum pensamento filosófico.
Uma vez que sentiu a profundidade da análise psíquica, não se importou em interpretar cada acontecimento como proveniente de falhas de caráter, cônscio de que não poderia ser o vilão descrito nas confissões, tendo em vista que estava bastante protegido, em ambiente de respeito e grandeza moral.
O fato de não correlacionar o desempenho na vida aos parentes e amigos não perturbava a serenidade com que dispunha os erros do procedimento e os defeitos da personalidade. Achou que as pessoas logo tomariam lugar na história e não se esforçou para referir-se aos pais, aos irmãos, às esposas e aos filhos.
Levou o correspondente a quinze sessões de estudos para chegar ao término dos leitos, das fronhas, dos lençóis, das colchas e dos cobertores. A diferença é que notou as saídas e entradas dos colegas, estranhando que nenhum deles ficava a lhe fazer companhia durante a noite.
Assim que deu por encerrada a tarefa que lhe fora designada por Gaudino, assinalou, junto ao título, a expressão Capítulo Primeiro, esperando que lhe dessem como atribuição o prosseguimento do relato.
Tendo chamado o professor, este foi logo advertindo para a crítica da exposição:
— Meu amigo Olímpio, não se trata de realizar uma nova tarefa. Se você não se interessar por melhorar o que escreveu, colocando mais emoção e sentimento, irá ter de visitar outras regiões menos pacíficas, onde se encontrará com seus inimigos.
— Não me lembro de haver tido inimigos. Sei que os devo ter, mas não se encontram presentes em minha memória.
— Meu filho, da mesma forma aí não se acham seus entes queridos, aqueles que velam ainda agora por seu bem-estar. Sirvam as minhas palavras de aviso.
— Mas Gaudino, você não me disse para que eu redigisse “à luz do Espiritismo”? Não acho que as apreciações de cunho científico, como sempre encarei a doutrina dos espíritos, pudessem ter qualquer valor, caso lhes desse as gargalhadas do prazer ou o pranto do sofrimento.
— Então, escreva tudo de novo à luz do ideal espírita referente às emoções.
Era de manhã bem cedo. À noite, Olímpio ainda não havia iniciado a refacção do texto. Quando todos saíram, foi com o turbilhão dos colegas.



13. COM LUCIANO

O responsável pelo pavilhão, após demorada conferência com Gaudino, resolveu procurar Olímpio para certos esclarecimentos:
— Meu amigo, inquiri de seu professor a respeito do trabalho que você desenvolveu nestas últimas duas semanas e soube que seu progresso tem sido excelente. Apesar disso, estranhei que não tenha percebido que a sua redação, além de frívola, é pretensiosa. Quer que lhe explique o significado dos adjetivos?
Olímpio, que não esperava receber impacto tão vigoroso contra sua pretensa inteligência ou habilidade de tornar claras as idéias, reagiu francamente:
— Solicitei de Gaudino autorização para desenvolver o tema dos leitos e dele recebi incondicional apoio.
— Você acha que não sei o que se passou naquele dia? O que estou reclamando é quanto ao fato de haver gastado tanto tempo, sem atinar para a fragilidade da exposição. Quer agora o direito de produzir um segundo capítulo, sem aperfeiçoar o primeiro?
— Passei o dia aflito refletindo a respeito, tanto que não consegui formular um único pensamento digno de ser anotado. Respeitei a observação de Gaudino quanto a elaborar de novo os tópicos, agora sob as emoções consideradas sob a luz do ideal espírita. No entanto...
— Por favor, Olímpio, preze a sua própria dignidade e não tergiverse comigo. Estou sendo claro na crítica que lhe faço, terminando por propor-lhe diretriz mais saudável para o despertar dos sentimentos como produtos diretos da lei de causa e efeito. Você se deixou envolver por susceptibilidades, reagindo mal ao trabalho que lhe foi proposto. Não é verdade que a sua jornada hoje não trouxe proveito algum? Tivesse escrito uma linha apenas, uma simples pergunta aflitiva a respeito de sua condição de aluno de primeiras letras, quando tanto estudou na última existência material, e nós não estaríamos trocando farpas. Vamos ver se até amanhã você pondere a respeito do que lhe disse e parta para a definição exata de suas reações emocionais, sem correr sobre a trilha da atribuição das falhas de sua...
Olímpio não ouviu os últimos dez minutos da rude apreciação de Luciano. Ao perceber que estava dispensado, buscou o leito e conciliou o sono, na esperança de que inconscientemente lhe aflorassem os problemas cuja descrição e comentário deveria ter realizado.



14. MARGARIDA APARECE

Naquela noite, pensava Olímpio estar dormindo, quando lhe bateram à porta. Instintivamente, perguntou:
— Quem é?
— Margarida.
— Não conheço.
Passaram-se cinco minutos e logo se repetiram as mesmas pancadas. Olímpio julgou que acordava e que estava na hora de voltar à classe. Mas logo atinou que estava escuro demais e que precisava saber que ruídos eram aqueles.
Mais dez minutos e novas batidas. Desta feita, Olímpio foi capaz de caracterizar bem que alguém lhe pedia para atender.
— Já vou abrir.
— Por favor.
Ao invés de levantar, moveu-se no leito e, fechando os olhos, supôs que conciliava o sono.
Após aproximadamente vinte minutos, resolveu perguntar:
— Quem está aí?
— Margarida.
— Que Margarida?
— Aquela que o trouxe no ventre na última encarnação.
— Duvido muito. Minha mãe não precisaria bater...
— Não me faça ficar esperando porque aqueles nove meses me pareceram eternos.
— Se você fosse minha mãe, não falaria desse jeito.
— Perdão, Piozinho. Será que você se esqueceu que nós brincávamos tanto durante toda a sua infância?
O termo carinhoso abalou o renitente. Só a mãe o chamou um dia por aquele hipocorístico. Tendo utilizado termo de tão remota lembrança, esqueceu-se de imediato que estava conversando com alguém e passou a matutar em que situação a palavra hipocorístico lhe chegara ao intelecto. Foram vinte e cinco minutos de silêncio, até que os sons repercutiram mais fortes dentro do quarto.
— Quem bate?
— Meu Deus...
— Não invoque o santo nome do Senhor em vão.
— Ora, meu filho, deixe de ser...
— Não me ofenda, por favor. Minha mãe não faria isso.
— Eu ia dizendo que você está fazendo-se de difícil e eu não sei por quê. Em nome da doutrina espírita que você abraçou com tanto zelo em vida, eu lhe peço que me receba.
— A porta está aberta.
Ouviram-se alguns estalidos produzidos pela força aplicada contra o ferrolho e logo a voz de fora se fez ouvir novamente:
— A porta está fechada.
— Engraçado, eu juro que não fechei.
— Não existe um trinco aí dentro?
— Nem trinco, nem tranca, nem maçaneta, nem chave. A porta deste lado é completamente lisa. Será que ela não abre para fora?
— Então, dê um empurrão.
— Se você não conseguiu abrir puxando, o que a leva a crer que eu conseguiria empurrando?
Assim se encerrou o diálogo.
Pela manhã, Olímpio estava preparado para narrar o que julgou tratar-se de um sonho. Iria acrescentar alguns comentários judiciosos para comprovar que fora visitado pela mãe enquanto dormia.



