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Textos_Religiosos-->O FUTURO A DEUS PERTENCE (romance mediúnico) -- 03/03/2005 - 05:27 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER













O FUTURO A DEUS PERTENCE
(ROMANCE MEDIÚNICO)
































ÍNDICE


Abrindo o último volume .........................
1. O drama de Laura ................................
2. Laços que se afrouxam ...........................
3. Renildo .........................................
4. A explicação de Rosinha .........................
5. O dia seguinte ..................................
6. Renildo em ação .................................
7. Arnaldo se entende com Renildo ..................
8. Luto na família .................................
9. Situação embaraçosa .............................
10. Em Salvador .....................................
11. O testamento ....................................
12. Mistérios não solucionados ......................
13. Rosinha se inteira da verdade ...................
14. Laura na casa dos pais ..........................
15. André ...........................................
16. Entre marido e mulher ...........................
17. Rosinha volta ao Brasil .........................
18. Do outro lado do Atlântico ......................
19. Derradeiros acontecimentos ......................



ABRINDO O ÚLTIMO VOLUME

Não ficaríamos satisfeitos se não déssemos continuação à história de Teotônio e Rosinha, até a realização dos planos de suas encarnações.
Antes de entrarmos no enredo propriamente dito, precisamos registrar que se uniram as nossas duas turmas, a que ditou Jovens Espíritas com a de Teo e Rosi, sempre sob a segura orientação e estímulo do Professor Epaminondas.
O mundo ficcional se mantém o mesmo, deflagrando-se alguns dramas novos, mercê dos acontecimentos que naturalmente se desencadearão mediante as características psicológicas das personagens. Ainda mais, neste volume final da trilogia, aumentam as complicações e ampliam-se as responsabilidades.

Deixamos Teotônio, Rosinha, Jacira, a filhinha do casal, e Dona Flávia, mãe de Rosinha, na Europa. Teotônio levou para lá também o mordomo James, a quem se afeiçoara, confiando todo o serviço da casa, desde a intendência até a supervisão do desempenho dos empregados. Encerramos o segundo volume consignando o amplo sucesso do craque, tanto que mereceu o prêmio de melhor do ano atribuído pela federação desportiva internacional.
Nessa situação, ficariam morando confortavelmente numa mansão, durante os próximos três anos. Sendo assim, ao retomarmos as peripécias do entrecho, Teotônio se encontrava com vinte e um anos, Rosinha, com um a menos, Jacira com quase quatro e Renato, o caçula, que Rosinha fez questão de que nascesse no Brasil, com um ano e meio.
Como hão de estar lembrados, o nome Renato era homenagem que a mãe prestava ao irmão assassinado, crime que, apesar de todas as investigações levadas a cabo pela polícia, pelos jornalistas e até por Teotônio, que efetuou várias diligências, não ficara esclarecido.
Quem finalmente acabou por ter sido descoberto, sem conseqüências, foi o autor das ameaças que sofreu Teotônio por suas investigações e que lhe ligara um dia, para demonstrar que lhe poderia ter matado o pai, o sargento Arnaldo, e que o não fizera para não pôr a sofrer, como disse ele, quem nos dá tanta alegria. De qualquer modo, Arnaldo se encontrava entrevado, vítima de derrame, sendo cuidado pela esposa, Dona Vilma.
Naqueles três anos, Wilsinho, irmão de Teotônio, consecutivamente, passou a titular da seleção brasileira Sub-15, integrou a equipe principal do clube e foi chamado a servir a seleção Sub-17. Vamos surpreendê-lo justamente na hora em que estreava na equipe principal, como zagueiro, posição para a qual era demasiado jovem, dificuldade que suplantava com seu físico privilegiado e sua técnica apurada.
No campo das atividades espíritas, Teotônio manteve as contribuições para muitas entidades beneficentes, aumentando, a cada ano, o valor delas. Quanto aos estudos da doutrina, como lhe afiançara Renildo, seu empresário, tivera muito mais tempo para dedicar-se a eles, terminando a leitura das obras de Allan Kardec, cujos conteúdos discutia em casa com grupo de filiados ao centro espírita da cidade, centro que Teotônio ajudou a prosperar com generosas dádivas financeiras.
Quanto às demais personagens, devemos avisar que Laura, prima de Rosinha, que tivera um filho com o narcotraficante André, Andrezinho, acrescentou mais uma criança à família, José, produto da visita íntima que quinzenalmente fazia ao namorado no presídio. Como resultado de seus atos, Artur e Esmeralda afastaram-se de vez da filha, apegados, embora, ao neto mais velho, cuja saudade curtiam em magoado silêncio.
O Padre Fulgêncio, por sua simpatia para com as idéias espíritas, foi advertido pelo bispo, a quem prometeu ampliar o número dos paroquianos, à vista das polpudas contribuições de Teotônio, o que lhe manteve a liberdade de continuar encaminhando ao Centro Espírita dirigido pelo velho amigo Vieira, todas as pessoas que visse necessitadas de esclarecimentos quanto à vida de além-túmulo.
O Professor Ernesto, mentor espiritual de Teotônio, doutorou-se em Filosofia, deixou a cadeira de que era titular no ensino secundário oficial, lecionando ainda no ensino particular, e agregou-se à própria faculdade que lhe atribuíra o título acadêmico.
O Doutor Rosalvo, advogado, ex-patrão do rapaz e assistente nas questões legais, longe de se aposentar, associou-se a alguns colegas, abrindo várias corretoras imobiliárias.
Renildo, acima citado, resumira-se a agenciar os negócios de Teotônio, principalmente depois que Arnaldo, que participava de tais atividades, ficara paralisado. Ultimamente, empenhava-se em captar a confiança de Wilsinho, cujo futuro de atleta profissional descortinava tão brilhante quanto o do irmão.



1. O DRAMA DE LAURA

Naquele domingo, dia de visita, Laura foi decidida a romper com André, temerosa de que estava pondo os filhos em perigo, já que se via obrigada a cuidar de certos negócios da quadrilha.
Como sempre, levava as crianças para se habituarem ao pai, exigência deste, que era como entendia a formação de uma família. Em certa altura da visita, alguma mulher do grupo de detentos que se protegiam mutuamente tomava conta dos meninos e o casal se recolhia a uma das tendas montadas no pátio da prisão.
Assim que se viram a sós, foi André quem determinou:
— Você vai desaparecer completamente de circulação. Junte o dinheiro que for possível e vá para algum lugar que nem eu mesmo fique sabendo. Daqui a uns seis meses, comece a ler os classificados do domingo, para receber um aviso meu. Vai estar na hora de vir me ver de novo.
André não sabia como a moça se sentia aliviada. Em todo o caso, ela disfarçou:
— Querido, eu acho que vou encontrar muita dificuldade, aparecendo com duas crianças...
— Não se preocupe. Para onde você for, o dinheiro vai dar-lhe independência. Por isso, não pode ser em vilarejo. Procure uma capital de estado, uma que não tenha ninguém nosso, e você sabe muito bem onde é que atuamos, e se instale, procurando não fazer nenhuma amizade.
— Por que você está me pedindo isso?
— Porque preciso mostrar que sou fiel aos chefes. Não me pergunte mais nada.
Ainda Laura abraçou o amante, conseguindo extrair alguns estremecimentos e outras tantas lágrimas, dando demonstração de que estava sinceramente triste e preocupada.
Três dias depois, abandonou a casa onde vivia, deixando ali todos os pertences, portando boa quantia em dinheiro, dirigindo-se para a capital, onde vendeu o carro para desmanche, adquirindo outro em concessionária, apresentando a documentação falsa que havia muito deixara preparada para a ocasião.
Dirigiu-se, então, para o sul do país, alienando o outro carro, para embarcar no aeroporto, utilizando os mesmos documentos, voando para Salvador, cidade que lhe parecia suficientemente cosmopolita para recebê-la sem perguntas.
De fato, não lhe foi difícil alugar modesto apartamento, agora sob o nome verdadeiro, dizendo-se interessada em fixar residência ali, porque tomara a decisão de fugir da capital que lhe tragara o pai de seus filhos.
Não demorou para encontrar pequeno negócio, modesta confecção de artesanato, no fundo de casa particular, cuja dona beirava os oitenta anos e cuja modestíssima renda não interessava aos filhos. Manteve as três empregadas, prometendo-lhes substancial aumento de salário, caso a produção e as vendas melhorassem.
A proprietária do prédio continuou morando na casa da frente, o que foi muito proveitoso para a recém-chegada, dado que se valia da constante presença da antiga artesã.
Uma semana depois, assistindo ao telejornal, ficou sabendo que houve três mortes no presídio, estando André sendo acusado de ter praticado os crimes.



2. LAÇOS QUE SE AFROUXAM

Por ocasião da Copa do Mundo, desde os treinamentos no Brasil, Teotônio se viu obrigado a seguir as determinações quanto a se manter concentrado, longe, portanto, da família.
Rosinha veio com ele, porém, como não poderia deixar os filhos com a mãe, trouxe a família, estabelecendo residência no apartamento em que viviam anteriormente.
Como o mordomo ficara a cuidar da mansão na Europa, mãe e filha se viram às voltas com as tarefas rotineiras da casa. Ao contrário do que se poderia esperar, ficaram encantadas com o fato de se verem livres para fazerem o que bem entendessem, sem horários senão aqueles que os pequenos determinavam, nas exigências da alimentação, da higiene e do carinho.
Para não sobrecarregar a mãe, nos dias em que visitava as antigas colegas, muitas das quais cursando escolas superiores, Rosinha contratou duas babás, sendo que uma delas vinha para fazer as vezes das antigas amas-de-leite.
Um belo dia, Rosinha saiu-se com esta, perguntando ao marido, que tivera uma folga para visitá-la:
— Teo, será que o nosso Renatinho não é o espírito de meu irmão?
— Por que você está dizendo isso?
— Com Jacira, eu tive todo aquele problema da rejeição. Com o menino, não. Ao contrário, fiquei muito mais agarrada a ele, como se ele fosse o meu preferido de muitos anos.
— Não se esqueça de que você fez tratamento pra que não ocorresse de novo a crise do parto.
— Mas uma coisa não impede a outra. Você não acha possível que a minha desconfiança pode estar certa?
— Pode e não pode. Mas como confirmar?
— Será que os espíritos não são capazes de nos dizer isso?
— E quem nos garante que tais espíritos estejam agindo de acordo com os desígnios de Deus?
— Querido, você não leu em Kardec como é que ele ensina a reconhecer os bons espíritos?
— Isso não é fácil. Não é qualquer pessoa que pode saber se a vibração é boa ou não. Há muitos espíritos maliciosos capazes de nos enganar, facilmente. Ainda mais se estivermos propensos a acreditar em mentiras que apóiem as nossas teses.
— Vieira faria isso?
— Não sei. Você está mesmo empenhada em tirar isso a limpo?
— Eu gostaria.
— Se for o espírito de seu irmão, vai mudar alguma coisa?
— É claro que não.
— E se não for.
— Vou tratar dele como o espírito do meu filho.
— Quer que eu peça para Vieira vir conversar conosco?
— Não quero. Isso irá perturbar o nosso sossego. Como minha mãe está sempre querendo receber mensagem do filho, eu vou convencê-la a ir a uma sessão. Então, amanhã, eu falo com o Vieira e a gente marca o dia.
De fato, no dia seguinte, Vieira, a par do assunto, fez questão de levar Dona Flávia e Rosinha a uma reunião mediúnica na sede da Federação Espírita, explicando:
— Toda quarta-feira, a partir das três horas da tarde, um médium se põe à disposição do público, para receber mensagens de cunho pessoal. Eu prefiro que seja lá, porque, no nosso centro, os médiuns conhecem o caso de vocês e isso pode ser tido na conta de falcatrua. Depois da reunião, conforme o resultado, a gente pode conversar a respeito da identidade do espírito que se encarnou como seu filho.
Ao chegarem ao recinto da sessão, Rosinha desejou saber se não seria melhor que a reunião se desse à noite.
Vieira esclareceu:
— Em geral, os médiuns possuem suas ocupações durante o dia. Por isso, os trabalhos se dão à noite. Nada obsta, porém, que se dêem a qualquer hora do dia, bastando que haja prévio entendimento entre os protetores do médium e este.
— A claridade não influi?
— Pode influir, no caso de desconcentrar o trabalhador. Mas o brilho do sol serve para alegrar o ambiente. Como existe uma cortina escura, às vezes é ela fechada, às vezes, não; depende da disposição física e mental o médium.
Quando entraram na sala, já lá se encontravam duas dezenas de pessoas sentadas ao longo da parede do fundo, em dois renques de cadeiras. Diante delas, do lado oposto da mesa, três trabalhadores da federação.
O mais velho pediu a atenção e solicitou que todos se mantivessem em oração, enquanto os médiuns trabalhassem. Um dos senhores somente apoiava a cabeça nas mãos, que permaneciam sobre os olhos. O outro, com a mão esquerda na testa, começou a escrever em folhas de papel, que eram preenchidas rapidamente. Ajudava a substituir as folhas o mesmo que se dirigira aos presentes.
Ao cabo de quarenta minutos, enquanto o orientador dos trabalhos realizava prece de agradecimento, para encerrar os trabalhos, os dois médiuns se retiraram em silêncio, concentrados como em transe, sem se dirigirem a nenhum dos presentes.
Assim que as cortinas voltaram a ser abertas, explicou o dirigente da sessão que, como ele disse, os seareiros do amor estavam dirigindo-se a outra sala, para darem continuidade aos trabalhos mediúnicos. Ato contínuo, diante de uma folha aberta, deu início às leituras dos textos:
— Antes de mais nada, é preciso que saibam que as folhas que foram deixadas dobradas serão entregues às pessoas a quem se dirigiram as mensagens nelas contidas, enquanto que as que foram deixadas abertas são para serem lidas, por conterem instruções que servem tanto para as famílias a que foram endereçadas, quanto para todos os presentes. Vou ler primeiro e depois distribuir. Vocês vão permitir-me perguntar a quem pertencem os nomes citados, para que todos possam situar os dizeres, podendo formular um quadro geral das notícias. Passo a ler: “Queridos irmãos, que a paz do Senhor reine em seus corações, é o que pede este humilde servo encarregado de vir trazer uma comunicação que interessa à Dona Flávia e à Dona Rosinha. Devo preveni-las de que os seus pedidos não serão atendidos, porque a pessoa de quem gostariam de receber a mensagem não está habilitado a aqui comparecer, muito embora mande lembranças, afirmando que se encontra muito feliz por ter tido o nome atribuído à criança que encanta o lar de Dona Rosinha. Também o marido de Dona Flávia não se acha em condições de estar presente, o que não o impediu de remeter seu saudoso amplexo à esposa querida e à filha idolatrada. O mais importante, no entanto, é preciso que eu o diga, é que Teo...”
Aqui o velho senhor interrompeu a leitura, querendo saber quem era a pessoa referida, já que, por terem levantado as mãos, tanto Flávia quanto Rosinha já se haviam identificado.
Foi Vieira quem esclareceu:
— Teo é o marido de Rosinha.
Perpassou um burburinho pela sala, de modo que Vieira acrescentou:
— Exatamente, trata-se do nosso craque da seleção, ídolo de toda a torcida nacional.
A leitura prosseguiu:
— “... é que Teo tinha inteira razão quanto a afirmar que o fato de os espíritos serem estes ou aqueles não deve influir nem positiva nem negativamente, caso contrário, pode-se criar forte preconceito ou excessivo zelo, em detrimento do amor que toda a prole deve receber.”
Rapidamente, o expositor percorreu em silêncio as próximas linhas, interrogando Vieira em seguida:
— Quem são Jacira, Renato, André e José?
Foi Dona Flávia quem respondeu:
— Jacira e Renato são meus netos, filhos de Teo e Rosinha. Os outros dois são meus sobrinhos-netos, filhos de minha sobrinha Laura.
Imperturbável, o velho espírita deu seqüência à leitura:
— “Será que o marido de Dona Flávia ou seu filho Renato estão reencarnados como Jacira e Renato ou André e José? Será que estão reencarnados? Conforme estejam neste ou naquele corpo, haverá algum meio de distingui-los? Com que finalidade? Para o amor ou para o ódio? Não nos disse Jesus que devemos amar ao Pai sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos? Sabemos que certas tradições orientais buscam identificar certas criaturas como sendo as reencarnações de falecidos líderes religiosos, educando as crianças assim caracterizadas para se tornarem os herdeiros das próprias linhagens. No espiritismo tal qual nos definiu Allan Kardec, sob orientação dos espíritos superiores, esse conhecimento carece de importância e de necessidade. Acima dele, se encontra o sentimento de amor, de fraternidade e de solidariedade que deve encampar todos os pruridos do individualismo egoísta. Pensem em que Kardec descreve, em várias passagens, a necessidade de se encontrarem juntos, em novas encarnações, até espíritos antipáticos uns aos outros, para que aprendam a se compreender, a se perdoar e a se amar. Fiquem nas graças de Deus!”
Em casa, posto ao corrente dos acontecimentos, Teotônio sorriu e deixou claro o quanto louvava seu saber espírita:
— Vocês hão de reconhecer que até os espíritos sabem o que penso e o quanto de apreço lhes dou.
Rosinha, cuja admiração maior fora a facilidade com que os nomes foram citados, argumentou:
— Vieira nos disse que são muito poucos os médiuns que conseguem tanta clarividência no que respeita aos nomes e às opiniões. Se reproduziram uma opinião sua, também comentaram as minhas aspirações e pensamentos.
Dona Flávia, que não ficara satisfeita com a mensagem, expôs francamente:
— Quando perguntei a Vieira o que poderia impedir um espírito de vir conversar com pessoas que ele mesmo afirmou serem de sua estima e consideração, recebi como explicação que poderiam estar encarnados, que poderiam estar em missão, que poderiam estar na escola. Bem que eu fiquei quieta, mas desconfio que podem não estar à altura de entender as pessoas e os fatos. Vocês não acham que só um espírito superior poderia escrever com tamanha precisão a respeito do que lá fomos fazer? Vou fazer a mesma pergunta ao Fulgêncio que, por ser padre, vai me dar uma idéia mais exata de tudo que se passou ali. Estou certa de que ele vai dizer que o médium foi avisado de quem se tratava e que reproduziu uma fórmula de mensagem que vem repetindo sempre.
Ato contínuo, a senhora, com a desculpa de cuidar dos netos, retirou-se, deixando o casal a confabular.
— Parece que sua mãe voltou bastante desapontada da reunião.
— Eu suponho que as manifestações dos espíritos põem para trabalhar muitos neurônios de cada vez. Para quem não está acostumada a tantos exercícios mentais...
— É uma bela forma de disfarçar a má vontade dela em relação à doutrina. Mas você tem certa razão: o espiritismo exige conhecimentos e reflexão. Sem os conhecimentos, contudo, a reflexão tende a desandar dos princípios básicos.
— Teo, você está querendo dizer que minha mãe não está aceitando a doutrina?
— Se o filho tivesse dado comunicação, chamando-a de mãezinha querida, que estava sofrendo longe da presença dela et cetera e tal, com certeza ela ficaria comovida, enxugaria algumas lágrimas, agradeceria a Deus e depois iria confessar a Fulgêncio o pecado de ter ido à casa das trevas demoníacas.
— Que deu em você para tanto azedume?
— Estou com o coração partido. Desde que você aceitou ir consultar os mortos, fiquei cismado quanto ao fato de estar sendo colocado pra escanteio.
— Por que estaria?
— Agora mais que nunca estou criando essa certeza. Você tem visto o quanto leio e estudo. Na primeira oportunidade séria de oferecer explicação lógica da realidade, você não me aceita as considerações e sai correndo pra ver se confirma as próprias suspeitas. Ainda bem que a resposta que obteve bateu quase totalmente com a minha.
— Você está procurando cabelo em ovo...
— Não estou, não. Absolutamente. Estou apenas confirmando que santo de casa não faz milagre e que de nada tem adiantado, pelo menos pra você, eu estar me inteirando dos temas espíritas.
— Teo, pelo amor de Deus, não é nada disso.
— Rosi, é exatamente isso.
— Você está procurando um pé pra briga.
— Só estou demonstrando que estou magoado, mais nada. O que menos quero é brigar com você. Só faltava essa. Seria a maior falta de caridade, de piedade e até de amor. Mas eu precisava desabafar, com licença.
— Pois desabafou da pior maneira. Onde se viu me acusar por ter feito aquilo que você mesmo recomendou. Não estou entendendo nada.
— Quer que eu explique tudo de novo?
— Não precisa. Eu vou ajudar mamãe a cuidar das crianças.
— E eu vou para a concentração, que já estou atrasado.
Tanto quanto puderam pensar a respeito, ambos ficaram sem compreender os motivos verdadeiros e profundos das acusações recíprocas.



3. RENILDO

Para quem vem seguindo a nossa narrativa, a figura do empresário de Teotônio deve sempre ter permanecido impoluta, jamais dando azo a qualquer desconfiança de falcatruas. Será injusta, pois, a hesitação de Wilsinho quanto a admiti-lo para gerir sua vida profissional.
É preciso ressaltar que exercia o escritório do Doutor Rosalvo a fiscalização de todas as contas, havendo procedido, no curso de cada ano, a duas auditorias na contabilidade do agente, não tendo surpreendido nenhum indício de desfalque ou de falhas.
Indo mais longe, também as generosas doações a muitas entidades de assistência a pessoas carentes de todo tipo sofreram vistorias rigorosas, tendo havido apenas dois casos de suspensão das contribuições por apropriação indébita por parte de funcionários das próprias entidades.
Um belo dia, tendo Teotônio regressado sozinho à Europa, porque Rosinha preferiu ficar no Brasil, para concluir os estudos e para habituar os filhos a utilizar a língua portuguesa, separação aconselhada pelo psicanalista que vinha tratando da moça, tendo em vista as preocupações com o fato de dar preferência ao filho em detrimento das atenções que deveria oferecer à menina, como dizíamos, um belo dia, Teotônio foi surpreendido com a presença de Renildo na própria concentração de seu clube, no Velho Mundo.
— Prezado amigo, você não deveria ter-me avisado que viria?
— Teo, eu não quis despertar nenhuma suspeita de que precisava encontrar-me com você, para tratar dos assuntos a que vim.
— Você está assustando-me.
— Muito mais assustado estou eu.
— Então, desembuche.
— Em primeiro lugar, você tem acompanhado o volume dos gastos realizados por Rosinha?
— Nada que os meus ganhos não possam cobrir com facilidade.
— Engano seu. Ela está formando pecúlio próprio, a partir das retiradas que você permitiu. Não sei a quanto monta o tanto que vem reservando.
— Você não ignora que eu tenho várias contas abertas em meu nome, outras em conjunto...
— ... e três no nome dela, inclusive uma num conhecido paraíso fiscal.
— Sem paraíso fiscal. Eu abri só duas contas pra ela. Essa do tal paraíso fiscal desconheço.
— O meio que ela usou pra conseguir abrir essa conta eu não sei explicar. A verdade é que recebi correspondência de lá, em nome dela.
— Você praticou uma violação.
— De forma alguma. Entreguei-lhe a carta sem abrir. Mas me reservei o direito, por ser seu procurador financeiro, de me inteirar do que se tratava. Por isso, antes de ter vindo pra cá, dei uma passada de uma semana pela cidade em que tem sede o referido banco. Não foi fácil, mas os documentos em meu nome em que consta o nosso relacionamento comercial mais as providências que você tomou para que eu tratasse dos interesses dela produziram efeito.
— E o que você descobriu?
— Descobri que ela possui cerca de cinco milhões de dólares naquela conta.
Teotônio fez uns cálculos nas pontas dos dedos e concluiu:
— É possível.
Se estava remoendo-se por dentro, não demonstrou. Observou apenas:
— Tenho plena confiança no discernimento de minha esposa. Se ela está guardando parte do dinheiro que recebo, alguma causa nobre deve ter em mente. Somando com as outras contas, a quanto monta o total?
— Perto de sete milhões de euros, pelo que eu sei. Não se esqueça de que o fisco brasileiro vai querer...
— Renildo, você não tem pago todos os impostos e taxas relativos ao meu ganho no exterior?
— Aí reside uma das faces do problema. Não sei de onde veio o dinheiro guardado por ela. Pelas minhas mãos passaram exatamente dois milhões de reais, que ela aplicou na aquisição de apartamento de luxo para os tios, abrindo-lhes conta corrente de poupança que engolfou, de forma absoluta, todo e qualquer lucro que estavam tendo com a loja e o depósito de água mineral.
— Muito bem, meu fiel conselheiro de economia e finanças, você já me pôs a par de tudo...
— De tudo, não. Ocorre que as retiradas dela estão obrigando-me a vetar a saída de numerário para a benemerência. São cada vez menos as entidades que têm recebido a sua ajuda. Não vai demorar e teremos de fechar as portas à caridade.
Se Teotônio não se abalara ainda, naquele momento titubeou. Interessou-se por saber quais doações se mantinham, se Vieira e Fulgêncio vinham recebendo as mensalidades, e outras casas de atendimento a viciados em drogas e a mães solteiras. Especialmente, quis saber da escolinha de futebol na Favela do Corisco, que o tinha como patrono, com cujos jovens mantinha regular correspondência, concluindo:
— Se eles não tivessem recebido mais nada, teriam escrito pra mim, reclamando. Não é verdade?
— É certo que o fariam, mas todas essas instituições ainda estão retirando o seu quinhão. Não demorei tanto assim a vir trazer-lhe as más notícias. Afinal de contas, Rosinha não tem exigido muito de mim. É isso o que me espanta, pois não sei a origem da maior parte do dinheiro que passa pelas mãos dela.
— Renildo, que é que você sugere que façamos?
— Eu faço tudo que você determinar. Não me peça, porém, pra que eu decida as coisas. Cuido com o maior zelo de suas propriedades e de seus interesses. Mas as propriedades e interesses são seus.
— É nesta hora que me faz falta meu pai.
— O velho sargento era muito ponderado, contudo, se você me permite, nós nunca enfrentamos semelhante situação.
— Vamos fazer o seguinte: você manda uma carta a cada instituição, comunicando que estamos reformulando as nossas diretrizes e que precisamos suspender as contribuições por dois ou três meses. Dê como desculpa a necessidade de prestação de contas ao fisco. Acho que nenhuma irá reclamar, dada a perspectiva que abrimos de voltar a ampará-las. Enquanto isso, vou ter tempo de pôr tudo a limpo com Rosinha.
Foi quando avisaram de fora que estava na hora da reunião no salão, para embarque no ônibus que iria conduzir os atletas ao jogo.
Teotônio mostrou-se prudente:
— Saia na frente que eu não quero ser fotografado em sua companhia. Não vamos correr o risco de divulgar sua presença aqui.
— Vou escapar pelos fundos, porque sempre há um ou outro jornalista que me conhece. Boa sorte!
— Vá com Deus! Vou ficar orando pra que tudo não passe de um mal-entendido.



4. A EXPLICAÇÃO DE ROSINHA

Teotônio participou da partida como se nada de grave lhe estivesse ocorrendo. Como sempre, despertou o entusiasmo dos torcedores com jogadas magistrais, servindo os companheiros para que marcassem três tentos.
Se algo fez para chamar a atenção dos dirigentes, foi recusar-se a ir jantar com o grupo, contudo, com a desculpa de que precisava colocar o pé no gelo, conforme lhe recomendara o médico do clube, ninguém obstou-lhe a saída.
Em casa, a surpresa: lá estavam Rosinha e os filhos, sem a sogra.
— Querida, que aconteceu? Você fez essa tremenda viagem sem me avisar? Por quê?
Se a moça não estivesse deveras transtornada, teria posto reparo no tom desconfiado que o marido imprimiu às frases. Mas Rosinha tinha muito que conversar, o que a levou a conduzir às crianças logo para a cama, apesar das festas que Teotônio lhes fazia.
— Rosi, faz vinte dias que eu não vejo os meus filhos. Com licença, não posso brincar um pouco mais com eles? Seja o que for que você tanto queira me contar, sempre é mais importante a nossa vida em família.
Havia uma censura clara naquelas palavras quanto a Rosinha ter preferido ficar no Brasil. A jovem, porém, ou não entendeu ou se fez de desentendida, de modo que não insistiu em separar o pai das crianças.
Postos os filhos nos braços da babá, que Teotônio fizera questão de conservar no emprego durante todo o afastamento da esposa, velha governanta que servira a famílias de importantes linhagens européias e que gozava ali o privilégio de bem remunerada aposentadoria, Teotônio pôde, enfim, trancar-se com Rosinha na sala do computador.
Vendo a agitação dela, Teotônio se manteve distante. Queria saber toda a verdade relativamente às contas bancárias e aguardava que ela lhe contasse o porquê de ter mantido tal segredo. Por isso, sem abraçá-la mas tomando-lhe ambas as mãos, enquanto se mantinham sentados no sofá, manifestou-se muito sério:
— Deve ter acontecido alguma coisa por demais de grave pra você ter viajado sem me avisar.
Pousando o olhar marejado nos olhos do marido, Rosinha falou:
— Foi por recomendação do Doutor Rosalvo que tomei essa decisão.
Ato contínuo, retirou de debaixo da blusa, junto ao seio, um papel impresso, amarrotado, apresentando-o ao marido:
— A causa de tudo é este saldo bancário, que me chegou às mãos, no meio da correspondência. Aliás, foi o Renildo que o separou das cartas endereçadas a você e me deu, sem abrir. Se tivesse aberto, iria suspeitar muito de mim.
Teotônio pegou o papel com sofreguidão, disfarçando o fato de que lhe conhecia o conteúdo:
— Mas isto daqui é o saldo de uma conta reservada num banco mais do que suspeito. Como é possível que tal quantia esteja no seu nome?
— Quando abri o envelope, perdi a noção de tudo. Não sei como é que meu nome foi parar numa conta num banco cuja existência nunca soube. Por isso, fui me aconselhar com Rosalvo. Ele se espantou e me disse que tudo indicava que me estavam fazendo passar como credora dessa importância. Da mesma forma que abriram a conta, poderiam fechá-la, mandando a mesma pessoa fazê-lo.
Teotônio estava meio paralisado, mas, assim mesmo, foi capaz de uma intervenção:
— O nome que se dá à pessoa que não sabe que seu nome está sendo usado para lavar dinheiro é laranja.
— Foi o que me explicou Rosalvo. O que me deixou mais assustada foi a suspeita que levantou de que nossos telefones devem estar com escuta clandestina. Por isso é que não liguei pra você. Foi como me instruiu o advogado. Ele também sugeriu que você possa estar com uma conta corrente no mesmo ou em outro banco, porque os seus ganhos podem cobrir os depósitos, caso o fisco venha a descobrir tudo.
Teotônio sentiu forte impulso para abraçar a esposa e sussurrar-lhe ao ouvido que já estava a par da misteriosa conta e que estava em falta com ela, porque chegou a acreditar que o dinheiro tivesse sido depositado com sua anuência. Abraçar, abraçou-a, mas não revelou que Renildo lhe havia relatado o fruto das investigações. Teria sido uma imensa e dificultosa explicação.
Quando se apartaram, Rosinha questionou o marido:
— Que você pretende fazer agora?
Teotônio hesitou e, por fim, respondeu:
— Cabe ao Renildo esclarecer tudo, porque é quem trata da parte financeira.
— Acho que ele não vai aceitar a incumbência.
— Deixe comigo. Veremos se ele tem algum expediente que nos está faltando.
Com um convite para irem jantar, Teotônio pôs fim ao colóquio.



