Usina de Letras
Usina de Letras
                    
Usina de Letras
85 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 56831 )
Cartas ( 21161)
Contos (12584)
Cordel (10014)
Crônicas (22152)
Discursos (3133)
Ensaios - (8956)
Erótico (13388)
Frases (43357)
Humor (18384)
Infantil (3751)
Infanto Juvenil (2630)
Letras de Música (5464)
Peça de Teatro (1315)
Poesias (138030)
Redação (2918)
Roteiro de Filme ou Novela (1053)
Teses / Monologos (2394)
Textos Jurídicos (1923)
Textos Religiosos/Sermões (4770)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Erótico-->14. PREPARATIVOS -- 10/01/2004 - 07:55 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Felícia queria ir logo peregrinar pela face da terra. Seria a primeira arremetida para fora das muralhas da colônia, desde o derradeiro regresso. Chegara, naquele momento, muito fraca mas esperançosa de ser recebida pelos familiares. Foi, deveras, mas não por todos, que muitos estavam reclusos nas câmaras de descompressão perispirítica e outros vagavam errantes pelo Umbral. Não queria rememorar os tempos em que lutou pela restauração dos corpos semimateriais, mas a memória não obedecia e restaurava os dados dos sacrifícios realizados.

— Tomás, por favor, ajude-me aqui!

— Pois não, senhora. Desculpe! Felícia.

— Estou tendo uma espécie de pesadelo. Não quero recordar os dolorosos momentos que passei na busca dos companheiros de jornada terrestre, mas a mente insiste em se fixar naquele sofrido período. Será que estou sendo induzida por telepatia? Veja se existe algo nesse sentido.

Tomás se concentrou por instantes e obteve a resposta.

— Na verdade, disse, todos os alunos estão sendo levados a recordações dessa espécie, para que se habituem ao pensamento de que irão observar as dores humanas.

— Senti-me ansiada, como se fosse possível reavivar as crises da angústia causada pela frustração do atendimento aos imperfeitos. Não repare em minhas expressões, porque estou um tanto baqueada. Se era para me causar a impressão...

Foi-lhe impossível prosseguir. Lágrimas irromperam fartas.

Tomás imaginou que Felícia estivesse feliz pela superação daquele estado de opressão cármica, por força dos deslizes alheios, que um dia precisou esclarecer. Determinou-se a orar uma prece e desligou-se do ambiente, enfronhando-se no imo do coração.

Passar-se-iam duas longas horas para que Felícia se recompusesse. Nesse meio tempo, viu perpassarem todos os quadros relativos aos entes mais queridos, desde o primeiro contato, vários séculos antes, até o desenvolvimento da reciprocidade sentimental, lograda não sem contratempos e lutas.



— Obrigada, amiguinho! Sinto-me melhor. Graças a Deus, a agitação psíquica favoreceu-me o reconhecimento do estágio de felicidade em que me encontro. Epaminondas tem razão em avisar que iremos estar mais frágeis, quando nos depararmos com os desvios humanos da senda evangélica. Esteve você o tempo todo em prece?

— Sem dúvida, para o auxílio de sustentação fluídica. Penso que os irmãos maiores tenham tido muito trabalho com os alunos, porque o recado que recebi...

— Não me considere ingrata, pelo amor de Deus! Mas acho que prefiro partir mais cedo para o encontro da turma. Vamos ver o que se contém no disquete.

— Certamente.

Ajustada a aparelhagem eletrônica, viu-se, no “écran”, que se delineava o mapa do Brasil e se acendiam pontos numerados. As legendas sucediam-se rápidas e a leitura tinha de fazer-se dinâmica. Era a trilha que o grupo iria seguir. Partiam da cidade do Rio de Janeiro, passavam por São Paulo, enfronhavam-se na direção do Rio Grande do Sul. Assinalavam-se, ainda, outras localidades no interior do território, notadamente dentro da selva amazônica e nos sertões nordestinos. Em seguida, a visão se deslocava para o oceano, atingindo a Europa, fixando-se em Londres, em Berlim e em Moscou. Em seguida, apontavam-se cidades do Oriente: Beirute, Bagdá e Meca. Passava-se por Telavive, desembocando-se no Cairo. Seguia-se depois para o interior da África, sem pontos definidos, até Joanesburgo, de onde se partia diretamente para Tóquio, ponto claríssimo a chamar a atenção. Desse foco geográfico, irradiavam-se diversas trilhas na direção da China e da Índia. Seul era outra parada obrigatória, inclusive com a anotação especial de que se haveria de efetuar o confronto entre as velhas civilizações e a moderna tirania tecnológica. Depois o mapa contemplava o Oceano Pacífico, indo diretamente para o Alasca, descendo até os Estados Unidos, voltando ao Canadá, despachando-se pela América Central, com mais de dez cidades pontuadas e regressando ao Brasil. Brasília coroava o itinerário.

Não havia instruções muito claras quanto ao que observar. Discorria-se genericamente a respeito de como eram extraídos os bens minerais e os recursos da flora e da fauna. Entretanto, definiam-se rigorosamente os traços raciais das populações, para o efeito do reconhecimento dos aparatos corpóreos, em função do estágio evolutivo material da humanidade.

— Meu bom Tomás, parece que levaremos mais do que os oitenta dias de Júlio Verne.

— Com certeza, se tivermos de levantar os problemas mais sérios subjacentes...

— Você está incluindo-se?

— Evidentemente, estarei dando assessoria e, para tanto, tenho de me manter alerta, conquanto não esteja devidamente preparado para a crítica de caráter universal. Como devo, contudo, ser o porta-voz das explicações particulares, tenho de me inteirar a respeito de cada tópico importante, no sentido de traduzir os pensamentos e sentimentos que se interpenetrarão das pendências rigorosamente incongruentes pelo choque dos conteúdos contrastados.

— Você não está sendo demasiado obscuro? Imagine uma pobre mulher de noventa anos tentando decifrar essa... essa...

— Digamos que a palavra mais correta seja...

— ... esse emaranhado de conceitos, absolutamente estranhos para quem está preocupado com o progresso moral.

— Prometo não tentar mais as digressões de caráter “psico-esquizoidal”.

— Que terminologia é essa, agora?

— Freqüentei cursos na categoria de ouvinte e fiquei impregnado com certas referências exclusivas cá do etéreo. Esqueço-me seguidamente de que suas conotações se ampliam apenas no setor dos conhecimentos do senso comum terreno e se sedimentam na superior moralidade evangélica.

Felícia percebia que muito do que Tomás explanava provinha do que ouvira dos lábios dos mentores. Mas sentia-se à vontade, porque o léxico, muitas vezes, reverberava nas lindes de sua compreensão lingüística, enquanto o significado se descodificava com alguma segurança. Passava por cima das frases e se sentia imersa diretamente no conteúdo. De novo, punha-se às voltas com o seu pobre “saber passivo”:

“Pelo menos, estou acumulando informações úteis para futuros desenvolvimentos perante os colegas, se for chamada a cooperar.”

Não puderam prosseguir, chamados que se viram para apresentação no Centro de Estudos.

Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Perfil do Autor Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui