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Contos-->QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XI -- 20/06/2005 - 17:40 (Edmar Guedes Corrêa****) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XI

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Durante estes últimos dias estive pensando muito acerca da vida. É engraçado, pois ela que me é tão sem sentido, de repente se tornar motivos de conjecturas. Mas tudo não passou de conseqüência duma leitura que fiz recentemente da obra “O nascimento da tragédia” de Friederich Nietzsche. Um dia desses, sentia-me tão deprimido, sem vontade para nada. E queria tão somente ficar na cama, como um enfermo, incapacitado de me levantar.
Não sei se posso chamar isso de enfermidade, contudo minha enfermidade é uma enfermidade da alma, não do corpo. Pareço estar bem, mas meu coração é tão somente um buraco negro no centro de uma nebulosa. É como se aquele buraco negro tivesse sugado toda a luz e brilho que havia em mim. É como se até a vontade de viver também tivesse sido sugado.
Lembro-me de ter na biblioteca várias obras desse pensador alemão. Em algum momento de minha vida cheguei a ler “Assim falou Zaratustra” e “Genealogia da Moral”, mas não compreendi muita coisa de seu pensamento. Nietzsche me parecia enigmático e obscuro demais; aliás, eu o considerava mais poeta que filósofo. Ainda sim, depois de ler “O nascimento da tragédia”, continuo com a opinião de que Nietzsche é um autor difícil de ser compreendido. Mas pelo menos me fez refletir sobre a vida. Não que eu me recorde de algumas passagens do texto. O que ficou mesmo não foi nenhuma passagem do texto, mas sim uma citação de Goethe em “Werther”, onde o personagem escrevia ao irmão acerca dos livros dizendo: “Não quero ter comigo esses perigosos estimulantes, que inflamam, que irritam o coração...”. Tal citação me veio ao acaso, tão somente porque li alguma coisa sobre Goethe no texto de Nietzsche.
Na verdade, não sei se foi exatamente o texto de Nietzsche ou a lembrança do destino trágico do jovem Werther que me fizeram refletir não só sobre a minha condição, como também a condição do homem como um todo. No entanto, tomado pelo silêncio de meu quarto, pus-me a devanear.
Não cheguei a nenhuma conclusão. Talvez porque eu faça parte daquelas pessoas as quais Nietzsche chama de fracos. Ou talvez eu seja tão somente uma vítima de minha época. Uma época onde o homem perdeu a crença. Não só a crença em Deus, mas a crença nas instituições e até a crença em si mesmo. Uma época onde os valores não têm importância alguma. Uma época destituída de sentido, assim como minha vida. Talvez eu seja, assim como milhares de pessoas, vítimas dessa época terrível, onde nos sentimos impotentes diante de tudo e de todos. Uma época onde não encontramos respostas para nossas perguntas. Não que as respostas não existem, mas sim porque temos tantas informações a nossa disposição que não sabemos que não sabemos o que fazer com elas e nem como procurar as respostas no meio delas. Sim, queridos leitores! Vivemos a época da indiferença e da impotência. Uma época sem comparação na história do homem.
Eu vejo o mundo girar a minha volta, mas não sei o que fazer. Tudo me parece distante, inalcançável. Tudo me parece difícil, incapaz de ser mudado. E diante de tantas barreiras, sem saber o que fazer e como agir, sinto-me perdido e incapaz de fazer algo.
Não quero ficar encontrando justificativas por ter deixado o grande amor da minha vida escapar. Hoje porém sei que me faltou vontade e coragem para enfrentar os desafios que teria que enfrentar caso tivesse escolhido o amor. Mas não, preferi uma vida mais fácil, porém sem sentido. Não fiz nada pelo qual serei lembrado após minha morte. Não cometi nenhum ato de coragem, nenhum ato de insanidade, nenhum ato que causasse espanto ou admiração. Simplesmente segui as regras, fiz aquilo que todos esperavam que eu fizesse. E o que ganhei com isso? Nada! Mil vezes nada! E essa previsibilidade, essa incapacidade de surpreender e causar espanto nos outros foi minha ruína.
Por me achar monótono, minha esposa, aquela com a qual eu me casei não só pela beleza, mas principalmente por ser do mesmo nível social, por corresponder melhor as expectativas do meio social em que vivia, trocou-me por outro, por alguém que não fosse tão sem expectativa e entediante quanto eu.
