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Contos-->DEPINA CANHABAQUE -- 18/11/2005 - 12:26 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

DEPINA CANHABAQUE
Conto
João Ferreira


Depina Canhabaque era um negro da Ilha Roxa, também conhecida como Ilha de Canhabaque, na Guiné-Bissau.
Joaquim Depina herdou o sobrenome da ilha onde nasceu. Era tido como nobre. Um descendente da linha de Papo Seco, rei do famoso império bijagó.
Não é o exemplo típico do homem tribalizado, obediente aos costumes ou aos rituais da terra. Depina é um indivíduo praticamente desenraizado. Interesseiro, de olhos falsos, que olham em latitudes várias, sem firmeza. Sua tabanca não fica longe das margens coleantes do rio Abumba. Um lindo rio, rodeado de densa floresta tropical, cheia de mistérios animistas, onde passeiam as cobras kakobas e se realizam as tradicionais cerimônias do fanado. Nas entradas residenciais das casas há as forquilhas de alma, a reverência aos antepassados, representados pelos irãs.
Depina sendo um desenraizado, pouco tem a ver com isto. Nunca se fixou em lugar nenhum. Tem uma maneira de ser nômade. Nunca se integrou. Nunca furou palmeira à cata do vinho de palma, nunca cultivou arroz. Hoje não se ocupa em nada no mato, não pertence aos conselhos dos homens grandes. Por isso mesmo não conhece os segredos da tribo, também. Quase um marginalizado.
Mas tem uma história.
Casou há uns vinte anos com uma campune bijagó. Da união não nasceram filhos. É ela, que segundo as tradições matriarcais da ilha, trata da casa e de suas coisas. Joaquim não tem espaço. Sua terra é terra de ninguém. Não tem apego à família por isso.
Em virtude da vida que foi desenvolvendo, criou um estilo próprio, um estilo de convivência. Um estilo parasitário, próprio das pessoas que não buscaram um espaço próprio em suas vidas. Há nele um instinto primário de parasitismo. Por hábito, ele descobre e vai atrás de quem ele reconhece lhe pode conceder favores e vantagens.
-É um “suchione”, tenta defini-lo um antigo colono italiano. Por outras palavras, seria um sanguessuga, em bom português.
-Na altura em que o conheci era já um sessentão. Meio curtido, forte e arredondado.
-Comedido nas palavras, tinha suas táticas de levar seu futuro protetor a “ver nele” qualidades. Tudo fazia para “parecer alguém” junto dos brancos.
-Não tem dinheiro, nada tem. Mas adora tabaco, de qualquer forma. Em rapé, em folha, em cachimbo, em cigarro.
Traz com ele, quer chova quer faça sol, uma bolsa de pele de gazela, um tipo de barcafon. É nela que guarda o rapé e o canhuto, que é o cachimbo local.
Muito conhecido na segunda capital do arquipélago, aparece por Bubaque de vez em quando. Aproveita as canoas dos bijagós canhabaques que chegam vindas de sua ilha natal. Quando chega, sempre vem de ronco, que é o mesmo que dizer, sempre vem vestido de festa, vistoso, com roupas e arranjos capazes de chamar a atenção, ostentando todas as medalhas que representam o seu orgulho de homem culturalmente mestiço. Mistura medalhas de Nossa Senhora de Fátima com Nossa Senhora Milagrosa e com retratos do Papa Paulo VI. São lembranças que conseguiu nas missões católicas européias que atuavam nas ilhas habitadas pela sua tribo. Mais do que um homem tribal animista, pareceria, pela ostentação, um individuo plenamente integrado nos símbolos cristãos do Ocidente. Mas isso era apenas ronco.
Conheci o Depina num dia de festa em Bubaque, importante ilha do reino bijagó. Trajava uma gabardine, que havia herdado de um colono europeu dos tempos coloniais quando ainda era jovem. Precisamente em frente da casa do Administrador, frente ao portão das buganvílias vermelhas, Depina integrava um grupo de nativos bijagós.
Pelo que me contaram na hora, Depina estava de ressaca. Passara a noite toda debaixo de um mangueiro, nas imediações da praça da vila. Seus olhos estavam de fogo. Mas sua imaginação continuava ativa. Nas palmeiras, os cachos-caldeirões encontravam-se muito ativos e festivos em seus ninhos. Depina, ainda baleado pela pinga, tentava arregalar s olhos, mas deparava-se com a resistência fulminante dos brilhantes raios de sol. Sua figura chamava a atenção. Em momento algum dava sinais de derrota, mesmo encontrando-se em estado etílico que o inferiorizava. Sua imaginação era ativa e criativa.
Falava com entusiasmo de seus reais ascendentes da dinastia de Papo Seco. Dizia alto em dialeto crioulo que o Rei Papo Seco, seu parente, não tinha palácio mas era rei. Algo que lhe parecia um modelo pessoal de ambição e de vida:
-Rei Papo Seco, na ilha de Orango, ca tinha palácio e era Rei, dizia.
Para rematar:
-Joaquim Depina miste ser gente grande. E vai ser gente grande. Igual ao Branco lá do Palácio...
Ou seja: Joaquim sabia a história de seus antepassados e não desistia de suas ambições reais e principescas na ilha de Orango.
As pessoas deliravam em ouvir aquele personagem exótico que mostrava grandes fantasias e ambições.
Soubera por alguns amigos de Canhabaque que ia haver festa em Bubaque e estava ali para participar. Uma festa conjunta de cinco escolas. Segundo a as notícias dadas pelos cozinheiros, havia fartura de carnes e arroz. Vianda gostosa que chegaria para todos.
Depina não poderia perder a oportunidade. Viera de boleia numa canoa de um canhabaque amigo. Ainda não tinha rompido o sol e ele já estava deambulando pela praça.
Quando me foi apresentado, fui perguntando:
Kinoba, amigo? Ao que ele prontamente respondeu:
-Depina está bom.
E então fiz-lhe as perguntas do cerimonial local:
-Corpo está bom?
-Corpo sta bom.
-Casa sta bom, vaca está bom, galinha está bom, porco está bom, tudo bom?
-Tudo bom, obrigado –respondeu Depina.
Naquele conversa pude ver o matuto e toda a sua perspicácia.
Daqui por diante Depina vai circular pela praça da festa. No momento certo foi encostar bem junto dos cozinheiros. Havia um perfume de cheirosa carne assada. Depina não era um qualquer. Era o fantasista sanguessuga da família real de Papo Seco. Fez questão de deixar isso bem claro.
Recebeu um enorme prato de arroz com vianda.
Comeu satisfeito e repetiu. Ele viera ali para festejar. E para tirar a barriga da miséria. Era só isto. O ronco com que se apresentou na ilha ajudou-o a atingir seus objetivos.

João Ferreira
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