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Ensaios-->Relações lírica camoniana e o episódio “Inês de Castro" -- 01/02/2016 - 01:21 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos




PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAÚJO

n. USP: 3710046



































Relações entre a lírica camoniana e o episódio “Inês de Castro” em os Lusíadas









Trabalho de Aproveitamento da Disciplina Literatura Portuguesa I, Prof. Sandro Luís, na graduação do Curso de Letras da F.F.L.C.H. da Universidade de São Paulo.























São Paulo

Junho de 2003



* Soneto número um



Amor é fogo que arde sem se ver

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;



É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;



É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade..



Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?







* Soneto número dois



Busque Amor novas artes, novo engenho,

Para matar-me, e novas esquivanças;

Que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho



Olhai de que esperanças mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrates nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho



Mas, conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê



Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei porquê













* Soneto número três



Que poderei do mundo já querer,

Que naquilo em que pus tamanho amor

Não vi senão desgosto e desamor,

E morte, enfim, - que mais não pode ser!



Pois vida me não farta de viver,

Pois já sei que não mata grande dor,

Se há i cousa que mágoa dê maior,

Eu a verei, que tudo posso ver.



A morte, a meu pesar, me assegurou

De quanto mal me vinha; já perdi

O que (a) perder o medo me ensinou.



Na vida desamor somente vi,

Na morte grande dor que me ficou:

Parece que para isto só nasci!







* Soneto número quatro



Tanto de meu estado me acho incerto,

Que em vivo ardor tremendo estou de frio;

Sem causa, juntamente choro e rio;

O mundo todo abarco e nada aperto.



É tudo quando sinto, um desconcerto;

Da alma em fogo me sai, da vista um rio;

Agora espero, agora desconfio,

Agora desvario, agora acerto.



Estando em terra, chego ao céu voando;

Numa hora acho mil anos, e é de jeito

Que em mil anos não posso achar uma hora.



Se me pergunta alguém porque assim ando,

Respondo que não sei; porém suspeito

Que só porque vos vi, minha Senhora







* Camões não numerava os seus sonetos, as numerações acima tem apenas a função de facilitar a organização do presente trabalho.



A morte de Inês de Castro



Introdução





As obras aqui relacionadas - sonetos de amor e o episódio de Inês de Castro, este último incluído em “Os Lusíadas”, obra de caráter épico – criadas em contextos aparentemente distintos, ajustam-se como expressões de sentimentos subjetivos e isso uma primeira leitura propicia identificar. Contudo, a análise não se esgota nesse plano de interpretação, que constata o lirismo do autor, pois é possível desenvolver desse aspecto, posicionamentos múltiplos, simultâneos e conseqüentes para as diferentes impressões captadas a partir daqueles textos e chegar a uma evidência que vislumbraria tanto a impossibilidade do ser humano alcançar a felicidade, quanto o destino do povo português no fim do século XVI. Em outras palavras, o objetivo aqui traçado é tentar provar que Luís de Camões revelava, no sofrimento de amor presente em sua lírica, mais do que a sensação de desengano amoroso expressava sim um estado de espírito desencontrado e niilista com relação ao momento pelo qual Portugal passava. O seu lirismo era um desencontro com o seu tempo e sua pátria.



Do conceito do amor - primeira noção extraída das obras apresentadas - verifica-se que o mesmo está no pensamento humano como idéia, mas desenvolve uma participação na vida dos homens, torna-se um Deus cruel que aprisiona os corações de suas vítimas, obriga-as a lutaram em vão até a perda final inexorável. Esta luta e perda entendidas em um sentido amplo de fracasso, solidão, ausência de vida ou impossibilidade de agir, perpassa os sonetos e também o episódio da morte Inês de Castro e os vemos se agudizar no lamento final do autor em “Os Lusíadas” quando Camões encerra o épico manifestando cansaço e desilusão diante do desinteresse de sua gente e do estado de decadência de Portugal. Então o lirismo do episódio de Inês de Castro que vê o amor como ente mutilador a esgotar sua sede na consumação de sentimentos, no assassinato de um dos amantes, (e cuja autenticidade histórica não se manifesta à toa), bem como a finalização do épico e, por exemplo, do soneto “Amor é fogo que arde sem se ver” que ocorre sob o signo da morte “e ter com quem nos mata lealdade” demonstram uma conexão entre si, e segue o roteiro da descoberta do amor, a batalha inglória pela sua conquista, a perda individual, a desilusão e saudade diante do que se consumou e também sugerem, na ligação e soma de todas esses momentos poéticos - que são sensações de quem está vivendo algo em sua intensidade momentânea – que um desmantelamento geral surgia em toda parte e por que não na alma do povo dono da língua ali expressa, o povo português. Acredito que se há coesão entre as obras, essa coesão deve existir em relação à realidade. Camões evidencia a desilusão amorosa para constatar, talvez inconscientemente, um ambiente de perda de um sentimento positivo em relação à Portugal, Portugal talvez como a grande amante. Note-se as referências bélicas da terceira estrofe do soneto citado, o amor parece denotar a vivência de grandes batalhas (batalhas que Camões lutou por sua pátria), e que são sugeridas também em outras obras em que os bens e males do amor se juntam os da má sorte, do exílio em suas várias acepções, da transitoriedade dos dias, da mudança: em um soneto, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"; ou, em "Babel e Sião", "E vi que todos os danos / Se causavam das mudanças, / e as mudanças dos anos".







A PRESENÇA ATIVA DO AMOR



Observe-se a construção do soneto número 01, a presença de termos contraditórios nas três primeiras estrofes demonstram a impossibilidade de definir o amor, mas não esgotam a compreensão do mesmo que possui, de fato, a qualidade de existir independentemente de definições. O amor é o amor, parece dizer na última estrofe; é o amor com todas as implicações que este estado de permanência acarreta nas pessoas que, de fato, vivenciam tal experiência.





Tal atitude de “permanência” do amor é o primeiro dado a ligar-se a uma sensação de presente e é observado no episódio da Morte de Inês de Castro quando o poeta em um momento desafiador afirma: “Tu, só tu puro amor, com força crua/ Que os corações humanos tanto obriga,/ Deste causa à molesta morte sua, /como se fosse pérfida inimiga./ Se dizem fero amor, que a sede tua/ Nem com lágrimas tristes se mitiga,/ É porque queres áspero e tirano,/ Tuas aras banhar em sangue humano.



A questão é demonstrar que o ato de amar, além do fato de ser a grande epopéia humana, e o amor, um Deus que objetiva sobretudo o sacrifício dos amantes, são as indicações de algo que traz uma carga de vivência e destruição simultânea. Isso não se dirige ao futuro, mas emana do agora, ou seja, tal sensação rompeu-se da alma de Camões e poderia ter emanado da conjuntura política-social vivenciada por ele. Por que não? O contexto histórico não pode também inspirar a criação artística?





Note-se a concomitância de situações do soneto n. 01, do episódio e da própria obra épica. Todas apontam para o mesmo desfecho impossível e simultâneo. No soneto “é cuidar que se ganha em se perder”. No episódio: “Estava , linda Inês, posta em sossego/ De teus anos colhendo, doce fruito,/ Naquele engano da alma ledo e cego,/ Que a fortuna não deixa durar muito,











A BATALHA



Do plano de permanência amorosa prossegue-se com a “batalha para a conquista do amor”. Como detalhado acima, o soneto número 01 identifica o contexto de luta através de versos 10 e 11, e no soneto número 02 uma luta ainda mais cruel pois “Busque Amor novas artes, novo engenho,/ Para matar-me, e novas esquivanças;/Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal tirará o que eu não tenho. Tais refregas às vezes atingem a própria realização poética, pois Camões se debruça em um esforço de compreensão sobre o assunto. Ele luta com as palavras. Há no soneto número 01, onze termos distintos que procuram uma definição para o amor: “fogo que arde”, “ferida que dói”, etc. Cada um desses termos, invariavelmente, vem seguido de uma qualificação que entra em contradição com o significado do termo anterior. Assim, “sem se ver” entra em contradição com “fogo que arde”; “não se sente” entra em contradição com “ferida que dói”. A luta é inglória pois a definição não chega, ou melhor, atinge-se apenas a compreensão de que o amor é o que é; uma batalha. E nada é mais representativo da atualidade do que está sendo vivido, do que uma batalha.