5. O DIA SEGUINTE

Quando Teotônio acordou pela manhã, tendo dormido serena e profundamente a noite toda, já Rosinha estava de pé, cuidando pessoalmente da primeira refeição do marido. As crianças estavam acomodadas, limpas e alimentadas, ambas entretidas com seus brinquedos, sob a vigilância da babá.
Tendo aberto a janela do quarto, o barulho chamou a atenção de Rosinha, que correu para saudar o marido:
— Querido, que bom que você repousou bastante. A que horas é seu primeiro compromisso de hoje?
— Você se esqueceu de que hoje é segunda? Um dia após o jogo, a folga é completa, apesar de eu ter agendada entrevista para o começo da tarde, além de ter de comparecer à inauguração de mais uma loja da rede do presidente do clube, o que é obrigatório, inclusive pelo contrato. Você está programando algo para mim?
— Gostaria de levar uma conversa muito séria. Mas, primeiro, vou esperar que você cumpra todo o ritual de quem se levanta com a cara amarrotada, precisando raspar a barba, banhar-se, vestir-se...
— ... ler o noticiário, para ficar em dia com os resultados de vários campeonatos, conhecer a crítica dos jornalistas...
— Você quer dizer os elogios. Há muito tempo que ninguém tem a coragem de lhe fazer qualquer censura. Quando você terminar, venha tomar seu café, que eu mesma fiz questão de supervisionar, deixando ao James o encargo de informar-se a respeito do andamento dos pregões nos países asiáticos.
— Rosi, vejo que você está reassumindo as funções de dona de casa. Se estou bem lembrado, essas coisas não aconteciam há quase um ano.
A jovem aproximou-se do marido, abraçou-o, beijou-o na face e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Ele a levantou do chão, apertou de encontro ao corpo e não foi capaz de dizer nada, já que estava com os olhos marejados. Não querendo que o surpreendesse tão emocionado, desvencilhou-se dos braços dela e, fazendo a mímica característica de certo aperto, correu a refugiar-se no banheiro da suíte.
Precisou Rosinha de paciência para ter aquela conversa séria com o marido, porque este dedicou mais de duas horas aos filhos, aplicando com a menina todo o seu repertório de brincadeiras e, com o menino, carregando-o ao colo, mostrando-lhe objeto por objeto da casa toda, saindo a tomar sol, pondo aflita a velha senhora, que ia atrás, cheia de temores e de cuidados.
Finalmente, pôde Rosinha levá-lo à sala do computador, onde esperava ter sossego e privacidade, para dizer todo o discurso que preparara.
— Teo, eu estava muito errada, afastando-me de você, qualquer que pudesse ter sido a razão que me levou a isso. Sei que a vida do casal deve...
— Rosi, querida amiga, você não precisa justificar nada. Eu entendi. Estando longe das pessoas da convivência, apenas com a mãe como companheira, o marido cheio de compromissos, ficando mais ausente que presente...
— Vou colocar as coisas assim: você só é culpado por ser muito bom no que faz. Aliás, é bom em tudo o que faz.
— Você sabe por quê? Porque, quando erro, a consciência me acusa e me sinto muito mal. Quando me confessava com Fulgêncio, ele não me deixava contar muita coisa, não especulava, ia logo dizendo que Deus me perdoava e me mandava rezar, quando muito, dois padre-nossos e duas ave-marias.
— Agora você está tentando fazer o mesmo comigo.
— Você não precisa dizer mais nada. A penitência vai ser superar as crises, com minha ajuda, revelando, desde a raiz, que o caule da preocupação está pondo ramos de tormenta e folhas de angústia. Se você fizer isso, eu quebro o seu galho...
Se Teotônio esperava que a esposa manifestasse admiração pela imagem, frustrou-se, porque ela olhou firmemente para ele e simplesmente prosseguiu no que vinha expondo:
— Pois você não vai precisar de nada disso. Estive pensando que posso muito bem freqüentar aulas aqui mesmo. Dentro de cinco ou seis anos, garanto, estou formada. Quanto às crianças falarem bem o português, vamos dispensar a babá estrangeira e trazer toda a criadagem do Brasil. Com certeza, James saberá organizar tudo a contento.
— Esse a contento está revelando que você preparou o discurso, decorando até as palavras.
— Mais ou menos. Não se esqueça de que tivemos os mesmos professores.
— Querida, não vamos nos desviar do assunto. Estou encantado com o seu pensamento atual, contudo, devo afiançar-lhe que, se você decidir passar novas férias no Brasil, eu vou compreender e irei visitá-la sempre que possível. Até já pensei em adquirir uma aeronave, mantendo-a sempre preparada para as viagens. Vai ficar bem caro, mas nós podemos nos dar a esse luxo.
— Teo, você não vai precisar comprar avião algum nem vai precisar viajar tanto. Eu lhe prometo que vou revelar todas as sensações estranhas que me assaltarem e que me vierem a forçar a agir de modo anormal, como quando...
— Não diga mais nada. Não é bom ficar relembrando fatos desagradáveis. Pense apenas no dia de hoje e vamos construir o futuro juntos. Você falou em quatro ou cinco anos. É, mais ou menos, quando terminam os meus contratos. Até lá, o nosso pecúlio vai ser tão grande que eu mesmo poderei voltar a sonhar com os cursos jurídicos. Aliás, por falar em pecúlio, preciso me entender com Renildo a respeito da misteriosa conta bancária. Você deve ter muita coisa pra organizar; pois vá. Enquanto isso, vou procurar ver se ele já está acordado.
Trocaram alguns beijos e afagos e Rosinha terminou por deixar o marido às voltas com a Internet.
Foi só ela sair e o rapaz se levantou da cadeira e se aproximou da janela, deixando o olhar perdido no jardim que circundava a mansão. Remoía, evidentemente, o pecadilho de não dizer tudo que sabia, fazendo-se criança, ajoelhando no confessionário, pedindo perdão ao padre. Perdeu-se no exame de tais sentimentos, terminando por ouvir claramente uma voz que lhe dizia, dentro da intimidade do ser, para confiar plenamente no poder de Deus, cuja vontade soberana sempre haveria de prevalecer.
Teotônio sabia que Renildo não tinha sequer partido de volta. Por isso, tentou entrar em contato com ele através do telefone celular. Não conseguiu. Resolveu, então, buscar alguém do escritório no Brasil, via Internet.
Enquanto aguardava que seu e-mail fosse respondido, de posse do impresso que lhe trouxera Rosinha, localizou a página eletrônica do banco. Viu que era fácil consultar a conta cujo número se revelava no impresso, contudo, por falta da senha, a tentativa falhou.
Quando buscou cadastrar-se para obter condições de modificar a senha, notou que vários dados dos documentos da esposa registravam erro, o que lhe vedava completamente o acesso.
Refletiu que era prudente não despertar qualquer suspeita, reflexão que o impediu de enviar correspondência de consulta pessoal.
Ao buscar entre os e-mails de sua conta, lá estava a resposta do escritório de Renildo, através da qual ficou sabendo o endereço do hotel em que o empresário se hospedava.
Não tardou para que a ligação se completasse, podendo ambos armar a estratégia que iria colocar Renildo na casa do atleta, já sabedor do que Rosinha havia dito.
Trinta minutos depois, aparecia o empresário, tendo sido Rosinha avisada de que ele havia chegado na véspera e precisava tratar de assuntos muito urgentes.
Teotônio instruíra a esposa:
— Antes de mais nada, vamos colocá-lo a par de sua conta e do que pretendemos que ele faça para decifrar o mistério.
Rosinha não dera mostras de nervosismo, continuando a alimentar os filhos, tão-só recomendando que deixasse o agente decidir se não seria muito arriscado para ele mexer com a quadrilha que havia arquitetado a trama.
— É claro, querida, que ele é quem irá decidir a respeito. Fique tranqüila, que eu não vou querer misturar os meus negócios legítimos com as atividades criminosas.
Assim, quando se deparou diante da moça, Renildo expressou sua alegria por vê-la na companhia do marido, enfatizando que ultimamente o craque andava bastante casmurro, tendo perdido o natural bom-humor.
— Vim para ficar ao lado dele. Eu sei que ele sentia muito a falta das crianças, apesar de que, a cada quinze ou vinte dias, sempre encontrava tempo para ir visitar-nos. Mas vocês vão ter muito que se entender, enquanto vou providenciar o almoço. Parece que Teo vai ter a tarde toda ocupada, portanto, não percam tempo.
Fechados no escritório, Teotônio e Renildo acabaram concordando que o principal era saber se haveria uma segunda conta e como é que o banco poderia auxiliar a resolver definitivamente o problema.
Renildo considerava:
— Como Rosinha não é a titular, não passando de laranja, esvaziar a conta, transferindo o dinheiro, haverá de causar alvoroço na quadrilha e vocês vão correr riscos muito fortes. Se houver outra conta no seu nome, com certeza os elementos constantes nos documentos também devem ter sido adulterados. Tanto num caso quanto no outro, o banco irá convocar os verdadeiros depositantes.
Teotônio estava ansiado para dar a sua opinião:
— É preciso não dar sinal de que o montante não é nosso. Não foi isso que acabou ficando claro para o gerente que o atendeu?
— Não dei demonstração de estar surpreso. Deixei tudo exatamente como estava, apenas registrando que viria conversar com você e sua esposa. No entanto, acredito que a primeira coisa que ele fez, depois que saí, foi entrar em contato com o dono real da conta, avisando que eu havia estado lá.
— Você se identificou? Deixou alguma cópia de seus documentos?
— Ele fez questão de anotar os meus dados, tendo tirado cópia das suas procurações e do nosso contrato.
— Então, eu acho que você irá dar com o nariz na porta...
— Será que eles já transferiram os fundos?
— Pode escrever o que estou dizendo. E digo mais. Se conta havia em meu nome, agora terá tudo desaparecido.
— E se nada disso foi feito, que é que vou fazer?
— Não faça nada. Eu e Rosi vamos ter de consultar o Doutor Rosalvo e seguir os conselhos dele. A última coisa que vou querer fazer é delatar o fato ao Ministério Público ou à Polícia Federal. Aliás, minto: a última coisa é deixar a imprensa tomar conhecimento.
— Nem pensar. Os bandidos são muito poderosos e toda a sua família estaria em perigo.
— Vejo que você me entendeu perfeitamente, sem contar que a sua também não estaria imune às represálias.
Exatamente nesse ponto da conversa, Vilma ligava para o filho.
Ao terceiro toque, quando se dispôs Teotônio a atender, percebeu que alguém havia atendido na extensão. Mesmo assim, ouviu um início de diálogo:
— Alô!
— É você, Rosinha?
— Eu mesma.
— Vilma. Que deu em você, menina, para partir sem nos avisar? Não sabe...
Teotônio desligou. Não queria intrometer-se nas explicações que a esposa daria à sogra.
Renildo tamborilava sobre a mesa, sem saber se expunha certa dúvida que lhe assaltara o espírito desde o primeiro momento em que apanhara a correspondência do banco.
Teotônio notou a preocupação:
— Parece que você tem algo que não sabe se conta ou não.
— Vou colocar em forma de pergunta. Por que os donos da conta, tão zelosos em manipular os documentos, deixaram passar o endereço para entrega dos extratos?
— Essa dúvida foi uma das que me fizeram esconder de Rosi que eu fora informado dos fatos antes de ela revelá-los a mim. Por mais que eu pense a respeito, o mais plausível é suspeitar de que ela mesma abriu a conta, julgando que a correspondência chegaria até ela sem passar por mim ou por você.
Renildo meneou a cabeça, como não concordando com a idéia.
— Seria voltar à estaca zero. Pior ainda. Seria desconfiar de que Rosinha...
— Nem precisa concluir. Eu estou remoendo meus remorsos só em levantar tal hipótese. Mas que outro raciocínio poderá esclarecer o endereço errado?
— Posso imaginar que o responsável pelo envio dos saldos não consultou o arquivo e, sabendo de quem se tratava...
— Impossível. Tais cartas são enviadas depois de terem sido escritas eletronicamente pelos computadores. Os bancos estão totalmente automatizados: ninguém precisa buscar elemento algum que não esteja nos arquivos.
— Essa dificuldade, para nós, é intransponível. Somente após sério serviço de investigação é que se poderá levantar o que aconteceu. Mais tarde, iremos ver como é que o Doutor Rosalvo encarou o problema.
Nesse instante, bateram à porta. Era James que pedia ao patrão para atender ao telefone: Dona Vilma estava na linha.
— Oi, mãe! Que é que manda?
— Por que você não se lembrou de me avisar que Rosinha estava aí? A gente aqui ficou toda preocupada.
— Ela chegou ontem à tarde e não tivemos oportunidade de falar sobre todas as coisas. Na verdade, fiquei tão alegre que me esqueci totalmente de ligar pra vocês.
— Filho, com ela eu já me entendi. A notícia que tenho pra você é muito boa. Seu pai está recuperando os movimentos das mãos e já consegue pronunciar muitas palavras com dificuldade, mas dá pra entender. Graças a Deus!
— Eu não me esqueço de rezar por ele toda noite.
— São os espíritos protetores que nos dão tanta assistência. Preciso visitar mais vezes o centro do Vieira, pra ouvir umas palestras. Mas também tenho ido quase todo dia à missa. Só não fui quando seu pai estava muito mal, no começo.
— Dê meu abraço a ele. Diga que, assim que puder, vou visitá-lo.
— É sobre isso, principalmente, que estou ligando. Seu pai quer vê-lo o quanto antes. Ele queria conversar com o Renildo a respeito dos negócios, como fazia antigamente, mas nós não achamos o homem.
— Ele está aqui comigo. Vou dar-lhe a boa nova e avisar que meu pai quer vê-lo.
— Faça isso. Eu acho que seu pai não deve preocupar-se com outra coisa a não ser em melhorar cada vez mais.
— Talvez seja bom ele se ocupar de algo de que goste. Vai sentir-se mais perto da vida que da morte.
— O meu receio é que ele queira voltar a morar aí com você.
— A senhora tem medo de quê?
— Não foi aí que teve o derrame? Pois eu fico apreensiva, pensando no que possa ter feito mal a ele. Aqui ele tem estado muito bem, acompanhando os campeonatos europeus, vendo você jogar. Esta semana o Wilsinho prometeu que viria buscá-lo para assistir ao treino. Quando ele joga, o velho fica mais nervoso do que quando você joga.
— É natural. Os caçulas sempre têm a preferência...
— Não fale assim. O seu irmão sempre foi mais respondão e mais desobediente...
— Por isso mesmo conseguiu chamar mais a atenção de vocês do que eu, que sempre fiz tudo direitinho.
— Teo, quando você vai poder vir passar uns dias conosco?
— Se for muito importante, peço dispensa dos treinos. A gente joga só uma vez por semana. Mas o pessoal não gosta de abrir exceção. Se a moda pega, ninguém mais vai treinar, e eu preciso dar o exemplo. Afinal de contas, são poucos os que recebem o mesmo salário que eu.
— Vou desligar. Fique com Deus! Não se esqueça de comunicar o dia em que for chegar.
— A bênção, mãe.
— Deus te abençoe!
Renildo, tendo ouvido o seu nome, aguardava uma explicação, que Teotônio não demorou a dar:
— Meu pai está melhor e pretende voltar a cuidar dos negócios junto com você.
— Ele vai dar de cara com as dificuldades que lhe vim contar. Vai descobrir as retiradas de Rosinha ou vai questionar as minhas contas. De qualquer modo, fico satisfeito que esteja restaurando a saúde.
Fez-se um longo silêncio. Ambos queriam estabelecer um plano para elucidação da conta misteriosa mas estavam indecisos, esbarrando sempre na dificuldade de acabarem provocando reações de gente desconhecida e poderosa no mundo da criminalidade.
Foi Teotônio quem decidiu:
— Você vai conversar com Rosalvo. Depois vai me mandar o resultado da entrevista pelo meio mais adequado, segundo a natureza das conclusões. Se for preciso, volte para vir ter comigo. Faça isso o quanto antes.
— Nem vou ficar pro almoço. Passo no hotel, fecho a conta e corro pro aeroporto. Se não houver vôo sem escalas, peço pra me fazerem o itinerário mais rápido.
Antes de se despedirem, ainda Teotônio quis saber a respeito de como andavam as tratativas com Wilsinho.
Renildo foi categórico:
— Ele está desconfiado de mim. O melhor que deve fazer é escolher outro agente. Se você puder influenciá-lo, recomende que procure o Doutor Rosalvo, para informar-se a respeito de como cuidar bem da vida profissional.
— O que ele está ganhando ainda é pouco. Quando houver interesse de outros clubes, vai ter de ouvir quem entenda de negócios. Talvez esteja pensando no nosso pai, agora que está melhorando. Vamos dar tempo ao tempo. Não fique magoado com ele.
— Eu tenho forte estima por seu irmão.
Abraçaram-se e Renildo se foi.
Teotônio deu andamento às atividades que havia programado para a tarde, distraindo-se a ponto de escapar às preocupações, que só voltariam à noite.
Enquanto o atleta se preparava para exercitar-se nos aparelhos do salão de ginástica, Rosinha veio dar um dedinho de prosa com o marido:
— Como foram a entrevista e a inauguração?
— As entrevistas, porque, na inauguração da loja, havia tantos jornalistas que não pudemos escapar, eu e meus companheiros. Mas foi tudo bem. O mais aborrecido é deixar de provar o coquetel, que nos foi oferecido como se fôssemos cidadãos comuns. O pessoal se esquece de que temos de preservar a saúde, se quisermos desempenhar bem o esporte.
— Até o presidente do clube?
— Principalmente ele, com a mania de brindar a todo momento, sempre que solicitado para uma foto.
— Você não me falou nada a respeito do que ficou decidido com Renildo.
— Ia deixar pra depois do jantar mas, se você me acompanhar durante meu aquecimento e alongamento, podemos conversar a respeito.
— Sou toda ouvidos.
Precisamos referir que Teotônio agiu de caso pensado, ao convidar Rosinha para segui-lo nos exercícios. Queria ter tempo para refletir sobre o que dizer, sem dar a entender que mantinha alguns segredos. Por isso, a transcrição do diálogo deve intercalar-se de alguns minutos de pausa.
— Renildo e eu concluímos que precisamos conversar com Rosalvo, pra saber o que o levou a recomendar-lhe que viesse secretamente pra cá. O que não soubemos descobrir foi como é que o banco enviou a correspondência pra você, se o depositante não tivesse oferecido o seu endereço, o que nos pareceu inconcebível. Você poderia aventar alguma hipótese a respeito?
— Esse aventar está indicando que você preparou o seu discurso.
— Preparei mesmo. Tive o dia todo pra refletir. Escolhi os termos com cuidado e até esta observação deixei de sobreaviso, caso você viesse a desconfiar de eu não estar sendo completamente espontâneo. Gostou?
— Gostei. Voltando ao banco, vocês consideraram o fato de que os saldos são enviados mensalmente e que eu recebi a correspondência uma única vez?
— Pensamos na automatização dos serviços bancários e não chegamos a resultado nenhum, porque não pode haver engano no envio dos saldos. Estou pensando agora que pode ter sido a primeira vez que tal remessa é feita. Pra ter a certeza disso, só perante o extrato dos depósitos e retiradas, o que não consta da folha que você recebeu.
— Querido, se não foi sem querer, foi de propósito. Alguém queria que a gente tomasse conhecimento dessa conta.
— Se você está certa, só pode ser o titular dela, porque o banco não admitiria que alguém se infiltrasse...
— Como não? Não existem esses hackers que violam os sistemas e muitas vezes contaminam os computadores com vírus de destruição dos arquivos?
— Renildo e eu não fomos tão longe.
— Você pensa que só você passou o dia pensando a respeito? Eu também estou pondo minha cabeça pra funcionar.
— Aliás, brilhantemente. Então me diga: quem teria interesse em fazer o que você imaginou?
— Se não fosse chuçar o leão com vara curta, eu diria pra você ligar pra aquele mesmo indivíduo da torcida uniformizada.
— Agora você extrapolou. Que explicação me poderia dar tal sujeito? E que ganharia ele perturbando aquele que, um dia, lhe prestou um favor, salvando não sei quem, quando desabou a arquibancada?
— Talvez fosse um meio de pagar o benefício.
— Ele sabe que não precisamos do dinheiro do tráfico de drogas.
— E se o dinheiro não fosse dele? Ele tem um inimigo. Descobre a conta secreta do traficante. Penetra sorrateiramente no sistema do banco e transfere o montante pro meu nome. Depois me avisa, através do endereço que ele mesmo adulterou.
— Só me falta perguntar como é que você chegou a tal conclusão e você me responder: Elementar, meu caro Doutor Watson.
— Confesse que eu balancei você.
— Surpreendeu-me muito, deveras.
Dando início ao primeiro exercício com pesos, Teotônio teve tempo de decidir a respeito de outro tema que o estava preocupando. Por fim, disse:
— Renildo prestou uma parte das contas, pois não teve tempo de preparar o balancete trimestral. Ele referiu a alguns saques que você efetuou, estranhando que foram bastante substanciosos, tendo em vista as costumeiras retiradas...
— Quer me cobrar a respeito de onde foi que apliquei o dinheiro?
— Acontece que ele se apertou com as contribuições agendadas. Se não fosse isso, talvez nem reparasse...
— É obrigação dele reparar em tudo. Pois adquiri excelente apartamento pros meus tios. Não é que eles estivessem precisando, todavia, considerei que você tem dado tanto pra tanta gente estranha, que não iria opor-se a que eu desse pros meus parentes.
— Você estava guardando essa mágoa. Eu, preocupado em fazer o bem e você se sentindo posta de lado.
— Não é nada disso. Com tudo que você tem na cabeça, não pode avaliar a importância de todos os atos e valores. Apenas corrigi uma pequena falha. Aliás, continuei dando à minha mãe os mil euros que você lhe dava quando veio comigo pra tomar conta das crianças. E, antes que você levante mais um problema relativo às contas bancárias, devo dizer que abrimos, minha mãe e eu, uma conta conjunta, a pedido dela, porque ela se sentia muito insegura sozinha, dizendo que, se algo acontecesse a ela, o dinheiro ficaria preso no banco.
— Você está saindo-me uma fonte borbulhante de informações. Quero só beber mais um pouquinho dessa linfa sagrada.
— Vai brincando, vai, que lhe dou na cabeça com este peso de cinco quilos.
— Só quero saber qual a quantia que sua mãe tem guardada.
— Ela mantém depositados todos os salários que lhe pagamos. Aliás, menos, porque fez alguns gastos com roupas, pouca coisa, que ela não se atreve a se arrumar bem, desde que o meu irmão foi assassinado.
— Renildo está a par dessa conta?
— Precisa?
— É bom pra que o haver se case com o dever, na contabilidade.
— Depois você pergunte a ele. Mas eu tenho o número e a senha, e a gente pode verificar o saldo na Internet.
— Foi muito bom entender-me com você, querida. Vou tomar um banho e depois vou brincar com as crianças.
— Não demore, que eu não quero que elas se acostumem a ir pra cama muito tarde.



6. RENILDO EM AÇÃO

A conversa de Renildo com Rosalvo não adiantou um passo na compreensão do que havia sucedido relativamente à polpuda conta bancária em nome de Rosinha.
— Doutor Rosalvo, Teo me pediu para vir saber do senhor a razão de ter recomendado que Rosinha partisse sem dar aviso a ninguém.
— Foi o que me pareceu mais justo, naquele momento. Veja bem. Qualquer notícia a respeito de um dinheiro cuja origem é desconhecida poderia, ou melhor, pode despertar o interesse de inúmeras pessoas, por várias razões, desde o rapto puro simples da parte de meliantes comuns, até as investigações de órgãos públicos fiscais ou policiais.
— Quer dizer que o senhor não foi levado por nenhum conhecimento específico?
— Foi para a proteção da moça que lhe pedi que viajasse o quanto antes.
— Ela disse ao senhor que fui eu quem passei a ela a correspondência bancária?
— Disse, evidentemente, muito embora não pudesse saber até que ponto...
— Está claro que fui investigar por minha conta e risco, obtendo permissão do banco para referir tudo ao meu cliente.
— Então você ficou inteirado da movimentação financeira correspondente, desde o primeiro até o último depósito.
— Nada disso. Somente me foi dado conhecer o saldo atual. Aliás, o Teo me autorizou a consultar o senhor a respeito de sua tese sobre quem teria encaminhado o documento para o endereço de Rosinha.
— Não tenho hipótese plausível. O máximo que consegui imaginar foi que algum milionário excêntrico, desses que desejam praticar o bem anonimamente, tivesse desviado várias quantias sem comprovação de fonte para a conta de alguém que, sabidamente, doa quase tudo que recebe, conforme os balanços que você me apresenta a cada seis meses e que faço questão de tornar públicos através da imprensa.
— Essa falta de comprovação da origem do dinheiro qual seria?
— Caixa-dois, muito provavelmente. O camarada possui muitas empresas... Eu não preciso explicar isso a você.
— O que o senhor acha que devemos fazer?
— Difícil de aconselhar, principalmente porque Teotônio exige extrema correção moral e jurídica em todos os atos da vida profissional. Não há como encaixar quantia tão elevada no montante dos ganhos. O mais correto perante a lei é denunciar o fato aos poderes públicos competentes. Mas aí, como desconhecemos as pessoas por trás disso, correremos o risco de virmos a ser alvo de represália.
— Doutor, eu pensei em escoar o dinheiro aos poucos, para entidades de ajuda humanitária de caráter internacional, preservando o anonimato.
— Sempre haverá muita facilidade em levantar a proveniência das doações, a menos que tudo se possa fazer com dinheiro vivo, o que implicaria na corrupção de agentes alfandegários. Bastaria, no entanto, que um só denunciasse a tentativa de se trafegar com importâncias elevadas, e logo o pombo-correio, que deveria ser honestíssimo ou regiamente pago, se veria em maus lençóis.
— É, as coisas estão complicadas.
— De qualquer forma, é bom ficarmos prevenidos quanto às prestações de contas de nosso querido cliente.
— Daqui vou diretamente conversar com Arnaldo. Parece que ele está recuperado e desejoso de voltar ao acompanhamento da contabilidade do movimento financeiro do filho.
— Por favor, meu caro Renildo, de tudo o que ficar decidido com ele, ponha-me a par. Certo?
— O tempo que ele ficou alheado dos negócios dificilmente será recuperado. Ele vai ter de pegar o bonde andando.
Não demorou meia hora para Renildo chegar ao antigo apartamento de Teotônio, agora residência dos pais.
Não foi com pouca surpresa que se deparou diante do ex-sargento, que lhe veio abrir a porta, apoiado em uma muleta.
Embora com certa dificuldade, tropeçando um pouco nas palavras, Arnaldo introduziu-o na sala:
— Você chegou em boa hora. Veja quem está aqui: Fulgêncio e Vieira.
Renildo foi acolhido com festas, muito mais porque era o provedor da benemerência de Teotônio do que pela simpatia que pudesse irradiar de sua personalidade. Acontecia que o empresário não participava das reuniões religiosas na igreja nem nunca havia dado o ar de sua graça nas reuniões no centro espírita.
Foi Fulgêncio que o chamou ao tema da conversa:
— Estamos discutindo a vida após a morte. Nós três não temos dúvida de que preservaremos a alma, para recuperarmos a condição de criaturas espirituais, acima de tudo. O que nos perturba é não termos total certeza de como é a existência no outro plano, porque, se existe um espírito imortal, algum corpo ele deve ter para fazer parte da comunidade dos seres etéreos. A acreditar na tradição católica, espera-nos uma natureza imaterial para gozar as delícias do paraíso ou sofrer as desditas do inferno. Vieira, com base na obra de Allan Kardec, diverge quanto à existência imediata de um julgamento eterno, afirmando que a gente vai dar em alguma colônia espiritual, para aprender ou reaprender a utilizar o que ele denomina de perispírito, ou seja, um corpo semimaterial, ressalvando as pessoas de má índole que não aproveitaram a oportunidade para progredir durante a presente encarnação, as quais vão cair em esfera ou círculo de completo sofrimento, o chamado Umbral. Que você pensa a respeito?
Renildo tinha presença de espírito e não se apertou:
— Eu penso que, fazendo as contas do bem e do mal que praticamos, caso este prevaleça, é justo que indenizemos quem foi por nós prejudicado. Caso o saldo seja positivo, vamos ter aprovado o nosso balancete de virtudes, sempre havendo débitos ou imperfeições que necessitem de reformulações contábeis. Talvez voltemos para viver de novo ou seremos enviados para regiões mais ditosas, dependendo sempre do merecimento de cada um. A partir desse princípio, não vejo interesse nenhum em decifrar como se dará a existência seguinte, concentrando-me no aqui e agora do presente, plantando as sementes do amor e da caridade, porque são elas que florescem ao longo da alameda que leva aos campos do Senhor.
Arnaldo fez questão de manifestar sua admiração:
— Nada como possuir mentalidade poeticamente prática. Apenas gostaria de colocar uma pequena objeção: nem sempre as pessoas que prejudicamos acabam mesmo prejudicadas. Perdoem as minhas dificuldades. Vou dar um exemplo pessoal. Vamos dizer que eu fosse um desses que não passaram a vida de modo muito exemplar. Mas eu sofri um derrame e fiquei incapacitado pra reparar os males. Será que terei de passar um tempo no Umbral ou no Purgatório? Não vale como penitência o sofrimento atual? Se me arrepender, não farei jus ao perdão de Deus, como tantas vezes recebi a bênção dos sacerdotes no confessionário?
Arnaldo precisou parar para recuperar o fôlego. Nem por isso os outros três se precipitaram para dar resposta às observações. Provavelmente, cada qual refletisse que o exemplo dado era fruto de uma dor vívida que apontava para graves preocupações íntimas.
Depois de longa e respeitosa pausa, Vieira atreveu-se a falar, chamando a atenção para si por meio de uma tossinha desajeitada:
— Quero expor uma questão bem simples: o importante é a qualidade e não a quantidade, quando se trata de sentimentos e emoções. Angústias existem que levam ao suicídio, enquanto há quem não se comova com o fato de causarem a morte de vinte ou trinta pessoas. O espiritismo ensina que, para progredir, nós todos temos de compreender o que seja a caridade, praticando-a conscientemente, conforme o axioma que Kardec tornou a mais nobre assertiva da doutrina: fora da caridade não existe salvação. No tempo do codificador, dava-se primazia à formação do caráter, de sorte que as pessoas de bem se comprometiam com a verdade, com a justiça, com o humanitarismo. Kardec ouviu dos espíritos que o guiavam na confecção de suas obras pioneiras que a fé tinha de ser raciocinada. Hoje em dia, damos muito valor à inteligência, tanto que admitimos a definição de Deus que se acha em O Livro dos Espíritos: Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Alguém deseja interromper para alguma objeção ou pergunta?
Fulgêncio foi quem se manifestou:
— Estou esperando a conclusão, porque prevejo que algo vai sobrar para a Igreja Católica Apostólica Romana.
Vieira prosseguiu:
— Arnaldo levantou o problema do perdão de Deus para quem se arrepende. Ora, o arrependimento só é possível se o indivíduo tiver compreensão absoluta do mal que praticou, inclusive da deficiência de formação do próprio caráter, o que o levará a nunca mais repetir o que chamaríamos de pecado, para usar um termo bem ao gosto dos sacerdotes. A pergunta obrigatória, neste caso, é quanto a ser possível que tudo isso se dê na presente encarnação. Digamos que alguém cometa um crime qualquer, constituindo uma vítima. Vai ao confessionário, conta tudo, diz que está arrependido, recebe a penitência, a absolvição do padre e o perdão de Deus. É lógico que, em seu coração, terá dito o ato de contrição com forte apego à verdade e à virtude. Então cumpre a penitência e assume a condição de pureza para receber o corpo do Cristo, através do sacramento da comunhão. É o que se chama estado de graça. Uma semana depois, volta ao confessionário e diz ao padre que cometeu de novo o mesmo pecado, acrescentando outros. Esse homem ou mulher, se tivesse morrido assim que tomasse a comunhão uma semana antes, estaria em condições de virtude para ter abertas as portas do paraíso celeste?
Fulgêncio pediu a palavra:
— Posso responder?
— Por favor.
— Se ele ou ela tivesse morrido nessas condições iriam para o céu, porque assim teria sido determinado pelo Senhor. Essa é uma diferença substancial entre a sua doutrina e a minha religião, ou seja, a nossa fé é fruto de convicção estabelecida pela Igreja através de dogmas, que não permitem discussão. Se ele ou ela não morreram é porque não mereciam, aos olhos do Pai, adentrar na bem-aventurança. Mas pode continuar, porque estou prestando bastante atenção.
Vieira fez um gesto como a dar palmadas no interlocutor e prosseguiu inabalável:
— Se a gente continuasse nessa linha de pensamento, inevitavelmente iríamos concordar em que a vontade de Deus sempre haverá de prevalecer, pois a solução para as vidas individuais é a felicidade eterna ou o eterno sofrimento, segundo a Igreja, ou a eterna bem-aventurança de todas as criaturas, do ponto de vista da doutrina espírita, já que acreditamos que a evolução é contínua e não comporta retrocessos. Prefiro ser mais otimista, fechando definitivamente as portas do inferno, o que se comprovará mais cedo ou mais tarde, segundo o nível de adiantamento moral de cada um.
Arnaldo desejou ouvir a opinião de Renildo:
— Como o nosso contabilista encara esses desenvolvimentos teológicos?
Novamente, Renildo não se furtou a dar opinião:
— Não me parece que vamos resolver o mistério da vida e da morte, ainda que discutíssemos até o final dos tempos. Volto a afirmar que o entendimento será tanto mais perfeito quanto mais nos aperfeiçoarmos no cumprimento das leis de Deus, resumidas no amor a ele e ao próximo, como nos recomendou Jesus. O mais é fixação de pontos de vista, conforme o grau de descortino, de agudeza intelectual de cada um. Quanto a Deus perdoar ou não os pecados, todos os critérios que formos capazes de relacionar a favor ou contra esbarrarão nos desígnios superiores do Criador, os quais, por mais que nos esforcemos para descobrir, sempre haverão de ser divinos, enquanto nós somos apenas humanos.
Viam-se nos rostos dos três ouvintes claros sinais de aprovação e simpatia. A lógica dos argumentos do empresário parecia englobar não só o que haviam dito o sacerdote e o espírita, mas também o seu universo mental e cultural, ideário subjacente à necessidade de expressão formal dos conceitos, substrato de verdade íntima haurido da certeza de que, na hora de prestarem contas dos atos, haveria forte saldo de virtudes a seu favor.
Vendo que todos hesitavam em continuar, Arnaldo incentivou os interlocutores:
— Senhores, eu não estou no mesmo nível dos santos e dos espíritos de luz. O meu problema é muito mais chão. Estou pensando nos pobres e miseráveis que não receberam educação e cuja cultura se situa em faixa social muito inferior. Não se esqueçam de que passei a minha vida toda lidando com criminosos. O meu horizonte agora, depois que me vi embaraçado física e mentalmente, é que se está alargando um pouco. Será que, realmente, fora da caridade não existe salvação? Será que esse é o caminho, a verdade e a vida, porque Jesus, que assim se posicionou, é o nosso exemplo de ser humano perfeito? Perdoem-me, mas tenho de respirar um pouco.
Nesse momento, Wilsinho chegava de fora, admirando-se de encontrar o pai conversando tão animadamente:
— Nem parece o mesmo homem de dois meses atrás. Esse é o que se pode chamar de verdadeiro milagre. Pai, pra que santo você tem rezado?
Tendo percebido que o filho havia chegado, Dona Vilma entrou a tempo de lhe dar a resposta:
— Esse aí faz tempo que não reza: resmunga, resmunga e, quando eu pergunto o que está acontecendo, ele me diz que está conversando com o espírito do Cabo Faria.
Arnaldo defendeu-se:
— Pois é a mais pura verdade, tanto que chamei os meus amigos religiosos pra me responderem a algumas dúvidas que me têm deixado cismado, por causa do castigo que recebi da natureza.
Vieira adiantou uma observação:
— Diz a sabedoria popular que há males que vêm para bem. Quem sabe essa interrupção de suas atividades habituais lhe tenham sido causadas para dar-lhe a oportunidade de refletir a respeito das coisas verdadeiramente importantes da vida?
Fulgêncio acrescentou:
— Estou de pleno acordo com meu velho amigo Vieira. Não é verdade que a própria natureza humana prepara a todos nós para a vida espiritual, quando nos sentimos sem forças físicas? Como aqui ninguém duvida de que tenha sido Deus quem nos criou, posso afirmar que ele foi previdente a esse ponto.
Wilsinho, enquanto discorriam os outros, disse ao pé do ouvido de Renildo:
— Preciso muito conversar com o senhor.
Dona Vilma, por seu turno, quis saber quem é que ficaria para o almoço, dando oportunidade para que Renildo sussurrasse ao jovem:
— Estou às suas ordens.
— Vamos ao meu quarto.
E em voz alta:
— Mãe, Renildo vai ficar e eu também, mas não se esqueça de que vou tomar apenas um prato de sopa, porque o treino é daqui a duas horas.
No quarto do moço, Renildo logo teve a atenção despertada pela enorme fotografia com todos os convocados da seleção brasileira sub-15, a primeira de que participara, sem ter jogado nenhuma partida.
Não fosse o quadro, as paredes estariam inteiramente nuas. Aliás, a simplicidade espartana das acomodações admitia apenas a cama de solteiro, duas cadeiras, uma mesa pequena e um armário que ocupava toda a parede lateral, sem espelho visível.
— Renildo, fique à vontade. Sente-se, por favor.
— Wilsinho, permita-me admirar a sua...
— Não se admire de nada. Se eu abrir as portas do armário, você vai ver que tenho muitas coisas, roupas e todos os jogos gravados de meu irmão no exterior.
— E quanto aos seus?
— Tenho muitos. Quer ver?
Ato contínuo, o rapaz abriu as portas do meio, revelando um aparelho de televisão de grande porte e várias prateleiras, com repartições em que disciplinadamente se viam os discos de vídeo.
— Passo as várias horas livres que tenho em casa reproduzindo as partidas. É como eu gosto de estudar as táticas dos técnicos e as habilidades dos atletas.
— Acho que bem poucos se dão a esse trabalho.
— Pelo menos, eu não conheço ninguém. Mas também não fico divulgando por aí a minha riqueza.
— Parabéns!
Enquanto fechava o armário, Wilsinho começou a explicar a razão de haver chamado o empresário:
— Renildo, eu gostaria de saber o que se passa entre meu irmão e minha cunhada. Parece que as coisas não andam bem entre eles. Ao menos, ela tem ficado por aqui e quem viaja é ele. Sempre que pergunto ao Teo, ele me diz que está tudo bem e que, pras crianças, é melhor que elas fiquem no Brasil. Essa eu não engulo, tanto que, de repente, a mãe as levou de volta pra Europa, deixando todo o mundo aqui preocupado. Que está acontecendo?
Renildo considerou que o jovem estava realmente desejoso de conhecer a verdade, refletindo que poderia pô-lo a par apenas de alguns fatos, sem quebrar o sigilo quanto à conta bancária misteriosa:
— Posso afirmar-lhe que os dois estão muito bem, unidos mais do que nunca. Problemas todos nós temos, principalmente quando estamos distantes de casa, contudo, lá eles são bem recebidos por toda a parte.
— Mas Rosinha parece que não se adaptou.
— Ela teve várias crises. Você se lembra de quando nasceu Jacira? Pois aquela época foi muito difícil, porque, naturalmente, ela rejeitou a filha. Os médicos diagnosticaram depressão pós-parto. Quem poderia esperar que isso acontecesse? Ela sempre foi muito amorosa e jamais teve uma palavra que deixasse seu irmão preocupado, apesar de ter sido seqüestrada pela própria prima. Quem poderia esperar que isso também acontecesse? É claro que ela não teve nunca uma vida fácil. O irmão foi assassinado, o sogro sofreu um atentado em que morreram vários companheiros e outros tantos bandidos. Ela perdeu o pai quando criança. Essas coisas todas deixam marcas. É lógico que não se sinta muito segura, porém, veja bem, ela ama seu irmão e os filhos, não se esquece da mãe, passando-lhe uma soma mensal estipulada por seu irmão, adquiriu um belo apartamento para os tios. Se ela não está totalmente adaptada no exterior, podemos dizer que também não se sente muito à vontade aqui. Não tem você essa impressão?
— Quantos anos de contrato o Teo ainda tem de cumprir?
— Isso agora não importa. O importante é considerar se ele vai querer continuar por lá e até quando. Se você está sugerindo que ele volte pro antigo clube, devo dizer que, no Brasil, não existe nenhuma agremiação que tenha condições de cobrir a transferência dele nem de bancar-lhe os vencimentos.
— Era o que eu desejava ouvir. Usando de franqueza, não é verdade que o Teo é uma espécie de prisioneiro de luxo?
— Wilsinho, você não sente prisioneiro aqui?
— É diferente.
— Não é, não. Se você quiser rescindir o contrato, vai ter de apelar pro seu irmão pra cobrir as multas, sem contar que dificilmente outro clube vai querer tê-lo em suas fileiras, por causa do rompimento unilateral. Já pensou sobre isso?
— Já pensei, tanto que ia pedir-lhe que me dê assistência, quando for chegada a hora de eu desistir da carreira.
Renildo levou um choque. Não esperava ouvir jamais que alguém não desejasse um futuro esportivo tão brilhante quanto o que se punha em perspectiva diante do jovem craque. Apesar da surpresa, entretanto, manteve o controle das emoções e, sem argumentar de modo contrário, apenas agradeceu a lembrança de seu nome:
— Fico feliz de você estar propondo-me que trate de seus negócios. Sei que vou corresponder plenamente. No momento oportuno, espero receber o seu aviso, naturalmente com o alvará de seus pais e a aprovação e o apoio do seu irmão.
— Não fique muito preocupado nem saia correndo para dar a notícia ao Teo. Aliás, peço-lhe que guarde segredo. Posso contar com isso?
— Perfeitamente. Só gostaria de saber quais são os seus planos fora do futebol.
— Por enquanto, vou manter-me estudando. No ano que vem, entro para uma faculdade qualquer, dessas mais modernas de ciências aplicadas, e depois me encaminho. Não tenho nada decidido. O que não quero é me ver na situação do Teo.
O restante do dia ainda reservaria algumas novidades para Renildo.



