Usina de Letras
Usina de Letras
                    
Usina de Letras
24 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 56828 )
Cartas ( 21161)
Contos (12584)
Cordel (10012)
Crônicas (22151)
Discursos (3132)
Ensaios - (8955)
Erótico (13388)
Frases (43349)
Humor (18383)
Infantil (3751)
Infanto Juvenil (2630)
Letras de Música (5464)
Peça de Teatro (1315)
Poesias (138026)
Redação (2918)
Roteiro de Filme ou Novela (1053)
Teses / Monologos (2394)
Textos Jurídicos (1923)
Textos Religiosos/Sermões (4767)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Erótico-->26. MARIA -- 24/12/2003 - 09:57 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Honro a minha nova companheira com o título desta mensagem, embora ela abra mão de compreender tudo quanto aqui haja eu escrito nestes últimos anos. Não que seja analfabeta. Ao contrário, lê muito bem e tem estudado bastante. É que não se integra no movimento espírita e, por isso, ainda não se deixou afetar das teorias mais complexas do kardecismo.

Pretendo expor-lhe em minúcias a doutrina? Verdadeiramente, não. Conheci Maria num momento de extrema debilidade emocional, tendo perdido um de meus queridos irmãos num acidente de carro. Ele estava sozinho, felizmente, porque havia convidado os filhos e nenhum aceitara sair junto.

Em meio ao velório, surgiu Maria a consolar os presentes, em nome de Deus, numa atividade que, depois fiquei sabendo, é própria dos “carismáticos” católicos, que se informam das crenças religiosas dos parentes enlutados e adentram o recinto com muito respeito, cooperando com o oficiante religioso encarregado da cerimônia fúnebre.

Marquei-lhe o rosto e a profunda convicção de que estava exercendo ministério de muita compaixão pela dor alheia. Foi, porém, na missa de sétimo dia que travamos a primeira conversação, tendo marcado um novo encontro para a missa do domingo seguinte, à qual compareci no único interesse de saber mais a respeito daquela pessoa exuberante em sua fé que, em outros tempos, eu diria irracional, mas que hoje apelido de “sem peias de preconceitos ou de dogmas”, porque fruto apenas do desejo de ver os irmãos confortados.

Fiz o teste — por que não? — e convidei-a a uma reunião pública num centro espírita por mim ainda desconhecido. Ela me acompanhou interessada em aprender como é que os espíritas realizam a sua solenidade comunitária mais importante, decepcionando-se, conforme me disse, tendo em vista a completa ausência de aparatos e símbolos. Achou o “sermão” muito ruim, sem ênfase nos tópicos mais significativos da pregação da moral, mas aplaudiu a modéstia com que a exposição foi dita e recebida pelo auditório disciplinado, muito mais do que na nave principal dos templos católicos.

Quando lhe pedi para examinar os pontos mais polêmicos da fala do irmão expositor, recusou-se, porque, segundo assinalou com veemência, iria tão-somente expender opiniões grosseiras, sem nenhuma base nos conhecimentos que armazenara durante toda uma vida dedicada aos irmãos e sobrinhos, somente agora, aos cinqüenta e poucos, voltada para as coisas da religião, na qual se engajara com fervor, participando de quanta novena, trezena, procissão e demais cerimônias litúrgicas não conflitassem com seu horário de professora primária aposentada, regente de classe ainda, porque viciada no magistério (talvez por ser solteira desde a infância).

Faz cinco meses que a conheci e três que nos casamos no civil, que Ana está ainda a me impedir de freqüentar os altares na qualidade de nubente. Em todo caso, em cerimônia particular, o padre veio, por solicitação de Maria, orar por nossa união, reconhecendo, já sem os paramentos, que se deveria dar oportunidade eclesiástica a quem estava sem recursos de alcançar a bula papal de separação de pessoas desde há muito sem vínculo de qualquer natureza. Comentou, baixando o tom da voz, que este novo casal não pleitearia filhos naturais, que a noiva passara da fase fértil.

Quero aproveitar esta oportunidade, que vai tornando-se cada vez mais rara, embora esteja escrevendo na sala, enquanto a minha caríssima consorte se entretém em acompanhar a novela na televisão, ao mesmo tempo que dispara duas agulhas de tricô a confeccionar uma bela blusa de lã para mim, quero aproveitar, como dizia, para dizer que Maria era tudo quanto descrevi no “capítulo” anterior, com um simples acréscimo que aprovei plenamente: ela se utiliza de ajudante para dar conta de todos os serviços domésticos, só não tendo tirado as sujeiras arcaicas porque eu providenciei, em tempo hábil, que a casa fosse totalmente limpa, asseada e higienizada por profissionais especializados.

Por outro lado, coopero intensamente com todos os centros espíritas que me convidam para festas e outros eventos de arrecadação de fundos. Deixei as mesas mediúnicas para pessoal mais habilitado e sem tantos mistérios canônicos e doutrinários no bestunto. Falar ao público somente na condição de apresentador das solenidades e das festividades, eximindo-me dos discursos relativos às teses kardecistas. Devo avisar que, em todas as oportunidades, tive Maria ao meu lado, a qual me incentiva a retornar ao quadro dos diretores, para o que me ponho em guarda, que não desejo volver ao plano das responsabilidades e das exigências comunitárias.

Não passa uma semana que não saímos à procura de pessoas carentes, durante a noite, porque nos integramos num grupo que não exige dos participantes qualquer vínculo religioso específico, havendo protestantes, umbandistas, católicos, kardecistas, materialistas, curiosos e eventuais, homens e mulheres de todas as idades, todos reunidos em nome da Sociedade de Amigos do Bairro, cujo presidente se recusou a candidatar-se a vereador e não permite que ninguém compareça com intuitos políticos.

Aquela promessa de me enviar algo que se destinasse a mim feita pelos amigos do centro foi deveras cumprida, tendo recebido ao todo cinco mensagens mediúnicas, três de Augusto, uma de Rosália e outra de Márcia, esta última regozijando-se pelo fato de eu haver encontrado paz junto a uma companheira que não exige de mim senão atenção, fidelidade e algum carinho.

Para dizer com toda a sinceridade, fiquei um pouco perturbado (por falta de uma expressão mais conforme ao meu real sentimento), porque tudo se confirmava de vez em relação às informações que Rosália me havia transmitido. Melhor assim, que os vivos cuidam dos vivos e os espíritos, dos espíritos. O futuro a Deus pertence...

Vou deixar bem barato o texto acima, que me daria motivo para estender-me por várias laudas no início destas memórias.

Estamos de viagem marcada para o Nordeste, assim que se iniciarem as férias escolares. Consultada a respeito de viajarmos na baixa estação, Maria me asseverou que não faria questão nenhuma de deixar os alunos nas mãos de outra professora, desde que eu não me importasse em perder uns meses de seu salário suplementar. Vamos viajar na alta temporada.

Na falta de considerações filosóficas de peso, vou encerrar este dia sem muitas reflexões contundentes, além do fato de saber que muitos leitores espíritas devem estar surpresos com a guinada que dei na minha vida, como se não mais me importasse com a salvação de minha alma. Então eu me obrigo a referendar o dístico mais precioso do Espiritismo, dizendo que “fora da caridade não existe salvação”. Se alguém quiser substituí-lo por este outro: “fora do Espiritismo não existe salvação”, escreva-me, pois terei imenso prazer em indicar a bibliografia correspondente à refutação do próprio Kardec a esta indevida pressuposição.

Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Perfil do Autor Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui