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Erótico-->40. A COBRA MORDE A PRÓPRIA CAUDA -- 06/02/2004 - 07:57 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Epaminondas avisou o grupo de redação para que estivesse presente durante a entrevista de Felícia com o Governador. Foi preciso esclarecer:

— Vocês devem munir-se de gravador de alta sensibilidade, afixado no pulso de Felícia, para que se registrem os pensamentos e emoções, bem ainda as palavras do entrevistador.

Maria quis saber:

— Significa que irão trocar idéias apenas através das vibrações mentais?

— Exatamente, contudo, prevenida, a nossa amiga irá poder facilitar a interpretação dos eventos intelectuais, com os ônus dos aspectos sentimentais, instando por traduzir o melhor possível, para a nossa compreensão, o que lhe irá passar no íntimo, o quanto profundo esteja capacitada a penetrar.

— Não seria interessante que o professor lá estivesse para perceber o que nos for inacessível?

— Temo que não terei meios de entender tudo.

— Quer dizer que Felícia atingiu a magnitude dos espíritos superiores?

— A minha medida não é suficiente para reconhecer o nível evolutivo de nossa irmã. Devo confessar que, mesmo quando a recebemos para o início dos trabalhos, era para mim muito difícil captar todas as nuanças de significados das suas exposições, tanto que, por diversas vezes, fui obrigado a solicitar-lhe escusas por não ter compreendido desde logo o alcance das judiciosas observações.

Maria estava sumamente intrigada:

— Do jeito que o mestre está expondo a própria incompetência, devemos, pobres coleguinhas, chegar à conclusão de que estivemos absolutamente ausentes perante o poder dela de abrangência intelectual?

— Não só quanto à capacidade técnica de apreender o sentido mais profundo dos eventos, como ainda de deduzir a extensão dos problemas, particularmente no aspecto primacial do domínio evangélico.

— Falo por mim: estou com medo de que ela já se haja inteirado dos conceitos de todos os ramos dos conhecimentos humanos, apta, portanto, a encarregar-se de encarnação de alta expressividade, segundo o planejamento dos orientadores mais categorizados na colônia. E meu medo se caracteriza no fato de que nem sequer me enfronhei numa única matéria, apesar de me considerar suficientemente isenta de perturbações através dos sensores da emotividade, como ainda muitíssimo inteligente para entender os mecanismos das leis e de suas aplicações no campo de vibração material, segundo os padrões da natureza específica da terra.

Epaminondas sorria com a sutileza da ciumeira da pupila. Sabia que ela também chegaria a entender todos os elementos do progresso espiritual em estudo na colônia, para emprego em encarnação de muito proveito para a humanidade. Era dar tempo ao tempo. Por isso, voltou a recomendar que estivessem preparados para fortes emoções.



Na hora aprazada, devidamente munida do instrumento de alta precisão, sem qualquer estremecimento, Felícia se apresentou no salão principal do prédio da Governadoria, onde se reuniam todos os professores, todos os preceptores e instrutores, todos os monitores e colegas da “Escolinha de Evangelização”. O Governador veio buscá-la à porta de entrada e levou-a para junto dos dirigentes de todos os ministérios.

Felícia cumprimentou a todos com um largo gesto e um sorriso deslumbrado, em plena felicidade, ao sentir-se tão querida. Apelou para que todos vissem nela a antiga enfermeira de mais de novecentos anos de serviço e solicitou que lhe perdoassem o incômodo da convocação. Requereu ao Governador que passasse as instruções diretamente ao Professor Epaminondas, porque julgava que, apesar de ser tão importante o regresso à carne em condições de missionária, não era motivo para tanta deferência.

O Governador a abraçou com muita ternura e fê-la acomodar-se ao seu lado. Em seguida, dirigiu uma mensagem ao auditório, enfatizando a postura de Felícia no dia em que fora solicitar permissão para encaminhar-se ao próximo círculo evolutivo:

— A irmãzinha desejava fazer valer os conhecimentos evangélicos, que transformara em ação, segundo os preceitos de Jesus. Todavia, instada para permanecer, porque tínhamos importante tarefa para espíritos de sua envergadura moral, foi solícita e reconheceu profunda deficiência no conhecimento científico, o qual desleixara sempre.

Maria prestava atenção na fisionomia de Felícia, contudo não conseguia vislumbrar-lhe qualquer nuança de alteração no semblante, difícil de se manter em seu campo sensório, tantos eram os reflexos de luz que emitia. A lembrança das dificuldades de dois ou três meses atrás não provocaram a mínima reação de desagrado, de insatisfação ou de preocupação.

“Se me tivessem revelado de público os meus problemas, iria enrubescer, no mínimo.”