7. ARNALDO SE ENTENDE COM RENILDO

Fulgêncio e Vieira não ficaram para o almoço. Wilsinho tomou um pouco de caldo e recolheu-se para descansar. Dona Vilma deixou o marido a conversar com o empresário, indo supervisionar o trabalho das empregadas.
Acomodados na sala de estar, diante do olhar interrogativo do outro, Arnaldo iniciou longa digressão:
— Querido amigo, eu nunca fui de falar muito. Você deve estar estranhando que agora, com todas as minhas dificuldades, estou pondo-me a tagarelar. De qualquer modo, tenha paciência e leve em conta que estou fazendo esforço muito grande pra não ficar tropeçando nas palavras.
Renildo fez um gesto que compreendia.
Arnaldo continuou:
— Em primeiro lugar, devo dizer-lhe que o que tenho pra tratar com você não tem nenhuma ligação com os serviços que realizava, em função de auxiliá-lo na contabilidade do Teo. Eu sei que você pensou que essa era a razão de eu querer conversar, porque sugeri isso a Vilma, que nada sabe a respeito dos meus assuntos particulares.
— Realmente, isso não me pareceu bastante claro, porque o seu afastamento faz com que tenha perdido inteiramente o controle das contas. Aliás, não acho recomendável que se dedique mais a esse trabalho, que pode ser bastante estressante.
— Concordo e acho que essas razões serão muito eficientes para convencer Vilma e Teo de que você me dissuadiu daquele intento. Isso quer dizer que as coisas que vou expor-lhe exigem da sua parte o mais completo sigilo. Posso contar com isso?
— Se estou merecendo a sua confiança...
— Estes últimos anos me ensinaram que estou tratando com pessoa de caráter ilibado e de moral elevadíssima. Aprendi a admirá-lo, principalmente pelo fato de que você sempre soube indicar o melhor caminho pro Teo, tanto que lhe peço que cuide também de direcionar Wilsinho da melhor maneira possível.
— Assim que ele solicitar meus préstimos profissionais.
— Muito bem. O que tenho pra dizer-lhe envolve outras pessoas, algumas falecidas, outras ainda vivas. Pretendo passar-lhe apenas um nome. Também existem acontecimentos que se contam aos milhares, mas irei fazer referência tão-só a um ou dois, no máximo.
Nesse momento, Arnaldo precisou tomar fôlego. Quanto a Renildo, estava excitado a ponto de esquecer-se completamente de si mesmo. Parecia-lhe que iriam encenar-se os mistérios dolorosos de um espírito endividado.
O silêncio foi longo. Somente ao cabo de dois minutos é que Arnaldo continuou:
— Antes de passar aos fatos, devo lembrá-lo de que, por ter sido durante tantos anos policial, conheci toda espécie de falcatrua, de crime e de violação das leis dos homens e de Deus. Conheci por dentro como são as ações e como fugir das conseqüências, acrescentando um fator muito ponderável: o poder da autoridade legalmente constituída.
Arnaldo encarou o interlocutor, como a tentar ler-lhe na fisionomia se os dizeres estavam repercutindo profundamente. Compenetrado de que Renildo o seguia com facilidade, continuou:
— Quando entrei pra corporação policial, fui atraído pela ordem e pela disciplina que impõe a profissão. Fiquei algum tempo exercendo o patrulhamento e logo me vi perante vários corruptores, diante de ofertas que me deixaram nervoso, contrariado, tanto que três deles carreei pra delegacia, lavrando os autos respectivos. Foi como logrei chamar a atenção de meus superiores, tendo sido recolhido ao quartel pra serviços internos. Desempenhei as novas funções a contento, porque, como você já percebeu, gosto muito da escrituração contábil. Em suma, depois de apenas dois anos de caserna, fui guindado a sargento, mercê do curso e do treinamento que me foram oferecidos. Não é verdade que se abria pra mim a perspectiva de ótima carreira?
Renildo ia responder, mas Arnaldo não deixou:
— Pois foi a minha ruína moral. Assim que me vi guindado ao cargo, me vi forçado, mediante ameaça à família, a registrar os ganhos extraordinários de um bando de policiais que exerciam a segurança de uma quadrilha de malfeitores, com polpudas propinas e todo tipo de arrecadação paralela possível.
Arnaldo fez uma pausa para uns goles de água, precisando enxugar o suor que lhe inundava a camisa, escorrendo do rosto.
Renildo ajudou-o, rogando-lhe:
— Sargento, o senhor não precisa dizer mais nada. Entendi que foi envolvido e que nada poderia fazer pra livrar-se das correntes que o atavam.
— Perdoe-me, bom amigo. Tenho de contar-lhe algumas coisas mais.
— Seja breve.
— Eu fiquei o tempo todo na retaguarda, nunca sendo requisitado pras ações efetivas do bando. Quando ganhei a mais completa confiança de todos, pediram-me pra supervisionar algumas contas bancárias, em nome deles próprios e de pessoas da família. Era regra que os gastos não despertassem a atenção do fisco ou do ministério público. Se um soldado aparecesse com uma viatura do ano, eu tinha de forjar documentos que pudessem comprovar de alguma forma que o dinheiro usado pra compra era lícito.
— Senhor Arnaldo, não precisa ensinar o pai-nosso ao vigário.
— Está bem. Se você não pratica, ao menos deve saber como fazê-lo.
— Tive bons professores.
— Alguns anos se passaram e as reservas foram ficando por demais volumosas, podendo despertar a curiosidade e até o interesse dos funcionários das instituições bancárias. Levei tal preocupação ao grupo e, depois de refletirem a respeito da melhor solução, resolveram que a maneira mais eficaz de manter a liquidez do dinheiro era depositá-lo em contas no exterior. Fui, assim, encarregado de encontrar os meios de fazê-lo, o que me obrigou ainda mais perante a quadrilha. Eu mesmo mantive conta em meu nome, conta que era duas vezes maior que as dos outros, porque eu jamais utilizei um centavo do que me pagavam, enquanto eles iam adquirindo propriedades ou esbanjando em festas e orgias. Houve um que manteve três casas, com filhos de diferentes mulheres. Os meus filhos deixei até passar necessidades, dando-lhes vida rigorosamente espartana, militar que sempre fui, antes de mais nada.
Renildo, que começara boquiaberto, terminava estarrecido.
“No mínimo”, dizia lá com seus botões, “o velho está ciente de que estive investigando. Vamos ver se ele me explica como é que Rosinha se viu metida nesse enrosco.”
Arnaldo prosseguia:
— O bando, alguns anos atrás, desconfiou de que os traficantes vinham ganhando muito mais do que declaravam. Houve acertos de contas. Violentos. Sangrentos. Muitos morreram. Alguns dos nossos foram executados pelos próprios colegas, como queima de arquivo. Eu mesmo me livrei por pouco, tendo sido atingido na perna. Essa foi a pior das chacinas. De repente, eu me vi administrando várias contas sem titulares. Aí diligenciei pra que tudo se concentrasse no meu nome. Pretendia distribuir os saldos entre os parentes dos proprietários. Foi quando certa força estranha se exerceu sobre a minha consciência. Nas confissões aos sacerdotes, não contava esse pecado. Dizia no fundo da alma que eu estava sendo obrigado a fazer o que vinha fazendo há tantos anos. Mas esse verme foi esburacando a minha mente, de sorte que, quando tomei conhecimento do espiritismo, já estava suficientemente minado pra admitir que pertencia efetivamente ao bando de criminosos. Eu não era instrumento; eu era agente do mal.
Arnaldo tremia, enquanto deixava correr lágrimas que lhe tiravam soluços do organismo físico. Mas não disse uma única palavra que soasse piegas ou sentimentalóide. Mesmo naquele transe de vergonha e sofrimento moral, permanecia rígido e disciplinado, conforme se declarara ainda há pouco.
Renildo, sem saber direito como agir, apenas aguardou que a crise se dissipasse. Em breve, estava Arnaldo recomposto, ávido por terminar as explicações:
— Desculpe-me, meu amigo, por envolvê-lo neste meu caso. Acontece que, dentre tantas decisões erradas, uma houve que fez com que você se deslocasse mundo afora. Foi o ter mudado o endereço pra remessa do saldo da conta, pois acreditei que iria morrer. Fiz isso quando me vi com um pouco de lucidez, pensando que Rosinha poderia, de algum modo, distribuir o dinheiro pra caridade. Você deve estar querendo saber a razão de ter colocado a moça nessa delicada situação. Faz tempo que ela consta como titular da conta. Foi a maneira que encontrei pra compensar a família pela morte de Renato, assassinado pela quadrilha, no meio da chacina dos traficantes. Ele foi surpreendido quando se abastecia pro tráfico. Estava no lugar errado, na hora errada. Mas as coisas correram de forma que eu jamais poderia imaginar, porque o Teo acabou tornando-se milionário e a quantia que reservei no exterior já não representa mais nada pra ele. Sei que provoquei muita inquietação no espírito do casal, do que me penitencio agora e lhe peço pra me ajudar a resolver a embrulhada em que os meti.
Arnaldo estava ofegante e Renildo aproveitou a interrupção a que foi obrigado para observar:
— O susto que Rosinha tomou levou-a a consultar o Doutor Rosalvo, que a aconselhou a voltar pra companhia do marido, sem avisar ninguém. Dessa forma, eles agora estão mais juntos do que nunca, estando a família reunida. Aliás, estive com o advogado hoje de manhã e ele não suspeita de nada do que conversamos, pra sua tranqüilidade. Mas o que quer exatamente que eu faça?
— Depois eu vou dar-lhe os documentos através dos quais a conta foi aberta. Houve alteração de dados, conforme orientação do próprio banco. Munido dos originais e com as respectivas falsificações, você poderá apresentar-se para retirada de qualquer soma. Os procedimentos correm por sua conta, bem como o destino a ser dado ao dinheiro. Quanto a informar ao Teo sua procedência, peço-lhe para deixar que darei um jeito nisso. O que eu quero é que você não faça nada no próximo mês.
— Senhor Arnaldo, como é que o senhor soube o que se passou com Rosinha, com Teo e comigo?
— Recebi ligação do banco, informando-me de que você passara por lá. Quando transferi o nome do titular da conta, me mantive como responsável por ela. A partida súbita da minha nora denunciou-me que ela recebera o aviso do banco. Estando você com meu filho, conforme ele mesmo contou pra mãe, pude deduzir como é que os fatos se deram. Não se esqueça de que o ramo das investigações eu domino bem.
— Quem mais sabe a respeito da conta?
— Creio que ninguém, nem mesmo os membros vivos da quadrilha. Isto me lembra que, pra todos os efeitos, estou oficialmente à beira da morte, com a mente e o físico arruinados. Vieira e Fulgêncio foram alertados pra guardarem segredo. A família de Rosinha não tem vindo visitar-me e, quando alguém vem, fico como inútil na cadeira de rodas.
— E Wilsinho?
— Hoje foi a primeira vez que ele me descobriu mais aceso. Você não notou a reação dele?
— Notei mas não estranhei.
— De qualquer modo, tenho estado completamente isolado, não havendo ninguém interessado em me arrastar de novo pra contabilidade criminosa.
Passava das cinco da tarde quando Renildo se despediu de Dona Vilma, que ficou ministrando remédios ao marido.



8. LUTO NA FAMÍLIA

Seja porque as emoções tenham sido por demais fortes e o coração não agüentou, seja porque designara alguém para levar a cabo a missão de restabelecer o equilíbrio no lar do filho, seja ainda porque aquele tempo após o primeiro ataque lhe fora concedido para melhor entendimento dos desígnios de Deus ao criar o universo e a vida, o fato é que, uma semana depois de haver revelado o passado ao empresário, Arnaldo desencarnou.
A notícia apanhou Teotônio desprevenido, já que recebera informações de várias procedências de que o pai estava quase curado.
— Rosi, vamos fazer uma prece pelo bom recebimento daquele espírito no plano superior?
— Vamos, muito embora eu acredite que a oração deva ser íntima, dita pelo nosso coração.
— Certamente. Então me dê a mão e nos concentremos para enviar as nossas vibrações de amor e benquerença à criatura que me deu a vida e me criou.
Ambos permaneceram em silêncio por alguns instantes. Jacira e Renatinho dormiam. James e os demais criados se ocupavam na parte dos fundos da mansão com os preparativos para o jantar, enquanto a governanta vigiava o sono das crianças. O casal estava à vontade para conversar.
— Querida, você vai querer viajar comigo?
— Eu gostaria, porque assim você teria alguém em quem se apoiar.
— A sua companhia vai suavizar a terrível jornada, muito embora, como você está vendo, eu esteja bem controlado e já conformado. Acho que foi a longa doença que me preparou para o desenlace.
— Teo, a gente nunca sabe como é que vai reagir diante das pessoas que sofreram a perda. A sua mãe deve estar arrasada.
— Você acha?
— Não se esqueça de que eu vi a minha sofrer com a morte de meu pai e, mais ainda, do meu irmão. Por mais forte que a gente seja, por mais filosoficamente que encaremos essa passagem obrigatória, sempre fica na nossa mente, no nosso coração, na nossa personalidade, uma espécie de frustração existencial, um vazio cheio de angústia e de saudade.
— Onde você aprendeu a pensar e a sentir desse modo?
— Aprendi com as experiências por que passei. E também li em diversas obras, ultimamente. Enfim, você pode não concordar comigo porque a sua vida, fora alguns sobressaltos, tem passado num mar de rosas.
Teotônio ia perguntar se a dela também não era um mar de rosas, mas preferiu silenciar, para não ter de relembrar os transes dos partos e as dificuldades de adaptação no exterior. Então, voltou a perguntar:
— Quer dizer que você vai comigo?
— Vou e levo as crianças. Não vai ser preciso levar ninguém mais. Aliás, já estou pensando em dispensar a governanta.
— E quem vai tomar conta deles? Você?
— Quem sabe minha mãe; quem sabe a sua.
— Você não está pensando em ficar mais tempo lá, está? Não se esqueça de que existem missas de sétimo dia e de mês, e muitas outras complicações naturais num lar que se desestrutura.
— Quando a gente voltar, eu resolvo. De qualquer modo, você sabe que eu não posso ficar sozinha por lá.
— Nem depois de Renildo nos haver tranqüilizado?
— Ele disse pra gente sossegar, mas não disse mais nada. Eu tenho cá as minhas dúvidas, principalmente sabendo que a conta continua aberta.
— Eu ia pedir-lhe pra ficar, porque estava com medo de que você não fosse querer voltar. Mas esse receio passou. Vou comunicar ao clube o falecimento do velho e pedir autorização pra viajar. Acho que tenho direito a sete ou oito dias de folga. De qualquer modo, vamos no primeiro vôo direto, esta noite mesmo. Vou pedir ao James que cuide de tudo.
Meia hora depois, Teotônio recebera permissão para viajar, devendo regressar, se lhe fosse possível, dentro de cinco dias, para o próximo jogo. James, por sua vez, trouxe a notícia de que não havia vagas no vôo pretendido, devendo embarcar apenas na manhã seguinte, isso por favor especial das autoridades, por ser ele quem era.
— Rosi, tive a idéia de mandar embalsamar o corpo, pra dar tempo de a gente chegar pro enterro. Que é que você acha disso?
— Posso fazer dois comentários, ambos contrários. Primeiro, mesmo que fôssemos hoje, não iríamos chegar a tempo, o que significa dizer que, se a turma de lá quiser que você acompanhe o féretro, vai tomar a providência do embalsamamento. Segundo, será dar muita importância à matéria, pra quem se diz espírita e se achar perfeitamente conformado às leis naturais tais como se acham estabelecidas pelo Criador.
— Você foi muito além da simples observação que eu esperava ouvir, ou seja, que a minha presença irá tumultuar o que deveria ser simples cerimônia íntima. Pensei em que haverá muitos policiais, já que se vai enterrar um deles mas, comigo lá, vão precisar organizar todo o sistema de segurança.
— Teo, eu acho que é o mesmo caso do embalsamamento. Eles vão tomar todas as providências, assim que souberem a que horas vamos desembarcar. Até parece que estou vendo o helicóptero próximo da aeronave, a nos levar até o topo do nosso edifício.
Não deu tempo para o rapaz responder: soava o telefone.
— É você, Wilsinho?
— Eu mesmo. Estou ligando pra avisar que tomamos algumas providências sem consultá-lo, porque nos pareceram as mais lógicas. O pai vai ser enterrado amanhã cedo, às dez horas. Com certeza você não vai chegar a tempo.
— O nosso vôo só vai sair daqui pela manhã.
— Você faz questão de velar o corpo ou de comparecer às cerimônias? Se fizer, está em tempo de mudarmos o horário.
— Façam do jeito que vocês planejaram. Aliás, quem foi que tomou as iniciativas?
— Eu não precisei fazer nada. Os superiores do pai fizeram quase tudo. Renildo deu mão forte na parte da papelada. Fulgêncio esquematizou o velório, cuidando de tudo junto ao cemitério, onde o corpo já se encontra. Até Vieira participou, dizendo uma oração muito comovente, antes do translado do hospital pro cemitério.
— Sendo assim, parece que não preciso fazer nada, a não ser determinar a Renildo que cubra todas as despesas.
— Os gastos foram mínimos, porque a mãe desejou que tudo fosse muito modesto, inclusive o caixão.
— E a imprensa?
— Os caras só estão preocupados com você, quando vai chegar, em que vôo etc. Você não foi incomodado por algum correspondente?
— Não sei se James recebeu alguma ligação. Se recebeu, soube desvencilhar-se dos curiosos.
— Também não é a melhor hora pras entrevistas.
— Wilsinho, como está a mãe?
— Está melhor que eu, que estou bastante nervoso e precisei até tomar um calmante. Ela, não; ela ficou o tempo todo ao lado do pai, sem chorar, consolando muito mais do que sendo consolada.
— Ela deve ter-se preparado depois do primeiro ataque.
— Com certeza. Existe alguma informação que você queira receber ou passar-me?
— Onde você está agora?
— Em casa, preparando-me pra ir ao velório.
— Eu vou de helicóptero do aeroporto pro apartamento. Espero encontrar vocês lá, inclusive a mãe de Rosinha, os nossos tios e os dela; enfim, toda a família mais os amigos. Preciso agradecer a todos por tudo.
— Deixe comigo.
Mal desligou, o telefone voltou a soar.
— Olá, Renildo.
— Meus pêsames, Teo. Sinto muito que você não tenha tido tempo pra ver seu pai ainda em vida. Ele me disse, há uma semana atrás, que desejava conversar com você nos próximos dias. Infelizmente, partiu antes.
— Muito obrigado, amigo. Estou levando Rosinha e filhos. Algum problema quanto a isso?
— Nenhum problema. Quanto às minhas investigações, tenho muitas novidades, todavia, agora não é oportuno falar sobre isso. Venha sem cuidados. Aqui eu quero colocá-lo ao par de tudo.
— Você pode efetuar os pagamentos relativos ao hospital, ao cemitério etc.?
— Nem precisava dizer. Faz parte de minhas obrigações rotineiras, muito embora se trate de situação muito triste.
— Eu lhe agradeço.
— Vou esperá-lo no aeroporto.
— Se puder providenciar um helicóptero pra nos levar até o prédio, vai poupar-me mais uma preocupação.
— Conte com isso. Adeus, meu caro.
— Obrigado por tudo.
A chegada ao Brasil não foi tumultuada, contudo, Renildo apareceu com uma novidade:
— Está aí o helicóptero, mas eu sugiro que Rosinha e as crianças vão com ele diretamente pra casa. Como o assédio dos jornalistas foi muito grande, prometi a eles que você iria diretamente ao cemitério. Eles só estão querendo registrar sua imagem.
— Renildo, você está fazendo marketing com a morte do meu pai?
— Teo, a sua figura é pública. Os seus admiradores o adoram e gostariam de testemunhar o seu amor por seu pai e a sua tristeza pela morte dele.
— Eu gostaria, ao menos, de trocar de roupa, que a viagem praticamente me amarrotou.
— Previ tudo isso, por isso lhe trouxe um terno cinza e uma camisa branca. É só se trocar aqui mesmo no reservado da sala VIP.
Teotônio precisou curvar-se às considerações do amigo e empresário. Despachou Rosinha e os filhos, que logo estavam em casa. E seguiu de limusine para o cemitério, cercado de batedores da polícia. Durante todo o trajeto, vidro abaixado, pôde observar o carinho da população alertada pelos repórteres radiofônicos.
Ao chegarem ao campo santo, que distava do aeroporto mais de quinze quilômetros, Teotônio notou que a aglomeração do lado de fora não era grande.
O automóvel passou através do portão principal, indo parar diante da capela, onde Fulgêncio esperava pelo amigo.
Ao descer do carro, espocaram os flashes, sendo os radialistas afastados por Renildo com a promessa de Teotônio atendê-los após a visita ao mausoléu da família, argumentando que a pessoa que estava ali era o filho do morto e não o querido ídolo do povo.
Formou-se, então, uma comitiva que seguiu em procissão pela alameda principal, indo, na frente, três grandes coroas de flores, como um escudo protetor.
Teotônio não conhecia o suntuoso túmulo. Sabia que custara caro e assistira ao vídeo que lhe exibira Renildo. De qualquer forma, o forte aroma emanado do grande volume de flores lhe causou uma tontura que exigiu que Fulgêncio e Renildo o amparassem.
Em breve, estava o moço acariciando, repousada sobre uma coluna, escultura de aço, uma âncora sem farpas, a mesma que dera a Laura e depois a Rosalvo, o qual fizera questão de demonstrar ternura pelo antigo funcionário e atual cliente, devolvendo-lhe o que lhe parecia ser o símbolo do desprendimento das coisas materiais.
Ali estava também, indelevelmente gravada no mármore, a fotografia de Arnaldo, que lhe despertou as lembranças felizes de toda a vida. Lágrimas da mais pura emoção correram-lhe pelas faces, enquanto, estimulado por Renildo, Fulgêncio começou uma prece de encomenda da alma do morto e de encorajamento do filho, encerrando com um pai-nosso repetido pela maioria dos presentes.
De volta ao carro, encontrou Teotônio um caixote que o livrou de subir os quatro degraus da capela para falar ao jornalistas.
Fez-se silêncio.
— Meus irmãos da imprensa, disse ele com a voz muito embargada, vocês vão perdoar-me não estar em condições de atender aos reclamos de sua necessidade de bem informar os leitores, ouvintes e telespectadores. Eu amava muito meu pai, que deve estar sendo recebido na espiritualidade, conforme me assegura meu amigo, Padre Fulgêncio, pelos anjos protetores e demais espíritos que o amam e respeitam. Espero poder falar com vocês numa coletiva que darei antes de regressar. Desculpem-me e obrigado pelo seu carinho e compreensão.
Contrariando todas as expectativas, os profissionais da notícia abriram caminho e deixaram o craque retirar-se.
Ao invés, porém, de voltar pela avenida, a limusine contornou os muros externos do cemitério, indo dar num descampado, onde se encontrava pousado aquele mesmo helicóptero que lhe transportara a família.
Calado pela tristeza que lhe avassalava a alma, Teotônio cumprimentou um a um os doze motociclistas como ainda o condutor do carro e subiu na aeronave. Foi quando notou que Renildo e Fulgêncio haviam ficado em terra. Mal deu tempo de um aceno e logo estava trafegando em direção de casa, onde chegou minutos depois.
No alto do edifício, esperava-o Wilsinho. Abraçaram-se demoradamente, os corações batendo no mesmo compasso da perda paterna.
Finalmente, Wilsinho avisou o irmão:
— A mãe está aí, mas ela quer ir logo embora. Veja se você consegue retê-la, porque lá em casa existem muitas lembranças do pai.
— Por que ela está querendo voltar pra lá?
— Eu acho que ela está com medo de que a empregada remexa nos guardados do velho. Ele deixou o escritório todo revirado e nós simplesmente trancamos a porta, mas esquecemos que há uma duplicata da chave com a arrumadeira.
— Que horas são?
— Apesar de estar claro são quase vinte horas.
— Horário de verão. Na Europa, já terminou há algum tempo. Estou perguntando...
— A arrumadeira e a cozinheira estão morando conosco.
— Então ligue pra elas...
— Você acha que não ligamos?! A mãe está é arrumando uma boa desculpa.
— Vai ver que ela não quer me deixar aborrecido com as recordações...
— Não tinha pensado nisso.
— Vou dar um jeito. Pode deixar.
O encontro com Dona Vilma foi sem lágrimas. Estando ela sentada, não se levantou, recebendo o filho, que se ajoelhou para que ela o abraçasse, descansando a cabeça em seu colo. Enquanto lhe afagava os cabelos, a mãe comentou:
— O pai teve tempo de mandar-lhe um beijo e uma palavra de estímulo: “Diga ao Teo que eu me considero abençoado por ter um filho tão bom.” Ele também mandou beijos aos netos e uma palavra de carinho pra Rosinha: “Que ela encontre forças pra perdoar aqueles que mataram seu irmão.” Eu sei que ele agora está muito bem. Dona Flávia me contou a respeito do médium da federação espírita e, assim que eu puder e Vieira me orientar, irei consultá-lo a respeito do seu pai.
Teotônio notou que a concepção espírita estava arraigando-se na mente das pessoas da família, ponderando intimamente a respeito do papel de Fulgêncio nessa transformação. Chegou a pensar:
“Que fariam os responsáveis pela Igreja Católica se os sacerdotes adotassem a doutrina espírita? Esse era um dos sonhos de Kardec, que nunca se realizou.”
Mas não foi mais longe nem expressou nenhuma idéia a respeito. Ao contrário, insistiu junto à mãe para que ficasse com eles aquela noite.
— Vejo que seu irmão já conversou com você a respeito. Estou indecisa. Rosinha já me pediu a mesma coisa. Ela disse que eu ia me sentir muito sozinha se dormisse no meu quarto. Concordo com ela, mas preciso dar um jeito no escritório, que ficou de pernas pro ar. Nesta última semana, seu pai, todo dia, acendia a churrasqueira e queimava papéis e livros antigos. Parecia que ele não estava querendo que ninguém descobrisse o que havia neles. Eu dizia que aquela fumaceira ia fazer mal, mas ele não me deu ouvidos. Até Wilsinho quis ajudar, mas o teimoso só fazia aquilo quando ele não estava. O máximo que permitia era que a arrumadeira carregasse as coisas pra ele. Um dia, fechou o escritório e me deu a chave, pedindo que eu aguardasse que Renildo viesse pra pôr ordem na papelada.
— Renildo já fez o serviço?
— Depois daquele dia em que se fecharam no escritório por mais de quatro horas, ele não apareceu mais nenhuma vez. Só hoje é que eu pude dar-lhe a notícia. Eu pedi pra empregada não arrumar nada, quando me lembrei de que ela possui uma chave. Ela disse que não ia entrar lá, mas eu não confio. Depois que o seu pai lhe deu asas, é bem capaz que queira voar sozinha.
— O Wilsinho pode ir ver se está tudo bem. Ele pode passar a noite no apartamento...
— Eu não posso pedir a ele que vá embora agora, que é muito cedo.
— Então, eu vou com ele e a gente garante que a moça não entre no escritório, tomando-lhe a chave ou transportando-a pra casa da família. Em uma hora, estaremos de volta.
— Você não está muito cansado da viagem?
— Nós dormimos no avião uma boas horas. As crianças não deram trabalho. Elas já estão acostumadas e o serviço de bordo é muito bom, principalmente quando se tem uma recomendação especial do presidente da companhia aérea. Na Europa, eu apareço na propaganda vestido de comandante. Você não recebeu meus e-mails?
— Recebi. Se você estiver disposto, então vá. Deixe o Wilsinho dirigir.
— O Renildo providenciou pra que os nossos motoristas estejam a postos. Qualquer coisa, eu ligo pro quartel do pai e eles nos resgatam do trânsito e nos escoltam. Nada como ser importante.
De fato, meia hora depois, Teotônio e o irmão estavam subindo para o apartamento em que residira no começo de casado.



