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Erótico-->8. ROGÉRIO -- 04/01/2004 - 08:42 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

— Vamos começar pelo estudo da descrição de sua existência, se é que você não irá perturbar-se com a minha “curiosidade”.

— Querida amiga, suponho que suas palavras não estejam representando com exatidão a sua vontade de auxiliar-me. É verdade que pratiquei série imensa de atos contrários aos ditames evangélicos, mas nada que não possa superar com a ajuda decidida dos amigos.

— Quer ir descrevendo os quadros que irão desfilar perante os nossos olhos ou prefere que eu vá relatando as emoções, pensamentos e intuições que me sugerirem?

— Um pouco de cada coisa.

Ligado o aparelho, apareceu a figura jovem de um operário caído ao lado da máquina em que trabalhava.

— Você deixou a matéria bem cedo.

— Aos trinta e cinco.

— Qual a causa do desenlace antecipado ao desgaste orgânico programado para todos os mortais?

— Na verdade, o coração tinha fraquezas estipuladas pelos organizadores etéreos de minha constituição física.

— Posso concluir que você não necessitava permanecer mais tempo no corpo?

— Deve pensar em que minha provação iria desencadear outras formas de sutis elaborações filosóficas, no plano espiritual, porque deixava três filhinhas lindas e uma esposa amada. Estão todas no plano terreno até agora.

— E como você se saiu com elas? Ficou tremendamente aborrecido com o sofrimento ou entendeu que precisavam do encargo cármico, por pregressas dívidas a serem resgatadas por essa maneira?

— De início, obnubilado…

— Permita-me interrompê-lo.

— Você vai reclamar da expressão pouco usual.

— Não exatamente. Tenho duas observações que gostaria de vê-lo comentar. A primeira: como é possível para um operário falar com tanta desenvoltura? Se me disser que, anteriormente, estudou e cresceu no setor intelectual, como um professor, um jornalista, um doutor advogado, por exemplo, vou suspeitar de que, em vida anterior, tenha…

— É isso mesmo. Mas também venho dedicando-me aos estudos lingüísticos dos mortais, para a próxima aventura terrena. Entretanto, reconheço certo pedantismo no verbo “obnubilar”.

— Esse seu esforço é meritório e deverá ser reconhecido pelas autoridades da colônia. A segunda observação diz respeito a mim mesma. Tenho empregado palavras que não constam de meu, como direi…

— Diga: “saber ativo”.

— E de onde vêm esses termos quase desconhecidos?

— Se não estão sendo sugeridos pelos protetores (e eu acho que não estão), devem provir do âmago do cérebro, por tê-los ouvido alguma vez, por exemplo, em discursos, em palestras, em contato com pessoas mais cultas.; ou foi lido nos jornais, livros e revistas. Caiu no âmbito do…

— Posso tentar?

— Tente.

— “Saber passivo”.

— Excelente!

— Estávamos no “obnubilado”…

— No princípio, obumbrado (brincadeirinha!), confuso, transtornado, perturbado com a morte, não conseguia atinar com a cobrança cármica. Investi contra a sorte e maldisse o destino, apesar de sofrer muito com a intemperança. Contudo (como você poderá ver nos quadros seguintes), fui sendo ajudado pelos protetores, que me revelaram, através de recursos físicos do nosso meio (como potente narcótico que me inutilizou para a violência pretendida), que estava provocando a revolta de muitos seres capazes de entender o auxílio extraordinário que me davam pelas minhas vibrações…

— Vejo no quadro que você esteve em vias de ser arremessado no Umbral.

— Teria sido mais um sofrimento merecido, porque não estagnei o espírito dentro do suave lago das lições do Cristo.

— Esse “estagnei” não está muito bem.

— Empreguei no sentido “paralisar”.

— Então me diga: terá qualquer importância a precisão vocabular, nesta conversa “tête-à-tête”?

— “Tête-à-tête”?

— Foi sem intenção. Quer dizer…

— Eu sei o que significa: cabeça junto da cabeça, “ipsis litteris”. Galicismo, que indica que duas pessoas estão conversando de modo particular, íntimo. A minha estranheza é esta derivação cultural, sem que tenhamos tido qualquer intenção de demonstrar erudição.

— Pois eu, caro Rogério, quero crer que estejamos abrindo o intelecto por influência do fato de estarmos matriculados na “Escolinha de Evangelização”.

— Só pode ser isso! Estamos especializando-nos primeiramente através dos recursos guardados no fundo da memória. Provavelmente, seremos obrigados a acrescentar os fluxos advindos das gírias ou jargões próprios de cada ciência a ser estudada.

— “Voltando à vaca fria”, quer dizer, ao tema de sua existência, vejo que bem pouco falta para você restaurar seu destino, seu carma, quanto às defecções antigas. Os quadros, nesse particular, demonstram bem poucos desafetos, seres, aliás, que esbanjam maldade e que se espojam na lama dos vícios, difíceis, portanto, de convencimento quanto à sua intenção de lhes dar conforto e assistência. De resto, você se encontra defendido pela comunidade da colônia e eles não têm somente a sua pessoa como alvo de represálias.

— São pobres coitados, infelizes, esgotados em ânsias de volver à crosta para o gozo material. Veja que me acusam de subtrair-lhes a companhia de minha esposa. Vou passar para rápida visão atual da vida dela e das crianças.

Os quadros deixaram de ser estáticos. As figuras se dinamizaram e, cinematicamente, apareceu uma senhora na companhia de um homem.

— É a minha esposa com o marido.

— Tenho a certeza de que foi você quem sugeriu a ela que contraísse segundas núpcias.

— Somente depois que percebi que seria o meio de resgatarmos, ela e eu, antigo débito.

— Não se acanhe, porque eu me casei quatro vezes e, acredite, fui feliz em todos os matrimônios. Essa história de almas gêmeas, de metade da laranja, não tem validade alguma em relação a mim.

— Pois eu precisei sufocar insidioso sentimento de ciúme, até descobrir que estava sendo egoísta e orgulhoso.

— Meu caro Rogério, estou satisfeita com a nobreza de seu caráter. Creio que iremos evoluir juntos nesta fase de estudos científicos. Você me disse que eu o auxiliaria. Na verdade, estou mais aprendendo, não quanto aos aspectos teóricos, todos assimilados por muitos anos de atendimento no hospital, mas no que concerne à vivência estimulada por vibrações tão intensas e tão próximas.

— É que estamos entrando em empatia quanto às diretrizes existenciais que nos estão sendo propostas.

— Se “simpatia” é o impressionar-se favoravelmente e “antipatia”, desfavoravelmente, “empatia” será o sentimento provocado pela troca de posição psíquica com outra pessoa.

Silenciaram, refletindo sobre a palestra motivada pelas perspectivas aventadas quanto a estarem sendo guiados a distância pelos benfeitores e mentores. Sentiram-se ambos confortados e plenamente satisfeitos com o desempenho próprio e do outro. E sorriram felizes, desejosos de agradecer ao Pai a boa vontade da primeira hora. O contato se deu pensamento a pensamento e Felícia mentalizou um pai-nosso, no qual foi secundada por Rogério. Depois recolheram-se sem mais palavras. Estavam entendendo-se, intuitivamente.

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