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Artigos-->O Velho Testamento Guarani -- 21/09/2002 - 08:57 (Márcio Filgueiras de Amorim) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O Velho Testamento Guarani



"Antes do Dilúvio os habitantes da terra não morriam. Os que atingiam a perfeição perdiam o peso e voavam até o paraíso. Os que transgrediam as leis divinas eram transformados em animais. Esta é a visão da primeira humanidade, contada pelos mbyá-guarani. Faz parte de um grande poema sobre a criação, narrativa secreta transmitida oralmente. O segredo é também uma ordem liguística: este povo indígena utiliza um vocabulário especial na transmissão dos seus mitos."





"Do meio das trevas originárias surge Ñande Ru, criando a si mesmo. Uma misteriosa fonte de luz, que lhe brota do coração, ilumina-o: ele está sentado e traz nas mãos o yvyra i, a vara-insígnia, símbolo do poder criador. Junto ao adorno de penas que lhe coroa a cabeça, voa o pássaro originário - o colibri. Não há dia nem noite, pois o sol ainda não existe, mas há sombras, projetadas pela coruja.



Enquanto sopram os ventos primitivos, o criador engendra as chamas sagradas e a neblina vivificante e dá início à sua obra, criando a palavra, o fundamento da linguagem humana. Cria em seguida o fundamento do amor e o hino sagrado.



Após refletir profundamente sobre quem iria participar de sua obra e da sua divindade, cria simultaneamente o sol - reflexo da sabedoria divina - e o deus solar, Ñamandu Ru Ete. Este prossegue a obra da criação, gerando Karaí Ru Ete, deus do fogo, Jakairá Ru Ete, deus da primavera e da neblina vivificante, e Tupã Ru Ete, deus das águas. Cada um cria então sua respectiva companheira: Ñamandu Chy, Karaí Chi, Jakaraí Chy e Tupã Chy. E todos eles assimilam da Ñande Ru os fundamentos da sabedoria criadora, kuaa-ra-ra: a linguagem, o amor e o hino sagrado.



Vem a seguir a criação de Yvy Renonde, a primeira terra, que é formada pelas chamas e pela neblina expelidas das extremidades da vara insígnia da Ñamandu Ru Ete. Ele prende Yvy Tenonde a cinco palmeiras azuis, colocando uma no centro da terra e as outras nos pontos cardeais. Cria também o firmamento, fixando-o a sete colunas, das quais quatro são vara insígnias. E sete paraísos, que constituem a Via-Láctea.



Vêm os seres originários. A serpente, primeiro ser que sujou a terra. A cigarra, primeira cantora. O inseto aquático y amaí, que fez as águas. O gafanhoto, criador doa pastos e bosques. A perdiz, primeira a cantar nos campos. E o tatu, que removeu a terra.



A essa altura, os deuses já tinham filhos, os Ñamandu Py aguachy, encarregados dos direitos das funções dos pais, discriminados por Ñamandu Ru Ete. A função mais importante é enviar à terra a palavra-alma, para se encarnar nos seres que vão nascer.



Karaí e seus filhos, guardiões das chamas, inspiram nos homens o fervor religioso, introduzindo-lhes pelo alto da cabeça o fogo sagrado. Jakairá e seus filhos, vigias da fonte da neblina vivificante, introduzem-na nos homens, pelo mesmo ponto, conferindo-lhes sabedoria e o poder de conjurar malefícios. Tupã e seus filhos, senhores do mar, dos rios e das chvas, alojam no coração a temperança e a moderação, "as leis que produzem o refrescamento da divindade", ou seja, que moderem o incandescente fervor inspirado pelo deus do fogo, Karaí.



Os habitantes de Yvy Teconde não morriam. Os corpos daqueles que viviam conforme as leis divinas, e atingiam a perfeição, iam perdendo peso até ficarem imponderáveis. Voavam então para o "paraíso dos deuses menores, com mulheres, animais domésticos e plantações". Os que transgrediam as leis e se entregavam às paixões eram castigados, transformando-se em pássaros, rãs, escaravelhos e outros bichos.



De repente, "chegaram as águas". Era o grande castigo, o Dilúvio, que destruiu Yvy Teconde, corroendo suas bases de madeira. Ñamandu Ru Ete resolveu criar uma nova terra, Yvy Pyaú. Enviou um mensageiro a Karaí Ru Ete, perguntando-lhe se queria ser o responsável. O deus do fogo negou-se, mas o deus da primavera e senhor aceitou a tarefa, entregando a execução a um filho seu, Pa-pa Miri (também chamado Ychapy i).



Para que a nova terra não fosse destruída pelas águas, como Yvy Tenonde, colocou-lhe bases de pedra. Afirmam os mburuvichá, os xamãs, que esta terra só poderá ser destruída pelo fogo de Karaí.



Pa-pa Miri povoou a terra com imagens - ta anga - doa antigos habitantes de Yvy Teconde que, após o Dilúvio, foram para os paraísos. Antes que nascessem os primeiros homens, porém, o deus voltou À sua morada, deixando aqui a mãe, que estipulou as normas para a futura conduta dos homens."

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