9. SITUAÇÃO EMBARAÇOSA

Ao cruzarem pela entrada principal do edifício, observaram os irmãos que Renildo transpassava a porta. O carro se dirigiu ao estacionamento, cujo portão se abriu pelo controle remoto de Wilsinho, e logo se viram os dois diante do elevador, tendo o motorista levado o carro a um dos boxes da família.
Enquanto aguardavam que descesse o elevador, Teotônio perguntou:
— Wilsinho, será que Renildo possui a chave?
— A empregada deve ter recebido autorização pra abrir a porta.
— Não é estranho que ele venha à noite pra atender ao pedido da mãe?
— Você está suspeitando de alguma coisa?
— O pai e ele ficaram conversando durante quatro horas...
— Eu vi quando eles se trancaram no escritório. Eu estava de saída.
— Então o pai deve ter confiado alguma missão a ele. Você ficou sabendo de alguma coisa?
— Fiquei sabendo que o Doutor Rosalvo também esteve conversando com o pai.
Nesse momento, abriu-se a porta do elevador, porém, Teotônio, apesar de Wilsinho haver acionado o botão correspondente ao andar do apartamento, manteve a porta aberta, enquanto acrescentava:
— O que estou achando misterioso é que Renildo não me disse nada a respeito do que tratou com o pai nem que recebeu da mãe a missão de organizar a papelada dele. Não acha você que ele deveria ter-me dito alguma coisa a respeito?
— Teo, o que quer que lhe diga, você mesmo é capaz de concluir. O que eu penso mesmo é que vai ser muito fácil de decifrar isso que você chama de mistério: basta largar a porta que a gente logo estará face a face com o enigmático agente...
Sem parar em nenhum outro andar, logo os irmãos tinham acesso ao corredor do apartamento.
Diante da porta, Teotônio segurou o braço de Wilsinho:
— Não vamos anunciar que chegamos. Você está com a chave?
— Estou.
— Então, abra sem fazer barulho.
Antes de introduzir a chave na fechadura, Wilsinho girou a maçaneta, verificando que a porta não estava trancada.
Assim que entraram deram com uma desarrumação geral, móveis jogados, quadros pelo chão, roupas amontoadas nos cantos.
Teotônio fez um gesto convocando o irmão ao silêncio, dizendo-lhe baixinho:
— Vamos aos quartos e depois ao escritório.
Sem fazer ruído algum, constataram a mesma cena nos dois dormitórios, percebendo Wilsinho que todos os seus pertences estavam espalhados pelo chão, juntamente com as gavetas e todas os preciosos discos compactos com as gravações dos jogos.
No quarto dos pais, a mesma coisa.
Quando estavam dirigindo-se ao escritório, ouviram vozes vindas da cozinha.
Teotônio fez um gesto para o irmão segui-lo e, antes de anunciarem a sua presença, ouviram um trecho de conversa. Ambos reconheceram a voz de Renildo:
— Vocês só passaram por um grande susto. Nós vamos ver se desapareceu alguma coisa e, depois, vamos chamar a polícia, se for o caso. Está bem assim?
Uma voz feminina respondeu:
— Como saber o que foi que levaram?
— A gente vai atrás dos valores. Se houver jóias e dinheiro à vista, é sinal de que eles estavam à procura de documentos. Em todo o caso...
Não concluiu, mas passou por um choque quando os irmãos entraram sem se anunciarem.
— Santo Deus, Teo! Você aqui?
— Eu mesmo. Que aconteceu?
— Recebi uma chamada para libertar as duas e vim correndo. Disseram que não era pra avisar ninguém e pra colocar as coisas nos devidos lugares, que eles haviam achado o que vieram procurar. Tenho o telefonema devidamente gravado no celular, se quiserem ouvir na própria voz do invasor.
Teotônio só então reparou que as criadas estavam tremendo.
— Vocês estão precisando de atendimento médico.
Wilsinho é que se lembrou:
— Vou preparar uma água com açúcar.
Uma delas se prontificou a pegar:
— Pode deixar que eu preparo.
Ato contínuo, a mais velha encheu dois copos de água e despejou neles duas colheres de açúcar, tomando um deles e passando o outro para a colega.
Nesta altura, já os homens estavam examinando os estragos feitos no escritório, onde nada se encontrava no lugar, com exceção do cofre, aberto e vazio.
Foi Teotônio quem levantou o problema de avisar ou não a polícia:
— Se a gente chamar a polícia, não podemos tirar nada do lugar. Que é que vocês acham?
Wilsinho foi logo lembrando-se da mãe:
— Eu não sei se vai ser bom pra mãe ficar sabendo desta invasão. As empregadas disseram como é que eles entraram?
Renildo explicou:
— Entraram abrindo a porta com chave.
Teotônio admirou-se:
— Eu mesmo coloquei ferrolhos por dentro. Era pra estarem corridos.
Wilsinho esclareceu:
— Quando um de nós, a mãe ou eu ficamos fora, sempre damos ordem pra deixarem fechado apenas com a chave; principalmente eu, que chego tarde e não quero acordar ninguém.
Teotônio observou:
— Amanhã mesmo, vamos ter de trocar a fechadura.
Wilsinho, no entanto, discordou:
— Só vamos trocar a fechadura se a mãe ficar sabendo o que aconteceu, pois ela vai ficar desconfiada. O que precisamos fazer é adotar o sistema de fechar por dentro, pelo menos até que a gente apanhe os ladrões.
Renildo pediu a palavra:
— Vocês me permitem uma opinião? Acontece que não sabemos o que foi que levaram daqui. A preocupação deles em me mandar libertar as mulheres está indicando que não se trata de qualquer um. Eles vieram com um fim definido. Estavam sabendo o que queriam e levaram. Sugiro que a gente arrume tudo, após, naturalmente, fotografarmos cada cômodo, pra análise posterior, caso viermos a investigar o que houve. Que é que vocês acham?
Teotônio queria saber um pouco mais:
— Renildo, onde é que estavam as empregadas, quando você chegou?
— Amarradas no quarto delas. Aliás, também aquele quarto foi todo revirado.
— Elas não podiam se mexer?
— Impossível, nem gritar, porque estavam amordaçadas. Foi dolorido retirar as fitas adesivas de suas bocas.
— Nessas fitas costumam ficar impressões digitais.
— Elas disseram que os dois homens estavam de luvas e com capuzes cobertos por capacetes de motoqueiros.
— Será que eles entraram pela portaria sem se identificarem?
— O circuito interno deve ter gravada toda a movimentação dos dois pelo saguão e pelos corredores. Depois nós podemos ver os vídeos.
Teotônio quis o parecer do irmão:
— Que você pensa de tudo isso?
— A idéia de fotografar é muito boa. Se eles não levaram nada, as minhas câmaras digitais devem estar lá no quarto. Querem que eu vá ver?
Renildo foi quem respondeu:
— Vamos começar por lá. O meu celular tem o recurso de gravação de imagem.
Os dois irmãos disseram a um tempo:
— O meu também.
Diante do rebuliço do quarto do rapaz, logo espocaram alguns flashes. Mas não tardou para que Wilsinho achasse as suas três câmaras, tendo passado duas delas aos outros dois.
Teotônio perguntou-lhe:
— Você guardava algum dinheiro no quarto, jóias, algum objeto de valor?
— Eu tinha tudo numa bolsa de couro, no fundo de uma das gavetas. Deixa ver se encontro. Mas, antes, vamos fotografar tudo de novo.
Pouco depois, a bolsa era encontrada aberta mas com todos os pertences.
Teotônio quis saber:
— Não falta nada?
— Pelo que me lembre, está tudo aqui.
Teotônio fez uma consideração:
— Isto está a indicar que não procuravam valores. Mas o que poderiam querer no quarto do rapaz ou no das empregadas? Tudo está parecendo-me muitíssimo estranho.
Renildo foi quem fez uma sugestão:
— Não sei quanto aos outros cômodos, mas, em relação a este quarto, acho que Wilsinho pode pôr tudo no lugar e, assim, avaliar, se falta algo. De acordo?
Teotônio respondeu:
— Parece uma boa saída pra sabermos um pouco mais.
Como resposta, Wilsinho começou a agrupar os CDs, dispondo-os de acordo com a numeração.
Renildo puxou discretamente Teotônio pelo braço, dizendo:
— Vamos deixar o seu irmão entretido com a arrumação e vamos ver o que podemos fazer na sala ou no quarto da sua mãe.
Do lado de fora, conduziu o rapaz para a sala e inquiriu baixinho:
— Você não acha que está na hora de revelar a seu irmão a existência da conta misteriosa?
— Não é melhor deixá-lo longe disso?
— Para o que eu tenho a dizer a respeito do que descobri, é preferível que ele esteja sabendo.
— Então me conte tudo e eu julgo se devemos pô-lo ao par das coisas.
— Pra referir o caso todo, vou precisar de algum tempo. Agora nós temos um trabalho penoso pela frente. Acho que as empregadas poderiam ser de muita ajuda pra colocar os objetos exatamente como estavam. Pelo menos, elas podem deixar arrumados o quarto delas, a cozinha, a copa e as salas. Nós cuidamos do escritório e do quarto principal. Enquanto eu vou explicar tudo a elas, você pode fotografar cada cômodo.
Sem esperar que Teotônio lhe respondesse, lá foi Renildo em busca da ajuda das senhoras, havendo topado com elas restaurando a cozinha.
Cinco minutos depois, Renildo dava início à arrumação do escritório, enquanto Teotônio remexia o quarto da mãe, procurando as jóias e as roupas mais finas com que ele mesmo a presenteara. Os pertences do pai, entretanto, propiciaram-lhe emoções particulares, como se de cada peça de roupa, de cada par de sapatos, de cada objeto de uso pessoal brotassem recordações cheias de ternura. Sentiu a pele borbulhar de emoção, concluindo que estava recebendo vibrações benéficas do plano espiritual, o que o levou a concentrar-se em uma prece de agradecimento por ter tido um progenitor de quem herdara tantas qualidades, a ponto de superar as limitações de uma infância em meio às crianças da favela. Viu-se jogando as primeiras peladas no campinho promíscuo e viu-se levado pelo pai para a escola das primeiras letras, pobre escola de periferia, onde compartilhava os toscos bancos de madeira com o pessoal carente, que só freqüentava as aulas por causa da merenda.
Ia imerso nesses pensamentos, quando a arrumadeira se apresentou para ajudá-lo.
— A senhora sabe onde guardar todas as coisas. A caixinha de jóias está intacta. Parece que não está faltando nada. Onde é o lugar dela?
— Dona Vilma a deixa na gaveta do meio da cômoda. O que vai dar mais trabalho é dobrar cada peça.
— A senhora é capaz de saber se está faltando alguma coisa?
— Melhor que sua mãe, porque nem todas as roupas ela usa. Ela diz que são muito chiques pros lugares aonde vai.
Ao ver a intimidade do trato com os objetos, Teotônio adquiriu confiança no trabalho da mulher, deixando-a sozinha, indo ver se podia dependurar os quadros da sala. Hesitou quanto à posição primitiva e acabou por ir ver como é que o irmão estava ajeitando-se.
Espontaneamente, como que inspirado pelo momento, perguntou ao mais novo:
— Que você faria se soubesse que tem depositado em seu nome, no exterior, um dinheiro cuja origem lhe fosse totalmente desconhecida?
— Eu avisaria a polícia.
— Mesmo se fossem alguns milhões de dólares?
— Com maior razão.
— Você não sabe quem abriu a conta mas o sujeito sabe muito bem quem você é. Não seria arriscado desbaratar o dinheiro alheio?
— Aonde você está querendo chegar?
— O Renildo descobriu uma conta no nome da Rosinha.
— Nessas condições?
— Exatamente.
— Ela já está sabendo?
— Foi por ter tomado conhecimento que voltou à Europa sem falar com ninguém da família.
— E como Renildo descobriu tudo?
— Através de um documento bancário que chegou ao nosso endereço.
— Que providências vocês tomaram?
— Encarreguei Renildo de pesquisar e parece que ele já decifrou o mistério; só que não me revelou nada ainda. Aliás, ele sugeriu que eu lhe dissesse tudo, talvez porque você iria ficar preocupado se soubesse do fato por outra pessoa.
— Por que alguém daria o endereço da pessoa usada pra ocultar o nome do verdadeiro dono do dinheiro?
— Esse é o grande problema que não soubemos resolver. Levantamos várias hipóteses mas nenhuma nos pareceu verossímil. Você teria alguma idéia a respeito?
— Só se o sujeito se visse com dificuldade pra recuperar a grana e usou de um artifício pra mostrar ao ignorante possuidor de tão polpuda quantia que está na hora de devolver o que não lhe pertence.
— Nós não pensamos nisso. Mas é bem possível que seja isso. De qualquer modo, você há de convir que a situação de Rosinha e também a minha é muito complicada e difícil de esclarecer junto às autoridades. Do jeito que você imaginou, fica ainda mais perigoso deixar o depositante sem seus recursos.
— Nós estamos falando de modo muito delicado desse malandro. Deve ser um desses que desviam as verbas públicas e vão aos poucos lavando o dinheiro, legalizando uma fortuna que roubaram do povo, como temos visto muitos ultimamente. Se esse cara, ou melhor, se esse bandido possui uma conta tão grande em nome de outra pessoa, que não terá em propriedades e bens no exterior? Se colocou tanto dinheiro em conta desconhecida do próprio...
— ... laranja...
— o que não terá passado pro nome dos familiares, empregados etc.?
Enquanto conversavam, Wilsinho ia colocando de volta seus objetos no lugar, de modo que lhe ficou fácil perceber o que estava faltando:
— Estou estranhando a falta de três fitas de vídeo do tempo da câmara antiga. Será que havia algo nelas de interesse dos assaltantes?
— Eu não digo que sim nem que não. Você está lembrado das imagens?
— Eram de festas e casamentos. Havia cenas com você batendo bola, do pai fazendo churrasco, da mãe arrumando a mesa, tudo do tempo da casa velha. Também havia alguns trechos do seu treinamento, do seu namoro e até do seu casamento. Foi a última coisa que registrei, porque logo você me deu dinheiro pra eu comprar uma câmara mais moderna.
— Precisamos decifrar mais esse enigma. Talvez as fitas estejam na sala.
— Negativo. Se eles quisessem ver os vídeos, usariam o meu aparelho.
— Você já verificou se não há nenhuma fita nele?
— Se houvesse, o visor indicaria.
— O seu quarto já está como antes?
— Sim.
— Então, vamos ver se os outros deram pela falta de mais alguma coisa. Três fitas de vídeo é muito pouco pra registrar uma ocorrência.
Passavam pela porta do quarto dos pais, quando Wilsinho viu a arrumadeira em plena azáfama.
— Dona Isabel, a senhora viu por aí algumas fitas de vídeo?
— “Seu” Arnaldo jogou fora várias fitas.
— Elas não estão ainda no lixo?
— Ele quebrou as caixas e queimou as fitas. Eu até ajudei. Dona Vilma até veio ver o que estava fazendo tanta fumaça e reclamou do seu pai. Aí ele disse que tinha cópias em CD.
— Obrigado, Dona Isabel.
Teotônio, a caminho do escritório, interrogou o irmão:
— Você fez as cópias?
— Não fiz nada. Acho que o pai mentiu pra mãe. Eu só não entendo por que ele teria de eliminar as lembranças de nossa mocidade.
— Vamos ter de quebrar a cabeça até descobrir. O conteúdo das fitas devia ter algo que ele não estava a fim de guardar. De qualquer modo, estamos precipitando conclusões, porque pode bem ter sucedido de ele mesmo ter passado tudo pra algum CD.
No escritório, Renildo estava terminando de colocar as gavetas na escrivaninha, já estando as estantes arrumadas.
— Vocês não sabem o que está faltando aqui. Está faltando tudo. Todas as pastas e arquivos estão vazios. A papelada que estava esparramada são os recibos e demais documentos relativos ao apartamento. Ainda bem que a escritura está comigo, senão teriam levado embora.
Teotônio observou:
— A mãe me disse que o velho queimou papel durante a semana toda, com a ajuda da arrumadeira. Quem sabe ela saiba dizer alguma coisa que nós não sabemos.
Wilsinho se prontificou a ir buscá-la.
— Dona Isabel, a senhora sabe dizer o que foi que nosso pai queimou além das fitas?
— Eu ajudei a esvaziar os armários. Ele me pediu pra acender a churrasqueira e me fez levar tudo lá pra fora. Ele pôs fogo em cada folha de papel, sem jogar mais do que algumas folhas de cada vez. Os cadernos, ele rasgou folha a folha e queimou até as capas duras. Enquanto não estava tudo queimado, ele não sossegou. Eu vi o escritório antes de Dona Vilma passar a chave e me pedir pra deixar tudo como estava. A verdade é que estava tudo revirado e jogado pelo chão.
— Como é que os ladrões entraram, se a porta estava fechada?
— Eles não pegaram a minha chave. Parece que tinham outras chaves, tanto que entraram pela frente e aquela porta eu tenho certeza que estava trancada, porque fui eu mesma que fechei.
— Muito obrigado. A senhora pode ir terminar o quarto.
Renildo ainda perguntou à criada:
— A senhora sabe dizer se o Senhor Arnaldo deixou o cofre aberto?
— O cofre estava vazio. Por isso, a porta ficou apenas encostada. A chave deve estar por aí.
Assim que a empregada saiu, Teotônio perguntou ao irmão:
— Você sabe a combinação do cofre?
— Nunca me interessei em saber.
Renildo explicou:
— Eu tenho a combinação lá em casa, no meio da papelada deste apartamento. Seu pai me pediu que guardasse a cópia da chave. O importante é que nós não vamos ficar sabendo jamais se ficou alguma coisa no escritório do interesse dos ladrões, pelo que disse Dona Isabel. Vocês deram pela falta de alguma coisa importante?
Wilsinho explicou o caso das fitas e terminou dizendo que estava tudo muito estranho, porque não acreditava que o pai houvesse tirado cópia delas.
Teotônio demonstrou interesse em conversar com a cozinheira, de modo que os três foram localizá-la. Encontraram-na terminando de colocar as louças no lugar.
Renildo foi quem lhe perguntou a respeito do que ela havia observado:
— Eles quebraram muita coisa?
— Não quebraram nada. Só espalharam as panelas e os talheres. Tiraram também as coisas da geladeira e do freezer. Esvaziaram todas as gavetas e desencostaram os móveis. Só os armários embutidos ficaram no lugar. Dona Vilma não vai notar nada.
Renildo insistiu:
— A senhora ouviu os homens conversando? Eles pediram alguma coisa a vocês? Que é que a senhora acha que eles foram procurar no seu quarto?
— Eles não trocaram uma palavra. Não falaram com a gente, nem quando nos fizeram ajoelhar pra nos amarrarem. Eram dois homens muito fortes. Com uma mão só, eles nos curvaram.
— Estavam armados?
— Eu não vi nenhuma arma. Mas logo eles nos puseram vendas nos olhos.
— A senhora já viu se não está faltando nada no seu quarto?
— Eles deixaram lá uma boa quantia de dinheiro, que a gente deixou na sala. Acho que eles queriam implicar a gente.
Teotônio foi quem dispensou a mulher:
— A senhora foi de muita ajuda. Agora pode terminar o que estava fazendo.
Em seguida, os três foram à sala de estar, percebendo que os estofados haviam sido virados.
Wilsinho observou:
— Eles estavam procurando até no fundo dos móveis. Quanto ao dinheiro que puseram no quarto dos fundos, eu não acho que estavam tentando envolver as criadas. Estavam é dando-lhes uma gorjeta, como se estivessem fazendo um comentário mudo de que elas estão sendo exploradas pelos patrões.
Renildo não conteve um sorriso:
— Se eles soubessem quanto cada uma recebe no fim do mês, não teriam pensado nisso.
Teotônio, que se acomodara numa das poltronas, dirigiu-se a Renildo:
— Eu já expus o problema da Rosinha ao meu irmão. Dá pra você contar agora o que descobriu a respeito?
— Temo que não. Como quem me esclareceu a respeito foi o pai de vocês e como ele me pediu que me calasse durante um mês, por certo porque desejava passar as informações diretamente, vou esperar até o dia da abertura do testamento, que eu sei que ele lavrou com a ajuda do Doutor Rosalvo. É possível que lá ele tenha deixado instruções específicas.
Wilsinho estranhou:
— Como é que o pai estava ao par dessas coisas?
Renildo adiantou-se, antes que surgissem novas considerações:
— Já falei mais do que devia. Vocês não querem ouvir a gravação do recado que recebi?
Sem esperar qualquer manifestação dos irmãos, o empresário buscou na tela de cristal líquido do celular o botão correspondente e logo estava soando a voz do bandido.
Os irmãos puseram-se muito atentos, Wilsinho buscando entender o significado das recomendações do interlocutor; Teotônio admirado por estar reconhecendo aquela mesma voz que o assustou no meio da noite e que ele ouvira ao telefone.
Ao final da elocução, Wilsinho comentou:
— Não percebi nada que você já não tivesse dito. Até parece que sabe o texto de cor.
— Essa mensagem, eu ouvi várias vezes. Que acha você, Teo?
— Não sei o que pensar nem o que dizer, principalmente porque não consigo atinar com o que eles podem ter levado daqui, se não estamos sentindo falta de nada.
Renildo complementou:
— Eu estava desconfiado de que eles não levaram nada. Agora, depois desta arrumação no escritório, estou convicto disso. Vocês não acham que já podem voltar pra dar conforto e consolação à Dona Vilma? Eu fico aqui até que o apartamento esteja rigorosamente em ordem.
Teotônio concordou:
— Eu vou recomendar às empregadas que passem os ferrolhos e que liguem pra polícia se sentirem que alguém esteja querendo entrar sem aviso dos porteiros. Por falar nisso, vamos descer no térreo e pedir pra ver as fitas do serviço de segurança.
Renildo discordou:
— Não é bom que saibam que vocês estão aqui. Pode aglomerar gente e despertar o interesse da imprensa. Vocês vão diretamente ao subsolo e eu vou investigar por que deixaram os assaltantes passar, sem aviso pro pessoal do apartamento. Amanhã, eu lhes passo as informações.
Em breve, os atletas, cada qual imerso nos próprios pensamentos, chegavam ao prédio de Teotônio.



