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Ensaios-->DRUMMOND E MANUEL BANDEIRA - SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS -- 01/12/2015 - 01:52 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


USP - F.F.L.C.H - DLCV da Universidade de São Paulo.

FLC 0201 Literatura Brasilieira II

Professor: Jaime Ginzburg



Aluno: Paulo Henrique Coelho Fontenelle de Araújo

n. USP: 3710046





























Semelhanças e diferenças entre o poema “Resíduo” do livro “A Rosa do Povo” de Carlos Drummond de Andrade e o poema “Satélite” de Manuel Bandeira.





























São Paulo

Novembro de 2003











SATÉLITE



Fim de tarde.

No céu plúmbeo

A lua baça

Paira



Muito cosmograficamente

Satélite.



Desmetaforizada

Desmitificada.



Despojada do velho segredo de melancolia,

Não é agora o golfão de cismas,

O astro dos loucos e dos enamorados,

Mas tão somente

Satélite.



Ah Lua deste fim de tarde,

Demissionária de atribuições românticas;

Sem show para as disponibilidades sentimentais!



Fatigado de mais valia,

Gosto de ti assim:

Coisa em si,

- Satélite.



Bandeira, Manuel. “Estrela da vida inteira”

1a ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1966.





























1- Objetiva o presente trabalho comparar o poema “Resíduo” de Carlos Drummond de Andrade com o poema “Satélite” de Manuel Bandeira. Deve-se para tanto buscar semelhanças de estilo que justifiquem, inclusive, a caracterização de cada autor como poetas modernistas. Tal objetivo, contudo, sob o risco de turvar a força de cada um das obras, realizar-se-á não como um duelo, que a cada parágrafo demonstrará a maior genialidade desde ou daquele verso, mas na apresentação individualizada de cada um dos autores e seus respectivos textos. Não obstante, diferenças serão relacionadas, mas apenas na última fase do trabalho, quando espero o estilo de cada autor possa ter sido assimilado naturalmente pelo leitor.





2 - O poema de Drummond selecionado chama-se “Resíduo” do livro “A Rosa do Povo” publicado em 1945. Acredito, porém, que para entendê-lo é necessário uma referência, algo que nos evite a surpresa e admita como parciais todas as possibilidades de interpretação. Volto então ao início do livro, no poema “Procura da Poesia”. Em determinado verso, Drummond ordena ao leitor: “Penetra surdamente no reino das palavras.” Tal verso em um poema aparentemente contraditório, marcado pela negação de todos os temas que constituem o próprio universo drummoniano, é o primeiro naquela composição que sinaliza para uma tentativa de ambientar o leitor à poesia e, acredito, preparar-lhe para o livro que se depara a sua frente. O entendimento, pois, de tal determinação - penetrar surdamente no reino das palavras - é fundamental para a análise do poema escolhido.



Quando Carlos Drummond lança o verso acima, quando utiliza o verbo “penetrar” e o advérbio “surdamente”, entendo que demonstre ao leitor, o caráter alegórico dos seus poemas, sinalize para a dificuldade em entendê-los sem o dado da consciência histórica, do conhecimento das vanguardas artísticas do início do século XX, sem a consideração da intertextualidade, ou seja, a presença do outros escritores dentro de sua obra.



O poeta, ainda no roteiro do verso acima, sinaliza em seguida para algo que ele denomina como “o reino das palavras”. A designação “reino” nos remete a um sentido de lugar diferenciado, que se distingue dos outros por alguma especificidade, algo que o torne singular e afirme o sentido de sua existência. Tal diferenciação permite depreender que Drummond jamais perdeu a razão de sua arte, a consciência do encantamento que emana das palavras, jamais deixou de considerar a poesia como uma viagem e que começa-la é “...mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras, secretas, duras. Eis aí o meu canto” (fragmento do poema “Consideração do poema”, texto que abre o livro “A Rosa do Povo”.



Então o leitor deve penetrar no “reino das palavras” do poema “Resíduo”, saber que no final as formas são raras, e as palavras e versos são o que resta da substância do ato criador. Note-se que o poema chama o leitor para esse entendimento, o próprio poema é o discorrer ritmado de uma penetração aqui marcada pelo verso, “de tudo ficou um pouco”, repetido com a regularidade de um conta-gotas, como se o texto estivesse se esgotando e as palavras se encaminhassem para uma condição residual e precária de existir sobre o papel. Tal efeito pode ser percebido pela oscilação dos tempos verbais do verbo “ficar”. O tempo pretérito (ficou), que inicia o poema e traz a idéia de movimento constante e inercial das coisas ali representadas, termina por oscilar com o tempo presente (fica), mais adequado para o esgotamento que o poema quer transmitir, esgotamento paulatino até um “esvaziamento” final, com a supressão dos verbos, de alguma relação lógica entre imagens e, por fim, um botão, um rato.



