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Erótico-->14. O SENTIDO DO PERDÃO -- 12/12/2003 - 06:42 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Tanto falei de Ana que pode parecer que o título se refira mais uma vez ao abandono do filho e de mim mesmo. Mas desta vez o problema é menos subjetivo, porque se trata dos assassinos de meu Augusto.

No primeiro momento em que corri atrás do dinheiro do resgate, foi como se um vento de forte turbulência me fizesse flanar, pequena folha, sem saber exatamente o que fazer. Mas tudo deu no que se sabe e enterrei o meu pobre filho com algum aparato, acompanhado do povo amigo do “Louvor ao Pai”. Mas essas são águas passadas.

No entanto, preciso sempre será pôr-me perante o complexo problema de como encarar a responsabilidade quanto ao evento trágico. Em qualquer fato de sangue, cada pessoa fica a se perguntar como foi que contribuiu para tal desfecho. Conheço um sujeito que ficou muito impressionado quando se suicidou um vizinho, pessoa distante da comunidade, que não dava resquício de notícia de que poderia encerrar a vida pelas próprias mãos, sabendo-se que não tinha vícios nem transpareciam reclamações familiares contra ele. Mas um belo dia enforcou-se. Aí, o sujeito me procurou para saber como é que o espírito do vizinho estava, querendo por toda a força uma opinião “post-mortem” a respeito de quais atitudes poderia ter tomado para evitar a tragédia final. Conversamos longamente e essa pessoa começou a enumerar uma série de festas, de comemorações, de simples reuniões entre amigos, para as quais poderia ter convidado o outro e não o fez. E daí para a frente até o ponto de afirmar que deveria ter saído mais vezes até o portão para conversarem, achando que, se tivesse inventado meios oportunos, teria evitado o ato de loucura.

O longo exemplo parece deslocado, mas a verdade é que, se se multiplicar por dez ou mais essa preocupação, se obterá uma idéia aproximada de tudo o que se passou em minha mente por aqueles tempos.

Isso de um lado, porque, do outro, havia as acusações contra a imprudência de Augusto, o fato de não ter sido criado pela mãe, as más companhias desde a infância e, finalmente, no ápice da escala das culpas, os próprios criminosos.

Não obstante haver perdido o filho, na balança moral de minha subjetividade (o que vou escrever nunca disse a ninguém), os pratos da vida e da morte se equilibravam, talvez pela suspeita de que o fim deveria ser aquele mesmo, talvez pelo alívio das minhas preocupações, que se transformavam a partir de um objeto (ou sujeito) externo até alcançar o bulício de uma dor de consciência.

Passei quase um ano correndo atrás de elucidar cada passo de Augusto naquele dia fatídico, buscando evidenciar em que momento me havia fugido a oportunidade de salvá-lo. Aqueles míseros três mil reais, se mos houvesse pedido antes de cair nas garras dos facínoras (caracterização esta que sou obrigado a fazer, buscando desconectar dela qualquer acepção pejada de mau humor ou de vibrações deletérias), talvez nem lhos tivesse dado, mas aí saberia que agi positivamente no sentido de jogá-lo desarmado contra os inimigos. Contudo, pasmem, houve um tempo em que preferia que assim tivesse sido, para não ficar aéreo relativamente à minha atuação inócua no episódio.

Mas esse ano foi também de um transtorno moral acentuado, porque desejava empenhar-me junto às autoridades policiais para desvendarem os poucos mistérios que cercavam aquela morte, e me segurava, muitas vezes por influência de Márcia, oferecendo ao Pai o direito de vingança, procurando convencer-me de que a justiça eterna é imprescritível.

Durante vários anos, a figura do perdão aos desafetos do acaso não passou de retórica, de convenção evangélica, de reforço ideológico, de pregação doutrinária, seja o que for que se designe como algo que não vinha do coração, que não entendia pela inteligência, que só julgava sub-repticiamente como de necessidade para evoluir no aspecto moral, sem dispor todos os pontos em seus devidos lugares. Se me pedissem para discorrer a respeito (devo dizer que o fiz e tive a ousadia de citar-me como exemplo para o poder cármico do perdão — já vou voltar a este assunto), teria asseverado ao público que Jesus, se não tivesse sido por outra qualquer informação de sua magnitude espiritual, deveria ser colocado como o ser humano mais perfeito apenas por pedir o perdão de Deus para seus algozes, a escarnecerem dele ainda naquele mesmo instante.

