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Contos-->QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XIX -- 02/06/2006 - 16:31 (Edmar Guedes Corrêa****) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUANDO O AMOR NÃO ACABA - capítulo XIX

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Durante três dias não tive coragem de sentar diante do computador. Era como se o medo me dominasse e me causasse aversão a essa maquina incrível, uma das invenções mais geniais de todos os tempos. E todas as vezes que chegava a sentar diante dele, levantava em seguida com a desculpa de não me sentir bem, de estar debilitado. Mas na verdade, querido leitor, tudo não passava de desculpas para não continuar, para não revelar a verdade, o porque que tenho vergonha de mim mesmo.
Ainda agora, no exato momento em que estou decidido a contar tudo, tenho medo, embora saiba que devemos enfrentar nossos medos para não nos tornar escravos dele. Só que no meu caso, eu sempre fui escravo de meus temores. Ao invés desse medo me proteger, muitas vezes foi justamente por causa dele que fiz algo terrível. E a decisão de não só deixar que Fabiana fizesse o aborto como também de fornecê-lhe o dinheiro foi o início de minha desgraça, uma vez que isso me afetou por toda a vida.
Se eu a tivesse impedido, prometido-lhe assumir não só a paternidade da criança como também ajudá-la financeiramente o destino de Fabiana teria sido outro e eu não carregaria por todos esses anos a dor do arrependimento e o peso na consciência. Mas como o passado não volta e não pode ser mudado, eu tenho que arrastar a minha cruz até o último segundo de vida. Espero, entretanto, que essas confissões possam pelo menos aliviar minha dor e tornar menos pesado esse fardo, o qual já não tenho mais forças para continuar a carregar.
Ah, amigo leitor! Imagino como deve ter sido a noite para ela. Ela não deve ter conseguido pregar os olhos, preocupada com o dia seguinte, quando o seu destino poderia tomar um novo rumo. Quanto a mim, não vou dizer que não pensei nela antes de pregar os olhos, mas foi como se pensasse nos compromissos do dia seguinte. Dir-se-ia tratar-se de um fato sem muita importância, de um acontecimento corriqueiro, embora o meu futuro também seria decidido.
Acredito porém que não dei muita importância ao fato por se tratar de um fato consumado, de algo onde já não havia nada mais a fazer. Era questão de horas; e me preocupar com aquilo não adiantaria de nada. Acho que foi isso que passou pela minha cabeça naquele fim de noite.
No dia seguinte, ao me despertar, Fabiana ocupou-me os primeiros pensamentos. Aliás, durante toda a manhã pensei nela, no momento de receber o seu telefonema informando-me que tudo estava resolvido. E à medida que os ponteiros do relógio avançavam, que chegava o momento em que ela estaria praticando aquele ato infame para me preservar, para não me perder, eu me tornava mais tenso, mais inquieto, com um semblante sombrio, como se algo de grave fosse acontecer. Era como se eu estivesse com medo, embora não fizesse uma idéia precisa da causa daqueles temores. No entanto, lembro-me de pensar: “E se chegar na hora ela desistir? Não, não. Ela não vai fazer isso comigo. Mas e se der alguma coisa errada? Mas o que pode dar de errado? Ela disse que o procedimento era bem simples...”.
Calculei que tudo estaria terminado por volta das onze horas. Dessa forma imaginei que ela me telefonaria por volta das onze e meia. Por isso, quando deu onze e quinze, fui tomado por uma impaciência fora do comum. Nem consegui sair para comer. Aliás, o pessoal do escritório achou aquilo muito estranho, pois eu era um dos primeiros a sair para almoçar e nem sempre cumpria com o meu horário. A desculpa que dei foi de que não estava com fome e ia aproveitar o intervalo para estudar para as provas da escola. Sei que a minha desculpa parecia esfarrapada, todavia acabou colando. Também se não colou, não houve comentários maliciosos acerca disso.
Quando deu meio dia a minha impaciência chegou ao extremo. De minuto em minuto eu olhava para o telefone, na esperança dele tocar. Lembro-me inclusive de tirá-lo do gancho por mais de uma vez a fim de verificar se estava funcionando, se o gancho estava bem colocado. Por sorte nesse horário não havia mais ninguém no escritório, pois eu não conseguiria disfarçar minha apreensão.
Dez para uma da tarde o primeiro funcionário retornou do almoço. Levei um susto quando ouvi o ranger da chave na fechadura. Dei um pulo da cadeira, pois me mantinha absorto, distante, tentando imaginar o que poderia ter acontecido para Fabiana ainda não ter me telefonado. Confesso que até cheguei a pensar que poderia ser ela. Entretanto, segundos depois, concluir que não havia a menor possibilidade de ser ela. Aliás, ela nem tinha e jamais teve a chave daquele escritório em suas mãos. Lembro-me de sair da sala e correr em direção a porta para ver quem era.