Mas não houve tempo para qualquer outra consideração. O Governador seguia adiante na descrição dos méritos da companheira:

— Quando se inteirou de que deveria estudar todas as matérias ensinadas nos institutos universitários da terra, atualizadas pelos pesquisadores da colônia, sentiu certa depressão, a ponto de suspeitar que iria ter de se internar no Departamento de Estudos por outros novecentos anos. Mas não se desesperou, ciente de que os mestres saberiam auxiliá-la a desenvolver um sistema de aprendizagem rápido e eficaz. A confiança quase se esboroou diante dos tópicos curriculares da Matemática, da Física, da Química e da Teologia. Foi quando apoiou os colegas na reivindicação de desistência do que lhes parecera antes alto privilégio, qual seja, o de liderar o movimento de restauração planetária. Começava aí a peregrinação pela crosta para a percepção dos problemas que enfrentariam na próxima encarnação. Felícia via na destruição física da natureza a mão não evangelizada dos habitantes, sempre. Passava batida pelas degradações ambientais e sustentava, de si para si, que apenas a reforma humana nos setores da moralidade e da sensibilidade pela felicidade alheia é que dariam embasamento para a restauração de tudo o que vem sendo destruído. Chegou, porém, a compreender que deveria aceitar a missão de caráter sacrificial, porque, como Jesus, reconheceu que os seres encarnados se encontram imersos em aspirações meramente materiais. Teve a intuição de que todos os seus conhecimentos na área do socorrismo e do amor às criaturas (tanto que desde há muito não conta com nenhum adversário, podendo se alegrar com o fato de só possuir amigos fiéis e admiradores respeitosos) provieram dos ensinos cheios de compreensão da parte do Nazareno. Viu em Jesus o próprio Messias e satisfez-se com tornar-se mais um ser vivente integrado nas pesquisas científicas de apoio à tecnologia necessária para o restabelecimento do paraíso terrestre. Assim que se compenetrou dos esforços para rápida apreensão das diretrizes programáticas, libertou-se dos preconceitos quanto ao materialismo do saber no círculo dos mortos, conforme o preceito evangélico do “deixem aos mortos que enterrem os seus mortos”, e pôde imaginar uma mensagem em que, desde já, pudéssemos, os do etéreo, demonstrar o nível da nossa aflição com a tragédia que ameaça os encarnados. Daí até a imersão completa nos estudos não demorou, tanto que, enquanto os colegas debatiam os temas segundo a demonstração periférica das circunstâncias, Felícia passou a buscar os núcleos existenciais atingidos pela insuficiência do discernimento humano. Eis que se diplomou após oito dias de dedicação exclusiva à pesquisa bibliográfica e aos exames laboratoriais, assimilando, como nunca ninguém antes nesta colônia, toda a sabedoria disponível, habilitando-se para o cumprimento do objetivo reencarnacionista que lhe estava reservado. Vão permitir-me os amigos presentes que mantenha um diálogo privado com a nossa irmã, quando lhe passarei as instruções que recebi dos mentores de luz do círculo a que todos nós aspiramos ser guindados um dia por nossos méritos e nossas obras. Vão em paz!

Na saída, Maria interrogou Epaminondas a respeito da eficácia do gravador:

— Não se preocupe. Felícia concordou em nos passar a fita tão logo termine a entrevista.

— Para que serviu essa reunião tão concorrida, se nada se adiantou quanto aos recursos a serem utilizados para dar-nos condições de suplantar os terríveis flagelos ecológicos?

— Para você, sem dúvida, o Governador deu uma belíssima página a ser acrescentada à mensagem mediúnica.

— Repetitiva, cansativa, absolutamente inócua, porque todos os fatos serão narrados segundo sua ordem cronológica.

— Entretanto, pode servir de preâmbulo para as conseqüências que se relatarão no desfecho da obra.

— E para que mais serviu? Afinal, não havia um único mortal entre os presentes.

— Demonstrou que é possível crescer sempre, quando estamos absolutamente determinados a cumprir cem por cento da orientação cristã. Estamos cônscios do que sabemos. Podemos conhecer as deficiências, ainda que não fundamentais, mas imprescindíveis para as ações em favor do próximo. Fazer o bem sempre haverá de ser cumprir as obrigações evangélicas dentro do que é possível. Mas a lei da evolução nos abre as perspectivas para novas conquistas. Aí, a prática da caridade toma outra direção, no sentido ascensional, e o óbolo da viúva, que foi quem deu mais, porque deu o que de maior valor possuía, passa a ter outro significado. Se antes eram moedas, agora pode ser que sejam alimentos, bem-estar, segurança, habitação, saneamento básico, esperança, educação, fé, paz e o mais que o pobre de espírito, de quem será o reino de Deus, puder se assenhorear na caminhada cármica.

— Precisa ser professor para entender o significado do discurso.

— Por isso é que nem todos os habitantes da colônia foram convocados para a reunião. Não foi Jesus quem pregou por parábolas, explicando-as depois para os discípulos? Pois se eu estou reconhecendo que não cheguei a entender a lucidez e a grandeza do discernimento de Felícia...

— Quer dizer que tornar a mensagem aos encarnados apropriada para os menos cultos haverá de ser inútil?

— Se você considerar como menos cultos as crianças que se aleitam ou os deficientes incapazes de somar dois com dois, sim, porque não estão em condições de entender. Mas você não pode esquecer-se de que as crianças se tornam adultos, ou seja, adquirem recursos intelectuais para o entendimento. Qualquer dia, todos estarão em condições de decifrar as palavras do texto para entendimento das idéias e dos sentimentos dos autores. E os débeis terão outras oportunidades de reencarnação, melhor aparelhados para participarem da luta humana pela conquista da felicidade.



Estavam do lado de fora do prédio da Governadoria, quando receberam a notícia de que Felícia estava de viagem marcada para o círculo superior. Fora finalmente atendida em sua ansiada pretensão.


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