15. COMENTÁRIOS INFELIZES

Ao invés de Olímpio sentar-se à sua mesa de trabalho, passou a percorrer os estreitos corredores, observando as redações dos colegas.
Diante do seguinte texto: “Fui médium escrevente durante mais de quarenta anos, quase cinqüenta, tendo depositado nas mãos dos orientadores espirituais a mais profunda confiança...”, pediu licença ao escritor, apresentou-se e elaborou uma crítica:
— Segundo li em Kardec, você não agiu direito deixando-se embalar pelos pensamentos e sentimentos dos espíritos que lhe davam comunicação. Segundo o Codificador, sempre é preciso colocar as mensagens de molho, oferecendo-as aos amigos mais experientes para as observações de caráter doutrinário, caso contrário o médium acaba obcecado pelas emanações sutis da maldade dos perversos, sendo enganado inclusive por escrever, em meio a conceitos absolutamente coerentes com as orientações dos espíritos superiores, algumas idéias defeituosas que, certamente, induzirão a erro e facultarão processo de degenerescência da fé, da esperança e da própria caridade, pedra angular dos postulados superiores, já que, sem caridade, não existe salvação.
O amigo que recebeu a informação, imediatamente abriu outro parágrafo, iniciando-o de forma contundente:
“Vejo agora o quanto me desviei do bom caminho...”
Olímpio ficou com vontade de acrescentar outros impulsos movidos pelas intuições do momento, mas a concentração do colega levou-o a considerar que seria melhor ler trechos de outros parceiros.
Aproximou-se de uma colega e logo foi lendo, à medida que ela digitava:
“Desde pequena, tive visões estranhíssimas, todas elas envolvendo seres das trevas que me fustigavam a imaginação. Maiorzinha, logo me vinham quadros perfeitos de orgias...”
Interrompeu-a Olímpio:
— Minha querida, se me permite, não acho que deva misturar as impressões da infância com a análise obtida através do conhecimento prático da vida carnal. Se você vai referir-se às cenas observadas numa determinada idade, é de todo conveniente que descreva as reações psicológicas da ocasião. Muito provavelmente, você irá mesclar à pureza da alma infantil os anseios provocados pela sensação da culpa e do pecado. Nenhum leitor encarnado deve ser levado a pensar que as coisas que se passaram em seus tenros anos possam causar problemas emocionais, por julgar que poderiam ter sido evitados tais acontecimentos.
Sem nenhum movimento de assentimento, de agradecimento ou de aborrecimento, a companheira prosseguiu:
“... que não me estimulavam a imaginação nem me provocaram insidiosa maldade no âmbito das realizações sexuais. Somente depois de adulta, rememorando aquelas primitivas obsessões é que...”
Gaudino, ao longe, fez sinal ao curioso para que voltasse para o seu lugar. Olímpio obedeceu e logo estava redigindo as observações que fizera, para fustigar a precipitação das mudanças dos textos.
“Afinal de contas, raciocinava, sempre haveriam de entender-se os amigos após uma reflexão conjunta a respeito dos temas.”
Foi quando notou que estivera eufórico um momento antes e agora criava na mente um clima de depressão.
Alguém lhe sussurrou ao ouvido:
— Talvez essa seja a pior condição de sua psique: o transtorno bipolar da personalidade.
Procurou pela pessoa que lhe havia lido os pensamentos, não conseguindo reconhecer quem pudesse tê-lo feito. Gaudino não se achava, muito menos Luciano.
Intrigado, passou o restante do dia tentando refazer os episódios da vida em que demonstrava euforia ou tristeza. Mas não conseguiu escrever nenhum.



16. PEQUENAS LEMBRANÇAS

Recusava-se Olímpio a considerar que havia algo que não estivesse bem em sua psique. Dizia-se espírita convicto e praticante de todos os atos da benemerência, acreditando que houvesse feito tudo quanto se poderia exigir de um homem no inteiro domínio da consciência.
Tinha exata noção do quanto lhe haviam agradecido em vida as atitudes em favor do próximo. Também era capaz de reproduzir cada trecho dos quatro evangelistas, mais os comentários elaborados por Kardec nas obras da codificação espírita.
Durante a noite, requereu, em forma de prece, que Jesus lhe enviasse o poder mágico de se recuperar de todas as recaídas pessimistas. Queria desfazer o mistério da bipolaridade psíquica que lhe fora assinalada. Estranhou muito que não fosse atendido, concluindo, finalmente, que as péssimas recordações lhe dariam motivo para nova tristeza.
Foi quando ouviu distintamente uma voz sussurrante em seu ouvido:
— E por que, meu caro, as que lhe propiciariam nova alegria também não estão sendo demonstradas?
Estava escuro o quarto, como breu. Só com o pensamento, logo todo o ambiente se iluminou. Entretanto, não havia ninguém mais ali: só ele e suas crescentes preocupações.
“Deste jeito, como é que irei levantar de manhã disposto a reiniciar o trabalho de redação?”
Perguntou de forma acintosa para ver se provocava aquela voz a se manifestar. Silêncio. Absoluto silêncio. Tão intenso que deixou de ouvir a própria respiração, a mão afagando as cobertas, a cabeça a revirar sobre o travesseiro. Pensou que ensurdecera. Bateu palmas e nada. Não havia mais o campo vibratório. Pairava no vácuo.
Essa situação melindrosa se seguiu de outra: todos os objetos desapareceram, a própria luz se foi: estava completamente cego.
Começou a emitir palavras que não ouvia. Esforçou-se por reacender a luz, inutilmente. Quis colocar a mão sobre o colchão mas nada achou, como se pairasse no ar. Desejou segurar a cabeça. Nada havia naquele lugar, não sabendo se já não tivesse mais mãos ou se estava transformado apenas num feixe de vibrações.
Reviveu as leituras de Kardec em que os espíritos explicavam o corpo espiritual, a que chamaram de perispírito, e logo lhe veio à mente que diziam que alguma coisa o espírito era.
Tais pensamentos tiveram o condão de apaziguar-lhe o ânimo. O momento de pânico passou. Confiou em que Deus não desampara jamais as criaturas e considerou aqueles instantes como finitos, ainda que se passassem mil anos.
“Se não tenho corpo, também não tenho necessidade de alimento. O que preciso fazer é desenvolver o mais possível a minha complacência para com os meus defeitos, porque os tenho, visto que, se não os tivesse, estaria no paraíso.”
A idéia do Nirvana lhe perpassou pela mente mas Olímpio se recusou a considerar nula a própria personalidade:
“Ainda que me integre como um átomo no universo, mera partícula existencial, mesmo assim estou conservando intacta minha individualidade. Graças a Deus, Kardec foi induzido a reformular o conceito da ascensão dos seres a ponto de se reintegrarem no Criador. Eu me sinto eu, mais do que nunca. Eu, Euclides, Eurípides, Euricléia, Eunice...”
Não se incomodou com o fato de não se recordar do próprio nome, julgando que os que revelara nada mais eram do que outros tantos nomes de outras tantas existências terrenas.
Foi nesse estado de espírito que, de repente, se deparou observando o fervilhar de vida na crosta da Terra.