O poema, contudo, não se reduz a aspectos formais e o objetivo de sua estrutura fragmentada é enfatizar o significado principal do texto, significado este que o leitor deve penetrar surdamente, invadir com cuidado, esforçar-se para compreender o seu caráter enigmático na relação que mantém com o contexto histórico, as vanguardas artísticas; assimilar, por fim, a degradação percebida por Drummond em relação ao mundo e de como ele, poeta, somente poderia se sustentar na constatação desse estado de coisas.



O livro “A rosa do povo” foi publicado em 1945, sua elaboração deu-se, portanto, no contexto da 2a Guerra Mundial e também no “Estado Novo”, regime autoritário vigente então no Brasil. O poema pode ser lido como uma forma de apreensão pura e simples desses conflitos, mas sem o dado da superação, da esperança na continuidade histórica que se esperaria de quem testemunhou tais fatos. Tal estado, semelhante a uma apatia consciente, encontra paralelo na concepção de história formulada por Walter Benjamim, que afirma inexistir um processo histórico, mas uma seqüência de catástrofes que deixam ruínas, elementos constitutivos das sociedades que a vivenciam. Tais ruínas, identificadas aqui no Brasil, captadas por Drummond que, naquele momento, sinalizava apenas para “pouco, pouco muito pouco” de tudo ou nada, de algo ou - como no poema “Vida Menor” também do livro “A rosa do povo” - para uma “paz no cansaço” uma “vida mínima, essencial: um início, um sono”.



Sobra a questão do uso da linguagem, das construções de imagens fundamentais para efeito. Há o uso de elementos de perturbação do lirismo, termos que têm a função de afastar o tom tradicional que facilmente seria alcançado se o citado termo fosse suprimido, reduzindo o valor dos versos como, por exemplo, o termo “gagos” no verso “Dos gritos gagos” ou “retrato” que distorce o verso “de ruga na vossa testa”.



Surge ainda em Drummond, a preocupação com a beleza lírica do verso em si, independentemente do conjunto do poema, isto é, a beleza na leitura isolada de muitas partes, como por exemplo: “Fica um pouco do teu queixo/ no queixo de tua filha” ou “Um pouco fica oscilando/ na embocadura dos rios/ e os peixes não o evitam”.



E, mais fundamental, a suspensão da logicidade entre as imagens, que atesta a adesão de Drummond ao Surrealismo, colocando-se de um modo a demonstrar ser essencial que, através da arte, haja uma mudança na percepção do mundo; o que não deixa de ser uma proposta construtiva. São surrealistas as passagens: “nas folhas, mudas, que sobem” ; “este vidro de relógio/partido em mil esperanças” e “Oh abre os vidros de loção/ e abafa/ o insuportável mau cheiro da memória”.







3 - O poema de Manuel Bandeira chama-se “Satélite” e observa-se já a partir do título e no sexto verso, uma depuração das referências que a palavra “lua” costuma carregar, substituída por uma síntese que, no poema, é a sua função principal: orbitar em torno da terra como satélite. Tal tentativa de depuração, contudo, não se esgota no título, pois a montagem do poema é, na verdade, a confirmação desta intenção de conceder a lua um valor em si e, mais do que isso, conceder a um termo excessivamente metaforizado por uma tradição literária já ultrapassada, uma concepção moderna: simplesmente satélite.



Note-se o uso reiterado do prefixo “des” - que indica ação contraria - em “desmetaforizada”, “desmitificada” e “despojada”, o que nos leva a concluir que em alguma época passada ela foi mitificada. Note-se que são negadas as alusões que o Romantismo concedia à lua no verso “Demissionária de atribuições românticas;/ Sem show para as disponibilidades sentimentais”! Note-se, por fim, na referência ao poema “Plenilúnio” de Raimundo Correia (“Há tantos anos olhos nela arroubados,/No magnetismo do seu fulgor!/Lua dos tristes e enamorados,/Golfão de cismas fascinador”) que o poema “Satélite” termina por negar qualquer tradição literária que não permita enxergar a lua como uma “coisa em si”.