10. EM SALVADOR

Laura leu a notícia da morte de Arnaldo no mesmo jornal que noticiava a fuga de André. Na semana seguinte, entre os classificados, estava estampada a mensagem cifrada, para que entrasse em contato com o rapaz. Pedia-lhe ele que escrevesse para os pais dela: ele iria buscar a carta com eles.
Laura hesitou um dia inteiro. Na manhã seguinte, deixou os filhos com uma babá de confiança afeiçoada aos dois e partiu para Maceió, de onde enviou a carta de contato, deixando de anotar qualquer endereço, explicando que o fazia por medo de ter a carta interceptada pela polícia, já que as autoridades deviam presumir que ele se aproximaria dos pais dela. Se quisesse que ela fosse ter com ele, usasse o mesmo expediente dos classificados, no domingo seguinte. Falava, ainda, do receio de que as ligações telefônicas pudessem ser rastreadas.
Quando regressou a Salvador, as moças e senhoras do atelier a aguardavam para lhe perguntarem se não era ela a mocinha cuja foto se estampava numa revista de circulação nacional, que explorava o tema do relacionamento existente entre Teotônio e a prima de Rosinha. Citavam, evidentemente, a fuga do criminoso e a paternidade das crianças.
Laura não negou nada. Pediu licença às mulheres, fechou-se em casa e deu vazão às lágrimas, que lhe afluíam em abundância, tendo em vista a impossibilidade de levar adiante os mais caros projetos de independência econômica e de reconhecimento de seus méritos artísticos e de seu tino industrial e comercial.
Antes que terminasse o turno de trabalho, voltou ao seio das artesãs e lhes fez um sentido apelo:
— Eu não sei, minhas amigas, se vocês gostam de mim a ponto de me admitirem como patroa e de esquecerem que sabem quem eu sou. Vocês têm acompanhado todo o meu esforço por lhes dar uma renda mensal capaz de sustentar as suas famílias. Vocês nunca me viram faltar com a palavra dada, nem me viram praticar qualquer ato que as ofendessem. Vocês não me viram nunca consumir drogas nem me viram saindo com nenhum homem. Vocês sabem que estou procurando fazer o melhor que posso pra expandir os negócios, tanto que participamos de muitas exposições, sempre sob a responsabilidade de uma de vocês e nunca minha. Agi assim porque não queria que o meu retrato fosse publicado. Agora não teve jeito. Será que posso contar com vocês pra me manter escondida?
Uma das primeiras empregadas, atreveu-se a perguntar:
— Dona Laura, por que manter a sua identidade em segredo? Você é muito boa e todos nós a admiramos. Todo o pessoal que a conhece sabe de seu valor. Se a gente não falar nada, alguém vai falar: o quitandeiro, o farmacêutico, o médico dos seus filhos, algum fornecedor...
— Estou contando com a sua colaboração. As outras pessoas podem pensar que sou eu, mas a fotografia da revista data de dez anos atrás e pode acontecer que não me reconheçam. Pelo menos, tingi os cabelos, mudei o tipo de roupa, modifiquei o sotaque, troquei de nome, até engordei quinze quilos. Se eu não tivesse confirmado a vocês a sua suspeita, provavelmente a maioria iria concordar que eu era apenas parecida. Em todo o caso, preciso ficar escondida, porque não quero ser descoberta pelos traficantes da quadrilha do meu marido. Se for apanhada por eles, vão querer que eu trabalhe no tráfico. Se for algum inimigo dele, vão me usar pra atingi-lo. Não acho que minha vida aqui com vocês vá durar muito tempo. Mas, enquanto não for descoberta, posso ir levando, até preparar um meio de não ser mais reconhecida. Estive durante todo este tempo pensando em fazer uma operação plástica. Agora, eu devo ter dinheiro suficiente pra isso. No começo vocês eram apenas três; hoje, são doze. Façam de conta que são os meus apóstolos. Eu sei que não existe nenhum Judas pra me trair. Vocês concordam?
A voz embargada e os olhos inflamados mais o tremor das mãos e a palpitação do seio sensibilizaram as mulheres, que fizeram questão de se colocar em círculo em torno da moça, todas prometendo-lhe que iriam guardar-lhe o segredo.
Laura abraçou uma a uma e não conseguiu dizer mais nada.
Quando se encerrou o dia de trabalho, Eunice, a babá, deixou-se ficar na companhia da amiga a quem chamava de Dirce:
— Dirce, hoje eu vou levá-la para receber um descarrego de Dona Marilda, a mãe-de-santo do terreiro que eu freqüento.
— Eunice, eu não acredito nessas coisas.
— Não tem importância. Os orixás acreditam em você. Não precisa ter medo, porque nada de ruim existe lá. Tudo o que se faz é para o bem dos consulentes, tudo gente daqui mesmo. Turista lá não entra nas sessões particulares.
— Mas eu não estou pensando em receber a mensagem de nenhum espírito.
— Os padrinhos da casa é que orientam os que precisam do benzimento. É muito raro alguém conversar com a entidade incorporada. Que mal pode haver em ouvir uma prece em favor da gente, ainda mais quando é cantada, ao som dos atabaques?! Você já ouviu algum ponto da umbanda?
— Vi pela televisão.
— Não é a mesma coisa. Você vai sentir que está protegida e vai agradecer a força que vai receber para enfrentar o seu destino. Dependendo do santo que baixar, a gente não entende uma palavra do que dizem. Pode ser um preto velho, um índio ou uma entidade superior, da linha do patrono do terreiro. Depende da sua necessidade e do seu merecimento.
— E as crianças?
— Eu fico com elas do lado de fora, junto das outras que as mães levam, quando não têm com quem deixar.
— Quanto eu devo levar?
— Se você precisar cumprir alguma obrigação, vai saber na hora. Mas nunca é para cumprir imediatamente. No meu terreiro, todas as contribuições são voluntárias. Você vai ficar tão satisfeita que amanhã mesmo vai me pedir para dar alguma coisa a eles. Eu venho buscar vocês às sete. Se tiver uma roupa branca, rodada, vista. Pode ser aquela que terminaram de bordar hoje de manhã. É bonita e muito discreta. Você não vai chamar a atenção.
Eunice ainda deu um beijo em José e fez um afago carinhoso no mais velho, retirando-se sem dar tempo a que Laura encontrasse alguma desculpa para não ir.
Quando Eunice chegou, às sete horas, encontrou Laura às voltas com uma indisposição do filho mais novo, que ardia em febre.
— Vamos pôr o menino na bacia com água morna. Você já chamou o médico?
— Ele deve estar chegando.
— Não vamos perder tempo.
Em cinco minutos, José era mergulhado na água tépida, ligeiramente mais fria que a temperatura do corpo, conforme Eunice constatou através da leitura do termômetro.
A criança estava manhosa mas se deixou tratar, principalmente porque a mãe lhe dizia que estava ali e que não iria afastar-se dele. André não se interessou pelo que se passava, permanecendo extasiado diante da televisão.
Assim que o médico chegou, Eunice saiu, prometendo voltar mais tarde:
— Vou ver se consigo trazer Dona Marilda. Ela é benzedeira e vai fazer que seu filho melhore.
O médico olhou atravessado para a rapariga, enquanto carregava a criança embrulhada na toalha, para examiná-la em cima da mesa. Em seguida, escreveu a receita, fornecendo uma amostra grátis para arrefecer a febre:
— Dona Dirce, a mamãe não precisa ficar preocupada. A garganta não está inflamada e o peitinho está limpo. Deve ser alguma infecção, por isso receitei antibiótico. A senhora tem quem possa ir aviar a receita?
— Eu peço pra minha vizinha da frente. A velha é um pouco surda mas é prestativa.
— Vou avisá-la quando sair. O remédio é caro. A senhora tem dinheiro?
— Quanto é a consulta?
— Não se preocupe com a consulta. Amanhã cedo eu passo de novo e aí a gente acerta. Até amanhã!
— Muito obrigada, doutor.
Tudo se deu consoante se previra: a vizinha foi comprar o remédio e, ao retornar, veio acompanhada de Eunice e Marilda.
Feitas as apresentações, a mãe-de-santo determinou:
— Querida, ministre logo a poção que o doutor receitou à criança e me deixem à vontade pra preparar as minhas coisas.
Eunice ajudou a patroa e logo o menino encontrava repouso, mercê do calmante que tomara.
Enquanto isso, no meio da sala, Marilda colocou no chão um dos seus colares de contas, formando um círculo. Sem cerimônia, pegou uma ânfora decorada das que se produziam para a venda e encheu-a de água pela metade, derramando nela o conteúdo de pequeno frasco que retirou do meio das inúmeras saias que lhe davam a aparência de vendedora de quitutes na via pública.
Quando as três mulheres se reuniram a ela, trazendo os meninos, Marilda explicou:
— Vocês vão fazer silêncio e se concentrar em oração. Eu vou invocar o meu santo, pra que ele se incorpore. Façam tudo que ele mandar.
Dirigindo-se a Laura, perguntou:
— Você está com medo?
— Estou, porque o meu caçula ficou doente de uma hora pra outra. Do que a senhora vai fazer, eu não tenho medo algum. Ao contrário, espero que faça o bem pra todos nós.
— Então, formem um círculo de cadeiras e se sentem. Eunice carrega o garoto mais velho. A mãe segura o mais novo.
A vizinha, que se sentia à vontade em meio às providências que se tomavam, tomou a iniciativa de acender três velas, dispondo-as atrás de cada cadeira.
Laura se sentou e começou a lembrar-se das preces que dizia no catecismo. Estranhamente, foi sentindo-se alhear-se do momento, para imergir nas lembranças do passado. Viu-se, de repente, no centro espírita do velho Vieira, onde assistira a várias sessões de desobsessão. Ao mesmo tempo, tinha uma vaga sensação de estar flutuando.
Ia nesse devaneio, quando, com voz rouca, a mãe-de-santo dirigiu-se a ela, sem tocá-la:
— Minha filha, você precisa desfazer os nós que deu no fio de sua vida. Procure aquele que se esconde e faça que venha à luz. As entidades que estão com você estão servindo de escudo, porque existem muitos espíritos perversos ao seu redor. O bem que tem feito você precisa fazer...
Marilda interrompeu o curso dos pensamentos, enquanto aspergia gotas perfumadas que buscava com a mão no interior da ânfora. Cantava baixinho uma melodia em língua desconhecida, gutural e fanhosa, enquanto caminhava como que dançando ao compasso da rústica melodia. Depois deu a volta na cadeira de Laura, apanhando a vela do chão e dando-a para que a moça apagasse. Em seguida, com a mesma voz alterada, disse-lhe:
— Laura, os seus pais precisam do seu testemunho de respeito filial. O filhinho não tem mais nada. Graças a Deus!
As mulheres repetiram:
— Graças a Deus!
Marilda deu um repelão com os ombros, como que afastando algo que a estivesse incomodando e voltou à consciência da hora, procurando sentar-se na cadeira encostada à parede.
Em voz baixa, Laura repreendeu Eunice:
— Vocês prometeram que não iriam dizer nada a ninguém e, na primeira oportunidade, revelou tudo.
— Eu não revelei nada.
— Como é que ela me chamou pelo meu verdadeiro nome?
— Não foi ela; foi o santo. Para esse aí, ninguém pode mentir, porque ele descobre logo a verdade.
— Você acredita mesmo nisso?
— Converse com ela. Veja se ela se lembra de alguma coisa que aconteceu aqui.
Aquele diálogo passou desapercebido da idosa vizinha mas a mãe-de-santo desconfiou de que falavam a respeito dela. Fez, então, um gesto para que se aproximassem. Como cada uma carregava uma criança, ambas dormindo, foram colocar os meninos na cama, tendo Laura reparado que José estava fresquinho, respirando com tranqüilidade.
Quando retornaram, encontraram Marilda junto à mesa posta, enquanto a velha preparava café.
Assim que se sentaram, Marilda interrogou-as:
— Sobre que é que vocês estavam conversando?
Eunice respondeu:
— A gente falava a respeito do trabalho que a senhora fez aqui.
Laura acrescentou:
— Eu desconfiava que Eunice lhe havia contado um segredo, porque a senhora ou o santo não me chamou por Dirce.
Marilda compreendeu toda a extensão do problema e explicou:
— Quem esteve tratando do menino foi o espírito de um médico, Doutor Moreira, que sempre me atende quando o caso é de cura. Quanto a ter ouvido de Eunice algum segredo, não ouvi nenhum. Se trocaram o seu nome, eu não posso saber, porque não me lembro de nada que se passou nesta sala.
Laura logo quis saber:
— Do que é que a senhora se lembra?
Sorrindo amavelmente, Marilda esclareceu:
— Eu me lembro de estar no meio de muitos seres espirituais, que permaneceram o tempo todo em oração. O único que se dirigiu a mim foi um rapazinho, que me disse que o perdão dos homens é uma pequena fagulha do perdão de Deus. Ele trouxe pra minha frente um homem quase transparente, vestido de soldado, que estava chorando muito. O garoto falou que fazia pouco tempo que havia recebido a missão de mostrar o mundo pro sargento Arnaldo e que se chamava Renato. Depois disso, tudo desapareceu e eu acordei.
Estremecida, Laura perguntou:
— A senhora quer saber quem são essas pessoas?
— Não me diga nada, porque pode ser que seu segredo seja revelado.
— Não tem mais importância. Eu já tomei a decisão de fazer o que o santo me recomendou. Renato era meu primo, que morreu baleado, e Arnaldo era o sogro da irmã de Renato, falecido há uma semana. O meu nome é Laura, que foi como o santo me chamou.
Nessa hora, a velha vizinha chegou com o bule de café, tendo servido com biscoitos e outros petiscos, que não despertaram o interesse a não ser dela mesma.
No dia seguinte, Laura legou a administração dos negócios a Eunice, que era expedita, prometendo a todas as artesãs que, assim que lhe fosse possível, iria voltar para dar continuidade aos trabalhos da oficina.
À noite, desembarcava no aeroporto da cidade natal.



11. O TESTAMENTO

No dia seguinte à arrumação do apartamento da mãe, estando a família reunida, pranteando a morte do patriarca, relembrando muitos fatos que envolveram o sargento, especialmente os dolorosos momentos em que se viu alvo das balas dos bandidos e os meses finais de confinamento na cadeira de rodas, receberam a visita do Doutor Rosalvo, intimando a esposa e filhos do falecido para a leitura do testamento dois dias depois.
Notou o advogado a grande expressão de tristeza de Teotônio em contraste com a expressão mais conformada de Wilsinho e, principalmente, de Dona Vilma:
— Meu filho — disse-lhe ele, reservadamente —, a morte é fato inerente à vida. Você precisa aceitar o desaparecimento do seu pai como produto das leis naturais, segundo a vontade do Criador.
— Eu aceito, doutor. O senhor está notando meu semblante abatido mas por causa bem diferente. Acontece que esta noite não preguei olho, preocupado com aquele assunto que levou Rosi a consultá-lo. Ainda não atinei com a solução do problema e me vejo de mãos atadas, apesar de Renildo me assegurar que descobriu tudo. Ele não lhe participou nada?
— Mentiria se lhe dissesse que não, simplesmente. No entanto, ele tão-só me informou que colocaria tudo às claras após a leitura do testamento e de acordo com o conteúdo dele.
— Que relação pode ter o testamento de meu pai com a conta no exterior?
— Não me peça para presumir nada. O que lhe posso assegurar é que seu pai registrou todos os itens e me deu procuração para proceder segundo a legislação pertinente.
Na verdade, Teotônio havia conversado longamente com Rosinha, reavivando todas as suspeitas que levantara contra o pai, no tempo em que se imaginou ameaçado pelo Cabo Farias.
O rapaz dedicou-se, então, a visitar várias empresas de sua posse, mostrando-se aos funcionários e administradores, com o duplo intuito de incentivá-los a melhorar a produção e de se distrair das preocupações. Deu especial atenção aos rapazolas da escolinha de futebol, demorando-se a conversar com eles, esclarecendo-lhes muitos fatos relativos à profissão de futebolista.
No dia que antecedeu a leitura do documento, prosseguiu no mesmo plano de visitas, indo também às instituições para as quais contribuía com filantropia, incluindo as obras de Fulgêncio e de Vieira, ambos convidados para a sessão no escritório de Rosalvo.
De fato, na hora aprazada, lá se encontraram eles com os filhos e a esposa do testador, Rosinha, sua mãe e seus tios, além de Renildo, que compareceu como testemunha.
Rosalvo assumiu a palavra:
— Meus amigos, na qualidade de testamenteiro, devo efetivar a vontade expressa de seu ente querido, que me outorgou a sagrada tarefa de dirigir-me a cada um dos senhores, para passar-lhes os bens que amealhou durante sua vida de muito trabalho e sacrifício. No entanto, cumprindo os desígnios do testador, nem todos os itens poderão ser conhecidos de imediato, já que existe cláusula restritiva de tempo. Existe também a necessidade de anuência dos herdeiros presuntivos, quanto à distribuição efetuada pelo Senhor Arnaldo. Vou começar por aqui.
Havia vários envelopes lacrados em cima da mesa. Rosalvo pegou um deles e abriu-o:
— Os tópicos do desejo do testador foram copiados, de modo que, sempre que eu abrir um envelope, é como se lesse uma parte do inteiro teor do testamento.
E passou a ler:
— Aos meus amigos Fulgêncio e Vieira, deixo, desde que minha esposa e meus filhos aceitem e oficializem a doação, para cada qual um terreno especificado na escrituras assinaladas como primeira e segunda, sendo a primeira destinada às obras assistenciais de Fulgêncio e a segunda, às de Vieira.
Rosalvo suspendeu a leitura para tecer considerações:
— Só quem teve conhecimento das declarações de renda do testador é que sabe que tais propriedades pertencem a ele desde que era menor de idade, por herança de um tio rico. Arnaldo não assumiu a posse dos terrenos, mantendo-os, contudo, para uso da comunidade, impedindo que fossem ocupados por invasores, através de uma destinação, no mínimo, muito inteligente. Ele transformou as áreas livres em campos de futebol, deu-lhes estrutura de clube, construiu quiosques para bar e vestiários, e incentivou a criação de várias agremiações esportivas no bairro. Ultimamente, com a presença de bandidos na favela erguida ao redor, a obra ficou quase abandonada, utilizando Arnaldo sua prerrogativa de graduado na milícia policial para impedir que a finalidade inicial se perdesse. Foi nesses campos que Teotônio e Wilsinho se iniciaram no esporte bretão.
Sem que ninguém esperasse, Teotônio levantou-se e disse:
— Eu não assino a permissão da cláusula referida.
Criou-se um ambiente de expectativa.
Wilsinho quis manifestar-se mas Rosalvo se antecipou a ele:
— Teo, pode dizer-nos a razão de sua atitude?
— Posso mas não digo. Reservo-me o direito de me explicar ao término desta sessão.
Rosalvo prosseguiu, apanhando um envelope em que se lia o nome de Vilma:
— Para minha esposa, deixo todos os meus pertences pessoais, o dinheiro que se encontra em minhas contas correntes, conforme discriminação abaixo, e as jóias de minha avó.
De dentro do envelope, Rosalvo retirou cinco peças de ouro, todas com pedras preciosas incrustadas. Vilma não pôde conter uma observação:
— Eu jamais vi essas jóias. Onde é que ele as guardava?
O advogado esclareceu:
— Arnaldo manteve durante toda a vida os seus bens guardados num cofre bancário. Retirou os documentos e as jóias apenas para efetuar esta distribuição. Segundo me disse, fez questão de manter tais valores longe dos olhos da família, porque considerava que a vida perderia a severidade que ele julgava necessária para a formação do caráter dos filhos, caso viessem a viver regaladamente. Falou-me com certa tristeza, porque, no final, a riqueza acumulada por Teo pulverizou a sua filosofia, reconhecendo que nada significavam os bens que recebera em herança.
Wilsinho saiu em defesa do pai:
— Sei que falo em nome de meu irmão, quando digo que nosso pai nos encaminhou o caráter de forma muito positiva, sem contar que, naqueles campos de futebol, por uma visão muito aguda dele, desenvolvemos as habilidades que nos transformaram em profissionais de sucesso.
Rosalvo, apontando para os outros envelopes, pediu para continuar. Em seguida, abriu o envelope relativo a Teotônio:
— Ao meu filho mais velho, que tudo possui, deixo o relógio com que ele mesmo me presenteou, para que perceba que o tempo marcha inexorável nesta vida. Que você faça todo o bem possível, apesar dos sofrimentos naturais que a vida reserva a cada um de nós.
Em silêncio, Teotônio afivelou o relógio no braço direito, notando que estava parado. Dos seus olhos brotavam lágrimas muito emotivas.
— Ao meu filho mais novo, deixo o único bem que adquiri com o meu suor: a casa em que moramos perto da Favela do Corisco.
Rosalvo precisou elucidar certos pontos:
— Todas as descrições das jóias, dos terrenos e da casa, se encontram no testamento original. Eu é que recomendei que se desse este caráter de informalidade, deixando para o fim a leitura completa do texto. Preciso destacar que a propriedade aludida, em virtude de haver outros herdeiros, para ser destinada a um só, vai necessitar da anuência dos demais. Teo, você está de acordo?
— Neste caso, estou.
— E Dona Vilma?
— Eu não sabia que aquela casa era nossa. Sempre reservamos o dinheiro do aluguel. Aliás, muitas vezes fui eu mesma que efetuei o pagamento.
Rosalvo elucidou o ponto:
— A casa, realmente, era alugada, até que, um mês antes de vocês se mudarem, Arnaldo a comprou, segundo ele, a bom preço. Com certeza, recebeu algum dinheiro do Teo. O que sei é que os aluguéis que Arnaldo passou a receber foram destinados à caridade.
Juvêncio complementou:
— Eu recebia os valores, que não eram muitos, com a incumbência de dividir com Vieira. No entanto, de comum acordo, nós, todo mês, escolhíamos uma família de desempregados a quem entregávamos o dinheiro, muitas vezes transformado em cestas básicas, remédios ou quitação de dívidas. A bem da verdade, Arnaldo jamais nos solicitou nenhuma prestação de contas.
Rosalvo abriu outro envelope e leu:
— Para Rosinha, deixo as jóias de minha mãe, com exceção de um rosário de prata, que destino a Dona Flávia. Que ambas se lembrem em suas orações que Renato, seu filho e seu irmão, irá receber a todos nós, quando chegarmos à erraticidade, eu, com certeza, antes de todos.
Rosinha recebeu das mãos do advogado uma corrente de ouro, com um crucifixo do mesmo metal, um par de brincos de madrepérola e duas pulseiras, duas argolas simples também de ouro.
A moça fez menção de entregar as peças à sogra, mas esta prendeu-lhe as mãos, como a indicar que deveria guardá-las junto ao coração.
O advogado levantou-se e dirigiu-se ao pé de uma estante de madeira, móvel simples de duas portas, que abriu, revelando uma coleção de livros encadernados finamente.
— Estas obras constituíram as últimas leituras de Arnaldo. Trata-se das principais obras espíritas, desde os textos da codificação de Allan Kardec até muitas das psicografadas pelos principais médiuns da doutrina. Estão aqui também obras do catolicismo, inclusive uma Bíblia com a aprovação eclesiástica. Vieira e Fulgêncio é que escolheram os livros, segundo o que me informaram, tendo em vista os interesses do amigo, com quem, ultimamente, mantiveram longas discussões teológicas. Por vontade expressa do testador, o móvel e seu conteúdo vão para o Senhor Artur e Dona Esmeralda, com a recomendação de chegarem às mãos de sua filha Laura.
Artur fez questão de esclarecer:
— Não vai ser fácil dar todos esses volumes à nossa filha, cujo paradeiro desconhecemos. Ela não nos telefona jamais. Depois que ela desapareceu, recebemos apenas três cartas, as três de diferentes cidades do Nordeste, o que nos tem deixado muito preocupados com nossos netos.
Teotônio quis manifestar-se mas calou-se a tempo, imaginando que poderia despertar alguma emoção na esposa, pela lembrança da pessoa que a houvera seqüestrado.
Rosalvo reassumiu a palavra:
— Antes de dar início à leitura integral do testamento, devo referir-me a um tópico dirigido a mim mesmo, segundo o qual devo solicitar a Renildo que espere, no mínimo, um mês, para revelar à família os fatos relatados a ele por Arnaldo. Vocês vão ver que ele faz uma observação quanto a localizar-se na erraticidade e receber tratamento espiritual.
Vieira acrescentou:
— Eu também recebi essa mesma manifestação de vontade, tendo sido encarregado de transmiti-la ao nosso amigo.
Rosalvo retomou a palavra para efetuar a leitura do inteiro teor do testamento:
— Quero explicar-lhes que a leitura é enfadonha, já que precisamos ler todos os dados relativos aos bens e propriedades. Mas é imprescindível. Então, para adiantar, nós gravamos a leitura feita por um dos nossos escriturários, leitura fluente, clara e rápida, a qual deverá ser seguida pelas testemunhas, no texto original.
Renildo se aprestou à formalidade bem como o próprio escriturário presente.
De fato, apesar da velocidade com que o testamento foi lido, os herdeiros tiveram de ficar por mais de vinte minutos em silêncio, ao cabo dos quais as testemunhas declararam que a leitura correspondia integralmente à redação.
Antes que Rosalvo retomasse a palavra, Teotônio observou:
— Em primeiro lugar, as dimensões dos terrenos na Favela do Corisco devem corresponder a toda a área que ela abrange e não apenas aos campos de futebol. Isto quer dizer que existe uma grande parte invadida desde há muito, o que pode caracterizar propriedades a serem obtidas por usucapião, o que vai significar longa demanda judicial para reintegração de posse. Estou certo, doutor?
— Até parece que você já concluiu o curso de direito. Está corretíssimo. Qual é o segundo ponto?
— Em segundo lugar, não vejo como Fulgêncio e Vieira poderão dispor dos terrenos para a caridade, a não ser concedendo-os de maneira formal aos posseiros, o que meu pai teve muito tempo pra fazer e não fez. Será que ele esteve pensando em que o padre construísse uma igreja e o espírita, um centro? Vocês conversaram com o velho?
Vieira foi quem respondeu:
— Estamos recebendo a notícia agora. A única determinação do seu pai está por escrito.
Fulgêncio concordou com a cabeça e Rosalvo complementou:
— Quando recebi a anotação de Arnaldo, comentei com ele a respeito dos problemas que iria causar aos herdeiros. Ele, entretanto, ciente de tudo, apenas me fez ver que tanto o padre quanto o espírita, como o Teo diz, vivem para fazer o bem para a comunidade e que eles saberiam dar nobre destinação às propriedades. De qualquer modo, como você está dizendo que não assina...
— Já não assinava quando pensava que os terrenos fossem menores. Agora é que não aprovo mesmo a doação, que é mais um presente de grego. O que proponho é que os dois encontrem terrenos que lhes agradem e eu me comprometo, se preciso, por escrito, a adquiri-los e a passar-lhes as escrituras.
Rosalvo contraditou-o:
— Não é a melhor saída. Você, seu irmão e sua mãe vão ter de enfrentar o problema do espólio, o que poderá ser evitado se a vontade do testador se cumprir. Se me permitir a sugestão, acredito que Fulgêncio e Vieira, tão logo se vejam de posse da herança, não farão caso de vendê-las a você, por um preço justo, o que quer dizer, muito barato, porque tais propriedades não têm valor algum para o mercado imobiliário, dada a localização, além dos problemas que você mesmo levantou.
Teotônio dirigiu-se a Renildo e lhe passou as suas ordens:
— Caríssimo empresário, agente e amigo, providencie conforme a sugestão do doutor.
Vilma, senhora de si, examinava as jóias que recebeu, bem como as passadas para Rosinha e Flávia. Nada dizia, até que percebeu que Rosalvo estava recebendo os agradecimentos dos filhos e demais pessoas presentes. Então, bateu palmas, chamando a atenção sobre si:
— Meus amigos, devo dizer-lhes que a distribuição que meu marido fez de seus bens secretos correspondeu ao seu caráter. Devo pedir-lhes que me acompanhem numa oração, que peço ao Padre Fulgêncio pra dizer, em que as nossas vibrações o alcancem onde estiver, porque o seu legado de amor à família e aos amigos não caberia num simples documento.
Fulgêncio fez a oração solicitada e todos puderam sentir que houve profunda reverência ao espírito do amigo. Vieira também disse algumas palavras enternecidas, trazendo mais emoção para aquele inesperado final de reunião.



12. MISTÉRIOS NÃO SOLUCIONADOS

Teotônio chamou Renildo à parte, tendo previamente solicitado a Vieira e a Fulgêncio que esperassem, após as assinaturas do testamento, pois desejava conversar com eles.
— Renildo, você não me contou qual foi o resultado de suas investigações. O que foi que o sistema de vídeo do prédio revelou?
— Eu não lhe contei, porque os porteiros não souberam explicar como é que desapareceu a fita relativa ao período em que os meliantes estiverem no apartamento. Achei tudo muito suspeito, já que nenhum dos que estiveram de plantão naquela tarde e noite se lembrava de haver permitido a entrada de pessoas estranhas.
— Quer dizer que a câmara do saguão do apartamento não registrou a presença dos bandidos?
— Se estou dizendo que desapareceu a fita.
— Renildo, eu conheço bem todo o sistema de gravação. O aparelho fica na despensa da portaria, que só tem acesso justamente onde se postam os porteiros. Ou eles estão mentindo ou fazem parte da quadrilha. Será que desconfiaram do assalto, mas não deram parte porque nós não falamos nada?
— É verdade. Se eles chamarem a polícia, vão ter de provar que aconteceu uma invasão. Não tendo havido reação dos prejudicados, ficariam na condição de denunciar algo que aconteceu logo com a família do maior ídolo nacional. Além do mais, eles me mostraram o vídeo da minha entrada e da sua e da saída.
— Mais uma coisa que vamos ter de esquecer. Mas eu ainda vou encontrar e interpelar o sujeito que ligou pra você. Deixe comigo.
— Não vá me encrencar com ele.
— Não se preocupe. O dispositivo do silêncio estabelecido por meu pai lhe foi comunicado pelo Rosalvo e pelo Vieira?
— Só pelo Vieira. O que o advogado nos leu hoje, pra mim, foi novidade.
Notou Teotônio que Vieira e Fulgêncio, que se achavam junto aos demais, estavam atentos a um gesto para se aproximarem. Foi o que ele fez. Assim que os dois se acercaram, Teotônio perguntou:
— Vieira, em que circunstância meu pai lhe pediu pra dizer ao Renildo que esperasse um mês até me revelar o que tem a dizer?
— Meu filho, seu pai estava, no fim, muito preocupado com a vida de além-túmulo. Parecia que ele sabia que iria desencarnar logo, tanto que pediu a Fulgêncio que lhe ouvisse a confissão e que corresse para lhe ministrar a extrema-unção, caso estivesse em vias de falecer.
Fulgêncio, mencionado, fez questão de participar:
— Foi assim mesmo. Nós éramos constantemente chamados para conversar com ele.
Teotônio inquiriu dos dois:
— Vocês lhe disseram a mesma coisa ou cada um demonstrou uma convicção diferente?
Fulgêncio foi quem respondeu:
— Meu caro, você sabe que me deixei impregnar pelas teses espíritas, mas não todas, porque o espiritismo rejeita os aspectos exteriores das religiões, seus cultos e sacramentos. Eu entendo perfeitamente tal ponto de vista, mas, estudando a alma humana ou a psicologia espiritual, não é possível deixar de concluir que a maioria das pessoas admite certa ascendência moral dos sacerdotes e até, no caso dos espíritas, dos que trabalham no kardecismo, por respeito aos estudiosos e aos médiuns, por seu mais íntimo contato com os temas e as entidades do outro mundo. Sendo assim, meu aparato material de atendimento às ânsias de quem está prestes a ceder a alma ao Criador atinge os mais simples, os menos afeitos aos conhecimentos da filosofia espiritual. Quanto ao mais, creio firmemente em que os homens, ao desencarnarem, são recebidos por seus protetores ou obsessores, conforme tenham feito o bem ou o mal durante a vida, sendo transportados para regiões em que suas vibrações repercutam no ambiente, para sua felicidade ou seu sofrimento.
Vieira acrescentou:
— Eu não tenho nada contra a que o povo em geral receba a assistência de profissionais da religião, desde que estes sejam bem intencionados e cônscios dos benefícios que possam trazer aos pacientes. Foram estes princípios, de modo geral, que incutimos na mente de seu pai, que nos solicitava todo tipo de informação, chegando a levantar dois quesitos primordiais, que me chamaram muito a atenção. Ele queria saber se podia prometer comunicar-se com o plano dos viventes, sendo-lhe permitido participar das sessões espíritas do meu centro. O segundo ponto correspondia à responsabilidade que poderia ter o indivíduo quanto a suspender os tratamentos que o mantêm vivo, ou seja, se poderia alguém que se recusasse a ingerir os remédios ser considerados suicida.
— Que respostas vocês deram a ele?
Vieira continuou com a palavra:
— Respondemos de forma afirmativa quanto aos dois pontos. Sempre se dão comunicações nas sessões mediúnicas em que os espíritos declaram que morreram há pouco tempo, o que, de resto, você já deve ter lido em Kardec.
— Sim.
Fulgêncio interveio:
— Quanto à natureza da comunicação, chegamos a um acordo quanto ao fato de que muitos assuntos são vedados aos desencarnados e só raramente as narrativas se permitem do ponto de vista da elucidação de casos verídicos, como ocorreu no célebre julgamento em que se admitiu mensagem recebida por Chico Xavier, inocentando uma pessoa acusada de assassinato.
Teo comentou:
— Entendo que deva ser assim mesmo, caso contrário todos os tesouros e crimes enterrados seriam descobertos. Sempre as coisas relativas ao mundo material devem restringir-se ao plano dos seres vivos, porque os interesses dos que morrem devem ser bem outros.
Vieira concordou:
— Você está certo. Vejo que tem estudado a doutrina.
— Sempre que tenho um tempinho livre, o que tem acontecido com certa freqüência. Quando as crianças me permitem, eu me dedico à leitura das obras espíritas.
Vieira retomou:
— Quanto a ser considerado suicida o sujeito que deixa de tomar os medicamentos que o manteriam vivo, levantamos os problemas referentes à lei de conservação, conforme se encontra em O Livro dos Espíritos, a qual prescreve que, naturalmente, cada ser vivo deve preservar o ato de criação do Pai. De qualquer modo, tiramos-lhe da cabeça a idéia de que iria enfrentar um tribunal de espíritos superiores, para prescrever-lhe sentenças, conforme fosse julgado culpado disto ou daquilo. Insistimos em que tudo se passa no âmbito da consciência e que, à medida que a pessoa desperta para a verdade, vai adquirindo maior responsabilidade perante a existência, tanto que é fato corriqueiro registrado na literatura mediúnica que muitas pessoas solicitam reencarnações expiatórias, após compreenderem que se encontram em dívida relativamente à família ou à sociedade.
— Qual foi a reação de meu pai?
Fulgêncio deu descanso ao companheiro:
— Seu pai sempre esteve tranqüilo, como se aceitasse qualquer que fosse o destino de sua alma. Entendeu logo que precisava ampliar os conhecimentos e que não tivera as mais saudáveis experiências de vida, notadamente pelo fato de ter sido policial, quer dizer, por ter tido a necessidade de tomar decisões rigorosamente segundo as leis dos homens e não de acordo com as emanadas do Senhor.
— Vocês acompanharam o desenvolvimento da doença? Saberiam dizer se ele suspendeu o tratamento?
Vieira respondeu:
— Não me pareceu que o interesse de seu pai se voltasse para uma atitude suicida. Não posso dizer que ele esbanjasse saúde, no entanto, podia realizar muita coisa, já que se restabelecera quase totalmente da paralisia.
Nesse meio tempo, Fulgêncio trouxe Dona Vilma, já instruída quanto à questão levantada pelo filho:
— Teo, seu pai, posso assegurar, tomou todos os remédios religiosamente. Você se esqueceu que havia um enfermeiro cuidando dele?
— Mãe, não estou suspeitando de nada. Acontece que ele vinha tomando remédio para afinar o sangue, o anticoagulante, e, mesmo assim, sofreu um ataque cardíaco, muito provavelmente por entupimento de artéria.
Renildo esclareceu:
— Conversei com o médico que forneceu a certidão de óbito e ele me confirmou que, realmente, a síncope foi causada por coágulo.
Teo quis saber:
— Ele explicou por que o remédio não fez efeito?
— Eu perguntei, contudo, como não foi feita autópsia, não pôde garantir-me a origem exata do desenlace.
Teotônio ficou alguns instantes meditando e, por fim, disse:
— Para exumar o corpo só com autorização judicial e, para isso, tem de haver justificativa legal. Se a gente alegasse suspeita de que o medicamento não continha o elemento ativo...
Renildo interrompeu-o:
— Nenhum juiz acolheria a solicitação, porque o remédio é extremamente barato, não justificando falsificação. Por outro lado, facilmente se encontrará a caixa com os comprimidos restantes ou o lote da partida adquirida pela drogaria.
Teo concluiu:
— Vamos ficar com mais um mistério por solucionar.
Fulgêncio discordou:
— Não pode haver dúvida nenhuma quanto a seu pai ter tomado o remédio. Acredito que ele vinha fazendo exames de sangue regulares, mensais, para avaliar o ponto exato de coagulação. Caso houvesse qualquer dificuldade, o médico que o assistia teria modificado a dose e acertado o índice. Para mim, não há nenhum mistério. Ele estava no fim da vida e entregou a alma a Deus, conforme se inscrevia em seu código genético.
Teotônio brincou:
— O DNA não é aquele sistema todo enroladinho que a gente vê nas ilustrações? Então, caro padre, o senhor está confirmando que Deus escreve certo por linhas tortas...
E a conversa se encerrou aí.
Antes que a reunião se desfizesse, Teotônio ainda teve tempo de pedir a Renildo, em particular, para ouvir de novo a gravação da voz do bandido.
— Você pode verificar o número do telefone de onde ele discou pra você?
Enquanto Renildo providenciava, Teotônio abriu sua agenda eletrônica, buscando pelo número para onde ligara quando conversou com o bandido. Aí, sem referir o fato a Renildo, verificou que os números coincidiam.
Naquela mesma noite, Teotônio ligou para o bandido, tendo sido atendido por ele mesmo:
— Alô! É você, Teo?
— Eu mesmo. Vejo que você possui reconhecedor de chamadas.
— Antes de mais nada, queira receber os meus pêsames pelo falecimento de seu pai.
— Agradeço as suas palavras, mas estará você sendo sincero, depois de ter invadido o apartamento?
— Não se esqueça de que eu o admiro muito, mais ainda quando você tem feito tanto bem pra todo o mundo. Continuo reconhecido por seu ato de bravura e despojamento. Você, por certo, me ligou por ter ouvido a minha voz no telefone do agente.
— Isso mesmo. O que eu quero perguntar é simples: o que foi que vocês levaram?
— Vou colocar as coisas de modo diferente. Se vocês derem por falta de alguma coisa, volte a ligar pra mim, que eu digo se fui eu que retirei de lá.
— Não dá pra me adiantar nada?
— Você sabe que eu tinha certos negócios com seu pai.
— Você está se referindo ao fato de ter evitado atirar nele?
— Você me entendeu perfeitamente. Renovo minhas condolências e me despeço, desejando-lhe que continue a ser o atleta admirado e o homem bondoso que nós do povo admiramos. Adeus!
E desligou.
Teotônio não hesitou. Imediatamente ligou para Renildo:
— Alô, Teo!
— Renildo, você conversou com o bandido do telefone?
— Você sabe que sim.
— Estou referindo-me a um outro telefonema.
— Na verdade, liguei pra aquele número que lhe passei, com medo de que você dissesse a ele alguma coisa que me envolvesse.
— Do que você desconfia?
— Quando eu lhe disser o que seu pai me passou, vai ficar tudo claro.
— Você conversou com Fulgêncio e Vieira a respeito dos terrenos?
— Vamos esperar que eles estejam de posse das escrituras e faremos negócio. Não é isso que você está querendo?
— Tudo bem. Vou ter de dar uma de santo, embora a minha paciência já esteja incomodando-me. Você sabe que eu gosto de que as coisas se resolvam logo.
— No entanto, pelo que disse Vieira, vai ter de esperar que seu pai se adapte no etéreo e alcance equilíbrio moral. Antes que você me peça pra me explicar, devo dizer que os conceitos espíritas não são o meu forte. Estou tão-só repetindo o que disse o palestrante.
— Que palestrante?
— Vieira não é palestrante?
— Boa noite!
— Boa noite!
Rosinha, desde algum tempo, aguardava o fim da ligação:
— Teo, as suas malas estão arrumadas. Quer ver se está faltando alguma coisa?
O craque abraçou a esposa, que se esforçou para livrar-se do marido, com a desculpa de que as empregadas estavam por ali.
No quarto, sobre a cama, ainda abertas, as três malas grandes e a que levaria na mão.
Rapidamente, acostumado à tarefa, Teotônio conferiu todos os itens, achando tudo mais do que satisfatório, passando a fechar as valises, enquanto Rosinha chegava com Renato no colo e Jacira solta, às carreiras de encontro ao pai.
Teotônio partiria no dia seguinte, deixando a esposa e as filhas a fazer companhia à viúva.



