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Erótico-->17. A CLASSE SE AGITA -- 13/01/2004 - 06:11 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Nem tudo se achava perfeitamente em ordem no acampamento, porque muitos rejeitavam a idéia de permanecer durante muito tempo afastados das regaladas comodidades de casa. Mas Epaminondas fazia vistas grossas para o fato e ia deixando os ânimos se revelarem completamente, desejando verificar onde as coisas iam parar.

Não demorou para alguém sugerir que a viagem começasse e terminasse ali mesmo, no Rio de Janeiro:

— A gente observa os aspectos da natureza prejudicados pelo procedimento humano, estabelece o grau de responsabilidade das pessoas, segundo sua posição social, e generaliza.

A sugestão encontrou forte acolhida junto aos mais exaltados, posto que ninguém se encorajasse para a rebeldia declarada. Houve quem dissesse:

— Não sei por que viemos dar nestas paragens em que o desmazelo humano chega às raias da incompreensão! Nem precisamos visitar os locais para saber que os homens estão contaminando os mananciais de água, estão descarregando, na atmosfera, milhões de toneladas de poluentes, materiais contaminados que caem sobre o solo e degeneram a natureza geológica, impedindo que a lavoura cresça saudável para o consumo.

Dada a deixa, um terceiro acrescentou:

— Fica muito difícil de dimensionar os prejuízos causados ao meio ambiente e de calcular quanto tempo levará para que a vida terrena fique impossibilitada. Basta observar a camada de ozônio tão arruinada, para que se obtempere que não há necessidade de cálculos muito exatos, para que todos os homens se vejam diretamente afetados pelos raios solares...

Alguém interveio, com a evidente intenção de confundir:

— Raios infravermelhos ou ultravioletas?

Vários sabiam a resposta mas, prudentemente, se eximiram de se pronunciar. Eram os que julgavam da oportunidade dos estudos, segundo as propostas dos mentores. O interpelado não se deu por achado:

— Que diferença faz conhecer a natureza da emanação catastrófica para a pele que vai desenvolver o câncer?

O anterior:

— De que tipo: maligno ou benigno?

Aí, a questão se definiu como provocação e o outro preferiu calar-se, para não ficar visado pelo grupo. Aguardou, com paciência, que algum dos mais sabidos se pronunciasse a favor de sua tese.

Silêncio sepulcral.

Felícia estava deliciando-se com a contenda. Havia decidido estudar os efeitos nocivos da ganância humana sobre a natureza, mas não se atrevia a comentar os impulsos dos demais, sabidamente concordes com o sacrifício, porque conscientes da necessidade das reencarnações para o progresso espiritual. Compreendera que a salvação do planeta era questão primordial para a permanência de bilhões de espíritos em viagens de ida e volta cada vez mais eficazes do ponto de vista moral. Entretanto, tendo em vista o desconforto da classe, cobrou as providências quanto à meditação sobre a narrativa que serviria para alertar os mortais sobre os perigos da destruição:

— Vocês, sem querer desviar sua atenção para outro aspecto dos trabalhos, desenvolveram alguma idéia relativa à proposta de realizarmos obra de esclarecimento de como o plano espiritual está preocupado com a falência humana na conservação de condições satisfatórias para a manutenção da vida?

A maioria se sentiu aliviada com a intervenção providencial da companheira, vista já como operosa colaboradora com os serviços. Foi Maria quem se manifestou em primeiro lugar:

— Pensei muito a respeito. Acho que foi brilhante a proposta, apesar de não julgar o grupo capaz de realizar projeto que demandaria superior conhecimento não só da bibliografia concernente aos estudos científicos realizados pelos homens, como ainda dos textos mediúnicos transmitidos por irmãos nossos mais categorizados, espíritos de grande luminosidade e de profundos conhecimentos lingüísticos para implementar nos cérebros a veracidade deste empenho dos administradores siderais responsáveis pelo quadrante galáctico em que se situa a Terra. Sei que vão considerar-me, pelo que pude deduzir dos relatos dos disquetes, como a mais propensa a escrever o texto, jornalista aguerrida que fui na derradeira encarnação, ainda imersa nos procedimentos da escrita atual, muitos dos quais em flagrante contraste com os apanhados filosóficos e doutrinários obrigatórios para obra daquela espécie. Sinto-me tentada, não posso negar, a oferecer-me para o intrépido empreendimento, contudo, também não posso deixar de manifestar meus temores de que podemos falhar clamorosamente, não tanto pela execução da obra, mas pela repercussão dela junto aos terráqueos, porque deverá ser atribuída aos espíritos, o que significa que valerá como algo absolutamente místico, religioso, transcendental, incompreensível para quantos não privam dos conhecimentos da doutrina de Kardec. Pior do que isso é a difusão junto à sociedade a partir do movimento espírita, o que equivale a dizer, de gente...

Sentindo que os pruridos de antigas desavenças entravam a fermentar a opinião da manifestante, Rogério interceptou-lhe a palavra:

— Prezadíssima confreira...

O termo causou estranheza geral. Maria arrepiou-se toda:

— Explique-se, por favor!

— Se para os homens dizemos “confrades”, para as mulheres, “confreiras”. Não lhe parece claro?

— O que me parece claro é que você deseja intervir para contestar o que eu pretendia dizer.

— Contestar não diria. Impedir que emitisse opinião eivada de preconceitos, sim. Se não, vejamos. A irmãzinha foi militante feminista de vanguarda...

— Não precisa prosseguir, caro amigo. Reconheço a afoiteza com que ia pronunciar o meu libelo contra as mazelas...

— Cuidado com o artifício de dizer agora o que você mesma considerou que seria...

— Perdão! Mas a verdade é que os vinte milhões que se declaram espíritas no Brasil...

Foi a vez de Roberto chamar a atenção da colega:

— Os elementos estatísticos não devem ser generalizados. Acredito que esse cálculo esteja aproximado, mas, para a inferência de quantos encarnados irão ser aquinhoados com o texto, devemos orientar-nos por outros dados concretos, quais sejam: os alfabetizados, os providos de recursos para a aquisição do livro, os intelectualmente aptos ao entendimento do tema, os...

Maria entendeu que precisava estudar melhor a sua fala, porque devia sustentar os argumentos em ponderações matemática, geográfica e historicamente corretas, segundo avaliação científica de última geração, com o apoio imprescindível dos dados extraídos da realidade e projetados com rigor para o momento em que se daria a publicação. Resolveu contemporizar:

— Começamos a discutir aspectos internos do desempenho do grupo. Passamos a interessar-nos pela divulgação do que está na mente e no coração de todos nós, por força da conscientização crescente dos problemas humanos em correlação com a existência no plano da espiritualidade, mas esquecemo-nos dos pressupostos dos conhecimentos exatos que somente o estudo e a pesquisa nos possibilitarão. Quer parecer-me que não me conheço o suficiente para perceber o quanto estou colocando freios no desiderato predominantemente intelectual de partilhar da campanha pela melhoria das condições ambientais da Terra, em função...

Suspendeu o discurso, notando que a assembléia se desligara completamente de sua manifestação em favor da retomada do programa original. Interrogou telepaticamente Epaminondas, que lhe esclareceu:

— Querida amiga, você sensibilizou os colegas em pontos íntimos difíceis de atingir, mesmo se estivesse preparada para isso. É que o contexto em que as conotações de sua fala repercutiram é o da necessidade de evolução, cuja compreensão vai sedimentando-se à medida que penetramos no âmago de cada problema existencial. Quem sabe se o escrito resultante de suas ânsias de aperfeiçoamento já dos seres encarnados não venha a obter o mesmo resultado junto às almas de quantos leitores se deixarem envolver pela lúcida apresentação do drama que se avizinha?

O mestre não prosseguiu, porque a pupila, por sua vez, também imergira nas profundezas dos pensamentos estimulados pela doçura caritativa de quem não mede esforços pelo bem-estar espiritual dos semelhantes, mesmo quando dependentes da segurança corpórea.

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