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Erótico-->12. A AULA -- 19/11/2003 - 08:22 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Ao contrário da sisudez com que iniciara a primeira palestra, esta segunda começava com uma recepção muitíssimo calorosa da parte do raia miúda, que aguardava a presença do mestre com carinho insuspeito. Rostos sorridentes e expressões joviais marcaram a entrada de Adonias, como se estivesse diante de velhos amigos.

Pôs-se ele no estrado central, notando que a paisagem pintada em toda à volta do anfiteatro ganhava vida, com o mar quebrando em ondas na praia e as palmeiras a farfalharem graciosamente suas longas folhas verdes denteadas. Do outro lado, pela avenida, o trânsito dos automóveis e outros veículos, podendo distinguir grande movimento de pessoas nas calçadas, não faltando, em vários peitoris das janelas dos altos edifícios, aqui e ali, pessoas a espreitarem a paisagem.

O orador sentiu-se em casa, exatamente como na época em que subia nas mesas ou nos bancos da orla marítima, para perorar sobre um povo ralo e desocupado.

Aí provocou os alunos:

— Sou eu ou é verdade que estamos sendo iludidos por uma paisagem tão sedutora e tranqüila?

Foi Renato quem lhe respondeu:

— Por força de sua imaginação, para nós todos, os desenhos e pinturas das paredes ganham a mesma vida, de modo que a nossa ilusão é perfeita. Aliás, caríssimo Adonias, nós lhe agradecemos por esse conforto moral, já que esse fato está a nos demonstrar que o amigo deseja passar-nos subidos conhecimentos na área em que se distingue. Obrigado, em nome da classe.

Adonias agradeceu com um sorriso maravilhado e desejou começar a expor o tema. Para tanto, necessitava saber se a classe estava interessada e determinou:

— Escrevam uma nota de zero a dez para o interesse que lhes provocou o assunto de que vamos tratar.

Em segundos, saiu a média ponderada: dez redondos.

Adonias ficou estupefato:

— Isto significa que vocês devem ter preparado a matéria, lendo as três passagens correspondentes ao episódio das tentações de Jesus, pois não? Sim ou não?

De novo houve unanimidade quanto às respostas de caráter positivo.

O professor exultava de alegria e não se fez de rogado, começando a exposição:

— Jesus, com certeza, não se proclamou, ele mesmo, superior à entidade que o tentava. Quem teria presenciado a cena e feito o relato para que os evangelistas registrassem?

A platéia não estava esperando semelhante abertura. Houve um momento de hesitação, até que dez alunos solicitaram permissão para expor seus pensamentos. Adonias escolheu um ao acaso, dentre os que não conhecia pessoalmente:

— Fale você, Miguel.

O indigitado levantou-se para manifestar-se, mas Adonias fez-lhe um gesto para que se sentasse. Miguel sentou-se e se expressou assim:

— Eu penso que os livros sagrados escondem muitos mistérios, principalmente entre as curas, os milagres e as profecias. Acho também que a vida de Jesus foi floreada e que nem tudo ocorreu conforme está narrado. No entanto, posso imaginar que as obras dos evangelistas também possuem inspiração mediúnica, de forma que é bem possível que o episódio em tela tenha sido passado a um dos historiadores da vida de Jesus (não precisa ser nenhum destes três) por um dos anjos que atenderam o Mestre Nazareno, anjo que tudo contemplou, inclusive, para aprender como é que se deve tratar com os irmãozinhos com débitos maiores que os nossos. Se a minha hipótese for viável, queda apenas como possibilidade a ser confirmada mais tarde, quando nos encontrarmos na presença desses seres quase perfeitos, mas que não se equiparavam nem devem equiparar-se a Jesus em adiantamento. Diga, Professor, se não existe um fundo de lógica, pelo menos, em minhas observações.

Adonias, deveras surpreendido pelo aluno, havia acompanhado a digressão com interesse, porque a idéia trazia aos evangelhos um novo argumento de santidade e de luz. Mas precisava responder ao aluno e o fez nos seguintes termos:

— Garanto, meu caro, que imaginei várias soluções para o caso, nenhuma, contudo, que justificasse com tanta naturalidade a postura ideal de Jesus, retirando-lhe a enfatuada possibilidade de haver ele mesmo disposto a narrativa de modo a sobrepujar um espírito coitadinho e infeliz.

Em seguida, para não perder o exercício que realizara a respeito da origem do texto, evidenciou as suas próprias sugestões e concluiu:

— Prescindo de ouvir os demais alunos e afirmo, peremptório, que todas as nossas conjecturas cairão por terra diante da verdade exposta por alguém que haja presenciado a ocorrência do fato, a partir do plano da espiritualidade concernente ao adiantamento desse espírito de luz. Mas ouso colocar um óbice nesse raciocínio, qual seja, o de que esse irmão se adianta numa velocidade tal que deve encontrar-se em esferas superiores bem mais elevadas do que a que se encontrava nos tempos de Jesus. Sendo assim, ao chegarmos o mais próximo possível dele, com toda a certeza este problema, que tanto nos está envolvendo agora, tenha virado fumaça pela importância crescente das condições existenciais que iremos perlustrando em mundos cada vez mais puros. Por outro lado, imaginemos que essa suposta testemunha se inteire de nosso interesse e nos envie uma resposta que só poderemos receber intuitivamente. Não haverá um problema sério quanto a interpretarmos a origem superior das informações? Mesmo que se reproduzam as cenas históricas de Jesus sendo conduzido pelo diabo, ainda assim, não lhes parece possível que se trate de uma ilusão que nós mesmos somos capazes de produzir, haja vista a atividade cinemática da paisagem ao nosso derredor?