13. ROSINHA SE INTEIRA DA VERDADE

Estava Teotônio ainda no avião, quando Rosinha, tendo deixado os filhos com as avós, foi encontrar-se com Renildo.
— Rosinha, só estou conversando com a senhora por dever de amizade. Sei que seu interesse em conhecer a mensagem que tenho de transmitir ao Teo, por ordem do pai dele, tem origem num sentimento de fidelidade...
— Renildo, não me venha com essa conversa fiada. Você vai dizer tudo o que sabe a respeito da conta em meu nome. Se isso envolver o meu sogro, é até bom que eu saiba antes do Teo, porque posso contornar...
— O que posso dizer-lhe é que não existe aquele perigo que vocês temeram.
— Isso você já disse ao Teo. Quero saber a razão de você me deixar tranqüila, quando, de fato, o dinheiro está lá e eu não sei de onde veio.
— Em primeiro lugar, você deve compreender que eu fui metido nessa embrulhada sem saber de nada. É verdade que descobri a correspondência do banco, mas foi você...
— Pode pular essa parte. Estou a par disso tudo. Quero saber de onde veio o dinheiro.
— Em segundo lugar, eu só vou revelar a você o que sei, se me prometer que não irá dizer nada ao Teo nem a ninguém mais, pois estou comprometido com o prazo estipulado por seu sogro.
— Eu não sei se posso fazer tal promessa. Você diz o que sabe e eu decido depois.
— Nada feito. As coisas podem complicar do meu lado, conforme as pessoas que ficarem sabendo da existência do dinheiro.
— Você disse que não tem perigo nenhum.
— Enquanto as coisas se mantiverem do jeito que estão, com certeza não haverá problemas.
— E a invasão da casa do meu sogro?
— Não ficou claro se as coisas estão relacionadas. De qualquer modo, aqueles bandidos, se quisessem, teriam agido contra Teo, contra Wilsinho e até contra você. Acho que seu marido sabe mais a respeito deles do que eu. Bem pensando, você mesma pode estar a par dos negócios daquela quadrilha...
— Eu só sei o que Teo me contou e, pelo que me parece, ele não me disse tudo.
— Esse lado, então, deve ficar sob a responsabilidade dele, porque eu não sei de nada, ou quase nada.
— Existe um em terceiro lugar?
— Existe. Você tem de ficar ciente de que não terei nenhum lucro com todos esses acontecimentos. Ao contrário, pode até acontecer de perder a confiança do seu marido, já que o pai exercia total controle da contabilidade que realizo e agora o Doutor Rosalvo irá estabelecer só as auditorias. Você sabe que estou dedicando-me exclusivamente a gerenciar a carreira de um só profissional. Se eu o perder, vai ser uma catástrofe.
— O que você está escondendo de mim pode ter esse efeito?
— Pode, se os fatos não ficarem devidamente esclarecidos no que tange à minha pessoa.
— Em suma, você está apavorado.
— Estou receoso do que você possa fazer com as informações, ainda mais que não quer me prometer sigilo.
— Se eu prometer, você se abre comigo?
— Conto tudo o que sei.
— Eu prometo que, seja o que for que você me disser, manterei segredo, não passando adiante pra ninguém.
— Nem pra sua mãe...
— Nem pra minha mãe.
— Pois bem, o que vou revelar não deve manchar a memória de um homem íntegro, leal e trabalhador. É preciso que a gente considere a paisagem moral em que a sociedade coloca as pessoas, forçando-as, muitas vezes, a realizar tarefas que, à vista rigorosa dos ensinos dos mestres e dos enviados de Deus, seriam tidas na conta de maldades, de crimes, de transgressões das leis dos homens e das leis de Deus.
— Você está transformando o meu sogro num santo?
— Ao contrário, estou dando-lhe as dimensões humanas, segundo o local e o momento em que ele se viu vivendo.
— Quer dizer que você está anulando-lhe o livre-arbítrio?
— De modo nenhum. Estou limitando-lhe a área de atuação, porque ele se viu na contingência de resguardar a família ameaçada, desde que entrou para as forças policiais e se encontrou reunido com grupos de facínoras, dentro e fora da corporação.
— Agora você está colocando todos os policiais como farinha podre do mesmo saco.
— Absolutamente. Eu tenho muitos amigos e até parentes exercendo as funções mui dignas...
— Está bem! Entendi. Como existem péssimos jogadores de futebol, também existem os craques como Teo e Wilsinho, por exemplo.
— Estou dizendo que, como existem Rosinhas e Flávias, também existem, sob o mesmo teto, Renatos e Laurinhas, apenas pra citar como pessoas muito próximas.
— Em toda família, a gente encontra as chamadas ovelhas negras.
— Não estou dizendo que Arnaldo tenha sido exatamente isso. O fato é que foi requisitado pela quadrilha em que se viu imerso, pras funções de tesoureiro e contador. Isto significa que não exigiram dele atividades de campo, ou seja, ele não precisou participar dos atos criminosos, como aquele que custou a vida de seu irmão.
Renildo suspendeu o discurso e Rosinha pôde pôr diante de si o velho sargento das desconfianças de Teotônio. Finalmente, sentindo-se bastante agitada, perguntou:
— Quer dizer que ele ajudou a executar ou a planejar a execução dos bandidos naquela carnificina que vitimou o Renato?
— Pelo que me disse, ele só ficou sabendo depois. Também me garantiu que seu irmão se viu, de repente, no lugar errado, na hora errada, porque não era pra ele estar lá naquele momento.
Novamente, Rosinha teve alguns instantes de silêncio, durante os quais seus pensamentos turbilhonaram. Pensou em deixar Renildo falando sozinho, mas acabou considerando que lera mensagens póstumas do irmão, nas quais não fazia qualquer acusação nem demonstrava rancor. Tomou essa atitude como modelo de conduta, reunindo forças pra voltar a interrogar o empresário:
— Como é que aquela conta foi parar no meu nome?
— Você já entendeu que se trata de dinheiro escuso, naturalmente...
— Desde o início.
— Pois Arnaldo abriu diversas contas no exterior em nome dos comparsas e uma em seu próprio nome. Disse-me ele que jamais utilizou qualquer soma produzida pelos crimes de extorsão, de tráfico e outros mais que suponho como sendo dos resgates de seqüestros, de desvios de verbas oficiais, de recompensas oferecidas por particulares pra manter-lhes a segurança, inclusive pela eliminação dos malfeitores etc. Quando morria algum deles, e foram muitos os assassinados, transferia os fundos pra sua própria conta, criando assim uma soma considerável. Um dia, eu penso que antes de Teo ter toda a projeção financeira que lhe fez a fortuna que eu tenho a honra de administrar, ele, que não gastou nada, da mesma forma que não se aproveitou dos bens de herança, talvez arrependido, talvez por insegurança quanto ao futuro espiritual, eu não sei, julgou por bem transferir a conta no exterior pro nome da nora, ou seja o seu, forma indireta de ajudar o filho a praticar a caridade, já que poderia...
— Você está falando essas coisas porque ouviu ou porque acha que foi assim?
— Estou, como se diz, esticando o assunto, pra lhe dar oportunidade de considerar todos os aspectos da questão. A verdade é que a reação psicológica dele está provocando sério problema pra você e pro Teo, uma vez que vocês não vão querer ficar com o dinheiro, precisando considerar muito bem...
— Não me coloque no centro dos acontecimentos. O pai causou um problema pro filho, não pra nora, porque, se depender de mim, vou diretamente contar ao ministro da justiça...
— Não incentive o seu marido a fazer isso. Ele mesmo pode sofrer as conseqüências da divulgação desses atos ilegítimos.
— Que papel você desempenhou nisso tudo?
— O papel que já lhe disse: eu me vejo envolvido nas tramas de um episódio pro qual não colaborei em nada. Eu estou nessa quase como você mesma. Se você se considera inocente, considere-me também.
— Mais uma vez os bons pagam pelos maus.
— Exatamente.
— Que é que você vai recomendar que o Teo faça?
— Vou deixar a bomba na mão dele. Como o dinheiro está no seu nome, vocês é que têm de dar-lhe o melhor destino.
— Se estivesse no seu nome, que é que você faria?
— Tenho pensado muito em que doá-lo ao governo do país em que está instalado o banco talvez seja a melhor solução.
— E quanto aos documentos da doação, como é que você faria pra livrar-se do problema?
— Não haveria documentos, muito provavelmente, já que eu insistiria em que a doação ficasse condicionada ao anonimato mais completo.
— Não é arriscado que alguém passe o dinheiro pro próprio bolso?
— Arriscado é, mas o problema desapareceria de vez.
— E se eu quisesse transferir o dinheiro pra alguma conta minha no Brasil ou no exterior?
— Aí eu estaria encalacrado, porque teria de justificar a existência de tão elevada soma.
— Você precisaria, como se diz, lavar o dinheiro?
— Há inúmeros meios de fazê-lo mas a gente sempre iria esbarrar com a extrema honestidade de seu marido, que, até hoje, não deixou de declarar ao fisco um só dólar, euro ou real que recebeu.
— Daria pra esconder dele essa movimentação?
— Até daria, se a gente arquitetasse uma grossa mentira. Não conte comigo pra isso, por favor. Eu perderia meu único cliente mas não cometeria deslize algum contra quem tem sido meu apoio e meu exemplo de moralidade. Você pode contar-me entre os milhões de admiradores de seu marido.
— Renildo, eu não estou falando sério. Só estou especulando.
— Pelo amor de Deus, não me assuste! Mas você precisa saber que existem senhas e fórmulas para as retiradas. Somente comprovar a titularidade por meio de documentos não basta. Estou de posse de todos os artifícios utilizados para bloqueio comercial de sua conta. Sozinha, você não conseguiria nada.
— De qualquer modo, existe, então, a possibilidade de se transferir a conta inteira pra outro titular, sem deixar rastro algum do antigo possuidor?
— Internamente, a instituição bancária mantém sigilo absoluto das movimentações financeiras. Não sei se, a pedido do poder judiciário, revelaria o histórico da conta. Normalmente, os bancos dos paraísos fiscais inutilizam todos os dados relativos aos clientes antigos. Todavia, eu não saberia dizer se esse banco específico procede dessa maneira.
Renildo procurou olhar no fundo dos olhos da jovem senhora à sua frente e encerrou o assunto:
— Como você me prometeu manter segredo, vamos deixar todas estas especulações pro momento em que Teo for informado de tudo. Não se esqueça de que vai tratar-se do pai dele.
Rosinha ainda esperaria pela missa de sétimo dia do sogro, para voltar à Europa, levando os filhos e a mãe. Quanto à sogra, não conseguiu convencê-la a ir junto.



14. LAURA NA CASA DOS PAIS

Não esperava Laura encontrar os pais tão bem instalados:
— Mãe, como é que vocês estão morando neste luxo? Tudo novinho aqui dentro, com tantos quartos e salas. Parece um palácio.
— Foi Rosinha quem pôs a gente aqui. Ela disse que Teo ajudava tanto as pessoas desconhecidas, enquanto os parentes iam sendo deixados de lado.
— Mas este apartamento vale mais de um milhão.
— Vale mais de dois milhões.
— E como é que vocês fazem pra pagar o condomínio e os impostos?
Dona Esmeralda consultou Artur com o olhar e respondeu:
— Nós não pagamos nada, nem aluguel, nem condomínio, nem impostos, nem as duas empregadas. O seu pai mantém o negócio da água e de lá nós tiramos o suficiente pros nossos gastos pessoais, comida e remédios. Nem o plano de saúde sai do nosso bolso.
— Se vocês venderem o imóvel, vão poder adquirir outro mais modesto e com a sobra...
— Não está no nosso nome. Você acha, querida, que, depois do que você fez à sua prima, ela iria querer que a gente deixasse alguma herança pra você?
— Não iria fazer falta nenhuma a ela. De qualquer jeito, ela não vai pedir nunca que vocês saiam daqui.
Artur, que se mantivera calado, enquanto carregava o neto mais novo, já que o mais velho estava no colo da avó, interveio:
— O que vou dizer pode ser muito rude mas faz sentido. Se sua prima descobrir que você está morando com a gente, principalmente agora que o seu namorado está foragido, é bem possível que ela peça pra desocupar a moradia.
Esmeralda correu em socorro da sobrinha:
— Eu duvido que ela faça isso.
Laura foi quem fez a derradeira e definitiva observação:
— Vocês vão continuar morando aqui mas eu e meus filhos, com certeza, vamos ser despejados.
Artur insistiu:
— Você tem a intenção de ficar morando aqui?
— Pai, meu plano de permanência com vocês é por pouco tempo. Onde estou, renovei minha vida e me sinto muito bem, como me sentia quando a gente morava no interior e eu era só uma menininha.
Esmeralda demonstrou-se aflita:
— Você está pensando em levar as crianças com você?
— Mãe, o que eu posso prometer é trazê-las umas duas ou três vezes por ano. Mas vocês vão poder ir visitar os netos.
Artur quis demonstrar certa energia:
— Menina, a gente não está sabendo onde é que você mora. Cada vez que chega uma carta, é de um lugar diferente.
— Pai, foi o jeito que encontrei de despistar a polícia e quem mais quisesse me localizar.
— Seu namorado sabe onde você fixou residência?
— Ele não sabe, pai, nem eu vou dizer, nem que me force. Ele não vai me tirar o que conquistei por mim mesma. Eu só estou livre graças ao sargento e ao advogado que ele arrumou, além dos conhecimentos que tinha das autoridades. Fernando é o pai dos meus filhos, mas que exemplo é que ele tem dado?
— Você já se encontrou com ele depois da fuga?
— Não, pai. Eu vim pra desfazer tudo. O que eu disse a vocês vou repetir a ele.
Esmeralda estremeceu e suplicou:
— Laurinha, esse rapaz é muito perigoso. Não o provoque que ele é capaz de fazer uma desgraça.
— Mãe, eu não vou fazer nenhuma ameaça. Mas eu sei que ele vai querer o melhor pros filhos. Se ele se regenerar...
Artur meteu o bedelho:
— Não creia nisso. Os jornais estão dizendo que ele matou na cadeia e que está jurado de morte. Uma pessoa assim não pode ser de confiança.
Laura meneou a cabeça e afirmou:
— Ele adquiriu a confiança do bando. Quem está de fora não sabe, mas ele deve estar sendo protegido.
Artur redargüiu, meneando a cabeça por sua vez:
— Deve estar escondido em algum barraco de madeira, numa dessas favelas na periferia da cidade.
— Pai, pense bem. Se ele correr o risco de ser denunciado, toda a quadrilha poderá sofrer com isso. Ele deve estar sendo abrigado em alguma fortaleza de um dos chefes importantes.
Desta feita, Artur não perdoou:
— Seja como for, não vai ser assim que ele irá se regenerar. Ao contrário, vai estar cada vez mais mergulhado no crime.
Laura teve de considerar que o pai estava com a razão. Então, pediu para ver os cômodos da casa.
Flávia deixou os netos com o avô e acompanhou a filha:
— Venha ver onde você irá dormir.
— Quantos quartos são?
— Quatro mas um nós transformamos em escritório.
— Precisava? Vocês não têm uma sala própria?
— Transformamos em sala de TV. Seu pai tem o aparelho dele e eu tenho o meu.
— Mas isso é muito pra minha cabeça! Sala de estar, sala de jantar, copa, cozinha, banheiro social... Quantas suítes?
— Quatro quartos, quatro suítes, naturalmente, e três vagas na garagem.
— Desocupadas, naturalmente...
— Nós alugamos uma. Sempre rende um dinheirinho. As outras duas estão com os nossos carros.
— Mas que danados. Alguma empregada dorme no emprego?
— As duas. Existem dois quartos, dois banheiros e duas saletas pra elas. Aliás, elas podem entrar e sair por portas independentes, que dão pro corredor dos fundos. Elas são solteiras, mas, outro dia, nós ouvimos vozes masculinas.
— Vocês não têm medo de dar de cara com ladrões?
— Ninguém entra no prédio sem ser identificado, nem no apartamento, sem receber ordem pra subir. Este é o escritório. O armário fechado está cheio de livros. Foi a nossa herança do sargento.
Laura sentiu curiosidade em abrir as portas dando com as belíssimas encadernações.
— Não sei se os livros são caros, disse ela à mãe, mas estas encadernações devem ter ficado uma fortuna. Disso eu entendo, porque são encadernações artesanais. Veja estas letras douradas. Não são feitas com tinta; são feitas com ouro legítimo.
Após percorrer os títulos da primeira repartição, Laura comentou:
— São livros espíritas. Eu já li dois ou três romances. Quando a gente não tem nada pra fazer, eles distraem.
— Você não tem televisão?
— Tenho, porém, não dá pra ficar o tempo todo vendo novelas. Também o Andrezinho tem os seus programas preferidos.
Enquanto falava, Laura ia abrindo alguns exemplares, quando deu com um envelope preso na contracapa de um deles. Havia um destinatário: Para Laurinha.
A moça tentou soltar o envelope, mas estava firmemente grudado.
— Que foi que você achou aí?
— Uma carta dirigida a mim.
— Deixe ver.
Flávia, sem cerimônia, rasgou o envelope, retirando de dentro dele uma folha dobrada, que passou à filha, morta de curiosidade de conhecer-lhe o conteúdo.
Laura, com um gesto lento e seguro, colocou a missiva dentro da blusa, explicando:
— Vou ler mais tarde.
A bem da verdade, a emoção que sentiu fez com que se desinteressasse pelos demais cômodos, precisando a mãe chamar-lhe a atenção para o fato de haver, num dos quartos, uma cama de solteiro e dois berços, o que demonstrava, inequivocamente, que os pais estavam aguardando o regresso da filha.
De fato, as malas para lá haviam sido transportadas, esperando pela arrumação nos armários.
— Mãe, a que horas o carteiro deixa a correspondência na portaria?
— Quando há alguma carta, o rapaz avisa pelo interfone e alguém vai buscar. Por quê?
— Eu escrevi uma carta pra vocês mas acho que acabei chegando antes. Vocês não receberam nenhuma carta minha de ontem pra hoje?
— Vou ligar pra saber.
— Deixe que eu ligo. Se tiver chegado, eu mesma desço. O que escrevi não tem mais importância.
Realmente, deu tempo para que Laura interceptasse a carta que havia mandado ao namorado. Interceptou também um grande envelope endereçado ao pai. Nele havia um envelope menor, selado, endereçado, com remetente fictício. Um bilhete esclarecia que era para ser colocada a carta da filha.
Sossegada, pôde a moça maquinar a melhor resposta, para propor um encontro que André não estava esperando.
Finalmente, após ter assinalado o número de seu celular novo, pediu ao rapaz que ligasse, caso estivesse certo de que não estava grampeado. Antes de colocar a missiva no correio, verificou que o endereço assinalado no envelope era de caixa postal, deduzindo que serviria para a correspondência de vários elementos do bando. De qualquer modo, fez questão de guardar os dados.
O que lhe causou certa decepção foi a carta que lhe fora destinada pelo sargento Arnaldo, na qual o velho apenas dizia que deixara os livros para os pais dela, com a intenção, porém, de que ela se interessasse por eles, já que foram aquelas obras que lhe haviam aberto os olhos para a salvação do espírito. Notável, contudo, foi a promessa ali contida de esforçar-se para entrar em contato com ela, por meio da intercessão de algum protetor, mediunicamente. Recordou-se do relato da mãe-de-santo, confirmando a crença em que a figura translúcida que acompanhava o espírito do primo, vistos no etéreo pela médium, era realmente do sargento.



15. ANDRÉ

Demorou alguns dias para André ligar:
— Laurinha, eu quero que você venha se encontrar comigo. Pode trazer as crianças.
— Você jura que não há perigo de a polícia...
— Vou mandar uma viatura apanhar vocês no aeroporto.
— Eu estou na casa dos meus pais.
— Vá amanhã, às sete horas, com as crianças, até a padaria da esquina. Compre pão e leite. Na saída, meu motorista estará esperando você com a porta do carro aberta. Você vai viajar pra fora da cidade. Eu estou num sítio, no interior. Agora vou desligar.
Aquele resto de dia, Laura passou hesitante quanto a ir ao encontro. Pensou em avisar a polícia mas considerou que não havia motivo para temer qualquer represália do namorado. Tanto bastou para avaliar que a antiga vida irregular estava soterrada debaixo de sentimentos afetivos que a enlaçavam aos filhos. Sentiu que André havia dado ordens expressas, como sempre fizera, tratando-a como objeto seu. Finalmente, resolveu dar curso ao plano de informar tudo ao traficante.
Aquela noite, quase não dormiu, não vendo a hora de levantar, arrumar as crianças e sair atrás do seu destino.
Por volta do meio dia, apeava Laura do carro, diante de um velho casarão colonial. As crianças haviam dado trabalho, cansadas da longa viagem.
Antes que abrisse a porta, já André estendia os braços para apanhar os meninos através da janela. Andrezinho se deixou empolgar pelo pai, José, entretanto, agarrou-se à mãe, assustado, com certeza, com a barba hirsuta do jovem.
— É seu pai, sussurrou-lhe ao ouvido a mãe. Não tenha medo dele.
Mais ainda se prendeu o garotinho à blusa de Laura, que saiu do carro, indo já André na direção de um lago, onde cisnes, patos, marrecos e gansos nadavam.
Dois cães negros e grandes latiam ferozes, presos numa espécie de jaula com portões reforçados por barras de ferro.
— Laurinha, traga o menino pra ver as aves. Não se assuste com os cachorros: eles estão presos. Venha cá!
Laura se aproximou do namorado, avaliando o quanto estava mudado, muito mais moreno, quase esquelético, vestido como os homens do interior, notadamente pela camisa xadrez e pelas botas altas, com esporas.
— Você está morando aqui?
— Moro numa casa de colono, mais no fundo da propriedade.
— Não estou vendo mais ninguém.
— A fazenda é guardada eletronicamente. Lá dentro, ficam as telas com as imagens de várias câmaras espalhadas pelos pontos estratégicos. Nesta hora, o pessoal está almoçando na casa grande. Você está com fome?
— Comemos na estrada.
— Dá aqui o José. Esse ainda não me conhece.
— Está estranhando a sua barba. Aliás, eu também.
— Mas você me reconheceu logo.
— Claro que reconheci.
— Pois eu quase que não percebi que era você, com esse vestido de velha, esse penteado de matrona, essa cara lavada e essas gordurinhas por todo o corpo.
— Estou mais velha.
— Estou vendo. Depois a gente vai comprar umas roupas novas e aí você vai voltar a ser a mesma de antes.
André jogava punhados de milho para as aves do lago, que causavam muito alvoroço.
Laura esperou que a brincadeira terminasse para propor que fossem ver a casa. Ela queria ter a certeza de obter toda a atenção para o que pretendia dizer. No entanto, André conduziu-a de volta à entrada do casarão, fazendo-a entrar na ampla varanda, onde se viam três sofás e algumas poltronas.
— Vou levar você pra conhecer a turma.
Na sala principal, em torno de uma ampla mesa, viam-se umas doze pessoas, homens e mulheres, que silenciaram ao se depararem com os recém-chegados.
André fez as apresentações:
— Pessoal, Laurinha e meus filhos, Andrezinho e José.
A moça correspondeu ao aceno dos homens e aos sorrisos das mulheres, havendo duas que se levantaram para abrir lugar para que se acomodassem todos junto à mesa.
Por cortesia e também por curiosidade, Laura sentou-se diante do prato vazio, ao lado do rapaz, instando que não estava com fome, que haviam almoçado na estrada.
A comida era farta nas travessas, que demonstravam que haviam sido atacadas com vigor pelos convivas.
Uma das mulheres, visivelmente grávida, serviu André, tendo notado Laura que não havia perguntado nada a respeito da qualidade ou da quantidade da comida. Foi como começou a desconfiar de que havia mais do que camaradagem entre os dois. Mas calou-se, pondo-se atenta para todos os indícios que poderiam evidenciar intimidade. De fato, acabou percebendo que, disfarçadamente, André havia feito um carinho na barriga da mocinha, que, pelo cálculo de Laura, não devia ter mais do que quinze ou dezesseis anos.
— Como é que chama a garçonete? — perguntou à rapariga, quando esta se debruçava para despejar bebida no copo das crianças.
— Mariazinha.
Respondeu e corou até às raízes da vasta cabeleira negra. Em seguida, saiu, não retornando mais à sala.
Os demais haviam voltado a conversar abertamente, de modo que somente André prestara atenção no interesse da namorada.
Não demorou, contudo, para que à mesa ficasse apenas o casal com os filhos, tendo os trabalhadores saído sorrindo e satisfeitos.
— André, os rapazes até que estão tomando um pouco de sol, mas as mulheres estão brancas demais. Faça com que peguem uma cor todo dia, porque elas estão mais com jeito de estarem refinando e empacotando droga do que de trabalhando na lavoura.
— Será que ninguém engana você?
— Estou tentando dar um aviso. Aliás, a Mariazinha não engravidou de você. Não daria tempo, desde que você fugiu da prisão.
— Por que essa observação? Você acha que estou com ela?
— Claro que está. Não foi por essa razão que você quis que eu viesse até aqui?
— Eu queria ver as crianças.
— Essa foi a desculpa. A verdade é que você está querendo se descartar de mim. Eu vim decidida a falar toda a verdade com você e vou fazer isso. Eu também estou resolvida a continuar a vida que criei longe daqui, cuidando de artesanato.
— Lá em Maceió, conforme estava no carimbo do envelope?
— Você bem que está sabendo que moro em Salvador.
— Como poderia saber?
Laura pegou Andrezinho no colo e pediu-lhe:
— Diga de novo ao papai o nome da cidade em que a gente mora.
A criança não se fez de rogada:
— Salvador.
— Que tipo de artesanato que você está fazendo lá?
— Por essa você não esperava. Mas não tem importância. Eu gosto de você, apesar de todos os seus defeitos. Vou dizer o que faço e depois você vai me dizer uma coisa que estou querendo muito saber.
— Se você está sendo sincera, eu também vou ser.
— Ótimo! Estou tomando conta de uma espécie de oficina ou pequena fábrica de produtos variados: cerâmica do tipo de Vitalino, aqueles bois, cantadores, santos etc., de barro pintado ou não; trabalhos de bilro: toalhas, colchas, lençóis, fronhas; tapeçaria rústica, com desenhos ou lisas; entalhes artísticos de madeira...
— Você faz tudo isso?
— Eu só organizei as mulheres e promovo as amostras e feiras, vendendo toda a produção e distribuindo os lucros. Na verdade, estou passando com o dinheiro que você mandou que eu usasse. Você vai querer ficar com o que sobrou?
— Deixo pras crianças, até pra esse aí que não gosta de mim.
— Se você cortasse a barba...
— É o meu disfarce.
— Você acredita que não vão raspar a sua cara, quando a polícia baixar aqui?
— Só se alguém nos denunciar.
— Você acha que os vizinhos são tontos e que não estão estranhando o movimento da fazenda?!...
— Tudo o que se fazia antes, está sendo feito agora.
— Duvido que vocês não estão chamando a atenção com a quantidade de cocaína que sai embalada nos caminhões, debaixo dos sacos de milho e de soja.
— De onde você tirou essa idéia de grande quantidade?
— Existem barris espalhados por toda a propriedade. Vocês estão arriscando-se muito. Eu, que entendo pouco, sou capaz de ver; imagine se a Polícia Federal der uma busca aqui...
André passou largo tempo calado. Palitava os dentes, olhando para as telhas vãs, recostado na cadeira que pendia para trás. Finalmente, perguntou:
— Você tem mais alguma coisa que queira dizer? Pelo que entendi, você veio com muitas idéias na cabeça.
— Só vou dizer uma coisa: na Bahia, ouvi de uma mãe-de-santo, tomada por um espírito, que eu deveria trazer “aquele que se esconde” pra luz. Vim cumprir a obrigação, porque o espírito curou o mais novo, que estava muito doente.
— Macumba?
— Não chame assim. Pode dizer candomblé ou umbanda de linha branca. Sabe que mais? A mãe-de-santo disse que viu o espírito do Renato, acompanhado do espírito do Sargento Arnaldo.
— Li nos jornais que ele havia morrido. Se não me engano, no mesmo dia que fugi. Mas isso tudo não foi invenção dela?
— Foi na primeira e única vez que nos encontramos. Ela não disse os nomes, mas eu concluí que eram eles, pela descrição. Além disso, recebi uma carta do sargento, que encontrei presa a um dos livros que ele deu pros meus pais, carta em que ele prometia entrar em contato comigo. Você é livre pra acreditar ou não. Eu só estou cumprindo a minha obrigação.
— Se não fosse isso, você viria me ver?
— Viria, pra pedir que me deixasse levar a minha vida nova, junto a pessoas que, mesmo sabendo quem sou, não me viraram as costas.
— Você contou a elas?
— Eu, não. Elas leram na revista, onde viram a minha foto.
— Agora que sabem quem você é, não tem medo que vão contar tudo?...
— Vivendo longe de você, desde antes que matou... Pode-me dizer quantos foram?
— Peguei um e os outros, mais dois.
— Como está a sua consciência?
— Que consciência, Laurinha? Eram eles ou eu. Muitas vezes a gente não tem saída. A escolha...
— A justiça sabe quem praticou as mortes?
— No pavilhão, havia mais de cem. Como ninguém abriu o bico...
— Você não tem medo de que vão contar tudo? É o mesmo caso meu. A gente tem de confiar nas pessoas. Por exemplo: vou pedir que você nos mande de volta. Se você não acreditar que vou manter o meu bico calado, vai me transformar em refém ou vai atirar em mim.
— Laurinha, você não está acreditando que eu gosto de você. Não está confiando no pai dos seus filhos.
— Você prestou atenção quando lhe disse que quero voltar a Salvador? É pra valer. E vou cheia de medo de sua situação precária neste lugar. Aqui não acho que esteja garantido. Se voltasse pra cadeia...
— Nem pensar. Você está querendo...
— Estou querendo que nada de ruim lhe aconteça.
— Ir pra prisão é o mesmo que ir pro inferno.
— Pense bem: se você levar um tiro e morrer, pra onde é que você vai?
— Pro cemitério.
— Seu corpo, sim; mas, e seu espírito?
— Não me venha com essas histórias pra assustar pivete. Que espírito, que nada! Morreu, acabou.
— Como você explica que muitos que morreram voltaram pra contar como são as coisas do lado de lá?
— Quer que eu diga?! Pois não podem ser piores do que aqui.
— Eu não pagaria pra ver. De qualquer jeito, as pessoas que só fizeram o bem, não podem ser recebidas do mesmo modo que aquelas que não fizeram outra coisa que prejudicar, maltratar, matar...
— Entregar-me eu não vou.
— Então, vou rezar muito por você, pedindo proteção aos orixás e aos espíritos guardiães. Que eles possam iluminar a sua mente. E vou pedir também pra que você consiga fugir, pra cuidar de seus filhos...
André não conteve um sorriso espontâneo. Como Laura não entendesse, explicou:
— Como você tem sido tão sincera, demonstrando que me ama, embora ame mais as crianças que eu (não negue), se eu ficar por aqui, vou poder cuidar de meu filho, porque aquela criança é minha. Mariazinha engravidou da mesma forma que você: numa visita íntima.
— Mas ela não passa de uma menina...
— Foi o presente que me deram por ter obedecido.
— Por que não usou preservativo?
— Fazia tanto tempo...
— Não diga mais nada. Mande o motorista levar a gente de volta.
André agarrou a moça, beijando-a na boca, sem que ela resistisse nem correspondesse. Sentindo-lhe a frieza, afastou-a sem agressividade, percebendo, então, que ela estava com os olhos úmidos, enquanto lhe afagava o rosto barbado.
— Querida, fique até amanhã.
— Querido, devolva-me a tranqüilidade e a liberdade. Eu juro que, nesta ou na outra vida, voltaremos a estar juntos, pra...
Não pôde concluir. Já estava André procurando o motorista.
Anoitecia quando Laura e os filhos desciam do carro, perto do apartamento dos pais.



