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Erótico-->9. A GRANDE FOME -- 17/02/2004 - 07:04 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

— Ainda bem que comi tudo o que trouxeram. O estômago me aperta e me sinto vazio, completamente. Será que eles querem que me sinta fraco e deixe de raciocinar com esperteza, para que não tenha idéias de fuga? No entanto, a sensação de fome me desperta da sonolência e me põe os sentidos mais vivazes, porque sou capaz de sentir as nuanças dos odores. Se ficar aqui por mais de ano (se Deus quiser, isso não vai acontecer!), irei ser capaz de identificar tudo que é cheiro. Bom para a fabricação de perfumes, o que tenho postergado...

Parou para pensar sobre “postergado”. Lembrou-se de que se preparava para as entrevistas, retendo na memória umas palavras que escapavam ao ramerrão, para impressionar, para justificar o fato de que o estivessem valorizando, para tornar-se único dentre os marasmáticos representantes da cultura da alta costura nacional.

Teotônio orgulhava-se de possuir representação em Paris, modesta loja em que testava a repercussão dos cortes em campos estrangeiros, por onde andava uma vez ao ano, sempre desligado da necessidade de faturar mas empenhadíssimo em avaliar a repercussão das confecções.

— Os bandidos devem ter sido informados por alguém de dentro da empresa.

Perpassou os empregados desligados desde os primórdios de seu estabelecimento no ramo, mas não chegou a caracterizar ninguém que pudesse ter saído magoado. Ao contrário, muitos se encontraram bem melhor profissionalmente junto aos fabricantes e outros abriram negócios próprios.

— Então, só pode ser alguém que lá está... Santo Deus, fui eu mesmo que dei todas as dicas! Por que foi que desejei aparecer nas revistas, fazendo a própria apologia das posses? Até a minha casa, deixei que fotografassem e divulgassem. Não há de ser difícil para a gente do seqüestro saber quem tem e quanto tem. Basta que busquem nas páginas coloridas...

Deitou-se de costas, estirou-se, sentindo o alongamento dos músculos. Não se sentiu zonzo. Começou a série de abdominais, lentamente.

— Vê se fica quieto!

Foi interrompido por áspera voz. Resolveu que podia falar:

— Desculpe-me. Pensei que estivesse sozinho.

— Pois não está.

— Quando é que vou comer de novo? Estou com fome.

— Não é de sua conta.

— Perdão, mas não estou fazendo nenhuma exigência. Só que...

— Então, cala a boca!

Dolorosa pancada lhe foi dada nos costados. Sentiu que o lugar estava ferido pelos golpes anteriores. Começou a gemer baixinho, enquanto apalpava a região inchada.

Desconfiou de que havia alguma costela quebrada ou, ao menos, trincada. Não se sentia à vontade para massagear. Pensou em perguntar se poderia fazê-lo, mas o “cala-a-boca!” tinha sido incisivo demais.

Rolou sobre o lado bom, voltando o rosto para a parede, que tocava com a ponta dos dedos. Ficou cismando sobre a maldade das pessoas. Aumentava a dor mas não quis fazer escândalo, continuando a gemer o mais baixo que podia. Ouviu que corriam o ferrolho. Imaginou-se sozinho.

— Se eu continuar sendo maltratado, vou morrer em alguns dias. Por que será que as pessoas querem ganhar tanto dinheiro de uma vez? O trabalhão que eles têm para formar um grupo sem delatores, para arrumar um cativeiro seguro, para manter o seqüestrado vivo, não deve ser empresa de pequeno porte. Quantos será que participam desse crime? Umas dez, vinte pessoas. Três milhões é muito dinheiro, mas, descontado o que gastaram e depois de dividido o lucro, vão sobrar uns cento e quarenta ou, na melhor das hipóteses, duzentos e oitenta mil para cada um. Vão comprar uma bela casa...

Achou que possuir casa para tais indivíduos era inútil.

— Será que vão aplicar em outros negócios, como o tráfico de drogas, o lenocínio, o jogo do bicho? Aí, o lucro vai dispersar-se ainda mais, porque a quantidade de pessoas envolvidas, desde policiais e políticos corruptos até os mequetrefes da distribuição a varejo, é por demais expressiva. Nunca tinha pensado nesse exército de marginais que sobrevive às custas dos vícios e dos crimes. Só não entendo por que é que batem nos seqüestrados. O que posso fazer para prejudicá-los?

Ficou pensando nos “calos”.

— Será que só eu sei onde é que me apertam os sapatos?

Em outros tempos, teria sorrido do gracejo. Do jeito amargurado que estava, somente percebeu que esse tipo de brincadeira poderia ser a solução para passar o tempo. Mas não pôde ir mais além, tanto lhe apertava a fome.

— Já se passaram uns cinco dias, desde a última refeição. Esvaziei três ou quatro garrafas de refrigerante. O remédio, me deram apenas uma vez. Será que eles pensam...

Não conseguia imaginar o que poderiam pensar.

— Eu acho que eles não estão nem um pouco preocupados com o meu bem-estar. Se eu morrer, livram-se do cadáver e pronto! Estou vivo ainda porque querem que eu grave mais alguma mensagem. Será que devo rezar para que não paguem o resgate?

Recordou-se de ter chorado nas primeiras horas. Devia agora ser mais cordato com os sentimentos, auxiliando-os com os pensamentos positivos de quem confia em que Deus é justo pela própria natureza.

— Existirão Céu e Inferno? Por que os santos não me aparecem, para me confortarem e me deixarem patenteado que, ao morrer, as pessoas são recebidas na eterna glória do Pai. Jesus, que dizem que está no coração de tanta gente, por que é que não inspira os malfeitores para me manterem vivo?

Buscou na memória as preces de antanho. Não passavam da ave-maria e do padre-nosso. Tinha feito a primeira comunhão e sabia, naquela época, o Ato de Contrição. Quando pequeno, repetia ainda o Credo...

— Creio em Deus—Pai... na Santa Igreja Católica... na comunhão dos santos ... na remissão dos pecados... na ressurreição da carne... na vida eterna...

Estranhou que as palavras lhe vinham à consciência, com sentido.

— Preciso investigar o que significam esses termos. Vai ser bem melhor que gracejar.

Optou por filosofar, mas não demorou para adormecer, sentindo a dor nas costelas e o vazio nas vísceras.

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