Aliás, o Nazareno, ao ser colocado no altar dos supremos espíritos de luz, causa uma espécie de rebeldia emocional imperceptível, porque, ao sabermos de toda a sua força energética, parece-nos que os sacrifícios do encarnar, da opressão da matéria e do decesso doloroso, não poderiam ter provocado nele um sofrimento autêntico, porque absolutamente consciente de que ascenderia aos páramos da bem-aventurança (o que prometeu, inclusive, ao ladrão crucificado à direita). Do mesmo modo, ao tomarmos ciência, pela análise dos textos espíritas, que sabia o Divino Pastor que os resultados de sua pregação só teriam efeito pela divulgação através dos Evangelhos e que precisaria confirmar tudo através do Espiritismo, a Terceira Revelação, ficamos a duvidar da necessidade de sua vinda na qualidade de Redentor em carne e osso.

Dou o parágrafo anterior como amostra da perturbação psíquica da época.

Cumprindo a promessa, retorno ao tema do poder do perdão, para afirmar que a minha atitude em relação aos assassinos ainda me faz nutrir contra eles a ojeriza de quem acha que, no mínimo, a lei do progresso irá estabelecer a necessidade de resgate dos sofrimentos disseminados nos corações punidos emocionalmente através de um ato brutal, quando a gente espera de Jesus a mansidão de um revide cármico que possibilite o conhecimento exato dos crimes, para se correlacionarem a eles os respectivos castigos.

Em outras palavras, acredito muito pouco no perdão incondicional, a partir das teses hauridas das leis de causa e efeito e de ação e reação.

Terei mudado o meu modo de pensar, ou melhor, de sentir?

Sim, profundamente, a partir da primeira mensagem de Augusto, na qual sequer cita os que lhe tiraram a vida. Fala das lutas que travou contra a contaminação do perispírito pelas drogas.; menciona o trabalho incansável do guardião e de outros devotados enfermeiros (socorristas, conforme o termo que ele mesmo emprega).; orienta os pensamentos dos que se perdem na ilusão de que muitas batalhas não se travarão apenas por estarem engajados nas fileiras espíritas.; sonha com o dia em que merecerá nova oportunidade terrena, conforme programação cujas linhas gerais nos comunica.; e dá muito consolo e esperança para os que não obtêm noticiário do etéreo sobre os entes queridos.

Mesmo sabendo da pouca importância que a vítima atribuiu ao desarme de sua encarnação, durante alguns anos ainda me entretive com pensamentos tendentes para a lei de talião. As mensagens se repetiram e me propiciaram condições de reflexão sobre a possibilidade de desvincular do agredido os “carmas” dos agressores, aceitando quase completamente que a gente sempre procura realizar o que melhor nos parece, o que pode redundar em malefícios. A superação das crises decorre da compreensão de quanto são justas todas as leis, por nos encaminharem à perfeição, algumas, no limiar de nossa capacidade de agüentar o peso do fardo.; outras, facultando-nos os pensamentos concernentes aos atributos de Deus, o que nos conduz ao entendimento de que a responsabilidade é inteira nossa, nos sofrimentos e nas alegrias.


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Hoje é o terceiro dia depois de ter escrito o capítulo acima. Li e reli, mas não desejo efetuar nenhuma correção. Acho que está tudo nele bem concentrado. Os amigos leitores é que devem esmiuçar as suas falhas, deles mesmos e dos meus dizeres, para chegarem a conclusões positivas e válidas a serem aplicadas ao seu dia-a-dia. Se julgarem que estou sendo pretensioso ou presunçoso, aliviem a sobrecarga de seus sentimentos, elevando ao Pai uma prece pelos sofredores, quando, por certo, acharão o caminho de meu coração.

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