17. OUTRO PONTO DE VISTA

Olímpio ficou muito admirado de se encontrar no centro espírita junto aos antigos companheiros.
Comentavam eles o recente decesso de um dos médiuns, importante colaborador, membro da diretoria e forte defensor da doutrina de Kardec.
Dizia um:
— Sempre haveremos de distinguir os bons pela sua obra. Nesta hora, ele deve estar sendo recebido pelos protetores, que vão levá-lo a uma casa de repouso, para recuperar-se dos últimos seis meses de tortura e dor.
Observava outro:
— É verdade. Vai ser difícil substituí-lo, inclusive no Departamento de Assistência Médica, porque ele conseguia manter a farmácia sempre equipada, com todos os remédios dentro do prazo de validade.
Acrescentava um terceiro:
— Ultimamente, era sempre ele que nos transmitia os conselhos e mensagens do nosso guia e patrono. Será que alguém merece receber o mesmo privilégio?
Pensava Olímpio lá consigo:
“Devem estar falando de mim. Hoje é dia de sessão e eu posso apresentar-me para agradecer-lhes as boas referências e para atestar-lhes a minha alegria por ter trabalhado ao seu lado. São pessoas caridosas e saberão distinguir a minha personalidade, mesmo se não conseguir transmitir-lhes o meu nome. Vamos ver.”
Como não houvesse sido prevenido, achou por bem preparar-se convenientemente, redigindo a comunicação. Sem material, ordenou os pensamentos e gravou-os de maneira indelével na memória. Não queria fazer feio depois de morto, uma vez que estava sendo lembrado com tanto carinho e boa vontade.
De fato, logo os seareiros da mediunidade tomaram lugar em torno da mesa, leram trechos edificantes de duas obras de grande moralidade, oraram para que os protetores lhes propiciassem uma noitada proveitosa e abriram a sessão, insistindo para que o orientador espiritual desse a primeira informação.
Não demorou e estava alguém, na obscuridade, a realizar um discurso mais ou menos aparatoso, estimulando as virtudes e dando as razões primordiais para que os trabalhos decorressem em paz, já que havia espíritos sofredores na ordem do dia, espíritos que precisavam ser esclarecidos.
Olímpio, por mais que tentasse, não conseguiu vislumbrar sequer o vulto da espírito que estabelecera o primeiro contato. Quanto aos que foram chamados de sofredores, não estranhou não estarem dentro do seu campo de visão, já que deveriam estar envoltos em trevas.
Assim que se encerrou a peroração do primeiro orador, viu-se preso nas vibrações de um dos médiuns, que lhe deu passividade.
Percebendo que havia um espírito para manifestar-se, o dirigente da reunião instou com ele:
— Meu irmãozinho, em nome de Jesus, fale com a gente.
Olímpio mal conseguiu gaguejar:
— Estou presente, graças a Deus!
— Muito bem! Em que podemos ser úteis a você?
— Gostaria de agradecer-lhes a boa vontade para comigo.
— Seja bem-vindo. Como é seu nome?
— Olímpio.
— Olímpio, como foi que você passou para a espiritualidade?
— De forma bastante serena. Morri de doença, tendo ficado acamado por uns seis meses, mas sem sofrimento.
— E agora, onde é que você está?
— Estou tentando lembrar-me dos fatos mais importantes da minha vida.
— Mas isso é muito bom! Todos passamos por essa situação quando deixamos a carcaça na Terra. Você está bem ou necessita que oremos para que os seus protetores e familiares lhe dêem assistência?
— Hoje fiquei com muito medo, quando percebi que estava isolado nas trevas, sem onde firmar a vista nem ouvir os sons. Neste instante, recuperei essas fontes sensórias e devo dizer-lhes que fiquei bastante feliz...
Ia dizer que ouvira a conversa de antes da reunião mas foi interrompido:
— Então vou pedir ao seu anjo guardião que o leve para um local de tratamento das moléstias menos graves dos espíritos, para que você possa voltar a entender toda a extensão do poder e da misericórdia do Pai. Vá com Deus!
No instante seguinte estava desligado do médium. Um momento depois se encontrou no quarto em que ouvira aquela misteriosa voz. Assenhoreou-se do ambiente pela visão, pela audição, pelo tato e até pelo olfato. Não conseguiu, entretanto, estabelecer a crítica do que lhe sucedera, adormecendo pronta e profundamente.