Adonias fez uma pausa, a ver se a sua tela pipocava com manifestações impacientes. Ela, porém, estava absolutamente serena e as requisições, ausentes.

O expositor, então, prosseguiu:

— Alguém consegue admitir que Jesus tenha sido transportado de um lado para outro pelo diabo?

Dessa feita, mais de oitenta discípulos pediram para falar. De novo, Adonias escolheu um dos que não conhecia:

— Fale você, André.

Do fundo da sala veio uma vozinha meio apagada que exigiu até que as ondas sofreassem seus ímpetos, o vento abrandasse e o povo das calçadas e dos veículos suspendessem sua distante sonoplastia:

— Bom Mestre...

Adonias desconfiou que houvesse uma provocação, relembrou a observação de Jesus dizendo que só o Pai que está nos céus pode ser chamado de “bom”, mas não interferiu. André prosseguia:

— ... tenho para comigo que a sua hipótese fundamentada em Kardec seja a mais consentânea com a realidade, ou seja, que uma parábola de Jesus tenha sido transformada em episódio de sua existência corpórea. Modestamente, contudo, acho que a sua informação de que as três tentações tivessem sido pouco coerentes com a argúcia que se atribui ao demo da mitologia não é, do mesmo modo, suficientemente elástica para a compreensão da realidade psíquica do ser verdadeiro que não passaria de um mero espírito presunçoso, chefe de uma gangue, desejoso de aumentar seu prestígio dentro de seu ambiente perverso. Mas Jesus tinha luz suficiente para perceber que, no futuro, alguém poderia extrair uma lição magnífica desse incidente, ao conceber uma estrutura de valor moral e religioso, o que lhe permitiu deixar-se conduzir por aquele ser inferior, caso não tenha sido o Mestre mesmo quem haja levado o outro aos pontos por este assinalados. Sei que existe sempre a possibilidade de a pessoa, à vista de um desafio, optar por ignorá-lo, como você (permita-me o tratamento coloquial) o fez quando o chamei de “bom mestre”, perdendo, no entanto, a oportunidade de reproduzir mais um entrecho didático que se encontra nos Evangelhos. Peço-lhe que me desculpe a observação, mas que outra coisa o professor e os colegas poderiam esperar deste pequenino ser das trevas, a que um evangelista sequer se dignaria chamar de demônio, pobre diabo que sou?!

A classe aplaudiu a demonstração de modéstia inteligente do colega e o professor se viu na necessidade, alegre e satisfeito, de se regozijar por possuir, mais do que um discípulo, um verdadeiro colaborador para sua aula. Mas tinha de responder, dando seqüência à programação:

— Meu preclaro André, pobres diabos todos somos, na verdade, ou não estaríamos fazendo conjecturas a respeito das circunstâncias materiais em que teria ocorrido o entrecho histórico, ou não, dessa passagem bíblica. O que importa considerar, de fato, é o princípio que, parece-me, ficou estabelecido de que, tal como na nossa existência particular, os casos antigos vão ficando naturalmente esquecidos pelo acúmulo de outras vivências sempre mais depuradas no campo da moralidade. Sabem o que isso significa? Significa que a humanidade vai evoluindo aos trancos e barrancos, enquanto nós, na erraticidade, temos o conforto de ver o gênero humano às voltas com problemas muito específicos, sobre os quais pairamos, tanto que, ainda hoje, a demonologia sobrevive na Terra como teoria e como dogma de fé dentro dos conceitos de algumas das principais religiões, ao passo que o povo deste nosso círculo etéreo tem o poder de distinguir, com maior amplitude e profundidade, quem são esses tremendos e assustadores irmãos das Trevas.

André pediu a palavra e Adonias concedeu:

— Vejo que o nosso querido mestre está a contestar-me, no sentido de que errei completamente em nos considerar assim tão pobres diabos. Talvez diabos, mas não tão pobres...

Adonias considerou a facécia procedente, categorizou-a entre as que poderiam dar azo a conclusões adequadas ao plano de sua aula, mas não atinou como se aproveitaria da oportunidade. Resolveu partilhar do contentamento geral e deu àquele hiato uma utilidade real, para a proposição de outro problema:

— Vamos analisar as três lições de Jesus. A primeira, permitam-me reproduzir o texto de Mateus, consiste em: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” Onde se encontram as palavras que saíram da boca de Deus?