16. ENTRE MARIDO E MULHER

Rosinha chegara decidida a guardar segredo a respeito da origem do dinheiro que fora depositado em seu nome. Durante a primeira semana na mansão, desdobrou-se nas tarefas rotineiras de orientar os empregados e de cuidar das crianças. Logo, porém, James se interpôs entre a patroa e os serviçais, assumindo as funções que tão bem desempenhava. Flávia, por seu turno, sem ter muito o que fazer, entendeu-se com a governanta, que fora mantida, e ambas passaram a brincar, a educar e a instruir os petizes, despojando Rosinha da segunda e ultima parte das atividades. Foi quando se abriu precioso tempo para que a jovem observasse o marido, especulando-o a respeito dos sentimentos nutridos pelo falecido pai.
Por seu turno, Teotônio vinha cumprindo rigorosamente todos os compromissos agendados pelos dirigentes do clube, como também os fixados nos contratos comerciais. Pouco parava em casa, contudo, na semana, sempre sobravam dois dias inteiros livres, dias que aproveitava para colocar a correspondência em ordem e para dar atenção à esposa e aos filhos.
Com a proximidade do tempo aprazado pelo pai para obter de Renildo as informações que lhe foram sonegadas no primeiro momento, foi tornando-se cada vez mais taciturno, demorando-se junto ao computador ou exercitando-se cada vez com menos entusiasmo nos aparelhos do bem montado salão de ginástica. Até a natural expansividade de seu caráter alegre e brincalhão sofreu profundo corte, tanto que conversava com Rosinha através de monossílabos, sem buscar assuntos, abreviando os momentos em que costumavam colocar-se a par dos acontecimentos diários.
Um dia, estando Teotônio a ler isolado no escritório, a moça assomou à porta:
— Posso interromper a sua leitura?
— Entre, Rosi. Só estou com o livro aberto. Meus pensamentos estão ainda naquele dia da leitura do testamento.
— Você abriu um livro de estudo ou um livro espírita?
— O Livro dos Espíritos, de Kardec. É a terceira vez que estou lendo.
— Por que você não pega os livros de Física, de Química, de Biologia?...
— Não tenho cabeça nem pra entender os livros que já li várias vezes, menos ainda pra ir assimilando novos conhecimentos.
— Desse jeito, você vai esquecer toda a matéria do vestibular. Quando chegar a hora, vai levar a maior bomba.
— Prometo que depois que Renildo me contar o que aconteceu, vou pegar nos livros.
— Posso antecipar o que ele vai dizer?
— O que você sabe a respeito?
— Sei de tudo.
— E só agora você me diz?
— Renildo só me revelou na condição de eu guardar segredo.
— Em matéria de guardar segredo, meu pai já foi o bastante.
— Eu estava pensando que ele quis dar um tempo até se ajeitar no além-túmulo.
— Com que finalidade?
— Cercar-se de protetores, no caso de receber vibrações negativas dos encarnados.
— Um homem que só praticou o bem não tem do que ter medo.
— Ele não prendeu ninguém? Não descobriu criminosos? Não mandou policiais atrás de quadrilhas? Será que nenhum bandido morreu vítima de uma bala de seu revólver?
— Não tenho o que responder, a não ser o fato de que o segredo que foi mantido em relação a mim não diz respeito a essas pessoas a quem você se referiu, a menos que ele tivesse receio justamente da minha reação.
— Pode crer nisso.
— Quer dizer que o que vou saber de você ou de Renildo...
— Eu acredito que você não irá ver maldade em nada, mas pode acontecer que se sinta surpreendido e que, no início, não entenda toda a extensão dos problemas que seu pai enfrentou.
— Como você acha que vou reagir?
— Eu não posso ter certeza de nada, contudo, você está se acabando visivelmente. Aposto que está perdendo massa muscular e que seu desempenho no campo já não é o mesmo.
— Estou me sentindo mais cansado mas acho que não estou dando na vista.
— Você não está alimentando-se direito. Se o nutricionista do clube descobrir, vai obrigá-lo à concentração.
— Estamos fugindo do assunto. Eu estou bem. Se você me procurou, é porque quer me revelar tudo. Então, vou ouvir o que você veio dizer-me.
— Em primeiro lugar, devo dizer que passei a admirar seu pai mais ainda, depois que soube de tudo, apesar de ele não ter agido conforme as leis morais mais puras. Ele deve ter adquirido essa noção desde cedo, porque não tocou num só centavo do dinheiro da quadrilha que o tomou para contador e tesoureiro.
— Que quadrilha?
— Dentro da corporação a que ele servia. É tudo que sei.
— Isso tem que ver com a conta em seu nome?
— Foi seu pai quem fez a transferência.
— Como pôde ele arrecadar tanto?
— Além da parte dele, uma espécie de salário, ele também absorveu as reservas dos que morreram e que mantiveram nele a mais irrestrita confiança.
— Por que pro seu nome e não pro meu?
— Renildo sugeriu que você poderia continuar praticando a caridade através de mim. Mas eu estou achando que ele quis compensar o fato de que meu irmão foi vitimado...
— Quer dizer que ele estava mesmo envolvido com aqueles bandidos, conforme eu sempre desconfiei?
— Sua desconfiança surgiu quando você pensou reconhecer a voz que o ameaçou na escuridão na voz do Cabo Farias. Foi apenas uma coincidência. Você não conseguiu levantar uma prova sequer, por menor que fosse. Sabe por quê? Porque seu pai nunca deixou transparecer nada, quer por atos, quer por palavras.
Teotônio sentiu que lhe fugia o solo sob os pés. Amparou-se na mesa e abaixou a cabeça, colocando-a entre as pernas. Não queria desfalecer.
Rosinha fez peso em suas costas, esperando que o sangue refluísse para o cérebro, para desfazer-lhe o mal-estar. Parecia-lhe que o marido estava sofrendo queda de pressão.
Quando Teotônio ergueu a cabeça, mostrou que chorava copiosamente, sem emitir som algum. Era a personificação do sofrimento.
Rosinha tomou-lhe a cabeça, buscando enxugar-lhe as abundantes lágrimas com seus cabelos e, inutilmente, tentou dizer-lhe palavras de consolo, ela mesmo soluçando, emocionada com a dor demonstrada pelo rapaz.
Após alguns minutos, desprendeu-se o jovem da amorável prisão, conseguindo, com voz entrecortada, dizer à moça:
— Quanto deve estar recebendo meu pai de vibrações ruins! Ao menos, minhas preces devem ter levado a ele o conforto de um coração confrangido pelo entendimento de sua resignação e de seus sacrifícios. Se ele não utilizou nem os recursos recebidos em herança, menos ainda deve ter-se aproveitado dos lucros espúrios do tráfico. Querida, precisamos dar nobre destinação ao dinheiro guardado em seu nome.
— Que você tem em mente?
— Preciso amadurecer um projeto de auxílio a instituições idôneas que possam aceitar contribuições anônimas. Caso autoridades brasileiras venham a descobrir...
A moça ousou concluir:
— Com certeza, vão conspurcar o nome da família, afundando até você na maledicência injusta.
— Não ia chegar a tanto. Ia dizer que iriam querer tomar parte da soma para aplicar em projetos não muito honestos, pra dizer o mínimo.
— Não vamos precipitar conclusões. Renildo ou o Doutor Rosalvo saberiam o que fazer pra evitar o pior.
— Rosi, você não quer responsabilizar-se pela conta?
— De forma alguma. Eu acho que o meu nome foi lembrado de modo muito suspeito. Seu pai, tendo sido tão fiel à quadrilha e tão íntegro em relação à família, não deve ter tido o objetivo de me colocar em má situação.
Já senhor de si, Teotônio complementou:
— Meu pai esperava que o dinheiro servisse pra nós. Ele deve ter feito a transferência antes de existirem os meus contratos milionários. Não se esqueça de que ele ficou doente nesta casa, incapacitando-se pra novas decisões bancárias. No final, consciente de que o dinheiro estava em boas mãos, não se empenhou em fazê-lo desaparecer.
— Teo, você está especulando. Vamos deixar que se assentem os pensamentos que se encontram contaminados pelas fortes emoções da revelação que lhe fiz. Depois, com mais domínio sobre nós mesmos, poderemos planejar melhor o que fazer. Quanto aos motivos que levaram seu pai a transferir a conta pro meu nome, não estamos com todos os elementos pra extrairmos a melhor conclusão.
— Parece que estou ouvindo o Professor Ernesto falando.
— Foram as melhores aulas que tive.
— Aliás, a lógica que ele nos ensinou vive na mente de nós dois. Recordando-me de meu pai, vêm-me à lembrança todos os nossos amigos da juventude.
— Até parece que envelhecemos muito.
— É que estes últimos seis ou sete anos foram repletos de acontecimentos.
— Mais pra você do que pra mim, que me sinto, como você sabe muito bem, totalmente deslocada nesta cidade estranha.
— Hoje é o dia das revelações?
— Se você estiver disposto a me ouvir.
— Disposto não estou para temas...
— Prometo ser o mais sincera possível. E verdadeira. Como você sabe, os dias que passo no Brasil eu consigo preencher com inúmeras atividades. Os que passo aqui esforço-me para me distrair com bobagens: moda, televisão, leituras esparsas, muito estudo sem objetivo. As crianças ficam mais tempo com os outros do que comigo. Da casa eu nem daria conta, tanto que o James tem oito ajudantes. Mal e mal dou um ou outro palpite na comida, quase sempre quando estou com vontade de comer alguma coisa especial. Minha maior diversão é o tempo que dedico à ginástica, ainda assim por incentivo de minha excelente treinadora. Mas tudo me parece extremamente artificial. É como se eu estivesse vivendo uma vida de mentira. Por outro lado, fico pensando em tudo quanto você faz, as partidas em que é ovacionado, as entrevistas em todas as revistas e em todos os canais de televisão; o acompanhamento de suas empresas e de todo tipo de beneficência que você pratica, inclusive pelas visitas que faz aos hospitais, às escolas, aos presídios; todas as inaugurações a que comparece, onde eu me sinto isolada, sempre vigiada de perto pelos seguranças, trocando palavras sem idéias com pessoas que não conheço. Além disso tudo, existem as sessões de fotografias pra propaganda, horas a fio em que eu fico pensando que você está na companhia das modelos mais famosas do mundo...
— Rosi, posso abrir um parêntese? É que jamais senti que você estivesse enciumada.
— Diga, antes, que tenho inveja de sua liberdade. Se isso acontecesse também comigo, haveria uma espécie de compensação. Do jeito que as coisas estão, é como se eu estivesse aqui apenas pra satisfazer o seu ego...
— Pode ir parando por aí. Não me agrida. Eu não me lembro jamais de haver brigado com você, apesar de muitas vezes você ter-se mostrado emburrada, o que a sua médica nos informou que é em determinados dias do mês que seu humor desanda. Eu não só não fiquei bravo com isso, como ainda nunca fiz qualquer brincadeira a respeito. Ao contrário, nesses dias, eu a cerco de atenções e de carinho.
— Eu disse que ia ser verdadeira e honesta. Não estou querendo ofendê-lo ou acusá-lo de nada. Foi o seu sucesso estrondoso e o amor do povo por seu herói que determinou que eu passasse a maior parte dos meus dias sozinha, com as crianças, com minha mãe ou com os empregados. Você sabe muito bem que as festas em que reunimos os brasileiros pecam pela falta de intimidade. É tudo muitíssimo formal, tanto que não tenho uma só amizade com quem possa trocar confidências. Aliás, as mocinhas são muito gananciosas e julgam que a felicidade material vem em primeiro lugar.
— Não me diga que, no Brasil, a coisa não vai pelo mesmo caminho.
— Lá também existe muito disso tudo, porém, quando me reúno com as antigas colegas de escola, é como se tomasse um banho de cultura, já que todas estão concluindo seus cursos universitários.
— Bem que eu lhe disse pra freqüentar a faculdade aqui.
— Sou obrigada a reconhecer que me habilitei a utilizar cinco idiomas com bastante fluência, além de ser capaz de escrever de forma bastante razoável. Mas isso não me serve pra nada. Sem um curso superior qualquer, é como se não tivesse conhecimento algum.
— Rosi, estou vendo que você está querendo preparar meu espírito pra mais uma separação, desta vez muito mais longa que as anteriores. Mas eu vou continuar voando pra casa, toda semana, se for preciso. Você precisa acreditar em mim quando digo que você é o amor de minha vida. Não existe e não existirá mais ninguém, nunca.
— Teo, pois eu acho que nossos elos afetivos estão bastante frouxos. Se eu não tivesse tido aquele ataque de tensão psicológica quando nasceu Jacira, talvez o nosso relacionamento não estivesse abalado. Mas aquele transe me tornou muito egoísta, obrigando-me a ter uma visão realista da vida, como quando meu irmão foi assassinado. São coisas que nos marcam e nos tornam menos sensíveis às dores alheias. Agora mesmo eu me emocionei enquanto você chorava mas, em momento algum, deixei de considerar friamente os fatores envolvidos...
— Não continue. Você está querendo ir embora. Pois faça exatamente como lhe parecer mais conveniente em todos os aspectos. Não se importe com minha reação. Juro que não irei ficar desesperado, qualquer que seja sua decisão. Se você for ao extremo do divórcio, concordarei com todas as suas exigências.
Se Teotônio estava plantando verde para colher maduro, ficou decepcionado com a observação da esposa:
— Vamos dar um tempo pro nosso casamento, uma espécie de férias conjugais. Dentro de três, quatro ou seis meses, estaremos conscientes de estarmos vivendo pelos princípios morais, intelectuais, psíquicos e sociais que aceitamos como os valores mais importantes da existência. Pra você não achar que alguém me influenciou a respeito destas idéias, devo dizer que meditei profundamente a respeito dos ensinamentos dos espíritos contidos nas obras de Kardec, chegando à conclusão de que, forçosamente, teremos de nos separar no além-túmulo, para seguirmos evoluindo conforme o nosso grau de adiantamento. É claro que nós nos ampararemos mutuamente e manteremos relações de profundo afeto e benquerença, entretanto, considerando que teremos de nos unir a toda a comunidade de seres de mesmo nível vibratório, o mesmo amor que temos e manteremos um pelo outro se espraiará e açambarcará os nossos familiares, os nossos conhecidos, os nossos orientadores, os nossos protetores e até os nossos obsessores, em suma, todas as criaturas, porque todos somos irmãos pela divina criação.
Teotônio ficou embasbacado. Seu primeiro impulso foi o de condenar-se pelas horas de liberdade ociosa que permitiu à esposa. Passou-lhe pela cabeça uma aula em que o professor de literatura discorreu a respeito da obra Madame Bovary, de Flaubert. Mas conteve-se porque não podia acusar Rosinha de nenhuma traição. Ao contrário, concentrava-se na intuição do quanto vinha sofrendo a moça em seu isolamento. De nada reclamou. Ajoelhou-se aos pés dela e lhe disse, novamente aos prantos:
— Querida, perdoe-me, porque eu não sabia o que estava fazendo.
— Teo, coragem e fé em que tudo irá dar certo pra nós e pros nossos filhos. Eu não conheço ninguém que seja tão perfeito quanto você. Você é capaz de transformar as mentes e os corações sempre pra melhor. Não é verdade que a Organização das Nações Unidas o procurou pra que você seja seu mensageiro da paz pro mundo todo? Sente-se diante de mim que eu quero fazer-lhe uma observação muito importante.
Ergueu-se o rapaz e sentou-se na cadeira apontada pela esposa. Rosinha, por seu turno, deu a volta na mesa e sentou-se bem na frente dele.
— Querido, eu quero fazer uma comparação necessária entre mim e seu pai. Tenho pensado muito nisso e cheguei à conclusão de que o nosso livre-arbítrio se limita pelas contingências ambientais e psíquicas. Seu pai, generoso e bom, buscou a corporação policial pra prestar serviços relevantes à sociedade. Encontrou-se, de repente, num remoinho incontrolável de crimes. Se não aderisse, se não se submetesse, teria a família jogada na sarjeta, porque não iriam permitir-lhe que se tornasse uma ameaça à quadrilha. Fazendo como fez, deu a você e a seu irmão a oportunidade de desenvolverem suas habilidades, de crescerem moral e psiquicamente, de se tornarem homens de bem. Eu, por minha vez, acompanhei você, enquanto...
Teotônio, que pressentia aonde queria chegar a esposa, fez um gesto para interrompê-la, contudo, Rosinha, imperativamente, impediu-o de falar, dando mais força às palavras e elevando o tom da voz:
— Eu acompanhei você, enquanto você cumpria os seus contratos e se obrigava a participar da vida esportiva aqui na Europa. A perspectiva dos polpudos rendimentos dava-nos a certeza de que iríamos adquirir uma fortuna que garantiria o nosso futuro até a terceira ou quarta gerações. Mas, ao contrário do seu pai, se os liames que nos prendem são tão fortes quanto os que o prendiam aos traficantes e justiceiros, apresentam diferente natureza, ou seja, são correntes morais muito mais do que físicas. Isso significa que sou capaz de abrir mão de todos os direitos que o matrimônio me outorgou, porque sei que não existe como se desfazerem os nossos laços afetivos. Eu o amo de todo o meu coração, no entanto, não posso resignar-me nem sacrificar-me do mesmo modo que seu pai, conforme você mesmo reconheceu. Vamos dar tempo ao tempo. É o que lhe peço, rogando-lhe ainda que procure entender-me, não quanto ao sofrimento que esta vida isolada vem causando-me, mas quanto ao progresso intelectual que me falta realizar. Pode parecer-lhe estranho que minhas palavras contradigam o fato de me manifestar com tanta propriedade, como se eu já dominasse completamente todo o aparato mental que me forneceu a natureza. A verdade, porém, é que estou me sentindo engaiolada, quando deveria expandir-me em realizações mais abrangentes.
— Querida, cite apenas um exemplo.
— Preciso aprofundar todos os meus conhecimentos, inclusive os que posso extrair do convívio com todo tipo de gente das diferentes classes sociais, se quiser tornar-me escritora.
Após a revelação de seu sonho mais íntimo, Rosinha pareceu desafogar-se. Não dissera tudo o que preparara mas chegara ao ponto derradeiro de sua explanação. Calou-se, então, à espera dos comentários de Teotônio.
Após dois longos e silenciosos minutos, o rapaz considerou:
— Como sempre, tenho de reconhecer que você está com a razão. Vamos fazer o seguinte: você toma as providências que julgar necessárias para seu regresso e instalação no Brasil, podendo ficar com o nosso apartamento ou providenciando outro que seja mais favorável ao cumprimento de seus desígnios. Da minha parte, vou manter-me nesta mansão, apesar de saber que serei assaltado por vivas recordações de sua estadia. Se quiser oficializar a separação, não hesite em procurar o Doutor Rosalvo ou outro advogado de sua predileção. Pedirei a Renildo que proceda ao inventário de nossos bens pra partilha, conforme você determinar. Não pense que estou sendo generoso e altruísta. Sei muito bem que meus rendimentos tendem a aumentar, ainda que lhe destine e às crianças excelentes pensões judiciais. Estabeleço uma única condição: que você se disponha a conversar francamente comigo duas ou três vezes por ano, exatamente pra nos colocarmos a par de nossos sentimentos, como fizemos hoje por sua iniciativa.
A presença de James junto à porta interrompeu o colóquio. Logo estavam ambos tomando suas refeições, como se nada houvesse acontecido. Se os imperceptíveis tremores de Rosinha e o inchaço dos olhos de Teotônio foram notados pelos criados, é coisa que não comentaram nem deixaram registrado em algum sorrateiro diário.