18. RITMO FRENÉTICO

Uma idéia se fixou na cabeça de Olímpio: a pressuposição de que o médium falecido estaria agasalhado em casa de repouso, para ali levado por espíritos amigos, protetores e familiares. Logo deduziu:
“São as minhas imperfeições que me impedem de festejar a chegada aos campos etéreos. Se não estou na companhia dos meus é porque não fiz jus ao mais simples dos bens divinos destinados aos falecidos: o conforto de ver que estão bem através da simpatia dos que lhes têm laços afetivos.”
Não lhe foi difícil enumerar as causas mais prováveis dos defeitos: egoísmo, orgulho, inveja, ciúme, malícia, megalomania, prepotência, preguiça, gula, luxúria...
“Vou redigir as lembranças que Gaudino me determinou, relatando fatos, um ou mais, em que os vícios de procedimento se ressaltem. E vou tentar caracterizar também a repercussão dos atos de bondade no coração das pessoas.”
Os colegas passaram a vê-lo sempre atarefado, sem descanso, sem se afastar do teclado, digitando incansavelmente, atento para o resultado das narrações e descrições, imaginando como reagiriam os leitores terrenos, caso tais redações se constituíssem em mensagens transmitidas através da psicografia. Acrescentou muitos comentários, no entanto, por mais minuciosamente que se referisse aos episódios, as personagens não ganhavam nomes conhecidos nem se identificavam de maneira a despertar para a realidade vivida.
Foram dezenas de dias, meses mesmo, a dedicar-se à história dos erros e falhas humanas.
Quando deu por encerrada a parte biográfica dos aspectos mais negros, releu todos os tópicos, sentiu que não guardavam coerência entre si e propôs-se a vinculá-los uns aos outros, começando por dar-lhes rigorosa ordem cronológica.
Tão logo concluiu o trabalho, solicitou a presença do Professor Gaudino para a necessária avaliação.
— Você está verdadeiramente empenhado em cumprir a sua tarefa. Parabéns! Já li e apreciei todos os textos e posso afirmar-lhe que estão muitíssimo interessantes, particularmente as referências à obra de Kardec. Sei, contudo, que, por mais que se tenha esforçado, você não conseguiu encaixar nenhuma pessoa de suas relações mundanas, mais parecendo um livro de instruções morais, com exemplos extraídos da imaginação. Não vou pedir-lhe para refazer a obra, a qual poderá servir mais tarde para outro efeito. Apenas vou recomendar-lhe que escreva algo em que sua mãe, Dona Margarida, participe da ação. Ou será que estou pedindo muito?
Olímpio se lembrou do episódio da porta fechada e da pessoa que pedia para entrar. Quando ia referir-se ao caso, Gaudino observou:
— Muito bem! Conte esse fato mas busque indícios para comprovar que se tratou de um sonho ou não.
Olímpio não se espantou, fez um sinal de compreensão e, quando Gaudino se afastava, já se pôs a bater apressadamente nas teclas.



19. PRIMEIRA DECEPÇÃO

Nenhum insucesso provocou em Olímpio qualquer espécie de preocupação. Parecia ter total confiança em que, mais dia, menos dia, iria conseguir atingir os objetivos que lhe propôs Gaudino. Quando, entretanto, começou a narrar os acontecimentos da noite que lhe bateram à porta, atrapalhou-se, repetindo a mesma frase, inconscientemente, por mais de duzentas vezes:
“Dona Margarida bateu à minha porta e pediu-me para entrar. Dona Margarida bateu à minha porta, pedindo para entrar. Margarida, do lado de fora do quarto, quis entrar e, por isso bateu à porta travada.”
E assim por diante.
Houve um momento em que escreveu:
“Mamãe, quando eu já era adolescente, batia sempre para receber ordem para entrar em meu quarto.”
Mas esse parágrafo logo Olímpio apagou, porque lhe pareceu não combinar com o tema proposto.
Lembrou-se de que Gaudino lhe solicitara indícios de que o episódio realmente acontecera e escreveu:
“Era Dona Margarida que estava do lado de fora reclamando que a porta estava trancada. Como não achei ferrolho algum, cadeado ou simples maçaneta, ficou-me bem claro que estava acordado, como se pode comprovar indo até o meu quarto e examinando a porta.”
Recordou-se de que era preciso ele mesmo realizar o tal exame. Levantou-se do lugar e dirigiu-se ao seu aposento. Encontrou a porta fechada, a qual se abriu sob o comando do pensamento. Entrou e ali estava uma fechadura simples, com chave dependurada num gancho bem à vista.
“Ralei-me!” — foi a irônica observação que fez, ficando sem saber como explicar o texto, cuja integridade queria preservar a todo custo.
Por fim, ocorreu-lhe que poderia ter sido um sonho desses que as pessoas têm quando não estão totalmente adormecidas. O texto, porém, não pôde ser mantido e Olímpio quedou perplexo perante a completa inconsistência de sua recordação.
Resolveu apagar tudo e recomeçar, mas a sofreguidão da outra hora não se repetiu e ele ficou a matutar a respeito de outra observação ouvida de um dos médiuns:
“Era sempre ele que nos transmitia os conselhos e mensagens do nosso guia e patrono. Será que alguém merece receber o mesmo privilégio?”
Não lhe pareceu aquela a descrição mais exata de sua mediunidade:
“Será que estavam mesmo fazendo referência à minha pessoa?”
Nessa divagação passou alguns dias, quando pôde recapitular muitas situações de trabalho mediúnico em que estivera envolvido em vida.



20. MENOSPREZO CRÍTICO

Agastado consigo mesmo porque não vinha interpretando direito as determinações dos superiores e os acontecimentos antigos e novos, Olímpio desejou evitar todo e qualquer comentário a respeito dos temas sobre os quais discorria. Lembrou-se do caso dos travesseiros, dos lençóis e das cobertas e pôs-se de sobreaviso quanto a desenvolver os assuntos sem nexo com a realidade vivida como um todo.
“Tenho de considerar-me um ser universal, não alguém que tenha realizado alguns atos de bondade, no alvoroço da perfeição ou do ideal de superação do estágio intelectual e afetivo em que me encontrava. Meu pai me deu a possibilidade da vida e minha mãe a concretizou. Não me adianta o saber espírita em relação às muitas mães e outros tantos pais que tive existência afora. Preciso estabelecer um contato completo com a história da última peregrinação terrena, para poder evocar as pessoas que amei ou que pensei que tivesse amado. Com certeza, meus filhos terão doces recordações das brincadeiras em que nos envolvemos durante a infância de cada um e deverão lembrar-se de mim, ao menos para uma prece de agradecimento ao Pai, por oferecer-lhes alguém que os apoiou incondicionalmente, nos momentos de tristeza e de tragédia.”
Percebeu que estava dando asas à imaginação, porque a memória não lhe revelou nenhum fato relativo aos momentos de tristeza e de tragédia.
“Assim não vou adiantar um passo no caminho do progresso que pretendo estabelecer como meta imediata dentro desta instituição educacional. Preciso concentrar-me na lição que Gaudino me passou, ainda que descreva só impressões fugidias de uma noite sonolenta.”
Aos poucos, foi rememorando as batidas e as falas, reproduzindo-as com o máximo de fidedignidade. Não concluiu pela nebulosidade do sonho nem pela realidade tangível. Apenas asseverou que, de qualquer forma, era sua mãe quem verdadeiramente estivera presente, no caso do sonho, recordação subjetiva; no caso da realidade, presença concreta.
Como último arremesso, terminou com uma suposição arrojada:
“Caro Professor Gaudino, melhor do que eu, tenho a certeza de que o senhor poderá esclarecer a tremenda dúvida. Se for uma composição onírica, poderá falar-me a respeito dos mecanismos do meu inconsciente para a manobra através da qual me intrigou, encorajando-me para buscar entender o transtorno bipolar da minha personalidade. Se for uma desatenção da minha parte, repudiando aquela que me pôs no mundo, porque não lhe atendi ao rogo e deixei a porta fechada, poderá explicar-me o porquê de estar eu tão arredio quanto a analisar a minha vida.”