Culpa-la? Nada disso! No fundo, eu a invejo. Ela sim foi corajosa! Quando não se sentiu satisfeita, viu que eu não correspondia às suas necessidades, não teve dúvida! Correu atrás de seus sonhos e foi viver. Ainda me recordo de suas últimas palavras, antes de me abandonar: “eu não estou morta! Eu quero viver, eu quero lutar por alguma coisa! Mesmo que essa luta não leve a nada, eu pelo menos vou morrer feliz por ter tentado. Não quero terminar meus dias como aquelas mulheres que vivem à sombra de seus maridos como se fosse tão somente bonecas de enfeite, ornamentos. Eu quero viver, viver intensamente. Nem que seja viver por pouco tempo...”. Hoje eu sei que minha ex-mulher estava com toda a razão. Se tivesse feito o mesmo, certamente não estaria me arrastando através dessa inútil existência.
Alguns dias atrás ela me ligou, pois ficou sabendo que eu estava doente. Perguntou se eu estava precisando de alguma coisa. Respondi que não. No fundo, nem ela nem ninguém podem me ajudar. A única pessoa que pode me ajudar sou eu mesmo. E no momento não encontro meio e não acho forças capazes me tirar dessa vida abjeta e inútil que estou levando há muitos anos.
Sei que ela não sente raiva de mim. Esse é o grande problema! Nem raiva as pessoas conseguem sentir de mim. Só sabem sentir pena. Olham para mim e só conseguem ver um pobre coitado, um velho acabado, um homem que caminha a passos largos para seu ocaso.
Tento-me apegar a alguma imagem do passado. Alguma coisa que possa me ajudar. Mas só me vem à memória alguns poucos momentos vividos com Diana. É como se meu passado se resumisse a esses curtos e esparsos momentos. Talvez, sabendo-se que viveria desses raros momentos, eu os tenha vivido da forma mais intensa possível. E com isso tenha esquecido de viver o resto da vida. Momentos esses como os que passei com minha amada numa festa em homenagem à padroeira de Santa Paula. Por coincidência, numa festa idêntica a festa onde nos conhecemos a exatos dois anos antes.
Dias antes eu já estava ansioso com a possibilidade de me encontrar com Diana. Andava meio inquieto e distante. Luciana chegou inclusive a me indagar o que estava acontecendo.
-- Você parece distante, pensativo... Está acontecendo alguma coisa que eu não saiba, meu amor?
-- Não, meu anjo. Não está acontecendo nada. – menti.
De fato entre a gente não acontecia nada. Nosso namoro havia entrado naquela rotina onde o rompimento ou o casamento não faria muita diferença. Estávamos para completar dois anos de namoro e a paixão parecia ter dado lugar a apatia. Mantínhamos nos unidos mais por falta de opção do que por amor. Ainda sentíamos prazer em compartilhar momentos juntos, mas eram momentos raros. Nem mesmo a chama do desejo sexual era capaz de nos aquecer. Nossos momentos na cama eram ainda mais raros. Muitas vezes ir ao cinema ou a uma festa nos era mais interessante que ficar as sós entre quatro paredes.
Ao partir para Juiz de Fora, não senti o menor remorso em ir ao encontro de outra mulher. Quando havia algum remorso era por causa de Diane e não Luciana. Vez ou outra, senti-me mal não por estar traindo minha namorada, mas sim por está traindo a amante. Pois para todos os efeitos Diana era tão somente uma amante, a outra. Mesmo que meu coração dissesse “Não! Eu amo Diana e sou fiel a ela” eu via em Luciana minha namorada.
Minhas lembranças de Luciana ficaram para trás assim que pisei no solo de Juiz de Fora. Meus pensamentos estavam todos ocupados por Diana. Eu vislumbrava um encontro inesquecível. Eu imaginava passar momentos iguais ou até mais intensos que aqueles do nosso primeiro encontro. Eu nos via caminhando tal qual dois amantes apaixonados pelas ruas de Santa Paula, parados numa barraca para comer espetinho de churrasco, nossos corpos bem colados devido a frio que estava fazendo...
Ah, querido leitor! Eu sonhava de uma forma tão clara, como se realmente aquilo que passava pela minha cabeça estivesse acontecendo. Era como se eu estivesse indo ao encontro de minha felicidade, de meu verdadeiro destino.
O dia mal havia clareado naquele sábado, quando cheguei na casa de minha avó, e já não via a hora de pegar o ônibus para Santa Paula. Era como se minha avó, minha tia e meus primos não tivessem importância alguma. Nem os longos doze meses de separação desde a última vez em que os vira era capaz me conter o desejo de partir para Santa Paula. Eu sabia que o ônibus só partiria mais tarde, após o almoço, mas nem isso era capaz de ocultar minha ansiedade.