O poema “Satélite” então - mas paradoxalmente ao seu próprio conceito de desmetaforizar a imagem da lua - termina por tornar-se uma metáfora do próprio projeto dos modernistas, que procuraram assim como o “eu-lírico” do poema, exprimir-se numa linguagem despojada da eloqüência parnasiana e do vago simbolismo, e serem menos apegados ao vocabulário e à sintaxe clássica portuguesa. O projeto modernista seria a afirmação do satélite enxuto, mecânico, em contraposição a uma lua carregada de associações paralelas.

Resta o dado da expressão, o uso da linguagem que enfatiza o argumento do poema. Como não acreditar na veracidade e possibilidade de uma lua apenas satélite que se apresenta “muito cosmograficamente”. O neologismo afirma a nova lua. E como não acreditar em uma expressão poética que evita o excesso de variantes verbais e se satisfaz com a revelação do um único ato da lua: ela simplesmente “paira”.







4 - Nos dois poemas acima, “Satélite” de Manuel Bandeira e “Resíduo” de Carlos Drummond de Andrade, contata-se uma depuração: no poema de Bandeira, na simplificação do significado de “lua” que termina por definir a própria expressão do movimento Modernista. Em Drummond, a simplificação de um estado de percepção do mundo atinge a sua própria condição de ser humano em um momento histórico específico. O “eu-lirico, no final, pode ser um botão (de rosa?) ou um rato.



Em ambos poemas constata-se uma ruptura com a tradição, em Bandeira com a tradição literária consubstanciada no Parnasianismo e no Simbolismo. Em Drummond, a idéia de tradição rompida - embora não haja uma proposta de superação - é a própria ordem hegemônica mundial que levou o mundo à guerra.



No poema “Resíduo”, o que caracteriza o “eu-lírico” é a noção de precariedade. No poema “Satélite” nota-se uma certeza, uma sensação de paz consolidada que, como a lua, parece pairar muito cosmograficamente.



Em Drummond ainda há uma possibilidade de quebra da coerência interna do poema pela enorme rede de figuras. É um texto a ser analisado com cuidado, deve-se escolher o caminho da leitura e as etapas a serem articuladas. No poema de Bandeira, as múltiplas significações possíveis do ser “lua” estão sob controle de um contexto no qual se encaixam para justificar uma concepção nova de lua, ou melhor, sua significação real e libertadora, simplesmente satélite.



O poema “Resíduo, por fim, logra retratar Carlos Drummond de Andrade, como testemunha lúcida de si mesmo e dos homens, se detém no livro “A rosa do povo” em um presente dilacerado, apresentando-o de um ponto de vista melancólico e cético, mas em contrapartida entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.



O poema “Satélite” termina por ser bem representativo da obra de Manuel Bandeira que se caracterizou por uma grande simplicidade alcançada graças a um esforço de redução às essências, quer no plano temático, quer no da linguagem.











































BIBLIOGRAFIA:



FIORIN, José Luiz e SAVIOLI, Francisco Platão. Para Entender o texto: Leitura e Redação. 3 ed. São Paulo, Edit. Ática, 1992.





CANDIDO, Antônio Na sala de aula – caderno de análise literária, 5a ed. SP: Editora Ática, 1995.





ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa- Editora Nova Aguilar, 1992.







RESÍDUO



De tudo ficou um pouco

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco





Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).





Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos

pouco, pouco, muito pouco.





Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

- vazio - de cigarros, ficou um pouco.





Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.





Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana,

dragão partido, flor branca,

ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.





Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? no trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?





Um pouco fica oscilando

na embocadura dos rios

e os peixes não o evitam,

um pouco: não está nos livros.





De tudo fica um pouco.

Não muito: de uma torneira

pinga esta gota absurda,

meio sal e meio álcool,

salta esta perna de rã,

este vidro de relógio

partido em mil esperanças,

este pescoço de cisne,

este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,

de tudo ficou um pouco;

vento nas orelhas minhas,

simplório arroto, gemido

de víscera inconformada,

e minúsculos artefatos:

campânula, alvéolo, cápsula

de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.





E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.





Mas de tudo, terrível, fica um pouco,

e sob as ondas ritmadas

e sob as nuvens e os ventos

e sob as pontes e sob os túneis

e sob as labaredas e sob o sarcasmo

e sob a gosma e sob o vômito

e sob o soluço, o cárcere, o esquecido

e sob os espetáculos e sob a morte escarlate

e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes

e sob tu mesmo e sob teus pés já duros

e sob os gonzos da família e da classe,

fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão. Às vezes um rato.





Carlos Drummond de Andrade


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