17. ROSINHA VOLTA AO BRASIL

Na manhã seguinte à conversa que manteve com Teotônio, Rosinha, com a ajuda da criadagem, enquanto o marido treinava no clube, arrumou todos os seus pertences, encaixotando-os e despachando-os para o Brasil. Não deixou uma única peça de roupa, um único livro, um único brinquedo das crianças.
Informada dos horários dos vôos, aguardou que Teotônio chegasse e despediu-se dele, prometendo pô-lo a par de todas as suas deliberações. Não houve lágrimas, acostumados todos às separações e viagens.
Transportada ao aeroporto por seu motorista, logo colocava a mãe e a filha num vôo para o Brasil, ao passo que ela e Renato embarcavam para o paraíso fiscal de sua misteriosa conta bancária.
Carregando a criança, em trajes comuns, cabelo solto e maquiagem discreta, buscou não chamar a atenção de ninguém, falando fluente e perfeito espanhol, conseguindo localizar o banco, sendo logo atendida por um funcionário que lhe colocou um pequeno broche nas cores verde e amarelo. Era a senha para o fato de ser brasileira.
Logo foi admitida na sala do gerente geral para a clientela de língua portuguesa, sendo recebida reservadamente.
— Em que podemos servi-la, senhora?
Rosinha dispôs os documentos sobre a mesa e aguardou que o jovem senhor consultasse o terminal de computador.
— A senhora poderia digitar sua senha, por favor?
Rapidamente, lendo as anotações que lhe foram passadas por Renildo, a moça conseguiu liberar o arquivo.
— O que eu desejo é fechar essa conta.
— Tudo bem. Como vai querer receber o dinheiro?
— Não pretendo transferir para nenhuma outra conta aqui ou em outro país. Se possível, pretendo recebê-lo em espécie, desde que me entreguem no endereço que fornecer.
— É possível, sim.
— Mesmo sendo no Brasil?
— Fica até mais fácil. O seu dinheiro não sai daqui. O banco remaneja as quantias de clientes que estão enviando depósitos para cá, podendo entregar-lhe tudo em reais ou em dólares.
— Trinta por cento em reais e o restante em dólares.
— Perfeitamente. Dentro de três dias, a senhora estará recebendo o dinheiro em casa, em notas de cem reais e de cem dólares, completamente isento de qualquer ônus pela prestação do serviço. Haverá um telefonema e, acertada a entrega, será efetuada no horário ajustado.
— Isso serve para qualquer cliente ou estou sendo tratada de modo especial?
— De modo especialíssimo, sendo a senhora a esposa do famoso futebolista.
— Uma última questão: como ficará a situação da conta?
— Será apagada dos bancos de memória de forma irreversível. Ninguém será capaz, através de nosso sistema, de descobrir que existiu qualquer depósito em seu nome.
— Muito obrigado. Que devo fazer agora?
Rosinha seguiu todas as instruções, que não foram poucas, e, duas horas mais tarde, estava livre para voar para casa.
A primeira atitude que tomou ao chegar ao apartamento foi orientar a mãe para que levasse Jacira a morar com ela, por uns tempos:
— Você acha que ela vai ficar bem comigo?
— Dona Flávia, querida mamãe, a senhora sabe muito bem que ela se dá melhor com você do que comigo. Se ela pedir, pode trazê-la a hora que for. Estou apenas querendo ter alguma liberdade pra ajeitar as minhas coisas. No momento certo, ela vai retornar pros meus braços.
— Mas, filha, este apartamento é muito espaçoso. A gente pode muito bem ficar aqui, sem que você nos veja o dia inteiro.
— Faça o que estou pedindo, por favor. Vamos tentar por uns dias. Vocês podem ir agora. Depois eu mando as coisas dela, pelo menos umas mudas de roupa e uns brinquedos.
Flávia sentiu-se escorraçada pela filha, aborrecendo-se muito, não tanto por si mesma, mais pela neta, que via o tempo todo sendo desprezada pela mãe.
Assim que se livrou da mãe e da menina, passou o menino aos braços da babá, recomendando-lhe que cuidasse integralmente dele:
— Por alguns dias, disse-lhe, não vou ter tempo pra ele. Se chorar e você não for capaz de distraí-lo, pode trazê-lo pra mim. Eu ainda tenho um pouco de leite no peito, mas está no fim. De qualquer jeito, ponha uma cama perto do berço pra você passar a dormir com ele. Eu vou pedir ao Renildo que acerte o seu salário. Você acha que vai dar conta do serviço, revezando-se com a sua colega?
— Seria preferível que fossem contratadas mais duas.
— Vou providenciar imediatamente.
No quarto principal, Rosinha iria ter muito o que fazer. Chamou a arrumadeira e, juntas, passaram a separar as roupas do vasto closet, dispondo as de Teotônio sobre a cama. Havia um número relativamente pequeno de peças. Depois de tudo agrupado, mal foram enchidas duas malas, inclusive com os pares de sapato, de tênis e de chuteiras.
Rosinha ainda comentou com a empregada:
— O que mais ele tem é roupa esportiva com o logotipo da empresa pra quem ele faz propaganda.
Mas não passou disso, para não despertar ainda mais a curiosidade da criada, que foi advertida que tinham sido despachados da Europa vários pacotes, que iriam ocupar o espaço que conseguiram abrir.
Julgando que havia pouco lugar disponível, Rosinha embalou quase todos os vestidos, deixando vazios quatro corpos do grande armário, advertindo:
— Quando chegarem os meus objetos, eu mesma quero pôr tudo em ordem. Assim mesmo, estou vendo que vou ter de deixar muita coisa empacotada.
Na cozinha, pediu que a cozinheira se sentasse ao seu lado, junto à mesa, passando-lhe por escrito, ponto a ponto, todos os pratos a serem servidos a ela.
— Você vai ter de instruir sua ajudante e a copeira. Quando eu for comer, tem de ser conforme o horário que vou deixar toda noite anotado no quadro. Pra vocês, o cardápio deve continuar sendo o mesmo aprovado pelo Teo. Eu é que vou entrar num regime severo. Como pretendo comer pouco, quero comer muito bem, só frutas e hortaliças frescas e pratos preparados especificamente pra aquela refeição. Por isso, pode servir uma quantidade bem pequena. Se precisar diminuir ou aumentar, eu avisarei na hora. Alguma dúvida?
— Se houver convidados...
— Não pretendo trazer ninguém pra comer comigo. No caso de gente da família, você serve da comida dos criados. Se aparecer alguém muito especial, eu darei as instruções a tempo.
Somente depois de ter dado as ordens reservadas é que Rosinha reuniu todos os serviçais, inclusive os dois motoristas, colocando-os a par da nova situação:
— Teo e eu resolvemos que não estamos felizes vivendo ele na Europa e eu, a maior parte do tempo no Brasil. Por isso, de comum acordo, voltei pra cá, onde me sinto bem, enquanto ele cumpre os contratos. Nós não achamos conveniente que ele fique viajando, de sorte que concordamos em nos separar por uns tempos, pra saber se conseguimos tocar as nossas vidas, um em cada lugar. Quem tomou a iniciativa fui eu. Pelo Teo, tudo continuaria do mesmo jeito. Espero que vocês, enquanto estiverem a meu serviço, não revelem a ninguém, nem mesmo aos familiares, aos maridos e esposas, aos pais, mães, irmãos e filhos, o que está ocorrendo entre os seus patrões. Como não haverá divórcio, os seus contratos serão mantidos integrais e todos os gastos da casa continuarão correndo por conta dele. Qualquer dúvida empregatícia deve ser levada ao conhecimento de Renildo, procurador e empresário do casal. Alguém quer fazer alguma pergunta ou propor algo em que não pensei?
Os serviçais se entreolharam de forma significativa, até que a empregada mais antiga assumiu a responsabilidade de fazer a reivindicação:
— Quando vocês passam um período aqui, trazem o mordomo, que organiza e orienta o trabalho. Será que o James não gostaria de vir exercer as suas funções no Brasil?
— É justa a observação. Afinal, Teo ficou sozinho por lá. James seria bem mais útil aqui. Se nós não acertarmos a vinda do mordomo, vou pedir a Renildo que contrate outro. Mais alguma coisa?
Fazendo que não com a cabeça, não deixaram de demonstrar que haviam compreendido toda a extensão do drama do casal. Foi uma dispersão bastante melancólica, pondo Rosinha emocionada com a constatação de quanto o marido era querido pela criadagem.
Naquela mesma tarde, Renildo foi convocado para ser posto ao corrente da situação, mas o empresário se encontrava na Europa.
Sem se apertar, consultando as enfermeiras, Rosinha logo obteve o endereço da agência que as havia indicado, onde pôde contratar mais duas profissionais, conforme solicitação. Quanto à vinda de James, descartou a hipótese, certa de que Teotônio não abriria mão dos serviços dele. De qualquer modo, procedeu a uma consulta ao marido, que, sem lhe dar oportunidade de expor os motivos da necessidade, simplesmente a autorizou a contratar outro mordomo, desculpando-se por não poder atendê-la melhor, sem lhe mencionar o que o levava a ser tão lacônico.
Colocado por Teotônio em contato com a moça, Renildo prontificou-se a escolher um profissional competente, solicitando-lhe que esperasse pelo regresso dele para dentro de três ou quatro dias.
Antes de cuidar do curso preparatório para os exames de habilitação à faculdade, Rosinha se dispôs a levar o filho a visitar Vilma. Não queria que a sogra visse as mudanças que estava procedendo no apartamento, da mesma forma que havia escondido o fato da própria mãe.
Convocou o motorista e a enfermeira de plantão e dirigiu-se ao apartamento dos tios, para onde havia mandado Flávia. Advertida de que deveria deixar Jacira pronta para sair, a avó não estranhou a solicitação. Logo, portanto, estava Rosinha conversando com a sogra, dando-lhe os netos a acarinhar.
Vilma recebeu a nora com grandes festas, dizendo-se muito contente com a lembrança de vir visitá-la de pronto, antes mesmo de se instalar em casa.
— Dona Vilma, vou pedir que as crianças fiquem com a babá, porque pretendo ter uma conversa bastante reservada e séria com a senhora.
Sem demonstrar surpresa, a senhora, ainda enlutada, passou os netos, que trazia ao colo, para a responsabilidade da enfermeira, fazendo questão de acompanhá-los até a porta, dando ordens internas para que ajudassem a tomar conta dos petizes.
Fechada a porta, com o cenho carregado, Vilma foi diretamente ao ponto:
— Fui informada de que você está separando-se do meu filho. Acho isso muito estranho, porque sempre me pareceu que vocês se davam muito bem.
— Nós nos amamos muito...
— Então é muito mais do que estranho; é incompreensível. Sei que você não suporta lugar nenhum na Europa. Isso eu constatei pessoalmente, antes da doença de Arnaldo. Não posso censurar seus sentimentos, porque eu mesma fazia das tripas coração pra viver lá. Mas ia vivendo, porque meu marido estava comigo. O que me arrastava pra cá era o Wilsinho, mas esse está na idade de se firmar como gente, tanto que nunca precisei ter qualquer conversa para colocá-lo no caminho certo.
Impacientava-se Rosinha com a longa digressão da sogra. Mas tudo o que estava dizendo fazia-a recuar quanto à necessidade de dar-lhe muitas explicações. Por isso, calou-se.
— Em suma, concluiu a sogra, se o Teo não se desesperar, não fizer nenhuma loucura, porque ele adora você, não serei eu o obstáculo à pretensão do casal. Resta saber como ficará a criação das crianças.
Os olhos de Vilma se fixaram nos de Rosinha, a ver se ela conseguiria sustentar a inquirição fundamental que lhe fizera indiretamente.
A jovem não se deixou vencer pela insistência da sogra em interrogá-la silenciosamente. Foi com simplicidade que respondeu:
— Meus filhos estão sendo muito bem cuidados. Não lhes faltará amor nem carinho da minha parte. Na verdade, eles sempre permaneceram muito mais com as babás do que com os pais. Não se esqueça de que as avós também têm sido culpadas por mimá-los com seus afagos e atenções. O que vai diminuir é o tempo que Teo vai passar com eles, porque ele estava acostumado a brincar no parquinho da mansão. Mas, sempre que ele quiser, vai poder vir buscá-los pra passar temporadas na Europa, podendo levar as avós junto. Isso me traz ao ponto essencial da minha volta: a necessidade que sinto de retomar os estudos e me formar em curso superior.
Vilma deixou escapar uma observação que viria a arrepender-se de ter feito:
— Não existe curso superior para esposas e mães; por isso é que você está se sentindo frustrada na vida.
Rosinha encarou a sogra e, sem alterar a fisionomia, disse, com a mesma voz monótona:
— A senhora tem toda razão. Por favor, despeça-se dos seus netos, porque estou de saída.
Unindo às palavras a ação, levantou-se e saiu da sala, trazendo atrás dela, atarantada, a senhora que não conseguia sopitar o pranto.
No minuto seguinte, o motorista punha-se de volta ao apartamento em que Flávia havia ficado. Ali foram deixados o menino, a menina e a babá, regressando Rosinha para casa.
No caminho, passou por uma galeria de arte, reservando alguns óleos e duas esculturas, nada muito dispendioso, mas os quadros ostentavam excelentes molduras e as estátuas apoiavam-se em pesados pedestais. Pagou com seu cartão de crédito e encareceu a entrega para a manhã do dia seguinte.
De fato, bem cedo, recebeu as encomendas, determinando que fossem colocadas no quarto principal, encostadas à parede.
Contatou, então, a decoradora que cuidara do apartamento, solicitando-lhe que enviasse profissionais capacitados a fecharem o closet, como se fosse um cofre, disfarçando-lhe a entrada com uma parede falsa.
Solicitou que o trabalho se fizesse naquele mesmo dia, não importando os gastos. Assim, em duas horas, cinco operários especializados punham mãos à obra, sob o comando da equipe de decoradores da loja.
Enquanto trabalhavam no apartamento, Rosinha localizou o Professor Ernesto, marcando entrevista para depois do almoço, tendo aproveitado o restante da manhã para efetuar uma relação de cursos preparatórios para os exames vestibulares. Eliminou a maioria, tendo ficado com as cinco escolas que lhe prometeram assistência personalizada.
Ernesto recebeu a moça na faculdade, curiosíssimo para saber a razão de ter sido procurado.
— Mestre, pretendo obter diploma de curso superior. Seu papel será orientar-me quanto ao melhor caminho para atingir meu ideal de escritora.
— Rosinha, você não vai precisar de diploma algum. Vai, sim, ter de escrever, se é que já não haja produzido alguns textos.
— Não sou nenhuma menina prodígio. Se tive alguma precocidade, meu casamento anulou. Estou sendo o mais sincera possível. Agora quero recuperar o tempo gasto em outras coisas.
— Desculpe-me, mas sou obrigado a perguntar a respeito da opinião do Teo.
— Resolvemos que cada um de nós irá viver a sua própria vida. A separação não será definitiva. Depende a gente voltar de nos sentirmos mal sozinhos.
Ernesto ficou com vontade de especular mais, contudo, a atitude da jovem lhe pareceu completamente inabalável, tendo notado certa entonação agressiva nas explicações que lhe forneceu.
— Sua vocação para escrever lhe parece...
— Não sei se tenho vocação, por isso é que pretendo cursar a universidade.
— Façamos o seguinte: você começa ou recomeça a se preparar para as provas de ingresso, o que lhe irá exigir as mesmas matérias, não se constituindo isso em desperdício de tempo. À medida que o ano for adiantando, realizaremos várias entrevistas. Antes da época das inscrições, nós já estaremos aptos a escolher o melhor curso e a melhor faculdade, segundo o resultado dos testes vocacionais que aplicarmos. Quer que eu lhe indique a melhor solução propedêutica?
— Estava pensando em algum cursinho que pudesse abrir horário de manhã para grupo de dez a quinze alunos selecionados. Naturalmente, cada um pagaria a mensalidade correspondente ao curso normal, ficando comigo a responsabilidade de cobrir a despesa global, ou seja, a diferença entre a classe especial e outra comum. À tarde, os professores ficariam à disposição para esclarecimento de todas as nossas dúvidas.
— Isso não irá abalar...
— Garanto que Teo não irá deixar de contribuir para as muitas instituições que dele dependem pra sobreviver. A minha idéia lhe pareceu aproveitável?
— Perfeitamente. E a minha?
— Professor, eu sei que o senhor irá contratar o melhor instituto vocacional pra realizar a sua parte do nosso trato. Resta saber a quanto importarão os seus emolumentos.
— Talvez o meu preço seja o mais alto de todos. Preciso que você compareça nos dias, horários e locais que eu determinar. As faturas dos técnicos serão saldadas da forma que lhe parecer mais conveniente. Para mim, a satisfação de ter uma única linha de reconhecimento em sua primeira obra. Mais nada. Qualquer importância que você conseguir passar-me, irei depositar na conta do centro, justamente com as doações de seu marido.
No finalzinho da tarde, a escola que teve aprovado o plano dos estudos particulares mandava para Rosinha, através de e-mail, o horário das aulas e a relação dos colegas.
O dia seguinte seria consagrado às aulas. No entanto, quando o terceiro professor aplicava testes para avaliar o nível de conhecimentos dos alunos, a fim de estabelecer a programação dos estudos, soou o celular da moça. Estava sendo chamada com urgência ao apartamento, porque haviam chegado os pacotes despachados da Europa e o entregador exigia que a signatária é que os recebesse.
Afirmando que não aconteceria de novo, Rosinha localizou o motorista e, em breve, estava recebendo um conjunto de malas desconhecidas. Logo percebeu que era o dinheiro, determinando que os carregadores depositassem tudo no seu quarto. Estava ainda o responsável pela entrega digitando em seu laptop o recibo que a jovem deveria assinar eletronicamente, quando anunciaram a chegada de outros pacotes, os que ela mesma havia embalado. Como os anteriores, foram todos parar no quarto, sob os olhares curiosos das empregadas.
Não quis a moça conferir a soma, confiando plenamente no representante da instituição financeira. De qualquer modo, fez uma observação que a assinatura lhe suscitou:
— Disseram-me que a conta iria desaparecer completamente.
— A sua assinatura eletrônica é a senha para deletar todos os arquivos dos computadores.
— É possível fazê-lo a partir do seu notebook?
— Estou ligado ao satélite. Nesta altura, ninguém mais vai encontrar qualquer indício da conta.
Assim que se viu sozinha no quarto, Rosinha abriu a porta camuflada, destrancou a porta de aço, retirou os quadros que haviam sido a desculpa para a fortificação da dependência e guardou as malas com o dinheiro, não sem antes verificar quais continham dólares e quais continham reais. Voltou a colocar os quadros nos escaninhos, ocultando o melhor que pôde os quatro milhões e duzentos mil dólares mais cinco milhões de reais, num total aproximado de noventa e duas mil células.
A bagagem despachada da Europa não mereceu os mesmos cuidados, ficando muitos pacotes trancados no closet, sem arrumação, enquanto outros se esparramavam pelo quarto. Chamada a arrumadeira, Rosinha determinou-lhe que desfizesse os pacotes e colocasse os objetos neles contidos nos armários do quarto de hóspedes. Depois ela veria que destino dar a eles.
Ainda teve tempo de voltar à escola e enfrentar outros testes.
À tarde, como não houvesse dúvida a esclarecer, resolveu ir buscar os filhos. Deu com os tios, que lhe informaram que Flávia tinha levado as crianças e a babá à casa de Vilma. Foi outra corrida inútil, porque, como soube por Wilsinho, estavam todos no apartamento dela.
Desta vez, Rosinha ligou para confirmar a informação, tendo estranhado ter sido atendida pela voz do James:
— Pronto!
— É você, James?
— Sim, milady.
— Estou voltando pra casa. Meus filhos estão aí?
— Sim, milady.
— Minha mãe e minha sogra também estão aí?
— Sim, milady.
— Avise-as de que estou a caminho, por favor.
— Pois não, milady.
Ia desligar, quando lhe ocorreu perguntar ao mordomo:
— James, Renildo veio com você?
— Sim, milady.
— Ele está aí?
— Não, milady.
— Obrigada.
— Às suas ordens, milady.
No breve trajeto até sua casa, Rosinha imaginou que James teria escolhido ficar com ela e com as crianças, porque se afeiçoara à família como verdadeiro avô. Passou-lhe pela idéia que Teotônio teria instruído o mordomo para observá-la, espião de sua liberdade. Finalmente, tendo meditado a respeito da personalidade do marido, concluiu que era pura maldade dela levantar semelhante suspeita.
Em casa, esperava-a uma rebelião de avós.
Assim que entrou, Flávia, circunspeta e sisuda, chamou-a para conversar:
— Vilma e eu temos muito que dizer a você em relação aos nossos netos. Faça o favor, mocinha, de ouvir o que vamos falar.
Sem dar-lhe tempo para qualquer reação, puxou-a pelo braço, levando-a até o escritório, onde a sogra a aguardava, lenço na mão e olhos vermelhos.
Meio assustada, a jovem perguntou:
— Aconteceu alguma coisa com as crianças?
A mãe foi quem respondeu:
— Se continuarem indo de ceca em meca, não haverá como deixar de acontecer coisa muito grave, pois vão se sentir abandonadas. O pai está na Europa e a mãe passa a responsabilidade da criação para as babás e para as avós.
— Estou voltando dos apartamentos das duas. Passei por lá pra pegar as crianças. Não acho que um ou dois dias...
— É assim que começa. Depois, os dias se transformam em semanas, em meses e em anos.
— Que foi que vocês duas decidiram, além de me acusarem de péssima mãe?
Vilma se atreveu a contrariá-la:
— Eu não disse absolutamente nada. Mas concordo com sua mãe, quando diz que é preciso dar mais carinho aos filhos.
Rosinha quis ser dura com a sogra:
— Seu filho é que decidiu ir pra tão longe...
Flávia interrompeu-a, muito zangada:
— Pois o seu papel de mulher dele era de ficar com ele. Ele não foi porque quis. Foi porque os rendimentos dos contratos lá são muito superiores que os daqui. Além do mais, não há clube brasileiro capaz de manter o melhor jogador do mundo: as ofertas do exterior salvaram as finanças da agremiação.
— Vocês andaram conversando com Renildo.
— Não me consta, filha, que isso seja proibido.
Vilma participou com um aparte:
— Eu conversei com o Teo e ele me disse tudo isso. Renildo apenas confirmou, fazendo muitas contas na ponta do lápis. Aliás, meu finado marido acompanhou vocês pra Europa, porque dizia que não havia outro jeito. Até Wilsinho, segundo ele, irá ter o mesmo destino.
Flávia resolveu colocar todas as cartas na mesa:
— Nós estamos muito tristes com a separação de vocês. Se depender da gente, você vai levar de volta as crianças pra junto do pai.
— Vocês querem ouvir de mim que as crianças podem ir. Aí, vão cair de pau nas minhas costas. Mas eu não vou levá-las. Vou educá-las com todo o meu afeto maternal.
Flávia observou:
— Isso nós vamos querer ver de perto, tanto que resolvemos nos instalar aqui, para o que trouxemos nossas trouxas. Se você acha que seus filhos precisam das avós, nós não vamos faltar.
— Mãe, se vocês tivessem dito isso antes, teriam evitado todo esse falatório. Fiquem à vontade. Vou pedir ao James pra acomodá-las da melhor maneira.
Juntando ação às palavras, Rosinha transpassou rapidamente a porta, deixando as duas senhoras sem palavras.
Logo deu com James brincando com as crianças, ao lado de duas das babás. Surpreendido, o mordomo aprumou-se, esperando as ordens da patroa, que não se fez de rogada:
— James, em primeiro lugar, quero avisá-lo de que você é empregado do meu marido, devendo tratar com Renildo a respeito de seu contrato.
— Perfeitamente, milady.
— Em segundo lugar, quero que você continue correspondendo na qualidade de intendente geral, responsável pela criadagem e pelas despesas, entendendo-se sobre isso com Renildo.
— Entendi, milady.
— Em terceiro lugar, tudo quanto você vir aqui guarde pra você mesmo. Não passe qualquer informação de minha vida particular a ninguém. Certo?
— Serei o máximo de discreto, milady.
— Arrume dois quartos para as velhas. Elas vão passar a morar aqui.
— Já estava providenciando, milady.
— E tire esse milady dos meus ouvidos.
— Sim, senhora.
Aquela noite ficaria marcada indelevelmente na vida de Rosinha.
Exatamente às dezenove horas e trinta minutos, pediram autorização para subir Renildo, Rosalvo, Fulgêncio, Vieira e Ernesto.
A falta da habitual expansão carinhosa e de palavras de acolhida sentimental, logo fez a moça suspeitar de que algo se tramara às suas costas. De fato, acomodados nos amplos sofás da sala de visitas, Rosalvo declarou a que tinham vindo:
— Eu e Renildo estamos em missão oficial, como representantes de Teotônio. Antes, porém, de expormos a que viemos, Fulgêncio deseja fazer-lhe apelo de caráter religioso, em nome da amizade que nos une à sua família.
Flávia, que se fazia acompanhar de Vilma, acrescentou:
— Minha filha, é bom você ouvir com muita atenção o que o sacerdote tem pra lhe dizer.
Tanto bastou para Rosinha confirmar que havia o dedo da mãe naquela maquinação. No entanto, permaneceu calada, tentando adivinhar o inteiro teor do sermão que teria de ouvir.
Fazendo-se íntimo, o padre sentou-se na poltrona ao lado da moça, apostrofando-a:
— Querida, você não pode provocar a desunião entre vocês, não depois de eu mesmo ter abençoado o seu matrimônio, em nome de Deus.
— O senhor está ciente dos termos de nossa separação?
— Totalmente e penso que você, do outro lado do oceano, se viu desorientada, porque perdeu os vínculos com a Igreja, deixando de freqüentar a missa. Se, ao menos, participasse das reuniões de algum centro espírita, teria ouvido considerações de caráter moral superior, considerações que lhe dariam azo à meditação a respeito dos deveres conjugais. Como você concordou em morar na Europa, deve respeitar...
Rosinha interrompeu-o:
— Nem a Igreja nem o Espiritismo teriam argumentos pra me fazer desistir de viver a minha própria vida. Eu gostaria que não insistisse mais. Se algum dos senhores quiser fazer uso da palavra, faça, mas sem insinuar que estou errada em querer preservar minha individualidade como cidadã e como ser humano. A respeito do que devo ou não ao Teo, isso eu e ele é que temos de decidir.
Vieira ingressou no círculo da conversa através de uma pergunta:
— Posso saber se vocês efetuavam a leitura das obras de Kardec?
— Prezadíssimo ancião e diretor de consciências, não me faça lembrá-lo de que todos os livros do codificador do espiritismo passaram pelas minhas mãos, em seu texto original, em francês. O senhor bem que está sabendo disso. Se tentar demonstrar-me que estou abrindo brechas para infiltração na minha mente de vibrações provindas de espíritos inferiores, infelizes, obsessores, garanto-lhe que vou pedir-lhe que se retire.
Vieira fez um gesto de resignação, demonstrando que não abriria mais a boca.
Rosinha, então, voltou-se para Ernesto:
— Meu caro preceptor e amigo, espero que a sua vinda tenha tido o objetivo de defender o meu ponto de vista, tanto que concordamos em que, de seu discernimento, sairia a melhor orientação acadêmica pra mim.
Filosoficamente, Ernesto retorquiu:
— O fato de ser seu assessor para assuntos universitários não impede que lhe abra os olhos para alguns aspectos de sua decisão que podem ter-lhe passado despercebidos.
— Por exemplo.
— Por exemplo, a aflição dos familiares, dos amigos, do povo em geral, dos dirigentes esportivos, do próprio empresário aqui presente, com o efeito profundamente negativo de sua atitude no espírito de seu marido. Você vai dizer-me que são problemas que só lhes dizem respeito. Pois eu lhe afirmo que, em sendo Teo uma figura pública, é ele responsável pela imagem exemplar de homem íntegro junto aos que precisam de heróis e de figuras exponenciais na área do bem. Longe de mim acusá-la de egoísmo, pois entendo o sofrimento que lhe causa o fato de viver quase isolada no Velho Mundo. Não vou recomendar-lhe que volte para junto do Teo. Essa é deliberação que você deve tomar no âmbito de sua consciência, inclusive sem a participação dele. Creio que o exemplo que lhe forneci seja suficiente. Antes que você me esfacele a argumentação, boa aluna que sempre foi de minhas aulas de lógica, devo afirmar-lhe que pretendo continuar sendo seu instrutor, com a maior das boas vontades.
— Se lhe disser, respondeu Rosinha, que tudo quanto o senhor disse passou pela minha cabeça, o senhor acredita?! Somente não vou acatar a sua recomendação para voltar. Existe uma frase no espiritismo, segundo a qual, sem caridade, não existe salvação. Qual seria o ato maior de caridade entre estes dois: sacrificar a carreira ou sacrificar a carreira?...
Ernesto fez um gesto para que a moça concluísse. Ela prosseguiu:
— É a minha carreira contra a dele, evidentemente. Pedir-me que volte é o mesmo que dizer a ele que volte. Como ele é importante para muitos e eu, para poucos, como o senhor mesmo assinalou, tomei a decisão de afastar-me. Contudo, vejam bem, vocês estão caindo num buraco, como aqueles cegos que eram conduzidos por outro cego. Nós não estamos divorciando-nos. Isto só acontecerá se, mais tarde, nós nos sentirmos bem com a separação. Por tudo isso, agradeço a preocupação de todos vocês, mas eu lhes peço que me deixem realizar o meu projeto de vida. Renildo, é a sua vez?
Deveras, o administrador dos bens do casal estava pronto para participar da campanha de reunião do casal. À vista, porém, da firme determinação e da superior lucidez da interlocutora, resolveu que era melhor circunscrever sua participação a breve explanação do que haviam planejado ele e Teotônio:
— Trouxe uma proposta do Teo para o período em que estiverem separados por vontade sua.
— Vamos a ela.
— Tenho aqui a lista de todas as propriedades do casal. Tenho também os extratos bancários de todas as contas. A idéia é fixar tais dados para efeito do que houver de ser feito por ocasião de futuro divórcio. Teo, a conselho meu, propõe-lhe que tudo quanto ganhar ou adquirir com tais proventos, enquanto persistir a presente separação, não deva ser objeto de partilha, como também tudo quanto você vier a perceber de suas atividades. À vista, todavia, da grande quantidade de bens, pede-lhe ele que todas as empresas sejam doadas aos funcionários e operários respectivos. Em contrapartida, toda a benemerência a ser praticada a partir da assinatura do acordo sairá exclusivamente dos rendimentos atuais dele. Para que você tome conhecimento integral das cifras envolvidas, eu trouxe três cópias do acordo, já com a assinatura de seu marido, o que não seria necessário, porque bastava o meu aval como procurador dele específico pra este caso. Mas ele fez questão de registrar...
— Caro Renildo, eu não contribuí diretamente pra nenhuma riqueza em nosso nome. Se Teo está solicitando que eu assine, eu assino já. Passe-me a sua caneta, por favor.
Segurando a caneta no alto, Renildo fez questão de assinalar:
— Estamos diante de diversas pessoas que nos servirão como testemunhas. Por isso, antes de mais nada, sugiro que você ouça o que o Doutor Rosalvo tem a lhe dizer.
O advogado não esperou segunda oportunidade:
— Querida amiga e cliente, não concorde com nada do que aí está proposto, não antes de consultar um causídico idôneo e experiente. Preparei uma lista com cinco nomes, lista que lhe passo agora. Você não precisa escolher nenhum deles, mas é preciso que tome o maior cuidado, porque você poderá vir a sentir-se engodada. Minha presença aqui se deve só a esta advertência, porque o acordo envolve muitas perdas para você e para ele. Reflita antes de tomar essa decisão. Este é o conselho que vim ministrar-lhe, com todo o meu afeto por você e por meu ex-empregado e excepcional cliente.
Rosinha deixou de pegar a caneta, colocou os papéis encadernados sobre a mesa de centro à sua frente, levantou-se e deu por encerrada a reunião, dirigindo-se à porta, convidando todos para jantar.
No entanto, ninguém aceitou o convite, mesmo Flávia e Vilma, terminando a jovem por se ver diante da vasta mesa, consumindo a modesta refeição que havia prescrito à cozinheira. James, tendo dispensado os demais criados, procedeu ao serviço sozinho.



18. DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO

O que haviam discutido Teotônio e Renildo resultara na proposta apresentada a Rosinha. Teotônio havia dito:
— Preciso aprender a entender as mulheres. Não sei se terei coração pra outra ou outras. Penso que deverei preencher todo o meu tempo livre com muitas atividades profissionais, como os desfiles de modas, conforme tantos convites que tenho recusado.
Renildo havia observado:
— Desde que não se conflitem os horários, tendo em vista que o principal é sua vida de craque internacional...
— Sem dúvida. É o que sei fazer. As propagandas que estampam minha imagem são produzidas... Você sabe muito bem. Estou querendo ocupar o meu tempo pra não ficar pensando nas crianças.
— Você não se satisfaz com seus estudos, inclusive os filosóficos e espíritas?
— Gostaria de freqüentar sessões como as que preside o nosso Vieira. Agora que Rosinha levou nossos filhos, nem à missa vou comparecer mais. Não vejo necessidade.
— Cuidado com os papparazzi, que podem transtornar a vida de qualquer um. Se descobrirem, por conta própria, o que está ocorrendo entre vocês, irão causar sérios problemas, inclusive relativamente ao clube, que exige dos profissionais procedimento moral superior. Logo irão tentar ligá-lo a alguma modelo, atriz ou cantora.
— Renildo, meu irmão, o seu desvelo me comove.
— Não seja sarcástico.
— É verdade. Você cuida de mim como meu pai não cuidava. Em todo caso, vou edificar uma capela no fundo do terreno...
— Não faça isso. Basta contratar alguns sacerdotes de uma ordem qualquer e eles virão rezar a missa onde você julgar mais conveniente.
— Vou ver o que faço. Veja que interessante: só o fato de conversarmos a respeito, já nos desviou completamente da separação conjugal. Então, vou esperar alguns meses, pacientemente, aguardando que Rosinha volte ou me peça pra ir visitá-la. O nosso plano de resguardar os meus ganhos pode surtir efeito. Vamos ver qual será a reação dela. Se aceitar a distribuição das empresas aos empregados, é sinal de que está decidida a enfrentar qualquer coisa pra conseguir formar-se. James concordou em ser o meu correspondente, agora que vou precisar de você mais aqui do que lá.
Os tais meses se passaram, Rosinha não aceitou a proposta de Teotônio, afirmando que preferia divorciar-se, o que o Doutor Rosalvo tomou a si como penoso encargo. Foi o rapaz quem viajou três vezes ao Brasil, para encontrar-se com os filhos, oportunidades frustradas quanto a se ver sozinho com a esposa. Renildo acomodou-se na mansão, gerindo todos os negócios dele, velhos e novos, para o que precisou montar verdadeiro escritório, com cinco funcionários.
Nesse período, dois fatos se sobrelevaram, para bulício da dupla patrão e empresário.
O primeiro correspondeu à pesquisa levada a efeito por Renildo, a fim de solucionar o problema do dinheiro transferido por Arnaldo para Rosinha. Tendo acessado a página do banco, pois pretendia avaliar se os códigos que fornecera à moça funcionavam, deu com o mais completo desaparecimento da conta. Teotônio foi convocado para interferir junto aos responsáveis pela instituição com o peso de seu nome e com o histórico do seu pai, contudo, não obteve nenhuma resposta positiva: o banco desconhecia nomes, números e códigos, conforme lhe disseram vários gerentes e diretores. Mesmo o presidente assegurou ao jovem que jamais qualquer pessoa de sua família mantivera depositados quaisquer valores.
Consultada, Rosinha esclareceu:
— Passei pelo banco e desfiz a conta. Guardei o dinheiro em local seguro, já que estava destinado pra mim.
Instada por Teotônio, acrescentou:
— Não me consta que tais somas pudessem entrar na partilha do divórcio.
O segundo fato foi a divisão dos bens do casal, realizada de comum acordo, através dos advogados das partes. Foram todas as propriedades avaliadas, tendo Rosinha tido a prioridade das escolhas. Como não quisesse nada que estivesse na Europa, acabou ficando com quase tudo que haviam adquirido no Brasil. Antes mesmo que o processo do divórcio fosse concluído, a moça executou a venda da maior parte dos bens, por preços aviltados, mantendo o apartamento em que estava residindo e o que comprara para os tios.
O resultado imediato foi que Teotônio perdeu a gerência das empresas, restringindo as doações generosas ao mínimo. Mesmo o negócio proposto a Fulgêncio e a Vieira da compra da herança do terreno em que se situava a Favela do Corisco ficou suspenso, porque foram bloqueadas as contas bancárias, até que se desse por finalizado o processo.
Nesse meio tempo, antecipando-se aos noticiários sensacionalistas, Teotônio requereu autorização aos dirigentes do clube para reunir os representantes da imprensa, a fim de revelar a separação.
— Meus amigos, cumpro a obrigação de levar ao conhecimento de todos que Rosinha e eu estamos em processo de divórcio. A causa íntima e pessoal de nossa deliberação não está no fato de nós termos brigado. Apenas, a minha vinda à Europa transtornou os objetivos de vida da moça, que não se aclimatou em meio tão diferente daquele em que vivíamos no Brasil. Enquanto eu tenho tantas ocupações, ela, que sempre se dedicou a muitos afazeres, inclusive trabalhando para sobreviver, viu-se em tremendo tédio. Consideramos, então, que o melhor seria afastar-nos, dando a ela a oportunidade de crescer intelectual e emocionalmente, em lugar da clausura que representava sua estada aqui.
Seguiram-se muitas perguntas. A todas o craque respondeu com muita paciência, buscando desfazer todas as impressões de que não dissera a verdade.
Compreensivelmente, dado o amor do povo e o respeito dos profissionais da imprensa, a notícia não foi alardeada com estrondo. No Brasil, Rosinha se viu assediada, entretanto, advertida por Teotônio, confirmou item a item todas as informações.
Uma conseqüência previsível ocorreu de imediato: tanto ele quanto ela passaram a se ver cercados de pretendentes amorosos, muitos bastante atrevidos, a maioria interessada no dinheiro e no prestígio.
No campo desportivo, havendo-se Teotônio dedicado muito mais aos exercícios físicos, sem fazer concessões aos restaurantes caros, permanecendo sob estreita vigilância do nutricionista, o efeito da separação se fez sentir como uma compensação saudabilíssima, ou seja, seu notável domínio do jogo mais se aprimorou, tendo tido oportunidade de apresentações impecáveis, disparando nas artilharias dos campeonatos.
Perto do fim do ano, recebeu de Rosinha grosso caderno, rascunho de sua primeira obra. Pedia-lhe ela que corrigisse as passagens em que sua presença na biografia da moça poderia não condizer com a verdade histórica. Solicitava-lhe também que envidasse esforços no sentido de obter dos clubes em que havia atuado a devida permissão para gravação de trechos das partidas, muito especialmente daqueles tentos do início da carreira em cujas comemorações se viam as dedicatórias dos gols a ela e aos familiares.
Notou Teotônio a extrema delicadeza com que era tratado em toda a obra, como ainda a riqueza da diagramação. Entusiasmado, já que não se viu retratado pejorativamente, ao contrário, todas as descrições psicológicas enalteciam a sua figura de herói popular, reviu a obra, não precisando executar mais do que pequenos reparos.
As gravações também estavam muito bem cuidadas, demonstrando a ajuda de profissionais experientes. Particularmente, emocionou-o o destaque dado à transmissão da tragédia do estádio, em que foi flagrado prestando socorro aos feridos.
Mas houve uma censura que não pôde deixar de fazer, quanto ao título: Eu sou a ex do Teo. Sem precipitação, tendo deixado transcorrer uma semana do recebimento da obra, Teotônio ligou para Rosinha:
— Querida, o seu livro está muitíssimo bom. Peca somente no título. Não gostei da expressão ex do Teo. O nosso amor persiste e eu acredito que, se me fosse possível abandonar tudo aqui pra voltar pra casa, você me receberia de braços abertos. Troque o título. Sugiro que mantenha o meu nome na capa, chamariz certo pro público. Coloque: Minha Vida com o Teo; Meu Marido Teo; Por que me separei do Teo?
O rapaz precisou aguardar uns instantes para ouvir a resposta:
— Vou levar em conta os seus sentimentos, mas não prometo acatar nenhuma das sugestões. Quer dizer que posso editar o livro?
— Pode.
— Quero a sua autorização por escrito. Peça ao Renildo pra redigir e você assina. Você já obteve o alvará dos clubes?
— Vou enviar tudo junto, com os seus originais e respectivas correções.
— Muito obrigada.
Antes que Teotônio tivesse tempo para uma palavra mais afetuosa, ouviu o clique do desligamento.
No dia seguinte ao do divórcio, distribuía-se para as livrarias de todo o Brasil o livro: Eu sou a ex do Teo.



19. DERRADEIROS ACONTECIMENTOS

Rosinha cursou a Faculdade de Direito, enquanto, na Europa, Teotônio chegou a concluir o curso de Educação Física.
Naquele meio tempo, numa tarde de autógrafos em Salvador, encontraram-se as primas, Laurinha com a dedicatória já formulada na contracapa: À minha prima Laura, que se transformou numa lutadora. Era a transcrição de uma das referências a ela no próprio livro. Daquele dia em diante, corresponderam-se assiduamente, cada qual dando conta de suas conquistas e atividades.
Quando Teotônio voltou ao Brasil, ao final da carreira, Rosinha partia para a Espanha, na qualidade de embaixadora. Coisas do destino.
As crianças cresceram metade do tempo sob a guarda da mãe, metade, do pai. Inteligentes, levavam a sério os estudos, dando à escritora famosa e ao craque herói muitos motivos de sadio orgulho.
Ao retornar, encontrou Teotônio o terreno que adquirira de Vieira e Fulgêncio totalmente limpo e murado. O seu plano de doar a cada morador uma casa à escolha deles, com a obrigação de derrubada da casa antiga, deu certo. Naquela área, Teotônio construiria mais um centro esportivo e educacional, que doou à Prefeitura, acompanhado de polpuda verba para manutenção.
Tanto Fulgêncio quanto Vieira não quiseram aplicar o dinheiro na compra de terrenos, ampliando cada qual as suas sedes de atendimento religioso e espiritual, não tendo sido poucas as oportunidades em que se encontraram com o craque, para acaloradas discussões metafísicas.
Wilsinho manteve-se no futebol brasileiro, constituindo-se num dos baluartes da defesa de seu time, bem como da própria seleção nacional. Formou família e não se interessou por dar continuidade aos estudos no ensino superior.
Renildo, tendo recebido várias cartas de recomendação, passou a representar uns poucos craques, sem jamais deixar de cuidar dos bens e negócios de Teotônio, instalando-se definitivamente no Brasil.
Não demorou para o Doutor Rosalvo passar a responsabilidade do escritório ao filho mais velho, aposentando-se, indo viver longe do bulício da cidade grande. Teria mais vinte e cinco anos de vida, prestando diuturno auxílio jurídico a inúmeras instituições de benemerência. Momento especial viveria ao ser convidado para a posse de Teotônio, como membro do corpo de advogados de seu escritório.
O Professor Ernesto tornou-se livre-docente, catedrático, chefe de departamento e reitor da universidade, tudo a seu tempo. Suas monografias e teses no campo da filosofia abarcaram os conhecimentos espíritas, motivo pelo qual granjeou inúmeros inimigos acadêmicos.
Vilma, Flávia, Esmeralda e Artur deram algum trabalho aos médicos, antes de se despedirem da vida.
Andrezinho desapareceu de circulação. Consta que criou vários filhos da segunda mulher, sempre se deslocando de cidade em cidade. Não se sabe se leu as obras espíritas que Laura lhe enviou regularmente, todas elas com trechos assinalados e comentados.
James, com a discrição dos bons mordomos, voltou aposentado ao seio da família, na Inglaterra.
No plano da espiritualidade, Renato foi encarregado de orientar o sogro da irmã, o sargento Arnaldo, que não demorou a integrar grupo de socorristas, tendo tido o privilégio de receber os espíritos dos familiares.
Certa ocasião, estando sendo homenageado por corporação militar, a qual apadrinhara financeiramente, Teotônio pensou haver reconhecido a voz que o ameaçara. Tratou o caso como impressão e não insistiu em conhecer a misteriosa personagem, concluindo que a verdade sempre haverá de revelar-se, por força dos compromissos cármicos de cada criatura. Estava sexagenário e sábio.
Rosinha sentiu o estremecimento do marido ao levá-la pelo ombro, mas adivinhou que ele não falaria a respeito.




FIM




Indaiatuba, de 08.09.03 a 05.02.04.

Comentários

Dr Abiku  - 14/02/2016

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scaju  - 22/07/2014


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