A turma como que levou um choque, tanto que se manteve paralisada, sem que ninguém ousasse responder, como que aguardando que a lição brotasse por inteiro dos conhecimentos do ex-sacerdote. Pareceu a Adonias sentir um frêmito de ligeira angústia, como se o auditório estivesse suspenso numa explicação meramente retórica, pela perspectiva de uma vida dedicada à aceitação incondicional dos textos do judaísmo, considerados sagrados ainda pelas religiões cristãs, em geral. Então, encaminhou os raciocínios:

— Para quem se lembra dos sermões fundamentados nos textos do Velho Testamento, constantemente nos deparamos com citações em que Deus é colocado na condição de orador, conversando com Moisés, por exemplo, ou falando pela voz dos profetas. Digamos que Jesus tenha feito referência a esses textos, mesmo porque, antes de dizer o que reproduzi, está lá registrado em Mateus: “Está escrito.” Ou não está escrito? Claro que está. E onde poderia estar escrito? Nos textos básicos utilizados pelos judeus. Isto é óbvio. Mas eu sinto uma espécie de terror sagrado nos corações de meus amigos, como se eu fora exigir de vocês que me repetissem todas as passagens em que Deus se manifesta, para configurar aquela em que o Criador teria asseverado que “nem só de pão viverá o homem”. Lê-se em “Deuteronômio” (VIII: 3): “Ele o humilhou, e o deixou ter fome, e o sustentou com o maná, que você não conhecia, nem seus pais o conheciam, para lhe dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem.” Claro está que nós nos rejubilamos quando nos dirigimos ao refeitório, porque sempre existe um prazer em nos alimentarmos, ainda que muitos se satisfaçam com uma dose mínima de nutrientes energéticos. Mas não é verdade que são esses que mais prazer sentem, porque estão desligando-se da necessidade de colher sensações para se abastecerem apenas de sentimentos e de pensamentos? Peço-lhes perdão se as minhas palavras não repercutirem em seus intelectos, mas a verdade é que, cada vez mais, viveremos apenas “da palavra que sai da boca de Deus”. Vou transformar a minha questão: Se Deus verdadeiramente proferisse palavras ou nos enviasse para cá, no etéreo, vibrações adequadas ao nosso grau de percepção, que ouviríamos dele?

Desta feita uma verdadeira onda de comunicações telepáticas assenhoreou-se do anfiteatro, num cruzar de perguntas, de exclamações, de ansiedades, de dúvidas, de assertivas, de pasmos, de assombros e de quanto sentimento de adesão ao tópico era concebível num grupo de cem entidades altamente interessadas na solução daquele problema.

Adonias considerou que o momento era oportuno para um amplo elogio:

— Peço a sua atenção, por favor, para uma observação pessoal, íntima, de minha parte, uma forma de confissão ao reverso, porque me encontro a mais não poder satisfeito com o desempenho da classe. Talvez a gente nem chegue a discutir todos os itens do programa, mas, se vocês forem capazes de manter esse entusiasmo aceso, se tiverem como transferir os poucos conhecimentos que se estabeleceram nesta palestra, se exercerem o seu direito ao processo intelectual da generalização, para o que deverão ler ou reler a Bíblia, com este mesmo espírito de análise e de síntese, certamente haverão de deixar para trás os preconceitos, cumprindo, integralmente, o conselho de Kardec quando nos prevenia quanto a não aceitarmos de olhos fechados os dogmas mais absurdos, notando que muitos deles teriam bases estabelecidas em épocas da humanidade em que a compreensão dos temas se fazia com muita dificuldade. Sei que muitos de vocês estão propensos a considerar apenas os ensinamentos úteis e definitivos para a nossa condição de desencarnados. Muito bem, mas não rejeitem “in totum” os aspectos mais rústicos das sagradas escrituras, aqueles que servem aos mortais de pedra de tropeço, de escândalo, porque talvez vocês possam precisar desses conhecimentos num retorno forçoso e necessário ao mundo denso da matéria. Restrinjo a questão específica para que vocês não se percam nas discussões da próxima reunião e deixo no ar a seguinte pergunta: O decálogo de Moisés foi Deus quem escreveu? E mais esta: Qual foi a conclusão de Kardec a respeito? Vão dizer-me que o tema espírita está longe das lições a respeito dos Evangelhos que prometi? Então saibam que a resposta se encontra em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, desse autor. Fiquem com Deus! Para tanto, ouçamos a prece de encerramento da reunião pelo nosso querido irmãozinho, Narciso. Por favor, Narciso.

Adonias cumpria o que planejara, ou seja, escolhia ao acaso o discípulo encarregado da prece. Mas Narciso acedeu e com muito gosto elevou o pensamento a Jesus, agradecendo-lhe a paciência para com um pugilo de seres inferiores que pretendiam ingressar em mente tão luminosa, pediu-lhe permissão para utilizar-se da prece que legou à humanidade e encerrou, não sem antes evocar os guardiães para que assistissem a seus pupilos quando se dedicassem a responder ao professor.
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