Usina de Letras
Usina de Letras
                    
Usina de Letras
70 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 56411 )
Cartas ( 21156)
Contos (12572)
Cordel (9941)
Crônicas (22079)
Discursos (3130)
Ensaios - (9116)
Erótico (13328)
Frases (42854)
Humor (18217)
Infantil (3699)
Infanto Juvenil (2512)
Letras de Música (5461)
Peça de Teatro (1315)
Poesias (137703)
Redação (2905)
Roteiro de Filme ou Novela (1051)
Teses / Monologos (2384)
Textos Jurídicos (1918)
Textos Religiosos/Sermões (4608)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Crônicas-->Valises valiosas -- 04/10/2000 - 23:57 (Pedro Carlos de Mello) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A esteira começa a funcionar. Brevemente estarei em casa. É só pegar minha bagagem e sair. São dez horas da noite e acabo de voltar de uma viagem a São Paulo.

Vejo minhas duas valises chegando. Estão abarrotadas de livros. Percorri vários sebos e livrarias para comprá-los. Minha biblioteca agradece.

Lembrei-me do livro que estava lendo no avião: “Balzac e a Costureirinha Chinesa”, de Dai Sijie. A história é ambientada na montanha da Fênix Celestial, nos confins da China, durante a revolução cultural, em 1971. Naquela época, recente ainda, só se tinha acesso ao livro de Mao. Todos os outros livros eram proibidos.

Dois jovens secundaristas são mandados para a montanha para serem “reeducados”. ( O que é a reeducação? Na China Vermelha, no fim de 68, o Grande Timoneiro da Revolução, o Presidente Mao, lançou um dia uma campanha que iria mudar profundamente o país. As universidades foram fechadas, e “os jovens intelectuais”, quer dizer, os secundaristas, foram mandados ao campo para serem “reeducados por camponeses pobres”). Lá descobrem uma valise secreta, em poder de um outro jovem na mesma situação que eles. A valise continha livros clássicos ocidentais, traduzidos para o chinês antes da proibição: Balzac, Baudelaire, Victor Hugo, Stendhal, Dumas, Flaubert, Rousseau, Dickens e outros. Um tesouro, que só poderia ser lido escondido. Os jovens odiaram todos aqueles que lhes proibiam esses livros.

Pego as minhas duas valises. Dentro, Carlos Nejar, T. S. Eliot, Harold Bloom, Vladimir Propp, Marcel Proust, Anne Brontë, Anatole France, Júlio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez e outros. T. S. Eliot fala do processo poético, Harold Bloom nos ilumina com o seu belíssimo “How to Read and Why” (Como e porque ler) e Vladimir Propp, depois de nos brindar com o seu “Morfologia do Conto Maravilhoso”, nos apresenta “Comicidade e Riso”. De Marcel Proust, trouxe o livro “Albertina desaparecida”, versão de “A Fugitiva” alterada pelo próprio Proust, inédita até 1986. Júlio Cortázar nos traz o seu mundo enigmático, nas oito histórias que compõem o seu “Octaedro”. Enfim, é um mundo a ser desvendado.

Não pude evitar as comparações. Com que facilidade eu reuni os livros de minha preferência, comprei, paguei e recheei minhas valises. E mais, já fiz isso muitas vezes. É lendo livros como esse “Balzac e a Costureirinha Chinesa” que nos damos conta do valor de nossa liberdade. Quanta truculência e sandice desses governos ditatoriais, que se julgam no direito de proibir livros, de obrigar seus governados à alienação e à ignorância, de decidir por eles e de condená-los inexoravelmente ao mutismo mental e intelectual.

Chego em casa, dou um beijo na minha mulher (Balzac diz que a beleza de uma mulher é um tesouro que não tem preço), entro na biblioteca e largo minhas valises. Olho para a estante, no alto. Os dezessete volumes da “Comédia Humana, de Balzac, parecem sorrir para mim. Eu sorrio de volta. Boa noite, Balzac.
Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Perfil do Autor Seguidores: 1Exibido 393 vezesFale com o autor