No episódio de Inês de Castro também há referências a momentos de luta e na própria consciência de Inês que sabe poderia não estar ali diante dos algozes, caso D. Pedro não a tivesse vencido. “Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito/ (Se de humano é matar uma donzela/ fraca e sem força, só por ter sujeito/ o coração a quem soube vence-la).



Consumou-se no seu caso a batalha e as conseqüências estavam diante de Inês, na condenação iminente, na súplica ao rei, no constatação de que mesmo no maior dos desterros continuaria amando a quem soube vence-la: “Pôe-me em perpétuo e mísero desterro,/ Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,/ Onde em lágrimas viva eternamente,/.....Põe-me onde se usa toda a feridade, / Entre leões e tigres, e verei/ Se neles achar posso a piedade/ Que entre peitos humanos não achei. Ali, co’o amor intrínseco e vontade/ Naquele por quem mouro, criarei/ Estas relíquias suas que aqui viste,/Que refrigério sejam da mãe triste.





A PERDA



Aqui cabe um questionamento sobre a motivação do poeta e o extremo do seu desencanto diante da perda amorosa. Camões parece estar acima do tom, ou melhor, mesmo considerando a dureza da perda, parece que nenhuma satisfação lhe traz a experiência vivida: “Que poderei do mundo já querer,/ Que naquilo em que pus tamanho amor/ Não vi senão desgosto e desamor,/E morte, enfim, - que mais não pode ser”! E é exatamente neste ponto, o da impiedade para com o sentimento de amor que se encontra a maior justificativa ou elo com o ambiente da sua época. Camões acentua a desilusão amorosa ao ponto de transparecer sua decepção com o que estava ao seu redor. E isso perpassa muito de sua obra: (Na vida desamor somente vi/ Na morte a grande dor que me ficou: parece que para isto só nasci). No episódio de Inês de Castro vemos tal atitude de descrença. Não em alguma passagem, mas na própria escolha do episódio histórico. Senão como justificar o fato de que dentro de uma obra que procura enaltecer o povo português haja um episódio onde este mesmo povo manifeste-se de forma impiedosa: “Traziam-na os horríficos algozes/Ante o réu, já movido a piedade:/ Mas o povo, com falsas e ferozes/ Razões , à morte crua o persuade./



A motivação aparente do episódio de Inês de Castro, do amor que não se deixa vencer, não é suficiente e parece desconectada do restante do poema que além da conquista de Vasco da Gama aponta para temas pertinentes ao argumento da obra: valentia e coragem, crítica à covardia e à indignidade, valorização da palavra dada ( como no caso do episódio de Egaz Moniz. O Episódio da morte de Inês de Castro parece o mais conectado com a conclusão da obra, quando Camões afirma: “ No mais, Musa, no mais que a lira tenho/ Destemperada e a voz enrouquecida, /E não do canto, mas de ver que venho/ cantar a gente surda e endurecida./ O favor com que mais se acende o engenho/ Não no dá a pátria,não, que está metida/ No gosto da cobiça e na rudeza/ Duma austera, apagada e vil tristeza.



Então, ao contrário do que se teoriza, acredito que Camões não revelava simplesmente uma viagem para o mundo interior do ser humano e, principalmente, antecipou o desequilíbrio e angústia existencial do homem do Barroco, mas o fez por tabela. Camões intuía sim a sua vivência dentro de um país em processo de decadência que naquele momento poderia ocorrer ou não, mas que se consumou na expectativa frustrada pela volta de Dom Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir no ano de 1578 e no domínio da Espanha sobre Portugal iniciado em 1580.


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