-- Mas você ainda está por aí? – perguntou Marcela, a responsável para abrir e fechar o escritório todos os dias. Era uma senhora de trinta e poucos anos. Mãe de dois filhos. Ela começara a trabalhar nas empresas de meu pai cerca de cinco anos atrás e, em pouco tempo, mostrou-me muito eficiente e ganhou a confiança dele. Há mais ou menos seis meses, quando resolveu abrir esse escritório, colocou-o na responsabilidade dela. E desde então ela vem, pelo que eu saiba, desempenhando suas funções com a mesma eficiência que desempenhara ao ser contratada.
-- Estou sim – respondi. – Estava estudando um pouco. Tenho prova na escola – menti, dando um pouco mais de veracidade a mentira que inventara há duas horas atrás.
Por sorte ela não prestou atenção em mim. Caso contrário teria notado o meu estado de afetação. E certamente teria me inquirido e desconfiado de alguma coisa no outro dia, quando todos nos escritório ficaram chocados com o falecimento de Fabiana durante um aborto.
Ah, querido leitor! Eis a verdade que eu temia e relutei tanto em contar. Fabiana não me telefonou porque já não pertencia mais ao mundo dos vivos, já não estava mais entre nós. Contudo, essa tragédia eu só fiquei sabendo no dia seguinte.
Quando eu esperei o seu telefonema a tarde inteira, desconfiei que alguma coisa estava errada. Embora tenha pensado no pior em alguns momentos, a conclusão que eu cheguei foi de que ela tinha desistido na hora H e não teve coragem de me telefonar. Aliás, se isso fosse verdade, ela não teria mesmo porque me avisar. Eu no lugar dela também não telefonaria. Lembro-me de pensar: “Eu não acredito que aquela vadia deu para trás e desistiu. Agora estou ferrado mesmo! Porque quando o nosso filho nascer, ela vai exigir uma pensão, uma forma de sustentar o filho. E o pior é que todo mundo vai ficar sabendo do nosso caso. Puta merda! A Luciana vai me matar...”.
Ah! Como me dói o peito ao lembrar dessas palavras! Como pude pensar uma coisa dessas? E odiá-la então? Ah! Como eu a odiei aquele finzinho de tarde e o resto da noite! Ao retornar da escola para casa, por diversas vezes, ao pensar nela, usei termos chulos e ofensivos. E pouco antes de entrar em casa ainda disse para mim mesmo:
-- Aquela filha da puta me paga! Se ela pensa que vai destruir a minha vida está muito enganada. Eu juro que mato ela, se ela fizer isso comigo.
Lembro-me de estar furioso naquela noite. Não estava em condições de ver ou falar com ninguém. Nem mesmo com os meus pais. Por isso, ao entrar, fui direto para o meu quarto, embora soubesse que provavelmente estariam dormindo, pois raramente eu os encontrava ao chegar do colégio. A não ser quando saia mais cedo, quando ainda dava com minha mãe andando de camisola pela casa. E naquela noite poderia ter sido diferente, se o telefone não tivesse tocado minutos depois da minha chegada.
Sai do quarto correndo para atender. Nesse curto espaço de tempo, ainda tive a esperança de que talvez fosse Fabiana me ligando. Infelizmente não era. Era Luciana querendo saber se eu já havia chegado e porque não fora a sua casa mais cedo.
Não que ela tivesse o costume de fazer isso, todavia, vez ou outra ela me telefonava à noite; principalmente quando a gente ficava dois ou mais dias sem se ver. Inclusive eu lhe havia prometido dar uma passadinha na sua casa antes de ir para a escola, pois pensara que até a noite estaria livre de todas aquelas preocupações. Como Fabiana não me telefonou, não estava em condições de comparecer em sua casa.
Estava justamente falando com ela, quando minha mãe saiu do quarto. Perguntou se eu não queria comer alguma coisa. Respondi negativamente, menti dizendo-lhe que já havia comido. Ela desejou-me boa noite e voltou para seu quarto, sem me fazer mais perguntas.
Na cama, pensei no que teria acontecido para Fabiana não ter me telefonado. Assim como havia feito durante o dia, conclui que teria desistido. Lembro-me que antes de adormecer ainda pensei: “Filha da puta! Aquela vadia estava era armando para cima de mim. Vai ver que aquela história de aborto era só para me iludir, para arrancar algum dinheiro de mim. É bem capaz que aquela piranha fez isso para conseguir dinheiro para viajar e ter o filho em outra cidade, na casa de algum parente. Aposto que daqui um mês ou dois vai aparecer com o filho nos braços querendo uma pensão. Ah, mas se ela fizer isso, eu acabo com a raça dela!”
Como eu poderia saber do que havia acontecido? Como eu poderia imaginar que por um erro, a pessoa responsável para retirar-lhe o feto perfuraria seu útero? Não, eu não teria como supor uma coisa dessas. Porque se fizesse idéia, se tivesse analisado melhor os riscos, talvez eu teria encontrado outra saída. Pois a última coisa que eu ia querer era estar envolto por um escândalo, ser notícia de páginas policiais e viver sob o temor de um processo e de uma condenação.
