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Erótico-->22. A PAISAGEM AÉREA -- 19/01/2004 - 09:36 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

O grupo se deslocava pelo ar, como em aeronave de vidro, com vista panorâmica e tudo o mais que se podia obter, se se viajasse por terra. Amostras de solo e de plantas conseguiam-se com facilidade. Exemplares da fauna eram capturados através das imagens que se projetavam na tela do computador de bordo. Era impossível não realizar esquadrinhada pesquisa dos elementos formadores do solo e do subsolo. Inclusive, a ocupação humana se evidenciava de maneira estatística, de imediato, pelo simples toque nas teclas ou ao comando da voz. Os mestres provocavam reações eletrônicas através do pensamento endereçado à sede, de onde vinham as informações.

Incomodavam-se os alunos, porque percebiam que a natureza ali não representava exatamente o que se deveria esperar. Enormes trechos de devastação mais absoluta provocavam a revolta contra as anteriores disposições mentais, ao tempo das derradeiras peregrinações corpóreas. Três dos componentes do grupo haviam vivido junto às matas da Serra do Mar e foram capazes de reconhecer os males que haviam praticado contra os recursos dela.

Para a compreensão do quadro atual, foi exibida película em que se viam as transformações de maneira acelerada, desde pouco tempo atrás, não mais do que cinqüenta anos.

Lourenço, um dos três, fez pública confissão de culpa:

— O meu conhecimento da região dista de cem anos. Imagino o que teria sido à época do descobrimento, quando a população indígena sequer punha em perigo a caça e a pesca, que era de onde extraía o principal para o sustento. Quando aqui vivi, existiam já extensas clareiras, para o plantio do café, o que hoje quase não se vê. Eu mesmo providenciei o desmatamento de vários hectares, em busca de lucro fácil. Quanto sofrimento me custou tornar-me quite com os seres que explorei, inconsciente para o fato de que a força de trabalho significa sempre um tanto de sangue, de carne, de suor e de lágrimas.; um tanto de sentimento e de vida. Tive a boa fortuna de receber educação cristã, de modo que atenuei bastante os efeitos da ganância, buscando, de certa forma, modernizar os vínculos empregatícios na transição da escravatura para a formação de núcleos de colonos buscados na imigração. Mesmo assim, estive imerso nas sombras de onde só saí após receber, porque assim me exigiu a consciência, o perdão formal de todos os que aborreci (para utilizar-me de metáfora). Mas estremeço ao verificar que muito pouco mudou, no sentido dos estímulos puramente materiais dos objetivos da ocupação do solo. Não consigo ver, em parte alguma, ninguém providenciando a restauração da primitiva vegetação. Quando dizem respeitar a terra, estão somente buscando meios de fazê-la mais produtiva, com a desculpa de que a ocupação visa a torná-la socialmente útil, quando o que desejam é o lucro, o poder.

Vários companheiros se condoeram com a exposição, emitindo ondas de amparo moral, para sustentação lúcida daquele ser momentaneamente em desalinho psíquico.

Roberto assumiu a palavra:

— Creio que estamos recebendo a primeira lição de como os males crescem historicamente, conquanto a causa seja invariável e se situe no coração dos homens. Sei que os espíritos, em geral, não alcançam discernir os processos de deterioração do solo e do subsolo e não são capazes de realizar projeções fundamentadas nos implementos destrutivos de cada nova geração. Estamos recebendo informações privilegiadas, mesmo porque fomos escolhidos para tarefa de tão alto interesse humanitário. O mestre nos informou que, em todas as colônias, estão sendo compostos grupos para ingresso na carne, em condições de liderança ecológica, se assim posso expressar-me. Não poderiam, por outro lado, ser vedadas as encarnações flagrantemente nocivas ao planeta, pelo menos por determinado período, até que haja a perspectiva do agasalho proveitoso para o desenvolvimento espiritual?

A proposta acendeu a discussão. Epaminondas recomendou que as equipes se reunissem para apreciação dos temas abrangidos pela idéia salvadora.

Maria interpelou o amigo:

— Se você quer resolver os problemas da terra sem propiciar aos habitantes condições de entender o que se passa, não será adiar para mais para a frente a decisão educacional? Pense bem! O orbe se restaura e volta a oferecer os mesmos recursos de há duzentos ou trezentos anos atrás. Aí, basta esperar um certo tempo, para que os homens voltem a patrocinar o mesmo vandalismo destes últimos decênios.

Felícia fez questão de revelar seu pensamento em forma de perguntas:

— Não terá sido pela densidade demográfica que os problemas foram surgindo? Quantas pessoas viviam por aqui nos séculos anteriores? Não é verdade que os indígenas não seriam capazes de desequilibrar a natureza, mesmo que sua cultura se voltasse para o desperdício, para o luxo, para a riqueza injustificável? Quantas pessoas teriam de ser afastadas do ambiente terrestre para o efeito da restauração? Para onde seriam enviadas? Não trariam ônus para as comunidades incipientes do Umbral? Não seriam espezinhadas pela perspectiva do cerceamento da liberdade?

Perceptivelmente, o raciocínio lhe foi sendo encaminhado do projeto inicial de Roberto para as objeções de Maria. Sentiu a complexidade das questões e a inoperância deliberativa da classe, ainda que sob incondicional apoio dos mentores. Avaliou que a colônia, ainda que se dedicasse exclusivamente ao plano de recomposição planetária, não teria meios de execução sequer de um milionésimo do trabalho. Pensou melhor e concluiu que nem todas as colônias juntas haveriam de salvar a terra, sem a quase unânime decisão dos terrícolas de se predisporem para tal objetivo. Temeu pela sorte da humanidade, suspeitando de que já se fazia tarde para a preparação dos elementos que subsidiariam as transformações mentais, sem o que nada teria efeito. Relembrou os dizeres do “Apocalipse”, de João Evangelista, e estabeleceu como irrefragável o fim do mundo.

Ao despertar da profunda meditação, deu com o profundo silêncio que a circundava. Fizera parte de uma reflexão coletiva patrocinada pelos professores e se preparara para a rápida explanação de Epaminondas:

— Queridos, eis que vocês vão inteirando-se da seriedade do drama que afeta toda a humanidade. Claro está que existe a possibilidade da salvação, porque Deus é pai de infinita misericórdia e nos deu a inteligência, para que nos desenvolvamos em permanente progresso. Sabemos da existência de infinitas moradas, conforme o Cristo nos alertou. A perda das condições ideais para uma vida proveitosa neste ambiente, no entanto, irá onerar os que nada fizerem para que se evite a tragédia. Define-se o momento cármico e todos deveremos concentrar esforços no mesmo sentido. Nada haverá de apocalíptico no fim do mundo, desde que nossa visão se evangelize.

Felícia orava com profunda contrição, para não revelar a profunda alegria que a dominava. Via o quanto estava certa em aspirar a uma ascensão no etéreo. Reconhecia, porém, o quanto haviam os mestres confiado em que discerniria a relevância e a oportunidade de sua atuação junto à comunidade dos necessitados de reencarnações expiatórias. E agradecia a Deus toda essa felicidade, pedindo, intensamente, para que os homens se deixassem conduzir pela verdade que se encontra nas lições do Senhor Jesus, renovando a promessa de tudo fazer segundo as prescrições dos espíritos de luz encarregados dos destinos superiores dos irmãos em estágio nos círculos terrestres.

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