21. MÃE E FILHO SE ENCONTRAM

Nem bem terminou de redigir o texto desafiador, apareceu-lhe Gaudino. Vinha acompanhado de uma pessoa de véu na cabeça.
— Você quer que eu lhe responda à questão ou que lhe explique o mistério de seu procedimento inoperante?
— Querido professor, o que lhe for mais conveniente. Por outro lado, se não for pedir-lhe demais, dê-me ambos os esclarecimentos.
— Você seria capaz de respeitar a minha vontade?
— Não tenho feito outra coisa, muito embora o resultado de minha obediência não tenha produzido grandes obras.
— Quer saber se a sua mãe era uma sombra de sua memória ou uma presença real?
— Quero, se for possível, uma vez que não tenho recursos mentais para decifrar o enigma.
— Se a sua mãe lhe aparecesse, como você reagiria?
— Talvez lhe pedisse a bênção e a intervenção junto aos espíritos superiores para retirarem de meus olhos a venda que não me permite formular de modo preciso as poucas recordações que trago da vida.
Foi quando a figura ali presente deu um passo e retirou o véu que lhe escondia o rosto: era Margarida.
Olímpio, no entanto, demorou para compreender que estava sendo envolto em ondas de amor. Quando Margarida o apanhou pelas costas, obrigando-o a levantar-se, deu-se o reconhecimento:
— Mamãe!
— Meu filho!
Não houve beijo na mão nem rogos de interferência. Ambos se abraçaram como adultos, espíritos desenvoltos e plenos de felicidade.
Durante o longo amplexo, Olímpio viu desfilar pela memória todos os episódios da vida em que ambos estiveram juntos. Tantas foram as lembranças e as saudades que não houve meio de estancar o pranto de alegria pela reassunção do domínio de si mesmo.
Após sentirem ambos que os corações readquiriam o bater normal do equilíbrio perispirítico, desprenderam-se e recapitularam, representando a cena, o momento em que haviam, anos atrás, combinado que iriam encarnar-se como mãe e filho.
— Olímpio, você tem certeza de que será bom para seu progresso voltar ao plano físico?
— Margarida, com certeza você me propiciará um roteiro de vida que me levará à prática do bem.
— Você sabe quem é o seu pai?
— Um ser contra quem investi tantas vezes e que me persegue há tempos. Talvez seja esta a oportunidade de superarmos as nossas diferenças.
— E se vocês fracassarem? Será que algum ensinamento ambos extrairão das contendas e feridas?
— Se eu conseguir estabelecer parâmetros morais dentro de alguma religião, poderei, após a morte dele ou minha, refletir a respeito de como contornar as novas dívidas, para o que posso começar a orar desde já.
Gaudino interveio:
— Muita coisa ocorreu depois disso. A que conclusão cada um chega?
Margarida se adiantou:
— Venâncio não suportava o menino, porque dizia que era insolente. Contudo, levou de vencida a provação e proporcionou-lhe educação esmerada, financiando os estudos até o curso superior. Olímpio sempre se demonstrou agradecido, não desperdiçando os sacrifícios do pai. Hoje, se nós o consultarmos, apesar de estar encarnado, com certeza irá revelar-se menos violento, ainda mais porque o filho lhe deu total assistência nos anos finais da vida, cuidando-lhe do corpo enfermo e da alma ignorante.
Olímpio complementou:
— Somente agora é que estou recompondo a memória quanto a ser meu pai aquele mesmo que me perseguia. O fato de eu haver aceitado conviver com ele, facultando-lhe ascendência familiar, me fez mais submisso, por respeito a quem ele era e ao que ele fez por mim. Todavia, concretizar uma amizade que jamais tivemos não depende apenas de mim. Caso ele me abrace como minha mãe e me transmita a mesma sensação de amor e compreensão, não oferecerei resistência alguma a admiti-lo no círculo de meus amigos e companheiros.
Coube a Gaudino encerrar a reunião, lembrando aos dois que tinham tarefas para cumprir:
— Vocês poderão encontrar-se nos períodos de descanso. Quanto a você, Olímpio, o trabalho de redação continua com o mesmo tema, ou seja: o porquê de estar tão arredio quanto a analisar a própria vida.



22. NOVOS PROBLEMAS

Pareceu a Olímpio que o encontro com Margarida lhe despertaria as lembranças dos demais episódios da vida. Entretanto, quando buscou rememorar as alegrias que lhe proporcionaram os filhos, esbarrou com uma dificuldade inesperada: não lhe vinha à memória a figura da primeira esposa, falecida recentemente, alguns poucos anos antes dele. Sequer o nome conseguia lembrar.
Sabia que houve uma separação e que ficara muito tempo sem ver os três filhos...
“Três ou quatro? Não estou atinando com o número deles. Que mistério tremendo!”
A imaginação começou a fermentar-lhe idéias e sentimentos contrários aos postulados espíritas que seguiu com muito rigor nos últimos tempos. Quis apagar as impressões de sofrimento, afirmando que Deus é justo e que jamais lhe daria carga maior do que a suportável. Mas não alcançou sucesso e conjeturou que havia repudiado a esposa porque o traíra. Foi o modo através do qual explicou a hesitação quanto ao número de filhos:
“Com certeza, um deles não era meu.”
Desligou os aparelhos e se dirigiu para o quarto, muito antes do horário previsto.
“Vou arrumar um meio de contornar o problema. Se tivesse mais fé no poder da prece, solicitaria as explicações de Gaudino, da mesma forma que consegui fazer que trouxesse minha mãe. Mas o mesmo expediente, reconheço, seria mero abuso da boa vontade do professor. Então, vou apenas recordar todos os momentos em que estive com Margarida. Talvez acabe envolvendo-a em cenas com a minha primeira esposa. Aí não me darei ao trabalho de censurá-la, porque não tenho a certeza das causas de nossa separação.”
Começou a historiar os fatos pelo encontro de há pouco. Logo se viu nos braços dela, as lágrimas rolando fartas e espontâneas. Perpassou-lhe pela mente que poderia voltar a emocionar-se. De fato, as reminiscências lhe provocaram emoções incontidas. Em pouco tempo, estava com a cabeça enfiada no travesseiro, soluçando, agora não mais pela felicidade do encontro, mas pela dor do distanciamento que ele próprio fomentara.
Era um pesar natural para quem estava descobrindo-se muito mais imperfeito do que jamais supusera. Passou da comoção ao raciocínio frio e estabeleceu que a relação dos defeitos que registrara, egoísmo, orgulho, vaidade, ciúme, prepotência etc., ele a fizera com frieza medida, sem se deixar empolgar pelas sensações desagradáveis que deveriam tê-lo acometido.
De imediato, correspondeu tal procedimento aos ensinos hauridos na doutrina espírita, os que elegera e não os que representavam a complexidade filosófica das teses de Kardec. Viu-se praticando o bem, dando de si e do tempo disponível, distribuindo agasalhos, alimentos e dinheiro, julgando-se fiel aos princípios da moralidade cristã, sobrepondo tais atividades aos sentimentos reais pelos que lhe vinham receber as dádivas. Faltava-lhe à caridade o verdadeiro sentido do amor ao próximo.
Teria adquirido os conhecimentos espíritas por haver falhado em relação ao primeiro matrimônio?
A pergunta incomodou-o sobremodo.
Precisava a todo o custo extrair do esquecimento os episódios em que o lar estava dissolvendo-se. Precisava restabelecer os reais vínculos afetivos em relação a Esmeralda...
O nome ressoou-lhe no cérebro como uma badalada de carrilhão.
Era o início de outra pesquisa espiritual, esta provavelmente trágica e triste.
“Agora começa a fazer sentido a observação do outro dia.”



