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Crônicas-->O BOCA DE OURO -- 26/09/2000 - 21:10 (Nelson de Medeiros Teixeira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Eu sempre pendi um pouco exageradamente para fixação de idéias mórbidas, reconhecendo-me, por isso mesmo, um pouco impressionável, principalmente com respeito a doenças imaginárias.
Querendo me ajudar dessa mini-hipocondria, me contou um amigo a historia de três médicos psiquiatras que resolveram testar a capacidade de auto sugestão de um paciente . Assim foi que o primeiro médico encontrando o cidadão escolhido lhe sugeriu a idéia de procurar um facultativo clínico, eis que seu aspecto desfigurado mostrava um desconforto físico evidente. Da mesma forma fizeram o segundo e o terceiro, tendo o cuidado, cada um, de acrescentar um novo ingrediente na pseuda doença do cara. Ao fim de uma semana foram procurar o paciente cobaia e o encontraram desfigurado, magro, abatido, estirado sobre a cama à espera da morte.
Confesso que achei a historia divertida e interessante, embora não me julgasse capaz de corresponder mentalmente a tal experiência. Ledo engano, constatei alguns meses depois, quando conheci seu Atanagildo... Aliás, prá quem não conheceu o dito cujo – não confundir com o de cujus – devo dizer que o Atanagildo era um tipo bem esquisito, invariavelmente sorridente, sempre a mostrar dois reluzentes dentes de ouro maciço encravados na parte superior da arcada dentária. Quer dizer, dente não é bem a expressão. O cara tinha um bloco de ouro maciço pendurado na cara e que devia pesar , no mínimo, 1 quilo. Aliás, depois de algum tempo é que fui reparar porque ele era diferente, É que tudo nele reluzia... Tudo brilhava... Era dente de ouro, cordão de ouro, anel de ouro, pulseira de ouro, etc. Em suma, o crioulo era a própria Serra Pelada em carne e osso... Baixo, mas forte o bastante para encarar qualquer lustroso guarda de plantão. Falava macio e, - infelicidade suprema – não se conformava com a decisão da perícia médica do INPS que havia negado o seu pedido de benefício. Ate ai, tudo bem. Duro mesmo foi convencer o cidadão que não fora eu quem havia negado nada, que de medicina eu só entendia mesmo era de tomar remédio, o que , aliás, diga-se de passagem, é comigo mesmo... Dose prá leão explicar àquele “boxer”frustrado que os médicos é que negavam ou concediam tais tipos de benefícios e que eu era apenas advogado.
Difícil convencer ao Atanagildo que ele era um cara sadio, sem doenças e por isso mesmo fora considerado apto para o trabalho. Acrescente-se, por amor à verdade, que o dito era a própria encarnação da saúde, embora pretendesse se aposentar por invalidez. Mas com jeito mostramos pro referido que na verdade era bem melhor que ele estivesse são e que assim podia continuar jogando suas peladas lá pelo Zumbi e adjacências... Pensei até em dizer prá ele que “mens sana...” Desisti. Achei que ele num ia entender direito. De qualquer forma a resposta foi direta, e prática: “- Bom prá você, moço, que fica ai o dia todo sentado sem pegar no pesado... - Aí engoli seco e achei que o cara ia engrossar. Mas não. Só ficou me olhando esquisito, continuou rindo e sumiu sem dizer nada.
Pois bem. Vai daí que nos três meses seguintes o crioulo me aparecia semanalmente. Botava a carranca no corredor e ficava olhando prá min. Só olhava e sorria. O negócio tava incomodando pacas quando o meu amigo Rubens Gonçalves, inconfundível seresteiro das noites cachoeirenses, que presenciara todo o desenrolar da tragédia iminente arrematou: “- É doutor, cuidado que o Boca de Ouro vai te fechar. Ele tá atrás de você...”
Eu não liguei muito, ou pelo menos fingi que não liguei. De qualquer maneira o cara tava lá. Toda semana. Invariavelmente a olhar pra min e a sorrir. Olhava e sorria... E o Rubens a soletrar, entre os dentes:
“- O Boca vai te fechar...” - Era um tremendo de um gozador...
Foi quando resolvi encarar a coisa e acabar de vez com a incomoda situação. E foi ai que deu-se a tragédia porque , na verdade, o cara não ria, tinha um tique nervoso, isso sim, por força de um pequeno defeito no lábio superior, e o olhar, embora fosse olhar de verdade, não era prá min, mas sim prá minha colega, muito da gostosinha, que trabalhava do outro lado... O coitado, além de tímido, era vesgo, aleijado e prá completar tava apaixonado pela dita...
A descoberta foi tragicômica, mas relaxante...

Nelson de Medeiros Teixeira
Extraído do “Jornal da Cidade”
de 9/87
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