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Erótico-->1. SINTOMAS DA PERFEIÇÃO -- 29/11/2003 - 09:01 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Recebi o seu recado numa sexta-feira à tarde, quase à noitinha. Não dava mais tempo de providenciar a minha ida ao banco para a retirada da quantia necessária para resgate de sua dívida com os traficantes.

Evidentemente, não tolerariam receber um cheque, que lhes traria algumas complicações imediatas. Precisavam de dinheiro vivo, porque os negócios são assim que são feitos no submundo do crime.

Anulei a possibilidade de que algo pudesse ocorrer de mau para o meu filho, mas, assim mesmo, envidei alguns esforços junto ao telefone, até que encontrei um amigo comerciante que não havia depositado a féria do dia e que se prontificou a trocar o meu cheque.

Antes de sair, telefonei para o meu filho e lhe expliquei que o dinheiro estava sendo providenciado. Que esperassem umas duas ou três horas, no máximo.

— Pai, eles estão impacientes. Querem o dinheiro em meia hora. Por favor, estou refém dessa quantia...

Desligou ou desligaram e não mais ouvi a voz dele na vida.

Quando a polícia me chamou para reconhecer o corpo, ainda estava com o dinheiro no bolso, uns míseros três mil reais, valor da vida do meu rebento de vinte e três anos. Não deu sequer para um enterro condigno do nome de meus ancestrais, maculado pela primeira vez.

A mãe nem ficou sabendo do assassinato. Dois meses depois, apareceu com um lenço aos olhos, perguntando, perguntando, perguntando, com ares de quem me responsabilizava, embora não o fizesse diretamente por respeitar meus sentimentos, que sabia abalados profundamente.

Levou alguns pertences miúdos que encontrou numa gaveta. As roupas já haviam sido doadas e alguns objetos de maior valor também. Comigo ficou o relógio, que fiz questão de acertar com a hora em que recebi o maldito telefonema, deixando-o desprovido de bateria, para não alterar o horário.

No centro espírita, o pessoal passou a me ver com olhos diferentes. Antes, lastimavam que tivesse ficado sozinho, abandonado pela esposa, devendo cuidar de um rapaz sabidamente desequilibrado. Agora, as vistas eram como que a sombra que se carrega atrás de si, que a gente sabe que lá estão e com que não se importa quando se encontram à nossa frente.

Os meus amigos médiuns perguntaram-me se me interessava por um contato especial, glória das comunicações pessoais dos seres melhor dotados de energias e virtudes, consolo divino aos que necessitam arrefecer o desespero, pela via perigosa das notícias que terminam por ser a apoteose de uma existência e que mais não deveriam significar do que um contato comum entre duas existências de distintas naturezas.

Sabia das dificuldades que meu filho acharia no etéreo, tão poucos gestos tivera em favor dos semelhantes que pudessem caracterizar-se como de verdadeiro amor fraterno. Ao contrário, até a cominação da pena de morte de que foi alvo, de certo ponto de vista da lealdade entre os homens, poderia justificar-se, uma vez que lesara os fornecedores, esperando sair-se bem num negócio de mais amplas proporções. Em suma, não era flor que se cheirasse e eu não nutria ilusões a respeito de ter recebido qualquer tratamento energético capaz de despertá-lo para um exame de consciência lúcido, quanto à determinação de uma visão do futuro que contivesse algo como que o perdão aos seus algozes.

Estou dispondo as palavras de forma muito condizentes com uma alma confiante na justiça e na misericórdia de Deus, porque esses acontecimentos já repousam em minha memória.

Ontem, recebi, durante a sessão em que doutrinamos obsessores, a visita de meu filho ou de alguém que falava em nome dele, agradecendo-me as preces que nunca lhe deixei faltar, afirmando que havia recebido ajuda de meu pai e que estava tendo a assistência de uma equipe de médicos ou algo assim, porque precisar não sabia de quem se tratava.

Graças a Deus!

Estou impregnando nesta página de meu diário um pouquinho de louvor ao Pai pela graça que me concedeu, podendo afirmar, porque sei que o único leitor destas frases serei eu mesmo, que, se me for dada inspiração, irei, agora que se completou um mês depois de minha aposentadoria, prosseguir redigindo outras notícias como a de hoje, quem sabe terminando, dentro de alguns anos, por constituir-se num volume digno de ir ao prelo.

Eis que, finalmente, esclareço o título, porque, se não contiverem estes dizeres alguns “sintomas de perfeição”, não terão valido a tinta nem as lágrimas que derramei.



(1) Esclarecimento necessário. Nem precisamos dizer que o texto é obra de ficção e que pretendemos, realmente, trazer algo nesse mesmo sentido, como se fossem páginas de recordações, sempre misturando sentimentos de perplexidade com as emoções do dia, porque os seres humanos transitam pela Terra, pensando, pensando, pensando...

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