23. ESMERALDA

Como já deve o leitor ter adivinhado, a Esmeralda pertencia um dos pares de olhos brilhantes que Olímpio divisou no meio do mato. O outro era de um amigo e protetor dela, que a instruía para interessar o ex-marido em se dirigir para a colônia.
Se Olímpio soubesse disso, iria estranhar muitíssimo que aquela criatura já estivesse desejando o bem dele. Teria ele julgado que, aos males de antanho, se deveriam acrescer os praticados durante a derradeira travessia carnal.
Era o que ele começava a compor na imaginação, esperando encontrar recursos para oferecer assistência a alguém com quem mantivera afetos de amor juvenil. Sentia-se preso por liames sentimentais cuja intensidade haviam diminuído com o tempo.
“Preciso restabelecer completamente a nossa vida a dois, porque esta nebulosidade mnemônica me obriga a imaginar sucessos totalmente inverídicos. Foi assim com Margarida, não há de ser diferente em relação a Esmeralda. É de todo prudente que me abstenha de julgar os méritos ou deméritos de quem quer que seja. Mais ainda me falece o direito de estabelecer vínculos de inimizade anteriores à última encarnação, muito embora todas as experiências espíritas que adquiri, como os conhecimentos hauridos nos livros, me levem a crer que assim seja. Evidentemente, quem está em determinado nível evolutivo hoje, deve ter estado em outro mais baixo anteriormente.”
Ora, Esmeralda era aquela mesma colega cuja redação mereceu reparos, a que se referia às visões estranhíssimas de quando criança, visões que envolviam seres das trevas que lhe fustigavam a imaginação e quadros perfeitos de orgias.
Ele não a reconheceu porque não prestou atenção nela. Esmeralda guardava a fisionomia da velhice, época em que não mantiveram contato. Estava, portanto, mudada, principalmente quanto às vibrações que emitia dirigidas a Olímpio, transformação que poderia tê-lo enganado quanto à pessoa ou ao espírito com quem contendeu desde sempre.
Mas Esmeralda aprendera a ter paciência, compreendendo que Olímpio trazia enorme feixe de preconceitos espíritas, de idéias fixadas através dos transes dolorosos dos infelizes que se comunicavam no centro, quer através de sua mediunidade, quer dos demais trabalhadores da mesa. Ela mesma, levada pelo guia, estivera presente em algumas sessões, observando o trabalho do ex-marido, admirando-se do fato de que muitos dos dizeres que lhe transmitiam fossem por ele distorcidos, porque não se encaixavam rigorosamente nas características que atribuía à personalidade do ente a quem auxiliava. Era como se exercesse severa censura contra pensamentos e termos de moralidade duvidosa, corrigindo as expressões para não ofender a susceptibilidade dos companheiros e convidados.
Quando Olímpio fez o supremo esforço para recordar-se do nome dela, foi ela quem conseguiu vencer-lhe as resistências racionais, insuflando-lhe na mente o nome esquecido.
Mas foram baldas as tentativas de levar adiante o desvelamento da memória. Haveria de esperar mais um pouco, reconhecendo que era justo que a reação do amigo acarretasse mais sofrimentos, pelo cotejo com o que ocorrera relativamente a Margarida.



24. MUDANÇA

Olímpio foi procurar Gaudino em seu escritório. Entrou e foi dizendo:
— Proponho, professor, que me assista mais de perto.
— Sempre estou às suas ordens.
— Obrigado. Acontece que a sua determinação quanto a escrever a respeito de certos temas me põe na expectativa de ter de realizar algo para o que não tenho expediente.
— Posso contestar?
— Por favor.
— Em momento algum estipulamos para os alunos que realizem obras de cunho literário. Não desejamos a perfeição de pessoas sabidamente afastadas das letras. Assim sendo, qualquer redação perfaria as exigências da casa.
— Não sei onde o senhor enxergou nos meus escritos qualquer nuança de cunho literário.
— A verdade é que você é bem capaz de realizar observações judiciosas. Veja as propostas que fez para alteração dos cartazes. De qualquer modo, não se recusou a realizar o trabalho. Ao contrário, assumiu-o com total acatamento.
— Esse o meu erro maior. Eu deveria solicitar tão-só uma entrevista, exatamente como estamos fazendo agora. Aí ficaria claro desde logo que estou impedido, por alguma razão que desconheço, de me lembrar de muitos fatos da vida. Aliás, houve um momento em que fiquei completamente aéreo, como se a minha memória sequer existisse.
— Compreendo perfeitamente o seu ponto de vista. Entretanto, devo afiançar-lhe que você traria para a minha sala o mesmo que levou para o salão de estudos.
— Entretanto, permita-me dizê-lo, o senhor possui recursos e conhecimentos para trazer à minha presença qualquer um que possa oferecer-me pistas, como fez em relação à minha mãe.
— Você está dando-me poder muito maior do que tenho. Foi sua mãe quem nos procurou, tendo sido encaminhada para outra área de estudos, até que você estabeleceu como necessidade imperiosa que ela se apresentasse.
— Ótimo. Acho que descobri um meio de conversar com as pessoas que me afetaram a memória, a ponto de bloquear as evocações relativas a elas. Vou demonstrar de maneira simples o que estou pensando: existe mais alguém estudando aqui, ou trabalhando em algum departamento, para quem não tenho tido discernimento?
— A pergunta não deverá ser bem essa.
— Como assim?
— Dessa forma, poderei enganar-me, buscando antigos parceiros seus. Aí vou encontrar quem não esteja sequer sabendo de sua matrícula na escola. É preferível que você nomeie a pessoa com quem deseja contatar, para o que precisa apoiar-se em sentimentos de afeto, de reconhecimento ou de simples admiração.
— Se eu tiver restrições quanto à conduta dessa pessoa, não vou poder vê-la?
— Não podemos fomentar o ódio, a repulsa, a mera acusação.
— E se eu estiver julgando errado? Não será o caso de esclarecer-me quanto aos meus próprios raciocínios?
— Eu sei de quem se trata.
— De Esmeralda, minha primeira esposa.
— Pois ela está sentada três mesas de trabalho atrás da sua.
— Não acredito. Como é que não fui capaz de reconhecê-la?
— Esse é o enigma que precisará decifrar.
— Posso ir até ela?
— Claro que pode.
— Como o senhor sabe que não iremos desentender-nos?
— Responda você mesmo.
Olímpio hesitou um instante e logo abriu um sorriso de satisfação. Tinha compreendido a certeza do mestre:
— Se houvéssemos de nos espezinhar, ela não teria sido colocada tão perto de mim ou eu dela.
— Quase. Pense mais um pouco.
Olímpio franziu os sobrolhos e fechou o sorriso. Tentou outra explicação:
— Se houvesse problemas entre nós, as vibrações de ambos acusariam a presença incômoda do inimigo.
— Exatamente.
Olímpio abaixou a cabeça, elevou íntima prece de agradecimento ao Senhor e deixou escorrer um pranto silencioso e cativante.
No momento seguinte, alguém lhe enxugava as lágrimas com um lenço perfumado: era o mesmo aroma que de Esmeralda se exalava no dia em que a conheceu.



25. A ALMA POSTA A NU

Olímpio acordou para o momento: tinha diante de si a pequena criatura com quem contraíra matrimônio muito jovem.
— Espero, disse ele, que você não tenha ficado aborrecida com o fato de eu não tê-la reconhecido.
— Se eu estivesse com esta mesma fisionomia...
— Consegue você transformar-se...
Gaudino, que não estava gostando do rumo da conversa, interrompeu-o:
— Meus caros, depois vocês discutem o que bem desejarem. Agora, permitam que seus sentimentos se expandam, ainda que precisem de mais lenços.
Olímpio caiu de joelhos e, de cabeça baixa, disse com voz trêmula:
— Preciso pedir-lhe perdão por pensar coisas muito más a seu respeito. Em lugar de lembrar-me de nossos dias de felicidade, pus-me a farejar traições.
Com voz alterada, Esmeralda argumentou:
— É claro que estou aborrecida com as suas reações, nem poderia ser diferente, contudo, preciso afiançar-lhe que a minha preocupação não diz respeito aos seus pruridos de desconfianças, mas, sim, ao sofrimento que lhe causei no curso de nossa vida terrena. Não se trata de traição ou desrespeito. Trata-se de egoísmo e vaidade.
Gaudino pigarreou, chamando a atenção de ambos. Foi quando Olímpio ergueu os olhos e deu com a companheira já idosa, sem os encantos da moçoila com quem se casara.
Antes que dissesse qualquer coisa, Gaudino expôs, novamente, a sua inquietação:
— Vocês vão começar uma conversa de surdos, uma vez que os episódios da vida não repercutem na memória de Olímpio. É melhor que se concentrem, para projetarem as lembranças na tela imantada que irei providenciar.
De fato, logo se viram sombras fixando-se no espaço até ganharem nitidez, cores e movimento. Eram os acontecimentos da vida consolidados em uma espécie de cinematógrafo tridimensional.
Enquanto Esmeralda recuperava os fatos, Gaudino ia organizando-os de sorte que a visão de Olímpio pudesse apreender a parte corpórea exterior, sem as interferências das emoções da época retratada. Isto dava ensejo a que se lhe refizessem as lembranças, resguardando-se as vibrações íntimas para posterior análise.
Foi assim que puderam ver-se encontrando-se pela primeira vez, namorando, noivando e casando-se, sem muitas minúcias, como se todos os acontecimentos que envolveram os segredos do casal passassem pela censura da moralidade espírita adquirida por Olímpio posteriormente. Sucederam-se quatro gestações e quatro partos, encerrando-se a visão no dia em que se apertaram as mãos, desejando felicidades ao outro.
Gaudino sustou a transmissão e perguntou:
— Vocês restabeleceram os vínculos de amor e ódio?
Olímpio foi o primeiro a responder:
— É estranho que o diga, porém, na verdade, tanto o amor quanto o ódio ficaram muito arrefecidos, como se tomados de velhice e corroídos por novas ondas de sentimentos direcionados a outras pessoas.
Esmeralda adicionou:
— Esse efeito eu já havia constatado. A novidade se concentrou na calma que me envolveu, não por haver temido enfrentar o meu parceiro e sua fúria, encontrando-o sereno e apaziguado, mas por observar que meus eflúvios de contrariedade de outrora desapareceram por completo. Estando aqui há mais tempo, pude restabelecer a história de nossas relações desde tempos imemoriais. Da mesma forma que se selaram outras terríveis antipatias, as nossas diferenças se anularam. Se Olímpio precisar de mim para esclarecer as suas dúvidas, terei forças para demonstrar todas as facetas de minha personalidade enquanto esposa dele na Terra.
Gaudino fez questão de pôr as mãos delas sobre as de Olímpio, deixando-os a sós para que se entendessem.
No dia seguinte, Esmeralda transferiu-se para outro curso, prometendo ao ex-marido que lhe daria atenção sempre que solicitasse.



26. OLÍMPIO SE RECOMPÕE

Vendo-se no quarto, Olímpio pôs-se a refletir sobre os sucessos do dia, mui especialmente no que havia confabulado a sós com Esmeralda. Impressionado com a facilidade de raciocínio da amiga, desejou testar-se quanto à inteligência, buscando afastar completamente qualquer influência sentimental ou emotiva.
“Preciso estabelecer como regra que o progresso espiritual advém da compreensão das causas e efeitos dos fatos, extraindo as lições que corrigirão os vezos das reações desajustadas relativamente ao procedimento cristão. Por exemplo, Esmeralda apagou completamente as impressões infantis e juvenis dos jogos sexuais, dando por encerrado esse episódio da vida carnal. Se voltar a viver no planeta, dificilmente se deixará embalar de novo por tais anseios inconscientes.”
A partir desse dado, que considerou axiomático, Olímpio estabeleceu como princípio que todos os malfeitos que sofreu ou que praticou, na derradeira encarnação ou nas anteriores, deveriam quedar totalmente esquecidos, por terem sido superados pelas ações contrárias estabelecidas como virtudes irreversíveis: o perdão, o auxílio direto ou através das preces, o entendimento das ações segundo o ponto de vista dos seres mais adiantados, em suma, o conhecimento haurido nos ensinos de Jesus, apoiados nos comentários de Kardec.
“Foi Jesus quem disse a Pilatos que, se o seu reino fosse do mundo em que habitava, seus ministros iriam arrebatá-lo das mãos dos algozes . A partir da assertiva de que era rei em outra dimensão existencial, cumpriu a sentença que lhe foi proferida no tribunal, sem deixar-se afetar pelas dores físicas e sofrimentos morais. Esse o exemplo excelso a ser seguido, ainda que por pessoa sem nenhuma expressão social, imolada no altar da impiedade, da injustiça, da violência.”
Temeu, então, que viesse a ser desafiado de novo a encarnar-se para suportar, glorioso, a fúria de novos adversários. Mas aprumou-se logo, considerando:
“Enquanto não estiver seguro de mim mesmo e de meus méritos, é evidente que terei de volver ao plano da realidade terrena, como, de resto, o próprio Kardec repetidamente disse que o faria. Enquanto julgar as reencarnações como recursos de expiação, ainda terei de enfrentar o mundo muitas vezes. Quando admitir de coração leve que devo renascer na carne para tornar-me mero coadjuvante da vida de seres amados, aí poderei reivindicar, sem medo de ser repudiado, o magnífico encargo de protetor no campo etéreo.”
Foi nesse exato momento que recobrou completamente a memória. Passou em revista todas as fases da vida, cada pequenino erro de interpretação, cada mínima decisão de melhorar-se, admirando-se muitíssimo de que nada o afetava emotivamente. Concluiu, antes de adormecer em paz consigo mesmo e com o universo:
“Com certeza, o papel de meus protetores foi o de bloquear-me as lembranças ruins, para que não sofresse pela segunda vez a mesma angústia. Agora, quando já consigo ficar tranqüilo a analisar as causas e efeitos das minhas falhas de caráter, não me importa recordar ou não os fatos da vida. Apenas devo admitir que os conhecimentos perecíveis a respeito das pessoas a quem devo algo podem ser úteis para as decisões que envolverão os trabalhos próprios do socorro fraterno pelos quais deverei responsabilizar-me.”
Tendo julgado que estava chegando o momento de reintegrar-se ao grupo de espíritos familiares, elevou prece de sentido agradecimento ao Pai, vibrando de forma como não se lembrava de jamais tê-lo feito:
“Pai, muito obrigado pelo amor que fui capaz de sentir em minha natureza divina.”



EPÍLOGO

Cumpri a obrigação de relatar tudo quanto me sucedeu na derradeira transição entre a vida terrena e a existência na espiritualidade. Naturalmente, desejoso de tornar o mais verossímeis possível as reações psíquicas, deixei de fornecer várias explicações que só obtive após aquela prece.
Guardando a ordem dos acontecimentos, devo dizer que, quando acordei, me vi envolto em espessa neblina de suave luminosidade esbranquiçada, caminhando lenta e seguramente na direção de um foco de luz que divisava ao fundo.
Ao mesmo tempo, ouvia um cântico entoado por magnífico coral, distinguindo completamente os dizeres, que mais não eram senão louvores ao Senhor.
Logo percebi que me acompanhava em silêncio um ser trajando longas vestes, irradiando vibrações que me confortavam. Um pensamento assenhoreou-se de mim:
“Não me lembro jamais de haver sido recebido com tanta deferência e carinho ao retornar de cada jornada terrestre. Com certeza, estou sendo encaminhado para local de restauração perispiritual, onde poderei receber as lições mais prementes para meu pleno despertar.”
Era um convite para a emoção e não pus resistência ao tremor que sentia em todo o ser. Estava felicíssimo e tal sensação só poderia constituir-se em verdadeiro agradecimento pelos dons de que me sentia dotado.
Em breve, dissipou-se a névoa e me vi rodeado de muitos espíritos conhecidos, que se regozijavam comigo, abraçando-me e cumprimentando-me entusiasticamente. A cada nova criatura, um banho de sensações agradabilíssimas, o que me alheava de mim mesmo para a festa dos reencontros.
Foram milhares de congratulações, às quais correspondi como melhor me parecia, sempre suspeitando de que estava sendo elogiado sem razão. As impressões dos últimos tempos reduziram muito a alta consideração com que havia aportado aqui. Não se tratava de modéstia ou de humildade, mas de firme convicção. No entanto, aceitei de boa mente as vibrações de afeto e reverência, imaginando como é que iria esclarecer os mal-entendidos.
A solução que meu querido guia e protetor mais tarde me daria foi a recomendação de escrever uma autobiografia autêntica, o que estou terminando agora.
Antes de encerrar, porém, devo aliviar as preocupações que o meu texto poderá causar aos amigos dirigentes ou trabalhadores da seara espírita, afiançando-lhes que a minha perturbação, que me representou tão longa e dolorosa, não transcorreu por muito mais do que uma semana de meditação, naquela escola que a minha imaginação criou e que os amigos que me assistiam transformaram em edifício quase concreto para minha sensibilidade ainda muito próxima dos sentidos do corpo.
Também devo afirmar que não existem dois casos idênticos nos anais das passagens do plano material para o espiritual. Cada caso é um caso e cada pessoa irá resgatar seu sentido da realidade etérea, conforme haja procedido no mundo. As transições, deixo claro, são sempre acompanhadas por parceiros de maior magnitude moral, quando se trata de gente de boa índole. Quanto aos maus espíritos, não cabe aqui documentar os sofrimentos que lhes irão causar os infelizes envoltos por sentimentos de rancor.
Não irei, por isso mesmo, justificar alguns tópicos, porque nem eu mesmo decifrei seus significados, como no caso do longo texto em que descrevi camas, lençóis, fronhas e travesseiros. Deixo a solução de tais problemas para os estudiosos da doutrina espírita.
Posso, contudo, adiantar que muitos quadros se desenharam por causa de certas fixações milenares, como tudo quanto se passou comigo relativamente ao lugar atapetado de relva, onde pensei haver adormecido.
Há uma última explicação necessária: a viagem astral que realizei ao centro espírita. Fui para lá levado em estado inconsciente por meus protetores e tudo quanto ouvi e falei fez parte da realidade terrena. Levaram-me a uma sessão mediúnica, para que pudesse refletir sobre o meu estágio mental. Valeu!
Espero que as lacunas deste narrado sejam compreensíveis e louvo os nossos orientadores, particularmente o Professor Afonso, e os colegas do Grupo das Ações Pertinentes, pela honra de poder transmitir esta minha mensagem aos encarnados, na esperança de prestar-lhes um pequenino serviço.
Deus os abençoe a todos!


Indaiatuba, de 03.10 a 13.11.02.
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