Bem, vamos deixar essas suposições de lado. Isso agora já não faz a menor diferença, e nem vai trazer Fabiana de volta. E menos ainda tirar-me o peso do remorso, do arrependimento que carrego por todos esses anos. Pois toda vez que me lembro dessa tragédia, sinto-me o pior dos homens, o ser mais vil, aquele tipo de pessoa que deveria ser eliminado ao nascer, para não se tornar motivo de vergonha para a espécie humana, e nem sinônimo de fraqueza e de impotência. Aliás, acho que até já disse essas mesmas coisas capítulos atrás. Talvez não precisasse repetir isso, contudo, isso me persegue vinte e quatro horas por dia. Quando olho para o meu passado, só vejo fracasso, nada mais.
Ah, querido leitor! Quando eu lembro do instante em que recebi a notícia de seu falecimento, tenho vontade de me dissolver em lágrimas! Foi quando cheguei ao escritório para trabalhar, aliás, com alguns minutos de atraso como de costume. Entrei pela porta e disse um “Bom dia”, como se estivesse muito feliz, embora quisesse ocultar o mal humor. E não obtive respostas. Olhei para Marcela na mesa mais próxima e vi em seus olhos um ar de tristeza. Olhei para o lado, na mesa em que trabalhava Paulo Roberto, um rapaz pouco mais velho que eu, e também ele me fitou com ar de tristeza. Não resisti à curiosidade e perguntei:
-- O que foi que aconteceu? Que caras são essas?
-- Você ainda não está sabendo? – volveu ele, com a voz trêmula, como se saísse com dificuldades.
-- Não. O quê?
-- Fabiana. Ela faleceu ontem.
Como descrever o que senti naquele instante? Não tenho palavras. Só sei que por pouco não perdi as forças e desmaiei ali mesmo. O meu coração disparou e um calor intenso, como se uma enorme fogueira fosse acesa em meus pés. Eu devo ter ficado mais vermelho que uma pimenta, devo ter deixado transparecer o quanto aquela notícia me deixara transtornado. A minha única reação naquele momento foi correr para minha sala.
Durante os cinco minutos em que me mantive sozinho ali, eu vi o mundo desabar sobre a minha cabeça. Eu imaginava o pior: Via uma viatura parar na porta do escritório ou da minha casa e ser convidado a comparecer na delegacia para prestar esclarecimentos, para explicar como depois de engravidar aquela menina, ainda a obrigara a fazer um aborto. Como se passasse um filme diante dos meus olhos, eu me via sendo acusado de induzi-la a cometer aquele ato vil e desumano, de encontrar um local para fazê-lo e até mesmo de assassinato. Eu via meus pais chocados, minha mãe em prantos, como se eu a tivesse matado. Ah! Se eu não fosse tão fraco, tão incapaz acho que teria me atirado na frente do primeiro carro na rua em frente. Mas eu não era homem para isso. Assim, tentei me acalmar e deixar que os acontecimentos seguissem o seu curso.
Quando Marcela entrou na sala a fim de indagar como eu estava, fiz o possível para agir com certa naturalidade. Foi então que lhe perguntei se ela sabia o que tinha acontecido:
-- Estão dizendo que ela foi fazer um aborto e perfuraram o útero dela. Nossa que coisa terrível! E ninguém suspeitava que ela estivesse grávida. Nem namorado ela dizia ter.
Confesso que senti um certo alívio. Então ninguém suspeitava de mim? “Ah, meu deus! Será que vou conseguir me safar dessa?”, foi o que pensei naquele instante.
-- Será que foi por isso que ela pediu as contas?
-- É capaz. Por falar nisso, você não tem nada com essa gravidez, né?
-- Eu? Por que ia de ter? – foi o que consegui falar, ao ser surpreendido com aquela pergunta. – Não, não tenho – respondi depois de uma breve pausa.
-- Desculpe. Pensei besteira. É que de vez em quando via vocês de sorrisinho um para o outro.
-- Isso é verdade. Mas nunca teve nada entre a gente. Ela até se insinuou algumas vezes, mas eu disse que tinha namorada e que era muito ciumenta, aí ela acabou desistindo – menti.
Ao que parece ela acreditou em minhas palavras, pois não me fez mais perguntas e jamais insinuou algo. Aliás, não só ela como todos ali no escritório. Foi como se alguém jamais suspeitara de nossos encontros amorosos.
Não vou me prolongar mais. Sinto-me exausto, como se as últimas forças estivessem me abandonando. A bem da verdade, só queria esclarecer mais uma coisinha, pois não gosto de deixá-los em suspense. Pelo que fiquei sabendo, ao ter o útero perfurado, Fabiana perdeu a consciência. Ainda tentaram reanimá-la. E quando viram que perdia muito sangue e seu estado era grave, chamaram uma ambulância e a encaminharam para um hospital. No entanto, ela acabou não resistindo e veio a falecer no final da tarde.

Para ler os demais capítulos, clique no número do capítulo correspondente.

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