E quando finalmente parti, meu semblante era de alguém prestes a entrar em desespero. Durante a viagem, permaneci quase que o tempo todo com os olhos virados para a janela, perdido em pensamentos. Vez ou outra que eu virava para o lado com o intuito de ver se algum conhecido havia entrando no ônibus.
Não vou perder mais tempo falando de como foram terríveis aqueles momentos que antecederam minha chegada à Santa Paula. Mas nunca havia vivido uma angústia tão grande. Quero apenas registrar que desejei desesperadamente que Diana estivesse naquele ônibus. Sabia que isso era uma possibilidade remotíssima, mas quando se está louco para encontrar a pessoa amada, como eu estava, o improvável é a possibilidade mais concreta.
No sábado a festa não é assim tão animada quanto no domingo; contudo, ao cair da noite, os moradores das redondezas vão chegando e o público aumenta. Muitos vêm para assistir a apresentação de alguma dupla sertaneja da região.
Realmente havia pouca gente pelas ruas quando cheguei. Houve um aumento de pessoas por causa do número de passageiros do ônibus, que por sinal chegou lotado. Porém, pude reparar que havia muitas barracas espalhadas pela rua principal. Algumas inclusive ainda estavam por montar. Em duas via-se um aglomerado de pessoas, principalmente homens. Não foi preciso eu me aproximar para deduzir que se tratavam de barracas de jogos, dessas que normalmente a gente encontra em parques de diversão.
Nas festas, eu gostava de percorrer todas as barracas a procura de algo novo e interessante. Minha timidez não inibia minha curiosidade. Mas naquele dia aquelas barracas não despertavam tanto assim meu interesse. Eu queria percorrer as ruas de Santa Paula, não para bisbilhotar o que havia de novo nas barracas, uma vez que agora muito do que havia nelas não era mais novidade para mim, e sim atrás de uma única pessoa: Diana.
Cheguei a percorrer as ruas de Santa Paula para ver se a encontrava. Ela mesma eu não encontrei, mas encontrei muitos conhecidos e amigos de infância. Com muitos deles tive que parar e responder uma série e perguntas. Em outros tempos, sentia imenso prazer em ficar conversando com essas pessoas, contando tudo sobre meus pais e a vida que levamos, mas hoje não havia prazer algum em fazer isso. Eu queria estar livre para procurar Diana. Contudo, enquanto não desse atenção àquelas pessoas mais íntimas, eu não estaria livre.
E foi quando eu estava sentando numa das barracas, pouco antes de anoitecer, comendo churrasco e conversando com alguns amigos que vi Diana. Estávamos próximos ao palanque, sentado sobre um banco de madeira, ouvindo a apresentação uma dupla sertaneja dali, de Santa Paula. Inclusive um dos rapazes da dupla tinha sido meu colega de classe nos primeiros anos de estudo.
Ah, querido leitor! Não tente imaginar a sensação experimentada por mim naquele exato instante em que meus olhos foram parar naquela pessoa! Não tente medir o tamanho da minha felicidade ao vê-la. Não, não faça isso comigo! Você estaria sendo injusto demais. Nem você, nem ninguém são capazes de compreender o deleite que transbordou de meu coração. Foi mais que uma sensação inefável. Foi algo que somente eu pude experimentar naquele exato momento. Foi algo que só poderia ser experimentado ali com aquele conjunto de circunstâncias. Algo que jamais será experimentado por mim ou por qualquer outra pessoa neste mundo.
Diana estava simplesmente linda! Tão linda como nunca vira antes. Ela vestia naquela tarde fria uma blusa branca de crochê com mangas compridas, uma mini saia marrom, meias compridas que iam até um pouco acima dos joelhos, e calçava botas pretas de couro. Ainda tenho em minha mente as palavras que ficaram presas em meus pensamentos: “Nossa! Como ela está linda e atraente!... Nunca a vi tão bonita assim... O que ela fez para ficar desse jeito? Não tem nada a ver com a Diana que vi da última vez...”. Recordo-me que meu coração começou a bater descompassadamente. Então eu a segui com os olhos, como se eu tivesse sob a hipnose.
A vontade de me levantar e sair correndo atrás dele foi descomunal. Mas esperei um pouco mais para ver para onde ela estava indo. Assim acompanhei-a com os olhos até que ela sentou numa barraca do outro lado. Estava acompanhada por algumas amigas. Quando ela sentou, não pude conter a força que me impelia até ela. Assim, pedi licença aos amigos, e corri ao seu encontro.

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