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Contos-->Fácil conclusão -- 10/01/2007 - 19:42 (maria da graça almeida) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Fácil conclusão
maria da graça almeida

Ganhei uma boneca pretinha no aniversário.
A princípio estranhei, até então não tivera ainda nenhuma feito aquela.
Quando a tomei nos braços, imediatamente me apaixonei...parecia-se com minha melhor amiga. Enquanto brincávamos, oferecia a boneca para ser sua filha. Esperava vê-la feliz, o brinquedo era novinho, porém, percebi em seus olhos brilhantes, uma lágrima indecisa. Preocupada, indaguei o porquê da súbita tristeza. Explicou-me que não gostava do vestido da boneca.
Imediatamente, trocamos, dei-lhe a loirinha e fiquei com a moreninha. Confesso que adorei a troca.
Crescemos. A amiga, por dificuldades financeiras, estudava no período noturno e durante o dia trabalhava como empregada doméstica.
Empregou-se em minha casa. Vivíamos entre os cochichos e as risadinhas, o serviço que esperasse.
Na época, eu estudava piano e sabia que ela tinha uma grande paixão, o violão.
Pedi ao meu pai que lhe pagasse as aulas. Ele concordou imediatamente e ela, feliz, finalmente conheceu o mundo musical. Usava o violão lá de casa, que fora da minha irmã.
Ela com o violão era um luxo só. Quase todos os dias, passava-lhe lustra-móveis. Eu brigava: não faça isso, Pitica, -esse era seu apelido- qualquer dia ele ainda lhe escapa das mãos, de tão escorregadio...
Ela dava de ombro, fazia bico:
- Gosto dele brilhante.

Até que nos entenderíamos bem, não fossem os respectivos instrumentos. Pitica teimava em colocar toalha e vaso sobre o piano, eu ficava zangada. Assim que o descobria decorado, tirava todos os enfeites que sistematicamente ela fazia questão e gosto de colocar. E a cantilena era sempre a mesma:
- Não quero nada sobre o piano.
- Pelado ele fica muito sem graça!
- Piano não é um móvel qualquer, é um instrumento musical, não é para ser usado como aparador.
- Coisa mais feia ele purinho...eu vi no filme um piano com castiçais e velas acesas...um luxo!
- Isto é porque antigamente não havia luz e tinha-se o habito de tocar cravo à luz de velas -eu achava plausível minha explicação-.
- Cravo?
- Deixa pra lá...E não quero nada sobre o piano, entendeu?
Que nada, já noutro dia, lá estava tudo de novo, vasos, estatuetas...Caramba!
Eu andava cansada de sempre falar a mesma coisa.
Uma tarde ela saiu para o dentista. Já havia feito a arrumação da casa e lá estava o piano de novo todo empombado.
Não tive dúvida, fui até o quarto onde ficava o violão, trouxe-o para sala, coloquei-o sobre a mesa e sobre ele, todos os objetos que sobrecarregavam o piano.
Quando chegou e viu aquilo, ai, ai, ai... ficou furiosa!
- Olhe só pra isto! O violão vai ficar todo riscado!
- Está bonito assim! Pelado fica tão sem graça!
- Violão não é aparador!
- Não? E piano é?

O tempo passou.
Eu continuava com as aulas de piano clássico, porém, como vivia meus melhores momentos, tinha novos interesses onde não cabiam nem as partituras, nem os livros dos grandes mestres.
Na verdade, não agüentava mais os intermináveis ensaios das peças de difícil execução. Uma verdadeira chatice, um esforço inútil. Não nascera para aquilo e bem que o sabia... E ainda havia a monotonia das escalas: pom, pom, pim, pim, pom, pom, pom. Valha-me, Deus! Que me afaste a lembrança de tão tediosa prática! Ô dureza! Tinha a vontade, mas não a coragem de abandonar o curso. O sonho do meu pai era o da formatura. Então, eu me arrastava pelo Conservatório, completamente enfadada, desmotivada.
Pitica continuava animada com o violão. E tocava bem!
Desistira de enfeitar o piano, aprendera que ele não era um aparador.
No entanto, como certas doenças podem ter "recaídas", um dia cheguei em casa e vi a parafernália toda sobre o instrumento, novamente.
Olhei, não disse nada e passei por ele, sem o mínimo gesto de contrariedade.
Pitica, que me viu entrando, esperou pela costumeira bronca.
Percebendo que eu continuava calada, espichou-me o olho de jabuticaba madura. Disse com voz de profundo pesar:
- Agora não tenho mais dúvidas...você perdeu o gosto pelo piano...
- Não. Convenci-me de que ele só é mesmo um simples aparador.
Ela olhou-me perplexa.

Hoje, o símbolo do antigo sonho de meu pai, meu diploma, trago guardado numa pasta de couro preta.
Pitica, sem diploma nenhum, canta na televisão. Já gravou vários discos e do canto sobrevive. E bem!
Sempre me pego a pensar: será que ela aprendeu alguma coisa comigo e parou de passar lustra-móveis no violão?


maria da graça almeida
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