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Erótico-->5. ROBERTO -- 01/01/2004 - 07:03 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Era um homem forte. Tinha a musculatura rija e o cérebro fogoso. Esportista desde a infância, primou, durante toda a vida, em fazer o bem, com o espírito do “savoir-vivre” e do mais despojado egoísmo. Morreu aos noventa e dois anos, cercado pelos familiares remanescentes, inclusive pela esposa-amante, isto no plano material. No etéreo, assistiu-lhe ao desenlace grupo numerosíssimo de irmãos dessa e doutras encarnações.

Roberto não levou nem três dias para caracterizar o círculo da morte, desobrigando-se dos liames materiais com extrema facilidade. Reconheceu-se espírito, abraçou comovido a cada um dos amigos e, com desusado interesse, interrogou sobre a sorte de quantos não se encontravam presentes.

“Esse daí presume-se superior. Será que não teria o dom da desconfiança de que muitos poderiam estar imersos nas sombras do desespero, por malfeitos que lhe seriam desconhecidos? Nem todas as pessoas de nossos relacionamentos têm a mesma perfeição que somos capazes de reconhecer naqueles nimbados pela luz da moralidade superior.”

Felícia não admitiu de imediato que Roberto pudesse estar, desde logo, desejoso de ir em busca dos sofredores que, um dia, estiveram sob sua proteção material e sentimental.

“Noventa anos de vida não foram suficientes para que entendesse que as regras do bem e do mal se estendem, sem que sobre elas tenhamos qualquer prerrogativa?”

Raciocinava pelo avesso quase de propósito, porque não se iludia quanto a estar provocando, a distância, o instrutor que lhe fornecera o roteiro dos estudos.

Prosseguiu, contudo, observando o vídeo das realizações do companheiro de “Tugúrio”. Viu quando Roberto foi atrás dos perdidos nas Trevas, na companhia de inúmeros amigos socorristas, todos aquinhoados com a deferência…

“Estarei tão defasada quanto à permissão que os irmãos conseguem junto aos seres encarregados da condução do destino da colônia? Por que eles obtêm, desde cedo, o alvará para fazer exatamente o que desejam e eu fico a marcar passo, porque não considero nenhuma vantagem inscrever-me nos cursos que se oferecem na ‘Escolinha de Evangelização’?”

Lembrou-se dos tempos em que retornara perturbada da terra, três encarnações anteriores, quando se submeteu, de muito boa vontade, às diretrizes curriculares dos estudos evangélicos da moralidade. Aborreceu-se, deveras, ao final, quando, exaustivamente, se repetiam as noções elementares, ocasião em que pedira e obtivera permissão para exercer as tarefas relativas aos primeiros socorros dos desesperados pinçados das regiões umbráticas menos tristes.

“Conheço o nível dos ensinamentos que se dão nesse centro educativo e considero de muito valor cada pequenina lição, no sentido de habituar-nos à prática do bem, no auxílio das pessoas individualmente…”

Suspendeu os pensamentos porque lhe parecia que se distanciava sobremodo do exemplo de vida do companheiro Roberto. Sentia tênue estremecimento moral pela fugidia lembrança de que estava sendo solicitada para trabalho mais abrangente, não no interesse particular dos seres em desajuste cármico, mas para a melhoria social das camadas em penúria na terra.

“Vou avaliar o que Roberto está realizando atualmente e testar-lhe os progressos, como fiz com João. Certamente, não serei instada para interrogar o vizinho, porque não quero prestar-me ao papel de inquiridora.”

Realizara a meditação com o evidente intuito de não se perturbar mediante possíveis indagações daquele que, um dia, estabelecera que o melhor era juntar ao derredor de si todos os seres com quem partilhara o tempo dentro do círculo da vida.

Encontrou Roberto desenvolvendo um trabalho escrito. Sentiu-se embaraçada, porque não teria recurso honesto que lhe permitisse penetrar nos mistérios do pensamento alheio. Todavia, não hesitou em mentalizar a solicitação de entendimento dos dizeres que se inscreviam nos arcanos do computador pessoal do protegido dos dirigentes da colônia. Foi com extraordinária satisfação que se viu diante de terminal eletrônico em que as informações solicitadas estavam sendo projetadas. Leu as primeiras linhas e verificou que se tratava de extenso relatório referente a estudos do corpo humano, voltados para os trabalhos no campo da Educação Física, como se o projeto estabelecesse rigoroso padrão científico de recuperação dos poderes mentais, através do estabelecimento de perfeito equilíbrio dentro do organismo, nos sistemas endocrínico, nervoso, muscular, sangüíneo e outros, grafados, estranhamente, através de linguagem absolutamente técnica.

“Deveria utilizar-me do dicionário acoplado, mas que vantagem obterei desses conhecimentos, se não tenho sequer domínio dos objetivos com que o tratado está sendo preparado? Deverei interessar-me pelos resultados desse projeto ou me bastará saber que o irmão está alienado de si mesmo, imerso tão profundamente no campo da objetividade dos conhecimentos materiais, ainda que sob o ponto de vista da sabedoria espiritual possível nesta faixa de existência tão carente de informações superiores? Acho que esse aí, como o João, está necessitado de suprir necessidades…”

Hesitou em caracterizar as possíveis causas do procedimento que condenava.

“João se arrependeu profundamente de não ter dado integral atenção aos seus. Roberto, pelo que tudo indica, não deve ter alcançado sucesso na recuperação de todos os antigos colegas de existência corpórea. Estará sublimando os fracassos terrenos e etéreos?”

Felícia cansou-se das suposições que poderiam levá-la a pesquisas mais específicas.

“Afinal de contas, cada um deve saber onde lhe apertam os calos. Amanhã vou perquirir a vida de mais algum integrante do condomínio. Isto está ficando decepcionante.”

E repetiu, com ênfase, para ver se o instrutor lhe dava alguma resposta:

“Está ficando muitíssimo decepcionante!”

Antes de dormir, fechada por dentro no pequeno cômodo, desejou orar ao Senhor, para a solicitação de ajuda. Sonolenta, trocou as palavras e, ao invés de dizer: “peço-vos que me encaminheis para o círculo seguinte, no caminho de vosso reino de amor”.; terminou por requerer: “peço-vos que me forneçais a luz que promana do círculo evolutivo mais adiantado”, lembrança de antiga prece, dos tempos em que trabalhava como doutrinadora de centro espírita.

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